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Antes de tomar decisões, precisamos apresentar as situações a toda a igreja local?

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Irmão, estou com uma dúvida sobre como os varões tratam as ocorrências na igreja local. Existe uma reunião a parte para tratar sobre os assuntos que surgem? Essa reunião somente varões participam? As decisões são tomadas em unanimidade? Como são ligadas ou desligadas as questões tratadas? Antes de tomar decisões precisamos apresentar as situações a toda igreja local? Em fim poderia apresentar uma descrição de como são tratados as situações na igreja local pelos anciãos? Paz seja contigo.

Minha Resposta:

A questão que você levanta é muito importante, porque toca na forma prática como a igreja local deve agir segundo os princípios do Novo Testamento.

Em primeiro lugar, precisamos lembrar que, no padrão bíblico, a igreja local não é dirigida por um homem, nem por um sistema hierárquico, mas por uma pluralidade de anciãos (presbíteros), reconhecidos pelo Espírito Santo entre os irmãos (Atos 20:17,28). Esses irmãos não formam um “clero”, mas exercem cuidado pastoral, vigilância e orientação espiritual sobre o rebanho.

  1. Existe reunião à parte para tratar dos assuntos?

Sim, é perfeitamente bíblico que os anciãos conversem entre si sobre assuntos que exigem discernimento espiritual, especialmente questões delicadas, disciplinares ou que envolvem cuidado de almas. Em Atos 15 vemos os apóstolos e anciãos reunidos para considerar uma questão doutrinária séria. Isso mostra que há momentos próprios para examinar situações antes de qualquer comunicação pública.

Essas conversas não são reuniões “secretas”, mas encontros de responsabilidade espiritual. O objetivo não é governar isoladamente, mas buscar, em oração e comunhão, o pensamento do Senhor.

  1. Somente varões participam?

Quanto ao exercício de governo e supervisão na igreja local, o Novo Testamento coloca essa responsabilidade sobre homens qualificados (1 Timóteo 3; Tito 1). Portanto, as reuniões de anciãos são compostas por irmãos varões reconhecidos nesse serviço.

Isso não diminui o valor espiritual das irmãs e dos demais irmãos, mas reflete a ordem estabelecida por Deus para o funcionamento da assembleia.

  1. As decisões são tomadas em unanimidade?

O ideal espiritual é que haja unanimidade entre os anciãos. Não no sentido político, mas no sentido de haver um mesmo sentir produzido pelo Espírito Santo.

Em Atos 15:28 lemos: “Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós…”. Essa expressão mostra que a decisão não era simplesmente resultado de votação, mas de discernimento espiritual conjunto.

Quando há divergência persistente entre anciãos, o melhor caminho não é forçar uma decisão, mas continuar buscando o Senhor até que haja clareza. Decisões precipitadas raramente produzem bons frutos. O parecer final dos Anciãos com melhor conhecimento bíblico e espiritual, deve ser levado em grande consideração, na hora de divergências. São irmãos que podem estar vendo coisas que os demais não veem.

  1. Como são ligadas ou desligadas as questões?

O princípio de “ligar e desligar” (Mateus 18:18) está relacionado principalmente à disciplina na assembleia. O processo bíblico, conforme Mateus 18:15-17, começa de forma pessoal, depois com testemunhas, e somente se houver persistência no erro é levado à igreja.

Os anciãos normalmente examinam cuidadosamente os fatos antes que algo seja apresentado publicamente, especialmente em casos disciplinares. Quando a assembleia é chamada a agir, não é para debater, mas para reconhecer uma decisão já discernida pelos anciãos segundo a Palavra.

Não se trata de autoridade autônoma dos anciãos, mas de responsabilidade espiritual diante do Senhor.

  1. Antes de decidir, é preciso apresentar tudo à igreja?

Depende da natureza da questão.

