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O que fazer quando uma pessoa, por mais que se explique que a salvação é pela fé no Senhor Jesus Cristo, simplesmente não consegue entender?

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Irmão Josué, o que fazer quando uma pessoa, por mais que se explique que a salvação é pela fé no Senhor Jesus Cristo, simplesmente não consegue entender?

Minha Resposta:

Esta é uma situação bastante comum quando apresentamos o Evangelho. Às vezes, temos a impressão de que, se encontrarmos as palavras certas, explicarmos de maneira mais simples ou apresentarmos mais argumentos, finalmente conseguiremos fazer a pessoa compreender. Entretanto, a Bíblia nos ensina que existe uma diferença entre compreender intelectualmente uma explicação e receber espiritualmente a verdade do Evangelho.

O problema fundamental do homem não é simplesmente falta de inteligência ou de informação. O problema é espiritual. O apóstolo Paulo declara:

“Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” (1 Coríntios 2:14).

Isso explica por que uma pessoa pode ser extremamente inteligente, instruída e capaz de compreender assuntos muito complexos e, mesmo assim, não compreender a simplicidade da salvação pela graça mediante a fé.

Nicodemos é um bom exemplo disso. Ele era “mestre de Israel” (João 3:10), conhecedor das Escrituras e homem religioso. Mesmo assim, quando o Senhor Jesus lhe falou sobre o novo nascimento, ele perguntou:

“Como pode um homem nascer, sendo velho?” (João 3:4).

Nicodemos estava interpretando naturalmente uma verdade espiritual. O Senhor não desistiu dele, mas continuou apresentando-lhe a verdade. Finalmente, levou-o ao ponto central da mensagem:

“E, como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado; para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3:14-15).

Portanto, quando alguém não consegue compreender a salvação pela fé, não devemos entrar numa discussão interminável nem pensar que precisamos vencer a pessoa pela argumentação. Devemos apresentar com clareza a Palavra de Deus e depender da operação do Espírito Santo.

A fé não é produzida pela nossa habilidade de argumentar. Romanos 10:17 afirma:

“De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus.”

É a Palavra que devemos semear. Podemos explicar, esclarecer dúvidas, responder às objeções e mostrar as Escrituras, mas não podemos produzir o novo nascimento em ninguém. João deixa isso muito claro quando diz que os filhos de Deus “não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (João 1:13).

Por isso, há algumas coisas importantes a fazer.

Primeiro, continue apresentando a simplicidade do Evangelho.

Não complique aquilo que Deus tornou simples. O pecador precisa compreender sua condição diante de Deus, reconhecer que é culpado e incapaz de salvar a si mesmo, e compreender que Cristo realizou completamente a obra necessária para sua salvação.

“Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Romanos 3:23).

Depois:

“Mas Deus prova o seu amor para conosco em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores” (Romanos 5:8).

E finalmente:

“Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo” (Atos dos Apóstolos 16:31).

Não é necessário acrescentar obras, cerimônias religiosas, méritos pessoais ou esforços humanos à obra de Cristo. Efésios 2:8-9 diz:

“Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie.”

Segundo, procure descobrir exatamente o que a pessoa não está entendendo.

Às vezes, quando alguém diz que “não consegue entender”, o problema não é propriamente a fé, mas alguma ideia religiosa profundamente arraigada. Talvez a pessoa pense: “Deve haver alguma coisa que eu tenha de fazer”. Nesse caso, é necessário mostrar que Cristo já fez a obra.

Na cruz, o Senhor Jesus declarou:

“Está consumado” (João 19:30).

A salvação não é Deus oferecendo ao pecador uma oportunidade de completar uma obra. É Deus oferecendo gratuitamente uma salvação fundamentada numa obra que Cristo já completou.

Romanos 4:5 é particularmente claro:

“Mas, àquele que não pratica, porém crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça.”

Observe a força da expressão: “não pratica, porém crê”. Isso não significa que a vida cristã não produza boas obras. Produzirá. Mas essas obras são consequência da salvação, e não a causa dela.

Terceiro, não tente obrigar a pessoa a fazer uma profissão de fé.

Este ponto é muito importante. Existe o perigo de desejarmos tanto que alguém seja salvo que acabemos conduzindo a pessoa a repetir palavras que ela ainda não compreendeu verdadeiramente.

Uma oração repetida não salva. Levantar a mão não salva. Ir à frente numa reunião não salva. Assinar uma decisão não salva. O Salvador é Cristo.

“Quem crê no Filho tem a vida eterna” (João 3:36).

É melhor uma pessoa continuar ouvindo a Palavra até compreender verdadeiramente sua necessidade e descansar em Cristo do que fazer uma profissão precipitada simplesmente porque alguém a pressionou.

Na parábola do semeador, o Senhor mostrou que existe uma recepção superficial da Palavra. Algumas pessoas recebem imediatamente a mensagem com alegria, mas não há raiz (Mateus 13:20-21). Portanto, nosso objetivo não deve ser simplesmente conseguir uma “decisão”, mas apresentar fielmente Cristo.

Quarto, ore por essa pessoa.

Quando percebemos que nossas explicações chegaram ao limite, aprendemos uma preciosa lição: a salvação pertence ao Senhor.

Paulo escreveu:

“Eu plantei, Apolo regou; mas Deus deu o crescimento” (1 Coríntios 3:6).

Esta é uma excelente descrição do trabalho evangelístico. Nós plantamos. Outros talvez reguem. Deus dá o crescimento.

Não conseguimos abrir espiritualmente o coração de ninguém. Em Atos dos Apóstolos 16:14 encontramos Lídia ouvindo Paulo, mas o texto acrescenta algo maravilhoso:

“E o Senhor lhe abriu o coração para que estivesse atenta ao que Paulo dizia.”

Paulo pregou; o Senhor abriu o coração.

É exatamente dessa dependência que precisamos.

Quinto, tenha paciência.

Uma pessoa pode ouvir o Evangelho muitas vezes antes de compreendê-lo. Não sabemos o que Deus está fazendo interiormente enquanto a Palavra está sendo apresentada.

Isaías 55:10-11 compara a Palavra de Deus à chuva que desce do céu e produz resultado:

“Assim será a palavra que sair da minha boca; ela não voltará para mim vazia.”

Talvez hoje você apresente uma passagem. Amanhã outra pessoa apresente outra. Meses depois, aquela primeira passagem volte à consciência da pessoa. Nós vemos apenas o momento da conversa; Deus conhece todo o processo.

Sexto, lembre-se de que existe também resistência voluntária.

Nem toda falta de compreensão é simplesmente dificuldade intelectual. Em alguns casos, a pessoa não entende porque não quer aceitar as implicações daquilo que está ouvindo.

O Senhor Jesus disse:

“E não quereis vir a mim para terdes vida” (João 5:40).

Isso é muito solene.

Em João 3:19, o Senhor também explicou:

“E a condenação é esta: que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más.”

Portanto, existe responsabilidade humana. A incapacidade espiritual do homem natural não elimina sua responsabilidade diante de Deus. A Bíblia apresenta as duas verdades: o pecador depende da operação divina, mas é chamado a arrepender-se e crer.

Deus “anuncia agora a todos os homens, e em todo lugar, que se arrependam” (Atos dos Apóstolos 17:30).

E o Evangelho declara:

“Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” (Romanos 10:13).

Por isso, quando alguém disser: “Eu não consigo entender”, talvez uma boa abordagem seja diminuir as nossas explicações e começar a ler diretamente algumas passagens bíblicas com essa pessoa.

Leia Romanos 3:23; Romanos 5:8; Romanos 6:23; Efésios 2:8-9; Atos dos Apóstolos 16:30-31; João 3:16; João 3:36; João 5:24 e João 6:47.

Depois pergunte simplesmente: “O que este versículo está dizendo?”

Deixe que a própria Palavra fale.

Por exemplo, João 5:24 é extraordinariamente claro:

“Na verdade, na verdade vos digo que quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna, e não entrará em condenação, mas passou da morte para a vida.”

Observe que o Senhor não diz “talvez tenha”, “poderá conseguir” ou “terá se conseguir perseverar suficientemente”. Ele diz: “tem a vida eterna”.

