Alguém que me escreveu no YouTube:
Eu tinha vencido um pecado já havia 2 anos, aí acabei esfriando na fé, deixei de ler a Bíblia e de orar, acabei voltando para essa prática e fiquei uns 4 anos nela. Só que, devido ao falecimento do meu pai, eu tive um choque de realidade e decidi voltar a buscar a Deus há uns 4 meses, porém depois veio esse texto na minha mente, aí eu fiquei muito perturbado se eu tinha apostatado!
Minha Resposta:
Obrigado pela sua sinceridade. O que você descreve é mais comum do que imagina, e a Palavra de Deus trata exatamente desse tipo de situação com muita clareza e misericórdia.
Primeiro, é importante distinguir duas coisas que a Bíblia distingue: cair em pecado e apostatar. Apostasia não é simplesmente ter esfriado, nem ter voltado a uma prática pecaminosa por um período, ainda que longo. Apostasia é uma rejeição consciente, deliberada e definitiva da fé em Jesus Cristo, acompanhada de endurecimento do coração e desprezo pela obra da cruz. A Escritura descreve o apóstata como alguém que não quer voltar, não se arrepende e não se importa mais com Deus.
No seu relato, vemos exatamente o contrário. Houve esfriamento, houve abandono da leitura da Bíblia e da oração, houve recaída em pecado — e isso é grave, sim —, mas agora há arrependimento, temor, desejo de voltar, sensibilidade espiritual e angústia por causa da Palavra. Isso, por si só, já é uma forte evidência de que não houve apostasia.
A Palavra de Deus nos mostra que verdadeiros crentes podem cair gravemente. Davi caiu em adultério e homicídio e permaneceu um tempo em silêncio espiritual, até que foi quebrantado (Salmos 32:3-5; Salmos 51:1-12). Pedro negou o Senhor Jesus três vezes de forma pública e vergonhosa, mas foi restaurado (Evangelho de Lucas 22:31-32; Evangelho de João 21:15-17). Nenhum desses homens foi tratado como apóstata, mas como filhos disciplinados.
O texto que veio à sua mente e o perturbou provavelmente é daqueles textos solenes de advertência, como os da Epístola aos Hebreus. Esses textos não foram escritos para lançar o verdadeiro crente ao desespero, mas para alertar sobre o perigo real de se afastar progressivamente da luz até chegar ao ponto de rejeição consciente de Cristo. O próprio fato de você ter sido despertado, confrontado e trazido de volta mostra que Deus está agindo em graça na sua vida, pois “o Senhor corrige a quem ama” (Provérbios 3:12; Hebreus 12:6).
Além disso, a Bíblia ensina que a tristeza segundo Deus produz arrependimento para a salvação, do qual não há do que se arrepender (2 Coríntios 7:10). Essa inquietação que você sente não é sinal de condenação, mas de vida espiritual. Quem apostata de fato não se entristece, não teme, não busca restauração.
A morte do seu pai, embora dolorosa, foi usada por Deus como um choque de realidade, um chamado à sobriedade e à eternidade. A Escritura diz que Deus fala ao homem até mesmo por meio da dor, para desviá-lo do orgulho e livrar a sua alma da perdição (Jó 33:14-18). Isso também é graça.
Agora, o caminho é claro: se já existe uma conversão verdadeira, resta uma confissão sincera, abandono do pecado e restauração da comunhão. “Se confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (Primeira Epístola de João 1:9). Deus não está lhe pedindo para provar nada, apenas para voltar com o coração quebrantado, confiando na obra perfeita de Jesus Cristo na cruz.
Não viva olhando apenas para o passado. Olhe para Cristo. A segurança do crente não está na sua constância, mas na fidelidade de Deus. “Aquele que começou a boa obra em vós há de completá-la até o dia de Jesus Cristo” (Epístola aos Filipenses 1:6).
Permaneça na Palavra, na oração e na comunhão. Fuja das ocasiões que alimentam o pecado. Caminhe na luz. E descanse: um apóstata não estaria preocupado com isso. O seu temor é sinal de que Deus ainda está tratando com você como filho.