– Questões administrativas simples podem ser tratadas pelos irmãos responsáveis, os anciãos.
– Questões doutrinárias ou disciplinares que afetam a comunhão precisam ser comunicadas à assembleia. Informar à assembleia reunida as decisões tomadas pelos anciãos.
– Casos pessoais que envolvem confidencialidade devem ser tratados com prudência, evitando exposição desnecessária.

A assembleia não funciona como uma democracia onde tudo é votado, nem como uma ditadura pastoral. Funciona como um corpo, onde há responsabilidade coletiva, mas também há funções distintas.

  1. Como, em resumo, são tratadas as situações?

O padrão saudável é este:

– Oração.
– Exame à luz da Palavra.
– Conversa entre os anciãos.
– Busca de unanimidade espiritual.
– Comunicação clara à assembleia quando necessário.
– Sempre visando restauração, nunca punição.

O objetivo da liderança bíblica nunca é “controlar”, mas pastorear. O ancião não é um administrador frio, mas um pastor que vela pelas almas como quem há de dar conta (Hebreus 13:17).

Quando esse espírito pastoral é perdido, surgem autoritarismo ou confusão. Quando esse espírito é mantido, há ordem com graça.

Que o Senhor nos dê assembleias onde haja governo espiritual com humildade, firmeza com mansidão, e decisões que realmente possam ser reconhecidas como tendo sido tomadas “na presença do Senhor”.

Deixo abaixo o link de bons livros gratuitos que poderão ampliar o que foi dito aqui:

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Paz seja contigo.

Josué Matos

Não existe tribulação que não traga consigo uma bênção?

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

A pessoa me enviou o texto abaixo:

Esboço de um sermão de meu amigo e irmão, pastor batista

O SOFRIMENTO.

“mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela nao comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás. E viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento; tomou do seu fruto, e comeu, e deu também a seu marido, e ele comeu com ela” (Gn.2:17; 3:6)

1. Toda a criação padece. Rm.8:20

a. Cristão. At.14:22

b. Não cristão. Is.57:21

2. Alguns motivos do sofrimento do cristão.

a. Como prova da fé. Por meio das provas, nosso Deus mostra ao mundo que a sua fé depositada no coração de seus filhos é indestrutível. (1 Jo.5:4-5; Jó 1 e 2)

b. Para crescer em humildade. (Jó: 40-3-5; 42:1-6)

c. Como consequência de semear o errado. (Gl.6:7-8)

- Existe perdão e purificação (1 Jo.1:8-9)

- Porém ficam consequências:

- Moisés. (Nm. 20:8-12; Dt.3:24-27; 4:21)

- Davi. (2 Sm.12:10-14)

Assumir a nossa responsabilidade, traz mais calma. (2Sm.16:5-10)

d. Para ser usados em nossa debilidade. (2Co.12:6-10)

e. Como parte da nossa luta na boa batalha. Desde o mesmo instante do novo nascimento, somos recrutados para ser soldados do exército do Deus vivente, e somos imersos numa feroz batalha. Essa batalha chega ao fim só quando morrer ou quando Cristo voltar. (2Tm.4:4-8)     

- Cada soldado de Jesus recebe uma armadura para enfrentar tal batalha. (Ef.6:10-18)

- A luta é contra o velho homem. Ele já foi crucificado juntamente com Cristo e não pode ser mais senhor, porém todo tempo guerreia contra nós para entrar na tentação. (Rm.6:6,14;7:21-25) 

- A luta é também contra Satanás e o seu sistema invisível de maldade chamado mundo. (1P.5: 7-10)

3. A vitória é do Senhor. Nosso Deus, pela vitória de Cristo em favor do seu povo, tudo o inclina para o bem de seus redimidos. (Hb.10:14; Rm.8:28). Então, derramemos nossa alma confiadamente no trono da graça para encontrar oportuno socorro. (Sal.56:22, 62:8; Hb.4:14-16)

Conclusão: Não existe tribulação que não traga consigo uma bênção.

