O versículo “Cri; por isso, falei: estive muito aflito” (Salmos 116:10) expressa uma experiência profunda e muito humana do crente diante do sofrimento, mostrando a relação entre fé, aflição e testemunho.
O contexto do Salmo 116
O Salmo 116 é um cântico de gratidão e livramento. O salmista descreve um momento em que esteve cercado por angústias intensas, chegando muito perto da morte. Ele fala de dores, laços e tribulações, mas também do socorro do Senhor, que ouviu o seu clamor e o livrou. Assim, o salmo não nasce de uma teoria religiosa, mas de uma experiência real de dor seguida de intervenção divina.
Dentro desse contexto, o versículo 10 não é uma declaração isolada, mas faz parte do testemunho de alguém que passou pela aflição e, mesmo assim, permaneceu crendo.
“Cri” – a fé que precede a compreensão
Quando o salmista diz “Cri”, ele afirma que a fé veio antes da explicação racional da sua situação. Ele não diz: “Entendi, por isso cri”, mas exatamente o contrário. A fé não surgiu porque as circunstâncias eram favoráveis, mas apesar delas. Essa ideia aparece em vários textos das Escrituras, como em Habacuque 3:17-18, onde o profeta declara que se alegrará no Senhor mesmo quando tudo parece perdido, e em Jó 13:15, quando Jó afirma que continuará confiando em Deus ainda que tudo lhe seja contrário.
No Novo Testamento, o apóstolo Paulo ecoa esse mesmo princípio ao citar esse salmo em 2 Coríntios 4:13: “Cri, por isso falei”. Ali, Paulo aplica a experiência do salmista à vida cristã marcada por tribulações, perseguições e fraquezas, mostrando que a fé sustenta a confissão mesmo em meio ao sofrimento.
“Por isso, falei” – a fé que se expressa
A fé verdadeira não permanece muda. O salmista afirma que falou porque creu. O que ele falou não foi uma negação da dor, mas um clamor, uma oração, uma confissão sincera diante de Deus. Isso se harmoniza com outros textos, como Salmos 34:19, que reconhece que muitas são as aflições do justo, e Salmos 66:16, onde o salmista convida outros a ouvirem o que Deus fez por sua alma.
A ideia central é que a fé não elimina automaticamente a aflição, mas dá voz ao crente para falar com Deus em meio a ela. O falar aqui não é murmuração, mas dependência, súplica e, depois, testemunho.
“Estive muito aflito” – a honestidade diante de Deus
O salmista não esconde sua condição. Ele reconhece: esteve muito aflito. A Bíblia não idealiza a vida do crente como livre de dor. Pelo contrário, textos como Salmos 42:5, Salmos 88:3 e Lamentações 3:31-33 mostram que a aflição faz parte da experiência humana, inclusive daqueles que confiam em Deus.
A diferença está no caminho que a aflição toma. Para o incrédulo, ela pode conduzir ao desespero; para o crente, ela se transforma em ocasião de clamor e, posteriormente, de gratidão. O próprio Senhor Jesus, em sua humanidade, expressou profunda angústia, como vemos em Mateus 26:38, mostrando que a dor não é sinal de ausência de fé.
A ideia central do versículo
A ideia principal de Salmos 116:10 é que a fé sustenta o crente mesmo quando ele atravessa grande aflição, e essa fé o leva a falar, clamar e testemunhar, não a negar a realidade da dor. O versículo ensina que crer não significa ausência de sofrimento, mas confiança em Deus dentro do sofrimento.
Em resumo, o salmista está dizendo: “Mesmo quando eu estava profundamente aflito, não deixei de crer; e porque cri, continuei falando com Deus e, depois, falando do que Ele fez por mim”. Trata-se de uma fé provada, sincera e viva, que atravessa a aflição e sai dela com um testemunho.