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Por que a Bíblia diz: “Arrependei-vos e crede no evangelho”, se já existem pessoas certas, eleitas, predestinadas à salvação?

Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Se Deus já elegeu pessoas para serem salvas, se é que Ele faz acepção de pessoas, ao mesmo tempo por que a Bíblia diz: “Arrependei-vos e crede no evangelho”, se já existem pessoas certas, eleitas, predestinadas à salvação?

Efésios 1
4 Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor;
5 E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade,

Romanos 8
30 E aos que predestinou, a estes também chamou; e aos que chamou, a estes também justificou; e aos que justificou, a estes também glorificou.
31 Que diremos, pois, a estas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós?
32 Aquele que nem mesmo a seu próprio Filho poupou, antes o entregou por todos nós, como nos não dará também com ele todas as coisas?
33 Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica.

Segundo essas passagens, já existem pessoas privilegiadas, eleitas à salvação, e outras não?

Minha Resposta:

A pergunta levantada é antiga, profunda e legítima, e já estava presente nos dias dos apóstolos. Ela não nasce de incredulidade, mas do desejo sincero de harmonizar tudo o que Deus revelou em Sua Palavra. As Escrituras afirmam, sem contradição, tanto a soberania absoluta de Deus quanto a responsabilidade real do homem. O erro surge quando tentamos explicar uma verdade bíblica anulando a outra.

Para responder com clareza, é necessário distinguir alguns pontos fundamentais que a própria Bíblia apresenta.

  1. Eleição e predestinação: o que elas realmente significam

Efésios 1:4–5 afirma que Deus “nos elegeu nele antes da fundação do mundo” e “nos predestinou para filhos de adoção”. Romanos 8:29–30 mostra uma sequência perfeita: os que Deus conheceu, predestinou; os que predestinou, chamou; os que chamou, justificou; e os que justificou, glorificou.

Esses textos ensinam, sem dúvida alguma, que a salvação tem origem em Deus, não no homem. Ela não nasce da vontade humana, nem de méritos, nem de obras, mas do propósito eterno de Deus, conforme também lemos em João 1:12–13 e em Tito 3:5.

No entanto, é essencial observar que a eleição, nesses textos, está sempre “em Cristo”. Deus não elege pessoas isoladamente como indivíduos escolhidos arbitrariamente para o céu ou para o inferno. Ele elegeu um povo em Cristo. Cristo é o Eleito por excelência (Isaías 42:1; 1 Pedro 2:4). Todos os que estão “nele” participam dessa eleição.

A predestinação, em Efésios 1, não é apresentada como predestinação para crer, mas como predestinação para um destino: sermos conformes à imagem do Filho (Romanos 8:29) e filhos adotivos. O texto responde ao “para quê”, não ao “como”.

  1. Deus faz acepção de pessoas?

A Escritura responde claramente que não. “Deus não faz acepção de pessoas” (Atos dos Apóstolos 10:34; Romanos 2:11). Se entendermos a eleição como privilégio arbitrário de alguns em detrimento de outros, entramos em conflito direto com essas declarações claras da Palavra de Deus.

Além disso, a Bíblia afirma repetidas vezes que o desejo de Deus é universal quanto à oferta da salvação:
– “Deus deseja que todos os homens sejam salvos” (1 Timóteo 2:4).
– “O Senhor… não quer que alguns se percam, senão que todos venham ao arrependimento” (2 Pedro 3:9).
– “Cristo morreu por todos” (2 Coríntios 5:14–15).
– “Ele é a propiciação… pelos pecados do mundo inteiro” (1 João 2:2).

Essas declarações não podem ser esvaziadas sem violentar o texto bíblico.

  1. Por que então a Bíblia diz: “Arrependei-vos e crede no evangelho”?

Porque o chamado ao arrependimento e à fé é o meio determinado por Deus para que os eleitos cheguem à salvação. Romanos 8:30 mostra isso claramente: “aos que predestinou, a estes também chamou”. O chamado acontece no tempo, por meio da pregação do evangelho.

Jesus disse: “Arrependei-vos e crede no evangelho” (Marcos 1:15). Pedro pregou: “Arrependei-vos” (Atos dos Apóstolos 2:38). Paulo afirmou que Deus “manda que todos, em todo lugar, se arrependam” (Atos dos Apóstolos 17:30).

Se a fé e o arrependimento fossem desnecessários, esses convites seriam inúteis, e os apóstolos estariam anunciando algo meramente simbólico. Mas a Escritura nunca trata esses apelos como formais ou aparentes; eles são reais e dirigidos a todos os ouvintes.

  1. O equilíbrio bíblico: soberania divina e responsabilidade humana

A Bíblia nunca tenta explicar filosoficamente como essas duas verdades se harmonizam; ela simplesmente as afirma lado a lado.

– Deus é absolutamente soberano na salvação (João 6:37; Romanos 9:16).
– O homem é verdadeiramente responsável por responder ao evangelho (João 3:18; João 5:40).

Jesus disse: “Todo aquele que o Pai me dá virá a mim” (soberania), e imediatamente acrescenta: “e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora” (responsabilidade e convite aberto).

Não existe na Escritura a ideia de pessoas desejando sinceramente a salvação e sendo impedidas por não estarem “eleitas”. A condenação nunca é atribuída à falta de eleição, mas à incredulidade: “não quereis vir a mim para terdes vida” (João 5:40).

  1. Então existem pessoas privilegiadas e outras excluídas?

À luz do conjunto das Escrituras, a resposta é não. Não há um grupo privilegiado salvo sem fé e arrependimento, nem um grupo excluído que desejaria crer, mas não pode. O privilégio da salvação está disponível a todos os que ouvem o evangelho. A diferença final não está no valor das pessoas, mas na resposta à revelação recebida.

Quando alguém crê, descobre depois que essa fé foi fruto da graça eterna de Deus. Quando alguém rejeita, a responsabilidade recai sobre sua própria incredulidade, nunca sobre um decreto oculto que o impediu de crer.

Assim, a eleição não anula o chamado; ela o garante. A predestinação não elimina o arrependimento; ela o produz. E o evangelho pode ser pregado com plena sinceridade a todos, sabendo que Deus salvará eficazmente aqueles que são Seus, por meio da fé em Cristo.

Josué Matos