Minha Resposta:

Fiquei pensando na conclusão do "esboço do pastor batista" sobre o sofrimento e creio que vale a pena fazer uma distinção importante, para que o ensino fique ainda mais preciso e equilibrado.

Ele escreveu que “não existe tribulação que não traga consigo uma bênção”. De modo geral, isso é verdadeiro quando falamos dos que amam a Deus, conforme Romanos 8:28. Contudo, quando tratamos especificamente das tribulações causadas pelo pecado do próprio crente, é necessário qualificar melhor essa afirmação.

  1. Sofrimento por fidelidade e sofrimento por pecado não são iguais

A Escritura mostra que há sofrimentos que vêm:

– Por causa da fidelidade a Deus (Atos 14:22; 1 Pedro 4:14-16).
– Como disciplina por causa de pecado (Hebreus 12:6-11).

No primeiro caso, o sofrimento é prova da fé e instrumento de refinamento. Em 1 Pedro 1:6-7, vemos que a provação da fé é comparada ao ouro purificado no fogo.

No segundo caso, não estamos diante de uma simples prova, mas de correção paternal.

  1. A disciplina é correção, não condenação

Hebreus 12:6-7 declara:

“O Senhor corrige o que ama, e açoita a qualquer que recebe por filho.”

A disciplina é evidência de filiação. Deus não disciplina o mundo como Pai, mas julga o mundo como Juiz. Ao crente, Ele trata como Pai.

Entretanto, o texto também diz:

“Na verdade, nenhuma correção, ao presente, parece ser de gozo, senão de tristeza; mas depois produz um fruto pacífico de justiça nos exercitados por ela.” (Hebreus 12:11)

Observe a expressão: “nos exercitados por ela”. Ou seja, a disciplina só produz fruto quando há resposta correta.

  1. A consequência do pecado não é bênção automática

Gálatas 6:7-8 estabelece um princípio solene:

“Tudo o que o homem semear, isso também ceifará.”

O perdão é real — 1 João 1:9 é claro — mas o perdão não anula necessariamente as consequências temporais.

Veja alguns exemplos:

Moisés (Números 20:8-12; Deuteronômio 3:24-27) — homem fiel, mas disciplinado e impedido de entrar na terra prometida.

Davi (2 Samuel 12:10-14) — pecado perdoado, mas a espada não se apartaria de sua casa.

Nesses casos, o sofrimento não foi uma “bênção” em si mesmo. Foi disciplina. Tornou-se instrumento de amadurecimento porque houve arrependimento genuíno.

O Salmo 51 mostra o coração quebrantado de Davi. Ali vemos como a disciplina o levou à restauração.

  1. Quando a disciplina se torna bênção?

A disciplina se transforma em bênção quando:

– há confissão sincera (1 João 1:9);
– há abandono do pecado (Provérbios 28:13);
– há submissão humilde à mão de Deus (1 Pedro 5:6).

Se o crente resiste, endurece-se ou se justifica, o sofrimento pode prolongar-se e até agravar-se. Em 1 Coríntios 11:29-32 vemos crentes disciplinados por causa de pecado não julgado — alguns estavam fracos, outros doentes, e alguns haviam dormido (morrido). A disciplina tinha propósito corretivo, mas nem todos responderam da mesma maneira.

  1. Uma formulação mais precisa

Talvez possamos dizer assim:

– Toda tribulação permitida por Deus pode resultar em bênção para o crente.
– Mas quando a tribulação é fruto do pecado pessoal, ela é, primeiramente, disciplina corretiva.
– Ela só se tornará bênção espiritual se houver arrependimento e restauração.

Isso mantém o equilíbrio das Escrituras.

Não podemos ensinar que todo sofrimento é automaticamente bênção, pois isso pode banalizar a gravidade do pecado. Por outro lado, também não podemos ver a disciplina como rejeição, pois ela é prova do amor paternal de Deus.

