Alguém que me escreveu no WhatsApp:
Como fica este versículo num crente que tira a sua vida? "E vós sabeis que nenhum homicida tem a vida eterna permanecendo nele." (1 João 3:15)
Minha Resposta:
A sua pergunta é muito importante, porque 1 João 3:15 parece, à primeira vista, fechar qualquer possibilidade:
“E vós sabeis que nenhum homicida tem a vida eterna permanecendo nele.”
Como aplicar isso a um crente que tira a própria vida?
Para responder corretamente, precisamos considerar três aspectos: o contexto da epístola, o sentido da palavra “homicida” e a diferença entre prática de vida e ato isolado.
O CONTEXTO DE 1 JOÃO
A primeira epístola de João não trata de perda de salvação, mas de evidências da nova vida. João escreve para que os crentes saibam que têm vida eterna (1 João 5:13). Ele estabelece contrastes absolutos:
Luz e trevas
Amor e ódio
Filhos de Deus e filhos do diabo
Quando João afirma que “nenhum homicida tem a vida eterna permanecendo nele”, ele está falando de caráter, de natureza, de prática habitual.
Veja o versículo anterior (1 João 3:14):
“Nós sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos.”
O contraste é claro: quem vive em ódio demonstra que nunca passou da morte para a vida. O homicídio aqui está ligado ao ódio permanente, à disposição interior de eliminar o outro. João não está discutindo um ato isolado, mas um estado espiritual contínuo.
O SENTIDO DE “HOMICIDA”
O Senhor Jesus já havia ensinado em Mateus 5:21-22 que o homicídio começa no coração, no ódio.
Portanto, em 1 João 3, o foco não é simplesmente o ato físico de matar, mas o espírito de ódio que caracteriza quem não nasceu de Deus. É alguém cuja natureza permanece dominada pelas trevas.
A expressão “não tem a vida eterna permanecendo nele” indica ausência de nova vida, não perda dela.
João não diz: “perdeu a vida eterna”.
Ele diz: “não tem”.
Isso aponta para alguém que nunca foi regenerado.
A DIFERENÇA ENTRE PRÁTICA CONTÍNUA E QUEDA GRAVE
A própria epístola ensina que o crente pode pecar:
“Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos” (1 João 1:8).
“Meus filhinhos, estas coisas vos escrevo para que não pequeis; e, se alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai” (1 João 2:1).
Logo, João reconhece que um salvo pode cair em pecado. O que ele nega é que o salvo viva na prática constante e característica do pecado como estilo de vida (1 João 3:9).
Davi foi responsável por homicídio (2 Samuel 11). No entanto, ele era um homem segundo o coração de Deus (1 Samuel 13:14). Seu pecado foi gravíssimo, mas não provava ausência de nova vida; provava fraqueza moral e queda espiritual, seguida de disciplina e arrependimento.
Se aplicássemos 1 João 3:15 de forma absoluta ao ato isolado, teríamos que concluir que Davi nunca teve vida eterna, o que contradiz todo o testemunho bíblico.
E O CASO DO SUICÍDIO?
O suicídio é pecado grave, pois envolve tirar a própria vida. Mas a questão não é a gravidade do ato — é a condição espiritual anterior.
Se alguém vive dominado por ódio, violência, desprezo contínuo pela vida, isso revela ausência de vida eterna.
Mas se um verdadeiro salvo, em profunda fraqueza emocional, depressão severa ou perturbação mental, comete um ato trágico, isso não transforma sua natureza regenerada em natureza perdida.
A vida eterna não é anulada por um ato final, mas fundamentada na obra consumada do Senhor Jesus Cristo.
“O que ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna, e não entrará em condenação” (João 5:24).
Observe: “tem” — presente.
“não entrará” — futuro garantido.
A CONCLUSÃO BÍBLICA
1 João 3:15 não está ensinando que um salvo pode perder a vida eterna por cometer homicídio.
Está ensinando que o homicida, como prática e natureza dominante, demonstra que nunca teve a vida eterna.
A epístola trata de evidências de nova vida, não de cancelamento da salvação.
Portanto, a pergunta correta continua sendo:
Essa pessoa era verdadeiramente nascida de novo?
Se nunca foi regenerada, está perdida — com ou sem suicídio.
Se era verdadeiramente salva, sua salvação estava ancorada em Cristo, não na capacidade de manter-se firme até o último instante.
Isso não suaviza o pecado. Não relativiza a gravidade. Mas mantém intacta a suficiência da cruz e a segurança da vida eterna.
Que o Senhor nos dê discernimento e também compaixão ao tratar de temas tão dolorosos.