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João 20:17 deixa claro que Jesus subiu para o Pai somente naquele dia? Não houve subida antes da ressurreição?

 Alguém que me escreveu no YouTube:

Irmão, perdoe-me a insistência, mas o texto de João 20:17 deixa claro que Jesus subiu para o Pai somente naquele dia. Não houve subida antes da ressurreição. Veja: ‘Diga a eles que subo para o Pai’.

Um outro ponto que precisamos esclarecer é: Jesus não diz ‘não me toques’ porque ainda não subi para o Pai. Ele disse ‘não me detenhas’, ou seja, não vamos alongar a conversa porque eu tenho algo muito importante para fazer. Portanto, Ele demonstra pressa. E manda um recado aos discípulos: diga a eles para me aguardarem na Galileia, que lá me encontrarão.

A partir daí, Jesus não mais convive com eles. Ele vai fazer aparições esporádicas, e sempre com outras aparências, até subir definitivamente na presença de todos. Isso deixa claro que Ele não estava mais neste mundo e, após a ressurreição, não era mais humano.

Veja que, nessas aparições, os discípulos só percebiam que se tratava de Jesus após Ele falar algo extraordinário e não mais reconheciam Sua aparência. Veja que, no episódio do mar, Jesus Se apresenta a eles novamente, porém eles não O reconhecem fisicamente:

‘Disse-lhes Jesus: Vinde, comei. E nenhum dos discípulos ousava perguntar-lhe: Quem és tu? Sabendo que era o Senhor.’ (João 21:12 — ACF)

Minha Resposta:

Agradeço pela consideração e pela insistência no assunto, porque isso nos dá a oportunidade de examinar com mais atenção aquilo que a própria Escritura diz. Creio, porém, que precisamos separar algumas afirmações, pois algumas delas estão corretas, enquanto outras vão além do que o texto bíblico permite concluir.

  1. João 20:17 não ensina uma ascensão naquele mesmo dia

Concordo que João 20:17 não deve ser usado para ensinar que o Senhor Jesus já havia subido ao Pai naquela manhã e depois retornado à Terra. O próprio Senhor disse:

“Não me detenhas, porque ainda não subi para meu Pai; mas vai para meus irmãos e dize-lhes que eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus” (João 20:17).

Portanto, naquele momento Ele ainda não havia ascendido ao Pai. A ascensão pública e definitiva aconteceria posteriormente, depois do período de quarenta dias mencionado em Atos dos Apóstolos:

“Aos quais também, depois de ter padecido, se apresentou vivo, com muitas e infalíveis provas, sendo visto por eles por espaço de quarenta dias, e falando do que respeita ao reino de Deus” (Atos dos Apóstolos 1:3).

Depois desses quarenta dias:

“E, quando dizia isto, vendo-o eles, foi elevado às alturas, e uma nuvem o recebeu, ocultando-o a seus olhos” (Atos dos Apóstolos 1:9).

Assim, João 20:17 aponta para a ascensão que ainda estava por acontecer. O Senhor estava ensinando Maria Madalena que uma nova condição de relacionamento estava começando. Ela não deveria pensar que tudo simplesmente voltaria à situação existente antes da cruz. Cristo havia ressuscitado, e em breve ascenderia ao Pai.

  1. “Não me toques” ou “não me detenhas”?

Aqui sua observação merece consideração. A ideia de “não me detenhas”, “não continues agarrada a mim” ou “deixa de te apegar a mim” realmente expressa melhor o sentido da passagem do que entender as palavras como uma proibição absoluta de qualquer contato físico.

Isso é importante porque o próprio contexto bíblico prova que tocar no corpo ressuscitado do Senhor não era proibido.

Mais tarde, Ele disse a Tomé:

“Põe aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos; e chega a tua mão, e põe-na no meu lado” (João 20:27).

Em outra ocasião, Ele disse aos discípulos:

“Vede as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo; apalpai-me e vede, pois um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho” (Lucas 24:39).

Portanto, João 20:17 não significa: “Maria, você não pode tocar no meu corpo ressuscitado”. Se esse fosse o significado, haveria dificuldade em harmonizá-lo com Lucas 24:39 e João 20:27.

Maria, tomada pela alegria de reencontrar seu Senhor, queria agarrar-se a Ele. O Senhor estava mostrando que o relacionamento deles não continuaria simplesmente como antes. Sua ascensão estava próxima e uma nova condição seria estabelecida.

  1. Mas isso não significa que Jesus deixou de ser humano

É justamente neste ponto que não posso concordar com a conclusão apresentada.

A afirmação de que, “após a ressurreição, não era mais humano”, contradiz diretamente várias declarações das Escrituras.

O próprio Senhor ressuscitado declarou:

“Vede as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo; apalpai-me e vede, pois um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho” (Lucas 24:39).

Observe cuidadosamente as palavras: “sou eu mesmo”.

Não era outro ser. Não era uma manifestação temporária. Não era um espírito assumindo diferentes aparências. Era o mesmo Jesus que havia sido crucificado, agora ressuscitado e possuindo um corpo glorificado.

Ele inclusive mostrou as marcas da crucificação:

“E, dizendo isto, mostrou-lhes as mãos e os pés” (Lucas 24:40).

Depois:

“Então eles apresentaram-lhe parte de um peixe assado e um favo de mel; o que ele tomou e comeu diante deles” (Lucas 24:42-43).

Tudo isso foi feito justamente para demonstrar a realidade da Sua ressurreição corporal.

A ressurreição não destruiu a humanidade de Cristo; glorificou Seu corpo humano.

Ele continua sendo verdadeiro Deus e verdadeiro Homem.

  1. O Senhor Jesus continua sendo Homem depois da ascensão

Esta verdade torna-se ainda mais evidente quando observamos aquilo que o Novo Testamento diz depois da ascensão.

Paulo escreveu:

“Porque há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo, homem” (1 Timóteo 2:5).

Observe que Paulo não disse que Cristo “foi homem”. Ele escreveu depois da ressurreição e ascensão e ainda O apresenta como “Jesus Cristo, homem”.

Também lemos:

“Porquanto tem determinado um dia em que com justiça há de julgar o mundo, por meio do homem que destinou; e disso deu certeza a todos, ressuscitando-o dos mortos” (Atos dos Apóstolos 17:31).

A humanidade de Cristo não foi uma condição temporária que começou em Belém e terminou na manhã da ressurreição.

“O Verbo se fez carne” (João 1:14).

O Filho eterno de Deus assumiu verdadeira humanidade e, depois de ressuscitado, permanece o Homem glorificado no Céu.

Por isso Estêvão, depois da ascensão, declarou:

“Eis que vejo os céus abertos e o Filho do homem, que está em pé à mão direita de Deus” (Atos dos Apóstolos 7:56).