No fim, a vitória é do Senhor. Hebreus 10:14 declara que Cristo aperfeiçoou para sempre os que são santificados. Romanos 8:28 assegura que Deus governa todas as coisas para o bem dos que O amam. Mas esse “bem” passa muitas vezes pelo caminho da correção.

Creio que, com esse ajuste, seu esboço ficará ainda mais sólido e fiel ao ensino completo das Escrituras.

Fraternalmente.

Josué Matos

Idade e tempo de conversão não garantem maturidade?

 Alguém que me escreveu por e-mail:

Querido irmão 

Existem cristãos velhos de idade e de tempo de conversão?

É que eu e a minha esposa frequentávamos uma certa denominação há uns 20 anos atrás… O Senhor foi me mostrando, através da Palavra, quem eram os líderes daquela localidade (inclusive aquele meu cunhado de quem te falei outra vez) . 

E também, de alguma forma, no mesmo período, o Senhor mostrou para outras pessoas. Resumindo, saíram de lá umas 80 pessoas.

Mas naquela época ainda eu não entendia sobre a sã doutrina e o que era a igreja de Cristo realmente. Aos poucos, o Senhor foi me esclarecendo. 

Os outros irmãos, cada um foi para o seu lado (cada um numa denominação), eu também. 

Mas não demorou muito tempo para perceber que aquilo era um clube social religioso, só diferenciado do anterior pela qualidade do terno. 

Depois disso, vim paulatinamente conhecer a verdade, ouvindo muita coisa e chegando aos irmãos fechados. 

Ao longo do tempo, encontrei vários desses irmãos, e infelizmente continuam “crendo” da mesma forma, as coisas da vida mudaram, mas a crença não, aliás, muitos pensam que o antigo pastor era apenas um ladrão, é bem mais que isso. 

Eu tento de alguma forma mostrar alguns vídeos seus e até de outros irmãos, versículos, mas eles não enxergam. 

Muitos estão há muitos anos (velhos de idade) (pessoas de boa moral, piedosas) no caminho, mas ainda não abriram os olhos. 

Imaturidade não depende do tempo de conversão? Ou depende exclusivamente do tempo de comunhão com Deus?

Não quero fazer o trabalho do Espírito Santo, mas só de saber que encontraram a verdade, já fico feliz.

Desculpe, irmão, às vezes, quando escrevo, o Senhor já me vai respondendo e às vezes faço perguntas óbvias, às vezes pergunto e já tenho a resposta. Gosto de interagir com o irmão, sempre é muito edificante.

Deus o abençoe 

Minha Resposta:

A sua pergunta é muito sincera e revela zelo verdadeiro. Quando o coração se entristece ao ver pessoas queridas permanecendo em sistemas religiosos ou em compreensões limitadas da verdade, isso mostra que há amor pelas almas e apreço pela verdade da Palavra.

Você pergunta se existe “cristão velho” de idade ou de tempo de conversão, e se a imaturidade depende do tempo de conversão ou exclusivamente do tempo de comunhão com Deus.

A Escritura responde de forma muito equilibrada.

  1. Idade e tempo de conversão não garantem maturidade

Em 1 Coríntios 3:1-3, o apóstolo Paulo escreve a crentes que já estavam há anos convertidos, mas ainda eram “meninos em Cristo”. Eles tinham recebido o evangelho, mas permaneciam carnais, cheios de divisões e contendas. Isso prova que tempo de conversão não é sinônimo de crescimento.

Em Hebreus 5:12-14, lemos algo ainda mais forte: “devendo já ser mestres pelo tempo, ainda necessitais de que se vos torne a ensinar quais sejam os primeiros rudimentos das palavras de Deus”. Aqui o Espírito Santo mostra que havia uma expectativa natural de crescimento com o passar do tempo. Porém, o tempo por si só não produziu maturidade.

Portanto, pode existir crente com muitos anos de profissão de fé e pouca compreensão espiritual. Assim como pode haver alguém mais recente na fé, mas profundamente exercitado na Palavra.

