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Como fica este versículo (1 João 3:15) num crente que tira a sua vida (suicida)?

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Como fica este versículo num crente que tira a sua vida? "E vós sabeis que nenhum homicida tem a vida eterna permanecendo nele." (1 João 3:15)

Minha Resposta:

A sua pergunta é muito importante, porque 1 João 3:15 parece, à primeira vista, fechar qualquer possibilidade:

“E vós sabeis que nenhum homicida tem a vida eterna permanecendo nele.”

Como aplicar isso a um crente que tira a própria vida?

Para responder corretamente, precisamos considerar três aspectos: o contexto da epístola, o sentido da palavra “homicida” e a diferença entre prática de vida e ato isolado.

  1. O CONTEXTO DE 1 JOÃO

A primeira epístola de João não trata de perda de salvação, mas de evidências da nova vida. João escreve para que os crentes saibam que têm vida eterna (1 João 5:13). Ele estabelece contrastes absolutos:

  • Luz e trevas

  • Amor e ódio

  • Filhos de Deus e filhos do diabo

Quando João afirma que “nenhum homicida tem a vida eterna permanecendo nele”, ele está falando de caráter, de natureza, de prática habitual.

Veja o versículo anterior (1 João 3:14):
“Nós sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos.”

O contraste é claro: quem vive em ódio demonstra que nunca passou da morte para a vida. O homicídio aqui está ligado ao ódio permanente, à disposição interior de eliminar o outro. João não está discutindo um ato isolado, mas um estado espiritual contínuo.

  1. O SENTIDO DE “HOMICIDA”

O Senhor Jesus já havia ensinado em Mateus 5:21-22 que o homicídio começa no coração, no ódio.

Portanto, em 1 João 3, o foco não é simplesmente o ato físico de matar, mas o espírito de ódio que caracteriza quem não nasceu de Deus. É alguém cuja natureza permanece dominada pelas trevas.

A expressão “não tem a vida eterna permanecendo nele” indica ausência de nova vida, não perda dela.

João não diz: “perdeu a vida eterna”.
Ele diz: “não tem”.

Isso aponta para alguém que nunca foi regenerado.

  1. A DIFERENÇA ENTRE PRÁTICA CONTÍNUA E QUEDA GRAVE

A própria epístola ensina que o crente pode pecar:

“Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos” (1 João 1:8).

“Meus filhinhos, estas coisas vos escrevo para que não pequeis; e, se alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai” (1 João 2:1).

Logo, João reconhece que um salvo pode cair em pecado. O que ele nega é que o salvo viva na prática constante e característica do pecado como estilo de vida (1 João 3:9).

Davi foi responsável por homicídio (2 Samuel 11). No entanto, ele era um homem segundo o coração de Deus (1 Samuel 13:14). Seu pecado foi gravíssimo, mas não provava ausência de nova vida; provava fraqueza moral e queda espiritual, seguida de disciplina e arrependimento.

Se aplicássemos 1 João 3:15 de forma absoluta ao ato isolado, teríamos que concluir que Davi nunca teve vida eterna, o que contradiz todo o testemunho bíblico.

  1. E O CASO DO SUICÍDIO?

O suicídio é pecado grave, pois envolve tirar a própria vida. Mas a questão não é a gravidade do ato — é a condição espiritual anterior.

Se alguém vive dominado por ódio, violência, desprezo contínuo pela vida, isso revela ausência de vida eterna.

Mas se um verdadeiro salvo, em profunda fraqueza emocional, depressão severa ou perturbação mental, comete um ato trágico, isso não transforma sua natureza regenerada em natureza perdida.

A vida eterna não é anulada por um ato final, mas fundamentada na obra consumada do Senhor Jesus Cristo.

“O que ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna, e não entrará em condenação” (João 5:24).

Observe: “tem” — presente.
“não entrará” — futuro garantido.

  1. A CONCLUSÃO BÍBLICA

1 João 3:15 não está ensinando que um salvo pode perder a vida eterna por cometer homicídio.

Está ensinando que o homicida, como prática e natureza dominante, demonstra que nunca teve a vida eterna.

A epístola trata de evidências de nova vida, não de cancelamento da salvação.

Portanto, a pergunta correta continua sendo:

Essa pessoa era verdadeiramente nascida de novo?

Se nunca foi regenerada, está perdida — com ou sem suicídio.
Se era verdadeiramente salva, sua salvação estava ancorada em Cristo, não na capacidade de manter-se firme até o último instante.

Isso não suaviza o pecado. Não relativiza a gravidade. Mas mantém intacta a suficiência da cruz e a segurança da vida eterna.

Que o Senhor nos dê discernimento e também compaixão ao tratar de temas tão dolorosos.

Josué Matos

Se um crente professo, cometendo suicídio, assim mesmo ele iria ser salvo?

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Irmão Josué, me perguntaram hoje se um crente professo, cometendo suicídio, assim mesmo ele iria ser salvo. O que diz a Bíblia? (Eu creio que quem tal comete vai perdido, independente da confissão religiosa da mesma).

Minha Resposta:

A sua pergunta é muito séria e precisa ser tratada com temor, equilíbrio e base sólida na Palavra de Deus. O assunto não pode ser resolvido apenas por sentimentos, nem por tradição religiosa, mas à luz das Escrituras.

Primeiro, é fundamental estabelecer um princípio claro: Deus só reconhece dois tipos de pessoas no mundo — os salvos e os perdidos. A Palavra diz em 1 Coríntios 1:18 que “a palavra da cruz é loucura para os que perecem, mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus”. Note bem: ou a pessoa está entre “os que perecem” ou está entre “os que são salvos”. Não existe uma terceira categoria.

Todo crente na Bíblia é um salvo. No Novo Testamento, quando lemos sobre “crentes”, estamos falando de pessoas regeneradas, justificadas, reconciliadas com Deus, que receberam vida eterna. Hoje, infelizmente, a palavra “crente” tornou-se quase um rótulo religioso, um slogan para identificar quem se diz evangélico. Porém, muitos são apenas religiosos, frequentadores de cultos, moralmente corretos até, mas nunca nasceram de novo. O Senhor Jesus declarou em João 3:3 que “aquele que não nascer de novo não pode ver o reino de Deus”.

Portanto, antes de discutir o suicídio, é preciso distinguir entre:

  1. Um verdadeiro salvo.

  2. Um mero professante religioso.

A SALVAÇÃO DEPENDE DA OBRA DE CRISTO, NÃO DO ÚLTIMO ATO DO HOMEM

A salvação não depende do último ato da pessoa antes da morte, mas da obra consumada do Senhor Jesus Cristo na cruz. Romanos 8:1 afirma: “Agora, pois, nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus”. E mais adiante, em Romanos 8:38-39, lemos que nada poderá nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus.

Se uma pessoa está verdadeiramente em Cristo, ela já foi:

  • Justificada (Romanos 5:1),

  • Perdoada (Efésios 1:7),

  • Selada com o Espírito Santo (Efésios 1:13),

  • Feita participante da vida eterna (João 5:24).

A vida eterna não é uma vida temporária que pode ser anulada por um ato final trágico. Se fosse assim, deixaria de ser eterna.

O SUICÍDIO É PECADO?

Sim. O suicídio é pecado. É autoassassinato. A Bíblia condena o homicídio (Êxodo 20:13). A vida pertence a Deus. O homem não é senhor absoluto da própria existência. Saul se lançou sobre sua espada (1 Samuel 31:4), e Judas se enforcou (Mateus 27:5). Em nenhum caso o ato é apresentado como algo aceitável.

Mas aqui é necessário fazer uma distinção importante: todo suicídio é pecado, mas nenhum pecado anula a salvação de um verdadeiro salvo.

Se fosse assim, qualquer pecado não confessado antes da morte condenaria uma pessoa. E quem pode afirmar que um crente verdadeiro sempre confessa absolutamente todos os seus pecados antes de morrer? A salvação não está baseada na nossa capacidade de manter uma ficha limpa até o último segundo, mas na eficácia do sangue de Cristo.

Hebreus 10:14 declara: “Porque com uma só oblação aperfeiçoou para sempre os que são santificados.”

O LADRÃO NA CRUZ E OUTROS PECADORES SALVOS

O ladrão na cruz era um criminoso condenado. Tudo indica que era um homem violento. No entanto, ao voltar-se para o Senhor Jesus e crer, ouviu: “Hoje estarás comigo no paraíso” (Lucas 23:43).

Ele não teve tempo para reparar seus crimes, nem para uma vida de boas obras. Foi salvo pela fé.

Além dele, há muitos que foram assassinos, perseguidores e homens de passado terrível, mas que foram regenerados e hoje estão na glória. O apóstolo Paulo consentiu na morte de Estêvão (Atos 8:1) e perseguiu a Igreja (Atos 9:1-2). Mesmo assim, foi salvo pela graça.

Isso nos mostra que nenhum pecado é maior do que a obra redentora de Cristo, quando há verdadeiro arrependimento e fé.

ENTÃO, UM CRENTE VERDADEIRO PODE COMETER SUICÍDIO?

Aqui precisamos ser muito cuidadosos.

A Bíblia não apresenta um exemplo claro de um verdadeiro salvo cometendo suicídio. Os casos registrados (Saul, Aitofel, Judas) não são apresentados como homens regenerados.

Por outro lado, a Escritura também não ensina que o suicídio é um “pecado imperdoável”. O único pecado chamado de imperdoável é a blasfêmia contra o Espírito Santo (Mateus 12:31-32), e isso tem um contexto específico ligado à rejeição consciente da obra de Deus.

O suicídio pode ser resultado de:

  • Profunda depressão,

  • Doença mental,

  • Desespero extremo,

  • Fraqueza espiritual grave.

Um verdadeiro crente pode cair em pecados graves. Davi cometeu adultério e homicídio (2 Samuel 11). Pedro negou o Senhor (Lucas 22:54-62). A diferença está na raiz: o salvo é disciplinado por Deus e possui vida divina.

Hebreus 12:6 diz: “Porque o Senhor corrige o que ama.”

Se uma pessoa vive na prática contínua do pecado, sem disciplina, sem arrependimento, sem evidência de nova vida, então a própria Escritura nos leva a questionar se houve novo nascimento (1 João 3:9).

A QUESTÃO CENTRAL: ERA REALMENTE SALVO?

Portanto, a pergunta não é simplesmente: “Cometeu suicídio, está salvo ou perdido?”

A pergunta bíblica correta é: essa pessoa era verdadeiramente nascida de novo?

Se era apenas um crente professo, religioso, mas nunca regenerado, então, ainda que tivesse vivido moralmente correto, estaria perdido. Moralidade não salva ninguém. Efésios 2:8-9 é claro: “pela graça sois salvos, por meio da fé”.

Se, porém, era um verdadeiro salvo, unido a Cristo, selado pelo Espírito Santo, então sua salvação não dependeu do último ato da sua vida, mas da obra consumada do Calvário.

CONCLUSÃO

Eu compreendo o seu posicionamento quando diz que crê que quem comete suicídio estaria perdido, independentemente da confissão religiosa. Essa preocupação nasce do zelo pela santidade.

Mas biblicamente falando, não é o tipo de pecado que determina a salvação, e sim a relação real com Cristo.

  • Se nunca nasceu de novo — está perdido, com ou sem suicídio.

  • Se nasceu de novo — foi salvo pela graça, não por mérito próprio.

Isso não minimiza a gravidade do suicídio. Pelo contrário, devemos alertar com seriedade: a vida pertence a Deus. O desespero nunca é solução. O Senhor Jesus é suficiente para sustentar em qualquer dor.

Mas também não podemos ensinar que a eficácia da cruz depende do último segundo de consciência do homem.

Que o Senhor nos conceda equilíbrio, fidelidade à Escritura e compaixão pastoral ao tratar de um assunto tão doloroso.

Josué Matos

Irmão, há amparo bíblico para hierarquia na igreja ou o modelo hierárquico é puramente humano?

 Alguém que me escreveu no YouTube:

Irmão, há amparo bíblico para hierarquia na igreja ou o modelo hierárquico é puramente humano?

