Alguém que me escreveu no WhatsApp:
Olá irmão, estou lendo o Evangelho de Marcos e sempre tive dúvida sobre a questão de expulsar demônios. Na sinopse de Darby ele dá a entender que esse é um direito do crente. É isso mesmo?
Minha Resposta:
A sua pergunta é muito importante, porque hoje existe muita confusão sobre esse assunto, e é necessário olhar para toda a Palavra de Deus, e não apenas para uma impressão isolada.
A questão não é simplesmente se “o crente pode expulsar demônios”, mas sim: em que contexto bíblico isso aconteceu, a quem foi dado esse poder, e se isso é normativo para a Igreja hoje.
Vamos organizar a resposta de forma clara e bíblica.
O QUE ACONTECEU NOS EVANGELHOS
No Evangelho de Marcos, vemos claramente que o Senhor Jesus deu autoridade específica aos seus discípulos:
Marcos 3:14-15
“E nomeou doze para que estivessem com ele e os enviasse a pregar, e para que tivessem autoridade para expulsar os demônios.”
Também em Marcos 6:7, o Senhor envia os doze e lhes dá poder sobre os espíritos imundos.
Isso mostra que:
Não era algo geral para todos os crentes
Era uma autoridade concedida diretamente pelo Senhor
Estava ligada ao testemunho do reino
O mesmo ocorre com os setenta em Lucas 10:17:
“Senhor, até os demônios se nos submetem pelo teu nome.”
Mas note: isso fazia parte de um período específico — o testemunho do reino de Deus em Israel.
O QUE ACONTECEU EM ATOS
No livro de Atos, vemos expulsões de demônios, mas sempre ligadas a homens com autoridade apostólica ou delegada:
Atos 5:16 — os apóstolos
Atos 8:7 — Filipe
Atos 16:18 — Paulo
Ou seja:
Não era algo praticado por todos os crentes
Estava ligado ao poder apostólico
Confirmava a mensagem do evangelho naquele início da Igreja
Isso está em harmonia com o caráter único daquele período, onde sinais acompanhavam os apóstolos para autenticar a mensagem.
NÃO É UM DIREITO UNIVERSAL DO CRENTE
Aqui está o ponto central da sua pergunta:
A Bíblia nunca ensina que expulsar demônios é um direito de todo crente.
Pelo contrário, há até um aviso sério:
Atos 19:13-16
Os filhos de Ceva tentaram expulsar demônios e foram atacados.
Isso mostra que:
Não é algo que se faz simplesmente por fórmula
Não é uma prática generalizada
Não é uma “autoridade automática” de qualquer crente
A POSIÇÃO DO CRENTE HOJE
No ensino das epístolas — que são a doutrina para a Igreja — não há mandamento para expulsar demônios.
O que encontramos é:
Tiago 4:7
“Sujeitai-vos, pois, a Deus; resisti ao diabo, e ele fugirá de vós.”
Efésios 6:11
“Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para poderdes ficar firmes contra as astutas ciladas do diabo.”
Ou seja:
O crente resiste, não expulsa
A luta é espiritual, não de confrontação direta
A vitória está na posição em Cristo
A própria doutrina mostra que o foco não é “expulsar demônios”, mas:
Viver em santidade
Permanecer na Palavra
Andar no Espírito
O PERIGO DA INTERPRETAÇÃO ERRADA
Muitos hoje pegam textos dos Evangelhos ou de Atos e aplicam diretamente à Igreja, sem considerar o contexto.
Mas isso gera confusão, porque:
Mistura o período do reino com a Igreja
Transforma sinais apostólicos em prática comum
Cria experiências que a Bíblia não ensina como norma
Os próprios escritos mostram que nem tudo o que aconteceu é para ser reproduzido hoje, pois havia um propósito específico naquele tempo .
CONCLUSÃO
Então, respondendo diretamente:
Não, expulsar demônios não é um direito de todo crente.
Foi:
Um poder dado especificamente aos apóstolos e a alguns servos no início
Um sinal que acompanhava a confirmação da mensagem
Hoje, o crente:
Resiste ao diabo
Vive em dependência de Deus
Está seguro em Cristo
Colossenses 2:15
“E, despojando os principados e potestades, os expôs publicamente e deles triunfou em si mesmo.”