Ele ainda é chamado “Filho do Homem” no Céu.

  1. Seu corpo ressuscitado era diferente, mas continuava sendo um corpo real

Aqui talvez esteja a origem da dificuldade.

O corpo ressuscitado do Senhor não estava mais sujeito às limitações próprias da vida mortal. Isso, porém, não significa que Ele tenha deixado de possuir humanidade.

Paulo explica esse princípio em 1 Coríntios 15:

“Semeia-se corpo natural, ressuscitará corpo espiritual. Se há corpo natural, há também corpo espiritual” (1 Coríntios 15:44).

“Corpo espiritual” não significa “um espírito sem corpo”. Se assim fosse, a própria expressão seria contraditória.

É um corpo verdadeiro, porém adequado à nova condição da ressurreição.

O próprio Senhor demonstrou isso quando apareceu aos discípulos estando as portas fechadas:

“Chegada, pois, a tarde daquele dia, o primeiro da semana, e cerradas as portas onde os discípulos, com medo dos judeus, se tinham ajuntado, chegou Jesus, e pôs-se no meio” (João 20:19).

Seu corpo possuía propriedades que ultrapassavam as limitações de nosso corpo mortal. Mas continuava sendo o Seu corpo.

  1. O fato de algumas pessoas não O reconhecerem não significa que Ele assumisse constantemente “outras aparências”

Precisamos tomar cuidado para não transformar uma observação em uma doutrina que o texto não afirma.

Maria inicialmente não O reconheceu:

“Ela, cuidando que era o hortelão...” (João 20:15).

Mas basta observar a situação: Maria estava chorando junto ao sepulcro e não esperava encontrar Jesus vivo.

No caminho de Emaús existe uma explicação ainda mais clara:

“Os olhos deles estavam como que fechados, para que o não conhecessem” (Lucas 24:16).

Não diz que Jesus estava necessariamente com outro corpo ou outra identidade física. A Escritura explica que havia um impedimento no reconhecimento deles.

Posteriormente:

“Abriram-se-lhes então os olhos, e o conheceram” (Lucas 24:31).

Portanto, não devemos inverter o texto. A passagem não diz que Jesus mudou de aparência e por isso não O reconheceram; diz que os olhos deles estavam impedidos de reconhecê-Lo.

  1. João 21:12 também não prova mudança de aparência

O texto citado diz:

“Disse-lhes Jesus: Vinde, comei. E nenhum dos discípulos ousava perguntar-lhe: Quem és tu? Sabendo que era o Senhor” (João 21:12).

Observe a última expressão: “sabendo que era o Senhor”.

João já havia reconhecido Jesus antes:

“Então aquele discípulo, a quem Jesus amava, disse a Pedro: É o Senhor” (João 21:7).

Além disso, a cena acontece de manhã, com Jesus na praia e os discípulos inicialmente dentro do barco:

“E, sendo já manhã, Jesus se apresentou na praia, mas os discípulos não conheceram que era Jesus” (João 21:4).

Portanto, construir sobre João 21:12 a doutrina de que Cristo possuía “outras aparências” ou de que “não era mais humano” vai muito além daquilo que João está dizendo.

  1. Durante quarenta dias Jesus permaneceu neste mundo

Também não podemos afirmar que, depois da ressurreição, Jesus “não estava mais nesse mundo”.

Atos dos Apóstolos 1:3 é muito claro:

“Aos quais também, depois de ter padecido, se apresentou vivo, com muitas e infalíveis provas, sendo visto por eles por espaço de quarenta dias.”

Durante esses quarenta dias Sua presença entre os discípulos já não tinha o mesmo caráter de antes da cruz. Ele não retomou simplesmente a rotina anterior. Suas aparições foram específicas e tiveram propósitos determinados.

Mas Ele ainda não havia ascendido ao Céu.

Somente depois:

“Foi elevado às alturas” (Atos dos Apóstolos 1:9).

Portanto, precisamos conservar a ordem bíblica:

morte → sepultamento → ressurreição corporal → quarenta dias de aparições → ascensão → glorificação à direita de Deus.

  1. Uma distinção importante: Mesa do Senhor e Ceia do Senhor

Aproveito para esclarecer também uma distinção que frequentemente causa confusão.

As expressões “Mesa do Senhor” e “Ceia do Senhor” estão relacionadas, mas não são simplesmente sinônimos.

A “Mesa do Senhor” aparece em 1 Coríntios 10:

“Não podeis beber o cálice do Senhor e o cálice dos demônios; não podeis ser participantes da mesa do Senhor e da mesa dos demônios” (1 Coríntios 10:21).

Já a “Ceia do Senhor” aparece em 1 Coríntios 11:

“De sorte que, quando vos ajuntais num lugar, não é para comer a Ceia do Senhor” (1 Coríntios 11:20).

Em 1 Coríntios 10, a ênfase está na comunhão e na associação. Em 1 Coríntios 11, a ênfase está no memorial realizado quando a igreja se reúne.

Por isso, podemos dizer de maneira simples:

A Mesa do Senhor fala do princípio de comunhão e da esfera de associação sob a autoridade do Senhor.

A Ceia do Senhor fala do ato memorial realizado pela igreja reunida, usando o pão e o cálice para recordar o Senhor e anunciar Sua morte até que Ele venha.

Na Mesa temos comunhão; na Ceia temos comemoração.

A Mesa nos leva a perguntar: “Com quem e com o que estamos associados?”

A Ceia nos leva a perguntar: “De quem estamos nos lembrando?”

É justamente por isso que Paulo trata primeiro da Mesa no capítulo 10 e depois da Ceia no capítulo 11.

Na Mesa:

“O cálice de bênção que abençoamos, não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos não é porventura a comunhão do corpo de Cristo?” (1 Coríntios 10:16).

Na Ceia:

“Fazei isto em memória de mim” (1 Coríntios 11:24).

E:

“Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice anunciais a morte do Senhor, até que venha” (1 Coríntios 11:26).

Portanto, a Mesa do Senhor não é simplesmente o móvel sobre o qual colocamos o pão e o cálice. É uma expressão espiritual de comunhão sob o senhorio de Cristo.

A Ceia do Senhor, por sua vez, é aquilo que fazemos em memória dEle, conforme Sua própria ordem.

  1. A grande verdade que precisamos preservar

Finalmente, penso que devemos tomar muito cuidado com a afirmação de que Cristo “após a ressurreição não era mais humano”, porque ela atinge uma verdade fundamental acerca da Pessoa do Senhor Jesus.

O Cristo que morreu é o Cristo que ressuscitou.

“Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; e que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras” (1 Coríntios 15:3-4).

O túmulo ficou vazio porque Seu corpo ressuscitou.

Ele disse:

“Sou eu mesmo” (Lucas 24:39).

Mostrou as mãos e os pés.

Convidou os discípulos a tocá-Lo.

