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Qual a base bíblica para refutar ou desconsiderar o quarto mandamento do próprio Deus?

Alguém que me escreveu por e-mail: (Também enviou-me um anexo do adventismo que defende a guarda do sábado)

A paz do Senhor, presbítero, qual a base bíblica para refutar ou desconsiderar o quarto mandamento do próprio Deus?

Minha Resposta:

A base bíblica para refutar ou, mais corretamente, não impor o quarto mandamento (a guarda do sábado) ao cristão está na distinção clara que as Escrituras fazem entre a Lei dada a Israel e a posição do crente na nova dispensação da graça, em Cristo. Não se trata de desprezar um mandamento de Deus, mas de compreender a quem ele foi dado, com que propósito e até quando ele vigorou como obrigação legal.

A seguir, apresento uma resposta organizada e estritamente bíblica.

  1. O quarto mandamento faz parte da Lei dada especificamente a Israel

O sábado foi dado como sinal do concerto entre Deus e a nação de Israel, e não como mandamento universal para toda a humanidade.

Êxodo 31:16–17 declara explicitamente:
“Guardarão, pois, o sábado os filhos de Israel, celebrando o sábado nas suas gerações por concerto perpétuo. Entre mim e os filhos de Israel será um sinal para sempre”.

O próprio texto define:
– destinatários: os filhos de Israel
– função: sinal do concerto
– natureza: nacional e pactual

Nenhum texto afirma que o sábado foi dado como sinal entre Deus e a Igreja.

  1. O sábado está ligado à Lei mosaica como um todo, não isoladamente

O quarto mandamento não existe de forma independente. Ele faz parte de um sistema legal indivisível.

Tiago 2:10 afirma:
“Qualquer que guardar toda a lei e tropeçar em um só ponto tornou-se culpado de todos”.

Quem defende a obrigatoriedade do sábado está, biblicamente, obrigado a assumir toda a Lei mosaica, incluindo sacrifícios, penalidades, festas judaicas e ordenanças civis — algo que o Novo Testamento explicitamente rejeita.

Gálatas 5:3:
“Todo o homem que se deixa circuncidar fica obrigado a guardar toda a lei”.

  1. Cristo cumpriu a Lei e encerrou sua vigência como sistema legal

O Senhor Jesus afirmou que veio cumprir a Lei, não perpetuá-la como código obrigatório.

Mateus 5:17 não ensina continuidade da Lei como sistema, mas seu cumprimento pleno em Cristo.

Romanos 10:4 é decisivo:
“Porque o fim da lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê”.

“Fim” aqui não significa apenas objetivo, mas término funcional. A Lei cumpriu seu papel.

Colossenses 2:14 declara:
“Havendo riscado a cédula que era contra nós nas suas ordenanças… cravou-a na cruz”.

O sábado está incluído nessas ordenanças.

  1. O Novo Testamento afirma explicitamente que o sábado não deve ser imposto ao cristão

Este ponto é central e incontornável.

Colossenses 2:16–17:
“Ninguém, pois, vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias de festa, ou da lua nova, ou dos sábados, que são sombras das coisas futuras; mas o corpo é de Cristo”.

Aqui o sábado é classificado como:
– sombra
– elemento transitório
– não pertencente à realidade final, que é Cristo

Romanos 14:5:
“Um faz diferença entre dia e dia, mas outro julga iguais todos os dias. Cada um esteja inteiramente seguro em seu próprio ânimo”.

Se o sábado fosse mandamento obrigatório para a Igreja, essa afirmação seria impossível.

  1. A Igreja nunca foi instruída a guardar o sábado

Em Atos 15, quando os apóstolos trataram da relação dos gentios com a Lei, nenhuma referência ao sábado foi feita.

Atos 15:28–29:
“Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor maior encargo algum, senão estas coisas necessárias…”.

O sábado não aparece na lista. O silêncio aqui é teológico e intencional.

  1. Paulo frequentava sinagogas aos sábados por estratégia missionária, não por obrigação

Atos 18:4 e Atos 16:13 descrevem Paulo pregando aos sábados porque era quando os judeus se reuniam. Isso não é mandamento doutrinário, mas contexto histórico.

O mesmo apóstolo declara:
“Fiz-me como judeu para os judeus, para ganhar os judeus” (1 Coríntios 9:20).

Não há um único texto ensinando que Paulo guardava o sábado como obrigação cristã.

  1. O “Dia do Senhor” no Novo Testamento não é o sábado

Apocalipse 1:10 menciona “o Dia do Senhor”, mas não o identifica como sábado. Em toda a Escritura, “Dia do Senhor” é expressão ligada à autoridade, ao juízo e à revelação, não ao sétimo dia da semana.

O Novo Testamento mostra a Igreja reunindo-se no primeiro dia da semana:
– Atos 20:7
– 1 Coríntios 16:2

Isso não é “mudança de mandamento”, mas expressão da nova criação em Cristo, ligada à ressurreição.

  1. O verdadeiro descanso não é um dia, mas uma Pessoa

Hebreus 4 é frequentemente usado para defender o sábado, mas ensina exatamente o oposto.

Hebreus 4:9–10:
“Resta um repouso para o povo de Deus; porque aquele que entrou no seu repouso, ele próprio repousou de suas obras”.

O descanso não é semanal, ritual ou legal, mas espiritual e contínuo, encontrado em Cristo.

Mateus 11:28:
“Vinde a mim… e eu vos darei descanso”.

  1. A Igreja não despreza a Lei, mas vive em um princípio superior

Romanos 7:4:
“Assim, meus irmãos, também vós estais mortos para a lei pelo corpo de Cristo”.

Gálatas 3:24–25:
“A lei nos serviu de aio até Cristo… mas depois que veio a fé, já não estamos debaixo de aio”.

A vida cristã não é regulada por mandamentos externos, mas pela vida de Cristo no crente, pelo Espírito Santo.

Conclusão

A base bíblica para não impor o quarto mandamento à Igreja é sólida, ampla e coerente:

– O sábado foi sinal do concerto com Israel
– Faz parte da Lei mosaica como sistema indivisível
– Foi cumprido e encerrado em Cristo
– É chamado de “sombra” no Novo Testamento
– Nunca foi imposto à Igreja
– O verdadeiro descanso é Cristo

Não se trata de rejeitar um mandamento de Deus, mas de honrar o cumprimento perfeito da vontade de Deus em Seu Filho.

Josué Matos