Minha Resposta:

A pergunta é extremamente importante, porque toca na própria natureza da igreja. Precisamos distinguir cuidadosamente entre autoridade espiritual estabelecida por Deus e hierarquia clerical criada pelos homens. A Palavra de Deus ensina claramente a primeira, mas não sustenta a segunda.

  1. O modelo deixado pelo Senhor Jesus

O Senhor Jesus ensinou um princípio fundamental em Mateus 20:25-28. Ele disse que os governantes dos gentios dominam sobre eles, mas “entre vós não será assim”. No Seu reino, grandeza não é medida por posição hierárquica, mas por serviço. O próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir.

Isso já elimina qualquer estrutura baseada em superioridade de classe espiritual. O padrão cristão é serviço, não dominação.

  1. A autoridade espiritual no Novo Testamento

Embora não haja base para um sistema hierárquico no sentido clerical (como papa, arcebispos, bispos superiores e inferiores em cadeia de comando), há sim autoridade espiritual reconhecida por Deus.

Em Atos 14:23 vemos que Paulo e Barnabé constituíam presbíteros em cada igreja. Em Filipenses 1:1 aparecem “bispos e diáconos”. Em 1 Timóteo 3 e Tito 1 encontramos as qualificações desses homens.

Aqui está o ponto central:
– Presbítero (ancião)
– Bispo (supervisor)
– Pastor (aquele que apascenta)

Esses termos não indicam três cargos diferentes em níveis hierárquicos distintos, mas aspectos diferentes da mesma função. Em Atos 20:17,28 Paulo chama os presbíteros de Éfeso e os denomina bispos (supervisores), e diz que devem apascentar (pastorear) o rebanho.

Portanto, existe liderança, mas não uma escada hierárquica.

  1. Pluralidade e igualdade entre os anciãos

Em nenhuma igreja local do Novo Testamento encontramos um único homem governando como autoridade máxima. Sempre aparece pluralidade de presbíteros (Atos 20:17; Tito 1:5; Tiago 5:14).

Essa pluralidade impede concentração de poder e evita hierarquia interna. Não há um “presbítero chefe”. Todos são irmãos entre irmãos, ainda que exerçam responsabilidade.

  1. Cristo é o Cabeça da Igreja

Efésios 1:22-23 e Colossenses 1:18 ensinam que Cristo é o Cabeça do Corpo. Não há outro cabeça visível na terra. Qualquer sistema que coloque um homem como cabeça universal da igreja contradiz essa verdade fundamental.

A igreja é um corpo vivo, não uma organização piramidal.

  1. O sacerdócio de todos os crentes

1 Pedro 2:5 e 2:9 afirmam que todos os crentes são sacerdotes. Isso elimina a distinção entre “clero” e “leigos”. No Novo Testamento não existe uma classe espiritual intermediária entre Deus e o povo. Há dons diferentes (Efésios 4:11), mas não classes espirituais superiores.

Os dons são para edificação do corpo, não para formar uma elite espiritual.

  1. O perigo histórico do modelo hierárquico

Historicamente, após o período apostólico, começou a surgir a figura do “bispo monárquico”, e gradualmente desenvolveu-se uma estrutura piramidal que culminou no sistema papal. Esse modelo não encontra fundamento nas Escrituras apostólicas, mas nasceu da necessidade humana de organização centralizada e controle institucional.

A Escritura apresenta uma estrutura simples:
– Cristo como Cabeça.
– O Espírito Santo como guia presente.
– Presbíteros locais como supervisores.
– Diáconos como servos administrativos.
– Toda a assembleia responsável diante do Senhor.

  1. Conclusão

Portanto, há base bíblica para autoridade espiritual e liderança reconhecida, mas não para um sistema hierárquico clerical.

A liderança na igreja é:
– Espiritual, não institucional.
– Colegiada, não monárquica.
– Servidora, não dominadora.
– Local, não centralizada mundialmente.

O modelo hierárquico rígido, como estrutura de poder em níveis superiores e inferiores, é desenvolvimento humano posterior e não padrão apostólico.

Que o Senhor nos dê discernimento para permanecer no modelo simples, espiritual e bíblico apresentado no Novo Testamento.

Josué Matos

Porque "esse céu" é lugar de mendigos espirituais

 Alguém que me escreveu no YouTube:

Quem gosta de pedir vai para "esse céu".

Quem gosta de dar, oferecer, vai para o inferno.

Porque "esse céu" é lugar de mendigos espirituais.

Minha Resposta:

Percebo que a sua frase parte de uma visão em que o Céu seria lugar de “mendigos espirituais” e o inferno destino de quem gosta de dar. Permita-me responder com base naquilo que as Escrituras ensinam.

A Bíblia declara que todos nós, sem exceção, somos espiritualmente necessitados. Romanos 3:23 afirma: “Todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus”. Isso significa que, diante de Deus, ninguém é rico espiritualmente. A diferença entre os homens não está em quem tem mais méritos, mas em quem reconhece a própria necessidade.

O Senhor Jesus disse em Mateus 5:3: “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus”. Ele não elogiou o orgulho espiritual, mas a humildade de quem reconhece que precisa de salvação. O problema não é “pedir”; o problema é imaginar que não precisamos de nada.

A salvação não é um prêmio para quem faz mais boas obras. Efésios 2:8-9 declara: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não vem das obras, para que ninguém se glorie”. Se o homem pudesse alcançar o Céu pelo que dá ou faz, a morte de Cristo na cruz seria desnecessária.

Ao mesmo tempo, a Bíblia não ensina que quem pratica o bem vai para o inferno. As boas obras são importantes, mas são consequência de uma vida transformada, não a causa da salvação. Efésios 2:10 diz que fomos criados em Cristo Jesus para boas obras. Primeiro vem a salvação; depois, o fruto.

O critério que a Palavra de Deus apresenta é este: João 3:36 afirma que “aquele que crê no Filho tem a vida eterna; mas aquele que não crê no Filho não verá a vida”. A questão central não é se a pessoa gosta de pedir ou de dar, mas se ela crê ou rejeita o Filho de Deus.

O Senhor Jesus contou a parábola do fariseu e do publicano em Lucas 18:9-14. O fariseu apresentou suas obras; o publicano apenas pediu misericórdia. E Jesus declarou que foi este último que saiu justificado. Não porque pedir fosse virtude em si, mas porque ele reconheceu sua condição diante de Deus.

O Céu não é lugar de mendigos no sentido depreciativo, mas de pecadores perdoados. E o inferno não é destino de pessoas generosas, mas daqueles que rejeitam o único meio de reconciliação com Deus: a obra consumada de Cristo.

Diante de Deus, todos precisamos receber antes de poder dar. Primeiro recebemos perdão, vida eterna e nova natureza. Depois, sim, damos amor, serviço e generosidade como fruto dessa nova vida.

Com respeito, deixo esta reflexão: o orgulho espiritual fecha o coração; a fé humilde o abre para a graça de Deus.

Josué Matos

Tenho uma dúvida quando leio em 2 Timóteo 2:13, onde diz… “não pode negar-se a si mesmo”… já que Deus tudo pode!

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

A santa paz de Deus, Pastor Josué Matos, tenho uma dúvida quando leio em 2 Timóteo 2:13, onde diz… “não pode negar-se a si mesmo”… já que Deus tudo pode. Obrigada.

Minha Resposta:

A sua pergunta é muito preciosa, porque toca na perfeição do caráter de Deus.

O texto diz em 2 Timóteo 2:13: “Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo.”

À primeira vista, alguém poderia pensar: “Mas Deus não pode tudo?” Sim, Deus é onipotente. Porém, a onipotência de Deus não significa que Ele possa agir contra a Sua própria natureza. O que o texto afirma não é limitação de poder, mas perfeição de caráter.

Quando a Escritura diz que Ele “não pode negar-se a si mesmo”, está afirmando que Deus nunca age em contradição com aquilo que Ele é. Ele é santo, justo, verdadeiro, fiel. Se Deus pudesse negar-Se a Si mesmo, Ele deixaria de ser Deus.

Há outras declarações semelhantes na Palavra:

– Deus não pode mentir (Tito 1:2).
– Deus não pode ser tentado pelo mal (Tiago 1:13).

Essas coisas não revelam fraqueza, mas absoluta perfeição moral. Deus não mente porque é verdade. Deus não pratica o mal porque é santo. Deus não é infiel porque é fiel.

No contexto de 2 Timóteo 2, Paulo está mostrando que, mesmo que os homens sejam infiéis, Deus continua fiel às Suas promessas e ao Seu próprio caráter. Ele não muda conforme a instabilidade humana. Ele não se contradiz. Ele não revoga Sua natureza.

Portanto, quando lemos que “não pode negar-se a si mesmo”, devemos entender assim: Deus jamais agirá contra a Sua essência, contra o Seu caráter eterno. Sua onipotência está em perfeita harmonia com Sua santidade, justiça e fidelidade.

Isso, em vez de diminuir Deus, aumenta nossa segurança. Porque sabemos que Ele jamais deixará de ser quem é.

Em 2 Timóteo 2:11-13 temos uma sequência de declarações solenes:

– “Se já morremos com ele, também com ele viveremos;
– Se perseverarmos, também com ele reinaremos;
– Se o negarmos, também ele nos negará;
– Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo.”

Perceba que o versículo 13 não está isolado; ele faz parte dessa estrutura. O apóstolo apresenta tanto promessas quanto advertências.

O texto mostra primeiro a recompensa da perseverança e depois a consequência da negação. “Se o negarmos, também ele nos negará.” Essa afirmação ecoa as palavras do próprio Senhor Jesus em Mateus 10:33.

Então vem o versículo 13: “Se formos infiéis, ele permanece fiel; porque não pode negar-se a si mesmo.”

Aqui não se trata de dizer que a infidelidade humana anula o juízo divino, nem que Deus ignorará a negação. O sentido é mais profundo: Deus sempre agirá de acordo com o Seu caráter. Ele é fiel tanto às Suas promessas quanto às Suas advertências.

Alguns entendem que o versículo suaviza a advertência anterior, como se dissesse que, apesar da infidelidade humana, a graça vencerá tudo. Porém, à luz do contexto imediato, a ideia principal é outra: Cristo não pode agir em contradição com Sua própria natureza santa e justa. Se Ele declarou que negará aquele que O negar, Ele não revogará essa palavra. Agir de modo diferente seria negar-Se a Si mesmo.

“Não pode negar-se a si mesmo” significa que Ele não pode agir contra Sua essência, contra Sua justiça, contra Sua verdade, contra Sua própria palavra. Ele é fiel à Sua natureza, fiel ao Seu caráter e fiel ao que declarou.

Assim, o versículo tem um duplo aspecto:

  1. Consolador: Deus não muda conforme a instabilidade humana. Ele não deixa de ser fiel porque o homem falha.

  2. Solene: Ele também não anulará Suas próprias declarações para favorecer a infidelidade. Sua fidelidade inclui manter tanto promessas quanto juízos.

Portanto, a onipotência de Deus não é poder para contradizer-Se, mas poder perfeitamente harmonizado com Sua santidade e verdade. Ele não pode mentir. Não pode agir injustamente. Não pode negar-Se. Isso não é limitação — é perfeição.

Josué Matos

Antes de tomar decisões, precisamos apresentar as situações a toda a igreja local?

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Irmão, estou com uma dúvida sobre como os varões tratam as ocorrências na igreja local. Existe uma reunião a parte para tratar sobre os assuntos que surgem? Essa reunião somente varões participam? As decisões são tomadas em unanimidade? Como são ligadas ou desligadas as questões tratadas? Antes de tomar decisões precisamos apresentar as situações a toda igreja local? Em fim poderia apresentar uma descrição de como são tratados as situações na igreja local pelos anciãos? Paz seja contigo.

Minha Resposta:

A questão que você levanta é muito importante, porque toca na forma prática como a igreja local deve agir segundo os princípios do Novo Testamento.

