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Hebreus 6:4-6 não está descrevendo simplesmente um crente que caiu em pecado?

 Alguém que me escreveu no YouTube:

A Bíblia afirma que Deus dá a vida eterna, aperfeiçoa a Sua obra, produz arrependimento e ninguém pode arrebatar as Suas ovelhas da Sua mão (João 10:28-29; Filipenses 1:6; 2 Coríntios 7:10). Ao mesmo tempo, ordena permanecer firmes na fé (Colossenses 1:23) e adverte contra se afastar de Deus (Hebreus 3:12; 2 Pedro 2:20-21).

Resumo: a salvação está segura no poder de Deus, e o crente é chamado a permanecer em Cristo até o fim.

Apocalipse 3:17-18 — “Como dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta; e não sabes que és um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu; aconselho-te que de mim compres ouro provado no fogo... e vestes brancas, para que te vistas...”

Hebreus 6:4-6 fala daqueles que foram iluminados e depois “recaíram”, sendo impossível renová-los novamente para arrependimento. Hebreus 10:26-29 fala de pecar deliberadamente depois de receber o conhecimento da verdade, rejeitando o único sacrifício de Cristo.

Irmão, essas passagens de Hebreus dizem respeito a alguém que pode abandonar a fé ou falam daquele que está preso a algum pecado? Como entender Hebreus?

Minha Resposta::

Prezado irmão, a sua pergunta é muito importante porque Hebreus 6:4-6 e Hebreus 10:26-29 estão entre as passagens que mais causam dúvidas quando tratamos da segurança da salvação. Entretanto, precisamos distinguir três coisas que a Bíblia não trata como sendo iguais: cair em pecado, afastar-se espiritualmente e apostatar da fé.

A chave para compreender essas passagens é perceber que o assunto principal não é um cristão que caiu em determinado pecado e está lutando para se libertar dele. O assunto é muito mais grave: trata-se da apostasia, isto é, da rejeição deliberada de Cristo e do Seu sacrifício depois de alguém ter recebido grande luz e ter estado profundamente exposto às bênçãos e verdades do cristianismo.

  1. O contexto da Epístola aos Hebreus

A Epístola aos Hebreus foi escrita num contexto em que pessoas de origem judaica haviam sido profundamente expostas ao cristianismo. Elas conheciam a verdade acerca do Senhor Jesus, estavam associadas aos cristãos e haviam experimentado grandes privilégios espirituais.

Por causa da perseguição, do sofrimento e da pressão que enfrentavam, havia o perigo de alguns voltarem atrás, retornando ao judaísmo e, consequentemente, rejeitando a suficiência de Cristo.

Por isso, Hebreus apresenta repetidas advertências: Hebreus 2:1-4; 3:7-19; 5:11–6:12; 10:26-39 e 12:15-29.

O grande argumento da epístola é que Cristo é superior a tudo aquilo que existia no sistema antigo. Ele é superior aos anjos, superior a Moisés, possui um sacerdócio superior ao de Arão, oferece um sacrifício superior e introduz o Seu povo numa posição muito superior.

Portanto, voltar ao antigo sistema significava abandonar a realidade para retornar às sombras.

  1. Hebreus 6:4-6 não está descrevendo simplesmente um crente que caiu em pecado

Observe a linguagem:

“Porque é impossível que os que já uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se fizeram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus, e as virtudes do século futuro, e recaíram, sejam outra vez renovados para arrependimento” (Hebreus 6:4-6).

O texto descreve pessoas que receberam enormes privilégios.

Foram “iluminadas”.

“Provaram o dom celestial.”

Foram “participantes do Espírito Santo”.

“Provaram a boa palavra de Deus.”

Provaram “as virtudes do século futuro”.

Mas devemos notar algo muito importante: receber luz não é necessariamente o mesmo que possuir vida eterna.

Uma pessoa pode estar muito próxima das coisas de Deus, compreender o Evangelho, experimentar seus efeitos, conviver com verdadeiros cristãos e ainda assim nunca ter depositado verdadeiramente a sua fé em Cristo.

Judas Iscariotes é uma demonstração impressionante disso. Ele esteve com Cristo, ouviu Suas palavras, presenciou Seus milagres e participou dos privilégios apostólicos; contudo, o Senhor disse:

“Não vos escolhi a vós os doze? E um de vós é um diabo” (João 6:70).

