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MUITAS PASSAGENS FALA DA SALVAÇÃO PELA GRAÇA RELACIONADA À OBEDIÊNCIA?

 Alguém me escreveu no YouTube:

A PAZ DO SENHOR, PRESBÍTERO, VOCÊ PREGA BASTANTE FALANDO DA GRAÇA, QUE A SALVAÇÃO NÃO É POR OBRAS, MAS A PALAVRA EM MUITAS PASSAGENS FALA DA SALVAÇÃO PELA GRAÇA RELACIONADA À OBEDIÊNCIA, COMO VOCÊ ENTENDE ISSO? 

1 João 2

2 Ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos pecados de todo o mundo.

3 Sabemos que o conhecemos, se obedecemos aos seus mandamentos.

4 Aquele que diz: "Eu o conheço", mas não obedece aos seus mandamentos, é mentiroso, e a verdade não está nele.

Hebreus 5

9 E, sendo ele consumado, veio a ser a causa da eterna salvação para todos os que lhe obedecem;

CONFESSO QUE FICO CONFUSO, MUITAS PASSAGENS DENOTAM QUE, MESMO NA GRAÇA, SE NÃO ESTIVERMOS DE FORMA IRREPREENSÍVEL 100%, NÃO HAVERÁ SALVAÇÃO, OUVI DE UM PASTOR QUE SOMENTE UM HOMEM ESPIRITUAL CONSEGUE OBEDECER OS DEZ MANDAMENTOS….

Mateus 7:21-23

¹ Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! Entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus.

²² Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? E em teu nome não expulsamos demônios? E em teu nome não fizemos muitas maravilhas?

²³ E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade.

Minha Resposta:

A sua pergunta é muito importante e absolutamente legítima. Muitos crentes sinceros já passaram por essa mesma angústia ao lerem as Escrituras, especialmente quando colocam lado a lado textos que falam claramente da salvação pela graça e outros que enfatizam a obediência. A dificuldade não está na Bíblia, mas na forma como, às vezes, misturamos coisas que a Palavra distingue com clareza.

É fundamental começar pela base: a salvação é exclusivamente pela graça de Deus, mediante a fé, e nunca por obras humanas. Isso é afirmado de forma direta e inequívoca em textos como Efésios 2:8-9, Romanos 3:24-28, Romanos 4:4-5 e Tito 3:4-7. O pecador é declarado justo diante de Deus com base na obra consumada de Cristo, e não com base em qualquer obediência pessoal, esforço moral ou cumprimento da lei. A cruz de Cristo é suficiente, completa e perfeita.

Quando a Escritura fala de obediência em conexão com a salvação, ela não está apresentando a obediência como a causa da salvação, mas como a evidência dela. Essa distinção é essencial.

Observe com cuidado o texto de 1 João 2:2-4. João começa afirmando a base objetiva da salvação: Cristo é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos do mundo inteiro. Aqui não há qualquer condição humana acrescentada à obra de Cristo. A propiciação é completa, suficiente e realizada fora de nós. Em seguida, João passa a tratar da evidência subjetiva dessa salvação na vida do crente. “Sabemos que o conhecemos, se guardamos os seus mandamentos.” Ele não diz: “Conhecemos a Deus porque obedecemos”, mas “sabemos que o conhecemos”. Ou seja, a obediência não produz o novo nascimento; ela manifesta que ele é real.

O versículo 4 é ainda mais forte: aquele que afirma conhecer a Deus, mas vive em desobediência deliberada, demonstra que sua profissão é falsa. João não está ensinando perfeição sem pecado, pois o mesmo apóstolo afirma claramente: “Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos” (1 João 1:8). Ele está tratando de uma vida caracterizada pela prática do pecado, sem arrependimento e sem submissão ao Senhorio de Cristo.

O mesmo princípio se aplica a Hebreus 5:9: “veio a ser a causa da eterna salvação para todos os que lhe obedecem”. Aqui, obedecer não significa cumprir a lei mosaica ou alcançar um padrão moral perfeito, mas responder em fé ao evangelho. O próprio livro de Hebreus esclarece isso quando diz que o evangelho foi anunciado, mas não aproveitou a alguns “por não estar misturado com a fé” (Hebreus 4:2). A obediência, nesse contexto, é a obediência da fé, como o próprio apóstolo Paulo descreve em Romanos 1:5 e Romanos 16:26.

Quanto à ideia de que “se não estivermos irrepreensíveis 100% não haverá salvação”, isso precisa ser corrigido com muita clareza bíblica. Nenhum homem, nem antes nem depois da conversão, alcança impecabilidade nesta vida. Se a salvação dependesse de obediência perfeita, ninguém seria salvo. A justificação é um ato jurídico de Deus, no qual Ele nos vê em Cristo, revestidos da justiça do Seu Filho, conforme Romanos 5:1, 2 Coríntios 5:21 e Filipenses 3:9.

A santificação, por sua vez, é um processo contínuo, imperfeito nesta vida, mas real. O crente verdadeiro tropeça, cai, é disciplinado, confessa seus pecados e é restaurado, conforme 1 João 1:7-9 e Hebreus 12:5-11. Já o falso crente vive no pecado sem arrependimento e sem disciplina do Pai, porque nunca foi gerado de Deus.

A afirmação que você ouviu de que “somente um homem espiritual consegue obedecer os dez mandamentos” também precisa ser colocada em seu devido lugar. A lei nunca foi dada como meio de salvação, mas como instrumento de diagnóstico do pecado. Romanos 3:20 afirma que pela lei vem o conhecimento do pecado. Gálatas 3:24 diz que a lei foi aio para nos conduzir a Cristo, não para nos justificar. O crente não está debaixo da lei como regra de vida para ser aceito por Deus, mas debaixo da graça. Ainda assim, a justiça que a lei exige é plenamente cumprida em nós, não por esforço próprio, mas pela vida de Cristo operando em nós, conforme Romanos 8:3-4.

Por fim, Mateus 7:21-23 é um dos textos mais solenes das Escrituras. O Senhor Jesus não está rejeitando pessoas que confiaram na Sua graça, mas pessoas que confiaram em suas próprias obras religiosas. Elas dizem: “Não fizemos nós…?” Profecias, milagres e maravilhas são apresentadas como base de aceitação. A resposta do Senhor é clara: “Nunca vos conheci”. Não é “eu vos conheci e depois deixei de conhecer”, mas “nunca”. Nunca houve relacionamento real, nunca houve novo nascimento. A prática da iniquidade revela que, apesar da linguagem religiosa, essas pessoas nunca se submeteram à vontade do Pai, que é crer naquele que Ele enviou, conforme João 6:29.

Portanto, não há contradição entre graça e obediência. A graça salva; a obediência confirma. A graça justifica; a obediência evidencia. A graça nos dá uma nova vida; a obediência é o fruto dessa vida. Onde não há fruto algum, a Escritura nos autoriza a questionar se houve raiz. Mas onde há luta contra o pecado, arrependimento, disciplina e desejo de agradar a Deus, ainda que com muitas falhas, ali há sinais claros da graça salvadora operando no coração.

Josué Matos