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RESUMO DA DÚVIDA APRESENTADA
PERGUNTAS EXPLÍCITAS DO DENIS
A dúvida do Denis nasce a partir da leitura de Romanos 8:28–30 e do texto do autor citado, e pode ser organizada nas seguintes perguntas:
O que significa, na prática, a eleição e a predestinação mencionadas em Romanos 8:29–30, já que ele nunca havia ouvido esse ensino dessa forma?
Quem são exatamente “os que amam a Deus” e “os que são chamados segundo o Seu propósito” mencionados em Romanos 8:28? Trata-se de um grupo específico e previamente definido?
O que significa Deus “chamar” alguém?
Esse chamado é algo que pode ser recusado ou é uma intervenção irresistível e garantida?Se a conversão acontece por uma intervenção direta de Deus na mente do pecador, tornando a fé absolutamente certa, como entender a responsabilidade humana?
Como pessoas poderão ser julgadas e condenadas por incredulidade (Apocalipse 21:8) se, segundo essa explicação, Deus não lhes concedeu essa chamada eficaz ou “autorização” para crer?
No juízo final, alguém poderia legitimamente dizer:
“Senhor, eu não cri porque o Senhor não deixou”?
Essa última pergunta é o ponto central da inquietação do Denis.
O QUE O AUTOR DO TEXTO AFIRMA (EM SÍNTESE ORGANIZADA)
O autor do texto que Denis leu apresenta a doutrina da eleição e da predestinação da seguinte forma:
Romanos 8:29–30 descreve um processo completo e garantido de conversão e salvação, composto por etapas sequenciais:
conheceu → predestinou → chamou → justificou → glorificou.Esse processo não é meramente informativo ou descritivo, mas uma intervenção direta de Deus na alma do pecador.
A “chamada” de Deus é definida como uma ação irresistível, na qual Deus interfere diretamente na mente do pecador, tornando-o sensível ao evangelho e garantindo que essa sensibilidade resultará necessariamente em conversão.
Os que amam a Deus não chegaram a esse ponto por iniciativa própria, mas exclusivamente por terem sido alvos dessa intervenção divina.
O “conhecer de antemão” não é presciência, nem previsão do comportamento humano, mas um relacionamento íntimo e amoroso estabelecido por Deus antes da existência dessas pessoas.
Esse conhecimento está inseparavelmente ligado à eleição; Deus conhece porque escolhe, ou escolhe e, ao mesmo tempo, conhece.
A eleição é totalmente incondicional, não baseada em qualquer atitude futura, fé prevista ou resposta humana.
Deus escolheu determinadas pessoas antes da fundação do mundo para terem comunhão eterna com Ele.
A predestinação é a garantia absoluta de que essa eleição se cumprirá; ou seja, que o eleito inevitavelmente chegará à salvação.
Os eleitos não podem deixar de ser salvos e não podem ser enganados por falsas doutrinas, pois a predestinação assegura tanto a salvação quanto a preservação na verdade.
Embora o evangelho seja pregado a todos, apenas os eleitos recebem a graça eficaz da fé salvadora.
ONDE NASCE A DÚVIDA CENTRAL
A dúvida do Denis surge exatamente da combinação entre essas afirmações do autor e textos como Apocalipse 21:8.
O conflito percebido por ele é o seguinte:
– Se apenas os eleitos recebem essa intervenção irresistível de Deus que os leva infalivelmente à fé,
– e se os não eleitos nunca recebem essa chamada eficaz,
– como essas pessoas podem ser julgadas e condenadas por incredulidade?
Em termos simples, a pergunta final do Denis é:
Como Deus pode condenar alguém por não crer, se essa pessoa nunca recebeu, segundo essa explicação, a ação divina necessária para que pudesse crer?
Esse é o núcleo da dúvida que ele está apresentando.
Minha Resposta:
Denis, a tua pergunta é legítima e toca exatamente no ponto onde muitos sistemas teológicos entram em tensão com o conjunto das Escrituras.
O próprio texto que citaste levanta um problema que ele não resolve: se a chamada é uma intervenção irresistível, garantida e seletiva, como o autor define, então o juízo final de Apocalipse 21:8 se torna moralmente incoerente. A Bíblia, porém, não entra em contradição consigo mesma.
Vamos responder usando os próprios termos e textos apresentados.
Primeiro, sobre Romanos 8:28–30.
Paulo não está explicando como alguém passa da incredulidade para a fé, mas descrevendo o caminho completo daqueles que já estão “em Cristo”. O texto começa com “os que amam a Deus”, não com “os que ainda estão mortos em pecados”. O foco é segurança, não mecanismo de conversão.
Quando Paulo diz “aos que de antemão conheceu”, ele não está afirmando que Deus impediu outros de crer, mas que Deus conhece plenamente aqueles que viriam a estar em Cristo. Em nenhum momento o texto afirma que Deus criou incrédulos incapazes de crer para depois condená-los.
O próprio Paulo esclarece isso mais adiante:
“Deus encerrou a todos debaixo da desobediência, para com todos usar de misericórdia” (Romanos 11:32).
Segundo, a definição de “chamada” apresentada no texto não é a única bíblica.
A Bíblia fala claramente de chamados rejeitados:
“Porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos” (Mateus 22:14).
Se a chamada fosse irresistível, esse versículo não faria sentido. O chamado é real, verdadeiro e pode ser resistido. Isso não diminui a soberania de Deus; apenas mantém a responsabilidade humana.