A vitória já foi conquistada pelo Senhor Jesus. O crente não precisa viver “expulsando demônios”, mas permanecendo n’Ele.
--------------------------
Esta pessoa enviou outa questão:
Mas e quando vemos pessoas na nossa família claramente dominadas por algum demônio ou espírito maligno, não podemos fazer nada então?
Minha Resposta:
A sua pergunta é muito prática, e mostra cuidado com a família — isso é algo correto diante de Deus. Mas precisamos responder com equilíbrio bíblico, para não cair nem na passividade, nem em práticas que a Palavra de Deus não autoriza.
A questão não é “não fazer nada”, mas sim fazer aquilo que Deus realmente nos mandou fazer.
PRIMEIRO: NEM TODO COMPORTAMENTO É POSSESSÃO DEMONÍACA
É importante ter cuidado aqui.
Na Palavra de Deus, vemos possessões reais (por exemplo, em Marcos 5), mas também vemos:
Pecado da carne (Gálatas 5:19-21)
Engano do coração (Jeremias 17:9)
Influência do mundo (1 João 2:16)
Nem todo comportamento difícil, vício, agressividade ou descontrole é possessão.
Se errarmos aqui, podemos:
Tratar pecado como demônio
Ou ignorar a responsabilidade pessoal
O QUE O CRENTE PODE E DEVE FAZER
A Bíblia não manda o crente sair “expulsando demônios”, mas mostra claramente o que devemos fazer diante do mal espiritual.
a) ORAR
Marcos 9:29
“Esta casta não pode sair com coisa alguma, a não ser com oração.”
Mesmo nesse contexto apostólico, o princípio permanece: dependência de Deus.
Por alguém da família, devemos:
Interceder constantemente
Clamar pela libertação
Pedir que Deus opere
b) ANUNCIAR O EVANGELHO
A verdadeira libertação vem pela verdade:
João 8:32
“E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.”
Se há influência maligna, a solução não é confronto direto com demônios, mas:
Levar a pessoa a Cristo
Apresentar o evangelho
Conduzir ao arrependimento e fé
Porque quando uma pessoa crê:
Ela é libertada do domínio das trevas
Colossenses 1:13
“O qual nos tirou da potestade das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor.”
c) VIVER UM TESTEMUNHO REAL
1 Pedro 3:1 mostra que até sem palavras alguém pode ser ganho pelo comportamento.
Em casa, isso é essencial:
Vida santa
Paciência
Amor verdadeiro
Isso tem impacto espiritual real.
O QUE NÃO NOS FOI MANDADO FAZER
Em nenhuma epístola encontramos instrução para:
Mandar demônios sair de pessoas
Fazer confrontos diretos com espíritos malignos
“Repreender demônios” em outros
Nem mesmo Miguel ousou agir dessa forma diretamente:
Judas 1:9
“Mas o arcanjo Miguel... não ousou pronunciar juízo de maldição contra ele, mas disse: O Senhor te repreenda.”
Isso é muito sério.
Se até Miguel não tomou essa atitude por si mesmo, quanto mais nós devemos agir com cuidado.
A REAL BATALHA ESPIRITUAL
Efésios 6:12
“Porque não temos que lutar contra carne e sangue, mas sim contra os principados...”
Mas note:
A armadura é para permanecer firme
Não para sair confrontando demônios em pessoas
Efésios 6:13
“...para que possais resistir no dia mau...”
Ou seja:
Resistir
Permanecer
Não atacar diretamente
ENTÃO, O QUE FAZER NA PRÁTICA?
Se você vê alguém da família em situação preocupante:
Ore continuamente por essa pessoa
Fale do evangelho com sabedoria
Evite confrontos espirituais diretos
Viva um testemunho consistente
Confie que Deus pode libertar
E lembre-se:
2 Coríntios 10:4
“Porque as armas da nossa milícia não são carnais, mas poderosas em Deus para destruição das fortalezas.”
As fortalezas são derrubadas:
Pela Palavra
Pela verdade
Pela ação de Deus
CONCLUSÃO
Você pode fazer muito — mas da forma correta.
Não é passividade, é dependência de Deus.
A libertação verdadeira não vem de confrontar demônios, mas de conduzir a pessoa ao Senhor Jesus, pois só Ele tem autoridade absoluta sobre todo o poder das trevas.