Alguém que me escreveu no WhatsApp:
Boa tarde, irmão.
Hoje fui visitar uns irmãos reunidos ao nome do Senhor em Sousas (distrito de Campinas).
Eu nem sabia que existiam. Estão na cidade desde 1974. Um casal de americanos (família Lipsi) foi enviado como missionário para Campinas. Compraram um terreno e construíram um local para reuniões. Desde o início, eles procuraram pregar o Evangelho nas escolas da região e fazem isso até hoje. Também construíram uma chácara para acampamento de crianças e jovens.
Fui até lá para conhecê-los e verificar a doutrina, sem nenhum tipo de julgamento. Do pouco tempo que estive lá, percebi uma mistura de doutrinas, pois o fundador dessa igreja fundou mais seis, sendo que uma delas é associada à doutrina batista, e eles mantêm comunhão.
Fui lá com o intuito de dar ou receber algum dom, assim como Paulo.
Essa semana também, meu cunhado (“ex-missionário” da JOCUM) voltou a morar no Brasil. A JOCUM é muito semelhante à Teologia da Libertação católica (viés comunista). Fizeram uma lavagem espiritual nele; voltou crendo na Teologia do Pacto.
Agora vejo o que Paulo sofreu pela Igreja. Atualmente, é uma salada, já beirando uma apostasia. Jesus não é o centro; só é chamado para resolver problemas e deixado de lado 90% do tempo.
Em 1 Tessalonicenses 3:1-6 fala da apostasia. O que entendi é que o iníquo não irá se manifestar até que a apostasia se instaure. Pelo que parece, a Igreja estará vendo isso acontecer, mas, por outro lado, sei que o iníquo não pode se manifestar se o Espírito Santo estiver atuando na era da Graça.
Pode me explicar, por gentileza?
Um grande abraço.
Minha Resposta:
Sobre a sua pergunta, penso que há primeiro uma pequena correção na referência bíblica. O texto que trata diretamente da apostasia e da manifestação do iníquo não é 1 Tessalonicenses 3:1-6, mas 2 Tessalonicenses 2:1-12.
Em 1 Tessalonicenses 3, Paulo está falando das tribulações dos crentes e da visita de Timóteo. Já em 2 Tessalonicenses 2 encontramos a apostasia, o homem do pecado, o mistério da iniquidade e Aquele que atualmente restringe a manifestação do iníquo.
É muito importante fazer essa distinção.
A apostasia já está acontecendo?
Existe um processo de abandono da verdade desde os dias apostólicos. Paulo escreveu:
“Mas o Espírito expressamente diz que, nos últimos tempos, apostatarão alguns da fé” (1 Timóteo 4:1).
E também:
“Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores conforme as suas próprias concupiscências; e desviarão os ouvidos da verdade, voltando às fábulas” (2 Timóteo 4:3-4).
João também escreveu:
“Filhinhos, é já a última hora; e, como ouvistes que vem o anticristo, também agora muitos se têm feito anticristos” (1 João 2:18).
Portanto, o espírito de apostasia e o princípio da iniquidade já estavam operando no primeiro século. O próprio Paulo diz:
“Porque já o mistério da injustiça opera” (2 Tessalonicenses 2:7).
Isso significa que podemos observar hoje elementos que preparam o terreno para aquilo que alcançará sua expressão completa no futuro.
Entretanto, devemos tomar cuidado para não chamar toda confusão doutrinária de “a apostasia” de 2 Tessalonicenses 2:3.
Uma igreja pode ter doutrinas erradas, uma denominação pode abandonar verdades bíblicas, cristãos professos podem aceitar ensinos contrários às Escrituras, e tudo isso faz parte do desenvolvimento da corrupção dentro da cristandade. Porém, 2 Tessalonicenses 2 aponta para algo ainda mais profundo e futuro: “a apostasia”, relacionada diretamente à manifestação do homem do pecado.
A Igreja verá a manifestação do iníquo?
Aqui está o ponto principal da sua pergunta.
Entendo que não.
Paulo começa 2 Tessalonicenses 2 dizendo:
“Ora, irmãos, rogamo-vos, pela vinda de nosso Senhor Jesus Cristo e pela nossa reunião com ele” (2 Tessalonicenses 2:1).
Essa “reunião com ele” corresponde ao que Paulo já havia ensinado aos mesmos irmãos:
“Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor” (1 Tessalonicenses 4:17).
Portanto, precisamos distinguir dois acontecimentos: Cristo vindo para os Seus, quando a Igreja será arrebatada para encontrá-Lo nos ares, e a posterior manifestação pública de Cristo em juízo.