  1. Crescimento depende de comunhão e submissão à Palavra

O crescimento espiritual está ligado à comunhão real com Deus e à sujeição prática à Palavra. Em 1 Pedro 2:2 está escrito: “Desejai afetuosamente, como meninos novamente nascidos, o leite racional, não falsificado, para que por ele vades crescendo.”

O crescimento depende:

– do desejo sincero pela Palavra;
– da obediência prática;
– da ação do Espírito Santo no coração;
– da disposição de abandonar tradições e sistemas quando a luz da Escritura os confronta.

Em Efésios 4:13-14 vemos que o propósito do ministério dado por Cristo é que não sejamos mais “meninos inconstantes, levados em roda por todo o vento de doutrina”. Isso mostra que maturidade está ligada à firmeza doutrinária.

  1. Por que alguns não “enxergam”, mesmo vendo?

Há fatores espirituais profundos nisso.

Em 2 Coríntios 4:3-4, lemos que “o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos”. Mas mesmo entre crentes verdadeiros pode haver:

– apego emocional a sistemas;
– medo de romper vínculos sociais;
– respeito excessivo a líderes;
– acomodação espiritual;
– orgulho intelectual;
– falta de exercício pessoal diante de Deus.

Muitas vezes a luz chega, mas não há disposição interior para pagar o preço da obediência. Em João 7:17, o Senhor Jesus diz: “Se alguém quiser fazer a vontade dele, conhecerá a respeito da doutrina.” A disposição precede a compreensão.

  1. Nem todo erro é apenas moral — às vezes é estrutural

Você mencionou que alguns pensam que o antigo pastor era “apenas um ladrão”, mas que o problema era maior. De fato, o problema muitas vezes não é apenas conduta, mas sistema, doutrina e princípio.

Quando o fundamento é errado, mesmo que a moral pessoal pareça correta, a estrutura continua comprometida. Em 1 Timóteo 3:15, a igreja é chamada de “coluna e firmeza da verdade”. Se a verdade é substituída por tradição humana, a estrutura inteira fica afetada.

  1. O papel do Espírito Santo

Você disse algo muito saudável: “Não quero fazer o trabalho do Espírito Santo.”

Isso é fundamental.

Convencer, iluminar e conduzir à verdade é obra do Espírito de Deus. Em João 16:13, o Senhor Jesus afirma: “Quando vier aquele Espírito de verdade, ele vos guiará em toda a verdade.”

Nosso papel é testemunhar com mansidão, clareza e amor. Mas não é forçar, nem pressionar, nem convencer intelectualmente. Em 2 Timóteo 2:24-25 está escrito que o servo do Senhor deve instruir com mansidão, “a ver se porventura Deus lhes dará arrependimento para conhecerem a verdade”.

Observe: Deus é quem dá.

  1. Existe “cristão velho”?

Sim, no sentido natural de idade e tempo de conversão.

Mas não no sentido espiritual automático.

Há “pais”, “jovens” e “filhinhos” na fé, como vemos em 1 João 2:12-14. Essa classificação não é por idade cronológica, mas por maturidade espiritual.

– “Filhinhos” conhecem o Pai.
– “Jovens” são fortes e venceram o maligno.
– “Pais” conhecem “aquele que é desde o princípio”.

Isso é profundidade de relacionamento com Cristo.

  1. O seu sentimento é saudável

O fato de você se alegrar só de saber que alguém encontrou a verdade já mostra um coração alinhado com o Senhor. Isso é precioso.

Mas lembre-se: Deus tem seus tempos.

Alguns que hoje parecem não enxergar, amanhã podem ser os que mais defenderão a verdade. O próprio Paulo foi perseguidor antes de ser apóstolo.

Continue semeando com equilíbrio, sem insistência opressiva, sem debates infrutíferos. Às vezes um silêncio digno fala mais do que muitos argumentos.

E acima de tudo: preserve o seu próprio crescimento. A comunhão pessoal com Deus é o que mantém o coração guardado da amargura e da frustração.

