Alguém que me escreveu no WhatsApp:
Bom dia, amado irmão Josué.
É fato que nem sempre há locais de reunião somente em nome do Senhor Jesus em tantas localidades aqui do Brasil. E, por conta disto, uma pessoa procurando um lugar para congregar, que doutrinas absolutamente inolvidáveis devem ser pregadas (e vividas, claro) em uma congregação? Ou seja, que sinais identificarão tal lugar como uma verdadeira igreja de Cristo? Pode me ajudar mais nisto?
Minha Resposta:
Sua pergunta é muito importante, principalmente porque vivemos numa época em que existem inúmeras denominações, movimentos e grupos que usam o nome de Cristo. A questão, portanto, não deve ser simplesmente: “Onde há crentes sinceros?”, mas: “Onde encontramos uma igreja local procurando obedecer ao padrão apresentado no Novo Testamento?”
Também precisamos fazer uma distinção importante. Há verdadeiros filhos de Deus em muitos lugares onde nem todas as práticas da igreja local estão de acordo com o Novo Testamento. Uma pessoa é salva pela graça, mediante a fé no Senhor Jesus Cristo, e não por pertencer a determinada congregação (Efésios 2:8-9; Romanos 10:9-10). Portanto, não devemos dizer que somente os crentes reunidos de determinada maneira são salvos.
Entretanto, quando a questão é onde devemos congregar, não basta procurar pessoas salvas. Precisamos perguntar qual é o padrão que Deus deixou para uma igreja local.
Um bom ponto de partida é Atos dos Apóstolos 2:41-42:
“De sorte que foram batizados os que de bom grado receberam a sua palavra; e naquele dia agregaram-se quase três mil almas. E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações.”
Temos aqui vários princípios fundamentais.
A congregação deve ser formada por pessoas verdadeiramente convertidas
A igreja local não deve ser uma mistura consciente de convertidos e não convertidos recebidos como membros simplesmente porque nasceram numa família cristã ou frequentam cultos.
Primeiro eles “receberam a sua palavra”; depois foram batizados; então foram agregados (Atos dos Apóstolos 2:41).
O novo nascimento é indispensável. O Senhor Jesus disse: “Necessário vos é nascer de novo” (João 3:7).
Portanto, o primeiro sinal não é a placa na frente do prédio, mas a realidade espiritual das pessoas que constituem aquela comunhão.
A Palavra de Deus deve possuir autoridade final
Atos dos Apóstolos 2:42 diz que eles “perseveravam na doutrina dos apóstolos”.
Uma igreja bíblica não deve colocar tradições humanas, estatutos denominacionais, costumes históricos ou opiniões de líderes acima das Escrituras.
Paulo escreveu:
“Toda a Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça” (2 Timóteo 3:16).
E novamente:
“Para que em nós aprendais a não ir além do que está escrito” (1 Coríntios 4:6).
Portanto, eu procuraria um lugar onde a pergunta decisiva seja sempre: “O que dizem as Escrituras?”
Não basta uma igreja afirmar que “acredita na Bíblia”. É preciso procurar obedecer à Bíblia inclusive quando seus ensinamentos entram em conflito com os costumes religiosos ou com as ideias predominantes da sociedade.
Cristo deve ser o centro da reunião
O Senhor Jesus afirmou:
“Porque onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles” (Mateus 18:20).
Reunir-se ao nome do Senhor Jesus significa reconhecer Sua autoridade, suficiência e senhorio.
Por isso, não considero bíblico transformar o nome de um homem, uma doutrina particular, uma nacionalidade ou uma organização humana no centro de identificação dos santos.
Paulo repreendeu exatamente esse espírito em Corinto:
“Eu sou de Paulo, e eu de Apolo, e eu de Cefas, e eu de Cristo. Está Cristo dividido?” (1 Coríntios 1:12-13).
O nome que deve ser exaltado é o nome do Senhor Jesus Cristo.
