Alguém que me escreveu no YouTube:
Acredito que a Igreja de Cristo está nos salvos, fora e dentro das denominações. O grande problema é que alguns segmentos acreditam que só eles têm a correta interpretação das Escrituras. Acho isso uma soberba. Um exemplo: se um irmão tem um entendimento pós-tribulacionista, ele não pode estar em determinada igreja ou comunhão que é pré-tribulacionista, mesotribulacionista etc.
Minha Resposta:
Agradeço pelo comentário. A sua observação levanta uma questão importante, pois precisamos distinguir duas verdades bíblicas que, embora relacionadas, não são exatamente a mesma coisa: a unidade de todos os salvos em Cristo e a responsabilidade de cada crente quanto à comunhão e à ordem de uma igreja local.
Primeiramente, concordo que a Igreja, no seu aspecto universal, não está limitada a uma denominação, organização religiosa ou grupo de cristãos. Todos aqueles que verdadeiramente nasceram de novo, mediante a fé no Senhor Jesus Cristo, pertencem ao Seu Corpo, independentemente de onde estejam congregando.
O apóstolo Paulo escreveu:
"Pois todos nós fomos batizados em um Espírito, formando um corpo, quer judeus, quer gregos, quer servos, quer livres, e todos temos bebido de um Espírito" (1 Coríntios 12:13).
Portanto, nenhuma denominação pode reivindicar para si a exclusividade do Corpo de Cristo. A salvação não é determinada por uma placa denominacional, mas pela obra redentora do Senhor Jesus Cristo e pela fé pessoal nEle.
Entretanto, precisamos considerar outro aspecto dessa questão.
1. A unidade do Corpo de Cristo não elimina a responsabilidade doutrinária da igreja local
A Bíblia apresenta a Igreja como um único Corpo, mas também apresenta igrejas locais, reunidas em diferentes cidades, com responsabilidades específicas quanto à doutrina, à comunhão, à adoração e à disciplina.
Em Atos dos Apóstolos 2:42, encontramos quatro características fundamentais da vida dos primeiros cristãos:
"E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações."
Observe que a doutrina dos apóstolos aparece juntamente com a comunhão. Isso demonstra que a comunhão cristã não deveria ser construída simplesmente sobre afinidades pessoais ou sentimentos de amizade, mas sobre a verdade revelada por Deus.
Em 1 Timóteo 3:15, a igreja local é apresentada como a casa de Deus, coluna e firmeza da verdade.
Portanto, uma igreja local tem a responsabilidade de preservar, ensinar e praticar aquilo que encontra nas Escrituras.
Isso não significa que seus membros sejam superiores aos demais cristãos, mas que possuem responsabilidade diante de Deus quanto àquilo que ensinam e praticam.
2. Ter convicções doutrinárias é uma demonstração de soberba?
Não necessariamente.
Existe uma diferença muito grande entre afirmar que determinada doutrina é bíblica e afirmar que somente aqueles que concordam conosco são verdadeiramente salvos.
A primeira atitude pode representar fidelidade à Palavra de Deus; a segunda, quando não encontra fundamento nas Escrituras, pode revelar sectarismo e orgulho espiritual.
O apóstolo Paulo escreveu:
"Examinai tudo. Retende o bem" (1 Tessalonicenses 5:21).
Também encontramos em Atos dos Apóstolos 17:11 o exemplo dos cristãos de Bereia, que examinavam diariamente as Escrituras para verificar se aquilo que Paulo ensinava correspondia à verdade.
Isso é particularmente interessante: eles não deveriam aceitar uma doutrina simplesmente porque vinha de Paulo, mas examiná-la à luz das Escrituras.
Portanto, não devemos acreditar em determinada interpretação apenas porque nossa congregação a ensina. Precisamos desenvolver convicções pessoais fundamentadas na Palavra de Deus.
