Áudios

Pesquisar este blog

Eu nunca ouvi uma pregação desse texto Gênesis 32 onde Jacó luta com Deus que realmente tenha mostrado o real sentido

 Alguém que me escreveu por e-mail:

Boa tarde irmão. Espero que estejam bem! Eu nunca ouvi uma pregação desse texto Gênesis 32 onde Jacó luta com Deus que realmente tenha mostrado o real sentido. Me parece uma luta interior dele um desejo imenso de mudança de caráter, para ter o caráter de Deus (Cristo). Me vejo numa situação semelhante, através da palavra tenho me enxergado mais nitidamente. O irmão poderia me explanar esse texto? Deus o abençoe.

Minha Resposta:

Gênesis 32 é, de fato, um dos textos mais profundos da vida de Jacó. Não é apenas um episódio curioso de luta física, mas um marco espiritual decisivo na história desse homem.

Contexto do capítulo

Jacó estava retornando à terra prometida após muitos anos fora. Ele havia fugido de Esaú, enganado o pai, vivido sob tensão com Labão e acumulado bens. Agora precisava enfrentar o passado. Em Gênesis 32:7 lemos que “Jacó temeu muito e angustiou-se”. A crise externa revelou a crise interna.

Ele ora (Gênesis 32:9-12), mas ainda tenta resolver tudo por estratégias humanas (divide o povo, envia presentes). Jacó ainda era o “suplantador”, aquele que confiava em sua astúcia.

A luta em Peniel

Em Gênesis 32:24 diz: “E Jacó ficou só; e lutou com ele um homem, até que a alva subiu.”

O texto começa chamando de “um homem”. Porém, em Gênesis 32:28 o lutador declara: “Como príncipe lutaste com Deus e com os homens, e prevaleceste.” E no versículo 30 Jacó diz: “Tenho visto a Deus face a face, e a minha alma foi salva.”

Oséias 12:3-4 esclarece que foi um anjo, mas também afirma que ele “chorou e lhe suplicou”. Portanto, não foi uma luta física comum, nem apenas simbólica. Foi um encontro real, onde Deus assumiu forma humana para tratar profundamente com Jacó.

Não foi Jacó que tomou a iniciativa da luta. Deus veio a ele.

O que realmente aconteceu ali?

  1. Deus quebrou a autossuficiência de Jacó

Durante a noite inteira houve resistência. Quando “via que não prevalecia contra ele” (Gênesis 32:25), o texto não significa fraqueza divina, mas que Deus permitiu a resistência até o ponto certo. Então tocou na coxa de Jacó — e ele ficou manco.

Um simples toque bastou.

O homem que sempre correu, manipulou e planejou agora pisaria mancando para o resto da vida. A marca física era o selo de uma transformação espiritual.

  1. A mudança de nome

“Não se chamará mais o teu nome Jacó, mas Israel” (Gênesis 32:28).

Jacó significa suplantador. Israel significa “aquele que luta com Deus” ou “príncipe com Deus”.

A transformação não foi apenas moral. Foi identitária. Deus não apenas corrige comportamento; Ele muda identidade.

  1. A aparente contradição: ele prevaleceu?

O texto diz que Jacó prevaleceu. Mas como? Ele saiu manco.

Ele prevaleceu não porque venceu Deus, mas porque se rendeu. Ele segurou e disse: “Não te deixarei ir, se me não abençoares” (Gênesis 32:26).

Essa é a vitória espiritual: depender exclusivamente da bênção divina.

Luta interior?

O irmão mencionou algo muito sensível: a luta interior e o desejo de mudança de caráter.

Há verdade nisso, mas precisamos manter equilíbrio. Não foi apenas um conflito psicológico. Foi um confronto direto com Deus. Porém, esse confronto atingiu o interior de Jacó.

A mudança de caráter não veio por esforço próprio, mas por quebrantamento produzido por Deus.

Aplicação para nós:

  1. Deus muitas vezes nos coloca a sós.

“Jacó ficou só.” Antes da transformação, há solidão. Deus nos separa das distrações.

  1. A transformação exige quebrantamento.

Enquanto confiamos em estratégias, reputação ou força, continuaremos sendo “Jacó”. Deus toca no ponto mais sensível.

  1. A marca permanece.

Jacó mancou até o fim da vida. A lembrança do encontro com Deus não foi apagada. Toda transformação real deixa marcas.

  1. O novo nome vem depois da rendição.

Não nos tornamos espirituais por decisão própria, mas por obra divina em nós.

Uma palavra pessoal ao irmão

Se o irmão tem se visto mais claramente à luz da Palavra, isso é graça. Hebreus 4:12 diz que a Palavra discerne pensamentos e intenções do coração.

O momento em que começamos a nos enxergar como somos é o começo de Peniel.

Talvez o Senhor esteja tratando exatamente nesse nível: não apenas ajustando atitudes externas, mas tocando na raiz da autoconfiança, para produzir uma dependência mais profunda.

Não tema a luta. Tema apenas sair dela sem ser transformado.

Que o Senhor lhe conceda um Peniel verdadeiro — onde não apenas se vê a si mesmo, mas se vê a Deus, e sai diferente.

Deus o abençoe.

Josué Matos 

A menina em Lucas 8 foi ressuscitada para a salvação?!

 Alguém que escreveu por e-mail:

Boa noite irmão. A menina em Lucas 8 foi ressuscitada para a salvação?! Ou seja não era salva ?! Diferente de Lázaro que morreu salvo e foi ressuscitado para a glória de Deus. Ambos foram para glória de Deus, mas o que me chamou a a atenção foi : “Mas Jesus, ouvindo isto, lhe disse: Não temas, crê somente, e ela será salva.” ‭‭Lucas‬ ‭8‬:‭50‬ ‭

Minha Resposta:

A sua pergunta é muito pertinente, porque toca numa distinção importante entre ressurreição física e salvação eterna.

Vamos considerar os dois casos com atenção às Escrituras.

1. A filha de Jairo – Evangelho de Lucas 8

O texto diz:

“Não temas; crê somente, e ela será salva.” (Lucas 8:50)

A palavra traduzida por “salva” é o verbo grego sōzō, que possui um campo semântico amplo. Pode significar:

  • salvar espiritualmente (da condenação),

  • curar,

  • preservar,

  • livrar da morte física.

No próprio contexto imediato, vemos que a menina estava morta (Lucas 8:53). O Senhor toma-a pela mão e diz: “Menina, levanta-te” (Lucas 8:54), e o espírito dela voltou (Lucas 8:55). Logo, aqui a “salvação” mencionada em Lucas 8:50 refere-se claramente à preservação da vida física, ou seja, à sua restauração corporal.

Não há qualquer indicação no texto de que o Senhor estivesse tratando da condição eterna da menina. O assunto em foco é a morte física e a angústia do pai.

Observe que, em vários lugares, o verbo “salvar” é usado nesse sentido temporal:

  • “A tua fé te salvou” – no caso da mulher do fluxo de sangue (Lucas 8:48), significando que foi curada.

  • “Quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á” (Lucas 9:24), onde o termo envolve preservação da vida.

Portanto, em Lucas 8:50, o Senhor está dizendo a Jairo que sua filha seria restaurada à vida.

Isso não significa que ela não fosse salva espiritualmente, mas o texto não trata desse ponto.

2. Lázaro – Evangelho de João 11

No caso de Lázaro, o Senhor declara:

“Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá” (João 11:25).

Aqui há uma ênfase muito mais clara na vida eterna. Marta faz uma confissão de fé: “Eu tenho crido que tu és o Cristo, o Filho de Deus” (João 11:27).

Tudo indica que Lázaro era um crente. Sua ressurreição foi “para a glória de Deus” (João 11:4), e o milagre teve caráter testemunhal e doutrinário mais explícito.

Mas, ainda assim, a ressurreição de Lázaro também foi ressurreição temporária. Ele voltou a morrer mais tarde. Não foi ainda a ressurreição glorificada como em 1 Coríntios 15.

3. Diferença entre ressurreições temporárias e ressurreição gloriosa

Tanto a filha de Jairo quanto Lázaro:

  • morreram fisicamente,

  • foram restaurados à vida terrena,

  • voltaram posteriormente a morrer.

Esses milagres foram sinais messiânicos, demonstrando autoridade sobre a morte (Isaías 35:5-6).

A ressurreição do Senhor Jesus, porém, foi diferente:

  • Ele ressuscitou para nunca mais morrer (Romanos 6:9).

  • Tornou-se as primícias dos que dormem (1 Coríntios 15:20).

4. Então, a menina não era salva?

O texto não afirma que ela não fosse salva espiritualmente. O foco é outro.

A expressão “ela será salva” em Lucas 8:50 deve ser entendida à luz do contexto imediato: ser salva da morte física naquele momento.

Assim como:

  • Pedro foi “salvo” ao andar sobre as águas (Mateus 14:30),

  • os discípulos clamaram: “Senhor, salva-nos, que perecemos” (Mateus 8:25).

Em todos esses casos, trata-se de livramento temporal.

5. Ambos foram para a glória de Deus

Sim, ambos os milagres tiveram o mesmo propósito maior: manifestar a glória de Deus.

  • No caso de Lázaro, isso é explicitamente declarado (João 11:4).

  • No caso da filha de Jairo, a manifestação do poder do Senhor também resultou em espanto e testemunho (Lucas 8:56).

Mas nenhum dos dois textos tem como objetivo discutir a condição eterna das pessoas envolvidas.

Conclusão

Lucas 8:50 não ensina que a menina não era salva espiritualmente.

A palavra “salva” ali significa restaurada à vida física.

Já no caso de Lázaro, há um desenvolvimento mais profundo da doutrina da vida eterna, mas a ressurreição em si também foi temporária.

Em ambos os casos, vemos o Senhor Jesus exercendo autoridade sobre a morte — antecipando aquilo que Ele mesmo venceria definitivamente na cruz e na ressurreição.

Josué Matos

Devemos nos cumprimentar com a "Paz no Senhor"?

Alguém que me escreveu no YouTube: 

Escreveu-me depois de assistir ao meu vídeo: Devemos nos cumprimentar com a "Paz no Senhor"?

Ele disse-me: Graça e Paz e a saudação correta.

Minha Resposta:

Agradeço por sua observação. De fato, a expressão “graça e paz” é uma saudação amplamente usada nas epístolas do Novo Testamento. Basta ler as introduções de Romanos, 1 Coríntios, Efésios, Filipenses, 1 Pedro e tantas outras cartas, onde encontramos: “Graça e paz a vós outros, da parte de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo” (Romanos 1:7; 1 Coríntios 1:3; Efésios 1:2).

No entanto, é importante notar dois pontos.

Primeiro, essa fórmula aparece principalmente nas saudações apostólicas escritas, não como um mandamento dirigido à igreja para que adotasse uma expressão fixa como cumprimento litúrgico. Não encontramos em nenhuma parte do Novo Testamento uma ordem dizendo: “Saudai-vos dizendo: graça e paz”. O que vemos são saudações descritivas, não prescritivas.

Segundo, quando o Novo Testamento trata diretamente do modo de saudação entre os irmãos, ele fala de princípios e não de fórmulas rígidas. Por exemplo: “Saudai-vos uns aos outros com ósculo santo” (Romanos 16:16; 1 Coríntios 16:20; 2 Coríntios 13:12). Aqui temos um mandamento quanto à atitude — expressão de comunhão, pureza e afeto fraternal — mas não uma exigência quanto a palavras específicas.

Também lemos: “Tendo que escrever-vos, preferi não o fazer com papel e tinta; pois espero ir ter convosco e falar face a face” (2 João 12). Isso mostra que a vida cristã não está presa a formalismos, mas à realidade da comunhão.

