Alguém que me escreveu no YouTube:
Como saber se eu me apostatei?
Minha Resposta:
Essa é uma pergunta muito séria e, ao mesmo tempo, muito reveladora. O simples fato de alguém perguntar “como saber se me apostatei?” já indica que existe consciência, temor e sensibilidade espiritual. A Escritura trata a apostasia com muita clareza, mas também com muito discernimento, para que não se confunda fraqueza espiritual, queda moral ou período de frieza com aquilo que a Bíblia realmente chama de apostasia.
Primeiro, é importante entender biblicamente o que é apostasia. Apostasia não é pecado ocasional, nem esfriamento espiritual temporário, nem mesmo um período de afastamento das reuniões ou da leitura da Palavra. Apostasia é um abandono consciente, deliberado e definitivo da fé cristã, depois de tê-la conhecido intelectualmente e convivido com ela. A Palavra descreve a apostasia como um afastamento da verdade, não por ignorância, mas por rejeição voluntária.
A Epístola aos Hebreus trata disso de forma muito solene quando fala daqueles que “foram iluminados, provaram o dom celestial, se tornaram participantes do Espírito Santo, provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro” e, ainda assim, caíram. O ponto central não é a queda em si, mas a rejeição final e consciente de Cristo como único Salvador e Senhor. Não se trata de alguém que luta contra o pecado, mas de alguém que passa a negar, desprezar ou substituir a pessoa e a obra de Jesus Cristo.
Outro texto fundamental é a Primeira Epístola de João, onde se lê que alguns “saíram de entre nós, mas não eram dos nossos; porque, se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco”. Aqui fica claro que a apostasia se manifesta na ruptura definitiva com a fé apostólica, acompanhada de negação da verdade sobre Cristo. O apóstolo João não descreve pessoas aflitas ou arrependidas, mas pessoas que abandonaram a comunhão porque, no fundo, nunca tiveram a vida de Deus.
Por isso, um critério essencial é este: o apóstata não sente falta de Cristo, não sente saudade da comunhão, não se entristece por estar distante de Deus. Pelo contrário, ele justifica seu afastamento, racionaliza sua incredulidade e, muitas vezes, passa a se opor abertamente à verdade do evangelho. Em muitos casos, a apostasia vem acompanhada de ensino falso, desprezo pelas Escrituras e relativização da cruz.
Já o crente verdadeiro, mesmo quando cai, mesmo quando se afasta por um tempo, sente peso na consciência, sente tristeza pelo distanciamento, sente fome espiritual. Davi pecou gravemente, mas clamou dizendo que o seu pecado estava sempre diante dele. Pedro negou o Senhor Jesus, mas chorou amargamente e foi restaurado. A diferença não está na ausência de quedas, mas na presença de arrependimento.
Outro ponto muito importante: a apostasia não é algo que acontece “sem a pessoa perceber”. Ela envolve decisão consciente. A carta aos Hebreus fala de “pisar o Filho de Deus”, “ter por profano o sangue da aliança” e “ultrajar o Espírito da graça”. Isso descreve uma atitude ativa de rejeição, não um estado de confusão espiritual, dúvida ou luta interior.
Por isso, se a pessoa teme ter se apostatado, isso, por si só, já é um forte indício de que não se trata de apostasia. O apóstata não teme, não pergunta, não busca esclarecimento. Ele se afasta com convicção endurecida. Já aquele que pergunta demonstra que ainda há sensibilidade à voz de Deus, ainda há consciência espiritual operando.
É necessário também distinguir entre disciplina divina e apostasia. O Senhor corrige os Seus filhos quando se desviam, como ensina a Epístola aos Hebreus ao afirmar que Ele disciplina a todo filho que recebe. A disciplina dói, gera tristeza momentânea, mas produz fruto pacífico de justiça. A apostasia, ao contrário, produz endurecimento, indiferença e, muitas vezes, hostilidade à verdade.
Outro sinal claro: quem se apostata abandona a verdade sobre a pessoa de Cristo. Ou nega a Sua divindade, ou nega a eficácia plena da cruz, ou substitui a salvação pela graça por obras, rituais ou experiências místicas. O centro da fé deixa de ser o Senhor Jesus. Já o crente em crise pode estar fraco, confuso ou abatido, mas ainda reconhece que fora de Cristo não há vida.
Por fim, a Escritura sempre aponta para a restauração daquele que se arrepende. “Se confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para nos perdoar e nos purificar de toda injustiça.” Essa promessa não é dirigida a apóstatas, mas a filhos que caíram. Onde há confissão sincera e desejo de voltar, há perdão, restauração e comunhão renovada.
Portanto, a resposta bíblica é clara: quem realmente se apostatou não se preocupa com isso. Quem teme, pergunta, sofre e deseja reconciliação, não está em apostasia, mas precisa de restauração, ensino sólido e retorno consciente à comunhão com Deus e com o povo do Senhor. A Palavra não foi dada para esmagar consciências sensíveis, mas para alertar os negligentes e consolar os quebrantados.