Alguém que me escreveu no WhatsApp:
Irmão Josué, bom dia.
O catolicismo romano alega que o princípio de Sola Scriptura acaba por multiplicar a variedade de ensinos e práticas, por falta do uso da Tradição e do Magistério da Igreja, bem como pela falta de um cabeça visível e autoritativo na definição de doutrinas — referindo-se à negação da autoridade do papa por parte dos cristãos bíblicos.
Como responder a isto? Precisamos da Tradição? Como interpretar corretamente a Escritura Sagrada para não se pregar doutrinas humanas disfarçadas de doutrinas bíblicas?
Minha Resposta:
Essa é uma questão muito importante, pois toca diretamente na autoridade final da fé cristã. A resposta bíblica precisa começar estabelecendo um princípio fundamental: a Palavra de Deus é a única autoridade infalível em matéria de fé e prática.
1. A Escritura é suficiente e a autoridade final
A própria Bíblia afirma sua suficiência para ensinar a verdade.
O apóstolo Paulo escreveu:
“Toda a Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça; para que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente instruído para toda a boa obra” (2 Timóteo 3:16–17).
Observe o que o texto afirma:
a Escritura torna o homem de Deus perfeitamente instruído. Se algo fosse necessário além da Escritura como autoridade infalível — como tradição ou magistério — essa declaração não poderia ser verdadeira.
Outro exemplo aparece em Atos 17:11. Os bereanos foram elogiados porque examinavam diariamente as Escrituras para ver se as coisas eram assim. Eles não consultaram um magistério, nem uma tradição oral; testaram tudo pela Palavra de Deus.
Portanto, o princípio bíblico é claro:
toda doutrina deve ser examinada pela Escritura.
2. O problema da tradição religiosa
A Bíblia não condena toda tradição. Existe uma tradição legítima: aquilo que os apóstolos ensinaram e que foi transmitido à igreja.
Por exemplo, Paulo fala das “tradições” apostólicas em 2 Tessalonicenses 2:15.
Entretanto, a Escritura também denuncia um outro tipo de tradição: tradições humanas que substituem ou anulam a Palavra de Deus.
O Senhor Jesus confrontou exatamente isso quando disse:
“Em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens… invalidando a Palavra de Deus pela vossa tradição” (Marcos 7:7-13).
Os fariseus tinham um sistema religioso muito parecido com o que hoje se chama de tradição religiosa: interpretações acumuladas, rituais e práticas transmitidas ao longo das gerações. Mas o problema é que essas tradições passaram a ter mais autoridade do que a própria Palavra de Deus.
Assim, o próprio Senhor Jesus demonstrou que a tradição humana pode corromper a verdade divina.
3. O erro de confiar em autoridade humana
Outro argumento frequentemente usado é que a igreja precisa de uma autoridade visível, como um papa ou magistério.
Mas a pergunta essencial é: onde a Escritura ensina que tal autoridade existiria?
A doutrina de sucessão apostólica universal ou autoridade papal não é estabelecida por declarações claras da Bíblia, mas por desenvolvimentos posteriores na história da igreja baseados na tradição eclesiástica.
No Novo Testamento vemos outra realidade:
Cristo é a cabeça da igreja (Colossenses 1:18).
A igreja está edificada sobre o fundamento dos apóstolos e profetas (Efésios 2:20).
Esse fundamento já foi colocado.
Depois da era apostólica, não existe na Escritura qualquer ensino sobre sucessores com autoridade doutrinária infalível.
4. A variedade de interpretações não prova que a Bíblia é insuficiente
Os católicos frequentemente dizem:
“Sem tradição e magistério surgem muitas interpretações”.
Mas isso não prova que a Escritura seja insuficiente. Mostra apenas que os homens podem interpretá-la mal.
Mesmo sistemas religiosos que afirmam ter autoridade centralizada também apresentam divergências internas. O problema não é a Escritura, mas o coração humano e o uso incorreto da interpretação.
Por isso a Bíblia apresenta princípios de interpretação.
Um dos mais importantes é interpretar a Escritura de forma literal, gramatical e contextual, permitindo que a própria Bíblia explique a Bíblia. Esse método foi usado pelo próprio Senhor Jesus e pelos apóstolos, e é considerado a base da interpretação correta.
5. Como interpretar corretamente a Escritura
A própria Bíblia mostra os princípios básicos:
1. Comparar Escritura com Escritura
1 Coríntios 2:13 fala de “comparando as coisas espirituais com as espirituais”.
2. Usar o sentido normal do texto
A Bíblia foi escrita em linguagem humana para ser compreendida, seguindo as regras normais da linguagem e do contexto.
3. Submeter toda doutrina ao ensino global da Bíblia
Nenhuma doutrina deve depender de um único versículo isolado.
4. Depender da iluminação do Espírito Santo
João 16:13 ensina que o Espírito Santo guia os crentes em toda a verdade.
6. A verdadeira segurança contra erro doutrinário
A proteção contra erro não é um sistema humano de autoridade, mas três coisas que a própria Escritura estabelece:
A autoridade suprema da Palavra de Deus
A ação do Espírito Santo guiando os crentes
O exame constante das Escrituras
Por isso João escreveu:
“A unção que vós recebestes dele permanece em vós… e ela vos ensina todas as coisas” (1 João 2:27).
Isso não significa independência arrogante, mas dependência do Espírito Santo por meio da Palavra.
Conclusão
Portanto, a resposta bíblica é clara:
A Escritura é suficiente e a autoridade final.
A tradição humana pode corromper a verdade.
Nenhuma autoridade eclesiástica pode substituir a Palavra de Deus.
A interpretação correta vem do uso fiel da própria Escritura, iluminada pelo Espírito Santo.
Assim, o verdadeiro princípio não é confiar em um sistema religioso, mas fazer a mesma pergunta que marcou a Reforma e deve marcar todo cristão:
“Que diz a Escritura?” (Romanos 4:3).
Josué Matos