Alguém que me escreveu no WhatsApp:
Irmão, tenho notado que a maioria entre os nossos irmãos utiliza a Bíblia ACF.
No seu aplicativo, você usa a ARA.
Há muitas críticas, no meio conservador, contra a ARA.
Sobre essa questão da manuscritologia, qual versão é mais coerente com os textos originais: a ACF, a ARA ou o Texto Majoritário?
Minha Resposta:
Irmão, essa é uma questão importante, mas precisamos começar fazendo uma distinção. ACF e ARA são traduções portuguesas; “Texto Majoritário” não é uma tradução da Bíblia, mas uma edição do texto grego do Novo Testamento, estabelecida principalmente com base na leitura predominante na tradição manuscrita bizantina.
Portanto, na realidade, temos duas questões diferentes: qual texto grego está mais próximo dos escritos originais dos apóstolos e, depois, qual tradução portuguesa representa melhor esse texto.
A ACF e o Textus Receptus
A Almeida Corrigida Fiel (ACF) segue, no Novo Testamento, essencialmente o chamado Textus Receptus, ou Texto Recebido. É daí que surge grande parte da preferência por ela em círculos conservadores.
O Textus Receptus está ligado às primeiras edições impressas do Novo Testamento grego produzidas a partir do século XVI. Erasmo publicou sua primeira edição em 1516, e outras edições foram posteriormente preparadas por Estéfano, Beza e os irmãos Elzevir.
Aqui é importante esclarecer uma confusão muito comum: Textus Receptus e Texto Majoritário não são exatamente a mesma coisa.
Eles são muito semelhantes porque ambos pertencem, em grande parte, à tradição textual bizantina. Entretanto, há lugares em que o Textus Receptus apresenta uma leitura que não é sustentada pela maioria dos manuscritos gregos.
Portanto:
ACF → baseada essencialmente no Textus Receptus.
Texto Majoritário → reconstruído principalmente a partir da leitura predominante nos manuscritos da tradição bizantina.
ARA → utiliza um texto grego crítico, levando em consideração manuscritos muito mais antigos e outras testemunhas textuais.
A ARA e os manuscritos mais antigos
A Almeida Revista e Atualizada não segue simplesmente o Textus Receptus. Sua revisão foi realizada utilizando edições críticas do texto grego que incorporavam evidências manuscritas que não estavam disponíveis aos primeiros editores do Novo Testamento grego.
Esse ponto é historicamente importante.
Quando João Ferreira de Almeida realizou sua tradução, o conhecimento dos manuscritos gregos era muito menor do que temos atualmente. Muitos papiros e importantes testemunhos antigos ainda não haviam sido descobertos ou devidamente estudados.
Isso significa que a ARA, em determinadas passagens, encontra-se mais próxima de testemunhos gregos antigos do que a ACF.
Todavia, isso não significa que toda decisão textual da ARA esteja necessariamente correta.
A crítica textual trabalha comparando manuscritos e procurando determinar qual leitura tem maior probabilidade de representar o texto originalmente escrito. Nesse processo são considerados vários fatores: antiguidade do manuscrito, distribuição geográfica da leitura, qualidade da testemunha, relacionamento entre manuscritos e evidências internas do próprio texto.
Não se deve simplesmente afirmar:
“Mais antigo é sempre melhor.”
Nem:
“A leitura encontrada no maior número de manuscritos é sempre a original.”
Ambas as afirmações simplificam excessivamente uma questão bastante complexa.
E o Texto Majoritário?
É justamente aqui que o Texto Majoritário se torna interessante.
Ele não deve ser confundido com o Textus Receptus.
Se tivéssemos mil manuscritos gregos contendo determinada passagem e oitocentos apresentassem uma leitura, o princípio majoritário daria grande importância àquela leitura predominante. Isso é diferente de simplesmente reproduzir uma edição impressa do século XVI.
Por isso, pessoalmente, considero o Texto Majoritário muito importante e digno de atenção.
Entretanto, também não penso que devamos transformar qualquer edição do texto grego numa espécie de “texto inspirado”. A inspiração pertence aos escritos originalmente dados por Deus, não ao trabalho posterior de qualquer editor.
Paulo escreveu:
“Toda a Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça” (Segunda Epístola a Timóteo 3:16).
Pedro também declarou que homens santos de Deus falaram “inspirados pelo Espírito Santo” (Segunda Epístola de Pedro 1:21).
A inspiração, portanto, está relacionada ao texto dado por Deus por intermédio dos escritores sagrados.
Então, a ARA é uma Bíblia liberal?