Ao mesmo tempo, devemos conservar a humildade necessária para reconhecer que podemos estar equivocados em algum entendimento.
O problema não está em possuir convicções firmes, mas em transformar essas convicções em motivo de superioridade pessoal.
3. Quanto ao exemplo do arrebatamento antes ou depois da tribulação
Você mencionou um exemplo específico: um cristão que entende que a Igreja passará pela grande tribulação, enquanto determinada congregação ensina que o arrebatamento acontecerá antes desse período.
Pessoalmente, entendo que as Escrituras ensinam o arrebatamento pré-tribulacional.
Entre as passagens que fundamentam esse entendimento, destaco João 14:1-3; 1 Tessalonicenses 1:10; 4:13-18; 5:9; e Apocalipse 3:10.
Entendo que devemos distinguir o arrebatamento da Igreja da manifestação pública de Cristo em glória, bem como reconhecer a diferença entre o propósito de Deus para Israel e para a Igreja.
Entretanto, aqui precisamos fazer uma observação importante: um cristão que entende diferentemente essa questão não deixa de pertencer ao Corpo de Cristo por causa disso.
A salvação não depende de alguém ser pré-tribulacionista, mesotribulacionista ou pós-tribulacionista.
A salvação depende exclusivamente do Senhor Jesus Cristo.
Um cristão pode estar equivocado em sua compreensão dos acontecimentos proféticos e, ainda assim, ser verdadeiramente salvo.
Aliás, certamente haverá cristãos com diferentes entendimentos escatológicos quando o Senhor vier buscar a Sua Igreja. Todos os que pertencem verdadeiramente a Cristo serão arrebatados, independentemente da posição escatológica que defendiam.
Contudo, a questão da comunhão numa igreja local envolve também outras responsabilidades.
4. Uma igreja local pode estabelecer limites quanto ao ensino doutrinário?
Precisamos distinguir entre receber uma pessoa como pertencente a Cristo e conceder-lhe liberdade para ensinar publicamente determinada doutrina.
São duas questões diferentes.
Imagine uma congregação que, após estudar cuidadosamente as Escrituras, possui a convicção de que o arrebatamento acontecerá antes da tribulação.
Um cristão que possui entendimento diferente visita essa congregação. Seria correto tratá-lo como alguém que não pertence a Cristo simplesmente por discordar dessa interpretação? Evidentemente, não.
Entretanto, seria coerente permitir que ele utilizasse regularmente o ministério público daquela congregação para ensinar uma posição contrária àquilo que ela entende ser o ensino das Escrituras?
Aqui temos outra questão.
A igreja local possui responsabilidade coletiva quanto ao ensino que é apresentado aos seus membros.
Em Tito 1:9, encontramos uma das qualificações daqueles que exercem a responsabilidade de liderança espiritual:
"Retendo firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina como para convencer os contradizentes."
Isso demonstra que a preservação da doutrina faz parte das responsabilidades daqueles que cuidam da igreja.
Naturalmente, isso não significa que qualquer divergência doutrinária deva resultar automaticamente na exclusão de alguém da comunhão.
É necessário distinguir entre uma dificuldade sincera de entendimento, uma divergência sobre determinado aspecto da interpretação bíblica e a promoção deliberada de ensinamentos contrários à Palavra de Deus.
Essas situações não devem ser tratadas como se fossem idênticas.
O recebimento à comunhão não deveria ser confundido com a exigência de concordância absoluta sobre cada detalhe da interpretação bíblica. Por outro lado, a liberdade para ensinar publicamente envolve responsabilidade adicional.
5. A unidade cristã não significa ausência de diferenças
Em Romanos 14, Paulo apresenta orientações importantes sobre como os cristãos deveriam tratar aqueles que possuíam diferentes entendimentos em determinadas questões.
Ele escreveu:
"Ora, quanto ao que está enfermo na fé, recebei-o, não em contendas sobre dúvidas" (Romanos 14:1).