A esperança da Igreja não é a manifestação do Anticristo. A esperança da Igreja é Cristo.
Paulo não disse aos tessalonicenses: “Esperem o homem do pecado”. Ele ensinou que eles haviam se convertido “para servir o Deus vivo e verdadeiro, e esperar dos céus a seu Filho” (1 Tessalonicenses 1:9-10).
Então o que significa a apostasia?
Paulo diz:
“Ninguém de maneira alguma vos engane; porque não será assim sem que antes venha a apostasia, e se manifeste o homem do pecado, o filho da perdição” (2 Tessalonicenses 2:3).
Há discussões quanto ao alcance da palavra traduzida por “apostasia”, mas, tomando-a no sentido comum de afastamento ou abandono, o contexto aponta para uma grande rebelião religiosa que alcançará sua plenitude depois que a restrição atual for removida.
Hoje já vemos o “mistério da iniquidade” operando. Vemos abandono das Escrituras, relativização da verdade, rejeição da autoridade de Cristo e substituição da Palavra de Deus por filosofias humanas.
Mas ainda existe uma barreira.
Quem está impedindo a manifestação do iníquo?
É exatamente aqui que entra a sua observação sobre o Espírito Santo.
Paulo escreve:
“E agora vós sabeis o que o detém, para que a seu próprio tempo seja manifestado. Porque já o mistério da injustiça opera; somente há um que agora resiste até que do meio seja tirado; e então será revelado o iníquo” (2 Tessalonicenses 2:6-8).
Observe a sequência:
O mistério da iniquidade já opera.
Existe Alguém que o restringe.
Essa restrição será retirada.
Então o iníquo será revelado.
Entendo que Aquele que restringe é o Espírito Santo atuando presentemente no mundo de uma maneira especial por meio da Igreja.
A Igreja é habitada pelo Espírito Santo. Paulo escreveu:
“Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (1 Coríntios 3:16).
Individualmente, cada crente também é habitado pelo Espírito Santo:
“Ou não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós?” (1 Coríntios 6:19).
Enquanto a Igreja estiver neste mundo, o Espírito Santo exerce essa ação restritiva que impede que a iniquidade alcance sua manifestação final na pessoa do homem do pecado.
O Espírito Santo sairá da Terra?
Precisamos ter cuidado com essa expressão.
O Espírito Santo é Deus e, portanto, é onipresente. Ele não deixará de existir ou de atuar na Terra depois do arrebatamento.
O que terminará será a Sua atuação peculiar relacionada à presente dispensação: Sua presença na Igreja como habitação permanente e, consequentemente, essa forma particular de restringir a manifestação final da iniquidade.
Quando a Igreja for arrebatada, todos os crentes que formam o Corpo de Cristo serão retirados deste mundo. Com isso, a atuação restritiva do Espírito Santo por meio dessa Igreja chegará ao fim.
Isso não significa que o Espírito Santo não atuará durante a Tribulação.
Haverá pessoas convertidas naquele período. Apocalipse fala de uma grande multidão que passará pela Grande Tribulação (Apocalipse 7:9-14). Ninguém jamais nasceu de novo sem a operação do Espírito de Deus. Portanto, o Espírito Santo continuará atuando, convencendo e vivificando, assim como atuava antes do Pentecostes.
O que muda é o caráter dispensacional da Sua presença.
Então qual seria a sequência?
Podemos compreender a sequência desta maneira:
Primeiro, estamos atualmente na era da Igreja. O Espírito Santo habita na Igreja, e o mistério da iniquidade já está operando, porém sob restrição.
Depois ocorrerá aquilo que Paulo descreveu em 1 Tessalonicenses 4:16-17: o Senhor descerá do céu, os mortos em Cristo ressuscitarão e os crentes vivos serão transformados e arrebatados para encontrar o Senhor nos ares.
Com a retirada da Igreja, termina essa atuação específica do Espírito Santo como o grande Restridor do desenvolvimento final da iniquidade.
Então o caminho estará aberto para a manifestação do homem do pecado descrito em 2 Tessalonicenses 2.
É por isso que Paulo diz:
“E então será revelado o iníquo” (2 Tessalonicenses 2:8).
A palavra “então” é muito importante. Existe algo que precisa acontecer antes de sua manifestação plena.
A confusão religiosa atual é significativa?
Sim, mas precisamos evitar marcar datas ou afirmar que determinado acontecimento prova que o arrebatamento acontecerá imediatamente.
