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Não compreendo se essa possibilidade de divórcio se aplica aos judeus

 Alguém que me escreveu no YouTube:

Não compreendo se essa possibilidade de divórcio se aplica aos judeus por conta de que o casamento deles é diferente do nosso, ou equivale a um noivado. Por que isso está escrito na nossa Bíblia se não somos judeus e não seguimos a Torá?

Minha Resposta:

Essa é uma pergunta muito pertinente, e a dúvida surge porque, de fato, o tema do divórcio aparece inicialmente no contexto da Lei dada a Israel. No entanto, a presença desses textos na nossa Bíblia não significa que tudo o que foi regulado na Torá seja automaticamente normativo para o cristão, nem que pertença apenas a uma cultura distante sem qualquer valor para nós.

Primeiro, é importante entender que o casamento não nasceu com a Lei de Moisés, nem é uma instituição exclusivamente judaica. O casamento foi instituído por Deus na criação, antes da existência de Israel como nação. Em Gênesis 2:24, Deus estabelece o princípio fundamental: “Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne.” Esse princípio é universal, anterior à Torá e válido para toda a humanidade.

Quando a Lei mosaica trata do divórcio, especialmente em Deuteronômio 24:1, ela não está instituindo o divórcio como ideal divino, mas regulando uma prática já existente por causa da dureza do coração humano. O próprio Senhor Jesus esclarece isso quando diz: “Moisés, por causa da dureza do vosso coração, vos permitiu repudiar vossas mulheres; porém ao princípio não foi assim” (Mateus 19:8). Ou seja, a permissão não revela a vontade perfeita de Deus, mas uma concessão diante da realidade do pecado.

Quanto à ideia de que o casamento judaico seria apenas um noivado, isso é um equívoco comum. No contexto judaico havia etapas no casamento, mas o vínculo estabelecido não era algo informal. O compromisso era real, sério e juridicamente reconhecido. Prova disso é que a dissolução desse vínculo exigia carta de divórcio, mesmo quando o casal ainda não havia coabitado plenamente, como se vê no caso de José e Maria em Mateus 1:18-19. Portanto, não se tratava de um simples noivado no sentido moderno.

A razão de esses textos estarem na nossa Bíblia é que toda a Escritura é inspirada por Deus e proveitosa para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução em justiça, conforme 2 Timóteo 3:16. O Antigo Testamento não foi escrito apenas para os judeus, mas para revelar o caráter de Deus, a seriedade do pecado, as consequências da desobediência e, sobretudo, a necessidade de redenção.

No Novo Testamento, o Senhor Jesus reafirma o padrão original do casamento, elevando-o novamente ao propósito da criação. Em Mateus 19:4-6 Ele declara que Deus fez homem e mulher e que o que Deus ajuntou não o separe o homem. O apóstolo Paulo, escrevendo à igreja, também trata do casamento não como um contrato cultural judaico, mas como uma união séria diante de Deus, refletindo inclusive a relação entre Cristo e a Igreja, conforme Efésios 5:31-32.

Portanto, os textos sobre divórcio não estão na Bíblia apenas por serem parte da Torá judaica, nem são irrelevantes para os cristãos. Eles nos ensinam, por contraste, o quanto o pecado distorce aquilo que Deus planejou como bênção. Ao mesmo tempo, mostram a misericórdia de Deus ao lidar com seres humanos falhos, sem jamais relativizar Sua santidade ou Seu propósito original.

Assim, o cristão não vive sob a Lei de Moisés, mas aprende com ela. Não seguimos a Torá como sistema legal, mas reconhecemos que ela aponta para princípios eternos, esclarecidos e aprofundados no ensino do Senhor Jesus e dos apóstolos. O padrão divino para o casamento permanece o mesmo desde o princípio: uma união permanente, fiel e santa, estabelecida por Deus.

Josué Matos