O Evangelho deve ser claramente anunciado
É indispensável que seja pregado que o homem é pecador e culpado diante de Deus (Romanos 3:23), que não pode salvar-se pelas obras (Efésios 2:8-9), que Cristo morreu pelos nossos pecados e ressuscitou dentre os mortos (1 Coríntios 15:3-4), e que a salvação é recebida mediante arrependimento para com Deus e fé em nosso Senhor Jesus Cristo (Atos dos Apóstolos 20:21).
Se um grupo ensina salvação por obras, sacramentos, méritos pessoais, contribuição financeira ou fidelidade àquela organização religiosa, há um problema fundamental.
O Evangelho da graça de Deus não pode ser negociado.
O batismo deve seguir a conversão
No Novo Testamento encontramos esta ordem:
“Os que de bom grado receberam a sua palavra” foram “batizados” e depois “agregados” (Atos dos Apóstolos 2:41).
O batismo não salva, mas é uma ordenança deixada pelo Senhor e constitui uma identificação pública do crente com Cristo.
O padrão encontrado no Novo Testamento é o batismo de pessoas que professaram fé pessoal em Cristo, realizado por imersão, retratando a morte, sepultamento e ressurreição com Cristo (Romanos 6:3-4; Colossenses 2:12).
A Ceia do Senhor deve ocupar o lugar que as Escrituras lhe dão
Os primeiros crentes perseveravam “no partir do pão” (Atos dos Apóstolos 2:42).
Mais tarde encontramos:
“E no primeiro dia da semana, ajuntando-se os discípulos para partir o pão...” (Atos dos Apóstolos 20:7).
A Ceia do Senhor não é um espetáculo, nem deve depender de um clérigo especialmente ordenado para transformar o pão e o vinho em algo diferente. O pão permanece pão e o cálice permanece cálice, mas ambos são símbolos preciosos deixados pelo próprio Senhor para recordarmos Sua pessoa e Sua morte:
“Fazei isto em memória de mim” (1 Coríntios 11:24).
Assim, eu procuraria uma igreja que dê à Ceia do Senhor a importância que ela recebe no Novo Testamento e que a pratique regularmente no primeiro dia da semana.
Deve existir pluralidade de anciãos
Outro sinal importante é a liderança.
No Novo Testamento não encontramos uma igreja local governada por um único homem que concentra sobre si toda a autoridade espiritual.
Paulo chamou “os anciãos da igreja” de Éfeso (Atos dos Apóstolos 20:17). Depois lhes disse:
“Olhai, pois, por vós e por todo o rebanho sobre que o Espírito Santo vos constituiu bispos, para apascentardes a igreja de Deus” (Atos dos Apóstolos 20:28).
Veja também Filipenses 1:1, 1 Timóteo 3:1-7, Tito 1:5-9 e 1 Pedro 5:1-4.
Portanto, biblicamente, uma igreja local deve caminhar para possuir uma pluralidade de homens espiritualmente qualificados exercendo o cuidado do rebanho.
Não encontramos no Novo Testamento a divisão moderna entre “clero” e “leigos”, como se um homem fosse contratado para realizar praticamente todo o serviço espiritual da igreja.
Os dons devem funcionar para a edificação da igreja
Primeira aos Coríntios 12 ensina que Deus distribui dons diferentes entre os membros.
“Mas agora Deus colocou os membros no corpo, cada um deles como quis” (1 Coríntios 12:18).
E:
“Mas a manifestação do Espírito é dada a cada um para o que for útil” (1 Coríntios 12:7).
Consequentemente, não é saudável que toda a atividade espiritual fique concentrada permanentemente numa única pessoa.
Homens capacitados por Deus devem ter oportunidade de exercer seus dons de ensino, evangelização, pastoreio e demais serviços, debaixo da direção do Espírito Santo e dentro da ordem estabelecida pelas Escrituras.
A ordem de Deus entre homens e mulheres deve ser respeitada
Este é outro ponto que hoje frequentemente é abandonado, mas continua fazendo parte do ensino do Novo Testamento.