O contexto trata particularmente de questões relacionadas à alimentação e à consideração de determinados dias.
Não devemos utilizar essa passagem para afirmar que todas as diferenças doutrinárias são irrelevantes. O mesmo apóstolo que escreveu Romanos 14 também combateu energicamente os falsos ensinamentos na Epístola aos Gálatas.
Isso demonstra que precisamos exercer discernimento.
Nem todas as diferenças possuem a mesma gravidade, nem todas exigem a mesma resposta.
É perfeitamente possível reconhecer alguém como um verdadeiro cristão e, ao mesmo tempo, discordar de determinadas interpretações que essa pessoa defende.
Da mesma forma, podemos amar, respeitar e manter relacionamentos fraternos com cristãos que não compartilham integralmente das nossas convicções quanto à ordem e ao funcionamento da igreja local.
A unidade espiritual que possuímos em Cristo não exige que abandonemos aquilo que entendemos ser a verdade bíblica.
6. O perigo de transformar a fidelidade doutrinária em espírito sectário
Aqui considero que sua observação merece especial atenção.
Uma congregação pode começar com o desejo sincero de preservar a doutrina bíblica e, com o passar do tempo, desenvolver uma atitude de superioridade em relação aos demais cristãos.
Isso é um perigo real.
Na igreja de Corinto, alguns diziam pertencer a Paulo, outros a Apolo, outros a Cefas e outros afirmavam ser de Cristo (1 Coríntios 1:12).
O apóstolo repreendeu aquele espírito de divisão, demonstrando que Cristo não está dividido.
Nenhum grupo de cristãos deveria considerar-se proprietário da verdade divina ou imaginar que Deus trabalha exclusivamente entre aqueles que estão associados à sua comunhão.
A verdade pertence a Deus, não a nós.
Somos responsáveis por recebê-la, obedecer-lhe, preservá-la e transmiti-la com fidelidade.
Por isso, precisamos manter duas atitudes que devem caminhar juntas: firmeza quanto à Palavra de Deus e humildade no relacionamento com os demais cristãos.
Em Efésios 4:15, encontramos uma expressão que resume muito bem esse equilíbrio:
"Antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo."
Não devemos sacrificar a verdade em nome do amor, nem abandonar o amor sob o pretexto de defender a verdade.
Considerações finais
Concluindo, concordo que a Igreja de Cristo é formada por todos os verdadeiramente salvos, independentemente das denominações em que estejam.
Também concordo que seria uma demonstração de soberba alguém afirmar que somente o seu grupo possui cristãos verdadeiros ou que todos os demais estão necessariamente equivocados em tudo.
Entretanto, não devemos confundir essa atitude sectária com o desejo legítimo de uma igreja local de permanecer fiel àquilo que entende ser o ensino das Escrituras.
Quanto ao exemplo apresentado, considero importante distinguir três coisas: reconhecer alguém como salvo, recebê-lo à comunhão de uma igreja local e conceder-lhe responsabilidade no ensino público. Embora relacionadas, essas questões não são idênticas.
A divergência sobre o momento do arrebatamento, por si só, não determina se alguém pertence ou não a Cristo. Tampouco devemos transformar automaticamente toda diferença sincera de entendimento numa razão para rejeitar uma pessoa.
Por outro lado, a igreja local precisa preservar a responsabilidade quanto à doutrina que ensina.
O nosso compromisso não deve ser defender uma denominação, uma tradição ou um sistema teológico simplesmente porque o herdamos, mas examinar continuamente as Escrituras, desejando conhecer e praticar a vontade de Deus.
Afinal, o objetivo não é provar que o nosso grupo está certo, mas procurar que nós mesmos estejamos em conformidade com a Palavra de Deus.
Que possamos conservar a firmeza nas convicções bíblicas sem perder a humildade, o respeito e o amor por todos aqueles que pertencem ao Senhor Jesus Cristo.
Josué Matos