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O que significa, na prática, a eleição e a predestinação mencionadas em Romanos 8:29–30

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RESUMO DA DÚVIDA APRESENTADA

  1. PERGUNTAS EXPLÍCITAS DO DENIS

A dúvida do Denis nasce a partir da leitura de Romanos 8:28–30 e do texto do autor citado, e pode ser organizada nas seguintes perguntas:

  1. O que significa, na prática, a eleição e a predestinação mencionadas em Romanos 8:29–30, já que ele nunca havia ouvido esse ensino dessa forma?

  2. Quem são exatamente “os que amam a Deus” e “os que são chamados segundo o Seu propósito” mencionados em Romanos 8:28? Trata-se de um grupo específico e previamente definido?

  3. O que significa Deus “chamar” alguém?
    Esse chamado é algo que pode ser recusado ou é uma intervenção irresistível e garantida?

  4. Se a conversão acontece por uma intervenção direta de Deus na mente do pecador, tornando a fé absolutamente certa, como entender a responsabilidade humana?

  5. Como pessoas poderão ser julgadas e condenadas por incredulidade (Apocalipse 21:8) se, segundo essa explicação, Deus não lhes concedeu essa chamada eficaz ou “autorização” para crer?

  6. No juízo final, alguém poderia legitimamente dizer:
    “Senhor, eu não cri porque o Senhor não deixou”?

Essa última pergunta é o ponto central da inquietação do Denis.

  1. O QUE O AUTOR DO TEXTO AFIRMA (EM SÍNTESE ORGANIZADA)

O autor do texto que Denis leu apresenta a doutrina da eleição e da predestinação da seguinte forma:

  1. Romanos 8:29–30 descreve um processo completo e garantido de conversão e salvação, composto por etapas sequenciais:
    conheceu → predestinou → chamou → justificou → glorificou.

  2. Esse processo não é meramente informativo ou descritivo, mas uma intervenção direta de Deus na alma do pecador.

  3. A “chamada” de Deus é definida como uma ação irresistível, na qual Deus interfere diretamente na mente do pecador, tornando-o sensível ao evangelho e garantindo que essa sensibilidade resultará necessariamente em conversão.

  4. Os que amam a Deus não chegaram a esse ponto por iniciativa própria, mas exclusivamente por terem sido alvos dessa intervenção divina.

  5. O “conhecer de antemão” não é presciência, nem previsão do comportamento humano, mas um relacionamento íntimo e amoroso estabelecido por Deus antes da existência dessas pessoas.

  6. Esse conhecimento está inseparavelmente ligado à eleição; Deus conhece porque escolhe, ou escolhe e, ao mesmo tempo, conhece.

  7. A eleição é totalmente incondicional, não baseada em qualquer atitude futura, fé prevista ou resposta humana.

  8. Deus escolheu determinadas pessoas antes da fundação do mundo para terem comunhão eterna com Ele.

  9. A predestinação é a garantia absoluta de que essa eleição se cumprirá; ou seja, que o eleito inevitavelmente chegará à salvação.

  10. Os eleitos não podem deixar de ser salvos e não podem ser enganados por falsas doutrinas, pois a predestinação assegura tanto a salvação quanto a preservação na verdade.

  11. Embora o evangelho seja pregado a todos, apenas os eleitos recebem a graça eficaz da fé salvadora.

  1. ONDE NASCE A DÚVIDA CENTRAL

A dúvida do Denis surge exatamente da combinação entre essas afirmações do autor e textos como Apocalipse 21:8.

O conflito percebido por ele é o seguinte:

– Se apenas os eleitos recebem essa intervenção irresistível de Deus que os leva infalivelmente à fé,
– e se os não eleitos nunca recebem essa chamada eficaz,
– como essas pessoas podem ser julgadas e condenadas por incredulidade?

Em termos simples, a pergunta final do Denis é:

Como Deus pode condenar alguém por não crer, se essa pessoa nunca recebeu, segundo essa explicação, a ação divina necessária para que pudesse crer?

Esse é o núcleo da dúvida que ele está apresentando.

Minha Resposta:

Denis, a tua pergunta é legítima e toca exatamente no ponto onde muitos sistemas teológicos entram em tensão com o conjunto das Escrituras.

O próprio texto que citaste levanta um problema que ele não resolve: se a chamada é uma intervenção irresistível, garantida e seletiva, como o autor define, então o juízo final de Apocalipse 21:8 se torna moralmente incoerente. A Bíblia, porém, não entra em contradição consigo mesma.

Vamos responder usando os próprios termos e textos apresentados.

Primeiro, sobre Romanos 8:28–30.

Paulo não está explicando como alguém passa da incredulidade para a fé, mas descrevendo o caminho completo daqueles que já estão “em Cristo”. O texto começa com “os que amam a Deus”, não com “os que ainda estão mortos em pecados”. O foco é segurança, não mecanismo de conversão.

Quando Paulo diz “aos que de antemão conheceu”, ele não está afirmando que Deus impediu outros de crer, mas que Deus conhece plenamente aqueles que viriam a estar em Cristo. Em nenhum momento o texto afirma que Deus criou incrédulos incapazes de crer para depois condená-los.

O próprio Paulo esclarece isso mais adiante:

“Deus encerrou a todos debaixo da desobediência, para com todos usar de misericórdia” (Romanos 11:32).

Segundo, a definição de “chamada” apresentada no texto não é a única bíblica.

A Bíblia fala claramente de chamados rejeitados:

“Porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos” (Mateus 22:14).

Se a chamada fosse irresistível, esse versículo não faria sentido. O chamado é real, verdadeiro e pode ser resistido. Isso não diminui a soberania de Deus; apenas mantém a responsabilidade humana.

Terceiro, sobre João 15:16.

Jesus não está ali falando de salvação individual eterna, mas da escolha dos apóstolos para um ministério específico. O contexto é frutificação e missão, não condenação ou eleição para o céu. Usar esse texto para sustentar que ninguém pode crer sem autorização prévia ignora o contexto imediato.

Quarto, 2 Tessalonicenses 2:13 resolve o ponto-chave.

O texto diz que Deus escolheu “para a salvação, pela santificação do Espírito e fé na verdade”. A fé não é apresentada como algo imposto, mas como meio. O Espírito atua, a verdade é anunciada, e a fé responde. Não há qualquer indicação de que Deus negue fé a quem deseja crer.

Quinto, Romanos 9 não ensina condenação sem responsabilidade.

Paulo fala do direito soberano de Deus em conduzir a história da redenção, especialmente no contexto de Israel e dos gentios. Ele mesmo antecipa a objeção moral e não responde dizendo “Deus impede alguns de crer”, mas afirmando que Deus suporta “com muita longanimidade os vasos da ira” (Romanos 9:22). Longanimidade não combina com impedimento ativo.

Sexto, Apocalipse 21:8 responde diretamente à tua pergunta.

Os condenados são chamados de “incrédulos”. A Bíblia nunca diz que são “impedidos de crer”, mas que “não quiseram crer”. O próprio Senhor Jesus afirma:

“Não quereis vir a mim para terdes vida” (João 5:40).

No juízo, ninguém será condenado por falta de autorização divina, mas por rejeição consciente da luz recebida.

“Esta é a condenação: que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz” (João 3:19).

Se alguém disser no juízo “não cri porque Deus não deixou”, essa acusação não encontra respaldo em nenhum texto bíblico. A Escritura afirma repetidamente que Deus chama, convida, anuncia, adverte e oferece, e que a condenação ocorre porque o homem rejeita.

A eleição bíblica jamais transforma Deus em injusto, nem o homem em vítima. Ela exalta a graça sem anular a responsabilidade.

Para compreender corretamente eleição, predestinação e responsabilidade humana, é necessário partir do testemunho completo das Escrituras, evitando definições isoladas que absolutizam um aspecto em detrimento de outro.

Eleição, na Bíblia, é o ato soberano de Deus pelo qual Ele decide salvar um povo para Si em Cristo. Essa eleição não é apresentada como um decreto arbitrário e desconectado do evangelho, mas como parte do propósito eterno de Deus realizado em Jesus Cristo. A Escritura afirma que Deus escolheu “em Cristo” antes da fundação do mundo, não indivíduos isoladamente fora dele. Cristo é o Eleito de Deus, e todos os que estão unidos a Ele participam dessa eleição. Assim, a eleição é sempre cristocêntrica, graciosa e redentora, nunca fatalista.

A eleição não significa que Deus criou dois grupos — um destinado à salvação e outro à condenação — sem qualquer relação com fé, resposta ou rejeição da verdade. A condenação nunca é atribuída à eleição, mas ao pecado e à incredulidade. A Bíblia é clara ao afirmar que os homens se perdem porque rejeitam a luz, resistem à verdade e não creem no testemunho que Deus lhes deu acerca do Seu Filho.

Predestinação, por sua vez, não trata do ato inicial de crer, mas do destino final daqueles que estão em Cristo. Os textos que falam de predestinação afirmam que Deus determinou de antemão que os salvos seriam conformados à imagem do Seu Filho, adotados como filhos, feitos herdeiros e glorificados. A predestinação diz respeito ao propósito de Deus quanto ao fim, não ao meio pelo qual o pecador entra em Cristo.

Em nenhum texto bíblico a predestinação é apresentada como uma imposição de fé ou como um impedimento para que alguém creia. Ela é a garantia divina de que aqueles que pertencem a Cristo não serão abandonados no caminho, mas chegarão com segurança ao destino que Deus estabeleceu. A predestinação assegura a consumação da salvação, não a negação da oportunidade de crer.

Quanto à responsabilidade humana, a Escritura a afirma de forma inequívoca. O homem é chamado ao arrependimento, à fé e à obediência. O evangelho é anunciado a todos, e o convite é sincero e verdadeiro. A fé vem pelo ouvir a Palavra de Deus, e o Espírito Santo atua convencendo o mundo do pecado, da justiça e do juízo. Essa atuação divina não anula a responsabilidade do homem; antes, a torna real e inescapável.

A Bíblia reconhece que o homem, por si mesmo, não busca a Deus nem pode produzir salvação por obras. Contudo, isso não significa que ele seja impedido de crer quando confrontado pela verdade. A incredulidade não é causada por falta de permissão divina, mas pela rejeição consciente da luz. Sempre que a Escritura descreve a condenação, ela a vincula à incredulidade, à desobediência e ao amor ao pecado.

A harmonia bíblica é esta: Deus é absolutamente soberano, e o homem é verdadeiramente responsável. Deus chama, anuncia, oferece e convida; o homem responde ou rejeita. Quando alguém crê, toda a glória pertence a Deus; quando alguém se perde, a culpa recai sobre a rejeição da verdade. A eleição exalta a graça; a responsabilidade humana preserva a justiça de Deus.

Assim, eleição e predestinação nunca devem ser usadas para explicar por que alguém não creu, mas para assegurar aos que creram que a sua salvação não depende do acaso, do mérito ou da perseverança humana, e sim do propósito fiel e eterno de Deus em Cristo.

Josué Matos

Então penso que a lei que serve para o judeu também serve para o gentio convertido

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

A lei foi para Israel, mas a Bíblia diz que somos judeus de coração. Então penso que a lei que serve para o judeu também serve para o gentio convertido. Por isso fico pensativo com isso e outras questões desde Gênesis.

Romanos 2

28 Porque não é judeu o que o é exteriormente, nem é circuncisão a que o é exteriormente na carne.

29 Mas é judeu o que o é no interior, e circuncisão a que é do coração, no espírito, não na letra; cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus.

Minha Resposta:

A sua reflexão é compreensível e toca num ponto central da interpretação bíblica: a relação entre a Lei dada a Israel e a posição do gentio convertido em Cristo. Para responder com clareza, é necessário distinguir cuidadosamente entre identidade espiritual, economia divina e propósito da Lei.

