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Desculpa, meu irmão, o relógio não parou de maneira nenhuma

 Alguém que me escreveu no YouTube:

Desculpa, meu irmão, o relógio não parou de maneira nenhuma. De onde o senhor tirou isso. Ficamos somente com o texto. As 70 semanas foram dadas para o povo de Israel, e ponto.

Minha Resposta:

Quando falamos que o “relógio” não correu de forma contínua, não estamos a inventar algo fora do texto, mas a observar cuidadosamente o próprio texto de Daniel.

É verdade que as setenta semanas foram determinadas sobre o povo de Israel e sobre a santa cidade, conforme Daniel 9:24 afirma de forma clara. Esse ponto não está em discussão. O que precisa ser observado é como o próprio texto distribui essas semanas e o que acontece dentro delas.

Daniel 9:25 faz uma divisão explícita: desde a saída da ordem para restaurar e edificar Jerusalém até o Messias, o Príncipe, há sete semanas e sessenta e duas semanas. O texto não apresenta as sessenta e nove semanas como um bloco contínuo e indiferenciado, mas já introduz uma estrutura interna.

Em seguida, Daniel 9:26 afirma algo decisivo: depois das sessenta e duas semanas, o Messias será cortado, e não será para Si mesmo. Esse “depois” é fundamental. O corte do Messias não ocorre dentro da sexagésima nona semana, mas após ela. Além disso, o mesmo versículo menciona a destruição da cidade e do santuário, algo que historicamente ocorreu décadas depois da morte do Messias, no ano 70. Esses eventos não pertencem às semanas contadas até o Messias, mas acontecem depois delas.

Quando chegamos a Daniel 9:27, o texto fala de uma semana específica, marcada por uma aliança, sua ruptura no meio da semana e a cessação do sacrifício e da oferta. O texto não diz que essa semana segue imediatamente a anterior, apenas a apresenta como uma semana distinta, caracterizada por eventos que não se ajustam nem ao ministério do Messias nem ao período imediatamente posterior à Sua morte.

Portanto, não se trata de dizer que Deus mudou o plano ou que Israel deixou de ser o alvo da profecia. Trata-se de reconhecer que o próprio texto mostra um intervalo entre a sexagésima nona e a septuagésima semana. Durante esse intervalo, o Messias já foi rejeitado, a cidade foi destruída e Israel permanece em condição de dispersão, algo que Daniel 9:26 descreve, mas que não é contado dentro das semanas.

Esse mesmo princípio aparece noutras passagens proféticas. Isaías 61:1–2, por exemplo, une numa mesma leitura a primeira e a segunda vinda do Messias, mas o próprio Senhor Jesus, em Lucas 4:19–21, interrompe a leitura antes da expressão “o dia da vingança do nosso Deus”, mostrando um intervalo entre as duas partes da profecia. O texto estava lá o tempo todo; o intervalo é revelado pelo cumprimento histórico.

Assim, afirmar que há um intervalo não é sair do texto, mas deixar que o texto, lido à luz do cumprimento histórico e do conjunto das Escrituras, fale por si mesmo. As setenta semanas são, sim, para Israel, mas nem todas correm de forma ininterrupta, segundo o próprio testemunho de Daniel.

Josué Matos