Alguém que me escreveu no WhatsApp:
Qual sua opinião sobre cursos de teologia?
Minha Resposta:
Minha opinião precisa partir, antes de tudo, daquilo que encontramos na Palavra de Deus. Não tenho nada contra estudar profundamente a Bíblia; muito pelo contrário. Creio que todo cristão deveria ser estimulado a conhecer cada vez mais as Escrituras. A questão é distinguir entre estudar profundamente a Palavra de Deus e adotar como modelo de formação espiritual um sistema que não encontramos estabelecido no Novo Testamento.
Quando observamos a igreja no Novo Testamento, não encontramos o modelo de um seminário teológico para formar uma classe especial de cristãos, separando alguns para receberem uma formação bíblica que os demais não recebem. O padrão que encontramos é o ensino da Palavra de Deus dentro da igreja local, beneficiando todo o povo de Deus.
Em Atos dos Apóstolos 2:42, os primeiros cristãos “perseveravam na doutrina dos apóstolos”. Mais tarde, quando Paulo permaneceu em Corinto, ele ficou ali “ensinando entre eles a palavra de Deus” (Atos dos Apóstolos 18:11). Em Antioquia, Barnabé e Saulo passaram um ano inteiro reunidos com a igreja e “ensinaram muita gente” (Atos dos Apóstolos 11:26). O ensino estava ligado à vida da igreja.
Efésios 4:11-16 também mostra que Deus concedeu à Igreja homens capacitados para ensinar, tendo em vista o aperfeiçoamento dos santos e a edificação do Corpo de Cristo. O objetivo não é criar uma classe superior de cristãos, mas levar os santos à maturidade.
Primeira Epístola aos Coríntios 12 é igualmente importante. Os dons são distribuídos pelo Espírito Santo e exercidos para benefício de todos. A capacidade espiritual e a liderança não são produzidas simplesmente pela frequência a uma faculdade ou seminário; elas se desenvolvem sob a ação de Deus, mediante a Palavra, o exercício do dom e a experiência prática no meio do povo de Deus.
Isso não significa que todos os cristãos terão o mesmo conhecimento, o mesmo dom ou a mesma capacidade. Evidentemente, alguns se dedicarão muito mais ao estudo e alguns serão capacitados por Deus para ensinar. Romanos 12:7 menciona especificamente aquele que possui o dom de ensino: “se é ensinar, haja dedicação ao ensino”. Mas uma coisa é reconhecer diferentes dons e capacidades; outra é estabelecer uma classe espiritual diferenciada mediante formação acadêmica.
Também devemos distinguir conhecimento acadêmico de conhecimento espiritual. Uma pessoa pode estudar hebraico, grego, história, arqueologia, filosofia, hermenêutica e teologia sistemática e, apesar disso, não possuir discernimento espiritual. Primeira Epístola aos Coríntios 2:14-15 estabelece um princípio fundamental: as coisas do Espírito de Deus são discernidas espiritualmente.
É por isso que o verdadeiro conhecimento da Palavra não pode ser separado da atuação do Espírito Santo. O próprio Senhor Jesus prometeu acerca do Espírito Santo: “esse vos ensinará todas as coisas” (João 14:26). Isso não significa que o cristão não precise estudar. Pelo contrário. Significa que estudo e dependência do Espírito precisam caminhar juntos.
Paulo escreveu a Timóteo:
“Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade” (Segunda Epístola a Timóteo 2:15).
Veja que há esforço envolvido. Conhecer profundamente a Bíblia exige trabalho.
Existe uma diferença muito grande entre ler a Bíblia e estudar a Bíblia.
Uma pessoa pode ler vários capítulos diariamente durante muitos anos e ainda possuir um conhecimento bastante limitado das Escrituras. A leitura é importante, inclusive a leitura devocional, mas aquele que deseja aprofundar-se precisa aprender a estudar com propósito.
Precisa comparar Escritura com Escritura, observar o contexto, perguntar quem está falando, para quem está falando, em que circunstâncias, perceber as diferenças entre Israel e a Igreja, estudar doutrinas, acompanhar temas através de diferentes livros, observar palavras importantes e procurar compreender cada passagem dentro do conjunto da revelação bíblica.
Por isso, sou favorável a que o cristão utilize boas ferramentas. Dicionários bíblicos, concordâncias, léxicos, comentários, mapas, livros de história bíblica e outros recursos podem ser muito úteis. O problema começa quando essas ferramentas ocupam o lugar da própria Escritura ou quando a autoridade de um professor, instituição ou sistema teológico passa a determinar aquilo que devemos encontrar na Bíblia.
Nenhum comentário é inspirado. Nenhum professor é infalível. Nenhuma escola teológica possui toda a verdade.
A Palavra de Deus permanece sendo a autoridade.
É interessante observar também que alguns homens que exerceram enorme influência na exposição bíblica não foram produtos de seminários teológicos. Homens como John Nelson Darby, William Kelly e C. H. Mackintosh desenvolveram grande conhecimento das Escrituras por meio de estudo intenso e pessoal. Isso não significa que devamos aceitar tudo o que qualquer um deles escreveu. Significa simplesmente que conhecimento bíblico profundo não depende necessariamente de uma formação institucional.
Aliás, esse princípio não se limita aos homens. As irmãs também devem conhecer profundamente as Escrituras.
Um belo exemplo disso aparece em Atos dos Apóstolos 18.
Apolo era um homem eloquente e “poderoso nas Escrituras” (Atos dos Apóstolos 18:24). Entretanto, seu conhecimento ainda era incompleto. Ele conhecia somente o batismo de João. Quando Áquila e Priscila o ouviram, perceberam essa deficiência.
