Alguém que me escreveu no WhatsApp:
Misericórdia, por temor àquele que pode matar o corpo e a alma e mandá-la para o inferno, isso mexe com a mente e o coração. Não há justificação por obras e nem por observar a Lei, mas Romanos 2:13 diz que quem pratica a Lei será justificado. Porém, Gálatas 2 e 3 afirma que a justificação é somente mediante a fé em Cristo. Por que Romanos difere de Gálatas na justificação, se as duas cartas são do Novo Testamento?
A primeira coisa que precisa ficar clara é que Romanos e Gálatas não se contradizem. O apóstolo Paulo não ensina duas doutrinas diferentes de justificação. O que muda é o propósito, o contexto e o problema específico que ele está tratando em cada carta.
O que Paulo está fazendo em Romanos 2
Em Romanos, especialmente nos capítulos 1 a 3, Paulo constrói um argumento progressivo. O objetivo dele não é ensinar o “como” alguém é justificado diante de Deus logo de início, mas demonstrar que toda a humanidade está culpada diante de Deus.
Em Romanos 1, ele mostra a culpa dos gentios.
Em Romanos 2, ele se volta aos judeus, que confiavam na Lei e na sua identidade religiosa.
Em Romanos 3, ele conclui que todos pecaram e carecem da glória de Deus.
Quando Paulo diz em Romanos 2:13 que “os que praticam a lei hão de ser justificados”, ele não está apresentando um caminho real de salvação pela Lei. Ele está afirmando um princípio teórico e justo: se alguém guardasse a Lei de forma perfeita, essa pessoa seria justa diante de Deus. O problema é que ninguém jamais fez isso.
O próprio contexto imediato deixa isso claro. Em Romanos 2:21–23, Paulo acusa os judeus de ensinarem a Lei aos outros, mas não a praticarem. Em Romanos 3:9–12, ele conclui que não há justo, nem um sequer. E em Romanos 3:20, ele fecha a questão dizendo que pelas obras da Lei nenhuma carne será justificada diante de Deus.
Portanto, Romanos 2:13 não é uma porta aberta para a justificação por obras, mas um espelho que revela a impossibilidade humana. A Lei mostra o padrão de Deus e, ao mesmo tempo, denuncia a falência total do homem.
O problema específico em Gálatas
Já em Gálatas, o cenário é diferente. Ali, Paulo enfrenta um erro grave dentro das igrejas: pessoas que criam em Cristo estavam sendo levadas a acrescentar a Lei como meio de justificação ou de aperfeiçoamento espiritual.
Por isso, o tom de Gálatas é mais direto e confrontativo. Paulo afirma repetidamente que o homem não é justificado pelas obras da Lei, mas somente pela fé em Jesus Cristo. O problema ali não é teórico, como em Romanos 2, mas prático e doutrinário: estavam misturando graça com Lei.
Em Gálatas 2 e 3, Paulo não está explicando o papel condenatório da Lei, mas defendendo a suficiência absoluta da obra de Cristo. A Lei, segundo ele, teve um papel temporário, pedagógico, para conduzir o homem a Cristo, mas nunca teve poder para justificar ou dar vida.
Lei, fé e o verdadeiro sentido da “prática”
Outro ponto essencial é entender o que significa “praticar a Lei”. Muitos leem Romanos 2:13 como se Paulo estivesse falando de obediência parcial ou esforço sincero. Não é isso. A Lei exige obediência perfeita, contínua e total. Um único tropeço já coloca o homem debaixo de condenação.
Por isso, quando Paulo afirma que “os que praticam a Lei” seriam justificados, ele está falando de um padrão absoluto que ninguém alcança. Essa afirmação serve para fechar todas as bocas e tornar o mundo inteiro culpado diante de Deus.
Já a fé em Cristo não anula a justiça de Deus, mas a satisfaz plenamente. Cristo cumpriu a Lei em nosso lugar e levou sobre si a condenação que a Lei exigia. A justificação, então, não vem das obras, mas da união do pecador com Cristo pela fé.
As boas obras, nesse contexto, não são a causa da justificação, mas o seu fruto. Elas não produzem vida; elas evidenciam uma vida que já foi dada.
Conclusão: Romanos e Gálatas falam a mesma coisa, por ângulos diferentes
Romanos mostra a necessidade universal da justificação pela fé, demonstrando que ninguém consegue se justificar pela Lei.
Gálatas defende essa justificação contra qualquer tentativa de misturar obras humanas com a obra perfeita de Cristo.
Romanos 2:13 expõe o padrão impossível da Lei.
Gálatas 2 e 3 revelam o único caminho real: a fé no Senhor Jesus Cristo.
Não há contradição, mas complementaridade. A Lei cala o homem; a fé em Cristo o justifica. A Lei revela o pecado; Cristo remove o pecado. A Lei exige justiça; Cristo é a nossa justiça.