Em primeiro lugar, quando o apóstolo Paulo escreve em Romanos 2:28–29, ele não está redefinindo o gentio como judeu no sentido nacional, histórico ou legal. O próprio contexto da carta deixa isso claro. Paulo está lidando com a falsa segurança religiosa, tanto do judeu que confiava nos privilégios externos quanto do gentio que poderia imaginar que a mera posse de conhecimento religioso fosse suficiente. Assim, “judeu no interior” não significa alguém colocado debaixo da Lei mosaica, mas alguém cujo relacionamento com Deus é real, interno e produzido pelo Espírito.

A circuncisão do coração já era um conceito conhecido nas Escrituras do Antigo Testamento. Em Deuteronômio 10:16 e 30:6, o próprio Deus fala de uma obra interior, e não meramente ritual. Logo, Paulo não está introduzindo uma nova Lei para o gentio, mas mostrando que o verdadeiro valor sempre esteve na obra de Deus no coração, algo que a Lei, por si mesma, nunca pôde produzir.

É fundamental lembrar que a Lei foi dada especificamente a Israel como nação. Isso é afirmado de forma inequívoca em textos como Êxodo 19:3–6 e Salmos 147:19–20, onde se declara que Deus não tratou assim com nenhuma outra nação. A Lei tinha um propósito definido: revelar o caráter santo de Deus, expor o pecado e conduzir o homem à necessidade de redenção.

No Novo Testamento, Paulo explica esse propósito de modo direto em Gálatas 3:24–25, ao afirmar que a Lei foi aio até Cristo, mas que, chegada a fé, já não estamos debaixo desse aio. Isso significa que a Lei cumpriu sua função pedagógica e condenatória, mas não é o princípio regulador da vida cristã.

Quando Paulo fala do gentio convertido, ele afirma claramente que esse gentio não é colocado sob a Lei. Em Romanos 6:14, lemos que o crente não está debaixo da Lei, mas da graça. Mais adiante, em Romanos 7, Paulo mostra que a Lei é santa, justa e boa, mas impotente para libertar o homem do domínio do pecado. A libertação vem exclusivamente por meio de Cristo.

Além disso, o Concílio de Jerusalém, relatado em Atos dos Apóstolos 15, é decisivo nessa questão. Ali, os apóstolos rejeitam explicitamente a ideia de impor a Lei de Moisés aos gentios convertidos. Pedro chega a afirmar que isso seria colocar um jugo que nem os próprios judeus conseguiram suportar.

Portanto, ser “judeu no interior” não significa estar sujeito à Lei mosaica, mas possuir uma realidade espiritual: um coração transformado, regenerado e dirigido pelo Espírito Santo. O crente hoje vive sob outro princípio, chamado no Novo Testamento de a lei de Cristo, mencionada em Gálatas 6:2. Essa não é uma repetição da Lei de Moisés, mas a vida de Cristo expressa em amor, obediência e dependência de Deus.

Finalmente, olhar para Gênesis e para toda a Escritura é correto e necessário, mas sempre à luz da revelação progressiva. A Palavra de Deus não se contradiz, mas avança até a plena revelação em Jesus Cristo. O erro surge quando se misturam economias diferentes, aplicando ao Corpo de Cristo aquilo que foi dado exclusivamente a Israel como nação.

Assim, a Lei continua tendo valor como revelação do caráter de Deus e como testemunho histórico e moral, mas não como regra de vida para o crente em Cristo. A nossa posição não é a do Sinai, mas a do Calvário; não a da letra que mata, mas a do Espírito que vivifica, conforme ensinado em 2 Coríntios 3:6.

Josué Matos

Tenho visto que boa parte da teologia cristã, em maior ou menor grau, se desenvolveu não tanto de um estudo sério da Escritura

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Irmão Josué, em minhas leituras, tenho visto que boa parte da teologia cristã, em maior ou menor grau, se desenvolveu não tanto de um estudo sério da Escritura, (respeitando seu contexto mediato e imediato em sua forma histórico-gramatical), mas muito da mesma foi desenvolvido com base em pressupostos filosóficos, principalmente de Aristóteles, dentre outros. Vemos isto na teologia católica, com Tomás de Aquino, que foi profundamente influenciado por Aristóteles (já citado), bem como no Calvinismo, que se escorou profusamente em Agostinho de Hipona, que foi profundamente também influenciado pela filosofia grega. Irmão Josué, como estudar a Bíblia sem este "fermento" filosófico, que tanto influenciou o entendimento das coisas divinas com raciocínios limitados pela filosofia, nos trazendo, por fim, uma "mistura" doutrinária que tanto mal fez à obra de Deus no mundo?

Minha Resposta:

Amado irmão,

A sua percepção é bastante pertinente e toca num ponto sensível da história do pensamento cristão. De fato, ao longo dos séculos, a teologia cristã foi sendo desenvolvida em contextos culturais específicos, e isso fez com que categorias filosóficas externas às Escrituras fossem, muitas vezes, usadas como lentes interpretativas. O problema não é apenas histórico, mas metodológico e espiritual.

É inegável que, desde os primeiros séculos, houve uma aproximação entre fé cristã e filosofia grega. Já no período patrístico, especialmente com figuras como Agostinho, houve forte diálogo com o platonismo e, mais tarde, com o neoplatonismo. Na Idade Média, a síntese entre fé e razão ganhou contornos sistemáticos com Tomás de Aquino, profundamente influenciado por Aristóteles. Esses sistemas procuravam organizar a doutrina cristã de forma lógica, coerente e defensável diante do pensamento dominante da época. O mesmo pode ser observado, ainda que de forma diferente, em sistemas teológicos posteriores, inclusive no calvinismo, que herdou categorias metafísicas e conceituais anteriores à Reforma.

A Escritura, porém, não se apresenta como um tratado filosófico. Ela é revelação divina dada em linguagem histórica, progressiva, pactual e redentiva. Os autores bíblicos não pensam a partir de categorias aristotélicas como “ato e potência”, “substância e acidente”, ou “causa primeira”, mas a partir da relação viva entre Deus e o homem, do pecado, da redenção, da promessa e do cumprimento. Quando essas categorias filosóficas passam a governar a leitura do texto bíblico, o risco é inverter a ordem: em vez de a Escritura julgar os nossos sistemas, os sistemas passam a julgar a Escritura.

O próprio Novo Testamento alerta contra esse perigo. O apóstolo Paulo escreve aos colossenses advertindo: “Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo” (Colossenses 2:8). Aqui não se trata de uma rejeição ao uso da razão, mas de uma denúncia clara contra qualquer estrutura de pensamento que se torne concorrente ou superior à revelação de Deus em Cristo.

Como, então, estudar a Bíblia sem esse “fermento” filosófico?

Primeiro, é necessário reafirmar a suficiência e a autoridade das Escrituras. A Bíblia interpreta a própria Bíblia. Textos claros lançam luz sobre textos mais difíceis, e nenhuma doutrina deve ser construída a partir de inferências filosóficas que não estejam firmemente ancoradas no testemunho global da Palavra de Deus. “Toda a Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça” (2 Timóteo 3:16).

Segundo, é fundamental respeitar o método histórico-gramatical em submissão espiritual. Isso significa ler cada texto no seu contexto imediato e mediato, considerando o género literário, o momento histórico, o propósito do autor humano e, sobretudo, a intenção do Autor divino. Mas esse método, por si só, não basta se for aplicado de forma meramente académica. O Senhor Jesus disse: “Se alguém quiser fazer a vontade dele, conhecerá a respeito da doutrina” (João 7:17). O entendimento espiritual está ligado à disposição do coração.

Terceiro, é preciso deixar que a linguagem bíblica molde as nossas categorias, e não o contrário. A Bíblia fala em termos como vida e morte, luz e trevas, carne e espírito, fé e incredulidade, justiça e pecado, cabeça e corpo, pastor e ovelhas. Quando substituímos essas categorias por esquemas abstratos importados da filosofia, perdemos a força e a simplicidade da revelação divina.

Quarto, devemos reconhecer que o Espírito Santo é o verdadeiro Mestre. O Senhor prometeu que o Espírito guiaria os Seus discípulos em toda a verdade (João 16:13). O estudo sério das Escrituras não é independente da dependência espiritual. A iluminação do Espírito não anula o estudo, mas dá vida, direção e equilíbrio a ele.

Por fim, convém lembrar que Deus nunca confiou a preservação da verdade a sistemas, mas à Sua Palavra viva. A história da Igreja mostra que, sempre que a teologia se cristalizou em esquemas fechados, a vida espiritual enfraqueceu. Em contrapartida, os períodos de maior frescor espiritual foram marcados por um retorno simples, reverente e obediente às Escrituras.

Portanto, estudar a Bíblia sem o “fermento” filosófico não significa ignorar a história do pensamento cristão, mas submeter toda tradição, todo sistema e todo raciocínio à autoridade final da Palavra de Deus. É voltar a ouvir a Escritura como Palavra viva, capaz de julgar os pensamentos e intenções do coração (Hebreus 4:12), permitindo que ela mesma forme o nosso entendimento das coisas divinas.

Josué Matos

Por qual razão Deus permite ou envia o mal e o pecado no mundo?

 Alguém que me escreveu no YouTube:

Amado amigo e irmão Josué.  Por que sofre o justo? Minha sogra, crente temente a Deus, está com câncer.  Além de orar por ela, poderia, por favor, nos ajudar quanto a esta questão? Por que parece que a providência de Deus demora tanto nas vidas dos justos? Obrigado, e que Deus te abençoe sempre.

Mês que vem fará sete anos da morte de meu filho, na época com 22 anos. Infarto fulminante. Por que dessas dores nas nossas vidas?

Em suma, por qual razão Deus permite ou envia o mal e o pecado no mundo?

Minha Resposta:

Recebo a sua mensagem com profundo respeito e temor diante da dor que o senhor compartilha. Não se trata de uma pergunta teórica, mas de um clamor que nasce do coração ferido. A Palavra de Deus não ignora esse tipo de dor; ao contrário, ela a reconhece, a acolhe e a ilumina com verdade, ainda que nem sempre com explicações simples.

  1. Por que sofre o justo?

A Bíblia é muito clara ao afirmar que o sofrimento não é, necessariamente, consequência direta de pecado pessoal. O livro de Jó foi preservado justamente para corrigir essa ideia simplista. Jó é apresentado como homem íntegro, reto, temente a Deus e que se desviava do mal, e ainda assim foi profundamente afligido. O próprio Deus confirma isso em Jó 1:8 e Jó 2:3.

O sofrimento do justo não significa ausência de cuidado divino, nem indiferença da parte de Deus. Muitas vezes, ele ocorre dentro de um mundo que está debaixo das consequências da queda. Desde Gênesis 3, a criação inteira foi sujeita à corrupção. O apóstolo Paulo declara que toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até agora, conforme Romanos 8:22. A doença, a morte e a fragilidade do corpo fazem parte desse estado decaído da criação, e os justos não estão imunes a isso.

  1. Por que a providência de Deus parece demorar?

A demora da providência de Deus não é descaso, mas faz parte do Seu modo perfeito de agir. A Escritura nos ensina que Deus vê o fim desde o princípio, como afirma Isaías 46:10. Aquilo que para nós parece atraso, para Ele está dentro de um tempo exato.

Habacuque também lutou com essa sensação de demora e ouviu do Senhor: “Se tardar, espera-o; porque certamente virá, não tardará” (Habacuque 2:3). Aos nossos olhos humanos, a espera é pesada; aos olhos de Deus, ela está ajustada à Sua sabedoria eterna.

Além disso, a Palavra nos mostra que Deus, muitas vezes, opera mais profundamente em nós durante o tempo da espera do que no momento da resposta. Romanos 5:3–5 ensina que a tribulação produz perseverança, a perseverança experiência, e a experiência esperança. Não se trata de romantizar a dor, mas de reconhecer que Deus não a desperdiça.

