Áudios

Pesquisar este blog

Explicação Dispensacionalista

 Alguém que me escreveu no YouTube:

Explicação Dispensacionalista. Por favor, qual é o fundamento teológico para esse "deslocamento" da 70ª semana do tempo cronológico das 70 ou 490 anos?

Minha Resposta:

A pergunta é legítima e importante, pois toca no coração da interpretação dispensacional de Daniel 9:24–27. A resposta não parte de um artifício teológico arbitrário, mas de observações textuais, contextuais e comparativas das Escrituras.

O ponto de partida é reconhecer que as “setenta semanas” de Daniel 9:24 são apresentadas como um programa específico determinado “sobre o teu povo e sobre a tua santa cidade”, isto é, Israel e Jerusalém. O texto não fala genericamente da história da redenção, mas de um cronograma relacionado à nação judaica, aos seus pecados, à sua restauração e ao estabelecimento da justiça eterna.

As primeiras sessenta e nove semanas (sete semanas + sessenta e duas semanas) são claramente contínuas e historicamente verificáveis. Daniel 9:25 estabelece o início do período com a ordem para restaurar e edificar Jerusalém, e o término com a vinda do Messias, o Príncipe. O texto de Daniel 9:26 afirma que, depois das sessenta e duas semanas, o Messias seria tirado, e não seria para Si mesmo. Aqui há um ponto crucial: o texto diz “depois” das sessenta e duas semanas, não “na” sexagésima nona semana. Ou seja, o evento da morte do Messias ocorre após o encerramento das sessenta e nove semanas, mas o texto não define imediatamente quanto tempo depois.

Ainda em Daniel 9:26, outros eventos são mencionados: a destruição da cidade e do santuário pelo povo do príncipe que há de vir. Historicamente, isso se cumpre no ano 70 d.C., com a destruição de Jerusalém pelos romanos, um acontecimento que não ocorreu imediatamente após a morte do Messias, mas décadas depois. Isso demonstra, dentro do próprio texto, que há um intervalo indefinido entre o final da sexagésima nona semana e os eventos associados à septuagésima.

Daniel 9:27 introduz uma figura distinta do Messias: “ele firmará um concerto com muitos por uma semana”. O antecedente natural desse “ele” não é o Messias de Daniel 9:26, mas “o príncipe que há de vir”, ligado ao povo que destruiu a cidade e o santuário. Trata-se, portanto, de um governante futuro, não de Cristo. O texto descreve ações que não se harmonizam com o ministério do Senhor Jesus: firmar um pacto de sete anos, romper esse pacto na metade da semana e fazer cessar o sacrifício e a oferta, além de estabelecer a abominação da desolação.

Esse último ponto é decisivo. O Senhor Jesus, em Mateus 24:15, fala da “abominação da desolação, de que falou o profeta Daniel”, como um evento ainda futuro em relação ao Seu ministério terreno. Isso demonstra que a septuagésima semana não se cumpriu na cruz nem nos acontecimentos imediatamente posteriores, mas permanece projetada para o futuro escatológico.

Além disso, o Novo Testamento revela um mistério que não estava explicitamente revelado no Antigo Testamento: a Igreja, o Corpo de Cristo, formada por judeus e gentios em um só corpo, com um chamado celestial distinto. Esse período, frequentemente chamado de “tempo dos gentios” ou “dispensação da graça”, não é contado no relógio profético de Israel. Quando Israel rejeita o Messias, há uma suspensão temporária do trato direto de Deus com a nação como centro do Seu programa terreno, enquanto Ele chama um povo para o Nome do Senhor Jesus Cristo.

Esse princípio não é estranho às Escrituras. Os profetas do Antigo Testamento frequentemente colocam lado a lado eventos separados por longos intervalos sem indicar o espaço entre eles. Um exemplo claro encontra-se em Isaías 61:1–2, onde a primeira parte do versículo se cumpre na primeira vinda de Cristo, conforme Lucas 4:18–19, mas a expressão “o dia da vingança do nosso Deus” permanece futura. O próprio Senhor interrompe a leitura no meio do versículo, reconhecendo implicitamente esse intervalo.

Assim, o chamado “deslocamento” da septuagésima semana não é uma ruptura artificial da cronologia, mas o reconhecimento de que o próprio texto de Daniel 9 exige um intervalo. Esse intervalo é marcado por:
– a morte do Messias após a sexagésima nona semana;
– a destruição de Jerusalém e do templo;
– a ausência, por séculos, de sacrifícios e de um santuário funcional;
– a revelação posterior da Igreja como mistério;
– a futura retomada do trato de Deus com Israel na última semana, associada à grande tribulação e à manifestação final do Messias em glória.

Portanto, o fundamento teológico é triplo: textual (o uso preciso das expressões “depois” e a mudança de personagens em Daniel 9), histórico (eventos separados no tempo entre os versículos 26 e 27) e revelacional (a distinção bíblica entre Israel e a Igreja). Não se trata de forçar o texto a um sistema, mas de permitir que o próprio texto determine a estrutura do cumprimento profético.

Josué Matos