Em primeiro lugar, precisamos lembrar que, no padrão bíblico, a igreja local não é dirigida por um homem, nem por um sistema hierárquico, mas por uma pluralidade de anciãos (presbíteros), reconhecidos pelo Espírito Santo entre os irmãos (Atos 20:17,28). Esses irmãos não formam um “clero”, mas exercem cuidado pastoral, vigilância e orientação espiritual sobre o rebanho.

  1. Existe reunião à parte para tratar dos assuntos?

Sim, é perfeitamente bíblico que os anciãos conversem entre si sobre assuntos que exigem discernimento espiritual, especialmente questões delicadas, disciplinares ou que envolvem cuidado de almas. Em Atos 15 vemos os apóstolos e anciãos reunidos para considerar uma questão doutrinária séria. Isso mostra que há momentos próprios para examinar situações antes de qualquer comunicação pública.

Essas conversas não são reuniões “secretas”, mas encontros de responsabilidade espiritual. O objetivo não é governar isoladamente, mas buscar, em oração e comunhão, o pensamento do Senhor.

  1. Somente varões participam?

Quanto ao exercício de governo e supervisão na igreja local, o Novo Testamento coloca essa responsabilidade sobre homens qualificados (1 Timóteo 3; Tito 1). Portanto, as reuniões de anciãos são compostas por irmãos varões reconhecidos nesse serviço.

Isso não diminui o valor espiritual das irmãs e dos demais irmãos, mas reflete a ordem estabelecida por Deus para o funcionamento da assembleia.

  1. As decisões são tomadas em unanimidade?

O ideal espiritual é que haja unanimidade entre os anciãos. Não no sentido político, mas no sentido de haver um mesmo sentir produzido pelo Espírito Santo.

Em Atos 15:28 lemos: “Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós…”. Essa expressão mostra que a decisão não era simplesmente resultado de votação, mas de discernimento espiritual conjunto.

Quando há divergência persistente entre anciãos, o melhor caminho não é forçar uma decisão, mas continuar buscando o Senhor até que haja clareza. Decisões precipitadas raramente produzem bons frutos. O parecer final dos Anciãos com melhor conhecimento bíblico e espiritual, deve ser levado em grande consideração, na hora de divergências. São irmãos que podem estar vendo coisas que os demais não veem.

  1. Como são ligadas ou desligadas as questões?

O princípio de “ligar e desligar” (Mateus 18:18) está relacionado principalmente à disciplina na assembleia. O processo bíblico, conforme Mateus 18:15-17, começa de forma pessoal, depois com testemunhas, e somente se houver persistência no erro é levado à igreja.

Os anciãos normalmente examinam cuidadosamente os fatos antes que algo seja apresentado publicamente, especialmente em casos disciplinares. Quando a assembleia é chamada a agir, não é para debater, mas para reconhecer uma decisão já discernida pelos anciãos segundo a Palavra.

Não se trata de autoridade autônoma dos anciãos, mas de responsabilidade espiritual diante do Senhor.

  1. Antes de decidir, é preciso apresentar tudo à igreja?

Depende da natureza da questão.

– Questões administrativas simples podem ser tratadas pelos irmãos responsáveis, os anciãos.
– Questões doutrinárias ou disciplinares que afetam a comunhão precisam ser comunicadas à assembleia. Informar à assembleia reunida as decisões tomadas pelos anciãos.
– Casos pessoais que envolvem confidencialidade devem ser tratados com prudência, evitando exposição desnecessária.

A assembleia não funciona como uma democracia onde tudo é votado, nem como uma ditadura pastoral. Funciona como um corpo, onde há responsabilidade coletiva, mas também há funções distintas.

  1. Como, em resumo, são tratadas as situações?

O padrão saudável é este:

– Oração.
– Exame à luz da Palavra.
– Conversa entre os anciãos.
– Busca de unanimidade espiritual.
– Comunicação clara à assembleia quando necessário.
– Sempre visando restauração, nunca punição.

O objetivo da liderança bíblica nunca é “controlar”, mas pastorear. O ancião não é um administrador frio, mas um pastor que vela pelas almas como quem há de dar conta (Hebreus 13:17).

Quando esse espírito pastoral é perdido, surgem autoritarismo ou confusão. Quando esse espírito é mantido, há ordem com graça.

Que o Senhor nos dê assembleias onde haja governo espiritual com humildade, firmeza com mansidão, e decisões que realmente possam ser reconhecidas como tendo sido tomadas “na presença do Senhor”.

Deixo abaixo o link de bons livros gratuitos que poderão ampliar o que foi dito aqui:

Livros Gratuitos de Estudos Sobre a Igreja

Paz seja contigo.

Josué Matos

Não existe tribulação que não traga consigo uma bênção?

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

A pessoa me enviou o texto abaixo:

Esboço de um sermão de meu amigo e irmão, pastor batista

O SOFRIMENTO.

“mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela nao comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás. E viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento; tomou do seu fruto, e comeu, e deu também a seu marido, e ele comeu com ela” (Gn.2:17; 3:6)

1. Toda a criação padece. Rm.8:20

a. Cristão. At.14:22

b. Não cristão. Is.57:21

2. Alguns motivos do sofrimento do cristão.

a. Como prova da fé. Por meio das provas, nosso Deus mostra ao mundo que a sua fé depositada no coração de seus filhos é indestrutível. (1 Jo.5:4-5; Jó 1 e 2)

b. Para crescer em humildade. (Jó: 40-3-5; 42:1-6)

c. Como consequência de semear o errado. (Gl.6:7-8)

- Existe perdão e purificação (1 Jo.1:8-9)

- Porém ficam consequências:

- Moisés. (Nm. 20:8-12; Dt.3:24-27; 4:21)

- Davi. (2 Sm.12:10-14)

Assumir a nossa responsabilidade, traz mais calma. (2Sm.16:5-10)

d. Para ser usados em nossa debilidade. (2Co.12:6-10)

e. Como parte da nossa luta na boa batalha. Desde o mesmo instante do novo nascimento, somos recrutados para ser soldados do exército do Deus vivente, e somos imersos numa feroz batalha. Essa batalha chega ao fim só quando morrer ou quando Cristo voltar. (2Tm.4:4-8)     

- Cada soldado de Jesus recebe uma armadura para enfrentar tal batalha. (Ef.6:10-18)

- A luta é contra o velho homem. Ele já foi crucificado juntamente com Cristo e não pode ser mais senhor, porém todo tempo guerreia contra nós para entrar na tentação. (Rm.6:6,14;7:21-25) 

- A luta é também contra Satanás e o seu sistema invisível de maldade chamado mundo. (1P.5: 7-10)

3. A vitória é do Senhor. Nosso Deus, pela vitória de Cristo em favor do seu povo, tudo o inclina para o bem de seus redimidos. (Hb.10:14; Rm.8:28). Então, derramemos nossa alma confiadamente no trono da graça para encontrar oportuno socorro. (Sal.56:22, 62:8; Hb.4:14-16)

Conclusão: Não existe tribulação que não traga consigo uma bênção.

Minha Resposta:

Fiquei pensando na conclusão do "esboço do pastor batista" sobre o sofrimento e creio que vale a pena fazer uma distinção importante, para que o ensino fique ainda mais preciso e equilibrado.

Ele escreveu que “não existe tribulação que não traga consigo uma bênção”. De modo geral, isso é verdadeiro quando falamos dos que amam a Deus, conforme Romanos 8:28. Contudo, quando tratamos especificamente das tribulações causadas pelo pecado do próprio crente, é necessário qualificar melhor essa afirmação.

  1. Sofrimento por fidelidade e sofrimento por pecado não são iguais

A Escritura mostra que há sofrimentos que vêm:

– Por causa da fidelidade a Deus (Atos 14:22; 1 Pedro 4:14-16).
– Como disciplina por causa de pecado (Hebreus 12:6-11).

No primeiro caso, o sofrimento é prova da fé e instrumento de refinamento. Em 1 Pedro 1:6-7, vemos que a provação da fé é comparada ao ouro purificado no fogo.

No segundo caso, não estamos diante de uma simples prova, mas de correção paternal.

  1. A disciplina é correção, não condenação

Hebreus 12:6-7 declara:

“O Senhor corrige o que ama, e açoita a qualquer que recebe por filho.”

A disciplina é evidência de filiação. Deus não disciplina o mundo como Pai, mas julga o mundo como Juiz. Ao crente, Ele trata como Pai.

Entretanto, o texto também diz:

“Na verdade, nenhuma correção, ao presente, parece ser de gozo, senão de tristeza; mas depois produz um fruto pacífico de justiça nos exercitados por ela.” (Hebreus 12:11)

Observe a expressão: “nos exercitados por ela”. Ou seja, a disciplina só produz fruto quando há resposta correta.

  1. A consequência do pecado não é bênção automática

Gálatas 6:7-8 estabelece um princípio solene:

“Tudo o que o homem semear, isso também ceifará.”

O perdão é real — 1 João 1:9 é claro — mas o perdão não anula necessariamente as consequências temporais.

Veja alguns exemplos:

Moisés (Números 20:8-12; Deuteronômio 3:24-27) — homem fiel, mas disciplinado e impedido de entrar na terra prometida.

Davi (2 Samuel 12:10-14) — pecado perdoado, mas a espada não se apartaria de sua casa.

Nesses casos, o sofrimento não foi uma “bênção” em si mesmo. Foi disciplina. Tornou-se instrumento de amadurecimento porque houve arrependimento genuíno.

O Salmo 51 mostra o coração quebrantado de Davi. Ali vemos como a disciplina o levou à restauração.

  1. Quando a disciplina se torna bênção?

A disciplina se transforma em bênção quando:

– há confissão sincera (1 João 1:9);
– há abandono do pecado (Provérbios 28:13);
– há submissão humilde à mão de Deus (1 Pedro 5:6).

Se o crente resiste, endurece-se ou se justifica, o sofrimento pode prolongar-se e até agravar-se. Em 1 Coríntios 11:29-32 vemos crentes disciplinados por causa de pecado não julgado — alguns estavam fracos, outros doentes, e alguns haviam dormido (morrido). A disciplina tinha propósito corretivo, mas nem todos responderam da mesma maneira.

  1. Uma formulação mais precisa

Talvez possamos dizer assim:

– Toda tribulação permitida por Deus pode resultar em bênção para o crente.
– Mas quando a tribulação é fruto do pecado pessoal, ela é, primeiramente, disciplina corretiva.
– Ela só se tornará bênção espiritual se houver arrependimento e restauração.

Isso mantém o equilíbrio das Escrituras.

Não podemos ensinar que todo sofrimento é automaticamente bênção, pois isso pode banalizar a gravidade do pecado. Por outro lado, também não podemos ver a disciplina como rejeição, pois ela é prova do amor paternal de Deus.

No fim, a vitória é do Senhor. Hebreus 10:14 declara que Cristo aperfeiçoou para sempre os que são santificados. Romanos 8:28 assegura que Deus governa todas as coisas para o bem dos que O amam. Mas esse “bem” passa muitas vezes pelo caminho da correção.

Creio que, com esse ajuste, seu esboço ficará ainda mais sólido e fiel ao ensino completo das Escrituras.

Fraternalmente.

Josué Matos

Idade e tempo de conversão não garantem maturidade?

 Alguém que me escreveu por e-mail:

Querido irmão 

Existem cristãos velhos de idade e de tempo de conversão?

É que eu e a minha esposa frequentávamos uma certa denominação há uns 20 anos atrás… O Senhor foi me mostrando, através da Palavra, quem eram os líderes daquela localidade (inclusive aquele meu cunhado de quem te falei outra vez) . 

E também, de alguma forma, no mesmo período, o Senhor mostrou para outras pessoas. Resumindo, saíram de lá umas 80 pessoas.

Mas naquela época ainda eu não entendia sobre a sã doutrina e o que era a igreja de Cristo realmente. Aos poucos, o Senhor foi me esclarecendo. 

Os outros irmãos, cada um foi para o seu lado (cada um numa denominação), eu também. 

Mas não demorou muito tempo para perceber que aquilo era um clube social religioso, só diferenciado do anterior pela qualidade do terno. 