Não considero correto fazer essa afirmação simplesmente porque a ARA utiliza um texto crítico.
Existem críticas legítimas a determinadas escolhas textuais ou tradutórias da ARA, assim como podemos apontar dificuldades na ACF. Mas daí concluir que a ARA não é a Palavra de Deus ou que deliberadamente procura destruir doutrinas fundamentais é ir além das evidências.
Veja algo muito importante.
Nenhuma doutrina fundamental da fé cristã depende exclusivamente de uma variante textual discutida.
A divindade do Senhor Jesus Cristo não depende de um versículo cuja autenticidade seja discutida. Ela aparece em todo o Novo Testamento.
João 1:1 declara:
“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.”
João 20:28 registra Tomé dizendo ao Senhor Jesus:
“Senhor meu e Deus meu!”
Colossenses 2:9 declara:
“Porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade.”
Hebreus 1:8 apresenta o Filho sendo chamado de Deus.
Assim também acontece com Sua ressurreição, nascimento virginal, morte expiatória e segunda vinda. Essas doutrinas estão estabelecidas por numerosas passagens.
Portanto, não devemos assustar os irmãos dizendo que uma determinada versão “retirou uma doutrina” simplesmente porque existe uma variante textual em determinada passagem.
Por que uso a ARA?
Eu utilizo a ARA principalmente porque considero sua linguagem muito boa para estudo e porque, em diversas passagens, ela representa adequadamente o texto grego.
Mas isso não significa que eu considere a ARA perfeita.
Há lugares em que prefiro a tradução da ACF ou da ARC. Há outros em que considero a ARA mais precisa. E existem casos em que nenhuma delas consegue transmitir perfeitamente determinada particularidade do grego.
Um exemplo muito simples está em Primeira Epístola aos Coríntios 12:27.
Algumas versões traduzem:
“Vós sois o corpo de Cristo.”
A ARA traduz:
“Vós sois corpo de Cristo.”
Neste caso, a ausência do artigo é importante, e a ARA preserva melhor essa característica do grego. Paulo está escrevendo à igreja local em Corinto. Ele não está dizendo que aquela igreja local era todo “o Corpo de Cristo”, mas que ela possuía caráter de corpo de Cristo.
Esse pequeno exemplo mostra por que não devemos declarar que uma versão é sempre superior à outra em todos os versículos.
A própria tradução de Almeida passou por revisões
Outro ponto que às vezes esquecemos é que não existe simplesmente “a Bíblia de Almeida” como se houvesse uma única forma textual imutável desde João Ferreira de Almeida.
Sua tradução passou por numerosas revisões.
Temos, entre outras:
Almeida Revista e Corrigida;
Almeida Revista e Atualizada;
Almeida Corrigida Fiel.
Cada uma possui sua própria história editorial.
Portanto, quando alguém diz “eu só uso Almeida”, ainda precisamos perguntar: qual revisão de Almeida?
Qual está mais próxima dos originais?
Se a pergunta for estritamente manuscritológica, eu não responderia simplesmente “ACF” ou “ARA”.
Eu diria que precisamos separar tradução e texto grego.
Entre Textus Receptus e Texto Majoritário, considero o Texto Majoritário uma testemunha extremamente importante da tradição manuscrita do Novo Testamento e, em vários lugares, preferível ao Textus Receptus.
Ao mesmo tempo, não descartaria automaticamente as evidências apresentadas pelos manuscritos antigos utilizados nas edições críticas. Existem leituras em que essas testemunhas antigas oferecem razões muito fortes para serem consideradas.
Portanto, não acredito que seja prudente construir uma doutrina de preservação dizendo que Deus preservou Sua Palavra exclusivamente no Textus Receptus, exclusivamente no Texto Majoritário ou exclusivamente em determinada edição moderna do texto crítico.
Deus preservou Sua Palavra através da extraordinária abundância da tradição manuscrita.
As diferenças são muito menores do que às vezes parecem
Quando alguém começa a estudar crítica textual, pode ficar assustado ao ouvir falar em milhares de variantes.
Mas “variante” não significa necessariamente uma alteração doutrinária.
Grande parte delas consiste em diferenças como:
ordem das palavras;
grafia;
presença ou ausência de artigo;
formas gramaticais;
repetições;
pequenas omissões ou acréscimos;
substituição por sinônimos.
Como o grego possui uma estrutura gramatical diferente do português, até mudanças na ordem das palavras muitas vezes não modificam o sentido.