Finalmente, não desanime.

Nosso trabalho não é salvar pessoas. Nosso trabalho é anunciar fielmente Aquele que salva.

Paulo resumiu sua mensagem dizendo:

“Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado” (1 Coríntios 2:2).

Continue apresentando Cristo. Continue apresentando a cruz. Continue mostrando a suficiência da Sua obra. Continue orando. Continue semeando a Palavra.

Chegará um momento, se houver verdadeira conversão, em que aquilo que parecia tão difícil se tornará maravilhosamente simples. A pessoa perceberá que durante todo aquele tempo estava tentando encontrar alguma coisa em si mesma, quando Deus estava apontando para Cristo.

A salvação não consiste em confiar que compreendemos tudo perfeitamente. Consiste em confiar numa Pessoa: o Senhor Jesus Cristo.

“Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo” (Atos dos Apóstolos 16:31).

Josué Matos

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Temos que diferenciar judaísmo de cristianismo; que só os judeus passarão por esse período da Grande Tribulação, que será precedida pelo princípio das dores?

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Irmão, sobre esse tema de Mateus, o autor, Mario Persona, desse vídeo diz que, para entendê-lo, temos que diferenciar judaísmo de cristianismo; que só os judeus passarão por esse período da Grande Tribulação, que será precedida pelo princípio das dores. Realmente, é notório que, quando fala em Judeia e montes, denota que está falando de judeus, e a maioria se concentra em Israel. Claro que afirmando que essa tribulação será em todo o mundo. E, quando fala dos escolhidos, está falando dos judeus, em um período que, se não fosse abreviado, ninguém se salvaria. Muitos líderes religiosos denominacionais defendem que essa passagem fala sobre o arrebatamento de cristãos, mas não está falando de cristãos, e sim de judeus que passarão pela Grande Tribulação. Quando fala que um será deixado e outro tirado, está falando da morte deles. Você entende dessa forma também?

Então, fica entendido o casamento indissolúvel até a morte, depois da ordem de Jesus, como sempre deveria ter sido desde o princípio. Mesmo no período do divórcio por qualquer motivo permitido por Moisés, havia pena de morte, e não divórcio, quando havia pecado sexual por parte de ambos. Jesus voltou ao princípio e determinou o casamento até a morte, até os dias de hoje. A Bíblia alerta para se afastar da falsa doutrina. Entendo que DÍZIMO, como exigido nos dias de hoje, e criações denominacionais são falsas doutrinas. Sendo assim, exceto para viúvas e viúvos, pode-se dizer que o segundo casamento é uma falsa doutrina?

Quando puder finalizar essa resposta, obrigado, irmão. Tenho aprendido muito com seus ensinamentos; descobri coisas das quais não tinha ideia: casamento, dízimo, denominações. Por falar em casamento, você acredita que alguém que está no segundo casamento deve confessar e abandonar para ter misericórdia?

Porém, irmão, quando lemos o restante do capítulo, dá a entender que está falando para cristãos, como: aparecerá no céu, enviará seus anjos, ajuntarão os seus escolhidos, vigiai, estai vós preparados; e, no final, Ele fala da parábola do servo fiel. Mesmo assim, está falando de judeus não convertidos ou de cristãos da Igreja celestial, composta por todo aquele que for trigo?

‘E, logo depois da aflição daqueles dias, o sol escurecerá, e a lua não dará a sua luz, e as estrelas cairão do céu, e as potências dos céus serão abaladas.
Então aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem; e todas as tribos da terra se lamentarão, e verão o Filho do Homem vindo sobre as nuvens do céu, com poder e grande glória.
E ele enviará os seus anjos com rijo clamor de trombeta, os quais ajuntarão os seus escolhidos desde os quatro ventos, de uma à outra extremidade dos céus.
Aprendei, pois, esta parábola da figueira: quando já os seus ramos se tornam tenros e brotam folhas, sabeis que está próximo o verão.
Igualmente, quando virdes todas estas coisas, sabei que ele está próximo, às portas.
Em verdade vos digo que não passará esta geração sem que todas estas coisas aconteçam.
O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de passar.’

Mateus 24:29-35 | ACF

Minha Resposta:

Irmão, você percebeu corretamente que a chave para compreender Mateus 24 é não confundir Israel com a Igreja. Entretanto, é necessário fazer algumas distinções importantes, especialmente quando chegamos aos “escolhidos”, ao ajuntamento pelos anjos e às exortações para vigiar.

  1. Mateus 24 não descreve o arrebatamento da Igreja

O arrebatamento da Igreja é revelado claramente em 1 Tessalonicenses 4:13-18 e 1 Coríntios 15:51-52. Ali, o Senhor vem para os Seus santos. Os mortos em Cristo ressuscitam, os crentes vivos são transformados, e todos são arrebatados “a encontrar o Senhor nos ares”.

Em Mateus 24:29-31, porém, temos outra cena. O próprio texto estabelece o momento:

“E, logo depois da aflição daqueles dias...” (Mateus 24:29).

Portanto, esta vinda acontece depois da Grande Tribulação. É a manifestação pública e gloriosa do Filho do Homem para estabelecer o Seu reino.

No arrebatamento, Cristo vem buscar a Igreja e os santos encontram o Senhor nos ares (1 Tessalonicenses 4:17). Em Mateus 24, Ele vem em manifestação pública, “com poder e grande glória” (Mateus 24:30). Compare também Apocalipse 1:7 e 19:11-16.

São acontecimentos relacionados à mesma Pessoa, o Senhor Jesus Cristo, mas não são o mesmo acontecimento.

  1. O contexto de Mateus 24 é profundamente judaico

Observe os elementos utilizados pelo Senhor:

“Judeia” — Mateus 24:16;

“montes” — Mateus 24:16;

“sábado” — Mateus 24:20;

“lugar santo” — Mateus 24:15;

a “abominação da desolação” profetizada por Daniel — Mateus 24:15; Daniel 9:27; 12:11;

“grande aflição” — Mateus 24:21;

e a vinda do Filho do Homem para estabelecer o Seu reino.

Daniel também deixa muito claro que a profecia das setenta semanas está relacionada a Israel:

“Setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo e sobre a tua santa cidade” (Daniel 9:24).

O povo de Daniel é Israel, e a cidade de Daniel é Jerusalém.

Jeremias chama esse período de “tempo de angústia para Jacó”:

“Ah! Porque aquele dia é tão grande, que não houve outro semelhante! E é tempo de angústia para Jacó; ele, porém, será salvo dela” (Jeremias 30:7).

Portanto, embora os acontecimentos da Tribulação tenham repercussão mundial, Israel ocupa uma posição central no programa profético daquele período.

  1. Mas os “escolhidos” não são judeus incrédulos

Aqui precisamos fazer uma correção importante.

Quando Mateus 24:31 fala dos “seus escolhidos”, não devemos entender simplesmente “judeus não convertidos”.

Trata-se do remanescente fiel de Israel naquele período.

Haverá judeus que reconhecerão o testemunho de Deus e esperarão pelo Messias. Zacarias descreve a futura obra de Deus naquele remanescente:

“E sobre a casa de Davi e sobre os habitantes de Jerusalém derramarei o Espírito de graça e de súplicas; e olharão para mim, a quem traspassaram” (Zacarias 12:10).

Também Apocalipse mostra um remanescente fiel durante aquele período. Em Apocalipse 12:17 encontramos aqueles que “guardam os mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus Cristo”.

Portanto, não devemos fazer apenas duas categorias — Igreja e judeus incrédulos. Depois do arrebatamento da Igreja haverá uma obra de Deus na Terra, especialmente relacionada a Israel, e haverá um remanescente fiel.

  1. Quem são os escolhidos de Mateus 24:31?

O texto diz:

“E ele enviará os seus anjos com rijo clamor de trombeta, os quais ajuntarão os seus escolhidos desde os quatro ventos” (Mateus 24:31).