Depois disso, vim paulatinamente conhecer a verdade, ouvindo muita coisa e chegando aos irmãos fechados. 

Ao longo do tempo, encontrei vários desses irmãos, e infelizmente continuam “crendo” da mesma forma, as coisas da vida mudaram, mas a crença não, aliás, muitos pensam que o antigo pastor era apenas um ladrão, é bem mais que isso. 

Eu tento de alguma forma mostrar alguns vídeos seus e até de outros irmãos, versículos, mas eles não enxergam. 

Muitos estão há muitos anos (velhos de idade) (pessoas de boa moral, piedosas) no caminho, mas ainda não abriram os olhos. 

Imaturidade não depende do tempo de conversão? Ou depende exclusivamente do tempo de comunhão com Deus?

Não quero fazer o trabalho do Espírito Santo, mas só de saber que encontraram a verdade, já fico feliz.

Desculpe, irmão, às vezes, quando escrevo, o Senhor já me vai respondendo e às vezes faço perguntas óbvias, às vezes pergunto e já tenho a resposta. Gosto de interagir com o irmão, sempre é muito edificante.

Deus o abençoe 

Minha Resposta:

A sua pergunta é muito sincera e revela zelo verdadeiro. Quando o coração se entristece ao ver pessoas queridas permanecendo em sistemas religiosos ou em compreensões limitadas da verdade, isso mostra que há amor pelas almas e apreço pela verdade da Palavra.

Você pergunta se existe “cristão velho” de idade ou de tempo de conversão, e se a imaturidade depende do tempo de conversão ou exclusivamente do tempo de comunhão com Deus.

A Escritura responde de forma muito equilibrada.

  1. Idade e tempo de conversão não garantem maturidade

Em 1 Coríntios 3:1-3, o apóstolo Paulo escreve a crentes que já estavam há anos convertidos, mas ainda eram “meninos em Cristo”. Eles tinham recebido o evangelho, mas permaneciam carnais, cheios de divisões e contendas. Isso prova que tempo de conversão não é sinônimo de crescimento.

Em Hebreus 5:12-14, lemos algo ainda mais forte: “devendo já ser mestres pelo tempo, ainda necessitais de que se vos torne a ensinar quais sejam os primeiros rudimentos das palavras de Deus”. Aqui o Espírito Santo mostra que havia uma expectativa natural de crescimento com o passar do tempo. Porém, o tempo por si só não produziu maturidade.

Portanto, pode existir crente com muitos anos de profissão de fé e pouca compreensão espiritual. Assim como pode haver alguém mais recente na fé, mas profundamente exercitado na Palavra.

  1. Crescimento depende de comunhão e submissão à Palavra

O crescimento espiritual está ligado à comunhão real com Deus e à sujeição prática à Palavra. Em 1 Pedro 2:2 está escrito: “Desejai afetuosamente, como meninos novamente nascidos, o leite racional, não falsificado, para que por ele vades crescendo.”

O crescimento depende:

– do desejo sincero pela Palavra;
– da obediência prática;
– da ação do Espírito Santo no coração;
– da disposição de abandonar tradições e sistemas quando a luz da Escritura os confronta.

Em Efésios 4:13-14 vemos que o propósito do ministério dado por Cristo é que não sejamos mais “meninos inconstantes, levados em roda por todo o vento de doutrina”. Isso mostra que maturidade está ligada à firmeza doutrinária.

  1. Por que alguns não “enxergam”, mesmo vendo?

Há fatores espirituais profundos nisso.

Em 2 Coríntios 4:3-4, lemos que “o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos”. Mas mesmo entre crentes verdadeiros pode haver:

– apego emocional a sistemas;
– medo de romper vínculos sociais;
– respeito excessivo a líderes;
– acomodação espiritual;
– orgulho intelectual;
– falta de exercício pessoal diante de Deus.

Muitas vezes a luz chega, mas não há disposição interior para pagar o preço da obediência. Em João 7:17, o Senhor Jesus diz: “Se alguém quiser fazer a vontade dele, conhecerá a respeito da doutrina.” A disposição precede a compreensão.

  1. Nem todo erro é apenas moral — às vezes é estrutural

Você mencionou que alguns pensam que o antigo pastor era “apenas um ladrão”, mas que o problema era maior. De fato, o problema muitas vezes não é apenas conduta, mas sistema, doutrina e princípio.

Quando o fundamento é errado, mesmo que a moral pessoal pareça correta, a estrutura continua comprometida. Em 1 Timóteo 3:15, a igreja é chamada de “coluna e firmeza da verdade”. Se a verdade é substituída por tradição humana, a estrutura inteira fica afetada.

  1. O papel do Espírito Santo

Você disse algo muito saudável: “Não quero fazer o trabalho do Espírito Santo.”

Isso é fundamental.

Convencer, iluminar e conduzir à verdade é obra do Espírito de Deus. Em João 16:13, o Senhor Jesus afirma: “Quando vier aquele Espírito de verdade, ele vos guiará em toda a verdade.”

Nosso papel é testemunhar com mansidão, clareza e amor. Mas não é forçar, nem pressionar, nem convencer intelectualmente. Em 2 Timóteo 2:24-25 está escrito que o servo do Senhor deve instruir com mansidão, “a ver se porventura Deus lhes dará arrependimento para conhecerem a verdade”.

Observe: Deus é quem dá.

  1. Existe “cristão velho”?

Sim, no sentido natural de idade e tempo de conversão.

Mas não no sentido espiritual automático.

Há “pais”, “jovens” e “filhinhos” na fé, como vemos em 1 João 2:12-14. Essa classificação não é por idade cronológica, mas por maturidade espiritual.

– “Filhinhos” conhecem o Pai.
– “Jovens” são fortes e venceram o maligno.
– “Pais” conhecem “aquele que é desde o princípio”.

Isso é profundidade de relacionamento com Cristo.

  1. O seu sentimento é saudável

O fato de você se alegrar só de saber que alguém encontrou a verdade já mostra um coração alinhado com o Senhor. Isso é precioso.

Mas lembre-se: Deus tem seus tempos.

Alguns que hoje parecem não enxergar, amanhã podem ser os que mais defenderão a verdade. O próprio Paulo foi perseguidor antes de ser apóstolo.

Continue semeando com equilíbrio, sem insistência opressiva, sem debates infrutíferos. Às vezes um silêncio digno fala mais do que muitos argumentos.

E acima de tudo: preserve o seu próprio crescimento. A comunhão pessoal com Deus é o que mantém o coração guardado da amargura e da frustração.

Em 1 Coríntios 3:6 está escrito: “Eu plantei, Apolo regou; mas Deus deu o crescimento.”

Esse é o descanso.

Que o Senhor continue lhe dando discernimento, mansidão e firmeza na sã doutrina.

Deus o abençoe ricamente.

Josué Matos

Na dispensação atual, a revelação dirigida ao espírito está especialmente nas Epístolas, enquanto a Lei tinha como objetivo tratar com os que estão na carne, expondo o pecado?

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Irmão Josué, meditando na Palavra de Deus, cheguei a um entendimento e gostaria do seu parecer.

Ao ler Gênesis 4, percebi que Caim foi o primeiro homem nascido da vontade da carne e do sangue. Quando Deus fala com ele, advertindo-o de que o pecado jaz à porta e que ele deveria dominá-lo, entendi que Deus estava tratando com o espírito do homem, e não com a alma, onde habitam os desejos da carne.

Com base em Jó 32:8 — “Na verdade, há um espírito no homem, e o sopro do Todo-Poderoso o faz entendido” — compreendi que, desde o princípio, Deus sempre falou ao espírito do homem.

A partir disso, formulei outra questão: na dispensação atual, a revelação dirigida ao espírito está especialmente nas Epístolas, enquanto a Lei tinha como objetivo tratar com os que estão na carne, expondo o pecado. Sendo assim, as Epístolas contêm uma revelação mais elevada, que não existia no Pentateuco.

Efésios 5:14 diz: “Desperta, tu que dormes, e levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará.” Entendo que as Epístolas despertam o espírito do homem que está adormecido.

Minha pergunta é: por que a maioria das pessoas que lê as Epístolas não desperta espiritualmente? Por que muitos continuam ou retornam aos sistemas denominacionais criados por homens, em vez de viverem a revelação apresentada nas Epístolas?

Gostaria que o irmão me orientasse sobre isso.

Minha Resposta:

A sua meditação toca em pontos muito profundos da revelação de Deus, e é saudável quando o crente examina as Escrituras com desejo sincero de compreender os caminhos do Senhor. Vamos organizar o assunto para que possamos manter equilíbrio bíblico.

  1. Deus fala ao espírito do homem?

Em Gênesis 2:7 lemos que Deus soprou nas narinas do homem o fôlego de vida, e o homem foi feito alma vivente. O homem foi criado com espírito, alma e corpo (1 Tessalonicenses 5:23). Em Jó 32:8 está escrito: “Na verdade, há um espírito no homem, e o sopro do Todo-Poderoso o faz entendido.”

De fato, é no espírito que o homem pode ter comunhão com Deus. O Senhor Jesus disse: “Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade” (João 4:24). Porém, devemos ter cuidado para não criar uma separação artificial como se Deus nunca falasse à alma, ou como se o espírito estivesse isolado da responsabilidade da pessoa inteira.

Quando Deus falou a Caim em Gênesis 4:6-7, Ele tratou com a consciência dele. Disse: “O pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar.” Ali vemos responsabilidade moral, não apenas um diálogo “espírito versus carne”, mas um chamado ao arrependimento.

O problema do homem não é simplesmente que a alma esteja dominando o espírito, mas que está morto em delitos e pecados (Efésios 2:1). A Escritura não ensina que existe um “espírito adormecido” que precisa apenas ser ativado; ensina que o homem precisa nascer de novo (João 3:3-6).

  1. A Lei é para a carne e as Epístolas são para o espírito?

Aqui precisamos de muito equilíbrio. A Lei foi dada por Deus (Êxodo 20). Ela é “santa, justa e boa” (Romanos 7:12). O problema nunca foi a Lei, mas o homem na carne. Romanos 8:3 diz que a Lei era fraca por causa da carne.

A função da Lei é clara: “pela lei vem o conhecimento do pecado” (Romanos 3:20) e “a lei nos serviu de aio para nos conduzir a Cristo” (Gálatas 3:24). Portanto, a Lei não foi dada apenas para “os que estão na carne”, como se não tivesse valor espiritual; ela revela o caráter de Deus e expõe o estado do homem.

Na dispensação atual, sim, a revelação do mistério da Igreja foi dada especialmente nas Epístolas, sobretudo nas cartas de Paulo (Efésios 3:3-6; Colossenses 1:25-27). Ali temos a plena exposição da posição celestial do crente em Cristo, algo não revelado no Antigo Testamento.

Mas não podemos dizer que o Antigo Testamento não despertava o espírito. O Senhor Jesus disse: “Errais, não conhecendo as Escrituras” (Mateus 22:29), referindo-se justamente ao Antigo Testamento. Em Lucas 24:27, Ele começou por Moisés e por todos os profetas e lhes expôs o que a seu respeito constava em todas as Escrituras.

O problema nunca foi falta de revelação suficiente, mas incredulidade.

  1. Por que muitos leem as Epístolas e não despertam?

Efésios 5:14 diz: “Desperta, tu que dormes, e levanta-te dentre os mortos, e Cristo te esclarecerá.” No contexto, Paulo está falando a crentes que estavam andando como filhos das trevas. Não se trata ali de novo nascimento, mas de restauração prática.

Quanto à sua pergunta: por que muitos leem as Epístolas e continuam em sistemas denominacionais?