Comeu diante deles.

Tomé pôde contemplar as marcas dos cravos.

E, quarenta dias depois, aquele mesmo Jesus foi elevado ao Céu diante dos discípulos.

Por isso os anjos disseram:

“Esse Jesus, que dentre vós foi recebido em cima no céu, há de vir assim como para o céu o vistes ir” (Atos dos Apóstolos 1:11).

Não foi outro Jesus que ascendeu, e não será outro Jesus que voltará.

Ele é o Filho eterno de Deus que verdadeiramente Se fez Homem, morreu, ressuscitou corporalmente, ascendeu ao Céu e permanece o Homem glorificado à direita de Deus.

Por isso a esperança cristã não é que um espírito ou uma aparência de Jesus venha novamente. Esperamos o próprio Senhor:

“Porque o mesmo Senhor descerá do céu” (1 Tessalonicenses 4:16).

E nossa própria ressurreição está ligada à dEle:

“Que transformará o nosso corpo abatido, para ser conforme o seu corpo glorioso” (Filipenses 3:21).

Seu corpo é agora glorioso, incorruptível e imortal; mas continua sendo corpo verdadeiro. Sua humanidade não foi abandonada na ressurreição. Ao contrário, a ressurreição demonstrou o triunfo da Sua humanidade perfeita sobre a morte.

Assim, concordamos que “não me detenhas” transmite adequadamente a ideia de João 20:17 e que não precisamos imaginar uma ascensão secreta naquela manhã. Contudo, não podemos avançar daí para a conclusão de que Jesus deixou de ser Homem. Lucas 24:39 praticamente encerra essa questão nas próprias palavras do Senhor ressuscitado:

“Sou eu mesmo; apalpai-me e vede, pois um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho.”

Josué Matos

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Se a nossa POSIÇÃO é em CRISTO, por que os exclusivistas evitam que novos irmãos partam o pão?

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Graça e paz, Josué.

Pergunta de uma pessoa:

Se a nossa POSIÇÃO é em CRISTO, por que os exclusivistas evitam que novos irmãos partam o pão?

Se já estamos em CRISTO espiritualmente e a MESA é ESPIRITUAL, não terrena?

Minha Resposta:

A pergunta é importante porque envolve verdades que, embora relacionadas, não devem ser confundidas: nossa posição em Cristo, a Igreja que é o Corpo de Cristo, a igreja local, a Mesa do Senhor, a Ceia do Senhor e a comunhão de uma igreja local.

Primeiramente, concordo que todo verdadeiro salvo está em Cristo. A Palavra de Deus declara:

“Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Romanos 8:1).

Também lemos:

“Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é” (2 Coríntios 5:17).

E ainda:

“Porque todos quantos fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo” (Gálatas 3:27).

Portanto, a posição espiritual do salvo em Cristo não depende de ele pertencer a determinada denominação, grupo ou igreja local. Todo aquele que verdadeiramente nasceu de novo pertence a Cristo e, consequentemente, pertence à Igreja que é o Corpo de Cristo.

Entretanto, aqui precisamos fazer uma distinção muito importante: pertencer ao Corpo de Cristo não significa automaticamente estar na comunhão prática de determinada igreja local.

  1. A Igreja, Corpo de Cristo, e a igreja local

A Igreja que é o Corpo de Cristo é formada por todos os verdadeiros salvos desta presente dispensação.

“Pois todos nós fomos batizados em um Espírito, formando um corpo” (1 Coríntios 12:13).

Esta é uma realidade espiritual que Deus realizou. Nenhum ancião recebe alguém no Corpo de Cristo, e nenhuma igreja local pode excluir alguém do Corpo de Cristo. É Deus quem coloca o salvo nessa posição.

Mas, quando chegamos à igreja local, encontramos uma esfera de testemunho e responsabilidade coletiva.

Por exemplo, em Atos dos Apóstolos 2:41-42 encontramos uma ordem muito instrutiva:

“De sorte que foram batizados os que de bom grado receberam a sua palavra; e naquele dia agregaram-se quase três mil almas. E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações.”

Observe a sequência:

receberam a Palavra;

foram batizados;

foram acrescentados;

perseveravam na doutrina dos apóstolos;

na comunhão;

no partir do pão;

e nas orações.

Portanto, o partir do pão não aparece como uma atividade isolada da vida da igreja local.

A pessoa não chegava simplesmente para participar do pão e do cálice sem qualquer relação com a comunhão, a doutrina e o testemunho daquela igreja.

  1. Não somos recebidos simplesmente à Ceia do Senhor

Este é um ponto que precisa ser compreendido.

Biblicamente, não deveríamos pensar na recepção de uma pessoa simplesmente como “recebê-la para partir o pão”.

A recepção é à comunhão da igreja local.

A Ceia do Senhor é uma das expressões dessa comunhão.

Atos dos Apóstolos 2:42 não diz apenas que perseveravam no partir do pão. Antes disso, diz que perseveravam “na doutrina dos apóstolos e na comunhão”.

Isso significa que a comunhão da igreja local é muito mais ampla do que comer do pão e beber do cálice.

Quando uma pessoa é recebida na comunhão, ela passa a compartilhar dos privilégios e também das responsabilidades daquela igreja local.

Por isso, seria incorreto reduzir toda a questão da comunhão à pergunta: “Posso ou não posso partir o pão?”

A questão é maior:

“Posso estar em comunhão com esta igreja, com sua doutrina, seu testemunho e sua prática?”

Existe responsabilidade dos dois lados. A igreja recebe a pessoa, mas, em certo sentido, a pessoa também recebe aquela igreja e identifica-se com a sua comunhão.

  1. Mesa do Senhor e Ceia do Senhor não são exatamente a mesma coisa

Aqui está, talvez, uma das principais causas de confusão.

As expressões aparecem em contextos diferentes.

A “Mesa do Senhor” aparece em 1 Coríntios 10:21:

“Não podeis beber o cálice do Senhor e o cálice dos demônios; não podeis ser participantes da mesa do Senhor e da mesa dos demônios.”

Já a expressão “Ceia do Senhor” aparece em 1 Coríntios 11:20:

“De sorte que, quando vos ajuntais num lugar, não é para comer a Ceia do Senhor.”

Embora as duas verdades estejam relacionadas, não devemos simplesmente transformar as duas expressões em sinônimos absolutos.

A Mesa do Senhor, em 1 Coríntios 10, apresenta principalmente o princípio da comunhão.

A Ceia do Senhor, em 1 Coríntios 11, apresenta a reunião memorial instituída pelo Senhor Jesus, na qual os crentes comem do pão e bebem do cálice em memória dEle.

Podemos resumir assim:

A Mesa do Senhor fala da comunhão.

A Ceia do Senhor fala da comemoração.