Quanto à expressão “paz no Senhor”, o ponto que destaquei no vídeo não é que seja errada ou antibíblica. A paz é uma realidade preciosa: “Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus” (Romanos 5:1), e o Senhor Jesus é a nossa paz (Efésios 2:14). O que afirmei foi apenas que não há um mandamento no Novo Testamento estabelecendo uma fórmula específica obrigatória de saudação.

Portanto, dizer “graça e paz” é bíblico no sentido de estar nas Escrituras, mas não é apresentado como padrão obrigatório para a igreja adotar como cumprimento fixo. Assim como não há mandamento para “paz no Senhor”, também não há mandamento para “graça e paz” como fórmula litúrgica entre os crentes no dia a dia.

O que realmente importa é que a saudação reflita a realidade espiritual: que vivamos na graça de Deus e na paz que há em Cristo, e que nossa comunhão seja genuína, santa e cheia de amor fraternal.

Josué Matos

Nós cremos e por isso nascemos de novo ou nascemos de novo para poder crer?

Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Sobre a fé salvadora, o mínimo irredutível é o que o irmão assinalou, correto? Então, numa apresentação do evangelho, isto é o que deve ser apresentado no mínimo, correto?

Uma pergunta: nós cremos e por isso nascemos de novo ou nascemos de novo para poder crer?

Também: para que alguém saiba de sua condição de pecador, na apresentação do evangelho, usa-se o fato de que esta pessoa quebrou a lei de Deus (um dos 10 mandamentos)?

Os cristãos precisam guardar o domingo, como o “sábado cristão”, para glorificar a Deus? Por quê?

A prática de se fazerem apelos no final das pregações, para os pecadores virem à frente, como expressão de terem crido em Cristo, é bíblica? Como deve ser feito o apelo, então?

Se não há um grupo de irmãos reunidos unicamente no nome do Senhor Jesus Cristo numa localidade, de que modo alguém pode adorar a Deus sem tais cultos e reuniões?

Ainda: como “nasce” uma assembleia local bíblica?

Minha Resposta:

Prezado irmão Robson,

Suas perguntas são muito pertinentes e revelam zelo pela clareza do evangelho e pela prática bíblica. Responderei ponto por ponto, procurando manter a harmonia das Escrituras.

  1. O “mínimo irredutível” da fé salvadora na apresentação do evangelho

Sim, ao apresentar o evangelho, é necessário expor aquilo que é essencial e não pode ser reduzido: a condição pecaminosa do homem, a obra expiatória de Cristo na cruz, Sua ressurreição e a necessidade de arrependimento e fé pessoal n’Ele.

Em 1 Coríntios 15:3-4, o apóstolo Paulo resume o evangelho dizendo que Cristo morreu por nossos pecados segundo as Escrituras, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia. Esse é o núcleo objetivo. Mas não basta informar esses fatos; é necessário chamar o ouvinte ao arrependimento e à fé.

Em Atos 20:21, Paulo declara que testificava “tanto a judeus como a gregos a conversão a Deus, e a fé em nosso Senhor Jesus Cristo”. Portanto, o mínimo irredutível envolve:

– a santidade de Deus,
– a pecaminosidade do homem,
– a morte substitutiva de Cristo,
– Sua ressurreição,
– o chamado ao arrependimento e fé.

Qualquer evangelho que omita esses pontos deixa de ser o evangelho bíblico.

  1. Cremos para nascer de novo ou nascemos de novo para crer?

A Escritura apresenta a fé como o meio pelo qual recebemos a vida.

Em João 1:12-13 lemos: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.”

Primeiro aparece o crer; o novo nascimento é obra de Deus, mas ocorre naqueles que recebem a Cristo. Em João 20:31 está escrito: “Estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo… e para que, crendo, tenhais vida em seu nome.” A vida é apresentada como resultado do crer.

A Palavra de Deus é o instrumento que produz fé (Romanos 10:17), e ao receber essa Palavra em fé, o Espírito Santo opera o novo nascimento (Tiago 1:18; 1 Pedro 1:23).

Portanto, não é que o homem regenere a si mesmo; é Deus quem regenera. Mas a Escritura não ensina que alguém nasce de novo para depois crer; ela apresenta a fé como resposta à Palavra, e o novo nascimento como a obra divina que acompanha essa fé.

  1. Usar os Dez Mandamentos para mostrar o pecado

Sim, a lei tem função pedagógica. Romanos 3:20 diz: “pela lei vem o conhecimento do pecado”. E em Gálatas 3:24 lemos que a lei foi nosso aio para nos conduzir a Cristo.

Apontar a transgressão de um dos mandamentos pode ser um meio legítimo de mostrar ao pecador que ele é culpado diante de Deus. O próprio Senhor Jesus fez isso com o jovem rico em Marcos 10:19.

Contudo, a lei não salva; ela convence. A apresentação do evangelho não deve parar na condenação, mas conduzir à graça revelada em Cristo.

  1. O domingo como “sábado cristão”

O Novo Testamento não ensina que o domingo seja o “sábado cristão”. O sábado era sinal da aliança mosaica (Êxodo 31:13-17). A Igreja não está debaixo da lei, mas da graça (Romanos 6:14).

Os cristãos se reuniam no primeiro dia da semana (Atos 20:7; 1 Coríntios 16:2), em memória da ressurreição do Senhor. Em Apocalipse 1:10 lemos sobre “o dia do Senhor”, expressão ligada ao primeiro dia.

Mas não há mandamento impondo guarda sabática transferida para o domingo. Colossenses 2:16-17 declara que ninguém deve julgar quanto a sábados, porque eram sombras das coisas futuras.

O primeiro dia é o dia da ressurreição e do ajuntamento cristão, mas não um sábado legal cristianizado.

  1. Apelos públicos para “vir à frente”

Não encontramos nas Escrituras o modelo de um “corredor” ou convite para vir à frente como condição de salvação.

Em Atos 2, os ouvintes “compungiram-se em seu coração” (Atos 2:37). Pedro respondeu: “Arrependei-vos”. A resposta foi interior e real, seguida de batismo.

A fé é do coração (Romanos 10:9-10). A confissão pública é importante, mas não como um ritual emocional. O perigo dos apelos formais é confundir decisão externa com novo nascimento.

O verdadeiro apelo bíblico é a proclamação clara da verdade, chamando ao arrependimento e fé, deixando a obra ao Espírito Santo.

  1. Adoração onde não há uma assembleia reunida

A adoração não se limita a um edifício ou estrutura formal. O Senhor disse em João 4:23 que o Pai procura adoradores que O adorem em espírito e em verdade.

Se não houver uma assembleia reunida ao nome do Senhor em determinada localidade, o crente pode:

– adorar individualmente,
– reunir-se com outros dois ou três (Mateus 18:20),
– perseverar na doutrina apostólica e comunhão conforme as circunstâncias permitirem.

A adoração é antes de tudo espiritual e fundamentada na verdade revelada.

  1. Como nasce uma assembleia local bíblica?

Uma assembleia local surge quando crentes regenerados se reúnem simplesmente ao nome do Senhor Jesus Cristo, reconhecendo-O como Cabeça (Efésios 1:22-23), perseverando na doutrina dos apóstolos, comunhão, partir do pão e orações (Atos 2:42).

Não nasce por decreto humano, nem por organização denominacional, mas pela ação de Deus na salvação de pessoas em determinada localidade. À medida que essas pessoas reconhecem a verdade da unidade do corpo de Cristo e se reúnem em submissão à Palavra, ali se manifesta localmente a assembleia.

O modelo é simples, espiritual e fundamentado na Escritura, não em tradição humana.

Que o Senhor continue lhe dando clareza e equilíbrio na exposição dessas verdades.

Josué Matos



A diferença entre fé religiosa e fé salvadora

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Irmão, com o aumento de pessoas ligadas à fé cristã sendo mortas por causa de sua fé (católicos, siro-malabares, nestorianos, etc.) em países muçulmanos, por exemplo, pergunto: estas pessoas religiosas que não negaram sua fé — conforme melhor entendiam e praticavam — mas que não tinham a nossa fé (evangélica), qual seria o futuro eterno das mesmas? Elas podem ter sido salvas? Por quê?

Minha Resposta:

A sua pergunta é profundamente séria e precisa ser tratada com reverência, compaixão e fidelidade às Escrituras. Não podemos responder com base na emoção causada pelo sofrimento dessas pessoas, mas sim à luz da revelação divina.

  1. O fundamento da salvação

A Palavra de Deus é clara ao afirmar que a salvação é exclusivamente por meio da pessoa e obra do Senhor Jesus Cristo. Ele mesmo declarou:

“Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai, senão por mim.” (João 14:6)

O apóstolo Pedro afirmou diante do Sinédrio:

“E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos.” (Atos dos Apóstolos 4:12)

Portanto, a salvação não é obtida pela sinceridade religiosa, nem pelo sofrimento suportado, nem pelo martírio em si, mas pela fé pessoal no Senhor Jesus Cristo, baseada na Sua morte expiatória e na Sua ressurreição.

  1. A diferença entre fé religiosa e fé salvadora

Há uma distinção essencial entre ter religião e ter vida eterna. Muitos podem professar fidelidade à sua tradição religiosa e até morrer por ela, mas isso não equivale necessariamente à fé bíblica.

Romanos 10:9-10 declara:

“Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação.”

A fé salvadora envolve:
– Reconhecimento da própria condição pecaminosa.
– Confiança exclusiva na obra consumada de Cristo.
– Arrependimento verdadeiro.
– Novo nascimento operado pelo Espírito Santo (João 3:3-8).

Morrer defendendo uma tradição não substitui o novo nascimento.

  1. O martírio salva?

O sofrimento por causa da fé não é, em si mesmo, meio de salvação. Ele é consequência da fé verdadeira, mas não sua causa.

Efésios 2:8-9 ensina:

“Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie.”

O martírio pode ser evidência de uma fé genuína, mas não produz salvação. Se a pessoa não confiou biblicamente no Senhor Jesus Cristo como único Salvador, o sofrimento não altera sua condição espiritual diante de Deus.

  1. E quanto à responsabilidade individual?

A Escritura ensina que Deus julga cada pessoa segundo a luz recebida (Romanos 2:12-16). No entanto, a revelação final e completa da salvação está em Cristo.

João 3:18 declara:

“Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus.”

Não é a pertença a um sistema religioso que determina o destino eterno, mas a relação pessoal com Cristo.

  1. Pode haver salvos dentro de sistemas religiosos?

Sim, é possível que haja pessoas verdadeiramente regeneradas dentro de tradições religiosas históricas, se elas, pessoalmente, confiaram exclusivamente no Senhor Jesus Cristo para sua salvação, independentemente de práticas ou doutrinas adicionais do sistema ao qual pertencem.

O que salva não é o rótulo “evangélico”, “católico”, “siro-malabar” ou qualquer outro, mas a fé viva no Filho de Deus.

Por outro lado, se alguém permaneceu confiando em sacramentos, méritos pessoais, mediações humanas ou em qualquer outro fundamento além de Cristo somente, então a Escritura não oferece segurança quanto à sua salvação.

  1. A posição que devemos manter

Devemos manter dois princípios simultaneamente:

– Exclusividade da salvação em Cristo.
– Justiça perfeita de Deus em Seu julgamento.

Deus não é injusto. Ele conhece o coração. Ele sabe quem realmente creu no Seu Filho.

Mas nós não podemos substituir a revelação clara da Palavra por suposições baseadas na sinceridade ou no sofrimento humano.

A base permanece:

“Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem.” (1 Timóteo 2:5)

Conclusão

O futuro eterno dessas pessoas depende unicamente de sua relação pessoal com o Senhor Jesus Cristo. Se houve fé verdadeira no Filho de Deus, há salvação. Se não houve novo nascimento e confiança exclusiva na obra da cruz, a Escritura não oferece outra esperança.

Essa é uma resposta difícil, mas necessária, porque a fidelidade à verdade é também uma forma de amor.