Compare isso com Isaías:

“E acontecerá, naquele dia, que se tocará uma grande trombeta, e os que andavam perdidos pela terra da Assíria e os que foram desterrados para a terra do Egito tornarão a vir e adorarão ao Senhor no monte santo em Jerusalém” (Isaías 27:13).

Também:

“E levantará um pendão entre as nações, e ajuntará os desterrados de Israel, e os dispersos de Judá congregará desde os quatro confins da terra” (Isaías 11:12).

A linguagem é muito semelhante.

Portanto, Mateus 24:31 não descreve a Igreja sendo arrebatada para o céu, mas o ajuntamento do remanescente escolhido para a bênção do reino que Cristo estabelecerá.

  1. “Um será tomado e outro será deixado”

Também concordo que Mateus 24:40-41 não descreve o arrebatamento da Igreja.

O próprio Senhor fornece a chave interpretativa nos versículos anteriores:

“E não o perceberam, até que veio o dilúvio, e os levou a todos, assim será também a vinda do Filho do Homem” (Mateus 24:39).

Quem foi levado nos dias de Noé?

Os incrédulos.

Quem permaneceu?

Noé e sua família.

Portanto, no contexto de Mateus 24, ser “tomado” não significa ser arrebatado para o céu, mas ser retirado em juízo.

Isso também combina perfeitamente com Mateus 13:40-43. Na consumação do século, os anjos retiram primeiro os ímpios para julgamento.

No arrebatamento ocorre exatamente outra coisa: os santos são arrebatados para encontrar o Senhor nos ares (1 Tessalonicenses 4:17).

  1. E por que Jesus diz: “Vigiai”?

Esta é uma excelente pergunta, porque frequentemente se conclui que toda exortação para vigiar necessariamente precisa ser dirigida à Igreja.

Não é assim.

Israel também é chamado à vigilância e preparação.

O fato de o Senhor dizer:

“Vigiai, pois” (Mateus 24:42),

e:

“Estai vós apercebidos também” (Mateus 24:44),

não transforma automaticamente aqueles ouvintes em Igreja.

Precisamos interpretar uma exortação dentro do programa profético em que ela aparece.

Lembre-se também de algo fundamental: quando o Senhor pronunciou Mateus 24, a Igreja ainda era uma realidade futura. Em Mateus 16:18 Ele havia dito:

“Edificarei a minha igreja”.

Não disse: “estou edificando”, mas “edificarei”.

A formação da Igreja como Corpo de Cristo está relacionada à obra consumada de Cristo, Sua ressurreição, ascensão e à vinda do Espírito Santo, conforme Atos dos Apóstolos 2; 1 Coríntios 12:13; Efésios 1:22-23; 2:14-16.

Portanto, não podemos simplesmente ler “vigiai” e concluir: “Logo, isto é a Igreja”.

  1. E a parábola do servo fiel?

O mesmo princípio deve ser aplicado.

As parábolas de Mateus 24 e 25 apresentam responsabilidade diante da ausência e do retorno do Senhor. Algumas contêm princípios morais que certamente podem ser aplicados aos cristãos, mas aplicação não é a mesma coisa que interpretação.

Esse princípio é muito importante no estudo bíblico.

Uma passagem pode não ter a Igreja como seu assunto profético direto e, ainda assim, conter princípios espirituais aplicáveis à Igreja.

Por exemplo, podemos aprender muito espiritualmente com a experiência de Israel no deserto. Paulo faz exatamente isso em 1 Coríntios 10:1-11. Contudo, Israel no deserto não era a Igreja.

Assim também ocorre em Mateus 24.

  1. Portanto, não devemos confundir “escolhidos” com a Igreja

A palavra “escolhidos” não é um nome técnico que sempre significa Igreja.

Israel também é chamado escolhido:

“Por amor de meu servo Jacó, e de Israel, meu eleito...” (Isaías 45:4).

Portanto, precisamos perguntar sempre: escolhidos em qual contexto?

Em Mateus 24, o contexto aponta para o remanescente de Israel durante a Tribulação e para sua reunião na chegada do Messias.

  1. A Igreja e Israel precisam permanecer distintos

Esse é um dos pontos fundamentais da profecia bíblica.

Deus não abandonou Israel.

Paulo pergunta:

“Porventura rejeitou Deus o seu povo? De modo nenhum” (Romanos 11:1).

E depois afirma:

“Porque os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento” (Romanos 11:29).

A Igreja não tomou definitivamente o lugar de Israel nas promessas nacionais feitas a Abraão, Isaque, Jacó e Davi.

Há promessas específicas para Israel e promessas específicas para a Igreja.

Misturar essas duas esferas produz grande confusão na interpretação profética.

  1. Quanto ao casamento, você também percebeu corretamente o princípio fundamental

O Senhor não começou Sua resposta em Mateus 19 por Moisés. Ele voltou a Gênesis.

“Não tendes lido que aquele que os fez no princípio macho e fêmea os fez, e disse: Portanto, deixará o homem pai e mãe, e se unirá à sua mulher, e serão dois numa só carne?” (Mateus 19:4-5).

Depois concluiu:

“Assim não são mais dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem” (Mateus 19:6).

Quando perguntaram sobre Moisés, o Senhor explicou:

“Moisés, por causa da dureza dos vossos corações, vos permitiu repudiar vossas mulheres; mas, ao princípio, não foi assim” (Mateus 19:8).

Esta última expressão é decisiva:

“ao princípio, não foi assim”.

Cristo conduz o assunto novamente ao propósito original de Deus.

  1. No Antigo Testamento, adultério não era simplesmente fundamento para divórcio

Você também observou corretamente esse ponto.

Sob a legislação mosaica, o adultério tinha pena de morte:

“Também o homem que adulterar com a mulher de outro, havendo adulterado com a mulher do seu próximo, certamente morrerá o adúltero e a adúltera” (Levítico 20:10).

Veja também Deuteronômio 22:22.

Portanto, não é correto simplesmente dizer que Deuteronômio 24 instituiu o divórcio por adultério.

Além disso, o próprio Deus declarou:

“Porque o Senhor, Deus de Israel, diz que odeia o repúdio” (Malaquias 2:16).

  1. O que desfaz o vínculo matrimonial?

O ensino apostólico é muito claro:

“Porque a mulher que está sujeita ao marido, enquanto ele viver, está-lhe ligada pela lei; mas, morto o marido, está livre da lei do marido. De sorte que, vivendo o marido, será chamada adúltera se for de outro marido; mas, morto o marido, livre está da lei, e assim não será adúltera se for de outro marido” (Romanos 7:2-3).

Também:

“A mulher casada está ligada pela lei todo o tempo que o seu marido vive; mas, se falecer o seu marido, fica livre para casar com quem quiser, contanto que seja no Senhor” (1 Coríntios 7:39).

A morte encerra o vínculo matrimonial.

Por isso o Senhor disse:

“Qualquer que deixar a sua mulher e casar com outra adultera contra ela. E, se a mulher deixar a seu marido e casar com outro, adultera” (Marcos 10:11-12).

Lucas é igualmente categórico:

“Qualquer que deixa sua mulher e casa com outra adultera; e aquele que casa com a repudiada pelo marido adultera também” (Lucas 16:18).

  1. Então o segundo casamento, enquanto vive o primeiro cônjuge, pode ser ensinado como doutrina cristã?

Não.

É importante formular isso corretamente.

Não diria simplesmente que “o segundo casamento é uma falsa doutrina”, porque há segundo casamento perfeitamente legítimo nas Escrituras: o casamento depois da morte do cônjuge.

Romanos 7:2-3 e 1 Coríntios 7:39 deixam isso absolutamente claro.

A falsa doutrina consiste em ensinar que o divórcio dissolve diante de Deus o primeiro vínculo e deixa alguém livre para contrair outro casamento enquanto seu primeiro cônjuge continua vivo.

Isso não encontra apoio em Marcos 10:11-12, Lucas 16:18, Romanos 7:2-3 e 1 Coríntios 7:39.

O problema, portanto, não é “segundo casamento” em sentido absoluto. O problema é novo casamento enquanto permanece vivo aquele a quem a pessoa continua ligada pelo primeiro casamento.