  1. A dor da perda de um filho

A morte de um filho é uma das dores mais profundas que um ser humano pode experimentar. A Bíblia não tenta minimizar essa dor. O próprio Senhor Jesus chorou diante do túmulo de Lázaro, conforme João 11:35, mesmo sabendo que o ressuscitaria. Isso nos mostra que o choro não é falta de fé, mas expressão legítima de amor e de perda.

O salmista declara: “Preciosa é à vista do Senhor a morte dos seus santos” (Salmos 116:15). Isso não significa que a morte seja boa em si mesma, mas que Deus não trata a vida dos seus filhos com indiferença. O apóstolo Paulo afirma que, para os que estão em Cristo, partir e estar com Cristo é incomparavelmente melhor, conforme Filipenses 1:23. Essa verdade não elimina a dor da separação, mas oferece esperança quanto ao destino daquele que partiu no Senhor.

  1. Deus permite ou envia o mal e o pecado?

A Escritura distingue claramente entre a origem do pecado e a soberania de Deus. Deus não é o autor do pecado, nem da maldade moral. Tiago 1:13 afirma que Deus não pode ser tentado pelo mal e a ninguém tenta. O pecado entrou no mundo pela desobediência do homem, conforme Romanos 5:12.

Contudo, Deus é soberano até mesmo sobre aquilo que Ele não aprova moralmente. Ele permite o mal, mas nunca perde o controle da história. Um dos textos mais claros sobre isso é Gênesis 50:20, quando José diz a seus irmãos: “Vós intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem”. O mal foi real, a dor foi real, mas Deus operou acima e através disso para cumprir Seus propósitos.

No Novo Testamento, vemos o maior exemplo disso na cruz. Atos 2:23 afirma que o Senhor Jesus foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, e ainda assim foi morto por mãos de homens injustos. O pecado humano foi responsável; a soberania divina estava presente; e o resultado foi a nossa redenção.

  1. O que nos sustenta quando não há respostas completas?

A Bíblia não promete que entenderemos todas as razões nesta vida. Deuteronômio 29:29 declara que as coisas encobertas pertencem ao Senhor, mas as reveladas nos pertencem. O que nos é revelado é suficiente para confiar, mesmo quando não compreendemos.

O Senhor Jesus assegurou que nenhuma dor é ignorada por Deus. Ele afirmou que nem um pardal cai por terra sem o consentimento do Pai e que até os cabelos da nossa cabeça estão contados, conforme Mateus 10:29–30. Isso não explica tudo, mas garante que nada escapa ao cuidado divino.

Por fim, a esperança cristã não está na ausência de sofrimento nesta vida, mas na certeza de que ele não é o capítulo final. Apocalipse 21:4 declara que Deus enxugará dos olhos toda lágrima, e que não haverá mais morte, nem pranto, nem dor. Essa promessa não anula a dor presente, mas dá sentido à perseverança.

Que o Deus de toda consolação, que nos consola em toda a nossa tribulação, conforme 2 Coríntios 1:3–4, fortaleça o seu coração, conforte sua família e sustente sua fé, mesmo quando as perguntas permanecem sem resposta completa.

Receba meu abraço fraterno em Cristo.

Josué Matos

Qual a genealogia de Jó? Era descendente de qual linhagem dos filhos de Adão?

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Qual a genealogia de Jó?  Era descendente de qual linhagem dos filhos de Adão?

Minha resposta:

A pergunta sobre a genealogia de Jó é muito pertinente, pois o livro que leva o seu nome é singular na Escritura: ele apresenta um homem histórico, piedoso e profundamente provado, mas sem fornecer uma genealogia explícita, como ocorre com muitos outros personagens do Antigo Testamento.

A Bíblia não apresenta uma genealogia direta e formal de Jó, nos moldes de Gênesis 5, Gênesis 10 ou 1 Crônicas. Não há um texto que diga claramente: “Jó, filho de…” seguido de uma linhagem até Adão. Ainda assim, a Escritura fornece dados suficientes para situá-lo historicamente e genealogicamente de forma responsável.

  1. A origem de Jó segundo a Escritura

Jó é apresentado logo no início do livro como “homem da terra de Uz” (Jó 1:1). A terra de Uz não pertence ao território de Israel, o que já indica que Jó não era israelense, nem descendente direto de Abraão, Isaque ou Jacó.

Em Lamentações 4:21, Uz é associado à região de Edom, e em Gênesis 36:28 encontramos Uz como descendente de Esaú, por meio de Disã. Além disso, Gênesis 22:21 menciona Uz como filho de Naor, irmão de Abraão. Essas referências mostram que o nome Uz aparece em diferentes ramos familiares semitas, o que indica que a região recebeu esse nome de um ancestral antigo, e não necessariamente que Jó fosse descendente direto de um único Uz específico.

  1. Jó dentro da linhagem de Adão

Embora a Bíblia não detalhe sua genealogia, é possível afirmar com segurança que Jó era descendente de Adão por meio da linhagem de Sem, filho de Noé. Isso se sustenta por várias razões bíblicas:

– Jó vive em um contexto claramente pós-diluviano.
– Ele pertence ao mundo semita oriental, tanto pela linguagem quanto pelos figurinos.
– A revelação que Jó possui sobre Deus, sobre o Criador e sobre a responsabilidade moral do homem corresponde à tradição transmitida desde os patriarcas antigos.

Portanto, Jó se encaixa na mesma grande linhagem humana que vai de Adão a Noé, de Noé a Sem, e de Sem aos povos do Oriente.

  1. O período histórico de Jó

O livro de Jó apresenta características que apontam para um período patriarcal muito antigo:

– A riqueza de Jó é medida em gado, não em prata ou ouro (Jó 1:3).
– Ele atua como sacerdote de sua própria família, oferecendo holocaustos por seus filhos (Jó 1:5), prática comum antes da Lei mosaica.
– Não há qualquer menção à Lei de Moisés, ao sacerdócio levítico ou à nação de Israel.
– A longevidade de Jó após suas provações (Jó 42:16) se aproxima dos patriarcas antigos.

Esses elementos indicam que Jó viveu provavelmente na mesma época de Abraão ou depois pouco, ainda no período patriarcal.

  1. Por que a genealogia de Jó não foi revelada?

A ausência da genealogia de Jó não é uma omissão casual, mas teológica. O Espírito Santo apresenta Jó como um homem justo fora de Israel, para mostrar que:

– O temor do Senhor não estava restrito a uma única nação.
– Deus sempre teve testemunhas legítimas entre os gentios.
– A justiça diante de Deus nunca foi baseada em linhagem, mas em fé e integridade de coração.

Jó é descrito como “íntegro e reto, temente a Deus e que se desviava do mal” (Jó 1:1), sem qualquer apoio em particularidades nacionais ou religiosas.

  1. Conclusão

Em resumo:

– A Bíblia não fornece uma genealogia explícita de Jó.
– Ele não pertence à linhagem de Israel, mas ao tronco semita descendente de Adão por meio de Sem.
– Viveu no período patriarcal, possivelmente contemporâneo de Abraão.
– Sua origem fora de Israel ressalta a universalidade do temor do Senhor e da soberania de Deus.
– Jó é apresentado como um exemplo de fé genuína antes da Lei, antes de Israel e fora de qualquer sistema religioso formal.

Assim, Jó permanece como uma poderosa testemunha de que Deus sempre se revela aos que O busca com sinceridade, independentemente de genealogia, território ou dispensação.

Josué Matos


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Lugar do indouto e infiel na prática

Alguém que me escreveu no YouTube:

Lugar do indouto e infiel. Muito bom, no caso existe algum exemplo de como deveria ser essa separação dos que estão na comunhão e dos que não estão?

Minha Resposta:

Bem, minha resposta vai ser em duas partes: a primeira será doutrinária no sentido abstrato, e a segunda será na prática, visível, no próprio local da reunião.

A separação entre os que estão em comunhão e os que não estão não é uma separação social, nem uma exclusão do convívio humano, mas uma distinção espiritual e prática dentro da vida da assembleia.

A Bíblia apresenta exemplos claros de como essa separação deveria ocorrer.

1. A base da comunhão

   A comunhão cristã está fundamentada na vida em Cristo e na obediência à verdade. Em Atos dos Apóstolos 2:42, vemos que os primeiros crentes perseveravam na doutrina dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão e nas orações. Isso mostra que comunhão não é apenas estar presente, mas andar na mesma doutrina, na mesma verdade e no mesmo temor de Deus.

A comunhão é algo que se mantém quando há luz. Em 1 João 1:7 lemos que, se andarmos na luz, como Ele na luz está, temos comunhão uns com os outros. Quando alguém abandona a luz, a própria comunhão fica comprometida.

2. O caso claro de separação na comunhão

   O exemplo mais direto está em 1 Coríntios 5. Havia na assembleia alguém vivendo em pecado moral grave e não julgado. O apóstolo Paulo orienta que esse homem fosse removido do meio da comunhão. A expressão “tirai dentre vós esse iníquo” não significa expulsá-lo da salvação, mas afastá-lo da comunhão da assembleia.

O ensino é claro: a assembleia não pode agir como se nada estivesse acontecendo. A separação ocorre quando alguém, professando fé, anda de forma contrária à santidade e se recusa a julgar sua própria condição.

3. O objetivo da separação

   A Escritura mostra que essa separação nunca é vingativa, nem definitiva por si mesma. Em 1 Coríntios 5:5, o objetivo era que o espírito fosse salvo no dia do Senhor. E em 2 Coríntios 2:6-8, vemos que, havendo arrependimento, o mesmo homem foi restaurado à comunhão.

Portanto, a separação visa preservar a santidade da assembleia e, ao mesmo tempo, levar o irmão ao arrependimento e à restauração.

4. Separação sem ódio, mas com discernimento

   Em 2 Tessalonicenses 3:6 e 14-15, Paulo fala de afastar-se daquele que anda desordenadamente, mas acrescenta que não deve ser tratado como inimigo, e sim admoestado como irmão. Isso mostra equilíbrio: há uma linha clara entre comunhão espiritual e relacionamento humano.

O crente não perde o dever de amar, mas não pode fingir comunhão onde não há submissão à verdade.

5. O ensino do Senhor Jesus

   O próprio Senhor Jesus ensinou um princípio semelhante em Mateus 18:15-17. Há um processo: primeiro a exortação pessoal, depois com testemunhas, e por fim diante da assembleia. Se houver recusa em ouvir, a pessoa passa a ser considerada como alguém fora da comunhão prática.

Novamente, não se trata de condenação eterna, mas de uma posição clara quanto à comunhão.

6. Comunhão não é automática

   A Escritura nunca ensina que todos os que professam fé estão automaticamente em comunhão. Em 2 Timóteo 2:19-21, Paulo mostra que, numa grande casa, há vasos para honra e para desonra, e que a responsabilidade do crente é purificar-se para ser um vaso para honra.

Isso implica discernimento espiritual e responsabilidade coletiva.

Portanto, há exemplos claros na Bíblia de como essa separação deve acontecer. Ela é espiritual, prática, responsável e sempre acompanhada de amor, verdade e objetivo restaurador. A comunhão é algo precioso demais para ser tratada com indiferença, e a separação, quando necessária, é um ato de obediência à Palavra de Deus, não de dureza de coração.

Agora vamos para quando a separação não é doutrinária no sentido abstrato, mas prática, visível, no próprio local da reunião. E, nesse ponto, a Escritura não nos dá um “layout” detalhado, mas fornece princípios que, quando aplicados com sabedoria espiritual, evitam confusão e constrangimentos.

A Bíblia não determina um modelo arquitetônico ou um arranjo físico obrigatório para o local de reunião. No entanto, ela estabelece princípios claros quanto à comunhão, especialmente na reunião da Ceia do Senhor, que poderá ser guia para outras, quando necessário. Pois é na Ceia do Senhor que essa distinção se torna mais visível de forma prática.