  1. A ilustração de Hebreus 6 esclarece a passagem

Logo depois da advertência, o escritor apresenta uma ilustração:

“Porque a terra que embebe a chuva, que muitas vezes cai sobre ela, e produz erva proveitosa para aqueles por quem é lavrada, recebe a bênção de Deus; mas a que produz espinhos e abrolhos é reprovada, e perto está da maldição; o seu fim é ser queimada” (Hebreus 6:7-8).

Observe que as duas terras recebem a mesma chuva.

A diferença aparece naquilo que produzem.

Assim também duas pessoas podem estar expostas às mesmas bênçãos espirituais, ouvir a mesma Palavra, participar das mesmas reuniões e receber a mesma luz. Uma manifesta a realidade da vida divina; outra finalmente demonstra que nunca houve nela verdadeira vida espiritual.

Por isso, imediatamente depois dessa severa advertência, o escritor acrescenta:

“Mas de vós, ó amados, esperamos coisas melhores, e coisas que acompanham a salvação” (Hebreus 6:9).

Esta expressão é muito importante: “coisas que acompanham a salvação”.

Isso mostra que os privilégios mencionados anteriormente, por mais extraordinários que fossem, não deveriam automaticamente ser confundidos com a posse da salvação.

  1. O que significa “recaíram”?

Não significa simplesmente cometer um pecado.

Se Hebreus 6 ensinasse que qualquer pecado cometido depois da conversão tornasse impossível o arrependimento, nenhum cristão poderia permanecer salvo.

Pedro pecou gravemente depois de conhecer o Senhor. Ele negou Cristo três vezes. Contudo, foi restaurado.

Davi caiu em pecados gravíssimos e posteriormente confessou:

“Pequei contra o Senhor” (2 Samuel 12:13).

Em Salmos 51 encontramos o seu profundo arrependimento.

O próprio apóstolo João escreveu aos crentes:

“Meus filhinhos, estas coisas vos escrevo, para que não pequeis; e, se alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o justo” (1 João 2:1).

Portanto, Hebreus 6 não pode estar dizendo que um crente que caiu em pecado não pode mais ser restaurado.

A questão é a apostasia: abandonar deliberadamente a posição cristã e repudiar o Cristo que anteriormente professava seguir.

  1. Hebreus 10:26 também não está falando simplesmente de estar “preso a algum pecado”

Aqui encontramos outra passagem muito solene:

“Porque, se pecarmos voluntariamente, depois de termos recebido o conhecimento da verdade, já não resta mais sacrifício pelos pecados” (Hebreus 10:26).

Se interpretarmos “pecar voluntariamente” como qualquer pecado consciente cometido por um cristão, praticamente ninguém poderia ser salvo.

Qual cristão poderia afirmar que, depois da conversão, nunca praticou conscientemente algo que sabia estar errado?

O contexto explica de que pecado se trata.

Veja Hebreus 10:29:

“De quanto maior castigo cuidais vós será julgado merecedor aquele que pisar o Filho de Deus, e tiver por profano o sangue da aliança com que foi santificado, e fizer agravo ao Espírito da graça?”

Temos aqui três características extremamente graves:

pisar o Filho de Deus;

considerar comum ou profano o sangue relacionado à aliança;

insultar o Espírito da graça.

Isso não descreve simplesmente um cristão lutando contra um pecado ou alguém que caiu numa fraqueza moral.

Descreve a rejeição deliberada de Cristo.

É como se alguém dissesse: “Conheci tudo isso, professei acreditar nisso, mas agora rejeito Cristo, rejeito Seu sangue e rejeito o testemunho do Espírito Santo.”

Isto é apostasia.

  1. Por que “não resta mais sacrifício pelos pecados”?

Porque não existe outro sacrifício.

Este é um ponto fundamental na Epístola aos Hebreus.

O Senhor Jesus ofereceu um único e perfeito sacrifício:

“Porque com uma só oblação aperfeiçoou para sempre os que são santificados” (Hebreus 10:14).

E novamente:

“Ora, onde há remissão destes, não há mais oblação pelo pecado” (Hebreus 10:18).

Portanto, se alguém rejeita deliberadamente o único sacrifício que Deus providenciou, para onde poderá ir?

De volta aos sacrifícios judaicos?

Eles não podem remover pecados.