Josué Matos

É permitido a uma irmã dar estudo bíblico em vídeo chamada ou no YouTube?

Alguém que me escreveu no WhatsApp:

A mulher não é permitido pregar numa reunião como Igreja num local, mas a uma irmã é permitido dar estudo bíblico em vídeo chamada ou no YouTube?

Minha Resposta:

Sua pergunta é muito importante, porque hoje a tecnologia criou situações que não existiam no tempo apostólico, mas os princípios da Palavra de Deus continuam os mesmos.

A base para entendermos essa questão está, principalmente, em 1 Coríntios 14:34-35 e 1 Timóteo 2:11-12. Em 1 Coríntios 14:34 está escrito: “As vossas mulheres estejam caladas nas igrejas; porque não lhes é permitido falar”. E em 1 Timóteo 2:12: “Não permito, porém, que a mulher ensine, nem use de autoridade sobre o homem, mas que esteja em silêncio”.

É importante notar que o contexto de 1 Coríntios 14 é claramente a reunião da assembleia reunida como igreja. O capítulo trata da ordem na reunião, do falar em línguas, da profecia, do falar “na igreja” (1 Coríntios 14:19, 23, 26). Portanto, a restrição está ligada ao âmbito da assembleia reunida.

Já em 1 Timóteo 2, o apóstolo fundamenta a instrução não em cultura local, mas na ordem da criação: “Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva” (1 Timóteo 2:13). Isso mostra que não é algo meramente circunstancial, mas um princípio ligado à responsabilidade pública de ensino com autoridade.

Agora, precisamos distinguir duas coisas:

  1. A reunião da igreja como igreja.

  2. O testemunho individual fora da reunião formal.

A mulher pode e deve servir ao Senhor. Em Tito 2:3-4 vemos que as mulheres idosas devem ensinar as mais novas. Em Atos 18:26, Priscila, juntamente com Áquila, ajudou a explicar com mais precisão o caminho de Deus a Apolo. Em Atos 21:9, as quatro filhas de Filipe profetizavam. Portanto, não há silêncio absoluto da mulher em toda e qualquer esfera, mas há uma limitação específica quanto ao ensino com autoridade sobre homens e quanto ao falar na assembleia reunida.

Aplicando isso à sua pergunta:

Se uma irmã faz um estudo bíblico por videochamada ou no YouTube, precisamos perguntar: em que caráter isso está sendo feito?

Se for um ministério público de ensino dirigido indistintamente a homens e mulheres, assumindo posição de autoridade doutrinária sobre homens, isso entra no princípio de 1 Timóteo 2:12, mesmo que não seja dentro de uma reunião local. A tecnologia não altera o princípio espiritual. A internet não cria uma nova dispensação.

Por outro lado, se for ensino direcionado a mulheres, ou crianças, ou um testemunho pessoal, ou explicação informal da Palavra sem assumir autoridade pública sobre homens, a situação é diferente. A Escritura não proíbe a mulher de falar de Cristo, evangelizar, ensinar outras mulheres ou crianças, ou compartilhar a Palavra em conversas e contextos apropriados.

Portanto, o ponto central não é o meio (salão físico ou YouTube), mas o caráter do ministério: trata-se de ensino público com autoridade sobre homens? Está assumindo posição de liderança doutrinária geral? Ou é um exercício legítimo de dom dentro dos limites bíblicos?

Devemos sempre manter dois cuidados:

  1. Não restringir além do que a Escritura restringe.

  2. Não ampliar a liberdade além do que a Escritura permite.

O Senhor distribui dons como quer (1 Coríntios 12:11), mas nunca em contradição com a ordem que Ele mesmo estabeleceu.

Que o Senhor nos dê equilíbrio, submissão à Palavra e espírito humilde para aplicar corretamente esses princípios nos dias atuais.

Josué Matos

Se o pré-tribulacionismo fosse a posição clara dos apóstolos, esperaríamos encontrar essa estrutura nos escritos dos primeiros cristãos como Irineu, Justino ou Hipólito

Alguém que me escreveu no YouTube:

Irmão, se o pré-tribulacionismo fosse a posição clara dos apóstolos, esperaríamos encontrar essa estrutura nos escritos dos primeiros cristãos como Irineu, Justino ou Hipólito. Mas o que vemos neles é expectativa de perseguição da Igreja antes da volta de Cristo, não um arrebatamento anterior. O sistema como conhecemos hoje só aparece organizado no século XIX. Isso é um fato histórico documentado.

Minha Resposta:

Agradeço sua colocação e reconheço que a questão histórica é importante. No entanto, é preciso fazer algumas distinções fundamentais entre sistema teológico formalizado e verdade bíblica progressivamente compreendida.

Primeiro, o fato de um sistema estar organizado no século XIX não significa que seus elementos não estejam nas Escrituras desde o princípio. Muitas doutrinas fundamentais só foram sistematizadas séculos depois — por exemplo, a formulação precisa da doutrina da Trindade nos concílios dos séculos IV e V — e nem por isso alguém diria que a Trindade “nasceu” ali.

A questão central não é quando a doutrina foi sistematizada, mas se ela está claramente ensinada nas Escrituras.

1. A expectativa apostólica no Novo Testamento

No Novo Testamento vemos duas linhas proféticas distintas:

  1. A esperança da Igreja — descrita como iminente, sem sinais prévios.

  2. A manifestação pública de Cristo em juízo e glória.

Considere:

  • 1 Tessalonicenses 4:16-17 — o Senhor desce aos ares e os crentes são arrebatados para encontrá-Lo.

  • João 14:1-3 — Cristo vem buscar os Seus para levá-los para onde Ele está.

  • 1 Coríntios 15:51-52 — um mistério revelado: nem todos dormirão, mas todos serão transformados.

  • Apocalipse 3:10 — promessa de ser guardado “da hora da provação que há de vir sobre o mundo inteiro”.

Esses textos apresentam um evento distinto da manifestação descrita em:

  • Mateus 24

  • 2 Tessalonicenses 2

  • Apocalipse 19

Na segunda vinda em glória, Cristo vem com os Seus (Apocalipse 19:14); no arrebatamento, Ele vem para os Seus (1 Tessalonicenses 4:17).
Na manifestação, Ele toca a terra (Zacarias 14:4); no arrebatamento, os santos sobem aos ares.

Essas distinções são bíblicas antes de serem sistemáticas.

2. Sobre os Pais da Igreja

É verdade que alguns escritores antigos, como:

  • Irineu de Lyon

  • Justino Mártir

  • Hipólito de Roma

demonstraram expectativa de perseguição antes da volta de Cristo. Mas alguns pontos precisam ser considerados:

  1. Eles não tinham uma escatologia sistemática desenvolvida.

  2. Misturavam frequentemente Israel e Igreja.

  3. Muitos eram claramente quiliastas (pré-milenistas), o que já mostra desenvolvimento parcial da profecia.

Além disso, a teologia patrística primitiva não era uniforme nem infalível. A autoridade final não é o consenso patrístico, mas a Escritura.

Importante também notar que os primeiros séculos estavam sob intensa perseguição romana. A leitura deles era naturalmente moldada por esse contexto histórico. Sofrimento presente não significa necessariamente que a Igreja passe pela tribulação futura descrita como “hora da provação que há de vir sobre o mundo inteiro” (Apocalipse 3:10).

3. Desenvolvimento doutrinário não é invenção doutrinária

O pré-tribulacionismo como sistema organizado no século XIX é um fato histórico. Mas o mesmo ocorre com:

  • A sistematização da escatologia dispensacional

  • A formulação técnica da doutrina da inspiração verbal

  • A definição precisa da justificação forense na Reforma

Organização teológica tardia não significa origem tardia da verdade.

4. A distinção entre Israel e Igreja

Grande parte da discussão depende de reconhecer ou não distinção entre:

  • A Igreja (corpo de Cristo — Efésios 1:22-23)

  • Israel como nação terrena com promessas específicas (Jeremias 31:35-37; Romanos 11)

A tribulação é descrita nas Escrituras como:

  • “Tempo de angústia para Jacó” (Jeremias 30:7)

  • Relacionada ao cumprimento das setenta semanas de Daniel 9:24-27

Se a Igreja é um mistério revelado posteriormente (Efésios 3:3-6), não revelado no Antigo Testamento, é coerente entender que a última semana de Daniel diz respeito a Israel, não à Igreja.

5. Expectativa iminente

Os apóstolos ensinavam uma expectativa constante da vinda do Senhor:

  • Filipenses 3:20

  • Tito 2:13

  • Tiago 5:8-9

Se a Igreja tivesse que esperar necessariamente o Anticristo, os juízos das trombetas e das taças antes da vinda de Cristo para ela, essa expectativa iminente seria teologicamente enfraquecida.

Conclusão

O ponto não é negar que muitos cristãos antigos esperavam perseguição. O ponto é perguntar:

A Escritura ensina que a Igreja passa pela tribulação escatológica específica descrita em Apocalipse 6–18?

Ou ensina que a Igreja aguarda a vinda do Senhor para si antes do derramamento da ira divina?

A questão precisa ser resolvida exegeticamente, não apenas historicamente.

Com respeito fraternal, a discussão não deve ser:
“Quando o sistema foi organizado?”

Mas sim:
“O que o texto bíblico realmente ensina quando analisado de forma coerente e progressiva?”

Josué Matos

Fazem um corredor de pessoas na reunião e as pessoas que passam por ele — algumas caem — falava que era a unção do Espírito Santo

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Uma consulta com o irmão — vieram me perguntar se aqueles que congregam em sistemas denominacionais e vêm um pastor de fora convidado para pregar e fazem um corredor de pessoas na reunião e as pessoas que passam por ele — algumas caem — falava que era a unção do Espírito Santo — o que eu respondo para essa pessoa?

Minha Resposta:

O que precisamos avaliar nessas situações não é o efeito produzido nas pessoas, mas a origem e o fundamento bíblico da prática. No Novo Testamento, a atuação do Espírito Santo nunca é apresentada como algo mecânico, induzido por gestos humanos, filas, corredores ou comandos de um homem.

Quando lemos o livro de Atos dos Apóstolos, vemos pessoas prostrando-se diante de Deus em ocasiões específicas, mas sempre como resultado direto da revelação da glória divina ou da convicção profunda do pecado, e não como resultado de uma técnica, encenação ou ambiente criado artificialmente. Nunca encontramos apóstolos organizando filas para que pessoas passassem por eles a fim de “receber unção”.

O Espírito Santo é soberano. Ele não é transmitido por toque humano como se fosse uma energia, nem age de forma desordenada ou espetacular para impressionar. A Palavra de Deus ensina que o Espírito Santo glorifica a Cristo, convence do pecado, da justiça e do juízo, e produz fruto visível no caráter do crente, como santidade, domínio próprio e submissão à verdade.

Além disso, o Senhor Jesus advertiu claramente que, nos últimos dias, surgiriam sinais e manifestações capazes de enganar, se possível, até os eleitos. Por isso, somos chamados a provar os espíritos e a examinar todas as coisas à luz das Escrituras, retendo apenas o que é bom.

Portanto, a queda de pessoas, por si só, não é prova de que algo venha do Espírito Santo. A pergunta correta não é “o que aconteceu?”, mas “onde isso está claramente ensinado na Palavra de Deus?”. Se a prática não encontra respaldo nas Escrituras, deve ser rejeitada, ainda que produza forte impacto emocional.

Nosso padrão não são experiências, nem manifestações visíveis, mas a Palavra de Deus. O verdadeiro agir do Espírito Santo conduz à reverência, à edificação da igreja e à exaltação do Senhor Jesus Cristo, nunca à centralização em homens ou em fenômenos.