Na reunião da Ceia do Senhor, há uma mesa, com o pão e o cálice, que representam a comunhão do corpo e do sangue de Cristo, conforme ensinado em 1 Coríntios 10:16-17 e 1 Coríntios 11:23-29. Esses emblemas não são para todos indistintamente, mas para aqueles que estão em comunhão prática com a assembleia e andando de forma digna dessa comunhão.

Por essa razão, muitas assembleias, de forma sábia e discreta, costumam organizar o espaço de modo que os irmãos e irmãs que participam da comunhão se sentem mais próximos da mesa. Aqueles que estão visitando, que ainda não estão em comunhão, ou que, por qualquer razão, não participam da Ceia, sentam-se mais afastados da mesa.

Isso não cria uma “classe espiritual superior”, nem expõe ninguém publicamente. Pelo contrário, evita constrangimentos desnecessários, como ter de “pular” pessoas durante a distribuição do pão e do cálice, algo que poderia gerar confusão, embaraço ou interpretações erradas. Evita criar a ideia de que todos ali podem orar de forma audível, solicitar um hino, etc., por simplesmente se dizer crente.

Esse cuidado reflete o princípio de 1 Coríntios 14:40, onde tudo deve ser feito com decência e ordem. Também demonstra amor e sensibilidade pastoral, preservando tanto a santidade da Ceia quanto a dignidade das pessoas.

Importa lembrar que essa separação é apenas no exercício da comunhão da Ceia do Senhor. Não é uma exclusão do local de reunião, nem uma barreira social. Todos podem estar presentes, ouvir a Palavra, dar o seu amém às orações e participar dos cânticos. A distinção ocorre somente no ato específico da Ceia, que é uma expressão prática de comunhão.

Assim, a separação física, quando existe, não é um ritual imposto, mas uma solução prática baseada em princípios bíblicos, visando ordem, clareza e respeito pelo significado profundo da Ceia do Senhor.

Todos poderão participar, basta atingirem os requisitos de serem realmente salvos, batizados, fazerem parte da comunhão da igreja e terem uma vida em conformidade com a sã doutrina.

Josué Matos

Desculpa, meu irmão, o relógio não parou de maneira nenhuma

 Alguém que me escreveu no YouTube:

Desculpa, meu irmão, o relógio não parou de maneira nenhuma. De onde o senhor tirou isso. Ficamos somente com o texto. As 70 semanas foram dadas para o povo de Israel, e ponto.

Minha Resposta:

Quando falamos que o “relógio” não correu de forma contínua, não estamos a inventar algo fora do texto, mas a observar cuidadosamente o próprio texto de Daniel.

É verdade que as setenta semanas foram determinadas sobre o povo de Israel e sobre a santa cidade, conforme Daniel 9:24 afirma de forma clara. Esse ponto não está em discussão. O que precisa ser observado é como o próprio texto distribui essas semanas e o que acontece dentro delas.

Daniel 9:25 faz uma divisão explícita: desde a saída da ordem para restaurar e edificar Jerusalém até o Messias, o Príncipe, há sete semanas e sessenta e duas semanas. O texto não apresenta as sessenta e nove semanas como um bloco contínuo e indiferenciado, mas já introduz uma estrutura interna.

Em seguida, Daniel 9:26 afirma algo decisivo: depois das sessenta e duas semanas, o Messias será cortado, e não será para Si mesmo. Esse “depois” é fundamental. O corte do Messias não ocorre dentro da sexagésima nona semana, mas após ela. Além disso, o mesmo versículo menciona a destruição da cidade e do santuário, algo que historicamente ocorreu décadas depois da morte do Messias, no ano 70. Esses eventos não pertencem às semanas contadas até o Messias, mas acontecem depois delas.

Quando chegamos a Daniel 9:27, o texto fala de uma semana específica, marcada por uma aliança, sua ruptura no meio da semana e a cessação do sacrifício e da oferta. O texto não diz que essa semana segue imediatamente a anterior, apenas a apresenta como uma semana distinta, caracterizada por eventos que não se ajustam nem ao ministério do Messias nem ao período imediatamente posterior à Sua morte.

Portanto, não se trata de dizer que Deus mudou o plano ou que Israel deixou de ser o alvo da profecia. Trata-se de reconhecer que o próprio texto mostra um intervalo entre a sexagésima nona e a septuagésima semana. Durante esse intervalo, o Messias já foi rejeitado, a cidade foi destruída e Israel permanece em condição de dispersão, algo que Daniel 9:26 descreve, mas que não é contado dentro das semanas.

Esse mesmo princípio aparece noutras passagens proféticas. Isaías 61:1–2, por exemplo, une numa mesma leitura a primeira e a segunda vinda do Messias, mas o próprio Senhor Jesus, em Lucas 4:19–21, interrompe a leitura antes da expressão “o dia da vingança do nosso Deus”, mostrando um intervalo entre as duas partes da profecia. O texto estava lá o tempo todo; o intervalo é revelado pelo cumprimento histórico.

Assim, afirmar que há um intervalo não é sair do texto, mas deixar que o texto, lido à luz do cumprimento histórico e do conjunto das Escrituras, fale por si mesmo. As setenta semanas são, sim, para Israel, mas nem todas correm de forma ininterrupta, segundo o próprio testemunho de Daniel.

Josué Matos

Conheço um pastor simpatizante do adventismo que defende que o homem espiritual consegue guardar os Dez Mandamentos

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Essa passagem bíblica é intrigante. Se ninguém será salvo por guardar a lei, então ninguém perde a salvação por não guardar o sábado. Só que, nos Dez Mandamentos, além de ter a ordenança da guarda do sábado, fala de não matar, não roubar, não cobiçar, não adulterar, não idolatrar. Conheço um pastor simpatizante do adventismo que defende que o homem espiritual consegue guardar os Dez Mandamentos, mas eu não acredito nisso devido ao pecado que habita em nós. Somos muito falhos e limitados. Se a Palavra diz que ninguém será justificado pela lei, isso denota que, se houver alguma falha, haverá justificação por graça e misericórdia mediante a fé em Cristo. Por exemplo, as pessoas que estão no segundo casamento e não conseguem abandonar, a graça cobrirá isso e, porventura, outros pecados?

Levítico 5:17 diz que quem pecar contra os mandamentos do Senhor, ainda que não souber, será culpado e levará a sua iniquidade. Mas no Novo Testamento diz que ninguém será justificado por guardar a lei. Como fica tudo isso, presbítero?

Jeremias 3:14: Convertei-vos, ó filhos rebeldes, diz o Senhor; pois eu vos desposei; e vos tomarei, a um de uma cidade, e a dois de uma família; e vos levarei a Sião.

Minha Resposta:

A tua pergunta é muito séria e legítima, e ela toca exatamente no coração da diferença entre Lei, graça, justificação e vida cristã. Vou procurar responder de forma organizada, para que o quadro fique claro à luz de toda a Escritura.

  1. A função da Lei no Antigo Testamento

A Lei nunca foi dada para salvar alguém, mas para revelar o pecado e estabelecer a responsabilidade do homem diante de Deus. Textos como Levítico 5:17 deixam isso evidente: mesmo o pecado cometido por ignorância tornava o homem culpado. Isso mostra que a Lei exige perfeição absoluta, não apenas boa intenção. Quem falha em um ponto torna-se culpado de todos, como o próprio Novo Testamento confirma em Tiago 2:10.

Portanto, no Antigo Testamento, a Lei tinha um papel pedagógico: revelar o caráter santo de Deus e a incapacidade do homem de corresponder plenamente a esse padrão.

  1. Por que ninguém é justificado pela Lei

Quando o Novo Testamento afirma que ninguém será justificado pelas obras da Lei, ele não está contradizendo o Antigo Testamento, mas revelando o propósito final da Lei. Romanos 3:19–20 declara que a Lei cala toda boca e torna todo o mundo culpado diante de Deus. Ela mostra o pecado, mas não remove o pecado.

Gálatas 3:24 afirma que a Lei foi aio, ou tutor, para conduzir a Cristo. Ou seja, ela aponta para a necessidade de um Salvador, não para a capacidade do homem de se salvar obedecendo.

  1. Os Dez Mandamentos e o crente

Os Dez Mandamentos expressam princípios morais santos e justos, mas o Novo Testamento ensina que o crente não está debaixo da Lei como sistema de justificação ou regra de vida para alcançar aceitação diante de Deus. Romanos 6:14 afirma que o crente não está debaixo da Lei, mas da graça.

Isso não significa libertinagem. Significa que a obediência agora flui de uma nova vida, não de uma tentativa de se justificar. O crente faz o que é correto não para ser aceito, mas porque já foi aceito em Cristo.

  1. A ideia de que o “homem espiritual” guarda perfeitamente os mandamentos

A Escritura é muito clara em Romanos 7 ao mostrar que o pecado ainda habita no crente. Mesmo um apóstolo como Paulo reconhece essa luta interior. A noção de que alguém, por ser “espiritual”, consegue guardar perfeitamente os Dez Mandamentos ignora essa realidade bíblica.

O Novo Testamento não ensina perfeição sem pecado nesta vida, mas crescimento, disciplina, confissão e restauração. Se a perfeição fosse possível, não haveria necessidade constante da intercessão de Cristo nem da confissão diária, como vemos em 1 João 1:7–9.

  1. A questão do sábado

Se ninguém é salvo por guardar a Lei, então ninguém perde a salvação por não guardar o sábado. O sábado era um sinal específico entre Deus e Israel, ligado à antiga aliança. O Novo Testamento nunca impõe a guarda do sábado à Igreja. Colossenses 2:16–17 é claro ao afirmar que essas coisas eram sombra do que havia de vir, mas o corpo é de Cristo.

  1. Pecados persistentes e a graça

A graça não é uma licença para pecar, mas também não é anulada pela presença de falhas na vida do crente. O fundamento da justificação é a obra perfeita de Cristo, não a capacidade do crente de viver sem tropeços.

No caso de pessoas em segundo casamento, por exemplo, a Escritura trata a situação com seriedade, mas nunca apresenta o abandono do lar como condição para manter a salvação. A salvação está fundamentada na obra consumada de Cristo, não na reorganização perfeita de todas as consequências do passado.

Isso não significa que Deus ignore o pecado. Significa que Ele trata Seus filhos com disciplina, não com condenação eterna. Há uma diferença clara entre disciplina paterna e condenação judicial.

  1. Levítico 5:17 à luz do Novo Testamento

Levítico 5:17 mostra que a Lei condena até o pecado inconsciente. O Novo Testamento responde a isso mostrando que Cristo assumiu essa culpa. Ele morreu não apenas pelos pecados conscientes, mas também pelos que estavam ocultos e ignorados.

Hebreus afirma que o sacrifício de Cristo é perfeito e suficiente, algo que os sacrifícios da Lei jamais puderam ser. Por isso, hoje, a culpa não é removida pela observância da Lei, mas pela fé no sacrifício de Cristo.

  1. Jeremias 3 e a graça restauradora

Jeremias 3 fala de restauração, não de justificação pela Lei. Deus chama um povo infiel ao arrependimento, mostrando Seu coração gracioso. Esse texto aponta para o mesmo princípio que se cumpre plenamente no Novo Testamento: Deus restaura, chama, disciplina e recebe, mas a base disso não é a perfeição do homem, e sim a fidelidade d’Ele.

Conclusão

A Lei revela o pecado. A graça salva o pecador. A justificação é pela fé. A vida cristã é marcada por crescimento, disciplina e dependência constante da obra de Cristo. A graça não cobre o pecado para que ele seja ignorado, mas cobre o pecador para que ele seja transformado, sem jamais colocar a salvação em risco por causa de falhas reais numa vida ainda marcada pela carne.