Precisamos considerar alguns fatores:

a) Novo nascimento

Nem todos os que leem as Epístolas são nascidos de novo. 1 Coríntios 2:14 afirma: “Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura.” Se não houve regeneração, a leitura não produzirá entendimento espiritual.

b) Crescimento espiritual

Mesmo entre os salvos, há carnais. Em 1 Coríntios 3:1-3, Paulo chama os crentes de Corinto de “carnais” e “meninos em Cristo”. O fato de serem convertidos não os livrou automaticamente de divisões e sistemas humanos.

c) Influência da tradição

O sistema religioso tem força psicológica e cultural. Em Marcos 7:13, o Senhor Jesus falou de invalidar a Palavra de Deus pela tradição. Muitas vezes, o crente lê a Escritura através das lentes do sistema em que foi formado.

d) Custo da obediência

Despertar para certas verdades implica romper com estruturas, perder posições, amizades e reconhecimento. Nem todos estão dispostos a pagar esse preço. João 12:42-43 mostra líderes que creram, mas não confessavam, porque amavam mais a glória dos homens.

  1. O problema é o sistema ou o coração?

É correto reconhecer que muitos sistemas religiosos foram organizados segundo modelos humanos, e não segundo o padrão simples das igrejas locais do Novo Testamento, como vemos em Atos dos Apóstolos 2:42 e nas Epístolas.

Porém, o ponto central não é apenas sair de um sistema, mas andar na verdade. Em Apocalipse 2–3 vemos assembleias locais que já tinham problemas sérios, mesmo sem o modelo denominacional moderno. O Senhor Jesus não chama apenas para mudar de estrutura, mas para arrependimento.

O verdadeiro despertar não é apenas compreender a distinção entre Lei e graça, ou entre Israel e Igreja, mas viver na dependência prática do Senhor Jesus Cristo.

  1. Conclusão equilibrada

– Deus fala ao homem por Sua Palavra, aplicando-a pelo Espírito Santo ao coração e à consciência.
– A Lei revela o pecado; as Epístolas revelam a posição celestial do crente.
– O despertar espiritual depende do novo nascimento, da submissão à Palavra e da disposição de obedecer.
– Nem todo aquele que lê desperta, porque o entendimento espiritual não é apenas intelectual, mas moral e espiritual.

O ponto decisivo é este: “A exposição das tuas palavras dá luz” (Salmo 119:130). Mas essa luz só ilumina aquele que se curva diante da autoridade da Palavra.

Continue examinando as Escrituras, mas sempre permitindo que elas examinem o seu próprio coração primeiro.

Josué Matos


Pastor, não existe capítulo um nem versículo um, existe capítulo primeiro, versículo primeiro

Alguém que me escreveu no YouTube:

Pastor, não existe capítulo um nem versículo um, existe capítulo primeiro, versículo primeiro. 

Minha Resposta:

Prezado amigo,

A divisão da Bíblia em capítulos e versículos não faz parte do texto inspirado original. Quando os livros foram escritos, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, não havia capítulos numerados nem versículos numerados. Essa organização foi introduzida muitos séculos depois, com o objetivo de facilitar a leitura, o ensino e a localização dos textos.

O sistema de capítulos foi amplamente difundido no século XIII, e a divisão em versículos, como usamos hoje, consolidou-se posteriormente. Portanto, dizer “capítulo um, versículo um” ou “capítulo primeiro, versículo primeiro” não altera em nada o sentido, a reverência ou a exatidão do texto bíblico. Trata-se apenas de uma forma gramatical de referência numérica.

Na língua portuguesa, tanto o uso de numerais ordinais (“primeiro”) quanto cardinais (“um”) pode ocorrer em enumerações, dependendo do contexto e do costume. No uso comum — inclusive acadêmico — é perfeitamente aceitável dizer “capítulo 1, versículo 1” ou “capítulo um, versículo um”.

O que realmente importa não é a forma de mencionar a numeração, mas a fidelidade ao conteúdo inspirado. A Palavra de Deus é viva e eficaz (Hebreus 4:12), independentemente da forma como indicamos suas divisões técnicas.

Se formos rigorosos, devemos lembrar que nem “capítulo” nem “versículo” existiam no texto original. O essencial é compreendermos corretamente o ensino das Escrituras e aplicá-lo à vida.

Com respeito e consideração.

Josué Matos

Por que nas vossas igrejas não usam instrumentos musicais?

Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Por que nas vossas igrejas não usam instrumentos musicais? Onde na Bíblia proíbe-se usar instrumentos musicais nas reuniões da igreja? Paulo disse para os crentes salmodiar e os salmos não eram cantados com instrumentos musicais?

Minha Resposta:

Irmão, agradeço a sua pergunta, porque ela é feita com sinceridade por muitos crentes.

Primeiro, é importante deixar claro: não usamos instrumentos musicais nas reuniões da igreja não porque exista um versículo que diga explicitamente “é proibido usar instrumentos”, mas porque entendemos que o padrão do Novo Testamento para a assembleia é outro.

A questão não é: “Onde a Bíblia proíbe?”, mas: “O que a Bíblia ensina e apresenta como prática da igreja?”

  1. A diferença entre Israel e a Igreja

No Antigo Testamento, especialmente no livro dos Salmos, encontramos abundantes referências a instrumentos: harpa, saltério, címbalos, trombetas (Salmos 150). Mas é fundamental lembrar que esses cânticos estavam ligados ao culto levítico no templo, sob a Lei de Moisés.

Em 2 Crônicas 29:25, por exemplo, vemos que os instrumentos foram estabelecidos “segundo o mandado de Davi e de Gade, o vidente do rei, e do profeta Natã; porque este mandado veio do Senhor por meio dos seus profetas”. Ou seja, os instrumentos faziam parte de um sistema sacerdotal, cerimonial e nacional, ligado ao templo e ao sacrifício.

A igreja, porém, não está debaixo da Lei, nem possui templo físico, nem sacerdócio levítico, nem altar material. O culto cristão não é uma continuação do culto judaico reformado; é algo novo, de natureza espiritual.

  1. O padrão do Novo Testamento para o cantar da igreja

Quando chegamos ao Novo Testamento, o cenário muda completamente.

Em Efésios 5:19 lemos:

“Falando entre vós em salmos, e hinos, e cânticos espirituais; cantando e salmodiando ao Senhor no vosso coração.”

Note que o instrumento mencionado é “o coração”. O verbo “salmodiar” (psallo, no grego) não exige instrumento externo; no contexto, ele é claramente qualificado por “no vosso coração”.

Em Colossenses 3:16:

“Ensinando-vos e admoestando-vos uns aos outros, com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando ao Senhor com graça em vosso coração.”

Outra vez, o foco não está em acompanhamento instrumental, mas no conteúdo espiritual e na edificação mútua.

Em 1 Coríntios 14:15, Paulo diz:

“Cantarei com o espírito, mas também cantarei com o entendimento.”

Nada é dito sobre instrumentos. Ao contrário, todo o capítulo enfatiza inteligibilidade, edificação e participação consciente da assembleia.

É muito significativo que, em todas as instruções sobre a reunião da igreja (1 Coríntios 11–14), não haja qualquer referência a instrumentos musicais.

  1. “Mas Paulo disse para salmodiar…”

É verdade. A palavra “salmo” aparece. Porém, no uso do Novo Testamento, “salmo” não significa necessariamente o livro dos Salmos cantado com harpa, como no templo.

A igreja primitiva cantava “salmos, hinos e cânticos espirituais”. Isso inclui composições cristãs. O centro agora não é o templo em Jerusalém, mas Cristo glorificado; não é a arca, mas o trono celestial; não é a sombra, mas a realidade.

Além disso, é notável que, historicamente, os primeiros cristãos não usaram instrumentos nas reuniões por vários séculos. Isso mostra como eles entenderam o ensino apostólico.

  1. A natureza espiritual do culto cristão

O Senhor Jesus disse em João 4:23-24:

“Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem. Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade.”

A ênfase está na realidade interior, não em aparato exterior. O culto cristão não depende de estímulos sensoriais, mas da ação do Espírito Santo no coração regenerado.

No Antigo Testamento, havia sacerdotes separados, instrumentos consagrados, vestes especiais, incenso, altar, sacrifícios. No Novo Testamento, todos os crentes são sacerdotes (1 Pedro 2:5), e o sacrifício é espiritual: “fruto dos lábios que confessam o seu nome” (Hebreus 13:15).

  1. Uma questão de obediência ao modelo apostólico

Não afirmamos que um instrumento em si seja pecado. A questão é outra: o que a Palavra apresenta como prática da igreja reunida?

Quando o Novo Testamento regula a Ceia do Senhor, o ministério, o exercício dos dons, o papel da mulher, o silêncio, a ordem na reunião — ele é específico. E nesse mesmo contexto, nunca há menção de instrumentos.

Se algo fez parte do culto judaico e desaparece completamente nas instruções apostólicas para a igreja, devemos pelo menos considerar que isso não pertence ao modelo da assembleia cristã.

Portanto, nossa prática não é baseada em uma proibição explícita, mas em um princípio: seguir o padrão simples, espiritual e apostólico do Novo Testamento.

Concluindo

Os salmos no Antigo Testamento eram, sim, acompanhados por instrumentos no contexto do templo e da nação de Israel. Mas a igreja não é Israel, e a reunião da igreja não é o templo levítico.

Na assembleia, o instrumento é o coração regenerado. O louvor sobe não por cordas vibrando, mas por vidas transformadas.

Assim, nossa posição não é uma crítica a quem usa instrumentos, mas um desejo de permanecer o mais próximo possível do modelo que vemos nas Escrituras para a igreja reunida.

Com estima cristã,

Josué Matos

Para se crer em Deus, tem que ser muito insano ao ponto de ir contra todos os estudos científicos

 Alguém que me escreveu no YouTube:

Para se crer em Deus, tem que ser muito insano ao ponto de ir contra todos os estudos científicos comprovando a idade da Terra de 4,5 bilhões de anos, evolução e demais coisas, e mesmo assim, crer que tudo foi criado em 6 dias e, para piorar, tudo isso foi há 6 mil anos atrás… É muita fé mesmo.

Minha Resposta:

Meu amigo, chamar de “insano” quem crê em Deus não é um argumento científico, é apenas uma opinião. A ciência trabalha com modelos explicativos baseados em observação e interpretação de dados; ela não tem autoridade para declarar inexistente aquilo que está além do método científico.

Primeiro ponto: a idade estimada da Terra (4,5 bilhões de anos) é baseada em pressupostos interpretativos, especialmente no uniformitarismo — a ideia de que os processos atuais sempre ocorreram na mesma taxa no passado. Isso é um modelo. Não é uma observação direta de bilhões de anos. Nenhum cientista estava lá. São inferências feitas a partir de dados atuais.

Segundo ponto: evolução biológica no sentido de adaptação dentro de espécies (microevolução) é observável. Mas a transformação gradual de formas simples em toda a diversidade da vida (macro­evolução universal) continua sendo uma construção teórica baseada em interpretação de evidências fósseis e genéticas. Há debates reais dentro da própria comunidade científica sobre lacunas, complexidade irreduzível e origem da informação biológica.

Terceiro ponto: crer que tudo surgiu por acaso, a partir de matéria inanimada, que por si mesma produziu informação genética altamente organizada, consciência, moralidade e racionalidade — isso também exige fé filosófica. A ciência descreve mecanismos; ela não explica a origem última da matéria, das leis naturais ou da própria racionalidade humana.

Além disso, a própria existência de leis físicas constantes, ajuste fino do universo, ordem matemática e inteligibilidade do cosmos são argumentos que muitos cientistas veem como compatíveis com a ideia de um Criador.

Quanto aos “seis dias”, a discussão não é simplesmente científica, mas também hermenêutica. Existem diferentes interpretações entre cristãos sobre como entender Gênesis 1. Mas independentemente disso, a questão central não é o número de anos — é se o universo é fruto de mente ou de acidente.

A fé bíblica não é fé contra evidências; é fé baseada na revelação histórica, especialmente na pessoa do Senhor Jesus Cristo. O cristianismo se ancora em fatos históricos verificáveis: vida, morte e ressurreição. Se Cristo ressuscitou, então a cosmovisão bíblica merece ser levada muito a sério.

No fim, todos têm pressupostos. A pergunta não é “quem tem fé”, mas “em quê está sendo depositada a fé?”. Em matéria impessoal que, sem propósito, gerou mente e moralidade? Ou em um Deus pessoal que criou o universo com propósito?

