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Como haverá um tribunal para receber a sentença como incrédulo se a decisão vem de Deus segundo os calvinistas?

 Alguém que me escreveu no YouTube:

Os calvinistas se baseiam em Romanos 8 e 9, e lendo denota que Deus decide quem será salvo, só que também a Bíblia diz que é da vontade de Deus que todos se salvem e que Deus não tem prazer na morte do ímpio… Como haverá um tribunal para receber a sentença como incrédulo se a decisão vem de Deus segundo os calvinistas? Não faz sentido comparecer a um tribunal para se fazer justiça. Predestinado não seria aquele que não endureceu o seu coração, recebendo a Cristo e esperando ir para sua pátria enquanto vive nesse mundo?

Minha Resposta:

A sua pergunta é muito importante, e precisa ser respondida juntando tudo o que a Escritura diz, e não apenas um lado do assunto.

Em primeiro lugar, a Bíblia realmente ensina a eleição de Deus. Não adianta negar isso. Efésios 1:4 diz: “Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo”. Portanto, Deus escolheu, sim, pessoas para a salvação. Isso é verdade bíblica. Mas a mesma Bíblia não ensina que Deus escolheu pessoas para a perdição no mesmo sentido em que escolheu pessoas para a salvação. A Escritura fala claramente da eleição para a salvação, mas não apresenta uma eleição positiva e amorosa para condenar inocentes. A condenação recai sobre pecadores culpados, incrédulos e rebeldes.

Aqui é importante distinguir eleição de predestinação.

Eleição é a escolha divina das pessoas em Cristo. Efésios 1:4 mostra que Deus escolheu os Seus antes da fundação do mundo. Essa escolha não se baseia em mérito humano, obras, esforço próprio ou dignidade encontrada no homem. É da graça de Deus.

Predestinação, por sua vez, trata do destino que Deus determinou para os eleitos. Efésios 1:5 diz que fomos predestinados para filhos de adoção por Jesus Cristo. Efésios 1:11 fala da herança. Romanos 8:29 diz que os que Deus conheceu de antemão, a esses também predestinou para serem conformes à imagem de Seu Filho. Então, a eleição aponta para as pessoas escolhidas; a predestinação aponta para o fim glorioso que Deus já determinou para essas pessoas: adoção, herança, conformidade com Cristo e glorificação.

Portanto, não é correto misturar as duas coisas como se fossem exatamente iguais. Deus elege os Seus para a salvação, e predestina os salvos para um destino glorioso em Cristo.

Mas então vem a outra parte da pergunta: se Deus elege, onde entra a responsabilidade humana?

Entra plenamente. A Bíblia mantém as duas verdades juntas. De um lado, Deus é soberano. De outro, o homem é responsável. A mesma Escritura que fala da eleição também diz que Deus “quer que todos os homens se salvem” e que Ele “não tem prazer na morte do ímpio”. Ela também mostra que o homem é chamado a arrepender-se, a crer, a não endurecer o coração. Logo, o evangelho não é uma encenação. O convite é real. A culpa do homem é real. A incredulidade é real. A responsabilidade é real.

Por isso haverá tribunal.

Haverá tribunal porque ninguém será condenado por faltar eleição, mas por seus pecados, por sua incredulidade, por sua rejeição da luz recebida, por endurecer o coração contra Deus. O juízo não será uma formalidade vazia. Será a manifestação pública da justiça divina sobre quem desprezou a verdade. O incrédulo não comparecerá diante de Deus para ouvir que foi condenado porque lhe faltou uma escolha secreta. Comparecerá porque pecou, rejeitou a verdade, amou mais as trevas do que a luz, não quis vir a Cristo para ter vida.

Romanos 9 precisa ser lido com cuidado. Esse capítulo ensina a soberania de Deus, sim. Mostra que Deus tem direito de agir com misericórdia e que ninguém pode exigir salvação como um direito. Mas o mesmo contexto mostra também a responsabilidade humana. No fim do capítulo, Paulo explica que Israel não alcançou a justiça porque não foi pela fé. Isso é decisivo. A ruína deles não foi por falta de responsabilidade, mas por incredulidade. Eles tropeçaram na pedra de tropeço porque não creram.

Então, quando Romanos 9 fala de Faraó e do endurecimento, não está dizendo que Deus cria um homem inocente para depois condená-lo sem causa. Faraó já era um pecador rebelde. Deus o endureceu judicialmente. Há diferença entre escolher graciosamente alguns para a salvação e endurecer judicialmente quem já resiste à verdade. Deus escolhe para salvar; o homem endurece seu coração e se faz digno de condenação. O endurecimento divino é juízo, não injustiça.

Assim, a resposta bíblica precisa ficar equilibrada:

Deus escolheu, sim, pessoas para a salvação.

Deus predestinou essas pessoas para um fim glorioso: adoção, herança, conformidade com Cristo e glorificação.

Mas a Bíblia não ensina que Deus escolheu pessoas para a perdição da mesma forma.

A perdição está ligada ao pecado, à incredulidade e à rejeição voluntária da verdade.

Por isso o tribunal faz todo sentido. Deus será justo ao julgar, porque o homem é responsável.

Quanto à sua última observação, ela precisa ser ajustada com cuidado. Não diríamos que alguém é predestinado porque não endureceu o coração. A ordem bíblica é outra. Não é a resposta humana que cria a eleição ou a predestinação. Antes, Deus elege e predestina segundo Sua graça. Mas, no tempo, isso se manifesta quando a pessoa recebe a Cristo, crê no evangelho, não endurece o coração e anda como peregrino rumo à pátria celestial. Em outras palavras, a fé não é a causa da eleição, mas a evidência viva de que a graça de Deus operou naquele coração.

Então, resumindo tudo em uma frase: Deus elege para a salvação; predestina os eleitos para a glória; não elege ninguém para o inferno; e julga justamente os incrédulos por seus pecados e por sua rejeição consciente da verdade.

Talvez, para nossa mente, seja difícil conciliar estas duas linhas: eleição de Deus e a responsabilidade humana, mas não para Deus. A Bíblia não pede para entender, mas para crer.

Josué Matos