Espero que isso ajude a colocar cada texto no seu devido lugar e a enxergar a harmonia das Escrituras, e não uma contradição.

Josué Matos

Você tem algum vídeo que trata do monergismo?

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Gostaria de lhe fazer um pedido de oração.

Ore pelo F., um jovem cristão vendedor que conheci numa livraria evangélica aqui em São Paulo.

Comentei o valor espiritual dos comentários da Ritchie e ele tem se interessado…

 … porém ele parece estar preso aos rótulos construídos pela teologia e classifica uma parte do movimento dos irmãos como “monergista”… passei seu vídeo “Por que não sou reformado”…

Você tem algum vídeo que trata do monergismo?

Minha Resposta:

Muito obrigado por compartilhar esse pedido. Vamos orar, sim, pelo F. É motivo de gratidão perceber um jovem com interesse genuíno em literatura cristã e sensível ao valor espiritual de bons comentários bíblicos. Esse tipo de interesse não é comum e merece ser acompanhado em oração, para que o Senhor conduza o coração dele à simplicidade que há em Cristo.

Quanto aos rótulos teológicos, é importante ter bastante cuidado. Quando expressões como “monergismo” passam a dominar a conversa, há sempre o risco de a teologia deixar de ser um meio de compreender a revelação de Deus e tornar-se um sistema que aprisiona o pensamento. A Escritura mostra que a fé vem pelo ouvir a Palavra de Deus (Romanos 10:17), e que o novo nascimento é uma obra do Espírito Santo, mas nunca apresentada como algo desligado da responsabilidade humana de crer. “A todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome” (Evangelho de João 1:12).

Tenho tratado desse assunto em vários momentos, ainda que nem sempre usando o rótulo técnico “monergismo”. Em especial, procuro mostrar que a Bíblia não apresenta a salvação como resultado de um sistema teológico fechado, mas como a ação soberana de Deus em graça, operando por meio da Palavra, despertando a consciência do pecador e chamando-o ao arrependimento e à fé viva em Cristo. O Senhor Jesus constantemente chamava pessoas à fé, responsabilizando-as pela resposta ao testemunho divino (Evangelho de João 5:40; Evangelho de João 12:48).

O vídeo “Por que não sou reformado” vai nessa linha, e há outros conteúdos em que procuro mostrar que a ênfase bíblica não está em defender um “ismo”, mas em preservar o equilíbrio das Escrituras: Deus é soberano, o Espírito Santo é quem opera a vida nova, mas o homem é chamado a crer, arrepender-se e receber o Salvador. “Deus… agora notifica aos homens que todos, em toda parte, se arrependam” (Atos dos Apóstolos 17:30).

O mais importante, no caso do F., não é convencê-lo de um posicionamento teológico, mas que ele seja conduzido a uma fé simples, pessoal e viva no Senhor Jesus Cristo, livre de rótulos, firmada na Palavra e dependente do Espírito Santo. Continuemos orando para que Deus preserve o coração dele de sistemas que mais classificam do que edificam, e o leve a conhecer Cristo de forma clara, profunda e libertadora.

O termo monergismo é uma expressão teológica utilizada para descrever uma compreensão específica sobre a obra da salvação. A palavra vem do grego: mónos (um, único) e érgon (obra, ação). Assim, monergismo significa, literalmente, “uma única ação” ou “uma obra realizada por um só agente”.

No contexto teológico, o monergismo ensina que a salvação é operada exclusivamente por Deus, sem qualquer cooperação do ser humano. Segundo essa concepção, o homem, por estar espiritualmente morto, não possui capacidade alguma de responder a Deus, crer, arrepender-se ou desejar a salvação. Dessa forma, Deus regenera soberanamente o indivíduo primeiro, e somente depois dessa regeneração a pessoa crê. A fé, portanto, não seria a condição para o novo nascimento, mas o resultado inevitável dele.

O monergismo, ao afirmar que a salvação é realizada de modo absolutamente unilateral por Deus, sustenta que o novo nascimento ocorre antes da fé e de forma independente de qualquer resposta consciente do homem. Segundo essa visão, o ser humano, por estar “morto em pecados”, não apenas está separado de Deus, mas totalmente incapacitado de ouvir, responder, crer ou arrepender-se, sendo necessário que Deus primeiro o regenere para que, só então, ele creia. Embora essa posição procure exaltar a soberania divina, ela acaba criando tensões sérias com o ensino equilibrado e progressivo das Escrituras.

A Bíblia, de fato, afirma a total corrupção do homem e sua incapacidade de salvar-se por si mesmo. “Não há justo, nem um sequer” (Epístola aos Romanos 3:10), e todos estão “mortos em ofensas e pecados” (Epístola aos Efésios 2:1). Contudo, a própria Escritura mostra que essa morte não é apresentada como inexistência de consciência ou impossibilidade absoluta de resposta, mas como separação de Deus e incapacidade moral de produzir vida por esforço próprio. O mesmo texto que descreve o homem como morto também o chama a ouvir, crer e responder ao evangelho.

Um ponto central na refutação do monergismo está na ordem bíblica claramente apresentada entre a Palavra, a fé e o novo nascimento. As Escrituras afirmam que a fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela Palavra de Deus (Epístola aos Romanos 10:17). Não se diz que a vida vem primeiro para que depois haja fé, mas que a Palavra proclamada produz fé no coração daquele que ouve. O próprio Senhor Jesus afirmou: “Quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna” (Evangelho de João 5:24). A vida é apresentada como consequência da fé, não como sua causa.

O Evangelho de João, de forma consistente, coloca a fé como o meio pelo qual a vida é recebida. “Para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3:16). “Estas coisas foram escritas para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (João 20:31). Se o novo nascimento precedesse a fé, tais afirmações perderiam sua força lógica e espiritual, pois a vida já estaria presente antes do ato de crer.

Outro aspecto problemático do monergismo é a redefinição prática do chamado ao arrependimento. A Escritura declara que Deus “manda que todos os homens, em todo lugar, se arrependam” (Atos dos Apóstolos 17:30). O arrependimento não é apresentado como resultado automático de uma regeneração prévia, mas como resposta consciente à luz recebida. O evangelho confronta, persuade, convence e chama à decisão. O Espírito Santo opera por meio da Palavra, não à margem dela, nem contra a responsabilidade humana.

O argumento de que o homem morto não pode responder ignora o modo como a Bíblia utiliza a linguagem da morte espiritual. O filho pródigo foi descrito como “morto” e depois “revivido” (Evangelho de Lucas 15:24), embora estivesse consciente, ouvindo, refletindo e decidindo voltar ao pai. A morte espiritual, portanto, não elimina a capacidade de ouvir o chamado de Deus, mas descreve um estado de afastamento, culpa e incapacidade de gerar vida por si mesmo. É exatamente nesse contexto que a Palavra de Deus atua como instrumento vivificador.

As Escrituras também ensinam que o novo nascimento está ligado diretamente à recepção da Palavra em fé. “Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva e que permanece para sempre” (Primeira Epístola de Pedro 1:23). A Palavra é o meio usado por Deus, e a fé é a resposta do homem a essa Palavra. Separar esses elementos e inverter essa ordem é ir além do que o texto bíblico afirma.

Ao insistir que a fé é apenas um efeito inevitável da regeneração, o monergismo acaba esvaziando o apelo sincero do evangelho e tornando as advertências, convites e exortações das Escrituras meramente formais. No entanto, o Senhor Jesus chorou sobre Jerusalém porque “não quisestes” (Evangelho de Mateus 23:37), revelando uma resistência real à graça oferecida. A responsabilidade humana não é uma negação da soberania de Deus, mas parte do modo como Ele decidiu agir em graça.

A posição bíblica preserva dois fatos inseparáveis: a salvação é inteiramente pela graça de Deus, e o homem é verdadeiramente chamado a crer. O novo nascimento é obra do Espírito Santo, mas ocorre em resposta à fé no evangelho, não como um ato isolado e independente da Palavra. Deus não salva o homem contra a sua consciência, mas ilumina essa consciência pela Palavra, levando-o a crer, arrepender-se e receber a vida que está em Cristo.

Assim, a refutação do monergismo não diminui a glória da graça divina, mas a preserva em sua plenitude bíblica. A salvação continua sendo de Deus, do princípio ao fim, porém conforme o padrão revelado nas Escrituras: Deus fala, o homem ouve; Deus chama, o homem crê; Deus concede a vida, e o novo nascimento se manifesta como fruto dessa fé viva no Senhor Jesus Cristo.

Josué Matos


Não há justificação por obras e nem por observar a Lei, mas Romanos 2:13 diz que quem pratica a Lei será justificado

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Misericórdia, por temor àquele que pode matar o corpo e a alma e mandá-la para o inferno, isso mexe com a mente e o coração. Não há justificação por obras e nem por observar a Lei, mas Romanos 2:13 diz que quem pratica a Lei será justificado. Porém, Gálatas 2 e 3 afirma que a justificação é somente mediante a fé em Cristo. Por que Romanos difere de Gálatas na justificação, se as duas cartas são do Novo Testamento?

Minha Resposta:

A sua pergunta é muito pertinente e toca num ponto central da interpretação correta das Escrituras: como harmonizar Romanos e Gálatas sem criar contradição dentro do Novo Testamento.

A primeira coisa que precisa ficar clara é que Romanos e Gálatas não se contradizem. O apóstolo Paulo não ensina duas doutrinas diferentes de justificação. O que muda é o propósito, o contexto e o problema específico que ele está tratando em cada carta.

  1. O que Paulo está fazendo em Romanos 2

Em Romanos, especialmente nos capítulos 1 a 3, Paulo constrói um argumento progressivo. O objetivo dele não é ensinar o “como” alguém é justificado diante de Deus logo de início, mas demonstrar que toda a humanidade está culpada diante de Deus.

Em Romanos 1, ele mostra a culpa dos gentios.
Em Romanos 2, ele se volta aos judeus, que confiavam na Lei e na sua identidade religiosa.
Em Romanos 3, ele conclui que todos pecaram e carecem da glória de Deus.

Quando Paulo diz em Romanos 2:13 que “os que praticam a lei hão de ser justificados”, ele não está apresentando um caminho real de salvação pela Lei. Ele está afirmando um princípio teórico e justo: se alguém guardasse a Lei de forma perfeita, essa pessoa seria justa diante de Deus. O problema é que ninguém jamais fez isso.

O próprio contexto imediato deixa isso claro. Em Romanos 2:21–23, Paulo acusa os judeus de ensinarem a Lei aos outros, mas não a praticarem. Em Romanos 3:9–12, ele conclui que não há justo, nem um sequer. E em Romanos 3:20, ele fecha a questão dizendo que pelas obras da Lei nenhuma carne será justificada diante de Deus.

Portanto, Romanos 2:13 não é uma porta aberta para a justificação por obras, mas um espelho que revela a impossibilidade humana. A Lei mostra o padrão de Deus e, ao mesmo tempo, denuncia a falência total do homem.

  1. O problema específico em Gálatas

Já em Gálatas, o cenário é diferente. Ali, Paulo enfrenta um erro grave dentro das igrejas: pessoas que criam em Cristo estavam sendo levadas a acrescentar a Lei como meio de justificação ou de aperfeiçoamento espiritual.

Por isso, o tom de Gálatas é mais direto e confrontativo. Paulo afirma repetidamente que o homem não é justificado pelas obras da Lei, mas somente pela fé em Jesus Cristo. O problema ali não é teórico, como em Romanos 2, mas prático e doutrinário: estavam misturando graça com Lei.

Em Gálatas 2 e 3, Paulo não está explicando o papel condenatório da Lei, mas defendendo a suficiência absoluta da obra de Cristo. A Lei, segundo ele, teve um papel temporário, pedagógico, para conduzir o homem a Cristo, mas nunca teve poder para justificar ou dar vida.