Chamar o outro lado de insano não resolve o debate. O que precisamos é de argumentos, não de rótulos.

No fim das contas, a questão não é apenas quantos bilhões de anos a Terra teria, mas o que acontece depois que nossos poucos anos aqui terminam. A ciência pode medir matéria, energia, fósseis e radiação; mas ela não responde à pergunta mais profunda: o que acontece com a consciência, com a alma, com a responsabilidade moral do ser humano após a morte?

Se não há Criador, então a morte é apenas extinção. Não há prestação de contas, não há justiça final, não há esperança além do túmulo. Tudo termina no silêncio da decomposição. Mas se há um Deus pessoal, santo e justo, então a morte não é o fim — é transição. E, nesse caso, cada ser humano terá de responder diante dEle.

A mensagem bíblica vai além de afirmar que existe um Criador. Ela revela que o próprio Criador entrou na história. O Filho de Deus veio ao mundo não apenas para mostrar poder, mas para salvar pecadores. Ele não veio apenas como Criador, mas como Salvador. A cruz não foi um acidente; foi substituição. Ali, o Senhor Jesus levou sobre Si o juízo que cabia a nós.

A salvação não é por mérito, religião ou boas obras. É pela fé. Arrependimento diante de Deus e confiança pessoal na obra de Cristo. Reconhecer que somos pecadores, incapazes de nos justificar, e descansar somente no sacrifício dEle.

A pergunta final não é se alguém crê em bilhões de anos ou seis dias. A pergunta é: você está preparado para morrer? Se Cristo é quem disse ser, então a decisão mais racional da vida é confiar nEle enquanto há tempo.

Josué Matos

A profissão de policial não parece seguir as pegadas de Cristo, estou certa?

Alguém que me escreveu no YouTube:

Me escreveu depois de assistir ao vídeo: O Cristão e a Guerra  - C. H. Mackintosh(1820-1896) - (Áudio Livro/Audiobook)

Ela disse-me:

Irmão Josué, depois de ouvir esse áudio, eu fiquei a pensar que a profissão de policial não parece seguir as pegadas de Cristo, estou certa?

Minha Resposta:

Sua pergunta é muito sincera, e mostra um coração que deseja andar nas pegadas do Senhor Jesus.

Quando lemos os Evangelhos, especialmente em Evangelho de Mateus 5:38-44, vemos o Senhor ensinando: “Não resistais ao mal... amai os vossos inimigos”. Em Evangelho de João 18:36, Ele declara: “O meu reino não é deste mundo”. E, quando Pedro usou a espada, o Senhor lhe disse: “Embainha a tua espada” (João 18:11). Tudo isso revela claramente que o caráter pessoal do cristão é marcado por mansidão, paciência, perdão e disposição para sofrer injustiça.

Sob esse aspecto, é compreensível a sua inquietação. A função policial envolve o uso legítimo da força, e às vezes até o uso de armas. À primeira vista, isso parece distante da atitude do Senhor, que Se entregou voluntariamente à cruz.

No entanto, é importante considerar também o ensino das Escrituras acerca das autoridades civis. Em Epístola aos Romanos 13:1-4, lemos que “não há autoridade que não venha de Deus” e que a autoridade “não traz debalde a espada; porque é ministro de Deus, vingador para castigar o que faz o mal”. Aqui não se trata de vingança pessoal, mas da função do Estado na manutenção da ordem.

Portanto, há uma distinção fundamental entre:

  1. A conduta pessoal do cristão.

  2. A responsabilidade delegada por Deus às autoridades civis.

O cristão, como indivíduo, não deve buscar vingança (Romanos 12:19). Mas o Estado, como instituição estabelecida por Deus para conter o mal, tem o direito e o dever de punir o criminoso.

A questão, então, não é simplesmente a profissão em si, mas como ela é exercida. Um policial pode agir com senso de justiça, sem crueldade, sem ódio, sem abuso de poder. Pode exercer sua função como um serviço à sociedade, preservando vidas e protegendo inocentes. Nesse caso, ele estaria atuando dentro da esfera de autoridade que Deus permitiu.

Por outro lado, é verdade que essa profissão expõe a pessoa a situações moralmente complexas e espiritualmente desafiadoras. Nem todos conseguem manter uma consciência sensível e dependente de Deus nesse ambiente. Por isso, trata-se de uma decisão que deve ser considerada diante do Senhor, com oração e convicção pessoal.

As pegadas de Cristo são marcadas por amor, verdade, justiça e submissão à vontade do Pai. A pergunta que cada crente deve fazer não é apenas “qual é minha profissão?”, mas “posso exercer essa função com uma consciência limpa diante de Deus, refletindo o caráter de Cristo?”.

Se a resposta for não, então a inquietação é um alerta. Se for sim, e houver equilíbrio entre justiça e misericórdia, então a pessoa pode entender sua função como parte da ordem estabelecida por Deus neste mundo ainda marcado pelo pecado.

Que o Senhor lhe conceda discernimento e paz ao considerar essa questão.

Josué Matos

Se certos dons extraordinários cessaram ainda no 1º século, o que seriam então estas manifestações dentro das igrejas pentecostais de hoje?

 Alguém que me escreveu no YouTube:

Se, como você diz, certos dons extraordinários cessaram ainda no 1º século, o que seriam então estas manifestações dentro das igrejas pentecostais de hoje, onde uns fazem vocalizações estranhas e desconexas, outros pulam e gritam, outros ainda rodopiam e rolam no chão? Com certeza, nada destas práticas esquisitas e estranhas ao culto cristão bíblico é algo produzido pelo Espírito de Deus. Estas esquisitices são atos meramente humanos, fruto de histerismos coletivos, manipulação, encenações teatrais, charlatanismo e, em alguns casos, possessão demoníaca.

Minha Resposta:

A sua preocupação é legítima, porque o culto cristão deve ser examinado à luz das Escrituras, e não à luz de experiências subjetivas ou de impressões emocionais. Contudo, é necessário tratar o assunto com equilíbrio bíblico e discernimento espiritual, evitando tanto a ingenuidade quanto a generalização precipitada.

Primeiro, é importante lembrar que os dons espirituais no Novo Testamento tinham características bem definidas. Em 1 Coríntios 12–14, o falar em línguas era um idioma real, compreensível quando interpretado, e tinha finalidade específica: sinal para os incrédulos (1 Coríntios 14:21-22). Não era vocalização desconexa, nem expressão incontrolável. Pelo contrário, o apóstolo Paulo afirma: “Os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas” (1 Coríntios 14:32), e conclui: “Porque Deus não é Deus de confusão, mas de paz” (1 Coríntios 14:33).

Além disso, tudo deveria ser feito “com decência e ordem” (1 Coríntios 14:40). Portanto, qualquer prática que envolva descontrole físico, histeria coletiva ou ausência total de entendimento não encontra respaldo no padrão apostólico.

Entretanto, é preciso cautela antes de classificar automaticamente tais manifestações como possessão demoníaca. O Novo Testamento mostra que manifestações demoníacas tinham características claras, como vemos nos Evangelhos, por exemplo em Marcos 5:1-13. Eram situações específicas, identificáveis, e não um fenômeno coletivo dentro de reuniões cristãs professas.

Há pelo menos três possibilidades que precisam ser consideradas biblicamente:

  1. Fenômenos meramente emocionais e humanos.
    O ser humano é profundamente influenciável pelo ambiente. Música repetitiva, sugestão psicológica, expectativa coletiva e liderança carismática podem produzir estados alterados de comportamento sem qualquer intervenção sobrenatural. Isso não é necessariamente demoníaco; pode ser simplesmente emocional e psicológico.

  2. Confusão entre emoção e ação do Espírito Santo.
    Em Atos dos Apóstolos 2, quando o Espírito Santo desceu, houve línguas reais compreendidas por pessoas de várias nações. Não houve desordem, nem gritaria descontrolada, nem perda de consciência. O resultado foi entendimento da Palavra e conversão de cerca de três mil almas (Atos 2:41). A marca foi clareza doutrinária e exaltação de Cristo.

  3. Casos pontuais de engano espiritual.
    A Escritura adverte que há espíritos enganadores (1 Timóteo 4:1) e que Satanás pode se transformar em anjo de luz (2 Coríntios 11:14). Portanto, não se pode excluir totalmente a possibilidade de engano espiritual em determinados contextos. Porém, isso deve ser afirmado com prudência e discernimento, não como regra geral para todos os casos.

O critério bíblico decisivo é este: qual é o resultado?
O Espírito Santo glorifica o Senhor Jesus (João 16:14), produz fruto moral (Gálatas 5:22-23) e conduz à verdade da Palavra (João 16:13). Se o fenômeno não conduz à compreensão das Escrituras, à santidade prática e à centralidade de Cristo, ele não corresponde ao padrão do Espírito de Deus.

É também importante lembrar que o zelo sem conhecimento pode levar tanto ao excesso quanto ao desprezo indevido (Romanos 10:2). O crente é chamado a “provar os espíritos” (1 João 4:1), mas também a julgar com justiça (João 7:24).

Portanto, biblicamente falando, práticas de descontrole físico e vocalizações ininteligíveis não encontram base no modelo apostólico. Muitas delas podem ser explicadas como fenômenos humanos coletivos. Em alguns casos, pode haver engano espiritual. Mas afirmar de forma absoluta que todas são possessão demoníaca ultrapassa o que a Escritura autoriza declarar.

O caminho seguro é sempre este: voltar ao padrão claro das Escrituras, examinar tudo à luz da Palavra de Deus e manter o foco na pessoa e na obra do Senhor Jesus Cristo.

Josué Matos

Transformação Divina: Encontrando Paz, Propósito e Plenitude em Cristo ➖ 366 Mensagens Diárias da Sã Doutrina

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27 de Setembro

A Dispensação da Lei (1ª Parte – As revelações)
(Leituras: Êxodo 19:3-6; 24:4-7; 2 Reis 17:7-14, 18-20; Mateus 24:15-22)

Esta quinta dispensação, a da Lei, é extensa, abrangendo quase todo o Antigo Testamento e uma boa parte do Novo Testamento. A quarta dispensação começou com Deus chamando Abraão de Ur dos Caldeus para conduzi-lo à terra prometida. Agora, nesta quinta dispensação, começa de maneira semelhante, mas em uma escala muito maior. Nesta dispensação, Deus separa uma nação. Assim como tirou Abraão de Ur dos Caldeus, Ele separa a nação de Israel da terra do Egito. É a nação que Ele prometeu a Abraão. A promessa foi que, de Abraão, Ele faria uma grande nação. E essa nação nasceu no Egito e agora Deus dá início à quinta dispensação, tirando-os do Egito. Deus abre o mar Vermelho e conduz aquele povo pelo deserto até o monte Sinai, onde Ele se revela novamente a eles.

Pensando nas revelações dessa dispensação, vemos que são muitas, e não podemos entrar em todos os detalhes, mas podemos mencionar que Deus revelou primeiramente Sua vontade, Seus mandamentos para aquele povo. Mandamentos que governariam a vida deles como povo, como nação. Ele deu leis para o povo, e algumas dessas leis Deus mesmo escreveu com Seu próprio dedo em tábuas de pedra: os dez mandamentos. Além destes dez, Ele deu muitos outros mandamentos, que foram escritos no livro da lei. O livro foi escrito por Moisés e aspergido com sangue.

Além dessas leis civis e morais, Deus deu muitas instruções e ordenanças sobre a vida espiritual do povo. Ele ensinou sobre os sacrifícios, o sacerdócio e a maneira pela qual esse povo poderia chegar a Ele.

Na segunda dispensação, já observamos que o caminho de reconciliação era por meio do sacrifício, substituindo algo. Agora, nesta quinta dispensação, Deus entra em detalhes, especificando vários tipos de sacrifícios para diferentes fins. Ele também detalha o sacerdócio e os elementos relacionados a isso.