Josué Matos

J.N. Darby sistematizou verdades proféticas, porém a Bíblia é suficiente em si mesma

 Alguém que me escreveu no YouTube:

Darby sistematizou verdades proféticas, porém a Bíblia é suficiente em si mesma. Quando lida com sinceridade e em dependência do Espírito Santo, ela não apresenta um arrebatamento secreto anterior à apostasia e à manifestação do homem do pecado. Essa ideia surge quando o texto é lido a partir de um sistema, neste caso (o de Darby, Dispensacionalismo), e não quando o sistema é submetido ao texto bíblico.

O arrebatamento secreto existe apenas dentro do sistema; fora dele, o texto não aponta para um arrebatamento secreto. Quando se dá um passo fora do sistema, o filtro desaparece e a leitura muda.

Minha Resposta:

Agradeço a sua colocação, feita de forma respeitosa e preocupada com a fidelidade ao texto bíblico. Concordamos plenamente em um ponto fundamental: a Bíblia é suficiente em si mesma e deve governar qualquer sistema teológico. Nenhuma estrutura doutrinária tem autoridade própria; ela é válida apenas na medida em que se submete às Escrituras. É justamente nesse terreno que a questão do arrebatamento precisa ser examinada.

  1. Bíblia e sistemas teológicos
    É correto afirmar que John Nelson Darby sistematizou verdades proféticas, mas é incorreto concluir que ele as tenha criado. A sistematização não gera a doutrina; ela organiza aquilo que já está presente no texto bíblico. O mesmo ocorreu com a Trindade, com a justificação pela fé ou com a cristologia: nenhum desses ensinos nasceu de um “sistema”, embora tenham sido posteriormente organizados de forma sistemática. A pergunta decisiva não é se há um sistema, mas se o sistema faz justiça ao conjunto das Escrituras.

  2. O arrebatamento e a distinção dos eventos
    O Novo Testamento apresenta, de forma consistente, duas linhas distintas de esperança futura.
    Há textos que descrevem a vinda do Senhor Jesus Cristo para buscar os Seus, com linguagem de consolo, esperança e reunião nos ares:
    – “Porque o mesmo Senhor descerá do céu com alarido… e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares” (Primeira Epístola aos Tessalonicenses 4:16–17).
    – “Eis que vos digo um mistério: nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados” (Primeira Epístola aos Coríntios 15:51–52).

Esses textos não mencionam juízo sobre o mundo, nem sinais prévios, nem manifestação pública do Senhor à terra. O foco é a Igreja e a transformação dos crentes.

Por outro lado, há textos que tratam claramente da manifestação pública de Cristo em glória, acompanhada de juízo, sinais cósmicos e restauração do reino:
– “Então aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem… e verão o Filho do Homem vindo sobre as nuvens do céu, com poder e grande glória” (Evangelho segundo Mateus 24:30).
– “Quando o Filho do Homem vier em sua glória… então se assentará no trono da sua glória” (Evangelho segundo Mateus 25:31).

Confundir esses dois conjuntos de textos é que gera tensões artificiais. A distinção não nasce de um sistema, mas da leitura comparativa e honesta das passagens.

  1. Apostasia e homem do pecado
    A afirmação de que a Igreja deve atravessar a apostasia e a manifestação do homem do pecado normalmente se baseia na Segunda Epístola aos Tessalonicenses 2. Contudo, o próprio texto ensina uma ordem clara:
    – Há algo e Alguém que detém a plena manifestação do iníquo (Segunda Epístola aos Tessalonicenses 2:6–7).
    – Somente depois que esse impedimento for removido, o homem do pecado será revelado (Segunda Epístola aos Tessalonicenses 2:8).

Além disso, a Igreja é explicitamente ensinada como não destinada à ira:
– “Porque Deus não nos destinou para a ira, mas para alcançar a salvação por nosso Senhor Jesus Cristo” (Primeira Epístola aos Tessalonicenses 5:9).
– “E esperar dos céus a seu Filho… Jesus, que nos livra da ira futura” (Primeira Epístola aos Tessalonicenses 1:10).

A grande tribulação, associada ao governo do homem do pecado, é apresentada em toda a Escritura como período de juízo divino sobre o mundo e de disciplina sobre Israel, não como o caminho normal da Igreja.

  1. O argumento do “arrebatamento secreto”
    A Escritura não usa a expressão “arrebatamento secreto”, mas isso não invalida a realidade ensinada. A palavra “Trindade” também não aparece na Bíblia, e nem por isso a doutrina é antibíblica. O arrebatamento é descrito como repentino, inesperado para o mundo e acompanhado de sinais perceptíveis apenas aos que pertencem a Cristo. Ele não é secreto no sentido absoluto, mas distinto da manifestação pública e judicial do Senhor.

  2. Leitura dependente do Espírito Santo
    Ler a Bíblia em dependência do Espírito Santo não significa ignorar comparações, distinções e progressão da revelação. O mesmo Espírito que inspirou as Escrituras não Se contradiz. Quando se respeita a diferença entre Israel e a Igreja, entre esperança celestial e reino terreno, entre graça e juízo, o texto bíblico harmoniza-se sem violência.

Conclusão
Portanto, o arrebatamento da Igreja antes da apostasia e da revelação do homem do pecado não é produto de um sistema imposto ao texto, mas resultado de uma leitura que permite que todas as passagens falem com o seu próprio peso e contexto. Sistemas falham quando dominam a Escritura; são úteis quando se curvam diante dela. O ponto não é seguir Darby ou qualquer outro homem, mas seguir a Palavra de Deus em toda a sua extensão.

Josué Matos

Qual a base bíblica para refutar ou desconsiderar o quarto mandamento do próprio Deus?

Alguém que me escreveu por e-mail: (Também enviou-me um anexo do adventismo que defende a guarda do sábado)

A paz do Senhor, presbítero, qual a base bíblica para refutar ou desconsiderar o quarto mandamento do próprio Deus?

Minha Resposta:

A base bíblica para refutar ou, mais corretamente, não impor o quarto mandamento (a guarda do sábado) ao cristão está na distinção clara que as Escrituras fazem entre a Lei dada a Israel e a posição do crente na nova dispensação da graça, em Cristo. Não se trata de desprezar um mandamento de Deus, mas de compreender a quem ele foi dado, com que propósito e até quando ele vigorou como obrigação legal.

A seguir, apresento uma resposta organizada e estritamente bíblica.

  1. O quarto mandamento faz parte da Lei dada especificamente a Israel

O sábado foi dado como sinal do concerto entre Deus e a nação de Israel, e não como mandamento universal para toda a humanidade.

Êxodo 31:16–17 declara explicitamente:
“Guardarão, pois, o sábado os filhos de Israel, celebrando o sábado nas suas gerações por concerto perpétuo. Entre mim e os filhos de Israel será um sinal para sempre”.

O próprio texto define:
– destinatários: os filhos de Israel
– função: sinal do concerto
– natureza: nacional e pactual

Nenhum texto afirma que o sábado foi dado como sinal entre Deus e a Igreja.

  1. O sábado está ligado à Lei mosaica como um todo, não isoladamente

O quarto mandamento não existe de forma independente. Ele faz parte de um sistema legal indivisível.

Tiago 2:10 afirma:
“Qualquer que guardar toda a lei e tropeçar em um só ponto tornou-se culpado de todos”.

Quem defende a obrigatoriedade do sábado está, biblicamente, obrigado a assumir toda a Lei mosaica, incluindo sacrifícios, penalidades, festas judaicas e ordenanças civis — algo que o Novo Testamento explicitamente rejeita.

Gálatas 5:3:
“Todo o homem que se deixa circuncidar fica obrigado a guardar toda a lei”.

  1. Cristo cumpriu a Lei e encerrou sua vigência como sistema legal

O Senhor Jesus afirmou que veio cumprir a Lei, não perpetuá-la como código obrigatório.

Mateus 5:17 não ensina continuidade da Lei como sistema, mas seu cumprimento pleno em Cristo.

Romanos 10:4 é decisivo:
“Porque o fim da lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê”.

“Fim” aqui não significa apenas objetivo, mas término funcional. A Lei cumpriu seu papel.

Colossenses 2:14 declara:
“Havendo riscado a cédula que era contra nós nas suas ordenanças… cravou-a na cruz”.

O sábado está incluído nessas ordenanças.

  1. O Novo Testamento afirma explicitamente que o sábado não deve ser imposto ao cristão

Este ponto é central e incontornável.

Colossenses 2:16–17:
“Ninguém, pois, vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias de festa, ou da lua nova, ou dos sábados, que são sombras das coisas futuras; mas o corpo é de Cristo”.

Aqui o sábado é classificado como:
– sombra
– elemento transitório
– não pertencente à realidade final, que é Cristo

Romanos 14:5:
“Um faz diferença entre dia e dia, mas outro julga iguais todos os dias. Cada um esteja inteiramente seguro em seu próprio ânimo”.

Se o sábado fosse mandamento obrigatório para a Igreja, essa afirmação seria impossível.

  1. A Igreja nunca foi instruída a guardar o sábado

Em Atos 15, quando os apóstolos trataram da relação dos gentios com a Lei, nenhuma referência ao sábado foi feita.

Atos 15:28–29:
“Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor maior encargo algum, senão estas coisas necessárias…”.

O sábado não aparece na lista. O silêncio aqui é teológico e intencional.

  1. Paulo frequentava sinagogas aos sábados por estratégia missionária, não por obrigação

Atos 18:4 e Atos 16:13 descrevem Paulo pregando aos sábados porque era quando os judeus se reuniam. Isso não é mandamento doutrinário, mas contexto histórico.

O mesmo apóstolo declara:
“Fiz-me como judeu para os judeus, para ganhar os judeus” (1 Coríntios 9:20).

Não há um único texto ensinando que Paulo guardava o sábado como obrigação cristã.

  1. O “Dia do Senhor” no Novo Testamento não é o sábado

Apocalipse 1:10 menciona “o Dia do Senhor”, mas não o identifica como sábado. Em toda a Escritura, “Dia do Senhor” é expressão ligada à autoridade, ao juízo e à revelação, não ao sétimo dia da semana.

O Novo Testamento mostra a Igreja reunindo-se no primeiro dia da semana:
– Atos 20:7
– 1 Coríntios 16:2

Isso não é “mudança de mandamento”, mas expressão da nova criação em Cristo, ligada à ressurreição.

  1. O verdadeiro descanso não é um dia, mas uma Pessoa

Hebreus 4 é frequentemente usado para defender o sábado, mas ensina exatamente o oposto.

Hebreus 4:9–10:
“Resta um repouso para o povo de Deus; porque aquele que entrou no seu repouso, ele próprio repousou de suas obras”.

O descanso não é semanal, ritual ou legal, mas espiritual e contínuo, encontrado em Cristo.

Mateus 11:28:
“Vinde a mim… e eu vos darei descanso”.

  1. A Igreja não despreza a Lei, mas vive em um princípio superior

Romanos 7:4:
“Assim, meus irmãos, também vós estais mortos para a lei pelo corpo de Cristo”.

Gálatas 3:24–25:
“A lei nos serviu de aio até Cristo… mas depois que veio a fé, já não estamos debaixo de aio”.

A vida cristã não é regulada por mandamentos externos, mas pela vida de Cristo no crente, pelo Espírito Santo.

Conclusão

A base bíblica para não impor o quarto mandamento à Igreja é sólida, ampla e coerente:

– O sábado foi sinal do concerto com Israel
– Faz parte da Lei mosaica como sistema indivisível
– Foi cumprido e encerrado em Cristo
– É chamado de “sombra” no Novo Testamento
– Nunca foi imposto à Igreja
– O verdadeiro descanso é Cristo

Não se trata de rejeitar um mandamento de Deus, mas de honrar o cumprimento perfeito da vontade de Deus em Seu Filho.

Josué Matos

Por que a Bíblia diz: “Arrependei-vos e crede no evangelho”, se já existem pessoas certas, eleitas, predestinadas à salvação?

Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Se Deus já elegeu pessoas para serem salvas, se é que Ele faz acepção de pessoas, ao mesmo tempo por que a Bíblia diz: “Arrependei-vos e crede no evangelho”, se já existem pessoas certas, eleitas, predestinadas à salvação?

Efésios 1
4 Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor;
5 E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade,

Romanos 8
30 E aos que predestinou, a estes também chamou; e aos que chamou, a estes também justificou; e aos que justificou, a estes também glorificou.
31 Que diremos, pois, a estas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós?
32 Aquele que nem mesmo a seu próprio Filho poupou, antes o entregou por todos nós, como nos não dará também com ele todas as coisas?
33 Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica.

Segundo essas passagens, já existem pessoas privilegiadas, eleitas à salvação, e outras não?

Minha Resposta:

A pergunta levantada é antiga, profunda e legítima, e já estava presente nos dias dos apóstolos. Ela não nasce de incredulidade, mas do desejo sincero de harmonizar tudo o que Deus revelou em Sua Palavra. As Escrituras afirmam, sem contradição, tanto a soberania absoluta de Deus quanto a responsabilidade real do homem. O erro surge quando tentamos explicar uma verdade bíblica anulando a outra.

Para responder com clareza, é necessário distinguir alguns pontos fundamentais que a própria Bíblia apresenta.

  1. Eleição e predestinação: o que elas realmente significam

Efésios 1:4–5 afirma que Deus “nos elegeu nele antes da fundação do mundo” e “nos predestinou para filhos de adoção”. Romanos 8:29–30 mostra uma sequência perfeita: os que Deus conheceu, predestinou; os que predestinou, chamou; os que chamou, justificou; e os que justificou, glorificou.

Esses textos ensinam, sem dúvida alguma, que a salvação tem origem em Deus, não no homem. Ela não nasce da vontade humana, nem de méritos, nem de obras, mas do propósito eterno de Deus, conforme também lemos em João 1:12–13 e em Tito 3:5.

No entanto, é essencial observar que a eleição, nesses textos, está sempre “em Cristo”. Deus não elege pessoas isoladamente como indivíduos escolhidos arbitrariamente para o céu ou para o inferno. Ele elegeu um povo em Cristo. Cristo é o Eleito por excelência (Isaías 42:1; 1 Pedro 2:4). Todos os que estão “nele” participam dessa eleição.

A predestinação, em Efésios 1, não é apresentada como predestinação para crer, mas como predestinação para um destino: sermos conformes à imagem do Filho (Romanos 8:29) e filhos adotivos. O texto responde ao “para quê”, não ao “como”.

  1. Deus faz acepção de pessoas?

A Escritura responde claramente que não. “Deus não faz acepção de pessoas” (Atos dos Apóstolos 10:34; Romanos 2:11). Se entendermos a eleição como privilégio arbitrário de alguns em detrimento de outros, entramos em conflito direto com essas declarações claras da Palavra de Deus.

Além disso, a Bíblia afirma repetidas vezes que o desejo de Deus é universal quanto à oferta da salvação:
– “Deus deseja que todos os homens sejam salvos” (1 Timóteo 2:4).
– “O Senhor… não quer que alguns se percam, senão que todos venham ao arrependimento” (2 Pedro 3:9).
– “Cristo morreu por todos” (2 Coríntios 5:14–15).
– “Ele é a propiciação… pelos pecados do mundo inteiro” (1 João 2:2).

Essas declarações não podem ser esvaziadas sem violentar o texto bíblico.

  1. Por que então a Bíblia diz: “Arrependei-vos e crede no evangelho”?

Porque o chamado ao arrependimento e à fé é o meio determinado por Deus para que os eleitos cheguem à salvação. Romanos 8:30 mostra isso claramente: “aos que predestinou, a estes também chamou”. O chamado acontece no tempo, por meio da pregação do evangelho.

Jesus disse: “Arrependei-vos e crede no evangelho” (Marcos 1:15). Pedro pregou: “Arrependei-vos” (Atos dos Apóstolos 2:38). Paulo afirmou que Deus “manda que todos, em todo lugar, se arrependam” (Atos dos Apóstolos 17:30).

Se a fé e o arrependimento fossem desnecessários, esses convites seriam inúteis, e os apóstolos estariam anunciando algo meramente simbólico. Mas a Escritura nunca trata esses apelos como formais ou aparentes; eles são reais e dirigidos a todos os ouvintes.

  1. O equilíbrio bíblico: soberania divina e responsabilidade humana

A Bíblia nunca tenta explicar filosoficamente como essas duas verdades se harmonizam; ela simplesmente as afirma lado a lado.

– Deus é absolutamente soberano na salvação (João 6:37; Romanos 9:16).
– O homem é verdadeiramente responsável por responder ao evangelho (João 3:18; João 5:40).

Jesus disse: “Todo aquele que o Pai me dá virá a mim” (soberania), e imediatamente acrescenta: “e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora” (responsabilidade e convite aberto).

Não existe na Escritura a ideia de pessoas desejando sinceramente a salvação e sendo impedidas por não estarem “eleitas”. A condenação nunca é atribuída à falta de eleição, mas à incredulidade: “não quereis vir a mim para terdes vida” (João 5:40).

  1. Então existem pessoas privilegiadas e outras excluídas?

À luz do conjunto das Escrituras, a resposta é não. Não há um grupo privilegiado salvo sem fé e arrependimento, nem um grupo excluído que desejaria crer, mas não pode. O privilégio da salvação está disponível a todos os que ouvem o evangelho. A diferença final não está no valor das pessoas, mas na resposta à revelação recebida.

Quando alguém crê, descobre depois que essa fé foi fruto da graça eterna de Deus. Quando alguém rejeita, a responsabilidade recai sobre sua própria incredulidade, nunca sobre um decreto oculto que o impediu de crer.

Assim, a eleição não anula o chamado; ela o garante. A predestinação não elimina o arrependimento; ela o produz. E o evangelho pode ser pregado com plena sinceridade a todos, sabendo que Deus salvará eficazmente aqueles que são Seus, por meio da fé em Cristo.

Josué Matos

O homem desse tempo precisa de ideias de acordo com a evolução que já adquiriu

Alguém que me escreveu no YouTube:

Esta pessoa que me escreveu tem sua doutrina firmada no espiritismo kardecista:
Uma coisa muito importante que vocês precisam pelo menos levar em consideração. É que a Bíblia não é o que a maioria dos leitores diz ser. É um livro escrito para atender às necessidades da época. Principalmente para funcionar como sistema de governo. O homem desse tempo precisa de ideias de acordo com a evolução que já adquiriu.

Minha Resposta:

Entendo a colocação que você faz, e ela reflete uma visão bastante comum em correntes filosóficas e religiosas modernas, inclusive no espiritismo kardecista. No entanto, essa afirmação parte de pressupostos que a própria Bíblia não assume sobre si mesma.

Em primeiro lugar, a Bíblia nunca se apresenta como um simples produto cultural destinado apenas a organizar sociedades antigas ou funcionar como um sistema de governo. Pelo contrário, ela se declara como revelação de Deus ao homem. O apóstolo Paulo afirma que “toda a Escritura é inspirada por Deus e proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir e para instruir em justiça” (2 Timóteo 3:16). A inspiração não é atribuída às circunstâncias históricas, mas à ação direta de Deus sobre homens que escreveram conforme foram movidos pelo Espírito Santo, como declara o apóstolo Pedro (2 Pedro 1:20–21).

É verdade que a Bíblia foi escrita em contextos históricos reais e para pessoas reais, mas isso não a reduz a um manual ultrapassado. O próprio Senhor Jesus Cristo tratou as Escrituras do Antigo Testamento como autoridade viva e permanente, afirmando que “não passará um jota ou um til da lei, sem que tudo seja cumprido” (Mateus 5:18). Ele não as apresentou como um texto condicionado à “evolução” humana, mas como Palavra que permanece.

Quanto à ideia de que o homem moderno precisa de novas ideias de acordo com sua evolução, a Escritura apresenta um diagnóstico diferente. O problema central do ser humano não é falta de evolução intelectual, social ou moral, mas o pecado. A Bíblia declara que “não há justo, nem um sequer” (Romanos 3:10) e que a separação entre Deus e o homem não é resolvida pelo progresso humano, mas pela intervenção divina. Por isso, a mensagem bíblica não é de adaptação do homem a novas ideias, mas de arrependimento e reconciliação com Deus (Atos dos Apóstolos 17:30).

Além disso, a Bíblia não acompanha a ideia de progresso espiritual contínuo do ser humano. Pelo contrário, ela afirma que o coração humano é enganoso e corrupto (Jeremias 17:9) e que o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus (1 Coríntios 2:14). A solução apresentada não é evolução, mas novo nascimento, conforme ensinado pelo Senhor Jesus a Nicodemos (João 3:3–7).

Por fim, se a Bíblia fosse apenas um livro ajustado às necessidades políticas de seu tempo, ela dificilmente teria confrontado reis, governos e sistemas religiosos como fez, nem teria produzido mártires ao longo da história. A Escritura não se molda ao homem; ela confronta o homem. E é justamente por isso que continua sendo atual: porque trata da condição humana diante de Deus, algo que não muda com o passar dos séculos.

A questão central, portanto, não é se a Bíblia precisa ser atualizada para o homem moderno, mas se o homem está disposto a se submeter à verdade que Deus revelou. Como disse o próprio Senhor Jesus Cristo: “A tua palavra é a verdade” (João 17:17).

Josué Matos

Pessoa alegadamente convertida a Cristo, mas cuja vida é uma exposição clara de não ter havido a obra da regeneração em seu interior

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Irmão Josué, uma pessoa alegadamente convertida a Cristo, mas cuja vida é uma exposição clara de não ter havido a obra da regeneração em seu interior… como falar de Cristo para ela, a fim de que ela seja liberta deste engano fatal?

Quais autores cristãos, de antes ou atuais, o senhor mais aprecia? Que pontos nestes mesmos o senhor teria restrições doutrinárias?

Minha Resposta:

Caro irmão,

A situação que você descreve é, infelizmente, mais comum do que gostaríamos. A Escritura reconhece que pode haver uma profissão externa de fé sem que tenha ocorrido, de fato, a obra interior da regeneração. O Senhor Jesus falou daqueles que dizem “Senhor, Senhor”, mas cuja vida não corresponde à vontade de Deus, mostrando que palavras corretas não substituem uma vida transformada (Evangelho segundo Mateus 7:21–23).

Como falar de Cristo a alguém nessa condição exige, antes de tudo, discernimento espiritual, humildade e amor sincero. Não se trata de confrontar apenas comportamentos isolados, mas de apresentar com clareza a pessoa e a obra do Senhor Jesus Cristo, mostrando que o novo nascimento não é uma reforma moral, mas uma nova vida concedida por Deus. O caminho bíblico passa por apontar a santidade de Deus, a gravidade do pecado e a suficiência da obra de Cristo na cruz, sempre lembrando que somente o Espírito Santo pode convencer do pecado, da justiça e do juízo (Evangelho segundo João 16:8). A nossa responsabilidade é dar testemunho fiel da verdade, com graça, paciência e coerência de vida, sabendo que resultados genuínos pertencem a Deus.

Quanto aos autores cristãos, aprecio especialmente os escritos antigos que se encontram entre os chamados “irmãos”, nos quais há grande ênfase na autoridade das Escrituras, na centralidade de Cristo e na simplicidade da vida cristã. Esses escritos, ainda que não inspirados, são valiosos por manterem uma linha expositiva, pastoral e profundamente bíblica.

Entre os autores mais recentes, destaco William MacDonald, cuja clareza, equilíbrio e fidelidade às Escrituras têm sido de grande ajuda ao povo de Deus. Além dele, há outros autores cujas obras foram traduzidas e publicadas por editoras como A Verdade e a Sã Doutrina, que, de modo geral, preservam um compromisso sério com a Palavra de Deus e com o ensino saudável.