Terceiro, sobre João 15:16.
Jesus não está ali falando de salvação individual eterna, mas da escolha dos apóstolos para um ministério específico. O contexto é frutificação e missão, não condenação ou eleição para o céu. Usar esse texto para sustentar que ninguém pode crer sem autorização prévia ignora o contexto imediato.
Quarto, 2 Tessalonicenses 2:13 resolve o ponto-chave.
O texto diz que Deus escolheu “para a salvação, pela santificação do Espírito e fé na verdade”. A fé não é apresentada como algo imposto, mas como meio. O Espírito atua, a verdade é anunciada, e a fé responde. Não há qualquer indicação de que Deus negue fé a quem deseja crer.
Quinto, Romanos 9 não ensina condenação sem responsabilidade.
Paulo fala do direito soberano de Deus em conduzir a história da redenção, especialmente no contexto de Israel e dos gentios. Ele mesmo antecipa a objeção moral e não responde dizendo “Deus impede alguns de crer”, mas afirmando que Deus suporta “com muita longanimidade os vasos da ira” (Romanos 9:22). Longanimidade não combina com impedimento ativo.
Sexto, Apocalipse 21:8 responde diretamente à tua pergunta.
Os condenados são chamados de “incrédulos”. A Bíblia nunca diz que são “impedidos de crer”, mas que “não quiseram crer”. O próprio Senhor Jesus afirma:
“Não quereis vir a mim para terdes vida” (João 5:40).
No juízo, ninguém será condenado por falta de autorização divina, mas por rejeição consciente da luz recebida.
“Esta é a condenação: que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz” (João 3:19).
Se alguém disser no juízo “não cri porque Deus não deixou”, essa acusação não encontra respaldo em nenhum texto bíblico. A Escritura afirma repetidamente que Deus chama, convida, anuncia, adverte e oferece, e que a condenação ocorre porque o homem rejeita.
A eleição bíblica jamais transforma Deus em injusto, nem o homem em vítima. Ela exalta a graça sem anular a responsabilidade.
Para compreender corretamente eleição, predestinação e responsabilidade humana, é necessário partir do testemunho completo das Escrituras, evitando definições isoladas que absolutizam um aspecto em detrimento de outro.
Eleição, na Bíblia, é o ato soberano de Deus pelo qual Ele decide salvar um povo para Si em Cristo. Essa eleição não é apresentada como um decreto arbitrário e desconectado do evangelho, mas como parte do propósito eterno de Deus realizado em Jesus Cristo. A Escritura afirma que Deus escolheu “em Cristo” antes da fundação do mundo, não indivíduos isoladamente fora dele. Cristo é o Eleito de Deus, e todos os que estão unidos a Ele participam dessa eleição. Assim, a eleição é sempre cristocêntrica, graciosa e redentora, nunca fatalista.
A eleição não significa que Deus criou dois grupos — um destinado à salvação e outro à condenação — sem qualquer relação com fé, resposta ou rejeição da verdade. A condenação nunca é atribuída à eleição, mas ao pecado e à incredulidade. A Bíblia é clara ao afirmar que os homens se perdem porque rejeitam a luz, resistem à verdade e não creem no testemunho que Deus lhes deu acerca do Seu Filho.
Predestinação, por sua vez, não trata do ato inicial de crer, mas do destino final daqueles que estão em Cristo. Os textos que falam de predestinação afirmam que Deus determinou de antemão que os salvos seriam conformados à imagem do Seu Filho, adotados como filhos, feitos herdeiros e glorificados. A predestinação diz respeito ao propósito de Deus quanto ao fim, não ao meio pelo qual o pecador entra em Cristo.
Em nenhum texto bíblico a predestinação é apresentada como uma imposição de fé ou como um impedimento para que alguém creia. Ela é a garantia divina de que aqueles que pertencem a Cristo não serão abandonados no caminho, mas chegarão com segurança ao destino que Deus estabeleceu. A predestinação assegura a consumação da salvação, não a negação da oportunidade de crer.
Quanto à responsabilidade humana, a Escritura a afirma de forma inequívoca. O homem é chamado ao arrependimento, à fé e à obediência. O evangelho é anunciado a todos, e o convite é sincero e verdadeiro. A fé vem pelo ouvir a Palavra de Deus, e o Espírito Santo atua convencendo o mundo do pecado, da justiça e do juízo. Essa atuação divina não anula a responsabilidade do homem; antes, a torna real e inescapável.
A Bíblia reconhece que o homem, por si mesmo, não busca a Deus nem pode produzir salvação por obras. Contudo, isso não significa que ele seja impedido de crer quando confrontado pela verdade. A incredulidade não é causada por falta de permissão divina, mas pela rejeição consciente da luz. Sempre que a Escritura descreve a condenação, ela a vincula à incredulidade, à desobediência e ao amor ao pecado.
A harmonia bíblica é esta: Deus é absolutamente soberano, e o homem é verdadeiramente responsável. Deus chama, anuncia, oferece e convida; o homem responde ou rejeita. Quando alguém crê, toda a glória pertence a Deus; quando alguém se perde, a culpa recai sobre a rejeição da verdade. A eleição exalta a graça; a responsabilidade humana preserva a justiça de Deus.
Assim, eleição e predestinação nunca devem ser usadas para explicar por que alguém não creu, mas para assegurar aos que creram que a sua salvação não depende do acaso, do mérito ou da perseverança humana, e sim do propósito fiel e eterno de Deus em Cristo.
Josué Matos