Alguém que me escreveu no YouTube:
Graça e paz, irmão, eu gosto dos seus ensinamentos, porém não consigo ser pré-tribulacionista, não há problema algum desde que a vida espiritual e a comunhão com Deus estejam em dia, preparar as vestes para o arrebatamento, independente da crença de arrebatamento antes ou depois. Quando leio as escrituras de forma literal e direta, não consigo ver a igreja sendo arrebatada antes. Um versículo que fala de grande tribulação é Apocalipse 3:10, mas o verbo é “guardar”, o mesmo verbo usado em João 17:15, quando Jesus pede a Deus para não tirar eles do mundo e sim “guardar” do maligno. Nesse caso, eu entendo que guardar é diferente de arrebatamento “arrancar, tirar”. Outro versículo é 1 Tessalonicenses 1:10, lá diz que Deus nos livra da ira vindoura, mas essa ira, quando é mencionada na primeira carta, se refere ao dia da vingança de Deus, ao juízo final e não à grande tribulação, percebo isso em 1 Tessalonicenses 4:6, 2 Tessalonicenses 1:8. Em outros lugares no Novo Testamento, essa ira, conhecida como o dia da ira ou a ira de Deus, geralmente é ligada ao juízo final. Um deles que eu lembro é Romanos 2:5 (acumula ira no dia da ira). Então, Deus livra o seu povo da ira dele, é ser livrado do juízo final, pois fomos comprados pelo sacrifício de Jesus, aqueles que creram e tiveram a conversão. Nesse caso, como isso indica que Deus livra o povo do juízo final e não da grande tribulação necessariamente. É difícil, porque nenhum ser humano quer passar por essa aflição. Agora tenho uma dúvida na questão da visão mais pré-tribulacionista, se o senhor puder me tirar essa dúvida, porque se o arrebatamento é antes, quem ficou no caso foi só ímpios, certo? Pois a igreja já foi arrebatada, antes do período tribulacional, o evento sequente seria as taças sendo derramadas, certo? Mas como é que Deus derrama as taças da ira dele contra os ímpios, porque são para os ímpios, a qual fala lá em Apocalipse, na grande tribulação, sendo que o anticristo vai estar perseguindo ? Perseguindo quem se a igreja foi arrebatada? No caso, os ímpios teriam uma segunda chance? Pois existem os 144 mil e uma grande multidão que João viu de todo canto da terra que não adoraram a besta, ou seja, os ímpios que ficaram foram convertidos e tiveram uma segunda chance? Na visão pré, as taças de Deus ocorrem durante a grande tribulação? Pois o evento subsequente segundo a cronologia do apocalipse é que as taças da ira de Deus para os ímpios serão derramadas depois do arrebatamento. E se o arrebatamento foi antes da grande tribulação, as taças são derramadas no período da tribulação junto com a perseguição do anticristo? E em 2 Tessalonicenses 2 diz que Jesus vai ferir o anticristo com a sua boca. Então existem 2 arrebatamentos no caso? Para os 144 mil e a multidão? Eu não consigo entender a pré-tribulação. Aí não consigo ver 2 vindas de Jesus, arrebatamento da igreja e depois o arrebatamento dos 144 mil que são as 12 tribos de Israel, porque existe aquela multidão lá que João mencionou que não faz parte dos 144 mil, nesse caso os ímpios tem segunda chance? E as taças são derramadas no período tribulacional?
Minha Resposta:
Agradeço pela forma respeitosa, honesta e cuidadosa com que o senhor expôs suas convicções e dúvidas. Esse tipo de diálogo honra a Palavra de Deus e demonstra zelo genuíno pelas Escrituras. Não se trata aqui de rotular alguém como “mais” ou “menos” espiritual por sua posição escatológica, mas de examinar com reverência aquilo que Deus revelou, distinguindo corretamente as coisas que diferem.
Vou procurar responder de maneira organizada, abordando os pontos levantados, sem impor conclusões, mas mostrando como a compreensão pré-tribulacionista entende esses textos e eventos à luz do conjunto das Escrituras.
A distinção fundamental entre Igreja, Israel e nações
Grande parte das dificuldades na compreensão da pré-tribulação nasce quando não se distingue claramente entre três grupos que aparecem ao longo de toda a Bíblia: a Igreja, Israel e as nações.
A Igreja é o Corpo de Cristo, formado por judeus e gentios, unidos em um só corpo pela habitação do Espírito Santo, algo revelado de forma plena apenas no Novo Testamento, especialmente em Efésios 1:22-23; Efésios 3:3-6; Colossenses 1:24-27.
Israel é uma nação terrena, com promessas específicas ligadas à terra, ao reino davídico e à restauração nacional, conforme Gênesis 12:1-3; Gênesis 15; 2 Samuel 7; Jeremias 31:35-37; Ezequiel 36–37.
As nações (gentios) aparecem como objeto do governo de Deus, tanto em juízo quanto em bênção, especialmente no contexto profético.
A grande tribulação não é apresentada nas Escrituras como um período destinado à Igreja, mas como o tempo de angústia de Jacó, conforme Jeremias 30:7, ligado diretamente à restauração final de Israel e ao juízo das nações.
Apocalipse 3:10 e o verbo “guardar”
O senhor fez uma observação correta ao notar que o verbo “guardar” também aparece em João 17:15. Porém, é importante observar que o texto de Apocalipse 3:10 não diz apenas “guardar do mal”, mas “guardar da hora da provação que há de vir sobre todo o mundo, para provar os que habitam sobre a terra”.