Em 1 Coríntios 3:6 está escrito: “Eu plantei, Apolo regou; mas Deus deu o crescimento.”

Esse é o descanso.

Que o Senhor continue lhe dando discernimento, mansidão e firmeza na sã doutrina.

Deus o abençoe ricamente.

Josué Matos

Na dispensação atual, a revelação dirigida ao espírito está especialmente nas Epístolas, enquanto a Lei tinha como objetivo tratar com os que estão na carne, expondo o pecado?

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Irmão Josué, meditando na Palavra de Deus, cheguei a um entendimento e gostaria do seu parecer.

Ao ler Gênesis 4, percebi que Caim foi o primeiro homem nascido da vontade da carne e do sangue. Quando Deus fala com ele, advertindo-o de que o pecado jaz à porta e que ele deveria dominá-lo, entendi que Deus estava tratando com o espírito do homem, e não com a alma, onde habitam os desejos da carne.

Com base em Jó 32:8 — “Na verdade, há um espírito no homem, e o sopro do Todo-Poderoso o faz entendido” — compreendi que, desde o princípio, Deus sempre falou ao espírito do homem.

A partir disso, formulei outra questão: na dispensação atual, a revelação dirigida ao espírito está especialmente nas Epístolas, enquanto a Lei tinha como objetivo tratar com os que estão na carne, expondo o pecado. Sendo assim, as Epístolas contêm uma revelação mais elevada, que não existia no Pentateuco.

Efésios 5:14 diz: “Desperta, tu que dormes, e levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará.” Entendo que as Epístolas despertam o espírito do homem que está adormecido.

Minha pergunta é: por que a maioria das pessoas que lê as Epístolas não desperta espiritualmente? Por que muitos continuam ou retornam aos sistemas denominacionais criados por homens, em vez de viverem a revelação apresentada nas Epístolas?

Gostaria que o irmão me orientasse sobre isso.

Minha Resposta:

A sua meditação toca em pontos muito profundos da revelação de Deus, e é saudável quando o crente examina as Escrituras com desejo sincero de compreender os caminhos do Senhor. Vamos organizar o assunto para que possamos manter equilíbrio bíblico.

  1. Deus fala ao espírito do homem?

Em Gênesis 2:7 lemos que Deus soprou nas narinas do homem o fôlego de vida, e o homem foi feito alma vivente. O homem foi criado com espírito, alma e corpo (1 Tessalonicenses 5:23). Em Jó 32:8 está escrito: “Na verdade, há um espírito no homem, e o sopro do Todo-Poderoso o faz entendido.”

De fato, é no espírito que o homem pode ter comunhão com Deus. O Senhor Jesus disse: “Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade” (João 4:24). Porém, devemos ter cuidado para não criar uma separação artificial como se Deus nunca falasse à alma, ou como se o espírito estivesse isolado da responsabilidade da pessoa inteira.

Quando Deus falou a Caim em Gênesis 4:6-7, Ele tratou com a consciência dele. Disse: “O pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar.” Ali vemos responsabilidade moral, não apenas um diálogo “espírito versus carne”, mas um chamado ao arrependimento.

O problema do homem não é simplesmente que a alma esteja dominando o espírito, mas que está morto em delitos e pecados (Efésios 2:1). A Escritura não ensina que existe um “espírito adormecido” que precisa apenas ser ativado; ensina que o homem precisa nascer de novo (João 3:3-6).

  1. A Lei é para a carne e as Epístolas são para o espírito?

Aqui precisamos de muito equilíbrio. A Lei foi dada por Deus (Êxodo 20). Ela é “santa, justa e boa” (Romanos 7:12). O problema nunca foi a Lei, mas o homem na carne. Romanos 8:3 diz que a Lei era fraca por causa da carne.

A função da Lei é clara: “pela lei vem o conhecimento do pecado” (Romanos 3:20) e “a lei nos serviu de aio para nos conduzir a Cristo” (Gálatas 3:24). Portanto, a Lei não foi dada apenas para “os que estão na carne”, como se não tivesse valor espiritual; ela revela o caráter de Deus e expõe o estado do homem.