Além de todas essas leis, Deus revelou algo extremamente precioso: Sua vontade de habitar no meio do Seu povo. Em Êxodo 25, Ele diz que o povo deveria fazer um Tabernáculo para que Ele pudesse habitar no meio deles. Era uma casa simples, feita de tábuas e panos; por fora parecia simples, sem nada atraente na aparência externa. No entanto, se entrássemos lá, seríamos surpreendidos pela beleza interna. As tábuas eram cobertas de ouro puro, os móveis também eram cobertos de ouro. Ao olhar para cima, veríamos cortinas de lindas cores, adornadas com querubins. Por dentro, era rica e encantadora, mas por fora não tinha beleza alguma.

Naquela casa, Deus habitou no meio do Seu povo peregrino. No entanto, Ele mandou cercá-la com uma cerca alta, para que o povo entendesse: "Deus habita ali, mas nós não podemos chegar perto, precisamos manter distância." Havia uma entrada, e apenas uma. O povo estava lá fora, mas havia uma forma de entrar, uma maneira de chegar até Deus. Ao entrar, a primeira coisa que se via era um altar de bronze, onde os sacrifícios eram oferecidos. Para chegar à casa de Deus, era necessário passar pelo altar de sacrifício. Além disso, havia uma pia de água para purificação. Portanto, o povo podia entender que é possível chegar a Deus, mas não de qualquer maneira e nem para todos.

O povo em geral não podia chegar perto, mas os levitas podiam chegar até o pátio, embora não pudessem ir além disso. Os sacerdotes podiam entrar no lugar santo, mas também não podiam ir mais além. Somente uma pessoa, o sumo sacerdote, podia entrar no lugar santíssimo, uma vez por ano. Não era para qualquer um, nem por qualquer meio que se podia chegar a Deus. Ele estava ali, mas havia condições rigorosas para se aproximar d'Ele.

Deus estava revelando que, embora Ele quisesse habitar no meio do Seu povo, exigia santidade na Sua casa. E, em nossos dias, devemos lembrar que Deus também tem uma casa. Já sabemos que Ele não habita em casas feitas por mãos de homens. Hebreus 13 diz que a casa de Deus somos nós, os salvos desta dispensação da graça. Em 1 Timóteo 3:16, nos é ensinado que a igreja local é a casa de Deus. O Senhor Jesus disse que onde estivessem dois ou três reunidos em Seu nome, Ele estaria no meio deles (Mateus 18:20). Porém, ainda hoje, a santidade é necessária na casa do Senhor. Se o Deus Santo habita entre nós, Ele exige santidade em nossas vidas. Não podemos nos aproximar de Deus de qualquer maneira; deve haver reverência, temor e santidade, condizentes com Sua Pessoa. 

28 de Setembro

A Dispensação da Lei (2ª Parte – A Responsabilidade)

Quando Deus os tirou da terra do Egito e os levou ao monte Sinai para dar estas revelações, após ouvirem tudo, disseram a Deus: “Tudo o que o Senhor mandar, faremos!” (Êxodo 19). Assumiram essa responsabilidade.

Quando Deus deu aquela lei no capítulo 20 e aquelas palavras foram escritas, não apenas em tábuas de pedra, mas também no resto em livros, e o povo ouviu a leitura dessas palavras, tornaram a dizer: “Tudo o que o Senhor mandou, faremos!” E, após a leitura, repetiram pela terceira vez: “Tudo o que o Senhor falou, faremos e obedeceremos!”.

E realmente, era isso que Deus queria deles: obediência total. O Senhor disse: “Se ouvirdes a minha voz e fizerdes diligentemente o que eu mando, sereis, para mim, a minha propriedade peculiar.” Entre todos os povos, vocês terão um lugar especial. Um lugar de intimidade, disse Deus, perto de mim! “Diligentemente ouvirem a minha voz e obedecerem ao que vos mando.”

A responsabilidade daquele povo era obedecer às ordens do Senhor.

Em todas as dispensações, o povo tem o dever de obedecer a Deus. Porém, nesta dispensação, que era da lei, eles assumiram perante Deus aquele dever. Logo no início, na primeira dispensação, Deus deu uma lei para Adão e Eva: “Não comerás”, e eles quebraram aquela lei. Na segunda dispensação, Deus os deixou sem lei, ficando à luz da consciência que adquiriram, mas desobedeceram e contaminaram sua consciência. Na terceira dispensação, Deus estabeleceu um governo humano, dando ao homem o direito de decretar as leis e governar para Deus, mas os homens corromperam o governo, abusaram de sua autoridade e desrespeitaram as leis. Tudo fracassou!

Agora temos algo diferente na quinta dispensação, porque Deus estabelece a Sua lei e coloca homens em autoridade, como Moisés. Mas a lei vem de Deus. E os homens assumem a responsabilidade de obedecer, fazendo tudo o que Deus manda. Um grande privilégio na dispensação da lei: receber tantas revelações; uma grande responsabilidade: obedecer ao que Deus mandou.

Mas é bom observar nesta dispensação o relacionamento entre Deus e aquele povo. Ele não fez aquela aliança com todo o mundo; Ele escolheu aquela nação e fez aliança com ela. E Ele disse (Êxodo 19): “Se diligentemente ouvirdes a minha voz e obedecerdes, sereis minha propriedade peculiar.” E ainda mais, Ele disse: “Sereis, para mim, um reino sacerdotal.” Seriam um povo santo, separado para Deus. Mas com esta finalidade: ser um reino sacerdotal.

Nisso vemos o plano de Deus para esta dispensação. Para que Deus separou uma nação? Para que aquela nação fosse uma nação sacerdotal. O que quer dizer isso? Qual a função de um sacerdote? Resumindo em poucas palavras: a função do sacerdote é dupla: ele tem uma função para com o povo e uma função para com Deus.

Diante do povo, ele deve representar a Deus, trazendo a lei de Deus, a Palavra de Deus, e reproduzindo Deus ao povo. Perante Deus, ele representa o povo, orando e intercedendo por eles. Um reino sacerdotal!

Era isso que Deus queria: que aquele povo, no meio do qual Ele mesmo habitaria, fosse um reino de sacerdotes. Estando na presença de Deus, ouviriam a Sua voz e levariam esta mensagem às nações, disseminando a verdade nos quatro cantos da terra. Estando perto de Deus, aquele povo chegaria à Sua presença, intercedendo pelas massas da humanidade lá fora. Seriam o representante de Deus no mundo e o representante do mundo perante Deus. Era um plano maravilhoso da parte de Deus para esta nação: um reino sacerdotal. O fracasso entrou logo, e Deus modificou isso, escolhendo uma família de sacerdotes. Mas o plano era esse: que toda a nação fosse um reino sacerdotal.

29 de Setembro

A Dispensação da Lei (3ª Parte – O Fracasso)

Em 2 Reis 17, vemos que aquele povo, que deveria ser um reino sacerdotal, representando Deus e intercedendo pelo povo, se entregou à idolatria. Você consegue entender o tamanho desse fracasso? Um povo escolhido por Deus para ser o Seu representante, e eles abandonam a Deus, adorando as imagens das nações. Seus pais haviam feito isso no Egito, e o seu antepassado Abraão havia feito isso em Ur dos Caldeus. Mas eles foram tirados de tudo isso. O Deus vivo manifestou o Seu poder a eles e neles. Josué os exortou a que deveriam servir ao Deus vivo, e ele até lhes deu a escolha: “Resolvam se vão servir os deuses que os seus antepassados adoravam na terra da Mesopotâmia ou os deuses dos amorreus, na terra de quem vocês estão morando agora. Porém, eu e a minha família serviremos a Deus, o Senhor.” O povo respondeu: “Nunca poderíamos pensar em abandonar o Senhor para servir outros deuses! Foi o Senhor, nosso Deus, quem nos tirou, a nós e aos nossos pais, da escravidão na terra do Egito. E vimos as grandes coisas que Ele fez. Ele nos guardou pelos caminhos por onde andamos e no meio dos países por onde passamos” (Josué 24:15-17).

Então, Josué lhes mostrou as consequências por estarem escolhendo servir ao Senhor, dizendo: “Vocês não podem, porque Deus exige santidade; Ele exige obediência.” E aquele povo reafirmou: “Nós serviremos ao Senhor, estamos dispostos a isso.” Porém, em 2 Reis 17, vemos que eles se entregaram à idolatria, divididos em duas nações: a casa de Israel e a casa de Judá. A casa de Israel se entregou à idolatria devido à mistura com as nações. Mistura em casamentos, jugo desigual; misturas em festas pagãs e imorais. E o resultado foi que aquelas dez tribos do norte de Israel foram entregues ao rei da Assíria, removidos da sua terra pelo juízo de Deus.

Judá ficou, mas também não se manteve fiel. Se Israel imitou as nações, Judá imitou Israel. O mesmo que fizeram os israelitas imitando os egípcios na terra do Egito, agora Judá imitou as dez tribos do norte, chamadas de Israel. Portanto, Judá também foi entregue por Deus ao cativeiro, sendo levado para Babilônia, não sobrando nada. Isso foi o fracasso total daquele reino sacerdotal que Deus havia planejado para toda a nação de Israel.

Depois de muitos anos na Babilônia, Deus, pela Sua graça, cumprindo a Sua promessa e sendo fiel, trouxe um remanescente de volta para a terra prometida. Deus os trouxe em fraqueza para continuarem naquela terra, mas com a presença e bênção de Deus com eles. Lamentavelmente, também falharam. Quando o próprio Filho de Deus apareceu no meio deles, o entregaram para Pilatos, o gentil, clamando em alta voz: “Fora daqui com este, não queremos que Ele reine sobre nós; crucifique-o, crucifique-o!”

30 de Setembro

A Dispensação da Lei (4ª Parte – O Reino Sacerdotal)

Aqueles que Deus havia planejado para ser um reino sacerdotal, ao contemplarem o próprio Filho de Deus em seu meio, não puderam suportá-lo e clamaram: “Fora com este, crucifica-o!”. Aquele “reino sacerdotal” foi espalhado entre as nações e continua espalhado até hoje.

Um pequeno remanescente tem voltado, em cegueira espiritual e na incredulidade. Alguns deles estão morando em uma parte daquela terra, porém a nação continua espalhada entre as nações gentílicas, oprimidos. Portanto, esta dispensação ainda não terminou; algo inédito aconteceu nas dispensações, pois Deus interrompeu aquela dispensação, a da Lei, na morte de Cristo. Aquele “reino sacerdotal” foi espalhado no ano 70 d.C. e até hoje está debaixo do juízo de Deus. Deus está fazendo algo diferente em nossos dias; vivemos em um intervalo no qual Deus trabalha pela Igreja no mundo. Porém, a qualquer dia destes, seremos arrebatados pelo Senhor Jesus, sendo levados à glória do céu, e então começará novamente a mesma dispensação da Lei. Restam ainda sete anos daquela dispensação. Sete anos que começarão a contar logo após o nosso arrebatamento.

Naqueles sete anos, aquele reino sacerdotal sentirá o peso da vara do Senhor. Já fracassou, já sofreu muito, mas o que vai sofrer nesses sete anos que vêm, só Deus sabe compreender. Lendo Mateus 24, que se refere àqueles dias, percebemos que serão dias de tribulação como nunca houve desde o começo do mundo, nem jamais haverá outros dias semelhantes.
O profeta Jeremias descreveu aquele tempo como “o tempo da angústia de Jacó”. Será o juízo de Deus sobre o reino sacerdotal que fracassou.

A dispensação da Lei é uma dispensação extensa, na qual Deus deu uma revelação muito grande do Seu propósito, completando o que Ele vinha revelando desde a primeira dispensação. Preparando tudo para este tempo presente em que estamos vivendo.

Lemos em Gálatas 3 que aquela lei foi dada até que viesse o Cristo. Tudo apontava para Ele: o Tabernáculo é uma figura de Cristo, como também é uma figura da igreja local da nossa dispensação. Os sacrifícios no Tabernáculo falavam de Cristo e são figuras sobre o caminho, o plano de salvação. Na realidade, desde a primeira até a quinta dispensação, todas apontam para Cristo. E agora, há quase dois mil anos, essa quinta dispensação foi interrompida e Deus começou a sexta dispensação, na qual nós vivemos. Paulo disse aos Coríntios: “Os fins dos séculos já chegaram sobre nós” (1 Coríntios 10:11).