  1. Lei, fé e o verdadeiro sentido da “prática”

Outro ponto essencial é entender o que significa “praticar a Lei”. Muitos leem Romanos 2:13 como se Paulo estivesse falando de obediência parcial ou esforço sincero. Não é isso. A Lei exige obediência perfeita, contínua e total. Um único tropeço já coloca o homem debaixo de condenação.

Por isso, quando Paulo afirma que “os que praticam a Lei” seriam justificados, ele está falando de um padrão absoluto que ninguém alcança. Essa afirmação serve para fechar todas as bocas e tornar o mundo inteiro culpado diante de Deus.

Já a fé em Cristo não anula a justiça de Deus, mas a satisfaz plenamente. Cristo cumpriu a Lei em nosso lugar e levou sobre si a condenação que a Lei exigia. A justificação, então, não vem das obras, mas da união do pecador com Cristo pela fé.

As boas obras, nesse contexto, não são a causa da justificação, mas o seu fruto. Elas não produzem vida; elas evidenciam uma vida que já foi dada.

  1. Conclusão: Romanos e Gálatas falam a mesma coisa, por ângulos diferentes

Romanos mostra a necessidade universal da justificação pela fé, demonstrando que ninguém consegue se justificar pela Lei.
Gálatas defende essa justificação contra qualquer tentativa de misturar obras humanas com a obra perfeita de Cristo.

Romanos 2:13 expõe o padrão impossível da Lei.
Gálatas 2 e 3 revelam o único caminho real: a fé no Senhor Jesus Cristo.

Não há contradição, mas complementaridade. A Lei cala o homem; a fé em Cristo o justifica. A Lei revela o pecado; Cristo remove o pecado. A Lei exige justiça; Cristo é a nossa justiça.

Josué Matos

Na passagem Atos 4:35 (A Comunidade Cristã Primitiva), faziam tudo para ter equilíbrio os membros do Corpo de Cristo

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Na passagem Atos 4:35 (A Comunidade Cristã Primitiva), faziam tudo para ter equilíbrio os membros do Corpo de Cristo.

Exemplo — A COLETA era repartida entre os MEMBROS — para ter equilíbrio no Corpo — sendo que o que não tinha nada era suprido pela coleta do outro que tinha recursos, segundo a prosperidade que Deus dava a cada Membro.

Hoje, como as igrejas reunidas ao nome do Senhor veem isso?

Minha Resposta:

A prática descrita em Atos 4:35 precisa ser entendida com bastante cuidado, tanto no seu contexto histórico quanto no seu significado espiritual para as igrejas que hoje se reúnem ao nome do Senhor.

Em Atos 4:32–35, vemos um quadro muito específico da igreja em Jerusalém, logo após o derramamento do Espírito Santo. Ali havia uma comunhão viva, real e profundamente espiritual. O texto mostra que os bens não eram considerados como propriedade absoluta, mas colocados à disposição para suprir necessidades reais. O objetivo não era nivelar economicamente todos, nem estabelecer um sistema permanente de economia coletiva, mas cuidar dos irmãos que estavam em necessidade imediata, muitos deles peregrinos que permaneceram em Jerusalém após o Pentecostes.

É importante notar alguns princípios fundamentais presentes no texto:

  1. A prática era voluntária, não obrigatória
    Em nenhum momento os apóstolos impuseram a venda de bens ou a entrega de recursos. Isso fica ainda mais claro em Atos 5:4, quando Pedro diz a Ananias que o bem era dele antes de ser vendido e o valor continuava sob seu controle depois da venda. Portanto, não se trata de comunismo cristão, nem de um modelo econômico imposto à igreja, mas de liberalidade espontânea produzida pelo amor de Cristo.

  2. O foco era suprir necessidades, não criar igualdade material absoluta
    O texto diz que “não havia entre eles necessitado algum”. Isso não significa que todos passaram a ter exatamente a mesma condição financeira, mas que ninguém ficava abandonado. Esse mesmo princípio aparece em 2 Coríntios 8:13–15, quando Paulo ensina que não se trata de sobrecarregar uns para aliviar outros, mas de haver igualdade no sentido de suprimento, conforme a necessidade do momento.

  3. A responsabilidade era local e espiritual
    Os recursos eram colocados “aos pés dos apóstolos”, que tinham discernimento espiritual para distribuir conforme a necessidade. Não era um sistema institucionalizado, nem uma estrutura administrativa pesada, mas cuidado pastoral e comunhão no Espírito.

Quando olhamos para as igrejas que hoje se reúnem ao nome do Senhor, esse princípio continua válido, embora a forma prática possa variar conforme o contexto.

As igrejas reunidas ao nome do Senhor, de modo geral, entendem que:
– A comunhão material é expressão da comunhão espiritual, não sua base
– As ofertas são voluntárias, fruto da graça de Deus operando no coração
– O cuidado com os necessitados da comunhão local é uma responsabilidade real e bíblica
– Não existe um mandamento para repetir literalmente o modelo de Jerusalém, mas sim para viver o mesmo espírito de amor, cuidado e sensibilidade espiritual

O Novo Testamento mostra que, à medida que a igreja se espalhou, não se repetiu esse modelo de venda coletiva de bens. Em cidades como Corinto, Filipos e Tessalônica, havia crentes ricos e pobres, e Paulo não ordena a venda de propriedades, mas ensina liberalidade, generosidade e responsabilidade pessoal diante de Deus.

Portanto, o equilíbrio no Corpo de Cristo não vem de um sistema econômico imposto, mas da vida de Cristo fluindo nos membros. Quando o Senhor Jesus ocupa o lugar que Lhe é devido, o crente não se apega aos bens como absolutos, mas os reconhece como recursos confiados por Deus para serem usados com sabedoria, amor e discernimento.

Assim, Atos 4:35 não estabelece um modelo obrigatório para todas as épocas, mas revela o coração da igreja quando o Senhor Jesus é verdadeiramente o centro. Onde Ele governa, haverá cuidado, sensibilidade, justiça e amor prático entre os irmãos, sem coação, sem manipulação e sem interesses humanos.

Esse princípio continua plenamente atual, não como sistema, mas como vida.

Josué Matos

Você mentiu sobre a desordem e confusão e falou que em Atos 2 passaram a falar em outras línguas

Alguém que me escreveu no YouTube:

Você mentiu sobre a desordem e confusão e falou que em Atos 2 passaram a falar em outras línguas que cada um entendia em sua língua, não que cada um falava idiomas diferentes. Deus é Espírito e os carnais não vão entender e sempre avaliarão por sua experiência pessoal.

Minha Resposta:

Não houve mentira alguma, apenas leitura cuidadosa do texto bíblico dentro do seu contexto.

Em Atos dos Apóstolos 2, o próprio texto deixa claro dois fatos simultâneos e inseparáveis:

  1. Os discípulos falaram línguas reais, idiomas humanos distintos.

  2. As pessoas de várias nações ouviram cada um na sua própria língua materna.

O texto diz:
“E todos ficaram maravilhados e não sabiam o que pensar, dizendo uns aos outros: Pois quê! não são galileus todos esses homens que estão falando? Como pois os ouvimos, cada um, na nossa própria língua em que somos nascidos?” (Atos dos Apóstolos 2:7-8)

Note que o milagre não está apenas no ouvir, mas no falar. Os galileus não tinham conhecimento natural daqueles idiomas, mas passaram a falar línguas identificáveis: partos, medos, elamitas, moradores da Mesopotâmia, da Judeia, da Capadócia, do Ponto, da Ásia, da Frígia, da Panfília, do Egito, da Líbia, romanos, cretenses e árabes (Atos dos Apóstolos 2:9-11). Isso não é linguagem celestial nem sons ininteligíveis, mas idiomas humanos reconhecidos.

Se o milagre fosse apenas “cada um ouvir do seu jeito”, o espanto não seria: “como os ouvimos falar”, mas apenas “como entendemos”. O texto afirma explicitamente: “os ouvimos falar em nossas línguas as grandezas de Deus” (Atos dos Apóstolos 2:11).

Quanto à afirmação de que “Deus é Espírito e os carnais não vão entender”, isso não pode ser usado para anular a clareza do texto bíblico. A Escritura não é interpretada pela experiência pessoal, mas pela própria Escritura. A revelação do Espírito Santo nunca contradiz aquilo que Ele mesmo inspirou a ser escrito.

O mesmo livro de Atos mostra que línguas tinham propósito definido: sinal para judeus incrédulos e confirmação da inclusão dos gentios, nunca como confusão nas reuniões da igreja. Por isso o apóstolo Paulo escreve que Deus não é Deus de confusão, mas de paz (Primeira Epístola aos Coríntios 14:33), e que, sem interpretação, o falar em línguas não edifica a igreja (Primeira Epístola aos Coríntios 14:2-5, 27-28).

Espiritualidade não é medida pela experiência subjetiva, mas pela submissão humilde à Palavra de Deus. Quando o texto é claro, não cabe espiritualizar para acomodar práticas posteriores. Em Atos 2 houve ordem, clareza, entendimento e edificação — exatamente o oposto da confusão.

Josué Matos

Como saber, então, se tenho vida espiritual verdadeira ou se eu estou por me enganar?

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Como saber, então,  se tenho vida espiritual verdadeira ou se eu estou por me enganar,  pensando que sou de Cristo quando não sou, irmão Josué?

Minha Resposta:

Vivemos dias marcados por uma profunda superficialidade no campo religioso. Em muitos lugares, proclama-se um evangelho raso, que não trata da raiz do problema do homem: o pecado. Usa-se uma linguagem bem elaborada, discursos que encantam o intelecto e despertam emoções, levando pessoas a uma aceitação meramente mental da mensagem. O resultado é um cristianismo de aparência, onde muitos pensam estar salvos quando, na realidade, apenas passaram por uma experiência intelectual ou emocional.

Frequentemente, o apelo é feito como se o Senhor Jesus estivesse em busca de adesão, como partidos ou movimentos humanos que precisam de apoio popular. Convida-se o ouvinte a “decidir por Jesus” ou a “passar para o lado de Cristo”, como se o homem estivesse em posição neutra. Porém, o evangelho de Deus apresenta um quadro completamente diferente. O homem natural não está neutro; ele está perdido, morto em seus delitos e pecados, em rebelião contra Deus, necessitando desesperadamente de salvação.

O Senhor Jesus não pede que o pecador simplesmente Lhe entregue o coração como um gesto simbólico. Ele chama o pecador ao arrependimento e à fé. Arrependimento envolve reconhecer o próprio estado de perdição diante de Deus, abandonar toda confiança em si mesmo e voltar-se para Cristo. Fé, por sua vez, não é apenas concordar mentalmente com verdades bíblicas, mas confiar de coração. É por isso que a Escritura afirma que é com o coração que se crê para a justiça, e não apenas com a mente.

Para ilustrar essa diferença, imagine alguém numa estação rodoviária. Essa pessoa chega à plataforma correta e vê um ônibus com o destino claramente indicado. Ela acredita que aquele ônibus realmente vai para o lugar anunciado. Não tem dúvidas sobre o trajeto, nem sobre a capacidade do veículo, nem sobre a habilidade do motorista. Ainda assim, se essa pessoa permanecer na plataforma, por mais convicção que tenha, jamais chegará ao destino.

Para que ela chegue ao destino desejado, é necessário algo mais do que acreditar que o ônibus vai até lá. É preciso entrar no ônibus, sentar-se e confiar que ele a conduzirá até o fim da viagem. Esse ato simples demonstra uma fé que vai além do conhecimento; é uma fé que se expressa em confiança e entrega.