Naturalmente, nenhum autor humano é isento de limitações. Sempre leio qualquer obra com a Bíblia aberta, como fizeram os bereanos, examinando tudo à luz das Escrituras (Atos dos Apóstolos 17:11). Minhas principais restrições doutrinárias surgem quando há desvios quanto à suficiência da obra de Cristo, à natureza da graça, à segurança da salvação ou quando experiências humanas passam a ocupar o lugar da autoridade da Palavra de Deus. Onde isso ocorre, é preciso cautela, ainda que o autor tenha contribuições úteis em outros aspectos.

Em resumo, tanto no aconselhamento de pessoas quanto na leitura de autores cristãos, o princípio permanece o mesmo: Cristo no centro, a Escritura como autoridade final e dependência constante do Espírito Santo para discernir, ensinar e viver a verdade.

Fraternalmente,

Josué Matos

Reencarnar: esse é o verdadeiro significado de "nascer de novo"?

Alguém que me escreveu no YouTube:

Me escreveu depois de assistir ao meu vídeo: O Verdadeiro Significado de "Nascer de Novo": Uma Análise Bíblica Profunda!

Ele disse-me:

Reencarnar: esse é o verdadeiro significado de "nascer de novo".

A maioria dos leitores da Bíblia apenas lê.

Para ler, basta não ser analfabeto.

É necessário entender o que o escritor quis passar.

Minha Resposta:

Agradeço o seu comentário e concordo com um ponto importante que você levantou: a Bíblia não foi escrita para ser apenas lida superficialmente, mas para ser entendida conforme a intenção do autor e, sobretudo, conforme a revelação progressiva de Deus nas Escrituras.

No entanto, afirmar que “nascer de novo” significa reencarnar não encontra qualquer apoio no texto bíblico, nem no contexto em que essa expressão é usada.

Quando o Senhor Jesus fala do novo nascimento em João 3, Ele o faz num diálogo direto com Nicodemos, um mestre em Israel, alguém que conhecia profundamente as Escrituras. A reação de Nicodemos é reveladora: ele pergunta se um homem pode “tornar a entrar no ventre de sua mãe” (João 3:4). Se o ensino fosse sobre reencarnação, aquela seria a oportunidade perfeita para o Senhor confirmar essa ideia. O que Jesus faz, porém, é exatamente o contrário: Ele corrige Nicodemos e explica que o novo nascimento não é físico, nem um retorno a esta vida por outro corpo, mas um nascimento “da água e do Espírito” (João 3:5).

O próprio Senhor estabelece uma distinção clara: “O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito” (João 3:6). Não se trata de múltiplas existências, mas de uma nova vida comunicada por Deus ao homem que estava espiritualmente morto, conforme também é ensinado em Efésios 2:1–5.

Além disso, a Escritura é inequívoca ao afirmar que o ser humano vive uma única vez neste mundo: “Aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo depois disso o juízo” (Hebreus 9:27). Esse texto, por si só, elimina a possibilidade de ciclos sucessivos de vidas terrenas como meio de aperfeiçoamento ou expiação.

O novo nascimento não é um progresso moral ao longo de várias encarnações, mas um ato soberano de Deus, baseado na obra consumada de Cristo na cruz. É por isso que o Novo Testamento associa o novo nascimento à fé no Senhor Jesus Cristo, como se lê em João 1:12–13, 1 Pedro 1:23 e Tito 3:5.

Portanto, entender o que o escritor quis comunicar exige respeitar o sentido do texto, o contexto imediato e o conjunto do ensino bíblico. Quando isso é feito, fica claro que “nascer de novo” não é reencarnação, mas regeneração: a comunicação de uma nova vida espiritual, concedida por Deus ao pecador que crê.

Josué Matos

Para entender o verdadeiro sentido do "Novo Nascimento"

 Alguém que me escreveu no YouTube:

Para entender o verdadeiro sentido do "Novo Nascimento".

Minha Resposta:

Para compreender o verdadeiro sentido do Novo Nascimento, é necessário partir daquilo que o próprio Senhor Jesus ensinou, e não de conceitos religiosos, tradições ou experiências subjetivas. O Novo Nascimento não é uma melhoria moral do homem, nem uma mudança de comportamento produzida por esforço humano. Trata-se de uma obra divina, interior e soberana, operada pelo Espírito de Deus, em resposta à fé na Palavra.

O Senhor Jesus declarou de forma absoluta: “Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” (Evangelho de João 3:3). Aqui fica claro que o Novo Nascimento não é opcional, nem gradual, mas uma necessidade espiritual universal. O primeiro nascimento nos introduz neste mundo natural; o Novo Nascimento nos introduz na esfera espiritual, no relacionamento vivo com Deus.

Quando Nicodemos, um homem religioso, conhecedor das Escrituras e moralmente respeitável, ouviu essas palavras, ele não entendeu. Isso revela que o Novo Nascimento não é alcançado por conhecimento bíblico, posição religiosa ou boas obras. O Senhor Jesus explicou que “o que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito” (Evangelho de João 3:6). Ou seja, carne só pode produzir carne; apenas o Espírito Santo pode comunicar vida espiritual.

O Novo Nascimento ocorre quando a Palavra de Deus é ouvida e recebida com fé. As Escrituras afirmam que “a fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela Palavra de Deus” (Romanos 10:17). É a Palavra, aplicada pelo Espírito Santo ao coração do pecador, que desperta a consciência, convence do pecado e conduz à fé em Cristo. Não é o homem que decide nascer de novo; ele responde, em fé, à ação de Deus por meio da Palavra.

Além disso, o Novo Nascimento está inseparavelmente ligado à obra redentora de Cristo. O Senhor Jesus disse que assim como a serpente foi levantada no deserto, também o Filho do Homem deveria ser levantado, para que todo aquele que n’Ele crê tenha a vida eterna (Evangelho de João 3:14–15). A nova vida só é possível porque o pecado foi tratado na cruz. Deus não comunica vida espiritual sem antes lidar, de forma justa e completa, com a culpa do pecado.

Portanto, nascer de novo é receber uma nova vida que vem de Deus, uma vida espiritual, que possui uma nova natureza e novos afetos. Essa vida não se desenvolve a partir da carne, nem é produzida por rituais religiosos, mas é resultado da fé viva em Jesus Cristo, mediante a Palavra, pela ação do Espírito Santo. Sem essa obra interior, o homem pode ser religioso, moral e ativo, mas permanece espiritualmente morto.

Josué Matos

Acho que não existe outro assunto no Novo Testamento para dar dor de cabeça nos estudiosos como o assunto do véu

 Alguém que me escreveu no YouTube:

Acho que não existe outro assunto no Novo Testamento para dar dor de cabeça nos estudiosos como o assunto do véu. Mas está claro na sagrada escritura que o véu é uma ORDENANÇA para a mulher de Deus obedecer. Simples assim!

Minha Resposta:

Entendo a preocupação em não tratar o assunto do véu com leviandade, e concordo plenamente que 1 Coríntios 11 exige reverência e submissão à Palavra de Deus. Justamente por isso, creio que o texto não permite que o uso do véu seja reduzido a uma prática meramente cultural ou circunstancial.

O apóstolo Paulo não fundamenta seu ensino em costumes locais de Corinto, mas em princípios que antecedem qualquer cultura: a ordem da criação estabelecida em Gênesis, a distinção entre homem e mulher, a questão da autoridade e a glória de Deus. Esses fundamentos não pertencem ao primeiro século, mas à revelação divina. Quando Paulo apela à criação — “porque o homem não provém da mulher, mas a mulher do homem” — ele nos leva para além de qualquer contexto histórico específico.

Além disso, há um elemento decisivo no texto que não pode ser explicado culturalmente: “por causa dos anjos” (1 Coríntios 11:10). Os anjos não estão sujeitos a modas, culturas ou convenções sociais. Trata-se de seres espirituais que observam a ordem de Deus. Isso demonstra que o sinal exterior tem implicações no mundo invisível, e não apenas no testemunho humano.

Quanto à expressão “nós não temos tal costume, nem as igrejas de Deus” (1 Coríntios 11:16), ela não relativiza o ensino, mas encerra a discussão. Paulo não está dizendo que o véu era opcional, mas que não havia entre as igrejas o costume de contender contra essa instrução. O costume das igrejas de Deus era justamente a aceitação da prática ensinada.

Historicamente, o uso do véu esteve presente nas reuniões cristãs por muitos séculos, sendo abandonado apenas em períodos mais recentes, quando pressões culturais passaram a influenciar a interpretação bíblica. Essa mudança não nasce da Escritura, mas de uma adaptação ao espírito do tempo.

Portanto, à luz do próprio texto bíblico e da prática histórica das igrejas, o véu deve ser entendido como um sinal exterior que expressa um princípio espiritual permanente. Não se trata de salvação, nem de mérito espiritual, mas de obediência, ordem e testemunho na presença de Deus e dos anjos. Onde esses princípios são reconhecidos, o sinal que os expressa também deve ser preservado.

Josué Matos

Mas na casa de Cornélio… não tinha um rio ou uma piscina ou alguma coisa parecida

 Alguém que me escreveu no YouTube:

Mas na casa de Cornélio… não tinha um rio ou uma piscina ou alguma coisa parecida… mas foram batizados… com água seria com uma caneca… dúvida minha, ok, com todo respeito, ok.

Minha Resposta:

A sua dúvida é muito válida e respeitosa, e o próprio texto bíblico nos permite respondê-la com clareza, sem necessidade de especulações.

Em Atos dos Apóstolos 10, quando Cornélio e os de sua casa creem, recebem o Espírito Santo enquanto Pedro ainda anunciava o evangelho. Esse fato foi extraordinário, pois demonstrou publicamente que Deus concedia aos gentios a mesma salvação concedida aos judeus. Porém, logo em seguida, o texto diz claramente:

“Pode alguém porventura recusar a água, para que não sejam batizados estes que também receberam como nós o Espírito Santo?” Atos dos Apóstolos 10:47
“E mandou que fossem batizados em nome do Senhor.” Atos dos Apóstolos 10:48

Note que o texto fala explicitamente em água. Pedro não diz “simbolicamente”, nem “de outra forma”, mas pergunta se alguém poderia impedir a água, o que pressupõe um batismo real, visível e concreto.

A Escritura não informa o local exato, nem o volume de água utilizado. Isso não é o foco do Espírito Santo ao registrar o acontecimento. A Bíblia também não diz se foi um rio, um tanque, uma cisterna ou qualquer outra fonte disponível. O silêncio quanto a esses detalhes não invalida o fato do batismo, mas apenas mostra que o essencial não é o recipiente, e sim a obediência ao mandamento do Senhor Jesus.

Desde o início do livro de Atos, vemos que o batismo nas águas era a prática normal e imediata após a fé. Em Atos dos Apóstolos 2:41, os que creram foram batizados. Em Atos dos Apóstolos 8:36, o eunuco pergunta: “Eis aqui água; que impede que eu seja batizado?”. Em Atos dos Apóstolos 16:33, o carcereiro de Filipos foi batizado “naquela mesma hora da noite”, certamente com os recursos disponíveis.

Isso nos ensina algo importante: o Novo Testamento nunca condiciona o batismo a um local específico ou a uma quantidade exata de água descrita em detalhes narrativos. O que ele sempre ressalta é que o batismo é um ato literal, com água, realizado em obediência ao Senhor Jesus Cristo, como testemunho público da fé e identificação com Ele.

No caso de Cornélio, o ponto central não era o “como” logístico, mas o “quem”: gentios também deveriam ser batizados nas águas, assim como os judeus. Isso confirma que o batismo não era um rito exclusivo de Israel, mas uma ordenança válida para todos os que creem no evangelho, independentemente da sua origem.

