Alguém que me escreveu no YouTube:
Uma outra questão é que a circuncisão era somente e exclusivamente para os meninos, contudo as igrejas que afirmam que o batismo substituiu a circuncisão e também batizam as meninas.
Pergunta sincera: Alguém conhece o argumento dos aliancistas para justificar isso?
PS.: Os aliancistas não ensinam e nem creem que o batismo salva.
Minha Resposta:
A pergunta é legítima e toca num ponto sensível da teologia da aliança, especialmente quando se afirma que o batismo substituiu a circuncisão.
De forma resumida, o argumento aliancista clássico parte da ideia de continuidade da aliança. A circuncisão, segundo essa leitura, não era apenas um sinal físico dado a meninos judeus, mas o sinal visível de pertencimento ao povo da aliança. Assim, no Novo Testamento, o batismo seria visto como o novo sinal externo dessa mesma aliança, agora ampliada e espiritualizada, não mais restrita a Israel segundo a carne, mas abrangendo toda a comunidade do pacto, incluindo homens e mulheres, judeus e gentios.
Normalmente, o texto-chave utilizado é Colossenses 2:11-12, onde Paulo menciona a “circuncisão de Cristo” e, em seguida, fala do batismo. Os aliancistas entendem que Paulo estaria fazendo uma relação tipológica entre circuncisão e batismo, não afirmando identidade absoluta, mas continuidade no princípio do sinal do pacto.
A partir disso, o argumento segue da seguinte forma: se, no Antigo Testamento, os filhos dos crentes eram incluídos no povo da aliança e recebiam o sinal (ainda que apenas os meninos fossem circuncidados), no Novo Testamento os filhos continuariam incluídos, agora recebendo um sinal que não é limitado por gênero. Assim, o fato de meninas não serem circuncidadas não seria visto como exclusão da aliança, mas como uma limitação própria do sinal antigo, ligado à descendência física e à promessa feita a Abraão.
Além disso, os aliancistas costumam recorrer a textos como Atos dos Apóstolos 2:39 (“a promessa vos diz respeito a vós, a vossos filhos”) e 1 Coríntios 7:14 (onde os filhos são chamados de “santos”) para sustentar que existe, ainda hoje, uma esfera de privilégio pactual para os filhos de crentes, mesmo que isso não implique salvação automática — ponto que, como bem observado, eles mesmos fazem questão de negar.
Dito isso, é importante reconhecer que essa construção depende fortemente de pressupostos teológicos, e não de um mandamento claro do Novo Testamento. Em nenhum texto é dito explicitamente que o batismo substituiu a circuncisão, nem há qualquer exemplo inequívoco de crianças sendo batizadas, muito menos uma instrução apostólica nesse sentido. Pelo contrário, o padrão repetido no Novo Testamento associa o batismo à fé pessoal e consciente, como se vê em Marcos 16:16, Atos dos Apóstolos 2:41, Atos dos Apóstolos 8:12, Atos dos Apóstolos 10:47-48 e Romanos 6:3-4.
Além disso, quando Paulo trata diretamente da circuncisão, ele afirma que ela perdeu completamente seu valor como sinal distintivo diante de Deus, tanto para judeus quanto para gentios, conforme Romanos 2:28-29, Gálatas 5:2-6 e Gálatas 6:15. A ênfase apostólica não recai sobre um novo rito substitutivo, mas sobre uma nova realidade espiritual: a nova criação em Cristo.
Portanto, respondendo objetivamente à pergunta: sim, existe um argumento aliancista para justificar o batismo de meninas, baseado na ideia de continuidade da aliança e na ampliação do sinal pactual. Contudo, esse argumento não é derivado de um ensino direto e explícito do Novo Testamento, mas de uma leitura teológica sistemática que pressupõe que a estrutura do pacto permanece essencialmente a mesma.
É justamente aí que muitos veem a fragilidade da posição: a Escritura nunca afirma que o batismo tomou o lugar da circuncisão, nem transfere automaticamente para a igreja os princípios nacionais e familiares aplicados a Israel. O Novo Testamento desloca o foco do sinal externo para a realidade espiritual da fé viva, do novo nascimento e da união consciente com Cristo.
Assim, a discussão não é sobre se os aliancistas são coerentes dentro do seu sistema — eles o são —, mas se esse sistema é, de fato, imposto pelo texto bíblico ou construído a partir de pressupostos que o texto nunca declara de forma direta.