Há, naturalmente, variantes maiores e algumas passagens bastante conhecidas que precisam ser examinadas individualmente. Mas não existe fundamento para imaginar que desconhecemos aquilo que os apóstolos ensinaram.
Minha recomendação
Eu não faria dessa questão motivo de divisão entre irmãos.
Se um irmão prefere utilizar a ACF por confiar na tradição do Textus Receptus, respeito sua decisão.
Se outro utiliza a ARA, não considero correto acusá-lo de estar utilizando uma Bíblia corrompida.
E se alguém deseja aprofundar-se realmente na questão textual, então aconselharia estudar também o Texto Majoritário e as edições críticas do Novo Testamento grego, examinando as variantes individualmente.
O mais importante é não transformar uma tradução em objeto de uma fidelidade que pertence somente à Palavra de Deus.
Os bereanos foram elogiados porque:
“...de bom grado receberam a palavra, examinando cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim” (Atos dos Apóstolos 17:11).
Esse deve continuar sendo nosso princípio.
Não somos seguidores da ACF, da ARA, do Textus Receptus, do Texto Majoritário ou de qualquer comissão de crítica textual. Somos servos do Senhor Jesus Cristo e queremos conhecer, com a maior exatidão possível, aquilo que Deus revelou em Sua Palavra.
Assim, para leitura pública e pessoal, qualquer uma dessas boas versões pode ser utilizada com proveito. Para estudo mais profundo, especialmente quando existe diferença significativa entre elas, o melhor procedimento é consultar o texto grego, comparar as variantes e considerar cuidadosamente o contexto e todo o testemunho das Escrituras.
E a nova tradução do Novo Testamento com Léxico Grego?
Há ainda um ponto que considero importante mencionar. Recentemente desenvolvi para Android o aplicativo Novo Testamento com Léxico Grego, no qual fiz uma nova tradução do Novo Testamento diretamente a partir do texto grego, procurando manter maior proximidade possível com a estrutura, o vocabulário e as particularidades do original.
O propósito dessa tradução não foi simplesmente produzir mais uma versão em português nem substituir traduções consagradas, como ACF, ARC ou ARA. O objetivo principal foi oferecer ao leitor uma ferramenta de estudo que lhe permita aproximar-se do texto grego mesmo sem conhecer profundamente a língua.
Por isso, o aplicativo une a tradução portuguesa a um léxico grego. Em milhares de palavras do Novo Testamento há uma identificação numérica que permite consultar informações sobre o termo grego correspondente. Assim, o leitor não fica limitado à maneira como determinada palavra foi vertida para o português, mas pode investigar o vocábulo que está por trás da tradução e compreender melhor seu significado.
Isso é especialmente importante porque nenhuma tradução consegue reproduzir perfeitamente todas as características do grego. Às vezes, uma única palavra grega possui uma amplitude de significado que exige várias palavras em português. Em outros casos, detalhes como artigo, tempo verbal, voz verbal, preposição ou construção gramatical podem contribuir para a compreensão da passagem.
Foi justamente pensando nisso que procurei fazer uma tradução mais voltada ao estudo: suficientemente clara em português, mas procurando conservar, sempre que possível, elementos importantes do texto grego.
O aplicativo também permite que o estudante compare aquilo que está lendo com outras traduções. Não vejo essa nova tradução como concorrente da ACF, ARA ou de outras boas versões. Pelo contrário, ela pode funcionar como mais uma ferramenta de comparação e investigação.
Esse também é um princípio importante quando tratamos de manuscritologia. Quanto mais profundamente estudamos a transmissão do Novo Testamento, menos devemos depender simplesmente do argumento: “Minha versão diz assim”. A pergunta mais importante passa a ser: “O que encontramos no texto grego e quais são as evidências para essa leitura?”
Foi essa preocupação que esteve por trás do desenvolvimento do Novo Testamento com Léxico Grego para Android: colocar nas mãos do leitor comum uma ferramenta que o ajude a ultrapassar, dentro de suas possibilidades, a barreira existente entre a tradução portuguesa e a língua em que o Novo Testamento foi escrito.
Assim, continuo utilizando e consultando traduções como ARA, ACF e outras, mas agora também disponho dessa tradução vinculada ao léxico como ferramenta de estudo. Nenhuma tradução humana deve ocupar o lugar que pertence à Palavra inspirada. Nosso propósito deve ser sempre chegar, com reverência e cuidado, o mais próximo possível daquilo que os escritores sagrados registraram.
Como Paulo escreveu: “Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade” (Segunda Epístola a Timóteo 2:15).
Josué Matos
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