Em que consiste o propósito eterno pelo qual Deus nos chamou?

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Irmão, ainda outra pergunta: em que consiste o propósito eterno pelo qual Deus nos chamou? Como saber o propósito Dele para minha vida? Já não sou jovem, contando já 52 anos, e creio que saber este propósito para mim é uma questão mais que necessária. Obrigado desde já, irmão Josué.

Minha Resposta:

A sua pergunta é profunda e extremamente necessária. Muitos passam a vida inteira ocupados com atividades religiosas, familiares e profissionais, mas nunca param para perguntar: qual é o propósito eterno de Deus ao me chamar? E como discernir esse propósito na minha própria vida?

  1. O que é o propósito eterno de Deus?

A expressão “propósito eterno” aparece claramente em Efésios 3:11: “Segundo o eterno propósito que fez em Cristo Jesus nosso Senhor.” Aqui o apóstolo Paulo não fala de um plano improvisado, nem de algo que Deus decidiu após a queda do homem. Trata-se de um desígnio que estava no coração de Deus antes da fundação do mundo.

Esse propósito não é centrado primeiramente no homem, mas em Cristo.

Efésios 1:9-10 declara que Deus “nos fez conhecer o mistério da sua vontade… de tornar a congregar em Cristo todas as coisas.” O centro do propósito eterno é exaltar o Senhor Jesus Cristo como Cabeça sobre todas as coisas e formar um povo unido a Ele.

Ainda em Efésios 1:4-5 lemos que fomos escolhidos “para sermos santos e irrepreensíveis diante dele em amor” e “predestinados para filhos de adoção”. Portanto, o propósito eterno envolve:

  • A glorificação de Cristo

  • A formação da Igreja como Seu Corpo

  • A conformidade dos crentes à imagem do Filho

Romanos 8:29 confirma: “Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho.”

O propósito eterno, então, não é meramente que sejamos salvos, mas que sejamos transformados para refletir Cristo.

  1. O propósito eterno é coletivo antes de ser individual

Muitos procuram “qual é o propósito de Deus para minha vida” pensando em termos de profissão, lugar, atividade específica. Mas a Escritura começa em outro ponto: Deus nos chamou para fazer parte de algo maior do que nós.

Efésios 2:19-22 mostra que somos edificados como casa espiritual. Efésios 4:12-13 fala do crescimento do Corpo até “à medida da estatura completa de Cristo”.

O propósito eterno envolve a Igreja como testemunho da sabedoria de Deus, conforme Efésios 3:10. Ou seja, Deus quer mostrar, por meio de um povo redimido e transformado, quem Ele é.

Portanto, antes de perguntar “qual é meu propósito pessoal?”, devemos entender: faço parte de um propósito eterno que gira em torno de Cristo e da Sua Igreja.

  1. E quanto ao propósito pessoal?

Aos 52 anos, o irmão talvez pense: já passou muito tempo; ainda há propósito para mim? A resposta bíblica é clara: sim.

O chamado de Deus não tem prazo de validade. Moisés começou sua missão aos 80 anos (Êxodo 7:7). Calebe, aos 85, ainda dizia: “ainda hoje estou tão forte como no dia em que Moisés me enviou” (Josué 14:11).

O propósito de Deus para cada crente inclui:

a) Santificação contínua
1 Tessalonicenses 4:3: “Porque esta é a vontade de Deus, a vossa santificação.”

b) Crescimento no conhecimento de Cristo
Filipenses 3:10 mostra o desejo de Paulo de conhecer mais a Cristo, mesmo já sendo apóstolo maduro.

c) Serviço segundo os dons recebidos
1 Pedro 4:10 ensina que cada um recebeu um dom para servir. O propósito pessoal está ligado ao uso fiel daquilo que Deus confiou.

d) Testemunho fiel até o fim
2 Timóteo 4:7 mostra que terminar bem faz parte do propósito.

  1. Como saber o propósito de Deus para minha vida?

Alguns princípios bíblicos ajudam:

Primeiro: comece pelo que já está revelado.
Deus não esconde Sua vontade moral. Ele quer que vivamos em obediência à Palavra. Salmo 119:105 diz que a Palavra é lâmpada para os pés. O propósito pessoal nunca contradiz a Escritura.

Segundo: busque comunhão com Cristo, não apenas direção.
Muitos querem saber “o que fazer”, mas o principal é “estar com Ele”. João 15:5 ensina que o fruto vem da permanência na videira.

Terceiro: reconheça os dons e oportunidades que Deus já lhe deu.
Romanos 12:6-8 mostra diferentes funções no Corpo. O propósito não é imitar outro, mas ser fiel no que nos foi confiado.

Quarto: entenda que o propósito se desenvolve no caminho da obediência.
Provérbios 3:5-6 ensina que, ao confiar no Senhor e reconhecê-Lo, Ele endireita as veredas. A direção muitas vezes vem enquanto caminhamos.

  1. Uma perspectiva consoladora

Talvez o irmão pense que poderia ter feito mais ou escolhido melhor no passado. Mas Romanos 8:28 afirma que “todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus”. O propósito eterno não é frustrado pelos nossos erros quando há arrependimento e submissão.

Deus não chama apenas jovens. Ele chama servos. E enquanto houver fôlego, há utilidade no Reino.

O propósito eterno é que Cristo seja formado em nós (Gálatas 4:19) e manifestado através de nós. Isso pode acontecer aos 20, 52 ou 80 anos.

Portanto, meu irmão, não busque um “grande plano extraordinário” escondido em algum lugar. Busque a Cristo. Viva para Ele. Sirva onde Ele o colocou. Cresça na Palavra. E confie que o Deus que começou a boa obra a aperfeiçoará até o dia de Jesus Cristo (Filipenses 1:6).

Que o Senhor lhe dê paz e clareza enquanto caminha nesse propósito eterno que jamais falha.

Josué Matos

Biblicamente, em que consiste o arrependimento?

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Irmão, biblicamente, em que consiste o arrependimento? Visto que o mesmo faz parte da ação em resposta à mensagem do Evangelho, este arrependimento se mostra real de que forma? Quais são as características de um arrependimento real, já que hoje em dia este ponto no meio das denominações não é abordado, e, quando é, tal apresentação está repleta de equívocos e legalismo destruidores.

Minha Resposta:

A sua pergunta é de extrema importância, porque o arrependimento é parte essencial da resposta do homem ao Evangelho, e, ao mesmo tempo, é um dos temas mais distorcidos na atualidade. É necessário voltar às Escrituras para compreender o que ele é — e o que ele não é.

  1. O que é arrependimento biblicamente

No Novo Testamento, a palavra grega usada é metanoia, que significa literalmente “mudança de mente”. Porém, essa mudança de mente não é apenas intelectual; é uma mudança profunda de pensamento, juízo e disposição diante de Deus.

Em Atos dos Apóstolos 17:30 lemos que Deus “manda a todos os homens, em todo o lugar, que se arrependam”. Arrependimento, portanto, é uma ordem divina. Não é uma sugestão emocional, nem uma experiência mística, nem uma prática religiosa. É uma mudança interior produzida quando a luz de Deus alcança a consciência.

Arrepender-se é:

– mudar de pensamento sobre Deus (reconhecendo Sua santidade),
– mudar de pensamento sobre si mesmo (reconhecendo-se pecador),
– mudar de pensamento sobre o pecado (vendo-o como ofensa contra Deus),
– mudar de pensamento sobre Cristo (reconhecendo-O como único Salvador).

Não é simplesmente “sentir tristeza”. Em 2 Coríntios 7:10, o apóstolo Paulo distingue claramente: “a tristeza segundo Deus opera arrependimento para a salvação”. A tristeza não é o arrependimento; ela pode conduzir a ele.

  1. O arrependimento faz parte da resposta ao Evangelho

O Evangelho chama o homem ao arrependimento e à fé. O próprio Senhor Jesus começou Seu ministério dizendo: “Arrependei-vos e crede no Evangelho” (Marcos 1:15). Em Atos dos Apóstolos 20:21, Paulo resume sua mensagem como “arrependimento para com Deus e fé em nosso Senhor Jesus Cristo”.

Observe a ordem: arrependimento para com Deus e fé em Cristo. O arrependimento nos volta para Deus; a fé nos lança sobre Cristo.

Arrependimento e fé não são duas experiências separadas no tempo, mas dois aspectos inseparáveis da mesma resposta. Quando alguém crê verdadeiramente em Cristo, já houve uma mudança interior de juízo acerca do pecado e de si mesmo.

  1. Como o arrependimento real se manifesta

Aqui é importante evitar dois extremos:

– O legalismo, que transforma arrependimento em uma lista de obras externas.
– O falso evangelho moderno, que elimina completamente o arrependimento.

O arrependimento real se manifesta de forma concreta, mas não como meio de salvação — e sim como fruto.

Em Atos dos Apóstolos 26:20, Paulo fala de “obras dignas de arrependimento”. As obras não produzem o arrependimento; elas o evidenciam.

Algumas características de um arrependimento verdadeiro:

a) Convicção de pecado

A pessoa não apenas admite erros sociais ou falhas humanas, mas reconhece que pecou contra Deus. Como Davi em Salmos 51:4: “Contra ti, contra ti somente pequei”.

b) Abandono do pecado como prática dominante

Não significa perfeição imediata, mas ruptura com a antiga direção de vida. O pecado já não é defendido, justificado ou amado como antes.

c) Humildade diante de Deus

O orgulho é quebrado. Há submissão à Palavra. Não há tentativa de negociar com Deus, mas dependência da graça.

d) Nova atitude para com Cristo

Antes havia indiferença ou incredulidade; agora há confiança e entrega.

  1. O que o arrependimento não é

É fundamental esclarecer também o que ele não é:

– Não é reformar a vida antes de vir a Cristo.
– Não é prometer nunca mais pecar.
– Não é pagar penitência.
– Não é praticar atos religiosos para compensar falhas.

O arrependimento não é autojustificação moral; é rendição.

Quando o filho pródigo “caiu em si” (Lucas 15:17), ele reconheceu sua condição e voltou ao pai. Ele não voltou com méritos, mas com confissão. Isso é arrependimento.

  1. Arrependimento e novo nascimento

A Escritura mostra que o novo nascimento ocorre quando o pecador, iluminado pela Palavra, crê. A Palavra produz fé (Romanos 10:17), e o Espírito Santo opera vida nova naquele que crê. O arrependimento faz parte dessa obra interior que prepara o coração para confiar exclusivamente em Cristo.

Não é o arrependimento que salva. Quem salva é Cristo. Mas ninguém crê verdadeiramente sem que haja essa mudança interior de juízo diante de Deus.

  1. Por que hoje há tanta confusão

Em muitos ambientes denominacionais:

– Ou o arrependimento foi reduzido a uma emoção momentânea,
– Ou foi transformado em legalismo e exigência de reforma prévia,
– Ou foi praticamente eliminado para tornar o evangelho “mais aceitável”.

Mas o Evangelho bíblico confronta o pecador. Ele revela a condição real do homem, aponta para a cruz e chama à rendição.

Quando o arrependimento é real, ele não produz desespero legalista, mas conduz à paz, porque leva o pecador a abandonar qualquer esperança em si mesmo e a descansar unicamente na obra consumada do Senhor Jesus Cristo.

Em resumo:

Arrependimento bíblico é uma mudança interior de mente e coração diante de Deus, produzida pela Palavra e pelo Espírito, que conduz o pecador a reconhecer sua culpa, abandonar sua autossuficiência e confiar exclusivamente em Cristo. Sua realidade se manifesta não por formalismo religioso, mas por uma nova direção de vida e submissão a Deus.

Que o Senhor nos preserve tanto do legalismo destruidor quanto do evangelho superficial.

Josué Matos