Alguém que escreveu no WhatsApp:
Meu Deus, irmão, fica tudo muito claro. Quando Jesus disse aquelas palavras em Mateus 5:32 e 19:9, em tese dando uma exceção, na verdade Ele apenas estava cumprindo e seguindo a lei que ainda estava em vigor, acerca da pureza entre o povo de Israel. As denominações, ditas igrejas, estão escondendo isso para não perder membros dizimistas, que é outra falsa doutrina. Eu não consigo enxergar de outra forma, pois há muitos divorciados e recasados. Vem se cumprindo uma grande apostasia à margem da sã doutrina.
Minha Resposta:
Você percebeu um ponto muito importante, especialmente ao observar que Mateus 5:32 e Mateus 19:9 precisam ser entendidos dentro do contexto judaico em que o Senhor Jesus pronunciou essas palavras. Entretanto, eu faria uma pequena precisão na maneira de expressar isso: não diria simplesmente que Jesus estava apenas “cumprindo e seguindo a lei”. O Senhor vai além disso. Ele mostra que a permissão mosaica para o repúdio nunca representou o propósito original de Deus para o casamento.
Quando os fariseus perguntaram: “É lícito ao homem repudiar sua mulher por qualquer motivo?”, o Senhor não começou Sua resposta em Deuteronômio. Ele voltou muito mais atrás, à criação:
“Não tendes lido que aquele que os fez no princípio macho e fêmea os fez, e disse: Portanto, deixará o homem pai e mãe, e se unirá à sua mulher, e serão dois numa só carne? Assim não são mais dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem” (Mateus 19:4-6).
Esse é o fundamento. O padrão do casamento não começa com Moisés, mas com Deus na criação, em Gênesis 2:24.
Quando os fariseus perguntaram por que, então, Moisés permitiu a carta de divórcio, o Senhor explicou:
“Moisés, por causa da dureza dos vossos corações, vos permitiu repudiar vossas mulheres; mas ao princípio não foi assim” (Mateus 19:8).
Observe cuidadosamente: “ao princípio não foi assim”.
Portanto, a permissão existente na legislação mosaica não anulava o princípio estabelecido por Deus na criação. Era uma concessão relacionada à dureza do coração humano, não a expressão do ideal divino.
A questão da “exceção”
Aqui chegamos justamente ao ponto que você mencionou.
Mateus registra:
“Eu vos digo, porém, que qualquer que repudiar sua mulher, não sendo por causa de fornicação, e casar com outra, comete adultério” (Mateus 19:9).
É muito importante observar que o Senhor emprega palavras diferentes para “fornicação” e “adultério”.
A palavra traduzida por fornicação é porneia.
A palavra relacionada ao adultério é moicheia.
Essa distinção ajuda bastante na compreensão do texto. Se o Senhor estivesse simplesmente dizendo que o adultério depois do casamento desfazia o vínculo matrimonial, seria natural perguntar por que Ele não empregou diretamente a palavra referente ao adultério na chamada cláusula de exceção.
Além disso, há um detalhe muito significativo: essa cláusula aparece em Mateus, mas não aparece nas declarações paralelas de Marcos e Lucas.
Em Marcos lemos:
“Qualquer que deixar a sua mulher e casar com outra adultera contra ela. E, se a mulher deixar a seu marido e casar com outro, adultera” (Marcos 10:11-12).
Lucas é igualmente direto:
“Qualquer que deixa sua mulher e casa com outra adultera; e aquele que casa com a repudiada pelo marido adultera também” (Lucas 16:18).
Por que, então, Mateus apresenta a expressão relacionada à porneia?
O próprio Evangelho segundo Mateus fornece uma chave importante no primeiro capítulo.
José e Maria estavam desposados, mas ainda não haviam consumado o casamento:
“Ora, o nascimento de Jesus Cristo foi assim: Estando Maria, sua mãe, desposada com José, antes de se ajuntarem...” (Mateus 1:18).
Mesmo assim, José é chamado de “marido”, e Maria é chamada de sua “mulher”:
“José, seu marido, como era justo e a não queria infamar, intentou deixá-la secretamente” (Mateus 1:19).
