Alguém que me escreveu no YouTube:
E quando os pastores falam que o dízimo foi praticado antes de Moisés, dado por Abraão e Jacó?
Minha Resposta:
Quando alguns pastores dizem que o dízimo foi praticado antes da Lei, citando Abraão e Jacó, é importante observar com cuidado o que o texto bíblico realmente afirma — e também o que ele não afirma.
No caso de Abraão, em Gênesis 14:18-20, ele deu a décima parte dos despojos a Melquisedeque após uma vitória militar. O texto não apresenta isso como um mandamento, nem como uma prática regular, nem como algo exigido por Deus. Foi um ato único, voluntário e circunstancial, ligado aos despojos da guerra, e não à renda pessoal ou a uma obrigação contínua. O próprio texto mostra que Abraão não reteve nada para si, nem instituiu esse gesto como norma para sua descendência.
Quanto a Jacó, em Gênesis 28:20-22, ele faz um voto pessoal a Deus, prometendo dar o dízimo caso o Senhor o guardasse, o sustentasse no caminho e o fizesse voltar em paz. Novamente, não se trata de um mandamento divino, mas de um voto condicional e individual. A Escritura não registra Jacó ensinando isso a outros, nem Deus exigindo esse voto de alguém.
É somente com a Lei de Moisés que o dízimo passa a ser instituído como um mandamento nacional para Israel, ligado ao sistema levítico, ao sustento dos levitas, às festas e ao cuidado dos necessitados, conforme Números 18, Deuteronômio 12, 14 e Malaquias 3. Esse dízimo estava diretamente associado ao templo, ao sacerdócio levítico e à economia da nação de Israel, e não à igreja.
No Novo Testamento, não há qualquer mandamento para a igreja praticar o dízimo. O ensino apostólico aponta para contribuições voluntárias, conscientes e proporcionais, segundo a prosperidade de cada um, feitas com liberalidade e alegria, e não por obrigação ou constrangimento, como ensinado em 2 Coríntios 8 e 9.
Portanto, usar Abraão e Jacó para impor o dízimo como uma obrigação para o cristão hoje é misturar dispensações distintas e ignorar o contexto bíblico. A Escritura mostra claramente a diferença entre um ato voluntário ocasional, um voto pessoal e um mandamento legal dado exclusivamente a Israel. A prática cristã não se baseia em imposição legal, mas em graça, responsabilidade espiritual e generosidade voluntária diante de Deus.