Hebreus 10:4 afirma:

“Porque é impossível que o sangue dos touros e dos bodes tire os pecados.”

Se alguém rejeita Cristo, não existe um segundo Salvador, uma segunda cruz ou outro sacrifício.

É nesse sentido que “já não resta mais sacrifício pelos pecados”.

  1. Então um verdadeiro crente pode perder a salvação?

Precisamos interpretar as passagens difíceis à luz das declarações claras das Escrituras.

O Senhor Jesus declarou:

“E dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará da minha mão. Meu Pai, que mas deu, é maior do que todos; e ninguém pode arrebatá-las da mão de meu Pai” (João 10:28-29).

Observe cuidadosamente as palavras do Senhor:

“dou-lhes a vida eterna”;

“nunca hão de perecer”;

“ninguém as arrebatará da minha mão”.

A segurança da ovelha não depende da força da mão da ovelha segurando Cristo, mas da mão de Cristo segurando a ovelha.

Paulo também escreveu:

“Tendo por certo isto mesmo, que aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até ao dia de Jesus Cristo” (Filipenses 1:6).

Pedro diz que os crentes são:

“guardados na virtude de Deus para a salvação” (1 Pedro 1:5).

Romanos 8:38-39 declara que absolutamente nada poderá separar o crente do amor de Deus que está em Cristo Jesus.

Portanto, a segurança eterna do salvo repousa na obra consumada de Cristo, no poder de Deus e na fidelidade das Suas promessas.

  1. Então por que existem tantas advertências?

Porque Deus não apenas determina o destino dos Seus filhos; Ele também estabelece os meios pelos quais eles percorrem o caminho.

As advertências são reais e devem ser levadas a sério.

Quando a Escritura diz:

“Vede, irmãos, que nunca haja em qualquer de vós um coração mau e infiel, para se apartar do Deus vivo” (Hebreus 3:12),

não devemos responder: “Como sou salvo, essa advertência não importa.”

Muito pelo contrário.

O verdadeiro crente ouve a advertência e treme diante dela. A própria advertência torna-se um instrumento usado por Deus para preservá-lo.

  1. E Colossenses 1:23: “se permanecerdes na fé”?

Paulo escreve:

“Se, na verdade, permanecerdes fundados e firmes na fé, e não vos moverdes da esperança do evangelho” (Colossenses 1:23).

A perseverança não compra a salvação; ela evidencia a realidade da fé.

O Senhor Jesus explicou algo semelhante na parábola do semeador. Algumas sementes produziram uma aparência inicial de vida, mas desapareceram quando chegaram as dificuldades. A boa terra, porém, produziu fruto (Mateus 13:1-23).

João também explicou a apostasia de algumas pessoas:

“Saíram de nós, mas não eram de nós; porque, se fossem de nós, ficariam conosco” (1 João 2:19).

Observe que João não disse: “Eram de nós e deixaram de ser.”

Ele disse:

“não eram de nós”.

A saída revelou aquilo que anteriormente estava escondido.

  1. E 2 Pedro 2:20-22?

Pedro descreve pessoas que escaparam temporariamente das corrupções do mundo mediante o conhecimento de Cristo e depois voltaram para elas.

Mas a ilustração final esclarece a natureza dessas pessoas:

“O cão voltou ao seu próprio vômito, e a porca lavada ao espojadouro de lama” (2 Pedro 2:22).

O cão continuou sendo cão.

A porca continuou sendo porca.

A porca foi lavada exteriormente, mas sua natureza não foi transformada.

O Evangelho pode produzir mudanças exteriores numa pessoa sem que tenha ocorrido o novo nascimento.

O verdadeiro cristão não é simplesmente uma porca lavada; é alguém que recebeu uma nova natureza mediante o novo nascimento (João 3:3-6; 2 Coríntios 5:17).

  1. E Apocalipse 3:17-18?

A passagem de Laodiceia também não ensina que um verdadeiro salvo perdeu a salvação.

O problema daquela igreja era sua terrível condição espiritual. Eles diziam:

“Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta.”

Cristo, porém, dizia:

“não sabes que és um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu.”

A profissão exterior era grande, mas a realidade espiritual era extremamente pobre.

É significativo que o Senhor esteja do lado de fora:

“Eis que estou à porta, e bato” (Apocalipse 3:20).

