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Depravação total impede o ser humano de escolher?

 Alguém que me escreveu no YouTube:

Depois de assistir ao meu vídeo "Depravação total impede o ser humano de escolher?", eu entendo assim: o homem caído continua possuindo vontade e capacidade de realizar escolhas morais, mas não possui, em sua condição natural, capacidade espiritual para voltar-se salvificamente a Deus. Ele precisa ser vivificado pelo Espírito Santo. Quando Deus regenera seu coração, sua vontade é transformada, e ele passa a desejar voluntariamente a Cristo, arrepender-se e crer no evangelho.

Assim, quando uma pessoa ouve o evangelho e permanece na incredulidade, isso demonstra que ela continua em sua condição natural, não regenerada. Por si mesma, ela não consegue produzir a fé salvadora. É necessário que Deus lhe conceda um coração novo e opere nela a fé.

Muitas pessoas ouvem o evangelho. Algumas demonstram interesse, outras dizem desejar a salvação, mas o interesse exterior ou o desejo pelos benefícios da salvação não são necessariamente evidências de regeneração. A fé salvadora é fruto da graça de Deus.

Isso acontece porque a salvação não depende, em última instância, da vontade ou da capacidade humana, mas da ação soberana de Deus. É Ele quem escolhe, regenera, chama eficazmente, concede a fé, justifica e preserva os seus até o fim.

Romanos 8:30 apresenta essa sequência:

"Aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou."

Observe como Paulo apresenta a obra de Deus do começo ao fim. O propósito divino não fica dependendo de uma capacidade humana independente para se completar.

Filipenses 1:6 também complementa muito bem esse pensamento:

"Tendo por certo isto mesmo: que aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até ao Dia de Jesus Cristo."

Portanto, a salvação começa na vontade soberana de Deus, é aplicada pela sua graça e chega à consumação pela sua fidelidade. O homem verdadeiramente salvo crê, arrepende-se e persevera, mas toda a glória pertence ao Senhor.

Minha Resposta

Há muita coisa correta no que foi escrito, e é justo reconhecê-la. O homem está morto em seus delitos e pecados (Efésios 2:1). Ninguém se salva por mérito, e toda a glória pertence a Deus. Quem está salvo permanece salvo, pois o próprio Senhor garante: "E dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará da minha mão" (João 10:28). Também é verdade que um interesse superficial não é prova de salvação, como a parábola do semeador deixa claro (Lucas 8:13).

O ponto em que a Escritura precisa corrigir o raciocínio é a ordem entre fé e vida. A conclusão de que o incrédulo permanece assim porque Deus ainda não o regenerou não encontra apoio na Palavra. A Bíblia coloca a fé antes da vida, e a culpa da incredulidade no homem, nunca em Deus.

1. A Escritura apresenta a fé como o caminho pelo qual a vida é recebida

João escreveu o seu evangelho "para que, crendo, tenhais vida em seu nome" (João 20:31). Não diz "para que, tendo vida, creiais". Paulo afirma: "Porque todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus" (Gálatas 3:26). Em Efésios 1:13, o apóstolo mostra a sequência: os efésios ouviram a palavra da verdade, creram, e então "fostes selados com o Espírito Santo da promessa". O selo do Espírito vem depois da fé.

O próprio Senhor ensinou que o ouvir vem antes do viver: "Vem a hora, e agora é, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus; e os que a ouvirem viverão" (João 5:25). O morto espiritual não é descrito como alguém que precisa ser vivificado para só então poder ouvir. Ele ouve a voz do Filho e, ouvindo, vive. E Paulo explica por qual meio isso acontece: "A fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus" (Romanos 10:17).

2. A Escritura atribui a incredulidade à recusa do homem

Se a incredulidade fosse apenas sinal de que Deus ainda não regenerou a pessoa, o Senhor não censuraria os incrédulos como censurou. Ele disse: "E não quereis vir a mim para terdes vida" (João 5:40). Sobre Jerusalém, lamentou: "Quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos [...] e vós não quisestes!" (Mateus 23:37). Estevão acusou: "Vós sempre resistis ao Espírito Santo" (Atos 7:51).

A condenação também é explicada em termos de responsabilidade: "Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus" (João 3:18). O homem é condenado por não crer, e não por ainda não ter sido regenerado.

3. A graça de Deus e o chamado do evangelho alcançam a todos

"A graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens" (Tito 2:11). Deus "quer que todos os homens se salvem e venham ao conhecimento da verdade" (1 Timóteo 2:4). Ele "anuncia agora a todos os homens, e em todo lugar, que se arrependam" (Atos 17:30). O Espírito Santo, por sua vez, "convencerá o mundo do pecado, e da justiça, e do juízo" (João 16:8). A obra do Espírito sobre o incrédulo é real e vem antes da conversão. Não se limita a quem já foi regenerado.

Deus não ordena a todos que se arrependam e creiam como se fosse um gesto vazio. O evangelho é uma oferta sincera, e é para todos.

4. A fé não é obra, e por isso não anula a graça

O argumento de que, se o homem pode crer, a salvação deixa de ser pela graça não resiste ao texto bíblico. Paulo faz exatamente o contrário: "Mas, ao que não pratica, porém crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça" (Romanos 4:5). Ele opõe a fé às obras. E acrescenta: "Por isso é pela fé, para que seja segundo a graça" (Romanos 4:16). Crer é abrir as mãos vazias para receber o dom, e não conquistar o dom. Quem recebe um presente não passa a ter mérito por estender a mão.

5. Sobre Romanos 8:30 e Filipenses 1:6

Esses textos são preciosos, mas falam da segurança dos que já são de Deus. Romanos 8:30 faz parte de uma corrente que começa no versículo anterior: "Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho" (Romanos 8:29). O assunto de Paulo é a certeza da glorificação dos que pertencem a Cristo, a fim de consolá-los nas tribulações. Ele não está descrevendo a ordem pela qual o pecador morto passa a crer.

Filipenses 1:6 é uma palavra de confiança de Paulo sobre irmãos que, desde o primeiro dia, já participavam do evangelho (Filipenses 1:5). Ele afirma que Deus completará a obra naqueles que já creram. Ambos os textos garantem que o salvo não se perderá, mas nenhum deles diz que a regeneração precede a fé.

Conclusão

A Escritura mantém duas verdades juntas, sem sacrificar nenhuma: a salvação é toda de Deus, planejada por Ele, provida em Cristo e aplicada pelo Espírito, e o homem é chamado a responder, e responde pela fé, sendo plenamente responsável quando recusa. O pecador está morto em seus delitos, mas não está surdo à voz de Deus quando o evangelho é pregado e o Espírito convence. Quem ouve e crê recebe a vida, e dá toda a glória ao Senhor. Quem ouve e rejeita não pode lançar a culpa sobre Deus, pois o Senhor mesmo diz: "E não quereis vir a mim para terdes vida."

A resposta para quem ainda não creu, portanto, não é esperar uma regeneração misteriosa, e sim ouvir a ordem do Senhor e crer nela: "Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo" (Atos 16:31).

Josué Matos

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