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Por que nas vossas igrejas não usam instrumentos musicais?

Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Por que nas vossas igrejas não usam instrumentos musicais? Onde na Bíblia proíbe-se usar instrumentos musicais nas reuniões da igreja? Paulo disse para os crentes salmodiar e os salmos não eram cantados com instrumentos musicais?

Minha Resposta:

Irmão, agradeço a sua pergunta, porque ela é feita com sinceridade por muitos crentes.

Primeiro, é importante deixar claro: não usamos instrumentos musicais nas reuniões da igreja não porque exista um versículo que diga explicitamente “é proibido usar instrumentos”, mas porque entendemos que o padrão do Novo Testamento para a assembleia é outro.

A questão não é: “Onde a Bíblia proíbe?”, mas: “O que a Bíblia ensina e apresenta como prática da igreja?”

  1. A diferença entre Israel e a Igreja

No Antigo Testamento, especialmente no livro dos Salmos, encontramos abundantes referências a instrumentos: harpa, saltério, címbalos, trombetas (Salmos 150). Mas é fundamental lembrar que esses cânticos estavam ligados ao culto levítico no templo, sob a Lei de Moisés.

Em 2 Crônicas 29:25, por exemplo, vemos que os instrumentos foram estabelecidos “segundo o mandado de Davi e de Gade, o vidente do rei, e do profeta Natã; porque este mandado veio do Senhor por meio dos seus profetas”. Ou seja, os instrumentos faziam parte de um sistema sacerdotal, cerimonial e nacional, ligado ao templo e ao sacrifício.

A igreja, porém, não está debaixo da Lei, nem possui templo físico, nem sacerdócio levítico, nem altar material. O culto cristão não é uma continuação do culto judaico reformado; é algo novo, de natureza espiritual.

  1. O padrão do Novo Testamento para o cantar da igreja

Quando chegamos ao Novo Testamento, o cenário muda completamente.

Em Efésios 5:19 lemos:

“Falando entre vós em salmos, e hinos, e cânticos espirituais; cantando e salmodiando ao Senhor no vosso coração.”

Note que o instrumento mencionado é “o coração”. O verbo “salmodiar” (psallo, no grego) não exige instrumento externo; no contexto, ele é claramente qualificado por “no vosso coração”.

Em Colossenses 3:16:

“Ensinando-vos e admoestando-vos uns aos outros, com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando ao Senhor com graça em vosso coração.”

Outra vez, o foco não está em acompanhamento instrumental, mas no conteúdo espiritual e na edificação mútua.

Em 1 Coríntios 14:15, Paulo diz:

“Cantarei com o espírito, mas também cantarei com o entendimento.”

Nada é dito sobre instrumentos. Ao contrário, todo o capítulo enfatiza inteligibilidade, edificação e participação consciente da assembleia.

É muito significativo que, em todas as instruções sobre a reunião da igreja (1 Coríntios 11–14), não haja qualquer referência a instrumentos musicais.

  1. “Mas Paulo disse para salmodiar…”

É verdade. A palavra “salmo” aparece. Porém, no uso do Novo Testamento, “salmo” não significa necessariamente o livro dos Salmos cantado com harpa, como no templo.

A igreja primitiva cantava “salmos, hinos e cânticos espirituais”. Isso inclui composições cristãs. O centro agora não é o templo em Jerusalém, mas Cristo glorificado; não é a arca, mas o trono celestial; não é a sombra, mas a realidade.

Além disso, é notável que, historicamente, os primeiros cristãos não usaram instrumentos nas reuniões por vários séculos. Isso mostra como eles entenderam o ensino apostólico.

  1. A natureza espiritual do culto cristão

O Senhor Jesus disse em João 4:23-24:

“Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem. Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade.”

A ênfase está na realidade interior, não em aparato exterior. O culto cristão não depende de estímulos sensoriais, mas da ação do Espírito Santo no coração regenerado.

No Antigo Testamento, havia sacerdotes separados, instrumentos consagrados, vestes especiais, incenso, altar, sacrifícios. No Novo Testamento, todos os crentes são sacerdotes (1 Pedro 2:5), e o sacrifício é espiritual: “fruto dos lábios que confessam o seu nome” (Hebreus 13:15).

  1. Uma questão de obediência ao modelo apostólico

Não afirmamos que um instrumento em si seja pecado. A questão é outra: o que a Palavra apresenta como prática da igreja reunida?

Quando o Novo Testamento regula a Ceia do Senhor, o ministério, o exercício dos dons, o papel da mulher, o silêncio, a ordem na reunião — ele é específico. E nesse mesmo contexto, nunca há menção de instrumentos.

Se algo fez parte do culto judaico e desaparece completamente nas instruções apostólicas para a igreja, devemos pelo menos considerar que isso não pertence ao modelo da assembleia cristã.

Portanto, nossa prática não é baseada em uma proibição explícita, mas em um princípio: seguir o padrão simples, espiritual e apostólico do Novo Testamento.

Concluindo

Os salmos no Antigo Testamento eram, sim, acompanhados por instrumentos no contexto do templo e da nação de Israel. Mas a igreja não é Israel, e a reunião da igreja não é o templo levítico.

Na assembleia, o instrumento é o coração regenerado. O louvor sobe não por cordas vibrando, mas por vidas transformadas.

Assim, nossa posição não é uma crítica a quem usa instrumentos, mas um desejo de permanecer o mais próximo possível do modelo que vemos nas Escrituras para a igreja reunida.

Com estima cristã,

Josué Matos