Então lemos:
“E, ouvindo-o Priscila e Áquila, o levaram consigo e lhe declararam mais precisamente o caminho de Deus” (Atos dos Apóstolos 18:26).
É uma passagem muito instrutiva.
Priscila não aparece assumindo publicamente o lugar de mestre na igreja. Contudo, seria igualmente errado concluir que ela era uma mulher sem conhecimento bíblico. Pelo contrário, o próprio fato de estar envolvida nessa situação mostra que possuía discernimento suficiente para perceber que havia uma deficiência naquilo que Apolo estava ensinando.
Áquila e Priscila receberam aquele homem em particular e o ajudaram. Priscila permaneceu dentro da posição que Deus estabeleceu para a mulher, mas isso não a impediu de conhecer profundamente as coisas de Deus e de participar, juntamente com seu marido, daquele auxílio particular.
Portanto, uma irmã pode e deve estudar profundamente a Bíblia. Não existe na Escritura nenhuma ideia de que profundidade doutrinária seja exclusividade masculina. Existem diferenças estabelecidas por Deus quanto ao exercício público do ministério na igreja, mas não existe qualquer proibição quanto à mulher crescer profundamente no conhecimento das Escrituras.
Outro exemplo é Timóteo. Paulo lhe disse:
“E que, desde a tua meninice, sabes as sagradas Escrituras” (Segunda Epístola a Timóteo 3:15).
De onde veio inicialmente esse conhecimento?
Paulo já havia mencionado “a fé não fingida que em ti há, a qual habitou primeiro em tua avó Lóide e em tua mãe Eunice” (Segunda Epístola a Timóteo 1:5).
Portanto, encontramos mulheres exercendo uma influência espiritual importantíssima na formação de Timóteo.
Quanto a fazer propriamente um curso de teologia, eu não diria que adquirir conhecimento por meio de um curso seja, em si mesmo, pecado. Alguém pode aproveitar determinadas matérias, aprender história, línguas bíblicas, geografia, contexto cultural e outras informações úteis. Entretanto, eu faria uma distinção entre aproveitar ferramentas acadêmicas e aceitar o sistema de formação ministerial do seminário como se fosse o modelo bíblico para preparar servos de Deus.
Esse modelo não encontro no Novo Testamento.
O padrão bíblico que vejo é a igreja local ensinando os santos, homens espiritualmente capacitados ensinando a Palavra, os mais experientes ajudando os mais novos e cada cristão assumindo pessoalmente a responsabilidade de estudar as Escrituras.
Paulo disse a Timóteo:
“E o que de mim, entre muitas testemunhas, ouviste, confia-o a homens fiéis, que sejam idôneos para também ensinarem os outros” (Segunda Epístola a Timóteo 2:2).
Observe a sequência: Paulo → Timóteo → homens fiéis → outros.
Não aparece uma instituição produzindo uma categoria profissional de ministros. Vemos verdade espiritual sendo transmitida a homens fiéis que, por sua vez, seriam capazes de ensinar outros.
Também devemos ter cuidado com a ideia de que um diploma teológico qualifica alguém automaticamente para ser pastor, ancião, mestre ou pregador. No Novo Testamento, as qualificações espirituais não são acadêmicas.
Quando lemos Primeira Epístola a Timóteo 3 e Tito 1, encontramos caráter, maturidade, vida familiar, domínio próprio, hospitalidade, fidelidade à Palavra e capacidade para ensinar. Não encontramos qualquer requisito acadêmico.
Por isso, se um irmão me perguntasse: “Preciso fazer seminário para conhecer profundamente a Bíblia?”, minha resposta seria: não.
Se perguntasse: “Preciso fazer seminário para que Deus possa me usar?”, também responderia: não.
E se perguntasse: “Então não preciso estudar?”, responderia exatamente o contrário: precisa estudar muito.
Talvez mais do que imagina.
Leia a Bíblia inteira repetidamente. Depois estude livros individualmente. Estude capítulos. Estude doutrinas. Compare passagens. Faça anotações. Utilize uma boa concordância. Consulte o significado de palavras. Quando for possível, examine termos gregos e hebraicos com ferramentas responsáveis. Leia bons comentários, mas confira tudo nas Escrituras. Ouça, irmãos, que conhecem a Palavra. Faça perguntas. Aprenda com aqueles que Deus colocou na igreja. E, acima de tudo, faça tudo isso em oração e dependência do Espírito Santo.
O grande perigo é trocar a formação espiritual pela formação meramente intelectual.
A Bíblia não foi dada apenas para informar nossa mente, mas para formar nossa vida.
Esdras apresenta um princípio muito bonito:
“Porque Esdras tinha preparado o seu coração para buscar a lei do Senhor, e para a cumprir, e para ensinar em Israel os seus estatutos e os seus juízos” (Esdras 7:10).
Observe a ordem:
buscar;
cumprir;
ensinar.
Primeiro ele procurou conhecer. Depois procurou viver. Finalmente estava em condições de ensinar.
Esse continua sendo um excelente padrão para qualquer pessoa que deseja conhecer profundamente a Palavra de Deus.
Portanto, não sou contrário ao estudo; sou inteiramente favorável ao estudo bíblico sério e profundo. Minha reserva é quanto a transformar o seminário teológico no método bíblico de formação de servos de Deus ou imaginar que um diploma confere autoridade espiritual.
A melhor “escola” do cristão continua sendo a Palavra de Deus, estudada diligentemente, no contexto da comunhão e ensino da igreja local, com auxílio de irmãos espirituais, utilizando bons recursos quando necessários e, acima de tudo, na dependência do Espírito Santo.