A passagem mostra o perigo de uma profissão cristã sem verdadeira comunhão com Cristo.

  1. Uma distinção muito importante

Podemos resumir assim:

Queda em pecado — pode acontecer na vida de um verdadeiro crente. Deve haver confissão e restauração (1 João 1:9; 2:1).

Desvio espiritual — um verdadeiro crente pode esfriar, afastar-se da comunhão e precisar da disciplina restauradora do Pai (Hebreus 12:5-11).

Apostasia — é abandonar e repudiar deliberadamente a fé cristã depois de ter conhecido profundamente suas verdades e privilégios. Hebreus 6 e Hebreus 10 apresentam solenes advertências acerca disso.

Essas coisas não devem ser confundidas.

  1. O caso de Pedro ajuda muito a compreender

Pedro disse:

“Ainda que me seja necessário morrer contigo, não te negarei” (Mateus 26:35).

Pouco depois, negou três vezes conhecer o Senhor.

Se Hebreus 6 e 10 estivessem falando simplesmente de cometer deliberadamente um pecado grave, Pedro estaria perdido.

Entretanto, antes mesmo da queda de Pedro, o Senhor lhe disse:

“Eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, quando te converteres, confirma teus irmãos” (Lucas 22:32).

Pedro caiu, mas Cristo não permitiu que sua fé fosse finalmente destruída.

Essa é uma bela ilustração da preservação divina.

  1. E aquele que está preso a algum pecado?

Essa parte da sua pergunta é especialmente importante.

Uma pessoa verdadeiramente salva pode entrar numa situação muito grave de pecado. A Bíblia nunca trata isso levianamente.

Deus pode disciplinar severamente Seus filhos:

“Porque o Senhor corrige o que ama, e açoita a qualquer que recebe por filho” (Hebreus 12:6).

Em 1 Coríntios 11:30, alguns crentes estavam sendo disciplinados fisicamente por Deus:

“Por causa disto há entre vós muitos fracos e doentes, e muitos que dormem.”

Portanto, segurança eterna não significa liberdade para pecar.

Muito pelo contrário.

Quem pertence ao Senhor está sujeito à disciplina do Pai.

Porém existe uma enorme diferença entre um filho de Deus que caiu e está sofrendo por causa do pecado e um apóstata que deliberadamente rejeita Cristo.

Pedro caiu e chorou amargamente.

Judas abandonou definitivamente Cristo.

Essa diferença é fundamental.

  1. Hebreus termina mostrando os dois lados

Hebreus apresenta advertências muito severas, mas também apresenta uma segurança extraordinária.

“Porque com uma só oblação aperfeiçoou para sempre os que são santificados” (Hebreus 10:14).

E próximo do final da epístola encontramos:

“Ora, o Deus de paz, que pelo sangue da aliança eterna tornou a trazer dos mortos a nosso Senhor Jesus Cristo, grande Pastor das ovelhas, vos aperfeiçoe em toda a boa obra, para fazerdes a sua vontade” (Hebreus 13:20-21).

Veja como isso é precioso.

A mesma epístola que contém as advertências mais severas também apresenta Cristo como o Grande Pastor das ovelhas e Seu sangue como “o sangue da aliança eterna”.

Portanto, irmão, Hebreus 6:4-6 e Hebreus 10:26-29 não devem ser usados para ensinar que toda vez que um verdadeiro cristão cai num pecado ele perde a salvação e precisa ser salvo novamente.

O assunto central dessas passagens é muito mais solene: abandonar deliberadamente Cristo depois de receber grande luz acerca dEle, repudiando o único sacrifício que Deus ofereceu para a salvação.

Ao mesmo tempo, essas passagens jamais devem ser usadas para produzir descuido espiritual. Elas nos chamam à perseverança, à santidade, à vigilância e à firmeza na fé.

A segurança do crente está em Cristo; a evidência dessa realidade aparece numa vida que, apesar de lutas, quedas e disciplina, continua olhando para Cristo.

Por isso Hebreus nos dá uma das mais belas exortações:

“Olhando para Jesus, autor e consumador da fé” (Hebreus 12:2).

Não olhamos para nossa própria força para termos segurança. Olhamos para Cristo.

Ele começou a obra.

Ele realizou o sacrifício.

Ele intercede pelos Seus.

Ele guarda as Suas ovelhas.

E Ele completará aquilo que começou.

Josué Matos

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