Áudios

Pesquisar este blog

Lugar do indouto e infiel na prática

Alguém que me escreveu no YouTube:

Lugar do indouto e infiel. Muito bom, no caso existe algum exemplo de como deveria ser essa separação dos que estão na comunhão e dos que não estão?

Minha Resposta:

Bem, minha resposta vai ser em duas partes: a primeira será doutrinária no sentido abstrato, e a segunda será na prática, visível, no próprio local da reunião.

A separação entre os que estão em comunhão e os que não estão não é uma separação social, nem uma exclusão do convívio humano, mas uma distinção espiritual e prática dentro da vida da assembleia.

A Bíblia apresenta exemplos claros de como essa separação deveria ocorrer.

1. A base da comunhão

   A comunhão cristã está fundamentada na vida em Cristo e na obediência à verdade. Em Atos dos Apóstolos 2:42, vemos que os primeiros crentes perseveravam na doutrina dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão e nas orações. Isso mostra que comunhão não é apenas estar presente, mas andar na mesma doutrina, na mesma verdade e no mesmo temor de Deus.

A comunhão é algo que se mantém quando há luz. Em 1 João 1:7 lemos que, se andarmos na luz, como Ele na luz está, temos comunhão uns com os outros. Quando alguém abandona a luz, a própria comunhão fica comprometida.

2. O caso claro de separação na comunhão

   O exemplo mais direto está em 1 Coríntios 5. Havia na assembleia alguém vivendo em pecado moral grave e não julgado. O apóstolo Paulo orienta que esse homem fosse removido do meio da comunhão. A expressão “tirai dentre vós esse iníquo” não significa expulsá-lo da salvação, mas afastá-lo da comunhão da assembleia.

O ensino é claro: a assembleia não pode agir como se nada estivesse acontecendo. A separação ocorre quando alguém, professando fé, anda de forma contrária à santidade e se recusa a julgar sua própria condição.

3. O objetivo da separação

   A Escritura mostra que essa separação nunca é vingativa, nem definitiva por si mesma. Em 1 Coríntios 5:5, o objetivo era que o espírito fosse salvo no dia do Senhor. E em 2 Coríntios 2:6-8, vemos que, havendo arrependimento, o mesmo homem foi restaurado à comunhão.

Portanto, a separação visa preservar a santidade da assembleia e, ao mesmo tempo, levar o irmão ao arrependimento e à restauração.

4. Separação sem ódio, mas com discernimento

   Em 2 Tessalonicenses 3:6 e 14-15, Paulo fala de afastar-se daquele que anda desordenadamente, mas acrescenta que não deve ser tratado como inimigo, e sim admoestado como irmão. Isso mostra equilíbrio: há uma linha clara entre comunhão espiritual e relacionamento humano.

O crente não perde o dever de amar, mas não pode fingir comunhão onde não há submissão à verdade.

5. O ensino do Senhor Jesus

   O próprio Senhor Jesus ensinou um princípio semelhante em Mateus 18:15-17. Há um processo: primeiro a exortação pessoal, depois com testemunhas, e por fim diante da assembleia. Se houver recusa em ouvir, a pessoa passa a ser considerada como alguém fora da comunhão prática.

Novamente, não se trata de condenação eterna, mas de uma posição clara quanto à comunhão.

6. Comunhão não é automática

   A Escritura nunca ensina que todos os que professam fé estão automaticamente em comunhão. Em 2 Timóteo 2:19-21, Paulo mostra que, numa grande casa, há vasos para honra e para desonra, e que a responsabilidade do crente é purificar-se para ser um vaso para honra.

Isso implica discernimento espiritual e responsabilidade coletiva.

Portanto, há exemplos claros na Bíblia de como essa separação deve acontecer. Ela é espiritual, prática, responsável e sempre acompanhada de amor, verdade e objetivo restaurador. A comunhão é algo precioso demais para ser tratada com indiferença, e a separação, quando necessária, é um ato de obediência à Palavra de Deus, não de dureza de coração.

Agora vamos para quando a separação não é doutrinária no sentido abstrato, mas prática, visível, no próprio local da reunião. E, nesse ponto, a Escritura não nos dá um “layout” detalhado, mas fornece princípios que, quando aplicados com sabedoria espiritual, evitam confusão e constrangimentos.

A Bíblia não determina um modelo arquitetônico ou um arranjo físico obrigatório para o local de reunião. No entanto, ela estabelece princípios claros quanto à comunhão, especialmente na reunião da Ceia do Senhor, que poderá ser guia para outras, quando necessário. Pois é na Ceia do Senhor que essa distinção se torna mais visível de forma prática.

Na reunião da Ceia do Senhor, há uma mesa, com o pão e o cálice, que representam a comunhão do corpo e do sangue de Cristo, conforme ensinado em 1 Coríntios 10:16-17 e 1 Coríntios 11:23-29. Esses emblemas não são para todos indistintamente, mas para aqueles que estão em comunhão prática com a assembleia e andando de forma digna dessa comunhão.

Por essa razão, muitas assembleias, de forma sábia e discreta, costumam organizar o espaço de modo que os irmãos e irmãs que participam da comunhão se sentem mais próximos da mesa. Aqueles que estão visitando, que ainda não estão em comunhão, ou que, por qualquer razão, não participam da Ceia, sentam-se mais afastados da mesa.

Isso não cria uma “classe espiritual superior”, nem expõe ninguém publicamente. Pelo contrário, evita constrangimentos desnecessários, como ter de “pular” pessoas durante a distribuição do pão e do cálice, algo que poderia gerar confusão, embaraço ou interpretações erradas. Evita criar a ideia de que todos ali podem orar de forma audível, solicitar um hino, etc., por simplesmente se dizer crente.

Esse cuidado reflete o princípio de 1 Coríntios 14:40, onde tudo deve ser feito com decência e ordem. Também demonstra amor e sensibilidade pastoral, preservando tanto a santidade da Ceia quanto a dignidade das pessoas.

Importa lembrar que essa separação é apenas no exercício da comunhão da Ceia do Senhor. Não é uma exclusão do local de reunião, nem uma barreira social. Todos podem estar presentes, ouvir a Palavra, dar o seu amém às orações e participar dos cânticos. A distinção ocorre somente no ato específico da Ceia, que é uma expressão prática de comunhão.

Assim, a separação física, quando existe, não é um ritual imposto, mas uma solução prática baseada em princípios bíblicos, visando ordem, clareza e respeito pelo significado profundo da Ceia do Senhor.

Todos poderão participar, basta atingirem os requisitos de serem realmente salvos, batizados, fazerem parte da comunhão da igreja e terem uma vida em conformidade com a sã doutrina.

Josué Matos