Alguém que me escreveu no YouTube:
Se, como você diz, certos dons extraordinários cessaram ainda no 1º século, o que seriam então estas manifestações dentro das igrejas pentecostais de hoje, onde uns fazem vocalizações estranhas e desconexas, outros pulam e gritam, outros ainda rodopiam e rolam no chão? Com certeza, nada destas práticas esquisitas e estranhas ao culto cristão bíblico é algo produzido pelo Espírito de Deus. Estas esquisitices são atos meramente humanos, fruto de histerismos coletivos, manipulação, encenações teatrais, charlatanismo e, em alguns casos, possessão demoníaca.
Minha Resposta:
A sua preocupação é legítima, porque o culto cristão deve ser examinado à luz das Escrituras, e não à luz de experiências subjetivas ou de impressões emocionais. Contudo, é necessário tratar o assunto com equilíbrio bíblico e discernimento espiritual, evitando tanto a ingenuidade quanto a generalização precipitada.
Primeiro, é importante lembrar que os dons espirituais no Novo Testamento tinham características bem definidas. Em 1 Coríntios 12–14, o falar em línguas era um idioma real, compreensível quando interpretado, e tinha finalidade específica: sinal para os incrédulos (1 Coríntios 14:21-22). Não era vocalização desconexa, nem expressão incontrolável. Pelo contrário, o apóstolo Paulo afirma: “Os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas” (1 Coríntios 14:32), e conclui: “Porque Deus não é Deus de confusão, mas de paz” (1 Coríntios 14:33).
Além disso, tudo deveria ser feito “com decência e ordem” (1 Coríntios 14:40). Portanto, qualquer prática que envolva descontrole físico, histeria coletiva ou ausência total de entendimento não encontra respaldo no padrão apostólico.
Entretanto, é preciso cautela antes de classificar automaticamente tais manifestações como possessão demoníaca. O Novo Testamento mostra que manifestações demoníacas tinham características claras, como vemos nos Evangelhos, por exemplo em Marcos 5:1-13. Eram situações específicas, identificáveis, e não um fenômeno coletivo dentro de reuniões cristãs professas.
Há pelo menos três possibilidades que precisam ser consideradas biblicamente:
Fenômenos meramente emocionais e humanos.
O ser humano é profundamente influenciável pelo ambiente. Música repetitiva, sugestão psicológica, expectativa coletiva e liderança carismática podem produzir estados alterados de comportamento sem qualquer intervenção sobrenatural. Isso não é necessariamente demoníaco; pode ser simplesmente emocional e psicológico.Confusão entre emoção e ação do Espírito Santo.
Em Atos dos Apóstolos 2, quando o Espírito Santo desceu, houve línguas reais compreendidas por pessoas de várias nações. Não houve desordem, nem gritaria descontrolada, nem perda de consciência. O resultado foi entendimento da Palavra e conversão de cerca de três mil almas (Atos 2:41). A marca foi clareza doutrinária e exaltação de Cristo.Casos pontuais de engano espiritual.
A Escritura adverte que há espíritos enganadores (1 Timóteo 4:1) e que Satanás pode se transformar em anjo de luz (2 Coríntios 11:14). Portanto, não se pode excluir totalmente a possibilidade de engano espiritual em determinados contextos. Porém, isso deve ser afirmado com prudência e discernimento, não como regra geral para todos os casos.
O critério bíblico decisivo é este: qual é o resultado?
O Espírito Santo glorifica o Senhor Jesus (João 16:14), produz fruto moral (Gálatas 5:22-23) e conduz à verdade da Palavra (João 16:13). Se o fenômeno não conduz à compreensão das Escrituras, à santidade prática e à centralidade de Cristo, ele não corresponde ao padrão do Espírito de Deus.
É também importante lembrar que o zelo sem conhecimento pode levar tanto ao excesso quanto ao desprezo indevido (Romanos 10:2). O crente é chamado a “provar os espíritos” (1 João 4:1), mas também a julgar com justiça (João 7:24).
Portanto, biblicamente falando, práticas de descontrole físico e vocalizações ininteligíveis não encontram base no modelo apostólico. Muitas delas podem ser explicadas como fenômenos humanos coletivos. Em alguns casos, pode haver engano espiritual. Mas afirmar de forma absoluta que todas são possessão demoníaca ultrapassa o que a Escritura autoriza declarar.
O caminho seguro é sempre este: voltar ao padrão claro das Escrituras, examinar tudo à luz da Palavra de Deus e manter o foco na pessoa e na obra do Senhor Jesus Cristo.
Josué Matos