  1. E Mateus 19:9?

Aqui é necessário considerar cuidadosamente a chamada cláusula de exceção.

Mateus emprega a palavra grega porneia, traduzida por “prostituição” ou “fornicação”, enquanto utiliza outra palavra para adultério, moicheia.

A distinção é importante.

Mateus também é o único Evangelho que apresenta detalhadamente a situação de José e Maria. Embora apenas desposados, José já é chamado “seu marido” e Maria, implicitamente, sua mulher:

“Então José, seu marido, como era justo, e a não queria infamar, intentou deixá-la secretamente” (Mateus 1:19).

O desposório judaico tinha força jurídica muito maior que nosso noivado moderno. Era necessário repúdio para desfazê-lo.

Assim, a cláusula de Mateus harmoniza-se com essa situação judaica de fornicação durante o período de desposório. Ela não contradiz Marcos 10:11-12, Lucas 16:18, Romanos 7:2-3 e 1 Coríntios 7:39.

  1. Finalmente: alguém que está num segundo casamento, tendo o primeiro cônjuge vivo, deve apenas confessar ou também abandonar?

Esta é provavelmente a parte mais séria da sua pergunta.

Precisamos começar com o princípio bíblico do arrependimento.

Arrependimento não consiste somente em reconhecer verbalmente que algo está errado. Quando uma situação pecaminosa permanece sendo praticada e pode ser abandonada, arrependimento envolve abandonar o pecado.

“Quem encobre as suas transgressões nunca prosperará; mas o que as confessa e deixa alcançará misericórdia” (Provérbios 28:13).

Observe as duas coisas:

“confessa e deixa”.

João Batista disse:

“Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento” (Mateus 3:8).

Portanto, se aceitamos a declaração de Cristo de que a união com outra pessoa enquanto o primeiro cônjuge vive constitui adultério, não podemos transformar a cerimônia civil posterior em algo capaz de santificar aquilo que Cristo chamou de adultério.

Marcos 10:11 diz:

“Qualquer que deixar a sua mulher e casar com outra adultera contra ela”.

A razão é justamente que o vínculo original permanece.

Romanos 7:3 diz que, “vivendo o marido”, se ela “for de outro marido”, será chamada adúltera.

Portanto, dentro dessa compreensão das Escrituras, não seria coerente dizer: “Confesse que foi pecado entrar nessa união, mas permaneça normalmente nela como marido e mulher”.

Se aquilo que torna a relação adúltera é justamente o fato de o primeiro cônjuge continuar vivo, então a passagem do tempo não modifica o princípio.

  1. Entretanto, cada situação deve ser tratada com verdade, graça e muita responsabilidade

Isso não significa tratar pessoas de maneira fria, precipitada ou cruel.

Há casos envolvendo filhos, dependência financeira, responsabilidades legais, moradia e inúmeras consequências produzidas durante anos. Os filhos não devem ser abandonados; responsabilidades paternas e maternas permanecem. Obrigações materiais não desaparecem.

Mas essas complicações também não podem ser usadas para alterar aquilo que as Escrituras dizem sobre o vínculo matrimonial.

Uma coisa é reconhecer responsabilidades decorrentes de uma situação; outra é declarar legítima a relação conjugal propriamente dita.

A graça de Deus não significa chamar o pecado de santidade. A mesma graça que perdoa também ensina:

“Que, renunciando à impiedade e às concupiscências mundanas, vivamos neste presente século sóbria, justa e piamente” (Tito 2:12).

  1. Há misericórdia para quem se arrepende?

Certamente.

Esse ponto também precisa ficar muito claro para que o ensino sobre casamento não seja apresentado sem o Evangelho da graça de Deus.

“Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1 João 1:9).

O sangue de Jesus Cristo é suficiente para purificar de todo pecado (1 João 1:7). Não existe pecado tão profundo que a obra de Cristo seja insuficiente para aquele que verdadeiramente se volta para Deus.

A mulher de João 8 ouviu:

“Nem eu também te condeno”.

Mas o Senhor acrescentou:

“Vai-te, e não peques mais” (João 8:11).

A graça perdoa, mas não transforma o pecado em algo legítimo.

  1. Resumindo as duas questões

Quanto a Mateus 24, sim: entendo que o contexto é profético e predominantemente relacionado a Israel, especialmente ao remanescente judeu durante a Tribulação. A Igreja terá sido arrebatada anteriormente. Os “escolhidos” de Mateus 24:31 não são a Igreja sendo arrebatada, mas o remanescente escolhido sendo reunido para o reino. Os que são “tomados” em Mateus 24:40-41 são retirados em julgamento, assim como os homens dos dias de Noé foram levados pelo dilúvio.

Quanto ao casamento, o padrão estabelecido por Deus encontra-se desde Gênesis 2:24: um homem e uma mulher tornam-se uma só carne. O Senhor reafirmou esse princípio em Mateus 19:4-6 e declarou: “O que Deus ajuntou não o separe o homem”. Romanos 7:2-3 e 1 Coríntios 7:39 mostram que a morte encerra o vínculo matrimonial. Por isso, não devemos ensinar como doutrina cristã que um divórcio civil concede liberdade diante de Deus para novo casamento enquanto o primeiro cônjuge vive.

Em ambos os assuntos existe uma lição semelhante: precisamos permitir que cada passagem permaneça no lugar que Deus lhe deu. Israel não deve ser transformado em Igreja, a vinda gloriosa de Cristo não deve ser confundida com o arrebatamento, e aquilo que Deus chamou de união de “uma só carne” não deve ser desfeito simplesmente porque a legislação humana emitiu um documento.

“Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem” (Mateus 19:6).

Josué Matos

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No contexto judaico a exceção no cometimento da ilicitude sexual é somente por parte da mulher e não do homem?

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Algo que chama muita atenção no contexto judaico é que a exceção no cometimento da ilicitude sexual é por parte da mulher e não do homem. Isso já denota que o casamento não se consumaria se a mulher não fosse virgem, pelo que está na Lei mosaica, que vigorava sobre o povo judeu e não sobre os gentios...

Minha Resposta:

Há, realmente, um elemento muito importante nessa observação. Entretanto, eu faria algumas considerações para que possamos compreender melhor o contexto de Mateus 19:9 e, principalmente, não concluir que a virgindade fosse uma exigência moral apenas para a jovem israelita.

  1. A Lei realmente dava grande importância à virgindade da jovem

Deuteronômio 22:13-21 mostra claramente que se esperava que a jovem que chegasse ao casamento fosse virgem.

O texto trata de um homem que se casava com uma mulher e posteriormente a acusava de não ter sido virgem quando a recebeu. Era uma acusação extremamente séria e não poderia ser feita levianamente.

Se a acusação fosse falsa, o homem era castigado, multado e perdia o direito de repudiá-la:

“E ela lhe ficará por mulher; em todos os seus dias não a poderá despedir” (Deuteronômio 22:19).

Por outro lado, se ficasse comprovado que a jovem havia praticado imoralidade enquanto ainda estava na casa de seu pai, a Lei considerava aquilo um pecado gravíssimo.

Portanto, não há dúvida de que a virgindade antes do casamento possuía enorme importância dentro da sociedade de Israel.

Isso também ajuda a compreender por que a descoberta de imoralidade durante o período de desposamento era uma questão tão séria.

  1. Mas a pureza sexual não era exigida somente da mulher

Aqui precisamos fazer uma ressalva importante.

Quando lemos Deuteronômio 22:13-21 isoladamente, pode parecer que toda a responsabilidade pela virgindade estava colocada sobre a mulher. Mas continuando a leitura do mesmo capítulo percebemos que Deus também responsabilizava severamente o homem por sua conduta sexual.

A Lei não concedia ao homem solteiro liberdade para manter relações sexuais antes do casamento enquanto exigia virgindade da mulher.

Muito pelo contrário.

Veja, por exemplo, Deuteronômio 22:28-29. Se um homem tivesse relações com uma jovem virgem não desposada, ele passava a ter uma responsabilidade muito séria diante dela e de sua família:

“Então o homem que se deitou com ela dará ao pai da moça cinquenta siclos de prata; e porquanto a humilhou, lhe será por mulher; não a poderá despedir em todos os seus dias” (Deuteronômio 22:29).

