Alguém que me escreveu no WhatsApp:
Irmão Josué, meditando na Palavra de Deus, cheguei a um entendimento e gostaria do seu parecer.
Ao ler Gênesis 4, percebi que Caim foi o primeiro homem nascido da vontade da carne e do sangue. Quando Deus fala com ele, advertindo-o de que o pecado jaz à porta e que ele deveria dominá-lo, entendi que Deus estava tratando com o espírito do homem, e não com a alma, onde habitam os desejos da carne.
Com base em Jó 32:8 — “Na verdade, há um espírito no homem, e o sopro do Todo-Poderoso o faz entendido” — compreendi que, desde o princípio, Deus sempre falou ao espírito do homem.
A partir disso, formulei outra questão: na dispensação atual, a revelação dirigida ao espírito está especialmente nas Epístolas, enquanto a Lei tinha como objetivo tratar com os que estão na carne, expondo o pecado. Sendo assim, as Epístolas contêm uma revelação mais elevada, que não existia no Pentateuco.
Efésios 5:14 diz: “Desperta, tu que dormes, e levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará.” Entendo que as Epístolas despertam o espírito do homem que está adormecido.
Minha pergunta é: por que a maioria das pessoas que lê as Epístolas não desperta espiritualmente? Por que muitos continuam ou retornam aos sistemas denominacionais criados por homens, em vez de viverem a revelação apresentada nas Epístolas?
Gostaria que o irmão me orientasse sobre isso.
Minha Resposta:
A sua meditação toca em pontos muito profundos da revelação de Deus, e é saudável quando o crente examina as Escrituras com desejo sincero de compreender os caminhos do Senhor. Vamos organizar o assunto para que possamos manter equilíbrio bíblico.
Deus fala ao espírito do homem?
Em Gênesis 2:7 lemos que Deus soprou nas narinas do homem o fôlego de vida, e o homem foi feito alma vivente. O homem foi criado com espírito, alma e corpo (1 Tessalonicenses 5:23). Em Jó 32:8 está escrito: “Na verdade, há um espírito no homem, e o sopro do Todo-Poderoso o faz entendido.”
De fato, é no espírito que o homem pode ter comunhão com Deus. O Senhor Jesus disse: “Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade” (João 4:24). Porém, devemos ter cuidado para não criar uma separação artificial como se Deus nunca falasse à alma, ou como se o espírito estivesse isolado da responsabilidade da pessoa inteira.
Quando Deus falou a Caim em Gênesis 4:6-7, Ele tratou com a consciência dele. Disse: “O pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar.” Ali vemos responsabilidade moral, não apenas um diálogo “espírito versus carne”, mas um chamado ao arrependimento.
O problema do homem não é simplesmente que a alma esteja dominando o espírito, mas que está morto em delitos e pecados (Efésios 2:1). A Escritura não ensina que existe um “espírito adormecido” que precisa apenas ser ativado; ensina que o homem precisa nascer de novo (João 3:3-6).
A Lei é para a carne e as Epístolas são para o espírito?
Aqui precisamos de muito equilíbrio. A Lei foi dada por Deus (Êxodo 20). Ela é “santa, justa e boa” (Romanos 7:12). O problema nunca foi a Lei, mas o homem na carne. Romanos 8:3 diz que a Lei era fraca por causa da carne.
A função da Lei é clara: “pela lei vem o conhecimento do pecado” (Romanos 3:20) e “a lei nos serviu de aio para nos conduzir a Cristo” (Gálatas 3:24). Portanto, a Lei não foi dada apenas para “os que estão na carne”, como se não tivesse valor espiritual; ela revela o caráter de Deus e expõe o estado do homem.
Na dispensação atual, sim, a revelação do mistério da Igreja foi dada especialmente nas Epístolas, sobretudo nas cartas de Paulo (Efésios 3:3-6; Colossenses 1:25-27). Ali temos a plena exposição da posição celestial do crente em Cristo, algo não revelado no Antigo Testamento.
Mas não podemos dizer que o Antigo Testamento não despertava o espírito. O Senhor Jesus disse: “Errais, não conhecendo as Escrituras” (Mateus 22:29), referindo-se justamente ao Antigo Testamento. Em Lucas 24:27, Ele começou por Moisés e por todos os profetas e lhes expôs o que a seu respeito constava em todas as Escrituras.
O problema nunca foi falta de revelação suficiente, mas incredulidade.
Por que muitos leem as Epístolas e não despertam?
Efésios 5:14 diz: “Desperta, tu que dormes, e levanta-te dentre os mortos, e Cristo te esclarecerá.” No contexto, Paulo está falando a crentes que estavam andando como filhos das trevas. Não se trata ali de novo nascimento, mas de restauração prática.
Quanto à sua pergunta: por que muitos leem as Epístolas e continuam em sistemas denominacionais?
Precisamos considerar alguns fatores:
a) Novo nascimento
Nem todos os que leem as Epístolas são nascidos de novo. 1 Coríntios 2:14 afirma: “Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura.” Se não houve regeneração, a leitura não produzirá entendimento espiritual.
b) Crescimento espiritual
Mesmo entre os salvos, há carnais. Em 1 Coríntios 3:1-3, Paulo chama os crentes de Corinto de “carnais” e “meninos em Cristo”. O fato de serem convertidos não os livrou automaticamente de divisões e sistemas humanos.
c) Influência da tradição
O sistema religioso tem força psicológica e cultural. Em Marcos 7:13, o Senhor Jesus falou de invalidar a Palavra de Deus pela tradição. Muitas vezes, o crente lê a Escritura através das lentes do sistema em que foi formado.
d) Custo da obediência
Despertar para certas verdades implica romper com estruturas, perder posições, amizades e reconhecimento. Nem todos estão dispostos a pagar esse preço. João 12:42-43 mostra líderes que creram, mas não confessavam, porque amavam mais a glória dos homens.
O problema é o sistema ou o coração?
É correto reconhecer que muitos sistemas religiosos foram organizados segundo modelos humanos, e não segundo o padrão simples das igrejas locais do Novo Testamento, como vemos em Atos dos Apóstolos 2:42 e nas Epístolas.
Porém, o ponto central não é apenas sair de um sistema, mas andar na verdade. Em Apocalipse 2–3 vemos assembleias locais que já tinham problemas sérios, mesmo sem o modelo denominacional moderno. O Senhor Jesus não chama apenas para mudar de estrutura, mas para arrependimento.
O verdadeiro despertar não é apenas compreender a distinção entre Lei e graça, ou entre Israel e Igreja, mas viver na dependência prática do Senhor Jesus Cristo.
Conclusão equilibrada
– Deus fala ao homem por Sua Palavra, aplicando-a pelo Espírito Santo ao coração e à consciência.
– A Lei revela o pecado; as Epístolas revelam a posição celestial do crente.
– O despertar espiritual depende do novo nascimento, da submissão à Palavra e da disposição de obedecer.
– Nem todo aquele que lê desperta, porque o entendimento espiritual não é apenas intelectual, mas moral e espiritual.
O ponto decisivo é este: “A exposição das tuas palavras dá luz” (Salmo 119:130). Mas essa luz só ilumina aquele que se curva diante da autoridade da Palavra.
Continue examinando as Escrituras, mas sempre permitindo que elas examinem o seu próprio coração primeiro.