A Mesa enfatiza aquilo com que estamos associados.

A Ceia enfatiza Aquele de quem nos lembramos.

  1. O que significa “mesa” na Bíblia?

Precisamos abandonar a ideia de que a “Mesa do Senhor” seja simplesmente o móvel onde são colocados o pão e o cálice.

Não é disso que 1 Coríntios 10 está tratando.

O contexto começa anteriormente:

“Porventura o cálice de bênção que abençoamos não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos não é porventura a comunhão do corpo de Cristo?” (1 Coríntios 10:16).

Depois Paulo usa Israel como exemplo:

“Vede a Israel segundo a carne; os que comem os sacrifícios não são, porventura, participantes do altar?” (1 Coríntios 10:18).

Finalmente ele menciona a “mesa dos demônios” (1 Coríntios 10:21).

Obviamente, Paulo não está contrastando dois móveis.

Ele está falando de duas comunhões incompatíveis.

Participar de uma mesa significa identificar-se com aquilo que ela representa.

É nesse sentido que a Mesa do Senhor é espiritual. Mas o fato de ela ser espiritual não elimina suas consequências práticas.

Pelo contrário, é justamente porque a comunhão é espiritual que devemos ter cuidado com nossas associações.

  1. A Mesa do Senhor não pertence a um grupo religioso

Também precisamos tomar cuidado para não transformar a expressão “Mesa do Senhor” numa espécie de título denominacional.

Nenhuma denominação pode dizer: “A Mesa do Senhor pertence a nós.”

Ela é do Senhor.

Também não existe nas Escrituras uma classe de cristãos chamada “os da Mesa do Senhor”, como se determinada organização religiosa tivesse adquirido direitos sobre ela.

Paulo diz:

“a mesa do Senhor” (1 Coríntios 10:21).

O destaque está na palavra “Senhor”.

É a Sua autoridade que importa.

Portanto, a pergunta principal não deveria ser: “Qual grupo possui a Mesa do Senhor?”

A pergunta deveria ser:

“Estamos procurando obedecer à Palavra do Senhor na comunhão da igreja local?”

  1. A Ceia do Senhor

Quando chegamos a 1 Coríntios 11, a ênfase muda.

Ali encontramos:

“Porque eu recebi do Senhor o que também vos ensinei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; e, tendo dado graças, o partiu e disse: Tomai, comei; isto é o meu corpo que é partido por vós; fazei isto em memória de mim” (1 Coríntios 11:23-24).

Aqui temos claramente a comemoração.

O pão nos faz recordar o corpo do Senhor entregue por nós.

O cálice nos faz recordar Seu sangue derramado.

E Paulo acrescenta:

“Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice anunciais a morte do Senhor, até que venha” (1 Coríntios 11:26).

Portanto, a Ceia olha em pelo menos duas direções.

Olhamos para trás:

“a morte do Senhor”.

E olhamos para a frente:

“até que venha”.

No centro está a Pessoa de Cristo:

“em memória de mim”.

  1. Se todos os salvos estão em Cristo, por que não admitir imediatamente qualquer pessoa ao partir do pão?

Porque posição espiritual e comunhão prática não são exatamente a mesma coisa.

Um exemplo muito claro está em 1 Coríntios 5.

O homem mencionado naquele capítulo era reconhecido como estando dentro da esfera da igreja local, mas, devido ao pecado moral grave em que persistia, deveria ser colocado fora daquela comunhão:

“Tirai, pois, dentre vós a esse iníquo” (1 Coríntios 5:13).

Isso não significa que os anciãos tinham poder para retirar alguém do Corpo de Cristo.

Nenhum homem possui esse poder.

Mas a igreja tinha responsabilidade quanto à sua comunhão local.

Portanto, a Bíblia estabelece uma distinção entre a posição que alguém possui diante de Deus e a condição prática necessária para desfrutar da comunhão de uma igreja local.

Outro exemplo aparece em 2 Tessalonicenses 3:6:

“Mandamo-vos, porém, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que vos aparteis de todo irmão que andar desordenadamente e não segundo a tradição que de nós recebeu.”

Veja que Paulo chama a pessoa de “irmão”, mas, ao mesmo tempo, reconhece que seu comportamento poderia exigir uma ação prática da igreja.

Logo, o argumento “ele está em Cristo, portanto necessariamente deve participar imediatamente de tudo na igreja local” não resolve a questão.

  1. Mas isso autoriza o exclusivismo?

Não.

Existe um perigo no outro extremo.

Uma igreja pode ser tão cuidadosa com a recepção que acaba estabelecendo condições que a própria Palavra de Deus não estabeleceu.

Não devemos acrescentar mandamentos humanos às Escrituras.

Não deveríamos perguntar se a pessoa pertence ao “nosso grupo”, se utiliza determinado nome religioso ou se procede exatamente do mesmo círculo de igrejas.

A pergunta fundamental é se temos razões bíblicas para reconhecê-la como uma pessoa salva, batizada, de vida moral compatível com a profissão cristã, que não esteja envolvida em doutrina fundamentalmente falsa ou em associações que comprometam a comunhão e que esteja disposta a caminhar de acordo com a Palavra de Deus.

A recepção bíblica não deve ser nem descuidada nem sectária.

  1. Por que pode haver necessidade de esperar?

Imagine uma pessoa completamente desconhecida chegando a uma igreja local e dizendo:

“Sou salvo e quero partir o pão hoje.”

Os responsáveis nunca a viram. Não sabem quem ela é, no que acredita, como vive nem de onde veio.

Seria necessariamente uma ofensa pedir algum tempo para conhecê-la?

Não.

Isso não significa afirmar que ela não seja salva.

Significa apenas reconhecer a responsabilidade da igreja.

No Novo Testamento encontramos inclusive o princípio das cartas de recomendação.

Paulo escreve:

“Recomendo-vos, pois, Febe, nossa irmã, a qual serve na igreja que está em Cencreia, para que a recebais no Senhor, como convém aos santos” (Romanos 16:1-2).

Em outra ocasião encontramos:

“E, querendo ele passar à Acaia, o animaram os irmãos e escreveram aos discípulos que o recebessem” (Atos dos Apóstolos 18:27).

Isso mostra que havia reconhecimento e responsabilidade entre as igrejas.

Não era simplesmente uma situação em que qualquer desconhecido chegava, declarava-se cristão e automaticamente participava de tudo.

Ao mesmo tempo, não encontramos no Novo Testamento fundamento para criar uma burocracia religiosa que mantenha indefinidamente afastado um crente conhecido, piedoso e biblicamente apto apenas porque ele não pertence ao mesmo círculo de igrejas.

  1. “Examine-se, pois, o homem a si mesmo”

Alguém poderá citar:

“Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma deste pão e beba deste cálice” (1 Coríntios 11:28).

Isso é verdade e muito importante.