Em 1 Coríntios 11:2-16 encontramos o ensino da autoridade e da cobertura da cabeça. Nas reuniões da igreja local, o homem permanece com a cabeça descoberta, enquanto a mulher cobre a cabeça, demonstrando visivelmente a ordem de autoridade estabelecida por Deus.
Depois, em 1 Coríntios 14:34, lemos:
“As mulheres estejam caladas nas igrejas.”
E em 1 Timóteo 2:12:
“Não permito, porém, que a mulher ensine, nem use de autoridade sobre o marido, mas que esteja em silêncio.”
Isso não significa inferioridade espiritual. Homem e mulher possuem igual valor diante de Deus e igualmente desfrutam da salvação e das bênçãos espirituais em Cristo (Gálatas 3:28). Entretanto, igualdade de valor não significa identidade de funções.
Assim, numa igreja que procura seguir o padrão apostólico, os homens assumem publicamente a responsabilidade de oração, ensino e liderança, enquanto as irmãs exercem outros serviços preciosíssimos que Deus lhes confiou.
Deve haver santidade e disciplina
Uma igreja bíblica não pode ensinar corretamente e deliberadamente tolerar pecado moral grave entre aqueles que estão em sua comunhão.
Primeira aos Coríntios 5 demonstra claramente a responsabilidade da igreja local em relação à disciplina.
Paulo escreveu:
“Tirai, pois, dentre vós a esse iníquo” (1 Coríntios 5:13).
A disciplina não deve ser exercida por vingança, humilhação ou preferência pessoal. Seu propósito deve ser preservar a santidade do testemunho do Senhor e, sempre que possível, conduzir o faltoso ao arrependimento e à restauração.
Gálatas 6:1 mostra o espírito necessário:
“Irmãos, se algum homem chegar a ser surpreendido nalguma ofensa, vós, que sois espirituais, encaminhai o tal com espírito de mansidão.”
Uma igreja que nunca disciplina pecado público e grave dificilmente poderá afirmar que está levando seriamente a santidade da casa de Deus.
Deve haver comunhão verdadeira
Atos dos Apóstolos 2:42 também menciona “a comunhão”.
Uma igreja local não é simplesmente um lugar onde assistimos a uma reunião durante algumas horas e depois vamos embora.
Os crentes são membros uns dos outros. Devem cuidar uns dos outros, orar uns pelos outros, suportar uns aos outros e ajudar os necessitados.
“Levai as cargas uns dos outros e assim cumprireis a lei de Cristo” (Gálatas 6:2).
O Senhor disse:
“Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (João 13:35).
Portanto, doutrina correta sem amor cristão também revela uma séria deficiência.
A oração deve possuir lugar importante
A primeira igreja perseverava “nas orações” (Atos dos Apóstolos 2:42).
A reunião de oração não deveria ser um apêndice sem importância na vida da igreja.
Em Atos dos Apóstolos 4:24-31 vemos a igreja reunida orando. Em Atos dos Apóstolos 12:5 encontramos novamente a igreja fazendo contínua oração por Pedro.
Uma igreja que depende de Deus será uma igreja que ora.
Deve existir preocupação com a evangelização
Uma igreja bíblica não vive somente voltada para si mesma.
Os tessalonicenses receberam o Evangelho e depois se tornaram testemunhas:
“Porque por vós soou a palavra do Senhor” (1 Tessalonicenses 1:8).
A igreja deve anunciar Cristo aos perdidos, sustentar a obra do Evangelho e encorajar aqueles que Deus chama para trabalhar em outros lugares.
Atos dos Apóstolos 13:1-4 nos oferece um belo exemplo disso na igreja em Antioquia.
Cristo, e não um homem, deve possuir a preeminência
Talvez este seja um teste muito importante.
Quando você entra numa congregação, pergunte: Quem está sendo exaltado aqui?
Um pastor?
Um pregador famoso?
O fundador da denominação?
Uma organização?
Ou Cristo?
Colossenses 1:18 diz acerca do Senhor Jesus:
“Para que em tudo tenha a preeminência.”
Nenhum homem deve tornar-se indispensável ao funcionamento da igreja. Os homens são servos; Cristo é o Senhor.