Portanto, ainda que não saibamos se foi um rio, um tanque ou outro meio, a Escritura é clara em afirmar que houve batismo com água, e que isso foi feito por ordem apostólica, em plena harmonia com o ensino do Senhor Jesus em Mateus 28:19.

A sua pergunta é legítima, e a resposta bíblica é simples: a ausência de detalhes práticos não anula a realidade do batismo, nem diminui sua importância como ordenança para judeus e gentios que creem.

Josué Matos

Como saber se eu sou joio ou trigo?

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Na parábola do joio e do trigo diz que haverá uma separação no tempo certo. Como saber se eu sou joio ou trigo?

Minha Resposta:

A pergunta que fez é muito séria e, ao mesmo tempo, muito reveladora. O simples fato de alguém se preocupar em saber se é joio ou trigo já diz muito sobre o estado do coração diante de Deus.

Na parábola do joio e do trigo, registrada em Mateus 13:24-30 e explicada pelo próprio Senhor em Mateus 13:36-43, o Senhor Jesus mostra que, no mesmo campo — que é o mundo — convivem, lado a lado, os filhos do reino e os filhos do maligno. O trigo é fruto da boa semente semeada pelo Filho do Homem; o joio é resultado da obra do inimigo. Exteriormente, durante um tempo, eles podem parecer semelhantes, mas a natureza é totalmente diferente.

O ponto central da parábola não é ensinar que o crente deve viver angustiado tentando se autodefinir, mas mostrar que a separação final pertence a Deus e acontecerá no tempo determinado por Ele, no fim da era. Nenhum homem tem autoridade para arrancar o joio antes da hora, nem mesmo para se declarar justo por si mesmo.

A Escritura, porém, nos dá critérios claros para exame pessoal. O trigo não é definido por perfeição, mas por vida. Onde há trigo, há vida produzida por Deus. Onde há joio, há aparência, mas não há vida espiritual. O próprio apóstolo Paulo exorta: “Examinai-vos a vós mesmos, se permaneceis na fé; provai-vos a vós mesmos” (2 Coríntios 13:5).

Algumas perguntas bíblicas ajudam nesse exame à luz da Palavra:

– Houve arrependimento verdadeiro e fé em Jesus Cristo como Salvador pessoal? Atos dos Apóstolos 20:21.
– Há uma nova vida gerada pelo Espírito Santo? João 3:3-7.
– Existe amor pela verdade, pela Palavra de Deus e pelo Senhor Jesus? João 8:31; 1 João 2:3-5.
– Há disciplina do Pai quando há pecado? Hebreus 12:6-8.
– Existe fruto, ainda que imperfeito, na caminhada cristã? Mateus 7:16; Gálatas 5:22-23.

O joio não se preocupa com essas coisas. O joio está confortável na religiosidade, no nome de cristão, na aparência exterior. Já o trigo, mesmo consciente de suas falhas, sente sede de Deus, fome da Palavra, tristeza pelo pecado e desejo de agradar ao Senhor.

É importante lembrar que a segurança do trigo não está em si mesmo, mas na obra perfeita de Cristo. “Quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna e não entrará em condenação, mas passou da morte para a vida” (João 5:24). A salvação não repousa em sentimentos, mas na promessa fiel de Deus.

Portanto, se há em seu coração essa inquietação santa, esse temor de Deus, esse desejo de estar em Cristo e de andar na luz, isso não é característica de joio. O joio não pergunta, não examina, não se humilha diante de Deus. O trigo, sim, vive dependente da graça.

Descanse não em si mesmo, mas em Cristo. Continue firmando-se na Palavra, vivendo em arrependimento, fé e comunhão. Aquele que começou a boa obra é fiel para completá-la até o dia de Jesus Cristo, conforme Filipenses 1:6.

Que o Senhor traga paz, clareza e segurança ao seu coração pela verdade da Sua Palavra.

Josué Matos

Deus é um Delírio? Richard Dawkins

 Alguém me escreveu no YouTube:

Me escreveu depois de ter assistido ao meu vídeo: Deus é um Delírio? Richard Dawkins  

Esta pessoa me disse: Como comprovar o inexistente? Quem afirma a existência é quem deve provar, o que nunca fizeram os cristãos.

Minha Resposta:

Você levanta um ponto que costuma aparecer com frequência em debates filosóficos e científicos, e ele merece uma resposta clara e honesta.

De fato, quando alguém afirma algo, deve estar disposto a apresentar razões para essa afirmação. Contudo, isso vale igualmente para ambos os lados. Dizer “Deus não existe” não é uma posição neutra; é uma afirmação metafísica tão forte quanto dizer “Deus existe”. Portanto, também exige fundamentos racionais. A ausência de prova empírica* não equivale automaticamente à prova da inexistência. Há muitas realidades que não são observáveis diretamente, mas são inferidas a partir de seus efeitos.

A própria Bíblia reconhece esse tipo de evidência indireta. Romanos 1:19-20 afirma que aquilo que pode ser conhecido de Deus é manifesto por meio da criação, de modo que o Seu eterno poder e divindade se tornam perceptíveis pelas coisas criadas. O argumento não é sentimental, mas racional: o efeito aponta para uma causa adequada. Ordem, racionalidade, leis constantes da natureza e inteligibilidade do universo não explicam a si mesmas.

Além disso, a questão da existência de Deus não se limita ao campo das ciências naturais. Trata-se também de uma questão filosófica e existencial. A ciência descreve como os fenômenos ocorrem; ela não responde por que existe algo em vez de nada, nem de onde vem a própria racionalidade humana capaz de investigar o universo. Salmos 19:1 declara que os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das Suas mãos, indicando que a criação comunica significado, não apenas dados.

Outro ponto frequentemente ignorado é o testemunho moral. A noção universal de certo e errado, de culpa e responsabilidade, pressupõe um padrão objetivo. Romanos 2:14-15 fala da lei escrita no coração humano, cuja consciência ora acusa, ora defende. Se tudo é fruto do acaso e da matéria impessoal, essa obrigação moral perde o seu fundamento real.

Quanto à fé cristã, ela não se apresenta como um “salto no escuro”. Hebreus 11:1 define a fé como a certeza de coisas que se esperam e a convicção de fatos que não se veem, não como ausência de razões, mas como confiança baseada em testemunho. A fé bíblica nasce do ouvir a Palavra de Deus, conforme Romanos 10:17, e envolve tanto a mente quanto a consciência.

Por fim, é importante lembrar que o cristianismo não afirma apenas a existência abstrata de Deus, mas um Deus que se revelou na história. Atos dos Apóstolos 17:26-27 declara que Deus determinou tempos e limites para as nações, para que O buscassem, ainda que tateando. A proposta bíblica não é uma prova de laboratório, mas um convite à reflexão honesta sobre a realidade, a vida, a moral, a história e o próprio ser humano.

Portanto, a pergunta não é simplesmente “onde está a prova?”, mas “que tipo de prova é adequada para a questão que está sendo feita?”. Negar Deus exige, no mínimo, explicar satisfatoriamente a origem do universo, da vida, da razão e da moralidade sem recorrer a pressupostos que, no fundo, também não podem ser provados empiricamente.

* A palavra empírica, no contexto do texto, refere-se a algo que é conhecido ou verificado exclusivamente por meio da experiência sensorial direta, isto é, pelos sentidos humanos como visão, audição, tato, olfato e paladar, geralmente associada à observação, experimentação e repetição controlada.

Em termos simples, conhecimento empírico é aquele que depende de testes observáveis e mensuráveis. Por exemplo, medir a temperatura de um corpo com um termômetro, observar uma reação química em laboratório ou verificar a queda de um objeto pela gravidade são experiências empíricas. Elas podem ser repetidas, comparadas e analisadas por diferentes pessoas, chegando a resultados semelhantes.

No texto, o termo foi usado para esclarecer que a ciência moderna trabalha prioritariamente com esse tipo de conhecimento. Ela é extremamente eficaz para explicar como os fenômenos naturais acontecem, mas é limitada quando tenta responder questões que vão além da observação direta, como a origem última da existência, o sentido da vida, o valor moral ou a razão pela qual o universo é inteligível.

A Bíblia, por sua vez, reconhece essas limitações humanas. Jó 38:4 registra a pergunta de Deus ao homem: “Onde estavas tu, quando eu fundava a terra? Faze-mo saber, se tens inteligência”. O texto não rejeita a observação do mundo criado, mas mostra que nem tudo pode ser reduzido à experiência empírica humana.

Outro exemplo está em Eclesiastes 3:11, que afirma que Deus colocou a eternidade no coração do homem, sem que este possa compreender plenamente a obra que Deus faz do princípio ao fim. Isso indica que existem realidades verdadeiras que não são acessíveis apenas pelos sentidos ou por experimentos.

Portanto, quando se diz que algo não é empírico, não se está afirmando que seja irracional ou ilusório, mas que não pode ser provado ou refutado apenas pelos métodos das ciências naturais. A fé cristã se apoia na revelação divina, no testemunho histórico e na coerência racional, não em experimentos laboratoriais. Como afirma Hebreus 11:3, pela fé entendemos que o mundo foi criado pela palavra de Deus, de modo que aquilo que se vê não foi feito do que é aparente.

Assim, “empírico” descreve um tipo específico de conhecimento, válido e importante, mas não suficiente para responder todas as questões fundamentais da existência.

Josué Matos

Uma bandeja com pequenos cálices ao começar a ceia do Senhor e também pequenos pedaços de pão. Isto está correto?

Alguém que me escreveu no YouTube:

Segue um resumo fiel e direto, destacando exatamente os pontos levantados na pergunta, sem acrescentar elementos externos:

A reflexão apresentada parte de 1 Coríntios 11:28, chamando atenção para a expressão “beba do cálice” e sua construção no texto original grego. Observa-se que o verbo “beber” aparece acompanhado da preposição ἐκ (ek), que indica origem ou procedência, sugerindo que o participante bebe aquilo que provém do cálice, e não necessariamente levando o mesmo recipiente físico à boca. Essa observação gramatical abre a possibilidade de entender que o vinho, uma vez abençoado no cálice, possa ser distribuído, de modo semelhante ao pão, do qual todos comem sem que seja colocado literalmente na boca por todos.

Ao mesmo tempo, a reflexão reconhece a tensão existente entre essa possibilidade gramatical e o forte valor simbólico apresentado em 1 Coríntios 10, onde “o cálice” aparece no singular como expressão da comunhão do sangue de Cristo e da unidade do Corpo. Surge, então, a preocupação de que o uso de cálices individuais possa comprometer esse símbolo de unidade, aproximando a prática de um ato mais individual do que coletivo.

Diante disso, são levantadas duas questões centrais: até que ponto a ênfase na preposição ἐκ permite flexibilidade na forma de distribuição sem ferir o princípio bíblico da unidade do Corpo; e como preservar a pureza do símbolo do cálice único diante de necessidades práticas — como grandes ajuntamentos ou questões de saúde — sem cair no individualismo que historicamente se buscou evitar.

O cerne da questão está em discernir a diferença entre a participação comum numa única bênção e a fragmentação do símbolo, procurando manter fidelidade tanto ao texto bíblico quanto ao ensino apostólico sobre a comunhão da igreja.

Minha Resposta:

Agradeço a forma respeitosa, cuidadosa e bem fundamentada com que o irmão apresenta a sua reflexão. O tema é relevante, delicado e merece, de fato, ser tratado com reverência às Escrituras, sobriedade doutrinária e espírito de comunhão.

Passo a responder às questões levantadas, procurando manter o equilíbrio entre o rigor bíblico, o valor do símbolo e a prática da igreja local.