Entretanto, precisamos respeitar o contexto.

Paulo está tratando da maneira como os crentes que já estavam na igreja em Corinto participavam da Ceia do Senhor.

Alguns estavam participando de maneira indigna. Por isso deveriam examinar a si mesmos.

O texto não ensina que toda responsabilidade da igreja desaparece e que qualquer pessoa pode determinar unilateralmente sua própria participação.

Se interpretássemos dessa maneira, entraríamos em conflito com outras passagens que ensinam claramente a responsabilidade coletiva da igreja quanto à sua comunhão, disciplina e pureza.

  1. Estar “em Cristo” não elimina a responsabilidade prática

Este princípio aparece em muitas áreas da vida cristã.

O salvo está “em Cristo”, mas deve andar como Cristo andou:

“Aquele que diz que está nele também deve andar como ele andou” (1 João 2:6).

O salvo é santo quanto à sua posição, mas também recebe a ordem:

“Como é santo aquele que vos chamou, sede vós também santos em toda a vossa maneira de viver” (1 Pedro 1:15).

Temos, portanto, posição e prática.

Nossa posição é perfeita em Cristo.

Nossa prática deve corresponder à nossa posição.

O mesmo princípio se aplica à comunhão da igreja local.

  1. A Mesa é espiritual, mas isso não significa que seja individual

Este ponto também é importante.

Dizer que algo é espiritual não significa dizer que seja puramente individual.

A comunhão apresentada em 1 Coríntios 10 é coletiva:

“Porque nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão” (1 Coríntios 10:17).

Observe as palavras:

“nós”;
“muitos”;
“um só corpo”;
“todos participamos”.

É uma realidade espiritual, porém expressa coletivamente.

Por isso, a participação no partir do pão nunca deveria ser entendida como uma decisão puramente particular:

“Eu sei que sou salvo, portanto ninguém tem nada a ver com minha participação.”

Isso contraria o próprio significado de comunhão.

Comunhão significa participação compartilhada.

  1. Então qual seria o equilíbrio bíblico?

Creio que podemos resumir da seguinte maneira.

Todo verdadeiro salvo está em Cristo e pertence ao Seu Corpo.

Nenhuma igreja local coloca alguém em Cristo.

Nenhuma igreja local possui a Mesa do Senhor.

A Mesa do Senhor, em 1 Coríntios 10, enfatiza comunhão e associação espiritual sob o senhorio de Cristo.

A Ceia do Senhor, em 1 Coríntios 11, é a comemoração instituída pelo Senhor, na qual os crentes reunidos comem o pão e bebem do cálice em memória dEle.

A Ceia do Senhor é uma expressão da comunhão da igreja local, e não uma cerimônia independente dessa comunhão.

Por isso, biblicamente, não deveríamos falar apenas em “receber alguém à Ceia”; o princípio mais amplo é receber alguém à comunhão da igreja local.

Essa recepção envolve responsabilidade.

A igreja não deve receber levianamente quem vive em pecado conhecido ou sustenta doutrina que atinge fundamentos da fé.

Por outro lado, também não deve rejeitar um verdadeiro crente simplesmente porque ele não pertence ao seu círculo de igrejas ou não carrega determinado rótulo.

É preciso evitar os dois extremos:

a abertura sem discernimento e o exclusivismo sectário.

  1. O centro deve continuar sendo Cristo

Finalmente, quando discutimos a Mesa e a Ceia do Senhor, existe o perigo de gastarmos tanto tempo discutindo quem pode ou não participar que acabamos perdendo de vista o grande propósito da própria Ceia.

O Senhor não disse:

“Fazei isto para demonstrardes que sois melhores do que outros cristãos.”

Também não disse:

“Fazei isto em memória da vossa igreja.”

Muito menos:

“Fazei isto em memória do vosso grupo.”

Ele disse:

“Fazei isto em memória de mim” (1 Coríntios 11:24).

Cristo é o centro.

A Mesa é do Senhor.

A Ceia é do Senhor.

A igreja é de Deus.

A Palavra é a autoridade.

Portanto, não devemos usar a verdade da comunhão para criar uma seita fechada, nem usar a verdade da nossa posição em Cristo para eliminar a ordem, a santidade e a responsabilidade da igreja local.

Precisamos conservar as duas verdades.

Todo verdadeiro salvo está em Cristo.

Mas todo verdadeiro salvo é também chamado a andar em obediência a Cristo.

É justamente porque pertencemos a Ele que devemos desejar comunhão com outros salvos segundo a Sua Palavra, procurando manter “a unidade do Espírito pelo vínculo da paz” (Efésios 4:3), sem sacrificar a verdade e sem criar exigências que Deus não criou.

Josué Matos

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Após o casamento ser consumado, a união é considerada indissolúvel?

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Pergunta:

Bom dia, amado.

Li em seu site o seguinte:

“Após o casamento ser consumado, a união é considerada indissolúvel. Não há base bíblica para o divórcio e um novo casamento enquanto ambos os parceiros ainda estão vivos.”

Alguém em um segundo matrimônio, sem ter estado viúvo ou solteiro, casando-se de novo, estará em pecado de adultério, correto? Como será salvo alguém numa situação trágica assim? Pois conheço várias pessoas crentes em tal situação... Dói-me o coração, entende? Uma tragédia eterna (condenação) que se avizinha, pois?

Obrigado por tudo, amado Josué.

Aliás, quando se consuma o casamento?

Minha Resposta:

A sua pergunta é muito importante, principalmente porque envolve duas verdades que precisamos manter juntas: a santidade do casamento e a grandeza da graça de Deus. Não devemos diminuir aquilo que a Palavra de Deus diz sobre o casamento, mas também não devemos transmitir a ideia de que alguém que caiu nesse pecado está necessariamente além do alcance da salvação. A Bíblia não ensina isso.

Primeiramente, preciso fazer uma pequena correção na maneira como a frase que você encontrou no site pode ser entendida. Quando se diz que “após o casamento ser consumado” a união é indissolúvel, alguém poderia entender que é a relação sexual que cria o casamento. Biblicamente, não devemos colocar a questão dessa maneira. A relação sexual é a consumação física do casamento, mas não é simplesmente o ato sexual que transforma duas pessoas em marido e mulher.

  1. Quando duas pessoas se tornam marido e mulher?

Precisamos voltar ao primeiro casamento registrado na Bíblia:

“Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e se apegará à sua mulher, e serão ambos uma carne” (Gênesis 2:24).

Observe a ordem. Ela já é chamada de “sua mulher”, e então aparece a expressão “serão ambos uma carne”. Quando o Senhor Jesus citou essa passagem, acrescentou:

“Assim não são mais dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem” (Mateus 19:6).

Portanto, o casamento não é constituído simplesmente pela relação sexual. Se assim fosse, qualquer relação sexual entre duas pessoas solteiras automaticamente constituiria um casamento, e a Bíblia não ensina isso.