Assim acontece com a salvação. Não basta ouvir o evangelho, reconhecer que Jesus Cristo salva e admitir que tudo isso é verdadeiro. O pecador precisa, por um ato definido de fé, entregar-se a Cristo. Ele precisa colocar toda a sua confiança nEle, descansando exclusivamente em Sua pessoa e em Sua obra. Essa atitude mostra que ele deixou de confiar em si mesmo, em suas boas obras, em sistemas religiosos, em ritos, em líderes ou em qualquer outro recurso humano.

A fé salvadora é aquela que entra “no ônibus”, por assim dizer. Ela se lança inteiramente sobre Cristo. Se Cristo salva, esse pecador está salvo. Se Cristo falhasse, não haveria esperança alguma. Mas a Escritura afirma que Ele salva perfeitamente todos os que por Ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles.

É essa confiança exclusiva em Cristo que resulta na justificação diante de Deus. O pecador é declarado justo não por causa de obras, nem por observar a lei, mas pela justiça de Deus concedida mediante a fé. Essa é a fé que produz vida, que gera novo nascimento e que distingue uma simples profissão religiosa de uma realidade espiritual verdadeira.

É exatamente isso que a parábola das dez virgens ensina. As prudentes tinham vida; as loucas tinham apenas aparência. As prudentes possuíam o essencial; as loucas descobriram tarde demais que nunca o tiveram. Por isso, a segurança de não ouvir “não te conheço” não está numa decisão superficial do passado, mas numa fé viva, de coração, que descansa exclusivamente no Senhor Jesus Cristo.

Josué Matos

O QUE FAZER PARA TER CERTEZA, QUE, NÃO IREI OUVIR, NÃO TE CONHEÇO?

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

A PAZ DO SENHOR JESUS PRESBÍTERO, NA SUA EXPLICAÇÃO DA PARÁBOLA DAS DEZ VIRGENS DENOTA QUE NÃO É SUFICIENTE APENAS CRER QUE JESUS CRISTO É O SENHOR E QUE DEUS O RESSUSCITOU DENTRE OS MORTOS, O QUE EXATAMENTE É NECESSÁRIO ALÉM DE CRER? 

As prudentes representam aqueles que possuem realidade espiritual, isto é, vida produzida pelo Espírito de Deus. As loucas representam os que têm apenas profissão externa.

Elas não perdem algo que tinham; elas descobrem, tarde demais, que nunca possuíram o essencial. Por isso o Noivo diz: “Não vos conheço”. Isso é linguagem de relacionamento, não de perda de salvação. Não basta estar perto do Reino, é necessário ter vida; não basta esperar o Noivo, é necessário conhecê-lo e ser conhecido por Ele.

O QUE FAZER PARA TER CERTEZA, QUE, NÃO IREI OUVIR, NÃO TE CONHEÇO?

Minha Resposta:

A sua pergunta é muito séria, necessária e profundamente bíblica: “O que fazer para ter certeza de que não ouvirei: ‘Não te conheço’?”

Ela toca exatamente no ponto central da parábola das dez virgens e também no cerne do evangelho.

Vou responder de forma organizada, procurando ir além de fórmulas superficiais, mantendo o equilíbrio entre a segurança da salvação e a realidade espiritual que a Escritura exige.

  1. O que NÃO está sendo exigido além de crer

Antes de dizer o que é necessário, é importante deixar claro o que não é.

A parábola das dez virgens não ensina que é preciso acrescentar obras, méritos pessoais, práticas religiosas ou perseverança própria para “completar” a fé.
Ela não contradiz Romanos 10:9-10, que afirma claramente que a salvação é pela fé no Senhor Jesus Cristo.
Ela também não ensina perda de salvação, porque as loucas nunca tiveram o essencial.

Portanto, não se trata de crer e depois “manter-se salvo” por esforço humano. Isso seria negar o evangelho da graça, como ensinado em Efésios 2:8-9 e Tito 3:5.

  1. O que a parábola realmente revela como essencial

A diferença entre as prudentes e as loucas não está na lâmpada, nem na espera, nem no convite, nem na aparência externa. Todas essas coisas são iguais.

A diferença está no azeite.

Na linguagem das Escrituras, o azeite aponta para a vida espiritual produzida pelo Espírito Santo. Não é símbolo de dons, ministérios ou atividades, mas de vida interior.

As prudentes tinham lâmpadas porque tinham luz, e tinham luz porque havia vida.
As loucas tinham lâmpadas, mas não tinham vida. Tinham forma, mas não realidade.

Isso harmoniza perfeitamente com outras passagens:

Romanos 8:9 afirma que, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é d’Ele.
1 João 5:12 declara que quem tem o Filho tem a vida; quem não tem o Filho de Deus não tem a vida.
João 3:3-6 ensina que sem o novo nascimento ninguém pode ver o Reino de Deus.

Portanto, o essencial não é apenas crer como um ato intelectual, mas crer de modo que o resultado seja vida.

  1. O que significa ser conhecido pelo Noivo

Quando o Senhor diz: “Não vos conheço”, Ele não está dizendo: “Eu esqueci vocês”.
Conhecer, na linguagem bíblica, é relacionamento real.

O Senhor Jesus disse em João 10:14: “Eu conheço as minhas ovelhas, e das minhas sou conhecido”.
E em Mateus 7:23 Ele usa a mesma expressão: “Nunca vos conheci”.

Observe bem: nunca.
Não é “conheci e deixei de conhecer”, mas “nunca houve relacionamento”.

Isso confirma que as virgens loucas nunca tiveram vida espiritual. Elas estavam próximas do Reino, participavam da expectativa, mas não pertenciam ao Noivo.

  1. Então, o que fazer para ter certeza de que não ouvirei “não te conheço”?

A resposta bíblica é simples, profunda e objetiva.

a) Examinar se há vida, não apenas profissão

2 Coríntios 13:5 diz: “Examinai-vos a vós mesmos se permaneceis na fé”.
Não é examinar sentimentos, mas a realidade da vida recebida.

A pergunta não é: “Eu faço coisas cristãs?”
A pergunta é: “Eu tenho o Filho?”
Porque a vida está no Filho, não nas obras.

b) Ter descanso na obra consumada de Cristo

A certeza não vem da análise da própria fidelidade, mas da confiança na fidelidade de Cristo.

Hebreus 10:14 afirma que, com uma só oferta, Ele aperfeiçoou para sempre os que são santificados.
João 5:24 declara que quem ouve a Palavra e crê naquele que enviou o Filho tem a vida eterna e não entra em condenação.

Quem vive tentando garantir a salvação por esforço próprio demonstra, muitas vezes, que ainda não descansou plenamente na obra da cruz.

c) Reconhecer o testemunho do Espírito Santo

Romanos 8:16 diz que o próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus.
Isso não é misticismo, nem emoção passageira, mas a consciência espiritual produzida pela Palavra recebida com fé.

Onde há vida, há sensibilidade espiritual, há convicção, há direção interior, mesmo em meio a lutas e fraquezas.

d) Permanecer em Cristo, não para ser salvo, mas porque foi salvo

João 15:4 diz: “Permanecei em mim”.
Não é um chamado para conquistar a vida, mas para viver a partir da vida recebida.

As virgens prudentes não estavam ansiosas; estavam preparadas.
Quem tem vida não vive com medo constante de ser rejeitado, mas com reverência, vigilância e esperança.

  1. Um resumo claro e bíblico

Vivemos dias marcados por uma profunda superficialidade no campo religioso. Em muitos lugares, proclama-se um evangelho raso, que não trata da raiz do problema do homem: o pecado. Usa-se uma linguagem bem elaborada, discursos que encantam o intelecto e despertam emoções, levando pessoas a uma aceitação meramente mental da mensagem. O resultado é um cristianismo de aparência, onde muitos pensam estar salvos quando, na realidade, apenas passaram por uma experiência intelectual ou emocional.

Frequentemente, o apelo é feito como se o Senhor Jesus estivesse em busca de adesão, como partidos ou movimentos humanos que precisam de apoio popular. Convida-se o ouvinte a “decidir por Jesus” ou a “passar para o lado de Cristo”, como se o homem estivesse em posição neutra. Porém, o evangelho de Deus apresenta um quadro completamente diferente. O homem natural não está neutro; ele está perdido, morto em seus delitos e pecados, em rebelião contra Deus, necessitando desesperadamente de salvação.

O Senhor Jesus não pede que o pecador simplesmente Lhe entregue o coração como um gesto simbólico. Ele chama o pecador ao arrependimento e à fé. Arrependimento envolve reconhecer o próprio estado de perdição diante de Deus, abandonar toda confiança em si mesmo e voltar-se para Cristo. Fé, por sua vez, não é apenas concordar mentalmente com verdades bíblicas, mas confiar de coração. É por isso que a Escritura afirma que é com o coração que se crê para a justiça, e não apenas com a mente.

Para ilustrar essa diferença, imagine alguém numa estação rodoviária. Essa pessoa chega à plataforma correta e vê um ônibus com o destino claramente indicado. Ela acredita que aquele ônibus realmente vai para o lugar anunciado. Não tem dúvidas sobre o trajeto, nem sobre a capacidade do veículo, nem sobre a habilidade do motorista. Ainda assim, se essa pessoa permanecer na plataforma, por mais convicção que tenha, jamais chegará ao destino.

Para que ela chegue ao destino desejado, é necessário algo mais do que acreditar que o ônibus vai até lá. É preciso entrar no ônibus, sentar-se e confiar que ele a conduzirá até o fim da viagem. Esse ato simples demonstra uma fé que vai além do conhecimento; é uma fé que se expressa em confiança e entrega.

Assim acontece com a salvação. Não basta ouvir o evangelho, reconhecer que Jesus Cristo salva e admitir que tudo isso é verdadeiro. O pecador precisa, por um ato definido de fé, entregar-se a Cristo. Ele precisa colocar toda a sua confiança nEle, descansando exclusivamente em Sua pessoa e em Sua obra. Essa atitude mostra que ele deixou de confiar em si mesmo, em suas boas obras, em sistemas religiosos, em ritos, em líderes ou em qualquer outro recurso humano.

A fé salvadora é aquela que entra “no ônibus”, por assim dizer. Ela se lança inteiramente sobre Cristo. Se Cristo salva, esse pecador está salvo. Se Cristo falhasse, não haveria esperança alguma. Mas a Escritura afirma que Ele salva perfeitamente todos os que por Ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles.

É essa confiança exclusiva em Cristo que resulta na justificação diante de Deus. O pecador é declarado justo não por causa de obras, nem por observar a lei, mas pela justiça de Deus concedida mediante a fé. Essa é a fé que produz vida, que gera novo nascimento e que distingue uma simples profissão religiosa de uma realidade espiritual verdadeira.

É exatamente isso que a parábola das dez virgens ensina. As prudentes tinham vida; as loucas tinham apenas aparência. As prudentes possuíam o essencial; as loucas descobriram tarde demais que nunca o tiveram. Por isso, a segurança de não ouvir “não te conheço” não está numa decisão superficial do passado, mas numa fé viva, de coração, que descansa exclusivamente no Senhor Jesus Cristo.

Josué Matos

Como explicar a parábola das 10 virgens? (Mateus 25:1-23)

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Boa noite, irmão.  Obrigado pela sua preciosa atenção de sempre. Irmão, como explicar a parábola das 10 virgens? (Mateus 25:1-23). As virgens que ficaram sem óleo representam o que? Apóstatas? Falsos cristãos? Como um noivo teria, aqui, dez virgens? Seria poligamia? Ou seria o que temos hoje como “damas de companhia”? O que elas eram na cultura de então? O óleo aqui é símbolo do Espírito Santo?

Minha Resposta:

A sua pergunta é muito pertinente, porque a parábola das dez virgens tem sido, ao longo dos séculos, uma das passagens mais mal compreendidas das palavras do Senhor Jesus. Para entendê-la com clareza, é indispensável considerar com cuidado três aspectos fundamentais: o contexto imediato, o contexto cultural e o objetivo espiritual da parábola.