  1. A observação gramatical de 1 Coríntios 11:28

A análise do verbo πινέτω (pinetō) acompanhado da preposição ἐκ (ek) é correta. A construção “beba do cálice” indica, de fato, o ato de beber algo que procede do cálice, e não, necessariamente, o gesto físico de levar o mesmo recipiente à boca. Essa mesma construção aparece em outros textos do Novo Testamento sem implicar identidade absoluta entre fonte e meio físico imediato.

Do ponto de vista estritamente gramatical, portanto, a preposição ἐκ permite a ideia de participação no conteúdo que procede de uma fonte comum. A analogia que o irmão faz com o pão é pertinente: todos comem “do pão”, embora não coloquem literalmente a boca no mesmo ponto do pão, nem o pão seja levado à boca como uma unidade indivisível.

Isso nos mostra que a Escritura, ao empregar essa linguagem, não está a legislar sobre o método físico exato, mas a afirmar a realidade espiritual da participação.

  1. O peso teológico do símbolo em 1 Coríntios 10

Em 1 Coríntios 10:16, o apóstolo Paulo afirma: “O cálice da bênção que abençoamos, não é a comunhão do sangue de Cristo?”. Aqui, o cálice aparece claramente como símbolo coletivo e unitário, ligado à comunhão (koinonia). O ponto central não é o objeto material em si, mas aquilo que ele representa: a participação comum no sangue de Cristo.

O cálice, no ensino paulino, aponta para uma única realidade redentora, uma única obra consumada, um único fundamento da comunhão do Corpo. O mesmo ocorre com o pão em 1 Coríntios 10:17: “Porque nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo”. O apóstolo não está a afirmar que existe um único pedaço físico de pão em todas as reuniões, mas que há uma única realidade espiritual representada.

Portanto, a unidade ensinada não está ancorada na indivisibilidade material do recipiente, mas na indivisibilidade daquilo que ele simboliza.

  1. A relação entre símbolo e prática

É aqui que a questão exige maior discernimento espiritual. A Escritura apresenta o cálice como símbolo de unidade, mas não fornece um mandamento explícito quanto à obrigatoriedade de um único recipiente físico passando de mão em mão. A força do símbolo está no fato de todos beberem da mesma bênção, do mesmo sangue, da mesma obra de Cristo.

Historicamente, irmãos zelosos procuraram preservar, na prática externa, essa unidade visível, evitando tudo o que pudesse sugerir individualismo. Esse zelo é digno de respeito. Contudo, zelo não deve ser confundido com normatividade bíblica absoluta quando a Escritura não legisla explicitamente.

A preposição ἐκ, longe de enfraquecer o símbolo, protege o princípio: todos bebem da mesma fonte, ainda que, por razões práticas, o conteúdo seja distribuído. O perigo não está no uso de recipientes auxiliares, mas na perda da consciência espiritual do que está a ser simbolizado.

  1. Questões práticas e responsabilidade pastoral

Situações como grandes ajuntamentos, limitações físicas, enfermidades ou necessidades sanitárias não anulam a verdade espiritual da Ceia do Senhor. A Escritura nunca subordina a comunhão espiritual a condições logísticas ideais. Pelo contrário, ensina-nos que a Ceia deve ser celebrada com discernimento, reverência e consciência do Corpo.

Quando a prática é conduzida com ensino claro, explicando que todos participam do mesmo cálice da bênção, que o vinho procede de uma única fonte simbólica e que a comunhão não é fragmentada, o uso de meios auxiliares não introduz individualismo, desde que o espírito da reunião seja preservado.

O verdadeiro individualismo começa quando a Ceia deixa de ser entendida como expressão da comunhão do Corpo e passa a ser vista como um ato privado entre o crente e Deus. Isso pode ocorrer tanto com um único cálice físico quanto com vários recipientes, se o ensino for deficiente.

  1. Respostas objetivas às perguntas levantadas

Quanto à primeira questão: a ênfase na preposição ἐκ permite, sim, uma flexibilidade legítima na distribuição, desde que não se perca o princípio da participação comum na mesma bênção. A gramática sustenta essa possibilidade; a teologia da comunhão estabelece os limites.

Quanto à segunda questão: a pureza do símbolo do cálice único é preservada quando a igreja local compreende e mantém, em fé e doutrina, que há uma única comunhão no sangue de Cristo. As necessidades práticas não anulam o símbolo, desde que não se transformem em princípio doutrinário ou em expressão de autonomia individual.

Em resumo, o Novo Testamento chama-nos menos à uniformidade mecânica e mais à unidade espiritual consciente. A Ceia do Senhor não é definida pelo formato do recipiente, mas pela realidade do Cristo lembrado, proclamado e compartilhado em comunhão.


Pode ser usado vários copinhos na ceia e vários pãezinhos, como é feito pela Igreja Católica?

A resposta curta é: não, o que foi exposto não equivale, nem justifica, a prática adotada pela Igreja Católica de vários “cálices individuais” independentes nem de pães consagrados individualmente como unidades autônomas. O princípio bíblico e o ensino apostólico caminham noutra direção.

Agora, a explicação mais clara e organizada.

  1. O que a Escritura afirma de forma positiva

Em 1 Coríntios 10:16-17, o apóstolo Paulo estabelece dois símbolos fundamentais:

– “O cálice da bênção que abençoamos”
– “O pão que partimos”

Ambos estão no singular e ligados diretamente à ideia de comunhão. O texto não está a tratar apenas de linguagem, mas de realidade espiritual objetiva: há uma só comunhão no sangue de Cristo e um só corpo, formado por muitos membros.

O ponto central é este:
o cálice e o pão representam uma realidade única e comum, não múltiplas realidades paralelas.

  1. O erro do modelo sacramental católico

Na teologia católica, cada hóstia consagrada é considerada, em si mesma, o “Cristo inteiro”, independentemente da comunhão da assembleia. Isso desloca o foco:

– da comunhão do Corpo
– para um ato sacramental individual

Esse modelo rompe exatamente com o ensino de 1 Coríntios 10:17, onde Paulo afirma que “nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo”. Ali, o pão não é uma soma de pães individuais; é um símbolo comum do Corpo unido.

Portanto, não se está a defender vários pães autônomos nem vários cálices independentes, como se cada crente tivesse a sua própria “ceia”.

  1. O que foi afirmado — e o que não foi

O que foi afirmado é isto:

– A Escritura não exige, de forma explícita, que todos levem o mesmo recipiente físico à boca.
– A preposição “ἐκ” (ek), em 1 Coríntios 11:28, indica participação no que procede do cálice, não a obrigatoriedade do mesmo gesto físico.

O que não foi afirmado:

– Não foi afirmado que cada copo seja “um cálice”.
– Não foi afirmado que vários pãezinhos sejam “vários pães” no sentido bíblico.
– Não foi afirmado que a Ceia possa ser fragmentada em atos individuais independentes.

A distinção é crucial.

  1. Unidade do símbolo ≠ unicidade absoluta do utensílio

Biblicamente, o símbolo é um só porque a realidade que ele aponta é uma só.

– Um pão, ainda que partido.
– Um cálice, ainda que o conteúdo seja distribuído.

Se houver distribuição, ela só faz sentido se ficar claro que:

– o pão procede de um só pão
– o vinho procede de um só cálice da bênção
– a assembleia participa de uma única comunhão

Sem isso, perde-se o significado bíblico e cai-se num modelo funcionalmente individualista, mesmo que revestido de linguagem cristã.

  1. O verdadeiro limite bíblico

O limite não é técnico, mas doutrinário e espiritual.

O erro começa quando:
– o símbolo deixa de expressar a comunhão do Corpo
– a Ceia passa a ser vivida como um momento privado
– o ensino apostólico de 1 Coríntios 10 e 11 é diluído

Isso pode acontecer tanto com:
– um único recipiente físico, se não houver discernimento
– quanto com meios auxiliares, se não houver clareza doutrinária

  1. Conclusão objetiva

Portanto, respondendo de forma inequívoca à sua pergunta:

Não, a reflexão apresentada não legitima a prática católica, nem o uso de vários “cálices” independentes ou “pães individuais” como unidades autônomas.
O princípio bíblico permanece: uma só comunhão, um só pão, um só cálice da bênção, expressão visível da unidade do Corpo de Cristo.

Se algo rompe esse princípio, ainda que pareça prático ou organizado, já não está alinhado com o ensino apostólico.


Há denominações que usam uma bandeja com pequenos cálices ao começar a ceia do Senhor e também pequenos pedaços de pão. Isto está correto?

O correto seria começar a ceia com um pão e um cálice e, sendo necessário, distribuir do único cálice a indivíduos.

Vou organizar a resposta em pontos objetivos.

  1. O ponto de partida da Ceia do Senhor nas Escrituras

No ensino apostólico, a Ceia do Senhor não começa com múltiplos elementos, mas com um pão e um cálice. É assim que Paulo apresenta a doutrina em 1 Coríntios 10:16-17:

– “O cálice da bênção que abençoamos”
– “O pão que partimos”

O ponto de partida é sempre o singular, porque o símbolo nasce da unidade da obra de Cristo e da unidade do Corpo. O pão é partido; o cálice é partilhado. A unidade é apresentada antes da distribuição.

Quando uma reunião já se inicia com uma bandeja de pequenos cálices e pequenos pedaços de pão independentes, o símbolo já nasce fragmentado, e isso enfraquece visivelmente o ensino apostólico, ainda que a intenção seja reverente.

  1. A diferença entre “distribuição” e “fragmentação do símbolo”

Há uma diferença essencial entre:

– distribuir a partir de um único pão e de um único cálice
– começar a Ceia com múltiplos pães e múltiplos cálices

A primeira preserva o símbolo; a segunda o redefine.

Biblicamente, o pão é um antes de ser partido, e o cálice é um antes de ser compartilhado. A distribuição é consequência da unidade, não o seu substituto.

Por isso, a sequência correta, do ponto de vista doutrinário, é:

  1. Um pão é apresentado e partido

  2. Um cálice da bênção é apresentado

  3. Se necessário, o conteúdo do cálice pode ser distribuído, sem que isso transforme cada recipiente num “novo cálice”

Quando se inverte essa ordem, perde-se a pedagogia espiritual do símbolo.

  1. O problema das bandejas com cálices individuais desde o início

O uso de bandejas com pequenos cálices, já prontos desde o início da Ceia, transmite implicitamente algumas ideias problemáticas:

– que cada crente “tem o seu cálice”
– que a comunhão é apenas simultânea, não comum
– que a unidade é apenas conceitual, não simbolicamente expressa

Ainda que se diga verbalmente que “todos participam do mesmo sangue de Cristo”, o símbolo visível passa a ensinar outra coisa. E na Ceia do Senhor, o símbolo ensina tanto quanto as palavras.

  1. A questão prática não anula o princípio, mas não pode substituí-lo

É legítimo reconhecer situações práticas: número elevado de participantes, limitações físicas, questões de saúde. A Escritura não ignora a realidade. Contudo, a solução prática deve proteger o princípio, não redefini-lo.

Distribuir o conteúdo de um único cálice, quando necessário, não fere o símbolo.
Substituir o cálice único por vários cálices independentes, como ponto de partida, fere o ensino apostólico.

O mesmo vale para o pão: pequenos pedaços só fazem sentido se procedem claramente de um único pão partido diante da assembleia.

  1. Conclusão clara e afirmativa

Portanto, a sua conclusão está correta e bem alinhada com o ensino do Novo Testamento:

– O correto é começar a Ceia do Senhor com um pão e um cálice
– A unidade deve ser apresentada antes da participação
– Havendo necessidade, a distribuição deve proceder a partir dessa unidade, e não substituí-la
– Práticas que já iniciam a Ceia com múltiplos cálices e múltiplos pães independentes enfraquecem o símbolo bíblico da comunhão do Corpo

A Ceia do Senhor não é apenas algo que se faz corretamente, mas algo que ensina corretamente. E o ensino começa no modo como os símbolos são apresentados.

Josué Matos