Êxodo 22:16-17 apresenta igualmente o princípio da responsabilidade do homem que seduzisse uma virgem não desposada.

Portanto, um jovem israelita não poderia raciocinar: “A minha futura esposa precisa ser virgem, mas eu posso ter relações com outras mulheres antes de me casar.”

A Lei não lhe concedia essa liberdade.

Se ele tivesse relações com uma jovem solteira e virgem, isso poderia trazer sobre ele a obrigação matrimonial, além das responsabilidades financeiras estabelecidas pela Lei.

Isso significa que a sexualidade masculina também estava debaixo da autoridade de Deus.

  1. Se a mulher fosse casada, a situação era ainda mais grave

Aqui sua observação também está correta.

Deuteronômio 22:22 estabelece:

“Quando um homem for achado deitado com mulher casada com marido, então ambos morrerão, o homem que se deitou com a mulher e a mulher; assim tirarás o mal de Israel.”

Observe que Deus não pune somente a mulher.

“Ambos morrerão.”

O homem não podia alegar que a responsabilidade era dela. Se ambos participaram voluntariamente do adultério, ambos eram culpados.

Levítico 20:10 estabelece a mesma coisa:

“Também o homem que adulterar com a mulher de outro, havendo adulterado com a mulher do seu próximo, certamente morrerá o adúltero e a adúltera.”

Portanto, moralmente, não existiam dois padrões diante de Deus: um padrão de castidade para a mulher e outro mais permissivo para o homem.

O homem também precisava conservar-se sexualmente puro.

  1. O caso da jovem desposada é especialmente importante para Mateus 19

Deuteronômio 22 continua:

“Quando houver moça virgem, desposada com algum homem...” (Deuteronômio 22:23).

Veja as duas características:

ela era “virgem”;

e estava “desposada”.

Se ela voluntariamente tivesse relações com outro homem, tanto ela quanto aquele homem seriam culpados (Deuteronômio 22:23-24).

Isso nos aproxima bastante do ambiente que encontramos no primeiro capítulo de Mateus.

Maria estava desposada com José:

“Ora, o nascimento de Jesus Cristo foi assim: Estando Maria, sua mãe, desposada com José, antes de se ajuntarem, achou-se ter concebido do Espírito Santo” (Mateus 1:18).

A expressão “antes de se ajuntarem” é muito importante.

O casamento ainda não havia sido consumado.

Entretanto, José já é chamado de “seu marido”:

“Então José, seu marido, como era justo e a não queria infamar, intentou deixá-la secretamente” (Mateus 1:19).

E o anjo chama Maria de “tua mulher”:

“José, filho de Davi, não temas receber a Maria, tua mulher” (Mateus 1:20).

Isso demonstra uma particularidade do casamento judaico que precisamos considerar quando chegamos a Mateus 19.

O desposamento já estabelecia um compromisso legal muito mais forte do que aquilo que atualmente chamamos simplesmente de namoro ou noivado. Eles já podiam ser chamados marido e mulher, embora ainda não tivessem se ajuntado e o casamento não estivesse consumado.

Por isso José pensou em “deixá-la”.

Ele acreditava, naquele momento, que havia ocorrido imoralidade sexual durante o desposamento.

Depois Deus revelou-lhe que Maria não havia cometido pecado algum, porque aquilo que nela estava gerado era do Espírito Santo.

  1. É nesse contexto que entendemos melhor a cláusula de Mateus 19:9

O Senhor Jesus declarou:

“Eu vos digo, porém, que qualquer que repudiar sua mulher, não sendo por causa de fornicação, e casar com outra, comete adultério” (Mateus 19:9).

A palavra traduzida por “fornicação” é porneía, enquanto “adultério” corresponde a moicheía.

Essa distinção merece atenção.

Dentro da compreensão que temos adotado, a exceção refere-se à imoralidade sexual descoberta no contexto anterior à consumação do casamento, durante aquele vínculo judaico do desposamento.

Por isso Mateus é particularmente importante.

No início do Evangelho, Mateus já nos apresentou exatamente uma situação na qual um homem é chamado “marido”, uma mulher é chamada “mulher”, existe possibilidade de repudiá-la e, contudo, eles ainda não haviam se ajuntado.

Mateus 1:18-20 fornece, portanto, um excelente pano de fundo para compreendermos Mateus 5:31-32 e Mateus 19:9.

  1. Mas eu faria uma pequena correção nesta frase: “o casamento não se consumaria se a mulher não fosse virgem”

Eu compreendo o que você quis dizer, mas colocaria de outra maneira.

Não podemos estabelecer como regra absoluta que qualquer ausência de virgindade automaticamente tornava impossível todo casamento posterior.

A própria Lei mostra situações mais complexas.

Por exemplo, havia viúvas que legitimamente podiam casar novamente. Rute é um exemplo evidente. Ela havia sido casada com Malom e, depois da morte dele, casou-se legitimamente com Boaz (Rute 4:9-13).

A Lei também estabelecia o casamento levirato. Se um homem morresse sem filhos, havia circunstâncias em que seu irmão deveria tomar a viúva para suscitar descendência ao falecido (Deuteronômio 25:5-10).

Portanto, não era a condição física da virgindade, considerada isoladamente, que determinava se toda mulher podia ou não casar.

O que devemos destacar em Deuteronômio 22 é a imoralidade sexual praticada antes do casamento e ocultada no momento de sua consumação.

Isso é diferente de uma mulher que legitimamente havia sido casada e posteriormente ficou viúva.

  1. E aqui entra a questão dos sacerdotes

Também é importante fazer uma distinção.

Levítico 21:7 determina acerca dos sacerdotes:

“Não tomarão mulher prostituta ou desonrada, nem tomarão mulher repudiada de seu marido; pois o sacerdote é santo a seu Deus.”

Mas não devemos dizer que todo sacerdote comum estava necessariamente proibido de casar com qualquer viúva.

A restrição mais rigorosa aparece especificamente para o sumo sacerdote.

Levítico 21:13-14 diz:

“E ele tomará por esposa uma mulher na sua virgindade. Viúva, ou repudiada, ou desonrada, ou prostituta, estas não tomará, mas virgem do seu povo tomará por mulher.”

Portanto, para o sumo sacerdote, a exigência era expressa: deveria casar-se com uma virgem israelita. A viúva também estava excluída nesse caso.

Essa distinção é importante para não atribuirmos a todos os sacerdotes exatamente a mesma exigência dada ao sumo sacerdote.

  1. Isso, porém, não significa que a Lei exigisse expressamente que todo noivo apresentasse prova física de virgindade

Aqui também precisamos ser muito precisos.

Podemos afirmar seguramente que Deus exigia castidade sexual tanto do homem quanto da mulher.

Mas não encontramos uma disposição paralela a Deuteronômio 22:13-21 dizendo que todo homem, antes de casar, precisava apresentar uma “prova de virgindade” equivalente àquela discutida no caso da jovem.

Portanto, devemos distinguir duas coisas:

a exigência moral de castidade, que alcançava ambos;

e determinadas disposições jurídicas da Lei, que não eram idênticas para homens e mulheres.

Isso é importante porque senão acabamos dizendo mais do que o próprio texto bíblico diz.

O jovem israelita deveria chegar puro ao casamento não porque existisse necessariamente um procedimento judicial idêntico para comprovar sua virgindade, mas porque toda relação sexual ilícita que ele tivesse antes do casamento já constituiria pecado e poderia trazer consequências previstas pela própria Lei.

  1. Portanto, o homem que chegasse casto ao casamento também seria virgem

Nesse sentido, sua observação ajuda bastante.

Se um jovem obedecesse aos mandamentos de Deus acerca da sexualidade e nunca tivesse sido casado, naturalmente chegaria virgem ao casamento.

Se tivesse relações sexuais com uma jovem solteira, já haveria consequências.

Se adulterasse com uma mulher casada, havia pena para ambos.

Se tivesse relações com uma jovem desposada e ela participasse voluntariamente, novamente a Lei responsabilizava ambos.

