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Conheço um pastor simpatizante do adventismo que defende que o homem espiritual consegue guardar os Dez Mandamentos

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Essa passagem bíblica é intrigante. Se ninguém será salvo por guardar a lei, então ninguém perde a salvação por não guardar o sábado. Só que, nos Dez Mandamentos, além de ter a ordenança da guarda do sábado, fala de não matar, não roubar, não cobiçar, não adulterar, não idolatrar. Conheço um pastor simpatizante do adventismo que defende que o homem espiritual consegue guardar os Dez Mandamentos, mas eu não acredito nisso devido ao pecado que habita em nós. Somos muito falhos e limitados. Se a Palavra diz que ninguém será justificado pela lei, isso denota que, se houver alguma falha, haverá justificação por graça e misericórdia mediante a fé em Cristo. Por exemplo, as pessoas que estão no segundo casamento e não conseguem abandonar, a graça cobrirá isso e, porventura, outros pecados?

Levítico 5:17 diz que quem pecar contra os mandamentos do Senhor, ainda que não souber, será culpado e levará a sua iniquidade. Mas no Novo Testamento diz que ninguém será justificado por guardar a lei. Como fica tudo isso, presbítero?

Jeremias 3:14: Convertei-vos, ó filhos rebeldes, diz o Senhor; pois eu vos desposei; e vos tomarei, a um de uma cidade, e a dois de uma família; e vos levarei a Sião.

Minha Resposta:

A tua pergunta é muito séria e legítima, e ela toca exatamente no coração da diferença entre Lei, graça, justificação e vida cristã. Vou procurar responder de forma organizada, para que o quadro fique claro à luz de toda a Escritura.

  1. A função da Lei no Antigo Testamento

A Lei nunca foi dada para salvar alguém, mas para revelar o pecado e estabelecer a responsabilidade do homem diante de Deus. Textos como Levítico 5:17 deixam isso evidente: mesmo o pecado cometido por ignorância tornava o homem culpado. Isso mostra que a Lei exige perfeição absoluta, não apenas boa intenção. Quem falha em um ponto torna-se culpado de todos, como o próprio Novo Testamento confirma em Tiago 2:10.

Portanto, no Antigo Testamento, a Lei tinha um papel pedagógico: revelar o caráter santo de Deus e a incapacidade do homem de corresponder plenamente a esse padrão.

  1. Por que ninguém é justificado pela Lei

Quando o Novo Testamento afirma que ninguém será justificado pelas obras da Lei, ele não está contradizendo o Antigo Testamento, mas revelando o propósito final da Lei. Romanos 3:19–20 declara que a Lei cala toda boca e torna todo o mundo culpado diante de Deus. Ela mostra o pecado, mas não remove o pecado.

Gálatas 3:24 afirma que a Lei foi aio, ou tutor, para conduzir a Cristo. Ou seja, ela aponta para a necessidade de um Salvador, não para a capacidade do homem de se salvar obedecendo.

  1. Os Dez Mandamentos e o crente

Os Dez Mandamentos expressam princípios morais santos e justos, mas o Novo Testamento ensina que o crente não está debaixo da Lei como sistema de justificação ou regra de vida para alcançar aceitação diante de Deus. Romanos 6:14 afirma que o crente não está debaixo da Lei, mas da graça.

Isso não significa libertinagem. Significa que a obediência agora flui de uma nova vida, não de uma tentativa de se justificar. O crente faz o que é correto não para ser aceito, mas porque já foi aceito em Cristo.

  1. A ideia de que o “homem espiritual” guarda perfeitamente os mandamentos

A Escritura é muito clara em Romanos 7 ao mostrar que o pecado ainda habita no crente. Mesmo um apóstolo como Paulo reconhece essa luta interior. A noção de que alguém, por ser “espiritual”, consegue guardar perfeitamente os Dez Mandamentos ignora essa realidade bíblica.

O Novo Testamento não ensina perfeição sem pecado nesta vida, mas crescimento, disciplina, confissão e restauração. Se a perfeição fosse possível, não haveria necessidade constante da intercessão de Cristo nem da confissão diária, como vemos em 1 João 1:7–9.

  1. A questão do sábado

Se ninguém é salvo por guardar a Lei, então ninguém perde a salvação por não guardar o sábado. O sábado era um sinal específico entre Deus e Israel, ligado à antiga aliança. O Novo Testamento nunca impõe a guarda do sábado à Igreja. Colossenses 2:16–17 é claro ao afirmar que essas coisas eram sombra do que havia de vir, mas o corpo é de Cristo.

  1. Pecados persistentes e a graça

A graça não é uma licença para pecar, mas também não é anulada pela presença de falhas na vida do crente. O fundamento da justificação é a obra perfeita de Cristo, não a capacidade do crente de viver sem tropeços.

No caso de pessoas em segundo casamento, por exemplo, a Escritura trata a situação com seriedade, mas nunca apresenta o abandono do lar como condição para manter a salvação. A salvação está fundamentada na obra consumada de Cristo, não na reorganização perfeita de todas as consequências do passado.

Isso não significa que Deus ignore o pecado. Significa que Ele trata Seus filhos com disciplina, não com condenação eterna. Há uma diferença clara entre disciplina paterna e condenação judicial.

  1. Levítico 5:17 à luz do Novo Testamento

Levítico 5:17 mostra que a Lei condena até o pecado inconsciente. O Novo Testamento responde a isso mostrando que Cristo assumiu essa culpa. Ele morreu não apenas pelos pecados conscientes, mas também pelos que estavam ocultos e ignorados.

Hebreus afirma que o sacrifício de Cristo é perfeito e suficiente, algo que os sacrifícios da Lei jamais puderam ser. Por isso, hoje, a culpa não é removida pela observância da Lei, mas pela fé no sacrifício de Cristo.

  1. Jeremias 3 e a graça restauradora

Jeremias 3 fala de restauração, não de justificação pela Lei. Deus chama um povo infiel ao arrependimento, mostrando Seu coração gracioso. Esse texto aponta para o mesmo princípio que se cumpre plenamente no Novo Testamento: Deus restaura, chama, disciplina e recebe, mas a base disso não é a perfeição do homem, e sim a fidelidade d’Ele.

Conclusão

A Lei revela o pecado. A graça salva o pecador. A justificação é pela fé. A vida cristã é marcada por crescimento, disciplina e dependência constante da obra de Cristo. A graça não cobre o pecado para que ele seja ignorado, mas cobre o pecador para que ele seja transformado, sem jamais colocar a salvação em risco por causa de falhas reais numa vida ainda marcada pela carne.

Espero que isso ajude a colocar cada texto no seu devido lugar e a enxergar a harmonia das Escrituras, e não uma contradição.

Josué Matos