Paulo já dizia no primeiro século que “o mistério da injustiça opera” (2 Tessalonicenses 2:7). Portanto, a corrupção religiosa não começou em nossa geração.
Entretanto, as Escrituras deixam claro que os últimos dias seriam caracterizados por crescente abandono da verdade.
Em 2 Timóteo 3:1-5, Paulo descreve homens “amantes de si mesmos”, “avarentos”, “presunçosos”, “soberbos”, “mais amigos dos deleites do que amigos de Deus”, e acrescenta algo muito significativo: “tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela”.
Observe que não se trata simplesmente do mundo pagão. Existe aparência religiosa.
Mais adiante, Paulo diz:
“Mas os homens maus e enganadores irão de mal para pior, enganando e sendo enganados” (2 Timóteo 3:13).
Por isso, compreendo a sua preocupação quando encontra ambientes onde muitas doutrinas diferentes são misturadas. Porém, devemos analisar cada situação pela Palavra de Deus e não simplesmente pelo nome denominacional ou pela origem histórica de determinado grupo.
O princípio bíblico continua sendo:
“Examinai tudo. Retende o bem” (1 Tessalonicenses 5:21).
E ainda:
“Amados, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus” (1 João 4:1).
Sobre visitar outros irmãos
Também penso ser importante acrescentar algo a respeito da sua visita.
É correto desejar conhecer irmãos e conversar sobre as Escrituras. Contudo, devemos ter cuidado com a expressão “dar ou receber algum dom, assim como Paulo”.
Em Romanos 1:11, Paulo diz:
“Porque desejo ver-vos, para vos comunicar algum dom espiritual, a fim de que sejais confortados.”
Mas o versículo seguinte esclarece:
“Isto é, para que juntamente convosco eu seja consolado pela fé mútua, assim vossa como minha” (Romanos 1:12).
Paulo era apóstolo e possuía uma autoridade que nós não temos. Portanto, podemos visitar irmãos desejando edificação mútua, comunhão na Palavra e oportunidade de servir, mas sempre reconhecendo que os dons espirituais são distribuídos soberanamente pelo Espírito Santo:
“Mas um só e o mesmo Espírito opera todas estas coisas, repartindo particularmente a cada um como quer” (1 Coríntios 12:11).
Cristo deve continuar sendo o centro
Sobre aquilo que o irmão comentou — que muitas vezes Cristo deixa de ser o centro — esse realmente é um perigo muito sério.
Uma igreja pode possuir muitas atividades, projetos, eventos, trabalhos sociais, música, conferências e até intensa atividade evangelística; porém, nada disso substitui a centralidade de Cristo.
Paulo escreveu:
“E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele. E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência” (Colossenses 1:17-18).
A questão fundamental não é apenas se determinado grupo possui um bom trabalho, uma longa história ou muitas atividades. Devemos perguntar: Cristo possui realmente a preeminência? A Palavra de Deus possui autoridade? A doutrina dos apóstolos é respeitada? Há submissão ao Espírito Santo? O Evangelho é claramente anunciado? A igreja procura seguir o padrão do Novo Testamento?
Os crentes de Bereia receberam elogio porque examinavam “cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim” (Atos dos Apóstolos 17:11).
Esse continua sendo um excelente princípio.
Portanto, irmão, resumindo sua pergunta: sim, já vemos o princípio da apostasia operando e podemos observar um crescente afastamento da verdade. Entretanto, não devemos confundir todos esses desvios presentes com a manifestação plena de “a apostasia” associada ao homem do pecado em 2 Tessalonicenses 2.
O mistério da iniquidade já opera, mas existe uma restrição divina. Enquanto a Igreja estiver aqui e o Espírito Santo estiver exercendo Sua presente atuação restritiva por meio dela, o iníquo não poderá manifestar-se plenamente. A Igreja será retirada no arrebatamento; então cessará essa forma específica de restrição, embora o Espírito Santo, sendo Deus, continue presente e atuante no mundo. Depois disso, o homem do pecado poderá ser revelado, até que finalmente o próprio Senhor Jesus o destrua “pelo assopro da sua boca” e pela manifestação da Sua vinda (2 Tessalonicenses 2:8).
Por isso, nossa expectativa não deve estar concentrada no Anticristo, mas em Cristo.
“Porque o mesmo Senhor descerá do céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor. Portanto, consolai-vos uns aos outros com estas palavras” (1 Tessalonicenses 4:16-18).
Um grande abraço.
Josué Matos