E o anjo lhe disse:
“José, filho de Davi, não temas receber a Maria, tua mulher” (Mateus 1:20).
Isso é muito importante.
No sistema judaico de desposamento, o compromisso possuía uma seriedade jurídica muito maior do que aquilo que hoje chamamos simplesmente de namoro ou noivado. Uma mulher desposada já podia ser chamada “mulher” daquele homem, embora ainda não tivessem se ajuntado.
Isso também aparece em Deuteronômio 22:23-24, onde uma “moça virgem desposada” é considerada “mulher do seu próximo”.
Assim, há uma compreensão muito coerente da cláusula de Mateus: a “fornicação” mencionada pelo Senhor se refere à imoralidade descoberta antes da consumação do casamento, dentro daquele contexto judaico do desposamento.
José e Maria constituem praticamente uma ilustração do próprio assunto no início do Evangelho.
José acreditou inicialmente que Maria havia sido infiel durante o período do desposamento e, por isso, “intentou deixá-la secretamente”. Naturalmente, depois recebeu a revelação divina de que a gravidez de Maria era obra sobrenatural do Espírito Santo.
Isso também explica por que Mateus, Evangelho profundamente relacionado ao contexto judaico, registra essa cláusula, enquanto Marcos e Lucas apresentam a regra sem ela.
O casamento continua enquanto ambos vivem
Quando chegamos às epístolas, onde encontramos instruções dirigidas às igrejas, a linguagem torna-se ainda mais direta.
Romanos 7:2-3 declara:
“Porque a mulher que está sujeita ao marido, enquanto ele viver, está-lhe ligada pela lei; mas, morto o marido, está livre da lei do marido. De sorte que, vivendo o marido, será chamada adúltera se for de outro marido; mas, morto o marido, livre está da lei, e assim não será adúltera se for de outro marido.”
Observe a expressão:
“enquanto ele viver”.
E depois:
“morto o marido, está livre”.
Paulo apresenta a morte, não o divórcio civil, como aquilo que põe fim ao vínculo matrimonial.
Isso concorda com 1 Coríntios 7.
Quando Paulo trata da possibilidade de separação entre cristãos, não diz que o crente separado está livre para procurar outro casamento:
“Todavia, aos casados mando, não eu, mas o Senhor, que a mulher se não aparte do marido. Se, porém, se apartar, que fique sem casar ou que se reconcilie com o marido; e que o marido não deixe a mulher” (1 Coríntios 7:10-11).
As duas possibilidades apresentadas são muito claras:
permanecer sem casar;
ou reconciliar-se.
Não encontramos uma terceira opção dizendo: “divorcie-se e case com outra pessoa”.
Mais adiante, Paulo reafirma o mesmo princípio:
“A mulher casada está ligada pela lei todo o tempo que o seu marido vive; mas, se falecer o seu marido, fica livre para casar com quem quiser, contanto que seja no Senhor” (1 Coríntios 7:39).
Novamente:
“todo o tempo que o seu marido vive”.
E novamente a liberdade aparece quando o marido “falecer”.
Por isso, precisamos distinguir aquilo que a legislação civil reconhece daquilo que Deus reconhece. Um tribunal pode declarar duas pessoas legalmente divorciadas perante o Estado, mas isso não significa automaticamente que o vínculo estabelecido por Deus deixou de existir.
Foi justamente por isso que o Senhor disse:
“Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem” (Mateus 19:6).
Essa declaração é muito mais profunda do que simplesmente proibir uma determinada formalidade jurídica. O casamento é apresentado como uma união realizada diante de Deus.
A própria linguagem de “adultério” depois de um novo casamento demonstra isso.
Se o primeiro casamento tivesse sido completamente dissolvido diante de Deus pelo divórcio, casar novamente não poderia ser chamado de adultério. Adultério pressupõe a existência de um vínculo matrimonial anterior.
É justamente isso que torna tão forte Lucas 16:18:
“Qualquer que deixa sua mulher e casa com outra adultera; e aquele que casa com a repudiada pelo marido adultera também.”
