Alguém que me escreveu no WhatsApp:
Irmão Josué, me perguntaram hoje se um crente professo, cometendo suicídio, assim mesmo ele iria ser salvo. O que diz a Bíblia? (Eu creio que quem tal comete vai perdido, independente da confissão religiosa da mesma).
Minha Resposta:
A sua pergunta é muito séria e precisa ser tratada com temor, equilíbrio e base sólida na Palavra de Deus. O assunto não pode ser resolvido apenas por sentimentos, nem por tradição religiosa, mas à luz das Escrituras.
Primeiro, é fundamental estabelecer um princípio claro: Deus só reconhece dois tipos de pessoas no mundo — os salvos e os perdidos. A Palavra diz em 1 Coríntios 1:18 que “a palavra da cruz é loucura para os que perecem, mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus”. Note bem: ou a pessoa está entre “os que perecem” ou está entre “os que são salvos”. Não existe uma terceira categoria.
Todo crente na Bíblia é um salvo. No Novo Testamento, quando lemos sobre “crentes”, estamos falando de pessoas regeneradas, justificadas, reconciliadas com Deus, que receberam vida eterna. Hoje, infelizmente, a palavra “crente” tornou-se quase um rótulo religioso, um slogan para identificar quem se diz evangélico. Porém, muitos são apenas religiosos, frequentadores de cultos, moralmente corretos até, mas nunca nasceram de novo. O Senhor Jesus declarou em João 3:3 que “aquele que não nascer de novo não pode ver o reino de Deus”.
Portanto, antes de discutir o suicídio, é preciso distinguir entre:
Um verdadeiro salvo.
Um mero professante religioso.
A SALVAÇÃO DEPENDE DA OBRA DE CRISTO, NÃO DO ÚLTIMO ATO DO HOMEM
A salvação não depende do último ato da pessoa antes da morte, mas da obra consumada do Senhor Jesus Cristo na cruz. Romanos 8:1 afirma: “Agora, pois, nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus”. E mais adiante, em Romanos 8:38-39, lemos que nada poderá nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus.
Se uma pessoa está verdadeiramente em Cristo, ela já foi:
Justificada (Romanos 5:1),
Perdoada (Efésios 1:7),
Selada com o Espírito Santo (Efésios 1:13),
Feita participante da vida eterna (João 5:24).
A vida eterna não é uma vida temporária que pode ser anulada por um ato final trágico. Se fosse assim, deixaria de ser eterna.
O SUICÍDIO É PECADO?
Sim. O suicídio é pecado. É autoassassinato. A Bíblia condena o homicídio (Êxodo 20:13). A vida pertence a Deus. O homem não é senhor absoluto da própria existência. Saul se lançou sobre sua espada (1 Samuel 31:4), e Judas se enforcou (Mateus 27:5). Em nenhum caso o ato é apresentado como algo aceitável.
Mas aqui é necessário fazer uma distinção importante: todo suicídio é pecado, mas nenhum pecado anula a salvação de um verdadeiro salvo.
Se fosse assim, qualquer pecado não confessado antes da morte condenaria uma pessoa. E quem pode afirmar que um crente verdadeiro sempre confessa absolutamente todos os seus pecados antes de morrer? A salvação não está baseada na nossa capacidade de manter uma ficha limpa até o último segundo, mas na eficácia do sangue de Cristo.
Hebreus 10:14 declara: “Porque com uma só oblação aperfeiçoou para sempre os que são santificados.”
O LADRÃO NA CRUZ E OUTROS PECADORES SALVOS
O ladrão na cruz era um criminoso condenado. Tudo indica que era um homem violento. No entanto, ao voltar-se para o Senhor Jesus e crer, ouviu: “Hoje estarás comigo no paraíso” (Lucas 23:43).
Ele não teve tempo para reparar seus crimes, nem para uma vida de boas obras. Foi salvo pela fé.
Além dele, há muitos que foram assassinos, perseguidores e homens de passado terrível, mas que foram regenerados e hoje estão na glória. O apóstolo Paulo consentiu na morte de Estêvão (Atos 8:1) e perseguiu a Igreja (Atos 9:1-2). Mesmo assim, foi salvo pela graça.
Isso nos mostra que nenhum pecado é maior do que a obra redentora de Cristo, quando há verdadeiro arrependimento e fé.
ENTÃO, UM CRENTE VERDADEIRO PODE COMETER SUICÍDIO?
Aqui precisamos ser muito cuidadosos.
A Bíblia não apresenta um exemplo claro de um verdadeiro salvo cometendo suicídio. Os casos registrados (Saul, Aitofel, Judas) não são apresentados como homens regenerados.
Por outro lado, a Escritura também não ensina que o suicídio é um “pecado imperdoável”. O único pecado chamado de imperdoável é a blasfêmia contra o Espírito Santo (Mateus 12:31-32), e isso tem um contexto específico ligado à rejeição consciente da obra de Deus.
O suicídio pode ser resultado de:
Profunda depressão,
Doença mental,
Desespero extremo,
Fraqueza espiritual grave.
Um verdadeiro crente pode cair em pecados graves. Davi cometeu adultério e homicídio (2 Samuel 11). Pedro negou o Senhor (Lucas 22:54-62). A diferença está na raiz: o salvo é disciplinado por Deus e possui vida divina.
Hebreus 12:6 diz: “Porque o Senhor corrige o que ama.”
Se uma pessoa vive na prática contínua do pecado, sem disciplina, sem arrependimento, sem evidência de nova vida, então a própria Escritura nos leva a questionar se houve novo nascimento (1 João 3:9).
A QUESTÃO CENTRAL: ERA REALMENTE SALVO?
Portanto, a pergunta não é simplesmente: “Cometeu suicídio, está salvo ou perdido?”
A pergunta bíblica correta é: essa pessoa era verdadeiramente nascida de novo?
Se era apenas um crente professo, religioso, mas nunca regenerado, então, ainda que tivesse vivido moralmente correto, estaria perdido. Moralidade não salva ninguém. Efésios 2:8-9 é claro: “pela graça sois salvos, por meio da fé”.
Se, porém, era um verdadeiro salvo, unido a Cristo, selado pelo Espírito Santo, então sua salvação não dependeu do último ato da sua vida, mas da obra consumada do Calvário.
CONCLUSÃO
Eu compreendo o seu posicionamento quando diz que crê que quem comete suicídio estaria perdido, independentemente da confissão religiosa. Essa preocupação nasce do zelo pela santidade.
Mas biblicamente falando, não é o tipo de pecado que determina a salvação, e sim a relação real com Cristo.
Se nunca nasceu de novo — está perdido, com ou sem suicídio.
Se nasceu de novo — foi salvo pela graça, não por mérito próprio.
Isso não minimiza a gravidade do suicídio. Pelo contrário, devemos alertar com seriedade: a vida pertence a Deus. O desespero nunca é solução. O Senhor Jesus é suficiente para sustentar em qualquer dor.
Mas também não podemos ensinar que a eficácia da cruz depende do último segundo de consciência do homem.
Que o Senhor nos conceda equilíbrio, fidelidade à Escritura e compaixão pastoral ao tratar de um assunto tão doloroso.