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J.N. Darby sistematizou verdades proféticas, porém a Bíblia é suficiente em si mesma

 Alguém que me escreveu no YouTube:

Darby sistematizou verdades proféticas, porém a Bíblia é suficiente em si mesma. Quando lida com sinceridade e em dependência do Espírito Santo, ela não apresenta um arrebatamento secreto anterior à apostasia e à manifestação do homem do pecado. Essa ideia surge quando o texto é lido a partir de um sistema, neste caso (o de Darby, Dispensacionalismo), e não quando o sistema é submetido ao texto bíblico.

O arrebatamento secreto existe apenas dentro do sistema; fora dele, o texto não aponta para um arrebatamento secreto. Quando se dá um passo fora do sistema, o filtro desaparece e a leitura muda.

Minha Resposta:

Agradeço a sua colocação, feita de forma respeitosa e preocupada com a fidelidade ao texto bíblico. Concordamos plenamente em um ponto fundamental: a Bíblia é suficiente em si mesma e deve governar qualquer sistema teológico. Nenhuma estrutura doutrinária tem autoridade própria; ela é válida apenas na medida em que se submete às Escrituras. É justamente nesse terreno que a questão do arrebatamento precisa ser examinada.

  1. Bíblia e sistemas teológicos
    É correto afirmar que John Nelson Darby sistematizou verdades proféticas, mas é incorreto concluir que ele as tenha criado. A sistematização não gera a doutrina; ela organiza aquilo que já está presente no texto bíblico. O mesmo ocorreu com a Trindade, com a justificação pela fé ou com a cristologia: nenhum desses ensinos nasceu de um “sistema”, embora tenham sido posteriormente organizados de forma sistemática. A pergunta decisiva não é se há um sistema, mas se o sistema faz justiça ao conjunto das Escrituras.

  2. O arrebatamento e a distinção dos eventos
    O Novo Testamento apresenta, de forma consistente, duas linhas distintas de esperança futura.
    Há textos que descrevem a vinda do Senhor Jesus Cristo para buscar os Seus, com linguagem de consolo, esperança e reunião nos ares:
    – “Porque o mesmo Senhor descerá do céu com alarido… e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares” (Primeira Epístola aos Tessalonicenses 4:16–17).
    – “Eis que vos digo um mistério: nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados” (Primeira Epístola aos Coríntios 15:51–52).

Esses textos não mencionam juízo sobre o mundo, nem sinais prévios, nem manifestação pública do Senhor à terra. O foco é a Igreja e a transformação dos crentes.

Por outro lado, há textos que tratam claramente da manifestação pública de Cristo em glória, acompanhada de juízo, sinais cósmicos e restauração do reino:
– “Então aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem… e verão o Filho do Homem vindo sobre as nuvens do céu, com poder e grande glória” (Evangelho segundo Mateus 24:30).
– “Quando o Filho do Homem vier em sua glória… então se assentará no trono da sua glória” (Evangelho segundo Mateus 25:31).

Confundir esses dois conjuntos de textos é que gera tensões artificiais. A distinção não nasce de um sistema, mas da leitura comparativa e honesta das passagens.

  1. Apostasia e homem do pecado
    A afirmação de que a Igreja deve atravessar a apostasia e a manifestação do homem do pecado normalmente se baseia na Segunda Epístola aos Tessalonicenses 2. Contudo, o próprio texto ensina uma ordem clara:
    – Há algo e Alguém que detém a plena manifestação do iníquo (Segunda Epístola aos Tessalonicenses 2:6–7).
    – Somente depois que esse impedimento for removido, o homem do pecado será revelado (Segunda Epístola aos Tessalonicenses 2:8).

Além disso, a Igreja é explicitamente ensinada como não destinada à ira:
– “Porque Deus não nos destinou para a ira, mas para alcançar a salvação por nosso Senhor Jesus Cristo” (Primeira Epístola aos Tessalonicenses 5:9).
– “E esperar dos céus a seu Filho… Jesus, que nos livra da ira futura” (Primeira Epístola aos Tessalonicenses 1:10).

A grande tribulação, associada ao governo do homem do pecado, é apresentada em toda a Escritura como período de juízo divino sobre o mundo e de disciplina sobre Israel, não como o caminho normal da Igreja.

  1. O argumento do “arrebatamento secreto”
    A Escritura não usa a expressão “arrebatamento secreto”, mas isso não invalida a realidade ensinada. A palavra “Trindade” também não aparece na Bíblia, e nem por isso a doutrina é antibíblica. O arrebatamento é descrito como repentino, inesperado para o mundo e acompanhado de sinais perceptíveis apenas aos que pertencem a Cristo. Ele não é secreto no sentido absoluto, mas distinto da manifestação pública e judicial do Senhor.

  2. Leitura dependente do Espírito Santo
    Ler a Bíblia em dependência do Espírito Santo não significa ignorar comparações, distinções e progressão da revelação. O mesmo Espírito que inspirou as Escrituras não Se contradiz. Quando se respeita a diferença entre Israel e a Igreja, entre esperança celestial e reino terreno, entre graça e juízo, o texto bíblico harmoniza-se sem violência.

Conclusão
Portanto, o arrebatamento da Igreja antes da apostasia e da revelação do homem do pecado não é produto de um sistema imposto ao texto, mas resultado de uma leitura que permite que todas as passagens falem com o seu próprio peso e contexto. Sistemas falham quando dominam a Escritura; são úteis quando se curvam diante dela. O ponto não é seguir Darby ou qualquer outro homem, mas seguir a Palavra de Deus em toda a sua extensão.

Josué Matos