Ou seja, a Lei não dava ao jovem uma espécie de período de liberdade sexual antes do casamento.

A virgindade feminina aparece de maneira mais explícita em determinadas leis porque aquelas leis tratam especificamente da condição da noiva e da legitimidade de uma acusação feita contra ela. Mas daí não podemos concluir que Deus não exigisse pureza do noivo.

  1. Isso também nos ajuda a compreender que o assunto de Mateus 19 não é uma inferioridade moral da mulher

Quando o Senhor diz:

“Qualquer que repudiar sua mulher...”

Ele está falando dentro de determinado contexto histórico e jurídico.

Não está ensinando que somente a mulher pode cometer pecado sexual ou que a castidade masculina seja irrelevante.

Aliás, o próprio Senhor já havia colocado o homem debaixo de um padrão extraordinariamente elevado em Mateus 5:27-28:

“Ouvistes que foi dito aos antigos: Não cometerás adultério. Eu, porém, vos digo que qualquer que atentar numa mulher para a cobiçar já em seu coração cometeu adultério com ela.”

Cristo não suaviza a responsabilidade masculina.

Ele a aprofunda.

Não basta ao homem dizer: “Nunca fui descoberto praticando adultério.”

Cristo alcança o próprio coração.

  1. Marcos deixa ainda mais evidente a responsabilidade dos dois lados

Em Marcos 10, quando o Senhor explica particularmente o assunto aos discípulos, Ele aplica o princípio aos dois:

“Qualquer que deixar a sua mulher e casar com outra adultera contra ela. E, se a mulher deixar a seu marido e casar com outro, adultera” (Marcos 10:11-12).

Portanto, diante de Deus, a fidelidade matrimonial é exigida de ambos.

Paulo mantém exatamente essa reciprocidade em 1 Coríntios 7:10-11.

A esposa não deve apartar-se do marido.

O marido não deve deixar a esposa.

Se ocorrer separação, a orientação não é procurar outro casamento, mas permanecer sem casar ou reconciliar-se.

  1. Tudo isso fortalece, e não enfraquece, a compreensão da exceção de Mateus

A particularidade da cláusula de Mateus não deve ser interpretada como se Cristo estivesse dizendo:

“Se depois de muitos anos de casamento a mulher cometer adultério, o marido está livre para desfazer aquilo que Deus ajuntou e casar novamente.”

Isso entraria em dificuldade com a declaração que Ele acabara de fazer:

“Assim não são mais dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem” (Mateus 19:6).

Também entraria em dificuldade com Marcos 10:11-12, Lucas 16:18, Romanos 7:2-3 e 1 Coríntios 7:10-11.

A compreensão da exceção dentro do contexto judaico do desposamento harmoniza essas passagens.

Antes da consumação, poderia ser descoberta uma imoralidade sexual que tornava legítima a ruptura daquele desposamento.

Foi exatamente a situação que José pensou estar enfrentando em Mateus 1.

Depois da consumação, porém, temos o princípio estabelecido pelo próprio Cristo:

“Não são mais dois, mas uma só carne.”

  1. Há, portanto, algo muito significativo na escolha das palavras

Em Mateus 19:9, Cristo menciona porneía como exceção e depois diz que aquele que casa novamente, fora dessa exceção, comete moicheía, adultério.

Se toda a cláusula estivesse simplesmente tratando do adultério dentro de um casamento já consumado, seria natural perguntarmos por que o Senhor não empregou diretamente a ideia de adultério na própria exceção.

A distinção das palavras, somada ao contexto judaico de Mateus, ao episódio de José e Maria e à ausência da cláusula em Marcos e Lucas, fornece elementos importantes para compreendermos a exceção como pertencente à situação particular do desposamento.

  1. Então eu concordaria com a essência da sua observação, mas ampliaria desta maneira

A Lei de Moisés realmente colocava grande importância sobre a virgindade da jovem israelita que chegava ao casamento, e Deuteronômio 22 demonstra isso claramente.

Porém, não devemos concluir que Deus exigia castidade apenas dela.

A pureza sexual também era exigida do homem.

Se ele se envolvesse sexualmente com uma virgem solteira, assumia graves responsabilidades perante ela.

Se adulterasse com uma mulher casada, ambos eram culpados.

Se mantivesse relações com uma jovem desposada que consentisse no ato, ambos estavam sujeitos ao julgamento previsto pela Lei.

Portanto, um jovem israelita fiel à Lei também deveria conservar sua pureza sexual até o casamento.

Ao mesmo tempo, precisamos distinguir a exigência moral de castidade das diferentes normas jurídicas aplicadas a homens e mulheres na sociedade israelita.

E, finalmente, é precisamente esse ambiente judaico de virgindade, desposamento, compromisso legal anterior à consumação e possibilidade de ruptura desse compromisso por imoralidade sexual que nos ajuda a compreender a cláusula de exceção registrada exclusivamente por Mateus.

Não se trata, portanto, de estabelecer um privilégio para o homem casado abandonar sua esposa depois que ambos foram unidos por Deus. Trata-se de compreender uma circunstância judaica anterior à consumação matrimonial.

Depois de constituído o casamento, permanece a palavra do Senhor:

“O que Deus ajuntou não o separe o homem” (Mateus 19:6).

E a doutrina apostólica confirma:

“Porque a mulher que está sujeita ao marido, enquanto ele viver, está-lhe ligada pela lei” (Romanos 7:2).

Assim, tanto antes como depois do casamento, o padrão divino nunca foi dois pesos e duas medidas: pureza para a mulher e liberdade sexual para o homem. Deus exige santidade de ambos. E no casamento exige fidelidade de ambos.

Josué Matos

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Mas tenho uma dúvida sobre a questão da imortalidade da alma.

 Alguém que me escreveu por e-mail:

Olá, tenho visto vídeos do canal no YouTube e estou no grupo do WhatsApp. Gosto da mensagem do Evangelho que pregam; vejo o Evangelho puro sendo pregado. Mas tenho uma dúvida sobre a questão da imortalidade da alma.

No início do homem, Deus disse a Adão que ele morreria se comesse do fruto proibido. Deus disse que ele morreria. E, depois de comer, Deus deu a sentença de que ele voltaria ao pó, pois ele era pó e ao pó voltaria. Nesse momento, Deus não disse nada sobre ele ir para um inferno ou algo assim. Apenas disse que ele morreria. Se ele fosse ao inferno, não seria esse o momento de dizer isso?

Grato pela atenção e pelo seu ministério.

Minha Resposta:

Muito obrigado pelas suas palavras e também pela pergunta. Ela é muito importante porque toca em três assuntos que frequentemente são confundidos: a morte do corpo, a sobrevivência consciente da alma e do espírito depois da morte e o destino final do homem.

O ponto principal para compreendermos Gênesis é não exigir que Deus revele, logo nos primeiros capítulos da Bíblia, todos os detalhes que posteriormente seriam esclarecidos ao longo das Escrituras. Deus realmente disse a Adão:

“Porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gênesis 2:17).

Depois do pecado, disse:

“No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás” (Gênesis 3:19).

Portanto, sua observação está correta quanto ao texto: Deus não menciona ali Geena, Hades ou lago de fogo. Mas daí não podemos concluir que, na morte, o ser humano deixa completamente de existir ou que a alma morre juntamente com o corpo. Para entendermos isso, precisamos observar o restante da revelação bíblica.

  1. O que exatamente voltou ao pó?

Esta é uma questão fundamental.

Em Gênesis 2:7 encontramos:

“E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em seus narizes o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente.”

Observe a ordem. Deus formou o corpo de Adão do pó da terra. Portanto, quando posteriormente disse: “és pó e em pó te tornarás”, estava descrevendo especialmente o destino do corpo.

Isso é confirmado de maneira muito clara em Eclesiastes 12:7:

“E o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu.”

Aqui temos uma distinção que ajuda muito. Na morte, alguma coisa volta ao pó e alguma coisa não volta ao pó. O corpo retorna à terra, mas o espírito não é apresentado como se transformando em pó.