Na dispensação atual, sim, a revelação do mistério da Igreja foi dada especialmente nas Epístolas, sobretudo nas cartas de Paulo (Efésios 3:3-6; Colossenses 1:25-27). Ali temos a plena exposição da posição celestial do crente em Cristo, algo não revelado no Antigo Testamento.

Mas não podemos dizer que o Antigo Testamento não despertava o espírito. O Senhor Jesus disse: “Errais, não conhecendo as Escrituras” (Mateus 22:29), referindo-se justamente ao Antigo Testamento. Em Lucas 24:27, Ele começou por Moisés e por todos os profetas e lhes expôs o que a seu respeito constava em todas as Escrituras.

O problema nunca foi falta de revelação suficiente, mas incredulidade.

  1. Por que muitos leem as Epístolas e não despertam?

Efésios 5:14 diz: “Desperta, tu que dormes, e levanta-te dentre os mortos, e Cristo te esclarecerá.” No contexto, Paulo está falando a crentes que estavam andando como filhos das trevas. Não se trata ali de novo nascimento, mas de restauração prática.

Quanto à sua pergunta: por que muitos leem as Epístolas e continuam em sistemas denominacionais?

Precisamos considerar alguns fatores:

a) Novo nascimento

Nem todos os que leem as Epístolas são nascidos de novo. 1 Coríntios 2:14 afirma: “Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura.” Se não houve regeneração, a leitura não produzirá entendimento espiritual.

b) Crescimento espiritual

Mesmo entre os salvos, há carnais. Em 1 Coríntios 3:1-3, Paulo chama os crentes de Corinto de “carnais” e “meninos em Cristo”. O fato de serem convertidos não os livrou automaticamente de divisões e sistemas humanos.

c) Influência da tradição

O sistema religioso tem força psicológica e cultural. Em Marcos 7:13, o Senhor Jesus falou de invalidar a Palavra de Deus pela tradição. Muitas vezes, o crente lê a Escritura através das lentes do sistema em que foi formado.

d) Custo da obediência

Despertar para certas verdades implica romper com estruturas, perder posições, amizades e reconhecimento. Nem todos estão dispostos a pagar esse preço. João 12:42-43 mostra líderes que creram, mas não confessavam, porque amavam mais a glória dos homens.

  1. O problema é o sistema ou o coração?

É correto reconhecer que muitos sistemas religiosos foram organizados segundo modelos humanos, e não segundo o padrão simples das igrejas locais do Novo Testamento, como vemos em Atos dos Apóstolos 2:42 e nas Epístolas.

Porém, o ponto central não é apenas sair de um sistema, mas andar na verdade. Em Apocalipse 2–3 vemos assembleias locais que já tinham problemas sérios, mesmo sem o modelo denominacional moderno. O Senhor Jesus não chama apenas para mudar de estrutura, mas para arrependimento.

O verdadeiro despertar não é apenas compreender a distinção entre Lei e graça, ou entre Israel e Igreja, mas viver na dependência prática do Senhor Jesus Cristo.

  1. Conclusão equilibrada

– Deus fala ao homem por Sua Palavra, aplicando-a pelo Espírito Santo ao coração e à consciência.
– A Lei revela o pecado; as Epístolas revelam a posição celestial do crente.
– O despertar espiritual depende do novo nascimento, da submissão à Palavra e da disposição de obedecer.
– Nem todo aquele que lê desperta, porque o entendimento espiritual não é apenas intelectual, mas moral e espiritual.

O ponto decisivo é este: “A exposição das tuas palavras dá luz” (Salmo 119:130). Mas essa luz só ilumina aquele que se curva diante da autoridade da Palavra.

Continue examinando as Escrituras, mas sempre permitindo que elas examinem o seu próprio coração primeiro.

Josué Matos