Em João 17:15, o pedido do Senhor Jesus é para que os discípulos fossem guardados do maligno enquanto permaneciam no mundo. Em Apocalipse 3:10, o objeto do livramento não é apenas um perigo, mas uma hora específica, um período delimitado, mundial e com propósito judicial.
A expressão “guardar da hora” aponta não apenas para preservação dentro do período, mas para exclusão dele. Não é apenas ser guardado na provação, mas guardado da própria hora da provação. Isso se harmoniza com 1 Tessalonicenses 1:10 e 1 Tessalonicenses 5:9, onde se afirma claramente que Deus não nos destinou para a ira.
A ira de Deus: juízo final ou tribulação?
O senhor está correto ao afirmar que a ira de Deus, em muitos textos, aponta para o juízo final, como em Romanos 2:5. No entanto, a Bíblia também apresenta a ira de Deus como sendo derramada progressivamente na história, culminando no juízo final.
No livro de Apocalipse, os selos, trombetas e taças são explicitamente chamados de juízos procedentes da ira de Deus, especialmente as taças, descritas como “as sete últimas pragas, porque nelas se consuma a ira de Deus” (Apocalipse 15:1).
A Igreja é vista como já justificada, reconciliada e salva da ira, não apenas da condenação eterna, mas da ira governamental de Deus que cairá sobre o mundo rebelde. Romanos 5:9 afirma: “Logo muito mais agora, tendo sido justificados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira”.
Quem fica após o arrebatamento?
Aqui está um ponto central da sua dúvida, e ela é muito legítima.
Na visão pré-tribulacionista, após o arrebatamento da Igreja, não ficam apenas ímpios no sentido absoluto de “incapazes de se converter”. Ficam pessoas não regeneradas, sim, mas isso não significa que Deus cesse Sua obra salvadora.
Durante a tribulação, Deus volta a tratar de forma direta com Israel e com as nações. Surgem então:
– Os 144 mil, selados dentre as doze tribos de Israel, conforme Apocalipse 7:1-8, claramente identificados como judeus literais.
– Uma grande multidão que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, que “vieram da grande tribulação”, conforme Apocalipse 7:9-14.
Esses não são a Igreja. A Igreja já está vista no céu antes disso, representada simbolicamente pelos vinte e quatro anciãos em Apocalipse 4–5, antes da abertura dos selos.
Existe “segunda chance”?
A expressão “segunda chance” pode ser enganosa. A Bíblia nunca diz que Deus oferece uma “nova oportunidade” institucional após o arrebatamento. O que acontece é que pessoas que rejeitaram o evangelho antes, mas não o fizeram com plena luz e responsabilidade, ainda poderão ouvir a mensagem do reino durante a tribulação.
Por outro lado, 2 Tessalonicenses 2:10-12 mostra que muitos serão entregues a um engano poderoso justamente porque rejeitaram a verdade quando a tiveram de forma consciente. Ou seja, não se trata de um reavivamento fácil, mas de um período de extrema pressão, perseguição e martírio.
Os salvos da tribulação, em sua maioria, selam seu testemunho com a própria vida, conforme Apocalipse 6:9-11 e Apocalipse 20:4.
Quem o anticristo persegue?
O anticristo não persegue a Igreja, pois ela já não está mais na terra. Ele persegue:
– O remanescente fiel de Israel, conforme Daniel 7:25; Daniel 12:1; Apocalipse 12.
– Os gentios convertidos durante a tribulação, que não adoram a besta nem recebem a marca, conforme Apocalipse 13; Apocalipse 20:4.
Isso explica perfeitamente a perseguição intensa, sem necessidade de a Igreja estar presente na terra.
As taças da ira ocorrem durante a tribulação?
Sim. Na visão pré-tribulacionista, as taças fazem parte do período tribulacional, especialmente da sua fase final, muitas vezes chamada de “grande tribulação” propriamente dita. Elas não são posteriores à tribulação, mas a culminação do juízo de Deus antes da manifestação gloriosa de Cristo.
Existem dois arrebatamentos?
Não. Existe um arrebatamento da Igreja, distinto da manifestação pública de Cristo em glória.
O arrebatamento da Igreja ocorre:
– Sem sinais prévios.
– De forma repentina.
– Para encontrar o Senhor nos ares.
– Com foco nos crentes.
A manifestação de Cristo ocorre:
– Com sinais claros.
– Publicamente.
– Para julgar as nações.
– Para estabelecer o reino milenar.
2 Tessalonicenses 2 fala da manifestação do homem do pecado e de sua destruição pela vinda gloriosa do Senhor, não do arrebatamento da Igreja.
Os 144 mil não são arrebatados como a Igreja; eles são preservados na terra. A grande multidão é resultado da obra salvadora de Deus durante a tribulação, não de um segundo arrebatamento.
Uma palavra final
Sua dificuldade em aceitar a pré-tribulação não é sinal de falta de fé, mas de zelo pelas Escrituras. O ponto central não é vencer um debate escatológico, mas viver em santidade, vigilância e esperança, aguardando o Senhor Jesus Cristo, conforme Tito 2:11-13.
A escatologia bíblica não foi dada para alimentar curiosidade, mas para produzir consolo, separação do mundo e expectativa viva. Independentemente da posição adotada, a exortação permanece a mesma: vigiar, guardar as vestes e amar a Sua vinda.
Que o Senhor continue iluminando sua mente pela Palavra e fortalecendo seu coração na esperança bendita.