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O senhor crê numa pressuposição que o impede de ver com clareza a necessidade do batismo para a salvação

 Alguém que me escreveu no YouTube:

O sentido claro das Escrituras foi transformado pela crença no "Sola Fide" não era assim, Calvino. O propósito do Batismo em Atos 2:38 é a remissão de pecados, rejeitar isso é rejeitar a verdade. Veja que a preposição "Para", indica propósito, embora alguns argumentem que a tradução seria "por causa de". 

“Por causa de” não é a tradução correta para Atos 2:38.

O batismo tem a mesma serventia que o arrependimento. 

Se, conforme objetam alguns, os convertidos em Atos tiveram de ser batizados “por causa” da remissão de pecados, então eles também tiveram de se arrepender por causa da remissão de pecados e isso não faz sentido! 

Se a remissão de pecados vem após o arrependimento, então ela também vem após o batismo. 

Temos uma expressão quase idêntica, “para remissão de pecados”, em Mateus 26:28. 

O sangue de Cristo foi derramado para remissão de pecados. 

É certo que ninguém alegaria que Cristo derramou Seu sangue por causa de pecados que já estavam perdoados. 

Ele derramou o Seu sangue com o fim de obter para nós remissão deles. 

Os pecadores devem ser batizados com o fim de obterem essa remissão de pecados.

Quanto ao Cornélio, ele precisou também do batismo para ser salvo, como em todos os casos de conversão. O batismo com o Espírito Santo ocorreu de modo único apenas 2 vezes, para judeus e gentios, e em nada dependeu da ação humana. Deus assim o quis com o propósito de abrir o Reino aos gentios de modo poderoso com o Seu Espírito. O contexto, porém, deixa claro a necessidade do batismo para que Cornélio e sua família fossem perdoados e recebessem o DOM DO ESPÍRITO SANTO, assim como em Atos 2:38. A construção dos seus argumentos não se sustenta diante da Palavra de Deus. O senhor crê numa pressuposição que o impede de ver com clareza a necessidade do batismo para a salvação.

Minha Resposta:

O tema exige, de fato, precisão exegética e cuidado com a totalidade do testemunho das Escrituras. O ponto central da divergência não está na importância do batismo, mas na sua relação com a justificação e a remissão dos pecados.

Comecemos por Atos dos Apóstolos 2:38. O texto grego diz:
μετανοήσατε, καὶ βαπτισθήτω ἕκαστος ὑμῶν ἐπὶ τῷ ὀνόματι Ἰησοῦ Χριστοῦ εἰς ἄφεσιν τῶν ἁμαρτιῶν ὑμῶν
(metanoēsate, kai baptisthētō hekastos hymōn epi tō onomati Iēsou Christou eis aphesin tōn hamartiōn hymōn)

Aqui é essencial observar a estrutura da frase. O imperativo μετανοήσατε (arrependei-vos) está no plural e governa a promessa; βαπτισθήτω (seja batizado) está no singular distributivo, aplicando-se individualmente aos que se arrependem. A expressão εἰς ἄφεσιν τῶν ἁμαρτιῶν (“para remissão dos pecados”) está semanticamente ligada ao chamado ao arrependimento, não de forma mecânica ao rito do batismo. Isso é confirmado por Lucas em seu segundo volume, quando afirma que “o arrependimento para remissão de pecados” deveria ser pregado em nome de Cristo (Lucas 24:47), sem qualquer menção do batismo nesse resumo programático.

Quanto à preposição εἰς (eis), é verdade que ela pode indicar finalidade, mas também é amplamente usada no grego koiné com valor resultativo ou de referência. Um exemplo claro está em Mateus 12:41: “arrependeram-se εἰς τὸ κήρυγμα Ἰωνᾶ” — ninguém sustenta que se arrependeram “para obter” a pregação de Jonas, mas em resposta a ela. O mesmo valor semântico ocorre em Atos 2:38.

A comparação com Mateus 26:28 também precisa ser feita com cautela. Ali, o Senhor Jesus diz: “τοῦτο γάρ ἐστιν τὸ αἷμά μου… τὸ ἐκχυννόμενον εἰς ἄφεσιν ἁμαρτιῶν”. O sangue é a causa eficiente (αἰτία) da remissão, não um meio simbólico ou testemunhal. Confundir o valor expiatório objetivo do sangue com um ato humano subsequente é misturar categorias distintas: obra consumada (τετέλεσται, João 19:30) e resposta obediente do crente.

O Novo Testamento é consistente ao afirmar que a justificação ocorre pela fé. Paulo usa o verbo δικαιόω (dikaioō) repetidamente para indicar um ato jurídico de Deus, não um processo sacramental. “Sendo justificados (δικαιωθέντες) pela fé, temos paz com Deus” (Romanos 5:1). Em nenhum lugar o apóstolo afirma que alguém é justificado “διὰ βαπτίσματος” (por meio do batismo), mas sim “διὰ πίστεως” (por meio da fé).

Quanto a Atos 22:16 — “levanta-te, sê batizado e lava os teus pecados, invocando o nome do Senhor” — o particípio ἐπικαλεσάμενος (“invocando”) indica o meio pelo qual a purificação é apropriada: a invocação do nome do Senhor, expressão paulina clássica para fé salvadora (cf. Romanos 10:9–13). O batismo acompanha essa invocação como sinal público, não como agente purificador autônomo.

O caso de Cornélio é decisivo. Em Atos 10:43, Pedro declara que “todo aquele que nele crê recebe (λαμβάνει) remissão dos pecados”. Enquanto Pedro ainda falava, o Espírito Santo caiu sobre os ouvintes. O verbo λαμβάνειν está no presente indicativo, mostrando recepção imediata mediante a fé. O batismo vem depois, como reconhecimento visível de uma realidade já concedida por Deus. Pedro não diz que Cornélio recebeu o Espírito “em expectativa” do batismo, mas porque Deus já os havia purificado pela fé (καθαρίσας τὰς καρδίας αὐτῶν τῇ πίστει, Atos 15:9).

Por fim, a própria teologia paulina em 1 Coríntios 1:17 é clara e desconcertante para qualquer sistema batismal regeneracionista: “Cristo não me enviou para batizar, mas para evangelizar”. Tal afirmação seria inconcebível se o batismo fosse condição instrumental para a salvação.

O batismo é, sim, ordenança do Senhor, ato de obediência, identificação com a morte e ressurreição de Cristo (Romanos 6), testemunho público e inseparável da vida cristã normal. Mas nunca é apresentado como meio causal da justificação ou da remissão. Confundir sinal (σημεῖον) com substância (οὐσία) é o verdadeiro risco hermenêutico.

A Escritura não diminui o batismo; ela o coloca no seu devido lugar, subordinado à obra perfeita de Cristo e à fé que se apropria dessa obra.

Josué Matos