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Biblicamente, em que consiste o arrependimento?

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Irmão, biblicamente, em que consiste o arrependimento? Visto que o mesmo faz parte da ação em resposta à mensagem do Evangelho, este arrependimento se mostra real de que forma? Quais são as características de um arrependimento real, já que hoje em dia este ponto no meio das denominações não é abordado, e, quando é, tal apresentação está repleta de equívocos e legalismo destruidores.

Minha Resposta:

A sua pergunta é de extrema importância, porque o arrependimento é parte essencial da resposta do homem ao Evangelho, e, ao mesmo tempo, é um dos temas mais distorcidos na atualidade. É necessário voltar às Escrituras para compreender o que ele é — e o que ele não é.

  1. O que é arrependimento biblicamente

No Novo Testamento, a palavra grega usada é metanoia, que significa literalmente “mudança de mente”. Porém, essa mudança de mente não é apenas intelectual; é uma mudança profunda de pensamento, juízo e disposição diante de Deus.

Em Atos dos Apóstolos 17:30 lemos que Deus “manda a todos os homens, em todo o lugar, que se arrependam”. Arrependimento, portanto, é uma ordem divina. Não é uma sugestão emocional, nem uma experiência mística, nem uma prática religiosa. É uma mudança interior produzida quando a luz de Deus alcança a consciência.

Arrepender-se é:

– mudar de pensamento sobre Deus (reconhecendo Sua santidade),
– mudar de pensamento sobre si mesmo (reconhecendo-se pecador),
– mudar de pensamento sobre o pecado (vendo-o como ofensa contra Deus),
– mudar de pensamento sobre Cristo (reconhecendo-O como único Salvador).

Não é simplesmente “sentir tristeza”. Em 2 Coríntios 7:10, o apóstolo Paulo distingue claramente: “a tristeza segundo Deus opera arrependimento para a salvação”. A tristeza não é o arrependimento; ela pode conduzir a ele.

  1. O arrependimento faz parte da resposta ao Evangelho

O Evangelho chama o homem ao arrependimento e à fé. O próprio Senhor Jesus começou Seu ministério dizendo: “Arrependei-vos e crede no Evangelho” (Marcos 1:15). Em Atos dos Apóstolos 20:21, Paulo resume sua mensagem como “arrependimento para com Deus e fé em nosso Senhor Jesus Cristo”.

Observe a ordem: arrependimento para com Deus e fé em Cristo. O arrependimento nos volta para Deus; a fé nos lança sobre Cristo.

Arrependimento e fé não são duas experiências separadas no tempo, mas dois aspectos inseparáveis da mesma resposta. Quando alguém crê verdadeiramente em Cristo, já houve uma mudança interior de juízo acerca do pecado e de si mesmo.

  1. Como o arrependimento real se manifesta

Aqui é importante evitar dois extremos:

– O legalismo, que transforma arrependimento em uma lista de obras externas.
– O falso evangelho moderno, que elimina completamente o arrependimento.

O arrependimento real se manifesta de forma concreta, mas não como meio de salvação — e sim como fruto.

Em Atos dos Apóstolos 26:20, Paulo fala de “obras dignas de arrependimento”. As obras não produzem o arrependimento; elas o evidenciam.

Algumas características de um arrependimento verdadeiro:

a) Convicção de pecado

A pessoa não apenas admite erros sociais ou falhas humanas, mas reconhece que pecou contra Deus. Como Davi em Salmos 51:4: “Contra ti, contra ti somente pequei”.

b) Abandono do pecado como prática dominante

Não significa perfeição imediata, mas ruptura com a antiga direção de vida. O pecado já não é defendido, justificado ou amado como antes.

c) Humildade diante de Deus

O orgulho é quebrado. Há submissão à Palavra. Não há tentativa de negociar com Deus, mas dependência da graça.

d) Nova atitude para com Cristo

Antes havia indiferença ou incredulidade; agora há confiança e entrega.

  1. O que o arrependimento não é

É fundamental esclarecer também o que ele não é:

– Não é reformar a vida antes de vir a Cristo.
– Não é prometer nunca mais pecar.
– Não é pagar penitência.
– Não é praticar atos religiosos para compensar falhas.

O arrependimento não é autojustificação moral; é rendição.

Quando o filho pródigo “caiu em si” (Lucas 15:17), ele reconheceu sua condição e voltou ao pai. Ele não voltou com méritos, mas com confissão. Isso é arrependimento.

  1. Arrependimento e novo nascimento

A Escritura mostra que o novo nascimento ocorre quando o pecador, iluminado pela Palavra, crê. A Palavra produz fé (Romanos 10:17), e o Espírito Santo opera vida nova naquele que crê. O arrependimento faz parte dessa obra interior que prepara o coração para confiar exclusivamente em Cristo.

Não é o arrependimento que salva. Quem salva é Cristo. Mas ninguém crê verdadeiramente sem que haja essa mudança interior de juízo diante de Deus.

  1. Por que hoje há tanta confusão

Em muitos ambientes denominacionais:

– Ou o arrependimento foi reduzido a uma emoção momentânea,
– Ou foi transformado em legalismo e exigência de reforma prévia,
– Ou foi praticamente eliminado para tornar o evangelho “mais aceitável”.

Mas o Evangelho bíblico confronta o pecador. Ele revela a condição real do homem, aponta para a cruz e chama à rendição.

Quando o arrependimento é real, ele não produz desespero legalista, mas conduz à paz, porque leva o pecador a abandonar qualquer esperança em si mesmo e a descansar unicamente na obra consumada do Senhor Jesus Cristo.

Em resumo:

Arrependimento bíblico é uma mudança interior de mente e coração diante de Deus, produzida pela Palavra e pelo Espírito, que conduz o pecador a reconhecer sua culpa, abandonar sua autossuficiência e confiar exclusivamente em Cristo. Sua realidade se manifesta não por formalismo religioso, mas por uma nova direção de vida e submissão a Deus.

Que o Senhor nos preserve tanto do legalismo destruidor quanto do evangelho superficial.

Josué Matos