Alguém que me escreveu no WhatsApp:
Irmão, fala-se que Darby foi influenciado por Margareth McDonald, que era da seita irvingita, que profetizou elementos escatológicos semelhantes ao que o irmão Darby pregou. Outros, afirmam que ele foi influenciado por escritos do padre Manuel Lacunza. O que o irmão pode me esclarecer sobre isto.
Minha Resposta:
Irmão, essa questão aparece com frequência, e é importante tratá-la com serenidade histórica, clareza doutrinária e, acima de tudo, com o devido respeito à autoridade das Escrituras.
Primeiro, é preciso fazer uma distinção essencial entre três coisas diferentes:
a origem bíblica de determinadas verdades escatológicas,
o desenvolvimento histórico dessas verdades na Igreja,
e as tentativas posteriores de descredibilizá-las por associação.
A Escritura deve sempre ter a primazia. Qualquer sistema ou compreensão escatológica deve ser avaliado à luz do texto bíblico, e não apenas por possíveis paralelos históricos.
Sobre a acusação de influência de Margaret MacDonald
Margaret MacDonald esteve ligada a um movimento carismático do início do século XIX, conhecido como irvingita. Ela teve experiências visionárias e proféticas, registradas de forma fragmentada e tardia. É frequentemente alegado que John Nelson Darby teria extraído dela a ideia do arrebatamento.
Quando se examinam os próprios relatos das visões de Margaret MacDonald, percebe-se algo fundamental:
– Ela não ensinava um arrebatamento distinto da manifestação pública de Cristo.
– Sua expectativa era de uma Igreja passando pela tribulação, sendo purificada por ela.
– Não há, em seus escritos, uma distinção clara entre Israel e a Igreja, nem entre a vinda do Senhor para os santos e a vinda com os santos.
Ou seja, o conteúdo das visões de Margaret MacDonald não corresponde ao ensino escatológico desenvolvido por Darby. O que ela descrevia estava mais alinhado com uma visão pós-tribulacionista e confusa, marcada por experiências subjetivas, e não por uma leitura sistemática das Escrituras.
Além disso, não existe evidência histórica sólida de que Darby tenha tido contato direto com essas visões antes de formular suas conclusões. Seus escritos escatológicos surgem de estudos bíblicos anteriores, feitos em contextos distintos, e baseados numa análise detalhada da Palavra de Deus.
Sobre a suposta influência de Manuel Lacunza
Manuel Lacunza foi um padre jesuíta chileno que escreveu, sob pseudônimo judaico, uma obra escatológica com forte expectativa futurista. É verdade que ele defendia uma leitura literal de muitas profecias e aguardava a vinda futura de Cristo.
Contudo, aqui também é preciso cuidado.
– Lacunza não ensinava um arrebatamento da Igreja separado da manifestação de Cristo.
– Sua obra mistura conceitos católicos, elementos judaizantes e especulações próprias do seu contexto.
– Ele não fazia a distinção clara entre os diversos “tempos” proféticos revelados no Novo Testamento.
O que se pode dizer, com honestidade, é que Lacunza ajudou a reacender o interesse pelo futurismo profético em oposição ao amilenismo dominante. Mas isso é muito diferente de afirmar que Darby simplesmente copiou ou recebeu sua escatologia de Lacunza.
Darby não construiu sua compreensão profética a partir de um livro isolado, mas de anos de estudo bíblico, comparando Escritura com Escritura, observando o uso consistente de termos, promessas e alianças ao longo de toda a revelação.
A base bíblica da escatologia ensinada por Darby
As ideias centrais frequentemente associadas a Darby não nascem no século XIX, mas estão no próprio texto bíblico:
– A distinção entre Israel e a Igreja aparece claramente quando se compara Romanos 11 com Efésios 2 e 3.
– A esperança celestial da Igreja é apresentada em textos como Filipenses 3:20, Colossenses 3:1-4 e 1 Tessalonicenses 4:13-18.
– A ira futura destinada ao mundo incrédulo é mencionada em 1 Tessalonicenses 1:10 e 5:9, enquanto a Igreja é vista como livre dessa ira.
– A vinda do Senhor para os Seus é descrita de forma distinta da manifestação pública em glória, comparando João 14:1-3 com Mateus 24 e Apocalipse 19.
Essas distinções não dependem de revelações extra-bíblicas, mas de uma leitura atenta, progressiva e coerente da revelação divina.
A questão central não é Darby, mas a Escritura
Mesmo que Darby jamais tivesse existido, os textos bíblicos continuariam lá. A pergunta correta não é: “Quem ensinou isso primeiro?”, mas: “Isso está ou não está nas Escrituras?”
Ao longo da história da Igreja, muitas verdades bíblicas ficaram obscurecidas por longos períodos e depois foram redescobertas. Isso aconteceu com a justificação pela fé, com a autoridade das Escrituras e também com aspectos da profecia bíblica.
O fato de uma verdade ter sido mais claramente sistematizada em determinado momento histórico não significa que tenha sido inventada nesse momento.
Conclusão
Não há base histórica sólida para afirmar que Darby foi dependente das visões de Margaret MacDonald ou que tenha simplesmente reproduzido as ideias de Manuel Lacunza. As semelhanças superficiais que alguns apontam não resistem a uma análise cuidadosa do conteúdo.
O que Darby fez foi organizar, com rigor e fidelidade, verdades que já estavam na Palavra de Deus, dando-lhes coerência e distinção. Como qualquer servo do Senhor, ele deve ser avaliado à luz das Escrituras — nem canonizado, nem descartado por acusações frágeis.
No fim, a nossa confiança não está em Darby, nem em Lacunza, nem em qualquer outro homem, mas na revelação completa e suficiente que Deus nos deu nas Santas Escrituras.