Procuro responder de forma organizada e integrada.

1. O contexto da parábola (Mateus 24–25)

A parábola das dez virgens não pode ser interpretada isoladamente. Ela está inserida no grande discurso profético do Senhor Jesus, iniciado em Mateus 24 e continuado em Mateus 25. Nesse discurso, o Senhor trata da Sua vinda, da necessidade de vigilância e da responsabilidade daqueles que professam esperar por Ele.

Em Mateus 24:42, o Senhor adverte: “Vigiai, pois, porque não sabeis a que hora há de vir o vosso Senhor”. A seguir, Ele apresenta exemplos ilustrativos dessa vigilância: o servo fiel e o servo mau, a parábola das dez virgens e, depois, a dos talentos. Assim, o tema central não é salvação por obras nem perda da salvação, mas prontidão espiritual, vigilância e realidade interior diante da vinda do Noivo.

2. Quem são as dez virgens?

Todas são chamadas de virgens, o que já é significativo. Na linguagem bíblica, a virgindade aponta para profissão exterior de pureza, separação e expectativa. As dez virgens representam pessoas que, exteriormente, estão ligadas à expectativa da vinda do Noivo. Todas possuem lâmpadas, todas saem ao encontro do Noivo, todas dormem e todas despertam ao ouvir o clamor da meia-noite.

Isso mostra que, exteriormente, não havia diferença visível entre elas até o momento decisivo. Elas não representam o mundo abertamente incrédulo, mas um grupo associado à esfera da fé, da profissão religiosa e da expectativa do Reino. É um retrato solene da cristandade professante, e não exclusivamente da Igreja verdadeira.

3. As virgens loucas eram apóstatas?

Não exatamente no sentido técnico de apostasia. Apostasia é o abandono consciente da verdade anteriormente conhecida e recebida. O texto não diz que as virgens loucas tiveram óleo e depois o perderam. O problema delas não é perda, mas ausência.

Elas nunca tiveram óleo em suas vasilhas. Possuíam lâmpadas, isto é, forma exterior, mas não tinham reserva de óleo, isto é, realidade interior. Por isso, representam falsos cristãos: pessoas que professam fé, participam do ambiente religioso e conhecem a linguagem da fé, mas nunca tiveram vida espiritual verdadeira. Isso está em harmonia com Mateus 7:21-23, onde muitos dizem “Senhor, Senhor”, mas nunca foram conhecidos pelo Senhor.

4. O óleo como símbolo do Espírito Santo

O óleo, nas Escrituras, é um símbolo amplamente reconhecido do Espírito Santo. No Antigo Testamento, ele está associado à unção, à iluminação e à consagração. No Novo Testamento, o Espírito Santo é apresentado como Aquele que dá vida, habita no crente e o sela.

Na parábola, o óleo não simboliza boas obras, dons ou vigilância humana, mas a vida do Espírito, a presença real do Espírito Santo no interior da pessoa. Por isso o óleo não pode ser emprestado. Vida espiritual não se transfere. Ninguém pode crer por outro, nem nascer de novo por outro. Quando as virgens loucas pedem óleo às prudentes, recebem a resposta: “Não seja caso que nos falte a nós e a vós”, mostrando que a salvação é pessoal e intransferível.

5. O atraso do Noivo e o dormir das virgens

O texto afirma que “tardando o esposo, tosquenejaram todas e adormeceram”. Isso revela que até mesmo os verdadeiros crentes estão sujeitos ao cansaço, à espera prolongada e à fraqueza humana. Dormir, aqui, não descreve pecado moral, mas a condição humana durante o tempo da espera.

A diferença decisiva aparece quando o clamor soa. As prudentes estão preparadas porque possuem óleo. As loucas percebem, tarde demais, que lhes falta o essencial.

6. “Não vos conheço”

Esta é a declaração mais solene da parábola. O Noivo não diz: “Eu vos conheci e deixei de conhecer”, mas: “Em verdade vos digo que não vos conheço”. Na linguagem bíblica, “conhecer” não é mero conhecimento intelectual, mas relacionamento vivo. Isso confirma que nunca houve vínculo real entre o Noivo e aquelas virgens. Elas estavam próximas das festividades, mas nunca estiveram unidas a Ele.

7. As virgens e o contexto cultural: não há poligamia

Não há qualquer ideia de poligamia na parábola. No contexto cultural judaico do primeiro século, as virgens eram damas de companhia da noiva. Sua função era aguardar o noivo, acompanhá-lo em procissão com lâmpadas e conduzi-lo até a celebração.

Elas não eram esposas do noivo nem concubinas, mas parte do cortejo nupcial, figuras de honra na cerimônia. O Senhor Jesus utiliza essa imagem cultural bem conhecida para transmitir uma verdade espiritual profunda: estar perto da festa não é o mesmo que entrar nela; participar do ambiente religioso não é o mesmo que possuir vida espiritual.

8. A relação com as bodas do Cordeiro (Apocalipse 19)

À luz do ensino bíblico mais amplo, é importante distinguir entre o casamento do Cordeiro e a ceia das bodas. O casamento envolve o Noivo e a Noiva, a Igreja, já glorificada e preparada. A ceia das bodas, por sua vez, envolve convidados que são chamados a participar das festividades do Reino.

As parábolas do Senhor mostram que haverá convidados aceitos e outros excluídos. Isso aparece tanto em Mateus 22 quanto em Mateus 25. As dez virgens não representam a Noiva, mas pessoas associadas à esfera do chamado, da expectativa e do Reino. Algumas entram, outras ficam de fora, conforme a realidade espiritual que possuem.

9. Aplicação espiritual

A parábola não ensina que um verdadeiro crente pode perder a salvação. Ela ensina que nem todos os que professam fé possuem vida espiritual verdadeira. O ensino central é vigilância com realidade, expectativa com verdade e profissão acompanhada de vida interior.

O apelo final do Senhor permanece claro: “Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora em que o Filho do Homem há de vir” (Mateus 25:13).

Não basta ter lâmpada; é necessário ter óleo.

Não basta aparência; é necessária realidade.

Não basta dizer “Senhor”; é necessário ser conhecido por Ele.

A Ligação Entre Mateus 25 e Apocalipse 19:

Sim, a ligação entre Mateus 25 (as dez virgens) e Apocalipse 19 (as bodas do Cordeiro) não apenas é legítima, como é necessária para que o quadro escatológico fique completo e coerente. Estas duas passagens estão em plena harmonia com o conjunto do ensino bíblico e ajudam a esclarecer pontos que, isoladamente, geram confusão.

Vou organizar a resposta em camadas, para que o encadeamento fique claro.

1. Casamento e ceia das bodas: distinção essencial

Apocalipse 19 faz uma distinção muito cuidadosa entre dois acontecimentos que, culturalmente, jamais seriam confundidos:

– O casamento do Cordeiro (Apocalipse 19:7)

– A ceia das bodas do Cordeiro (Apocalipse 19:9)

No costume judaico, o casamento não era um único ato, mas um processo. Primeiro havia a consumação formal do casamento, normalmente num ambiente privado e familiar. Depois, em outro momento, ocorria a grande festa pública, a ceia, à qual muitos convidados eram chamados.

Isso explica por que o texto diz: “Bem-aventurados aqueles que são chamados à ceia das bodas do Cordeiro”. Ninguém é “chamado” para ser noiva; a noiva já foi escolhida, preparada e unida ao noivo. O chamado é para os convidados.

Essa distinção é decisiva para entender tanto Apocalipse 19 quanto as parábolas do Senhor nos Evangelhos.

2. A noiva e os convidados

No Novo Testamento, a noiva é claramente identificada como a Igreja, comprada com o sangue de Cristo (Efésios 5:25-27; 2 Coríntios 11:2). Ela está com o Noivo, não como convidada, mas como participante central do casamento.

Em Apocalipse 19, a noiva já está pronta, vestida de linho finíssimo, que são “os atos de justiça dos santos” (19:8). Isso descreve um grupo já glorificado, já recompensado, já unido ao Cordeiro.

Por outro lado, os “chamados à ceia” são distinguidos da noiva. O próprio anjo faz essa separação. Isso confirma que haverá, sim, outros grupos de salvos que não fazem parte da Igreja como noiva, mas que participarão do gozo do Reino.

3. A ceia das bodas e a Terra

Podemos observar um padrão bíblico consistente: todas as beatitudes de Apocalipse, sem exceção, têm como alvo pessoas na Terra.

Apocalipse 1:3 fala dos que leem e guardam a profecia.

Apocalipse 14:13 fala dos que morrem no Senhor.

Apocalipse 16:15 fala dos que vigiam.

Apocalipse 20:6 fala dos que têm parte na primeira ressurreição.

Apocalipse 22:7 e 14 falam dos que guardam e lavam as suas vestes.

Dentro desse padrão, a bem-aventurança de Apocalipse 19:9 aponta para homens e mulheres que estão ligados à cena terrestre do Reino, não ao estado celestial da Igreja glorificada.

Isso se harmoniza com a ideia de que a ceia das bodas ocorre no início do Reino milenar, quando Cristo manifesta publicamente a Sua glória na Terra.

4. As parábolas e os excluídos

Aqui entra de forma direta a conexão com Mateus 22 e Mateus 25.

Em Mateus 22:1-13, há convidados chamados para as bodas, alguns recusam, outros entram sem veste nupcial e são lançados fora.

Em Mateus 25:1-13, há virgens que entram para as bodas e outras que ficam de fora.

Essas parábolas não tratam da noiva, mas de convidados. A noiva nunca é avaliada, nunca é excluída, nunca fica do lado de fora. Quem é avaliado são aqueles que estão na esfera do chamado.

Isso confirma que as dez virgens não representam a Igreja como noiva, mas pessoas associadas ao Reino, ligadas à expectativa da vinda do Noivo e ao ambiente da fé.

5. As dez virgens à luz da ceia das bodas

Com isso, a parábola de Mateus 25 ganha ainda mais clareza:

– Todas as virgens esperam o Noivo

– Todas estão ligadas ao evento das bodas

– Nenhuma delas é chamada de noiva

– Algumas entram para as festividades

– Outras ficam de fora

As prudentes representam aqueles que possuem realidade espiritual, isto é, vida produzida pelo Espírito de Deus. As loucas representam os que têm apenas profissão externa.

Elas não perdem algo que tinham; elas descobrem, tarde demais, que nunca possuíram o essencial. Por isso o Noivo diz: “Não vos conheço”. Isso é linguagem de relacionamento, não de perda de salvação.

6. Os convidados da ceia: quem são?

Podemos identificar os convidados como um grupo amplo de salvos de diferentes dispensações:

– Santos do Antigo Testamento (como Abel, Enoque, Noé, Jó)

– Israel fiel que aguardava o Reino

– Mártires do período da Tribulação

– Aqueles que creram no Evangelho do Reino durante a Tribulação

João Batista já havia antecipado isso ao dizer: “O amigo do noivo, que lhe assiste e o ouve, alegra-se muito com a voz do noivo” (João 3:29). Ele não se coloca como parte da noiva, mas como amigo do noivo.

Isso mostra que a Escritura reconhece diferentes posições de salvos, todos igualmente redimidos, mas com lugares distintos no plano de Deus.

7. Síntese final

Apocalipse 19 não contradiz Mateus 25; ele o ilumina.

– O casamento do Cordeiro é celestial e envolve a Igreja como noiva.

– A ceia das bodas é pública, ligada ao Reino manifesto.

– Os convidados são chamados, avaliados e, em alguns casos, excluídos.

– As dez virgens pertencem à esfera dos convidados, não da noiva.

– O critério decisivo não é proximidade externa, mas realidade espiritual.

Não basta estar perto do Reino, é necessário ter vida; não basta esperar o Noivo, é necessário conhecê-lo e ser conhecido por Ele.

Josué Matos