A morte física, portanto, não é a extinção do ser humano. É a separação das partes que constituem o homem.

Tiago 2:26 confirma:

“Porque, assim como o corpo sem o espírito está morto...”

O texto não diz que o espírito morreu. Diz que o corpo sem o espírito está morto.

  1. O homem é corpo, alma e espírito

A Bíblia apresenta o ser humano em sua constituição completa como corpo, alma e espírito.

Paulo escreve:

“E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito, e alma, e corpo sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Tessalonicenses 5:23).

Essas três partes não devem ser confundidas.

O corpo é material.

A alma e o espírito são imateriais.

Hebreus 4:12 inclusive fala da “divisão da alma e do espírito”, mostrando que, embora intimamente relacionados, alma e espírito não são simplesmente duas palavras para a mesma coisa.

Essa distinção torna-se particularmente importante quando estudamos a morte.

  1. A Bíblia mostra expressamente a alma deixando o corpo

Um dos textos mais claros encontra-se na morte de Raquel:

“E aconteceu que, saindo-lhe a alma (porque morreu)...” (Gênesis 35:18).

Veja a ordem da declaração. Sua alma saiu porque ela morreu.

Isso significa que sua alma não se tornou cadáver juntamente com seu corpo. Houve uma separação.

Encontramos uma demonstração ainda mais interessante em 1 Reis 17. O filho da viúva morreu, e Elias orou:

“Ó Senhor meu Deus, rogo-te que a alma deste menino torne a entrar nele” (1 Reis 17:21).

Então lemos:

“E o Senhor ouviu a voz de Elias; e a alma do menino tornou a entrar nele, e reviveu” (1 Reis 17:22).

Se a alma “tornou a entrar nele”, evidentemente havia saído.

Assim, a morte física não é a destruição da alma.

  1. O próprio Senhor Jesus distinguiu o corpo da alma

Talvez uma das declarações mais importantes sobre este assunto tenha sido feita pelo próprio Senhor Jesus:

“E não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo” (Mateus 10:28).

Observe cuidadosamente a linguagem.

Um homem pode matar o corpo.

Mas não pode matar a alma.

Se a morte do corpo significasse automaticamente a morte da alma, as palavras do Senhor não fariam sentido. Ele estabelece deliberadamente uma diferença entre ambos.

Portanto, biblicamente, quando alguém mata um homem, pode produzir a morte física, mas não pode extinguir sua existência imaterial.

  1. O que significou, então, “certamente morrerás”?

A sentença de Gênesis 2:17 foi muito mais profunda do que simplesmente Adão cair morto fisicamente no mesmo instante em que comeu do fruto.

Quando Adão pecou, a morte entrou na experiência humana.

Romanos 5:12 explica:

“Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, por isso que todos pecaram.”

A partir daquele momento, Adão tornou-se mortal. Seu corpo, que não estava originalmente sujeito à morte, passou a caminhar inevitavelmente para ela.

Por isso Gênesis 5:5 termina a história de Adão com estas palavras solenes:

“E foram todos os dias que Adão viveu novecentos e trinta anos; e morreu.”

Deus cumpriu exatamente aquilo que havia dito.

Entretanto, houve também uma consequência espiritual imediata. Antes do pecado, Adão desfrutava da presença de Deus. Depois de pecar, quando ouviu a voz do Senhor no jardim, escondeu-se:

“E esconderam-se Adão e sua mulher da presença do Senhor Deus, entre as árvores do jardim” (Gênesis 3:8).

A morte havia entrado. O corpo ainda estava biologicamente vivo, mas sua relação com Deus fora profundamente afetada pelo pecado.

É por isso que o Novo Testamento pode falar de pessoas fisicamente vivas como estando espiritualmente mortas.

Efésios 2:1 diz:

“E vos vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados.”

Portanto, na Bíblia, “morte” não deve ser automaticamente entendida como inexistência.

  1. Morte significa separação, não aniquilação

Esse ponto resolve grande parte da dificuldade.

A morte física separa o corpo da alma e do espírito.

A morte espiritual descreve a condição do homem separado de Deus por causa do pecado.

E a “segunda morte” é o destino eterno dos perdidos.

Apocalipse 20:14 diz:

“E a morte e o inferno foram lançados no lago de fogo. Esta é a segunda morte.”

E Apocalipse 21:8 novamente identifica o lago de fogo com “a segunda morte”.

Portanto, “morte” não pode significar simplesmente “deixar de existir”. Se significasse isso, a expressão “segunda morte” seria muito difícil de compreender, porque aqueles que experimentam a segunda morte são apresentados como existentes sob o juízo de Deus.

  1. Mas por que Deus não explicou tudo isso a Adão?

Porque Gênesis 3 não pretende apresentar uma exposição completa da doutrina do estado após a morte.

Este é um princípio importante na interpretação da Bíblia: ausência de informação em determinada passagem não significa negação de uma verdade revelada posteriormente.

Por exemplo, em Gênesis 3 Deus também não explicou a Adão detalhadamente a ressurreição dos mortos, o Grande Trono Branco, a segunda morte ou o lago de fogo. Isso não significa que essas coisas não existam.

A revelação bíblica é progressiva.

Em Gênesis encontramos a semente de muitas doutrinas que serão desenvolvidas posteriormente. Quando chegamos ao Novo Testamento, temos uma revelação muito mais completa sobre a morte, a ressurreição, Hades, Geena, o juízo e o estado eterno.

Não seria seguro estabelecer toda a doutrina da vida após a morte somente com base em Gênesis 3:19.

Precisamos permitir que toda a Escritura fale.

  1. Um detalhe importante: “alma” nem sempre significa a mesma coisa

Aqui também surge muita confusão.

A palavra “alma” pode ser usada na Bíblia com sentidos diferentes, e o contexto determina seu significado.

Às vezes, “alma” significa a própria pessoa.

Por exemplo:

“Todas as almas, pois, que procederam da coxa de Jacó foram setenta almas” (Êxodo 1:5).

Atos dos Apóstolos 2:41 também fala de aproximadamente “três mil almas”, isto é, três mil pessoas.

Por isso, quando Ezequiel 18:20 diz:

“A alma que pecar, essa morrerá”,

não devemos automaticamente interpretar isso como uma declaração de que a parte imaterial do homem deixa de existir. No contexto, “alma” significa a pessoa: a pessoa que pecar é responsável por seu próprio pecado.

Em outras passagens, “alma” significa vida.

E em outras, significa claramente a parte imaterial do homem.

Mateus 10:28 é um exemplo incontestável deste último uso, porque Cristo distingue expressamente “corpo” e “alma”.

Portanto, não podemos pegar todas as ocorrências da palavra “alma” e dar-lhes mecanicamente o mesmo significado.

  1. O que acontece com a pessoa depois da morte?

O Novo Testamento esclarece muito esse assunto.

O Senhor Jesus contou sobre o rico e Lázaro em Lucas 16:19-31. Ambos morreram.

Lázaro foi consolado.

O rico encontrava-se em tormentos.

O rico podia falar.

Podia recordar.

Reconhecia Abraão.

Lembrava-se de seus cinco irmãos.

Preocupava-se com o destino deles.

Ele diz:

“Porque estou atormentado nesta chama” (Lucas 16:24).

E posteriormente:

“Para que lhes dê testemunho, a fim de que não venham também para este lugar de tormento” (Lucas 16:28).

Qualquer que seja a discussão sobre os detalhes dessa passagem, uma coisa é impossível negar: o Senhor descreveu existência consciente depois da morte.

  1. O caso do ladrão na cruz

Há ainda uma declaração muito simples do Senhor Jesus ao ladrão que creu nEle:

“Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso” (Lucas 23:43).

Observe: “hoje”.

O corpo daquele homem morreria e seria retirado da cruz. Ainda assim, Cristo lhe prometeu uma existência consciente com Ele.

Isso concorda perfeitamente com aquilo que Paulo escreveu:

“Desejamos antes deixar este corpo, para habitar com o Senhor” (2 Coríntios 5:8).

E novamente:

“Tendo desejo de partir, e estar com Cristo, porque isto é ainda muito melhor” (Filipenses 1:23).