Primeira aos Coríntios 6:16 mostra justamente a diferença. Paulo fala de um homem que se une sexualmente a uma prostituta e diz que os dois se tornam “um corpo”. Evidentemente, Paulo não está ensinando que aquele homem se casou com ela.

O casamento envolve um homem e uma mulher assumindo uma união matrimonial reconhecida como tal. A relação sexual posteriormente consuma fisicamente essa união.

Por isso, seria mais preciso dizer que, uma vez estabelecido o casamento, Deus considera aquele homem e aquela mulher unidos matrimonialmente, e a relação sexual é a expressão física e a consumação dessa união.

Isso também ajuda a compreender José e Maria. Antes de viverem juntos e antes da consumação física do casamento, Maria já é chamada de “mulher” de José, e José é chamado de “marido” (Mateus 1:18-20). Havia, no costume judaico, um compromisso matrimonial muito mais vinculativo do que aquilo que atualmente chamamos simplesmente de noivado.

  1. O casamento foi planejado para durar enquanto ambos vivem

Quando os fariseus perguntaram ao Senhor Jesus sobre o divórcio, Ele não começou por Moisés. Ele voltou à criação:

“Não tendes lido que aquele que os fez no princípio macho e fêmea os fez?” (Mateus 19:4).

Depois declarou:

“Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem” (Mateus 19:6).

Quando perguntaram por que Moisés havia permitido carta de divórcio, o Senhor respondeu:

“Moisés, por causa da dureza dos vossos corações, vos permitiu repudiar vossas mulheres; mas ao princípio não foi assim” (Mateus 19:8).

Esta última frase é muito importante: “ao princípio não foi assim”.

O padrão de Deus não é casamento, divórcio e novo casamento. O padrão apresentado desde Gênesis é um homem e uma mulher unidos por toda a vida.

Esse ensino aparece de maneira muito clara também em Marcos:

“Qualquer que deixar a sua mulher e casar com outra adultera contra ela. E, se a mulher deixar a seu marido e casar com outro, adultera” (Marcos 10:11-12).

Lucas registra:

“Qualquer que deixa sua mulher e casa com outra adultera; e aquele que casa com a repudiada pelo marido adultera também” (Lucas 16:18).

Paulo ensina o mesmo princípio:

“Porque a mulher que está sujeita ao marido, enquanto ele viver, está-lhe ligada pela lei; mas, morto o marido, está livre da lei do marido. De sorte que, vivendo o marido, será chamada adúltera se for de outro marido” (Romanos 7:2-3).

E novamente:

“A mulher casada está ligada pela lei todo o tempo que o seu marido vive; mas, se falecer o seu marido, fica livre para casar com quem quiser, contanto que seja no Senhor” (Primeira aos Coríntios 7:39).

Assim, dentro desse entendimento das Escrituras, a morte é que põe fim ao vínculo matrimonial e deixa o cônjuge sobrevivente livre para casar novamente.

  1. E se houver separação?

A própria Bíblia reconhece que podem surgir situações extremamente difíceis nas quais ocorre uma separação. Mas é muito significativo observar a orientação apostólica:

“Todavia, aos casados, mando, não eu, mas o Senhor, que a mulher se não aparte do marido. Se, porém, se apartar, que fique sem casar ou que se reconcilie com o marido; e que o marido não deixe a mulher” (Primeira aos Coríntios 7:10-11).

Veja as duas possibilidades apresentadas depois da separação:

“fique sem casar”

ou

“que se reconcilie”.

Não aparece uma terceira opção dizendo: “case-se com outra pessoa”.

Isso é importante porque mostra que a separação, por mais dolorosa que seja, não concede automaticamente liberdade para outro casamento.

  1. Então alguém no segundo casamento está irremediavelmente condenado?

Aqui precisamos ter muito cuidado.

Não devemos concluir: “Essa pessoa está em adultério, portanto não poderá ser salva”.

Se fizermos isso, estaremos indo além da Escritura.

A Bíblia realmente diz:

“Não sabeis que os injustos não hão de herdar o reino de Deus? Não erreis: nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros...” (Primeira aos Coríntios 6:9).

Isso é muito sério.

Mas precisamos continuar lendo:

“E é o que alguns têm sido; mas haveis sido lavados, mas haveis sido santificados, mas haveis sido justificados em nome do Senhor Jesus e pelo Espírito do nosso Deus” (Primeira aos Coríntios 6:11).

Observe cuidadosamente:

“E é o que alguns têm sido.”

Entre os cristãos de Corinto havia pessoas cujo passado incluía pecados sexuais gravíssimos. Contudo, o Evangelho havia alcançado essas pessoas.

Foram lavadas.

Foram santificadas.

Foram justificadas.

Portanto, não existe fundamento bíblico para dizer que o adultério seja um pecado que o sangue de Cristo não possa purificar.

O sangue de Jesus Cristo é suficiente para purificar de todo pecado:

“O sangue de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de todo pecado” (Primeira de João 1:7).

  1. Mas salvação envolve arrependimento

Aqui está o ponto que não podemos ignorar.

A graça de Deus perdoa o pecador, mas não transforma o pecado em algo aceitável.

Quando o Senhor Jesus tratou com a mulher samaritana, Ele revelou a situação dela:

“Porque tiveste cinco maridos, e o que agora tens não é teu marido” (João 4:18).

Que declaração impressionante!

O Senhor conhecia perfeitamente sua situação conjugal. Ainda assim, ofereceu-lhe a água da vida.

Portanto, aquela mulher não estava fora do alcance da graça.

Da mesma maneira, quando uma mulher foi apanhada em adultério, o Senhor lhe disse:

“Nem eu também te condeno; vai-te e não peques mais” (João 8:11).

Observe o equilíbrio perfeito.

Ele não disse que o pecado não importava.

Também não disse que aquela mulher estava além da possibilidade de perdão.

Disse:

“Não te condeno.”

Mas também:

“Não peques mais.”

Esse é o equilíbrio da graça e da verdade.

  1. E alguém que se converte estando num segundo casamento?

Esta é provavelmente a parte mais dolorosa da sua pergunta.

Imagine uma pessoa que passou muitos anos longe de Deus. Divorciou-se, casou novamente, teve filhos nesse segundo relacionamento e, muitos anos depois, ouviu o Evangelho e verdadeiramente se converteu.

O que fazer?

Primeiro, devemos afirmar claramente que ela pode ser salva.

O Evangelho não diz:

“Crê no Senhor Jesus Cristo, a menos que você tenha complicado demais a sua vida matrimonial.”

A mensagem é:

“Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo” (Atos dos Apóstolos 16:31).

O Senhor Jesus disse:

“O que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora” (João 6:37).