A igreja deve manifestar ordem espiritual
Paulo concluiu suas instruções acerca das reuniões dizendo:
“Faça-se tudo decentemente e com ordem” (1 Coríntios 14:40).
Mas esta ordem não significa necessariamente possuir uma liturgia humana rígida. É a ordem resultante da submissão à Palavra de Deus e da atuação do Espírito Santo.
O mesmo capítulo diz:
“Porque Deus não é Deus de confusão, senão de paz” (1 Coríntios 14:33).
Portanto, liberdade espiritual não significa desorganização, assim como ordem bíblica não significa controle clerical.
Agora, irmão, faço uma observação importante.
Você mencionou a dificuldade de encontrar uma igreja reunida somente ao nome do Senhor Jesus em determinada localidade. Realmente, isso pode acontecer.
Nesse caso, eu não aconselharia escolher uma congregação simplesmente porque é a mais próxima de casa, nem escolher exclusivamente pela qualidade da música, pelo tamanho, pela simpatia das pessoas ou pela eloquência do pregador.
Eu examinaria principalmente o ensino e a prática à luz das Escrituras.
Entretanto, também não procuraria uma igreja “perfeita”, pois ela não existe.
As próprias igrejas do Novo Testamento tinham problemas. Corinto possuía divisões, desordens e problemas morais; as igrejas da Galácia estavam sendo perturbadas por falsos mestres; Éfeso deixou o primeiro amor; Pérgamo e Tiatira toleravam graves erros. Mesmo assim, o Senhor tratava com cada uma delas segundo sua condição.
Portanto, existe diferença entre fraqueza e abandono deliberado da verdade.
Uma igreja pode ser pequena, possuir irmãos simples, ter pouca capacidade ministerial e ainda assim procurar sinceramente obedecer à Palavra de Deus. Eu preferiria estar entre poucos irmãos procurando guardar a Palavra do Senhor do que numa grande estrutura religiosa onde princípios claros das Escrituras são conscientemente rejeitados.
O Senhor disse à igreja em Filadélfia:
“Tendo pouca força, guardaste a minha palavra e não negaste o meu nome” (Apocalipse 3:8).
Observe a beleza destas três coisas: “pouca força”, “guardaste a minha palavra” e “não negaste o meu nome”.
Talvez seja uma excelente resposta à sua pergunta.
Não procure primeiramente grandeza, quantidade, recursos financeiros, edifícios impressionantes ou popularidade. Procure um povo que deseja guardar a Palavra de Deus e honrar o nome do Senhor Jesus.
Resumindo, eu procuraria uma congregação onde encontrasse estas características: pessoas verdadeiramente convertidas; autoridade absoluta das Escrituras; reunião ao nome do Senhor Jesus; Evangelho da graça claramente pregado; batismo de crentes por imersão; Ceia do Senhor no primeiro dia da semana; pluralidade de anciãos; liberdade para o exercício dos dons segundo a direção do Espírito Santo; distinção bíblica das funções de homens e mulheres; cobertura da cabeça das irmãs nas reuniões da igreja; silêncio das irmãs na participação pública da reunião; disciplina bíblica; santidade; comunhão; oração; evangelização; amor entre os santos e, acima de tudo, a preeminência do Senhor Jesus Cristo.
Finalmente, lembremos de 1 Timóteo 3:15:
“Para que saibas como convém andar na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, a coluna e firmeza da verdade.”
A igreja não tem autoridade para modificar a verdade a fim de acompanhar o mundo. Ao contrário, ela foi chamada para sustentá-la e manifestá-la.
Por isso, quando estivermos procurando onde congregar, nossa pergunta principal não deve ser: “Onde eu me sinto melhor?”, mas: “Onde poderei obedecer melhor ao Senhor segundo aquilo que Ele revelou em Sua Palavra?”
Quando encontramos irmãos que, apesar de suas limitações humanas, desejam sinceramente guardar a Palavra de Deus, honrar o nome do Senhor Jesus e seguir o padrão apostólico, encontramos algo precioso que deve ser valorizado.
Josué Matos