Se Paulo acreditasse que morrer significava entrar numa inexistência ou inconsciência absoluta até a ressurreição, seria estranho dizer que partir e estar com Cristo era “muito melhor”.

  1. Apocalipse mostra almas conscientes sem seus corpos ressuscitados

Apocalipse 6:9-11 fornece outra evidência muito forte.

João diz:

“Vi debaixo do altar as almas dos que foram mortos por amor da palavra de Deus.”

Seus corpos haviam sido mortos, mas João vê suas “almas”.

E essas almas clamam:

“Até quando, ó verdadeiro e santo Dominador, não julgas e vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra?”

Elas sabem quem são.

Sabem o que aconteceu.

Lembram-se de sua morte.

Sabem que seus perseguidores ainda estão sobre a Terra.

Falam com Deus.

Esperam o cumprimento de acontecimentos futuros.

Isso não corresponde ao conceito de uma alma inconsciente ou inexistente.

  1. Precisamos distinguir Hades de Geena

Talvez esta seja uma das maiores fontes de confusão quando usamos simplesmente a palavra portuguesa “inferno”.

A Bíblia apresenta uma diferença entre o estado intermediário dos mortos e o destino final dos perdidos.

No Antigo Testamento encontramos a palavra hebraica Seol. No Novo Testamento encontramos a palavra grega Hades. Em Atos dos Apóstolos 2:27, a citação do Salmo 16:10 mostra a correspondência entre esses termos.

Hades não deve ser confundido simplesmente com a sepultura.

A sepultura recebe o corpo.

Hades está relacionado com o estado dos mortos.

Isso é especialmente claro em Apocalipse 20:13:

“E deu o mar os mortos que nele havia; e a morte e o inferno deram os mortos que neles havia.”

Depois:

“E a morte e o inferno foram lançados no lago de fogo” (Apocalipse 20:14).

Portanto, Hades não é o lago de fogo, porque finalmente o próprio Hades será lançado no lago de fogo.

  1. Então o perdido não vai imediatamente para o lago de fogo quando morre

Esta distinção é importante.

Quando uma pessoa não salva morre atualmente, seu corpo retorna ao pó, enquanto sua existência imaterial continua no estado dos mortos, aguardando a ressurreição e o julgamento.

O rico de Lucas 16 estava no Hades em tormentos, mas o julgamento do Grande Trono Branco, descrito em Apocalipse 20, ainda era futuro.

Depois haverá a ressurreição dos perdidos.

O Senhor Jesus disse:

“Vem a hora em que todos os que estão nos sepulcros ouvirão a sua voz. E os que fizeram o bem sairão para a ressurreição da vida; e os que fizeram o mal, para a ressurreição da condenação” (João 5:28-29).

Portanto, o corpo também ressuscitará.

  1. É depois da ressurreição e do julgamento que encontramos o destino final

Apocalipse 20:11-15 descreve o Grande Trono Branco.

Os mortos são ressuscitados.

São julgados.

E então lemos:

“E aquele que não foi achado escrito no livro da vida foi lançado no lago de fogo” (Apocalipse 20:15).

É importante perceber a sequência:

morte física → estado intermediário → ressurreição → julgamento → destino eterno.

Por isso, quando Deus disse a Adão: “és pó e em pó te tornarás”, estava anunciando uma consequência real do pecado: a morte atingiria seu corpo. Mas Gênesis 3 não estava apresentando todos os detalhes daquilo que aconteceria com o homem depois da morte.

  1. Geena é diferente de Hades

O Senhor Jesus usou a palavra Geena para falar do destino final de julgamento.

Em Mateus 10:28, que já citamos, encontramos algo muito importante:

“Temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo.”

Aqui temos “alma e corpo”.

Por quê?

Porque o destino final vem depois da ressurreição.

Enquanto no estado intermediário o corpo permanece na morte, no destino eterno o homem ressuscitado encontra-se novamente em sua existência completa.

É por isso que Apocalipse chama o lago de fogo de “segunda morte”.

  1. A ressurreição prova que o corpo também faz parte do propósito eterno de Deus

A doutrina bíblica não ensina que a alma é importante e o corpo descartável.

Isso seria outro erro.

Cristo morreu também para redimir nosso corpo.

Romanos 8:23 fala da:

“redenção do nosso corpo”.

E 1 Coríntios 15 explica detalhadamente a ressurreição.

O corpo é semeado em corrupção e ressuscitará em incorrupção; é semeado em ignomínia e ressuscitará em glória; é semeado em fraqueza e ressuscitará em vigor (1 Coríntios 15:42-44).

Assim, a esperança cristã não é permanecer eternamente como uma alma sem corpo.

Quando Cristo vier, os mortos em Cristo ressuscitarão.

“Porque o mesmo Senhor descerá do céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro” (1 Tessalonicenses 4:16).

Depois os vivos serão transformados e arrebatados juntamente com eles.

“E assim estaremos sempre com o Senhor” (1 Tessalonicenses 4:17).

  1. Portanto, a expressão “imortalidade da alma” precisa ser explicada biblicamente

Eu prefiro não construir a doutrina apenas em torno da expressão “alma imortal”, porque o mais importante é perguntar: o que as Escrituras ensinam que acontece com a alma quando o corpo morre?

E a resposta bíblica é clara: ela não deixa de existir com a morte do corpo.

Gênesis 35:18 mostra a alma saindo.

1 Reis 17:21-22 mostra a alma retornando.

Mateus 10:28 mostra que os homens podem matar o corpo, mas não podem matar a alma.

Lucas 16:19-31 apresenta consciência depois da morte.

Lucas 23:43 apresenta o salvo com Cristo no Paraíso.

2 Coríntios 5:8 fala em deixar o corpo e habitar com o Senhor.

Filipenses 1:23 fala em partir e estar com Cristo.

Apocalipse 6:9-11 mostra almas de mortos conscientes diante de Deus.

Tudo isso precisa ser considerado juntamente com Gênesis.

  1. Voltando finalmente à sua pergunta

O irmão perguntou, em essência: “Se Adão fosse para o inferno, não seria aquele o momento para Deus dizer isso?”

Eu responderia: não necessariamente.

Deus estava pronunciando em Gênesis 3 a sentença correspondente à desobediência de Adão, incluindo a mortalidade e o retorno do corpo ao pó. Ele não estava, naquele momento, expondo toda a doutrina bíblica sobre o estado intermediário, ressurreição, Hades, Geena, Grande Trono Branco e lago de fogo.

Essas verdades seriam reveladas progressivamente.

Além disso, precisamos ter cuidado com a afirmação “Adão iria para o inferno”. Gênesis não nos autoriza a afirmar que Adão foi condenado eternamente. A passagem registra sua queda e a sentença decorrente do pecado, mas não devemos acrescentar ao texto aquilo que ele não afirma sobre o destino eterno pessoal de Adão.

O que podemos afirmar é que, por Adão, o pecado entrou no mundo e, pelo pecado, a morte (Romanos 5:12).

Mas graças a Deus, Romanos 5 não termina em Adão.

Apresenta-nos outro Homem: Jesus Cristo.

“Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos” (Romanos 5:19).

O primeiro Adão trouxe pecado e morte. Cristo veio trazer justiça e vida.

Por isso, a grande questão para nós não é apenas descobrir o que acontece com a alma depois da morte, mas saber onde estaremos depois da morte. E isso depende da nossa relação com Jesus Cristo.

Quem está em Cristo pode dizer com Paulo que partir é “estar com Cristo” (Filipenses 1:23). Quem morre sem Cristo aguarda a ressurreição para o juízo.

A morte do corpo não encerra a existência do homem. Ela encerra sua oportunidade nesta vida. Depois dela permanece a realidade solene expressa em Hebreus 9:27:

“E, como aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo depois disso o juízo.”

É justamente por isso que o Evangelho é uma mensagem tão urgente. Cristo morreu pelos nossos pecados, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia (1 Coríntios 15:3-4). Nele há perdão, vida eterna e a esperança da ressurreição.

“Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá” (João 11:25).

Josué Matos

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