Alguém que me escreveu no YouTube:
Depois de assistir ao seu vídeo "As diferenças entre a Teologia da Aliança e o Dispensacionalismo?", eu entendo mais a história da redenção dentro do aliancismo... e também na doutrina da recapitulação.
Minha Resposta:
Obrigado por assistir ao vídeo e por dizer com sinceridade o que ficou claro para você. A atração do aliancismo é compreensível: ele apresenta a Bíblia como uma história de redenção centrada em Cristo, e isso é verdadeiro. O ponto em discussão é se o sistema respeita tudo o que o texto diz sobre Israel e sobre a Igreja.
A redenção é uma só, mas os planos de Deus não se confundem
O dispensacionalismo não nega que a salvação sempre foi pela graça, mediante a fé, com base na obra de Cristo (Rm 4.1-8; Hb 9.15). Os salvos de todas as épocas são salvos do mesmo modo. A divergência está em outro ponto: se a Igreja substituiu Israel e se as promessas feitas a Israel foram transferidas a ela.
A Escritura aponta que não. Paulo escreve que Deus não rejeitou o seu povo (Rm 11.1-2). O endurecimento de Israel é "em parte", até que a plenitude dos gentios haja entrado, e os dons e o chamamento de Deus são irrevogáveis (Rm 11.25-29). As alianças pertencem aos israelitas (Rm 9.4). A aliança abraâmica (Gn 12; 15) e a davídica (2Sm 7.12-16; Lc 1.32-33) são incondicionais. A Nova Aliança foi prometida "à casa de Israel e à casa de Judá" (Jr 31.31-37), e Deus liga o seu cumprimento à permanência de Israel como nação.
A Igreja é um mistério revelado no Novo Testamento
Paulo diz que o mistério de judeus e gentios formando um só corpo em Cristo não foi dado a conhecer às gerações anteriores (Ef 3.3-6; Cl 1.26-27). Se a Igreja já estivesse no Antigo Testamento, não seria um mistério. Ela começa com o batismo do Espírito (At 1.5; 11.15-16; 1Co 12.13), e em 1Coríntios 10.32 Paulo separa três grupos: judeus, gregos e a igreja de Deus.
Sobre a recapitulação
Essa doutrina entende o Apocalipse como vários ciclos paralelos (selos, trombetas e taças) que descrevem o mesmo período, entre a primeira e a segunda vinda de Cristo. O próprio texto conduz a outra leitura:
- Apocalipse 1.19 divide o livro em três partes: o que João viu, o que é e o que há de acontecer "depois destas coisas". Apocalipse 4.1 retoma a expressão e abre a seção profética futura.
- Os juízos não se repetem; eles crescem em intensidade e se encadeiam. O sétimo selo contém as trombetas, e a sétima trombeta contém as taças.
- Apocalipse 19 mostra a vinda de Cristo em glória, e só depois, no capítulo 20, vêm o aprisionamento de Satanás e o reino de mil anos. Na recapitulação, o capítulo 20 precisa ser puxado para antes do 19.
- Satanás não está preso hoje. Ele é o deus deste século, que cega o entendimento dos incrédulos (2Co 4.4), e anda "como leão que ruge" (1Pe 5.8). Em Apocalipse 20.1-3 ele é lançado no abismo para não enganar mais as nações.
- Os profetas descrevem um reinado visível do Messias sobre a terra, com Israel restaurado (Is 2.2-4; 11.1-10; Zc 14.9), e isso não se encaixa na condição presente da Igreja.
A Igreja, por sua vez, é guardada da hora da provação que há de vir sobre toda a terra (Ap 3.10; 1Ts 1.10; 5.9), e ela aparece no céu nos capítulos 4 e 5, antes dos juízos da tribulação.
Minha recomendação é estudar cada passagem no seu contexto e no seu sentido natural, sem partir de um esquema pronto, como faziam os bereanos, que examinavam "todos os dias as Escrituras para ver se as coisas eram de fato assim" (At 17.11). Quando o texto é lido assim, as promessas a Israel permanecem de pé e a Igreja continua sendo o corpo de Cristo, formado por judeus e gentios. Que o Senhor lhe conceda entendimento em tudo.
Josué Matos