Portanto, jamais devemos dizer a uma pessoa sinceramente arrependida: “Para você não existe mais salvação”.

Isso seria negar o poder do Evangelho.

Entretanto, depois da conversão surge outra pergunta: como colocar a vida em conformidade com a Palavra de Deus?

E aqui a situação pode tornar-se extremamente dolorosa.

Se o primeiro cônjuge ainda vive, dentro do entendimento bíblico que estamos considerando, o segundo casamento não desfez o vínculo original. Por isso, não podemos simplesmente dizer que, depois da conversão, aquilo que anteriormente era contrário à Palavra de Deus automaticamente se tornou correto.

Primeira aos Coríntios 6:11 não diz: “E é o que alguns ainda continuam sendo”. Diz:

“E é o que alguns têm sido.”

Houve uma mudança.

É precisamente aí que entram o arrependimento, a obediência e, muitas vezes, consequências muito dolorosas.

  1. Isso significa que a pessoa deve abandonar todas as suas responsabilidades?

Não.

Essa questão precisa ser tratada com muita sabedoria, especialmente quando existem filhos.

Uma coisa é reconhecer biblicamente uma situação matrimonial irregular. Outra coisa é imaginar que arrependimento significa abandonar filhos, deixar pessoas sem sustento ou agir irresponsavelmente.

Um homem continua tendo responsabilidades para com os filhos que gerou. O arrependimento nunca é desculpa para irresponsabilidade.

Por isso, casos concretos podem ser extremamente complexos e precisam ser tratados individualmente, com muita oração, conhecimento dos fatos, temor de Deus e submissão às Escrituras.

Pode haver consequências materiais, familiares e emocionais que permanecerão durante muitos anos.

Deus perdoa o pecado, mas nem sempre remove todas as consequências temporais daquele pecado.

Davi foi perdoado quando confessou:

“Pequei contra o Senhor.”

Natã respondeu:

“Também o Senhor traspassou o teu pecado; não morrerás” (Segundo Samuel 12:13).

Davi foi perdoado, mas várias consequências de suas escolhas permaneceram.

  1. Portanto, essas pessoas estão caminhando inevitavelmente para a condenação eterna?

Eu não diria isso.

Não temos autoridade para olhar para determinadas pessoas que professam fé em Cristo e decretar individualmente: “Essas pessoas estão condenadas”.

A salvação é pela graça, mediante a fé:

“Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie” (Efésios 2:8-9).

Ao mesmo tempo, a verdadeira salvação produz transformação:

“Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras” (Efésios 2:10).

Portanto, existem dois erros que precisamos evitar.

O primeiro seria dizer: “Está num segundo casamento, então não existe mais salvação para essa pessoa.”

Isso não é verdade.

O segundo seria dizer: “Se professou fé em Cristo, então não importa como continua vivendo.”

Isso também não é verdade.

A graça que salva também ensina o salvo a renunciar à impiedade, conforme Tito 2:11-12.

  1. A diferença entre cair em pecado e viver deliberadamente no pecado

Isso também precisa ser compreendido.

Um verdadeiro cristão ainda pode pecar. Primeira de João 2:1 diz:

“Meus filhinhos, estas coisas vos escrevo para que não pequeis; e, se alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o justo.”

Observe que João diz “se alguém pecar”, e não que o cristão tenha licença para permanecer deliberadamente no pecado.

Existe diferença entre um cristão cair, confessar seu pecado, arrepender-se e buscar restauração, e alguém decidir que continuará conscientemente numa condição contrária à Palavra de Deus porque não deseja enfrentar as consequências da obediência.

A Escritura nunca apresenta a graça como autorização para continuar no pecado.

Paulo pergunta:

“Permaneceremos no pecado, para que a graça seja mais abundante?”

E responde:

“De modo nenhum” (Romanos 6:1-2).

  1. Por isso, não devemos olhar para essas pessoas sem compaixão

Você escreveu uma frase que merece atenção:

“Dói-me o coração.”

E deve doer mesmo.

Mas essa dor não deve ser apenas medo da condenação. Deve produzir compaixão.

Existem pessoas que tomaram decisões erradas antes de conhecerem a Palavra de Deus. Algumas receberam orientações religiosas equivocadas. Outras chegaram a Cristo depois de décadas de uma vida completamente desorganizada.

Não devemos diminuir a verdade para aliviar a consciência delas. Mas também não devemos usar a verdade como uma pedra para esmagá-las.

Precisamos fazer o que o Senhor fazia: apresentar verdade e graça.

A Palavra diz:

“Chorai com os que choram” (Romanos 12:15).

Existem situações matrimoniais em que praticamente qualquer caminho envolve sofrimento. Nesses casos, não ajudamos ninguém simplesmente dizendo: “Você está condenado”.

Devemos levar a pessoa a Cristo, mostrar-lhe o Evangelho, ajudá-la a compreender as Escrituras e, depois, ajudá-la a enfrentar honestamente diante de Deus as consequências da sua situação.

  1. Há esperança até para quem arruinou completamente a própria vida

Talvez esta seja a parte mais importante da resposta.

Não existe uma vida tão complicada que Cristo seja incapaz de salvar.

Paulo escreveu:

“Esta é uma palavra fiel e digna de toda a aceitação: que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores” (Primeira a Timóteo 1:15).

Ele não veio salvar pessoas que conseguiram organizar perfeitamente suas vidas antes de chegar a Ele.

Ele veio salvar pecadores.

A cruz prova duas coisas ao mesmo tempo: quão terrível é o pecado e quão maravilhosa é a graça de Deus.

Se o pecado fosse uma coisa pequena, Cristo não precisaria morrer.

Mas se a graça de Deus fosse pequena, a morte de Cristo não seria suficiente para nós.

Por isso, quando você olha para conhecidos que estão nessa situação, não pense imediatamente: “Uma tragédia eterna se aproxima e não há mais esperança”.

Pense antes:

“Essas pessoas precisam conhecer profundamente a graça de Deus e também compreender seriamente aquilo que Sua Palavra ensina.”

Ore por elas.

Apresente-lhes Cristo.

Não esconda a verdade sobre o casamento, mas também não esconda a verdade sobre a cruz.

Há perdão para o adúltero.

Há perdão para o fornicário.

Há perdão para o ladrão.

Há perdão para o idólatra.

Há perdão para todo pecador que verdadeiramente se volta para Cristo.

Foi exatamente depois de mencionar vários desses pecados que Paulo escreveu aquelas palavras maravilhosas:

“E é o que alguns têm sido; mas haveis sido lavados, mas haveis sido santificados, mas haveis sido justificados em nome do Senhor Jesus e pelo Espírito do nosso Deus” (Primeira aos Coríntios 6:11).

Portanto, devemos sustentar as duas verdades.