A mulher foi repudiada. Humanamente, houve separação. Entretanto, casar com ela ainda é chamado de adultério. Isso demonstra que a ruptura reconhecida pelos homens não necessariamente desfaz aquilo que Deus estabeleceu.
Entretanto, precisamos ter cuidado com outra parte do comentário.
É verdade que vivemos dias de grande abandono da verdade bíblica. O Novo Testamento realmente profetiza:
“Porque virá tempo em que não sofrerão a sã doutrina; mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores conforme as suas próprias concupiscências” (2 Timóteo 4:3).
Também lemos:
“Mas os homens maus e enganadores irão de mal para pior, enganando e sendo enganados” (2 Timóteo 3:13).
Contudo, devemos evitar afirmar que todas as igrejas ou todos os ensinadores que interpretam Mateus 19:9 de maneira diferente fazem isso conscientemente “para não perder dizimistas”.
Podemos demonstrar biblicamente que uma interpretação está errada sem julgar necessariamente as motivações do coração de todos que a sustentam.
Existem pessoas sinceras que foram ensinadas dessa maneira e nunca examinaram profundamente o assunto. Existem também exposições diferentes da cláusula de Mateus 19:9 entre pessoas que reconhecem a autoridade das Escrituras.
Nosso dever é:
“Pregar a palavra, instar a tempo e fora de tempo, redarguir, repreender, exortar, com toda a longanimidade e doutrina” (2 Timóteo 4:2).
A verdade não precisa ser enfraquecida, mas deve ser apresentada com fidelidade, paciência e amor.
Quanto ao dízimo, também é necessário fazer a distinção dispensacional. O dízimo pertence claramente ao sistema de Israel e aparece na Lei de Moisés, enquanto o ensino dado às igrejas no Novo Testamento enfatiza contribuição voluntária, proporcional, consciente e alegre:
“Cada um contribua segundo propôs no seu coração; não com tristeza ou por necessidade; porque Deus ama ao que dá com alegria” (2 Coríntios 9:7).
Assim, não devemos trocar uma ordenança dada a Israel por uma espécie de imposto religioso imposto à Igreja.
Finalmente, quanto à apostasia, devemos igualmente usar o termo biblicamente e com cuidado. Certamente existe crescente abandono da verdade, e as Escrituras já advertiam que isso aconteceria. Mas nossa responsabilidade não é apenas apontar o erro dos outros. Devemos primeiro permanecer pessoalmente firmes na verdade.
Paulo escreveu a Timóteo:
“Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste e de que foste inteirado” (2 Timóteo 3:14).
E Judas exorta:
“Batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos” (Judas 3).
Portanto, a resposta à confusão dos nossos dias não é adaptar as Escrituras à sociedade, mas voltar humildemente às Escrituras.
No casamento, devemos voltar ao princípio:
“Serão dois numa só carne” (Mateus 19:5).
Na permanência do vínculo:
“O que Deus ajuntou não o separe o homem” (Mateus 19:6).
Na separação:
“Fique sem casar ou que se reconcilie” (1 Coríntios 7:11).
Na duração do vínculo:
“A mulher casada está ligada pela lei todo o tempo que o seu marido vive” (1 Coríntios 7:39).
E na liberdade para um novo casamento:
“Mas, se falecer o seu marido, fica livre para casar com quem quiser, contanto que seja no Senhor” (1 Coríntios 7:39).
Quando juntamos essas passagens, o ensino apresenta uma coerência admirável. Não precisamos construir uma doutrina sobre uma frase isolada de Mateus 19:9. Precisamos interpretar essa frase à luz do contexto judaico de Mateus e, depois, compará-la com Marcos 10:11-12; Lucas 16:18; Romanos 7:1-3 e 1 Coríntios 7:10-11,39.
A Escritura deve interpretar a Escritura.
E acima das mudanças culturais, das legislações humanas e das conveniências religiosas permanece a palavra do próprio Senhor Jesus:
“Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem” (Mateus 19:6).
Josué Matos