Alguém que me escreveu no WhatsApp:
Graça e paz, Josué!
Tenho uma pergunta:
Após o Milênio, no estado eterno, os judeus serão transportados, diferentemente da Igreja, que será transformada?
É por isso que os judeus precisarão das folhas das árvores para curar seus corpos?
A Igreja será transformada porque, no Céu, um corpo corruptível não pode entrar, sendo necessária a transformação.
Já os judeus serão transportados porque, na nova Terra, o corpo poderá entrar ainda corruptível, precisando das folhas das árvores para curá-lo.
É isso mesmo?
Minha Resposta:
Sua pergunta é muito interessante, pois envolve uma distinção importante entre Israel, a Igreja, o Reino Milenar e o estado eterno. Entretanto, precisamos fazer alguns ajustes nesse entendimento, especialmente quanto à ideia de que os judeus entrarão na nova Terra com corpos corruptíveis e precisarão das folhas da árvore da vida para serem curados.
Vamos examinar o assunto à luz das Escrituras.
1. A transformação da Igreja
Primeiramente, a Palavra de Deus ensina claramente que todos os salvos que pertencem à Igreja, o Corpo de Cristo, terão corpos glorificados.
Em 1 Coríntios 15:51-53, Paulo escreve:
"Eis aqui vos digo um mistério: Na verdade, nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados; num momento, num abrir e fechar de olhos, ante a última trombeta; porque a trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados. Porque convém que isto que é corruptível se revista da incorruptibilidade e que isto que é mortal se revista da imortalidade."
Essa transformação acontecerá no arrebatamento da Igreja, conforme também encontramos em 1 Tessalonicenses 4:13-18.
Os crentes que morreram ressuscitarão com corpos glorificados, enquanto os que estiverem vivos serão transformados instantaneamente.
Filipenses 3:20-21 acrescenta que o Senhor Jesus Cristo transformará o nosso corpo abatido para ser conforme o Seu corpo glorioso.
Portanto, a Igreja não entrará na glória com corpos sujeitos à corrupção, enfermidade ou morte.
Entretanto, essa transformação não acontece simplesmente porque o Céu não pode receber um corpo corruptível. Ela faz parte do propósito eterno de Deus para os redimidos em Cristo.
2. E quanto aos judeus que entrarão no Milênio?
Aqui precisamos distinguir o Milênio do estado eterno.
Quando o Senhor Jesus voltar em glória para estabelecer Seu Reino, haverá pessoas que sobreviverão ao período da Grande Tribulação e entrarão vivas no Reino Milenar.
Entre elas estará o remanescente de Israel que reconhecerá o Senhor Jesus como seu Messias.
Zacarias 12:10 descreve o arrependimento nacional de Israel, enquanto Romanos 11:25-27 apresenta a futura restauração espiritual dessa nação.
Esses israelitas entrarão no Milênio com seus corpos naturais, sem terem passado pela morte e ressurreição.
Também haverá gentios salvos que entrarão no Reino, conforme podemos observar em Mateus 25:31-46.
Durante os mil anos, essas pessoas viverão na Terra sob o governo justo do Senhor Jesus Cristo.
É importante observar que, durante o Milênio, ainda haverá condições próprias da existência humana natural, incluindo nascimento, longevidade e possibilidade de morte, conforme Isaías 65:20-23.
Portanto, teremos uma distinção entre os santos glorificados e aqueles que estarão vivendo no Reino com corpos naturais.
Mas isso diz respeito ao Milênio, não necessariamente ao estado eterno.
3. O que acontecerá depois dos mil anos?
Apocalipse 20 apresenta os acontecimentos que encerram o Reino Milenar.
Satanás será solto por um breve período, promoverá sua última rebelião e será definitivamente lançado no lago de fogo.
Depois disso, acontecerá o julgamento diante do Grande Trono Branco, e a própria morte será lançada no lago de fogo (Apocalipse 20:11-15).
Em seguida, João declara:
"E vi um novo céu e uma nova terra. Porque já o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe" (Apocalipse 21:1).
Aqui já não estamos falando do Milênio, mas do estado eterno.
E há uma declaração fundamental em Apocalipse 21:4:
"E Deus limpará de seus olhos toda lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas."
Observe que a morte deixará de existir.
Por isso, não considero correto afirmar que os judeus entrarão no estado eterno com corpos ainda corruptíveis, sujeitos às enfermidades e necessitando de tratamento para continuar vivendo.
Um corpo corruptível, no sentido apresentado em 1 Coríntios 15, está sujeito à deterioração e à morte. Isso não corresponde à condição definitiva descrita em Apocalipse 21.
As Escrituras não explicam detalhadamente como acontecerá a transição corporal dos salvos que estiverem vivos na Terra ao término do Milênio. Podemos reconhecer que haverá uma condição apropriada à eternidade, mas não devemos estabelecer um procedimento específico onde a Palavra de Deus não o revelou expressamente.
4. E as folhas da árvore da vida, destinadas à cura das nações?
Este é o ponto central da sua pergunta.