O casamento deve ser honrado e sua permanência defendida: “O que Deus ajuntou não o separe o homem” (Mateus 19:6).

Mas o pecador também deve ouvir que existe um Salvador: “Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores” (Primeira a Timóteo 1:15).

Não devemos tornar o pecado menor do que Deus diz que ele é.

Mas também nunca devemos tornar a graça de Deus menor do que ela realmente é.

Josué Matos

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Efésios 12 referências ao Espírito Santo. Em 1:17, fiquei pensando sobre. Espírito Santo sempre aparece com letra maiúscula, menos neste texto.

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

O professor menciona no estudo em Efésios 12 referências ao Espírito Santo. Em 1:17, fiquei pensando sobre. Espírito Santo sempre aparece com letra maiúscula, menos neste texto.

Poderia esclarecer melhor?

O objetivo é esse. A Palavra sempre terá a primazia.

Minha Resposta:

Sim, entendi perfeitamente a sua dúvida, e a sua observação sobre Efésios 1:17 é muito boa.

O texto diz:

“Para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos dê em seu conhecimento o espírito de sabedoria e de revelação” (Efésios 1:17).

A questão é: por que algumas Bíblias trazem “espírito” com letra minúscula, enquanto o estudo inclui este versículo entre as referências ao Espírito Santo?

Primeiramente, precisamos entender um detalhe importante: essa diferença entre “Espírito” e “espírito” não resolve a questão no texto original. O grego antigo dos manuscritos do Novo Testamento não fazia essa distinção da maneira como fazemos hoje nas nossas traduções. Portanto, colocar “Espírito” com maiúscula ou “espírito” com minúscula já envolve uma decisão de interpretação por parte dos tradutores.

A expressão de Efésios 1:17 pode, de fato, ser entendida de duas maneiras.

Alguns entendem “espírito de sabedoria e de revelação” como uma disposição ou capacidade espiritual concedida ao crente, isto é, um espírito caracterizado pela sabedoria e pelo entendimento das coisas divinas.

Outros, porém, entendem que Paulo está falando do próprio Espírito Santo exercendo uma função específica: Ele é o Espírito que concede sabedoria e revelação no conhecimento de Deus.

Creio que esta segunda interpretação explica por que o professor inclui Efésios 1:17 entre as referências ao Espírito Santo em Efésios.

Observe o contexto.

Poucos versículos antes, Paulo já havia falado claramente do Espírito Santo:

“...tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa; o qual é o penhor da nossa herança...” (Efésios 1:13-14).

Portanto, os efésios já possuíam o Espírito Santo. Paulo não está orando para que eles recebam o Espírito Santo como se ainda não O tivessem. Eles já haviam sido selados com Ele quando creram.

Em Efésios 1:17, a oração é para que o Espírito que já habitava neles operasse dando-lhes sabedoria e entendimento espiritual para conhecerem mais profundamente a Deus e compreenderem aquilo que Deus havia realizado em Cristo.

Isso fica ainda mais claro no versículo seguinte:

“Tendo iluminados os olhos do vosso entendimento, para que saibais qual seja a esperança da sua vocação e quais as riquezas da glória da sua herança nos santos” (Efésios 1:18).

Portanto, a ideia não é receber uma nova revelação além das Escrituras. Trata-se de iluminação espiritual para compreender aquilo que Deus já revelou.

Existe uma diferença importante entre revelação e iluminação.

Deus revelou Sua verdade por meio dos apóstolos e profetas, e essa revelação nos foi comunicada nas Escrituras. O Espírito Santo, porém, também opera no crente dando-lhe entendimento espiritual da verdade revelada.

Paulo explica esse princípio em 1 Coríntios 2:10-12:

“Mas Deus no-las revelou pelo seu Espírito; porque o Espírito penetra todas as coisas, ainda as profundezas de Deus. [...] Assim também ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus.”

E acrescenta:

“Ora, nós não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito que provém de Deus, para que pudéssemos conhecer o que nos é dado gratuitamente por Deus” (1 Coríntios 2:12).

Isso combina perfeitamente com Efésios 1:17-18. É o Espírito Santo quem capacita o crente a compreender espiritualmente as coisas de Deus.

Há ainda uma passagem muito interessante no Antigo Testamento. Isaías, falando profeticamente do Messias, diz:

“E repousará sobre ele o Espírito do Senhor, o espírito de sabedoria e de inteligência, o espírito de conselho e de fortaleza, o espírito de conhecimento e de temor do Senhor” (Isaías 11:2).

Perceba a semelhança da linguagem: “Espírito do Senhor” e “espírito de sabedoria”. Portanto, chamar o Espírito Santo de Espírito de sabedoria está perfeitamente de acordo com a linguagem bíblica.

Assim, quando o estudo afirma que existem doze referências ao Espírito Santo em Efésios e inclui Efésios 1:17, está interpretando “espírito de sabedoria e de revelação” como uma referência ao Espírito Santo em Sua atividade de proporcionar sabedoria, revelação e iluminação para conhecermos melhor a Deus.

Entretanto, é importante reconhecer que existe outra interpretação possível. Alguns entendem que “espírito” aqui se refere ao espírito humano do crente, ou à sua capacidade espiritual, sendo iluminado pelo Espírito Santo. Mesmo nessa interpretação, a sabedoria e a iluminação continuam tendo sua origem no Espírito de Deus.

Por isso, eu não fundamentaria a doutrina do Espírito Santo apenas na letra maiúscula ou minúscula de uma tradução. A doutrina precisa ser estabelecida pelo contexto e pelo conjunto das Escrituras.

E aqui está, creio eu, a principal verdade do texto: Paulo não está pedindo que os efésios simplesmente acumulem informações bíblicas. Ele deseja que aquilo que Deus revelou seja espiritualmente compreendido e transforme a maneira como eles enxergam a sua posição em Cristo.

Por isso a oração continua:

“Para que saibais qual seja a esperança da sua vocação, e quais as riquezas da glória da sua herança nos santos; e qual a sobre-excelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos” (Efésios 1:18-19).

Podemos conhecer as palavras e ainda precisar compreender melhor a grandeza das verdades que elas comunicam. É justamente aí que vemos a necessidade da atuação do Espírito Santo.

Portanto, resumindo: a letra minúscula em algumas traduções não significa que necessariamente não seja o Espírito Santo. Trata-se de uma decisão interpretativa do tradutor. Há duas interpretações possíveis para Efésios 1:17, mas o estudo que você está lendo entende a expressão como referência ao Espírito Santo, especialmente em Sua função de conceder sabedoria e iluminação para o conhecimento de Deus.

E concordo plenamente com aquilo que você disse: a Palavra sempre terá a primazia. Todo comentário, estudo ou explicação deve ser julgado por ela. “Examinai tudo. Retende o bem” (1 Tessalonicenses 5:21).

Josué Matos

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