Áudios

Pesquisar este blog

Nós cremos e por isso nascemos de novo ou nascemos de novo para poder crer?

Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Sobre a fé salvadora, o mínimo irredutível é o que o irmão assinalou, correto? Então, numa apresentação do evangelho, isto é o que deve ser apresentado no mínimo, correto?

Uma pergunta: nós cremos e por isso nascemos de novo ou nascemos de novo para poder crer?

Também: para que alguém saiba de sua condição de pecador, na apresentação do evangelho, usa-se o fato de que esta pessoa quebrou a lei de Deus (um dos 10 mandamentos)?

Os cristãos precisam guardar o domingo, como o “sábado cristão”, para glorificar a Deus? Por quê?

A prática de se fazerem apelos no final das pregações, para os pecadores virem à frente, como expressão de terem crido em Cristo, é bíblica? Como deve ser feito o apelo, então?

Se não há um grupo de irmãos reunidos unicamente no nome do Senhor Jesus Cristo numa localidade, de que modo alguém pode adorar a Deus sem tais cultos e reuniões?

Ainda: como “nasce” uma assembleia local bíblica?

Minha Resposta:

Prezado irmão Robson,

Suas perguntas são muito pertinentes e revelam zelo pela clareza do evangelho e pela prática bíblica. Responderei ponto por ponto, procurando manter a harmonia das Escrituras.

  1. O “mínimo irredutível” da fé salvadora na apresentação do evangelho

Sim, ao apresentar o evangelho, é necessário expor aquilo que é essencial e não pode ser reduzido: a condição pecaminosa do homem, a obra expiatória de Cristo na cruz, Sua ressurreição e a necessidade de arrependimento e fé pessoal n’Ele.

Em 1 Coríntios 15:3-4, o apóstolo Paulo resume o evangelho dizendo que Cristo morreu por nossos pecados segundo as Escrituras, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia. Esse é o núcleo objetivo. Mas não basta informar esses fatos; é necessário chamar o ouvinte ao arrependimento e à fé.

Em Atos 20:21, Paulo declara que testificava “tanto a judeus como a gregos a conversão a Deus, e a fé em nosso Senhor Jesus Cristo”. Portanto, o mínimo irredutível envolve:

– a santidade de Deus,
– a pecaminosidade do homem,
– a morte substitutiva de Cristo,
– Sua ressurreição,
– o chamado ao arrependimento e fé.

Qualquer evangelho que omita esses pontos deixa de ser o evangelho bíblico.

  1. Cremos para nascer de novo ou nascemos de novo para crer?

A Escritura apresenta a fé como o meio pelo qual recebemos a vida.

Em João 1:12-13 lemos: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.”

Primeiro aparece o crer; o novo nascimento é obra de Deus, mas ocorre naqueles que recebem a Cristo. Em João 20:31 está escrito: “Estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo… e para que, crendo, tenhais vida em seu nome.” A vida é apresentada como resultado do crer.

A Palavra de Deus é o instrumento que produz fé (Romanos 10:17), e ao receber essa Palavra em fé, o Espírito Santo opera o novo nascimento (Tiago 1:18; 1 Pedro 1:23).

Portanto, não é que o homem regenere a si mesmo; é Deus quem regenera. Mas a Escritura não ensina que alguém nasce de novo para depois crer; ela apresenta a fé como resposta à Palavra, e o novo nascimento como a obra divina que acompanha essa fé.

  1. Usar os Dez Mandamentos para mostrar o pecado

Sim, a lei tem função pedagógica. Romanos 3:20 diz: “pela lei vem o conhecimento do pecado”. E em Gálatas 3:24 lemos que a lei foi nosso aio para nos conduzir a Cristo.

Apontar a transgressão de um dos mandamentos pode ser um meio legítimo de mostrar ao pecador que ele é culpado diante de Deus. O próprio Senhor Jesus fez isso com o jovem rico em Marcos 10:19.

Contudo, a lei não salva; ela convence. A apresentação do evangelho não deve parar na condenação, mas conduzir à graça revelada em Cristo.

  1. O domingo como “sábado cristão”

O Novo Testamento não ensina que o domingo seja o “sábado cristão”. O sábado era sinal da aliança mosaica (Êxodo 31:13-17). A Igreja não está debaixo da lei, mas da graça (Romanos 6:14).

Os cristãos se reuniam no primeiro dia da semana (Atos 20:7; 1 Coríntios 16:2), em memória da ressurreição do Senhor. Em Apocalipse 1:10 lemos sobre “o dia do Senhor”, expressão ligada ao primeiro dia.

Mas não há mandamento impondo guarda sabática transferida para o domingo. Colossenses 2:16-17 declara que ninguém deve julgar quanto a sábados, porque eram sombras das coisas futuras.

O primeiro dia é o dia da ressurreição e do ajuntamento cristão, mas não um sábado legal cristianizado.

  1. Apelos públicos para “vir à frente”

Não encontramos nas Escrituras o modelo de um “corredor” ou convite para vir à frente como condição de salvação.

Em Atos 2, os ouvintes “compungiram-se em seu coração” (Atos 2:37). Pedro respondeu: “Arrependei-vos”. A resposta foi interior e real, seguida de batismo.

A fé é do coração (Romanos 10:9-10). A confissão pública é importante, mas não como um ritual emocional. O perigo dos apelos formais é confundir decisão externa com novo nascimento.

O verdadeiro apelo bíblico é a proclamação clara da verdade, chamando ao arrependimento e fé, deixando a obra ao Espírito Santo.

  1. Adoração onde não há uma assembleia reunida

A adoração não se limita a um edifício ou estrutura formal. O Senhor disse em João 4:23 que o Pai procura adoradores que O adorem em espírito e em verdade.

Se não houver uma assembleia reunida ao nome do Senhor em determinada localidade, o crente pode:

– adorar individualmente,
– reunir-se com outros dois ou três (Mateus 18:20),
– perseverar na doutrina apostólica e comunhão conforme as circunstâncias permitirem.

A adoração é antes de tudo espiritual e fundamentada na verdade revelada.

  1. Como nasce uma assembleia local bíblica?

Uma assembleia local surge quando crentes regenerados se reúnem simplesmente ao nome do Senhor Jesus Cristo, reconhecendo-O como Cabeça (Efésios 1:22-23), perseverando na doutrina dos apóstolos, comunhão, partir do pão e orações (Atos 2:42).

Não nasce por decreto humano, nem por organização denominacional, mas pela ação de Deus na salvação de pessoas em determinada localidade. À medida que essas pessoas reconhecem a verdade da unidade do corpo de Cristo e se reúnem em submissão à Palavra, ali se manifesta localmente a assembleia.

O modelo é simples, espiritual e fundamentado na Escritura, não em tradição humana.

Que o Senhor continue lhe dando clareza e equilíbrio na exposição dessas verdades.

Josué Matos