Apocalipse 22:1-2 diz:
"E mostrou-me o rio puro da água da vida, claro como cristal, que procedia do trono de Deus e do Cordeiro. No meio da sua praça e de uma e da outra banda do rio, estava a árvore da vida, que produz doze frutos, dando seu fruto de mês em mês; e as folhas da árvore são para a saúde das nações."
À primeira vista, a expressão "saúde das nações" pode sugerir que haverá pessoas doentes necessitando de cura.
Entretanto, precisamos interpretar essa passagem considerando todo o contexto.
O próprio capítulo anterior já declarou que não haverá mais morte, dor ou sofrimento.
Além disso, Apocalipse 22:3 afirma:
"E ali nunca mais haverá maldição contra alguém."
Portanto, não podemos interpretar as folhas como medicamentos destinados a combater enfermidades decorrentes da corrupção do corpo, pois isso introduziria novamente no estado eterno uma condição que Deus já declarou definitivamente removida.
A palavra grega traduzida por "saúde" ou "cura" é therapeia, que pode transmitir a ideia de cuidado, serviço ou benefício restaurador.
Nesse contexto, as folhas da árvore da vida podem ser compreendidas como uma expressão da provisão divina para o bem-estar permanente das nações.
Não se trata necessariamente de curar doenças existentes, mas de manifestar a plenitude da vida e das bênçãos que procedem de Deus.
Assim, a árvore da vida não deve ser vista como um hospital da eternidade, mas como uma manifestação da provisão inesgotável de Deus numa criação onde a maldição já não existe.
Outro detalhe importante: o texto não diz que as folhas são exclusivamente para os judeus. Ele afirma expressamente que são para a saúde das nações.
Logo, não encontramos fundamento bíblico para estabelecer que Israel precisará dessas folhas porque conservará um corpo corruptível, enquanto a Igreja não precisará delas por possuir um corpo glorificado.
Essa conclusão vai além daquilo que o texto realmente ensina.
5. Israel e a Igreja continuarão sendo distintos?
Sim. Precisamos preservar a distinção que as Escrituras estabelecem entre Israel e a Igreja, sem concluir que isso implique a permanência da corrupção física em um desses grupos.
Israel possui promessas nacionais e terrestres que Deus cumprirá fielmente. A Igreja, por sua vez, possui uma vocação celestial singular, sendo apresentada como o Corpo e a Noiva de Cristo (Efésios 1:22-23; 5:25-32).
Apocalipse 21 apresenta a Nova Jerusalém descendo do Céu, da parte de Deus, preparada como uma esposa adornada para o seu marido.
A cidade celestial está associada à glória da Igreja, enquanto a nova Terra apresenta o cenário da bênção eterna das nações.
Apocalipse 21:24 menciona as nações andando à luz da cidade, e Apocalipse 22:2 apresenta a árvore da vida e suas folhas para a saúde dessas nações.
Temos, portanto, distinções na manifestação dos propósitos eternos de Deus, mas não duas categorias de salvos, sendo uma incorruptível e outra permanecendo sujeita à morte.
A distinção entre Israel e a Igreja não significa que Israel terá uma salvação inferior ou uma existência eternamente marcada pela corrupção.
Todos os redimidos desfrutarão da perfeita obra de Cristo, embora Deus tenha estabelecido propósitos e posições distintos para os diferentes grupos de salvos.
Conclusão
Respondendo diretamente à sua pergunta:
Está correto afirmar que a Igreja será transformada e receberá corpos glorificados no arrebatamento.
Também está correto afirmar que haverá judeus e gentios salvos que entrarão no Milênio com seus corpos naturais.
Entretanto, não podemos afirmar que esses judeus simplesmente serão transportados para a nova Terra, permanecendo com corpos corruptíveis e necessitando das folhas da árvore da vida para tratar suas enfermidades.
A Bíblia não ensina isso.
Precisamos distinguir três acontecimentos:
- O arrebatamento: a Igreja será ressuscitada ou transformada, recebendo corpos glorificados.
- O Milênio: haverá pessoas salvas vivendo na Terra com corpos naturais, sob o governo do Senhor Jesus.
- O estado eterno: a morte, a maldição e todas as consequências da antiga criação terão sido definitivamente removidas.
A maneira exata como Deus realizará a transição dos salvos que estiverem vivos no encerramento do Milênio não nos foi revelada em todos os seus detalhes.
O que sabemos é que a nova criação não será uma continuação da presente condição de corrupção.
Finalmente, as folhas da árvore da vida não demonstram a existência de enfermidades na eternidade. Antes, apontam para a provisão permanente de Deus, cuja presença será a fonte inesgotável de vida e bênção para os redimidos.
A grande beleza do estado eterno não está apenas na ausência da morte, mas na presença permanente de Deus e do Cordeiro.
"E verão o seu rosto, e nas suas testas estará o seu nome" (Apocalipse 22:4).
Que maravilhosa esperança!
Josué Matos