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Tenho visto que boa parte da teologia cristã, em maior ou menor grau, se desenvolveu não tanto de um estudo sério da Escritura

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Irmão Josué, em minhas leituras, tenho visto que boa parte da teologia cristã, em maior ou menor grau, se desenvolveu não tanto de um estudo sério da Escritura, (respeitando seu contexto mediato e imediato em sua forma histórico-gramatical), mas muito da mesma foi desenvolvido com base em pressupostos filosóficos, principalmente de Aristóteles, dentre outros. Vemos isto na teologia católica, com Tomás de Aquino, que foi profundamente influenciado por Aristóteles (já citado), bem como no Calvinismo, que se escorou profusamente em Agostinho de Hipona, que foi profundamente também influenciado pela filosofia grega. Irmão Josué, como estudar a Bíblia sem este "fermento" filosófico, que tanto influenciou o entendimento das coisas divinas com raciocínios limitados pela filosofia, nos trazendo, por fim, uma "mistura" doutrinária que tanto mal fez à obra de Deus no mundo?

Minha Resposta:

Amado irmão,

A sua percepção é bastante pertinente e toca num ponto sensível da história do pensamento cristão. De fato, ao longo dos séculos, a teologia cristã foi sendo desenvolvida em contextos culturais específicos, e isso fez com que categorias filosóficas externas às Escrituras fossem, muitas vezes, usadas como lentes interpretativas. O problema não é apenas histórico, mas metodológico e espiritual.

É inegável que, desde os primeiros séculos, houve uma aproximação entre fé cristã e filosofia grega. Já no período patrístico, especialmente com figuras como Agostinho, houve forte diálogo com o platonismo e, mais tarde, com o neoplatonismo. Na Idade Média, a síntese entre fé e razão ganhou contornos sistemáticos com Tomás de Aquino, profundamente influenciado por Aristóteles. Esses sistemas procuravam organizar a doutrina cristã de forma lógica, coerente e defensável diante do pensamento dominante da época. O mesmo pode ser observado, ainda que de forma diferente, em sistemas teológicos posteriores, inclusive no calvinismo, que herdou categorias metafísicas e conceituais anteriores à Reforma.

A Escritura, porém, não se apresenta como um tratado filosófico. Ela é revelação divina dada em linguagem histórica, progressiva, pactual e redentiva. Os autores bíblicos não pensam a partir de categorias aristotélicas como “ato e potência”, “substância e acidente”, ou “causa primeira”, mas a partir da relação viva entre Deus e o homem, do pecado, da redenção, da promessa e do cumprimento. Quando essas categorias filosóficas passam a governar a leitura do texto bíblico, o risco é inverter a ordem: em vez de a Escritura julgar os nossos sistemas, os sistemas passam a julgar a Escritura.

O próprio Novo Testamento alerta contra esse perigo. O apóstolo Paulo escreve aos colossenses advertindo: “Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo” (Colossenses 2:8). Aqui não se trata de uma rejeição ao uso da razão, mas de uma denúncia clara contra qualquer estrutura de pensamento que se torne concorrente ou superior à revelação de Deus em Cristo.

Como, então, estudar a Bíblia sem esse “fermento” filosófico?

Primeiro, é necessário reafirmar a suficiência e a autoridade das Escrituras. A Bíblia interpreta a própria Bíblia. Textos claros lançam luz sobre textos mais difíceis, e nenhuma doutrina deve ser construída a partir de inferências filosóficas que não estejam firmemente ancoradas no testemunho global da Palavra de Deus. “Toda a Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça” (2 Timóteo 3:16).

Segundo, é fundamental respeitar o método histórico-gramatical em submissão espiritual. Isso significa ler cada texto no seu contexto imediato e mediato, considerando o género literário, o momento histórico, o propósito do autor humano e, sobretudo, a intenção do Autor divino. Mas esse método, por si só, não basta se for aplicado de forma meramente académica. O Senhor Jesus disse: “Se alguém quiser fazer a vontade dele, conhecerá a respeito da doutrina” (João 7:17). O entendimento espiritual está ligado à disposição do coração.

Terceiro, é preciso deixar que a linguagem bíblica molde as nossas categorias, e não o contrário. A Bíblia fala em termos como vida e morte, luz e trevas, carne e espírito, fé e incredulidade, justiça e pecado, cabeça e corpo, pastor e ovelhas. Quando substituímos essas categorias por esquemas abstratos importados da filosofia, perdemos a força e a simplicidade da revelação divina.

Quarto, devemos reconhecer que o Espírito Santo é o verdadeiro Mestre. O Senhor prometeu que o Espírito guiaria os Seus discípulos em toda a verdade (João 16:13). O estudo sério das Escrituras não é independente da dependência espiritual. A iluminação do Espírito não anula o estudo, mas dá vida, direção e equilíbrio a ele.

Por fim, convém lembrar que Deus nunca confiou a preservação da verdade a sistemas, mas à Sua Palavra viva. A história da Igreja mostra que, sempre que a teologia se cristalizou em esquemas fechados, a vida espiritual enfraqueceu. Em contrapartida, os períodos de maior frescor espiritual foram marcados por um retorno simples, reverente e obediente às Escrituras.

Portanto, estudar a Bíblia sem o “fermento” filosófico não significa ignorar a história do pensamento cristão, mas submeter toda tradição, todo sistema e todo raciocínio à autoridade final da Palavra de Deus. É voltar a ouvir a Escritura como Palavra viva, capaz de julgar os pensamentos e intenções do coração (Hebreus 4:12), permitindo que ela mesma forme o nosso entendimento das coisas divinas.

Josué Matos

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