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Como uma denominação que se diz igreja vai estar edificada em falsos fundamentos, falsa doutrina?

 Alguém que me escreveu no YouTube:

Irmão, a Bíblia fala de uma única religião diante de Deus, não é isso?

Quanto a não haver divisão na interpretação da Bíblia, qual outra forma podemos usar para sermos unânimes e andarmos segundo a sã doutrina? A Bíblia não é interpretada estudando-se o contexto, o idioma, o gênero literário etc.?

Tiago 1:27 afirma: “A religião pura e sem mácula diante de Deus é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades e guardar-se incontaminado do mundo.”

João 12:48 “Quem me rejeitar a mim e não receber as minhas palavras já tem quem o julgue; a palavra que tenho pregado, essa o há de julgar no último dia.”

A doutrina ensinada pela Igreja deve estar submetida às Escrituras, e não ser criada conforme a preferência de cada indivíduo.

Tito 2:1 fala da “sã doutrina”, e Efésios 4:14 adverte contra “todo vento de doutrina”.

Paulo ordena “que todos faleis a mesma coisa” e que não haja divisões entre os cristãos (1 Coríntios 1:10).

Judas fala da “fé que uma vez foi entregue aos santos” (Judas 3).

Paulo também diz para permanecer “na doutrina” que havia sido recebida (2 Tessalonicenses 2:15).

E existe um texto particularmente direto: “Sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação.”

— 2 Pedro 1:20

2 João 1:9 “Todo aquele que prevarica e não persevera na doutrina de Cristo não tem a Deus.”

Efésios 2:20 diz que a Igreja está: “Edificada sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina.”

Como uma denominação que se diz igreja vai estar edificada em falsos fundamentos, falsa doutrina?

Minha Resposta:

Irmão, concordo com o princípio central do que você está dizendo: a Igreja não tem autoridade para inventar doutrinas, modificar a Palavra de Deus ou estabelecer como verdade aquilo que contradiz aquilo que Deus revelou nas Escrituras. Entretanto, penso que precisamos fazer algumas distinções importantes para não atribuirmos a determinados textos mais do que eles realmente estão dizendo.

Comecemos por Tiago 1:27. Quando Tiago fala da “religião pura e imaculada para com Deus, o Pai”, ele não está estabelecendo uma denominação religiosa nem dizendo que existe uma instituição terrena que possa reivindicar para si o título exclusivo de “a religião verdadeira”. O contexto é essencialmente prático.

No versículo anterior, Tiago fala daquele que “cuida ser religioso”, mas não refreia a língua. No versículo 27, ele mostra as características práticas da verdadeira religião: compaixão pelos necessitados e separação da corrupção do mundo. Portanto, o contraste é entre uma religiosidade meramente exterior e uma vida que demonstra realmente os efeitos da fé.

Isso está perfeitamente de acordo com todo o contexto da epístola de Tiago: “Sede cumpridores da palavra e não somente ouvintes” (Tiago 1:22).

Então, sim, existe uma verdade de Deus; existe uma fé verdadeira; existe uma doutrina verdadeira; existe um Evangelho verdadeiro. Mas precisamos tomar cuidado para não transformar a expressão “religião pura” de Tiago 1:27 no nome de uma organização ou sistema denominacional.

Quanto à unidade doutrinária, você também está correto ao afirmar que Deus não deseja confusão doutrinária entre os Seus filhos.

Primeira aos Coríntios 1:10 diz:

“Rogo-vos, porém, irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que digais todos uma mesma coisa e que não haja entre vós dissensões; antes, sejais unidos, em um mesmo sentido e em um mesmo parecer.”

Mas precisamos observar cuidadosamente qual era o problema em Corinto. Eles estavam formando partidos em torno de homens:

“Eu sou de Paulo, e eu, de Apolo, e eu, de Cefas, e eu, de Cristo” (1 Coríntios 1:12).

A resposta de Paulo é extraordinariamente importante:

“Está Cristo dividido?” (1 Coríntios 1:13).

Portanto, a solução apostólica para a divisão não era criar outro partido, mas voltar todos os olhos para Cristo.

Isso nos conduz diretamente ao problema das denominações. No Novo Testamento, os crentes não são identificados por nomes denominacionais. Encontramos “a igreja de Deus que está em Corinto” (1 Coríntios 1:2), “as igrejas da Galácia” (Gálatas 1:2), “a igreja dos tessalonicenses” (1 Tessalonicenses 1:1), e assim sucessivamente.

O centro não era um nome denominacional, mas Cristo.

Isso também explica Efésios 4. Existe “um só corpo e um só Espírito... um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos” (Efésios 4:4-6).

Essa unidade não é criada por uma organização humana. Paulo diz:

“Procurando guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz” (Efésios 4:3).

Observe a expressão: “guardar”. Não somos chamados para fabricar a unidade da Igreja. O Espírito Santo já produziu essa unidade. Nossa responsabilidade é guardá-la.

Agora, isso não significa que todas as interpretações da Bíblia sejam igualmente corretas. Certamente não são.

Você mencionou contexto, idioma e gênero literário, e concordo. Tudo isso é importante. Precisamos perguntar: quem escreveu? Para quem escreveu? Em que circunstâncias? Qual é o assunto do livro? Qual é o contexto imediato? Como aquela palavra era usada? Trata-se de narrativa histórica, poesia, profecia, parábola, doutrina apostólica ou linguagem figurada?

Um erro muito comum acontece quando alguém tira um versículo do seu contexto e constrói uma doutrina inteira sobre ele.

Atos dos Apóstolos 17:11 apresenta um princípio muito saudável. Os bereanos receberam a palavra pregada por Paulo, mas examinavam “cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim”.

Veja que interessante: quem estava pregando era o próprio apóstolo Paulo. Mesmo assim, o texto elogia aqueles que examinavam as Escrituras.

Portanto, nenhuma igreja, pregador, pastor, presbítero, escritor, comentarista ou denominação deve ocupar o lugar das Escrituras.

Agora precisamos esclarecer também Segunda de Pedro 1:20:

“Nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação.”

Esse texto muitas vezes é usado como se Pedro estivesse dizendo: “Nenhum indivíduo pode interpretar pessoalmente a Bíblia”. Mas o contexto não está tratando principalmente da liberdade do leitor para estudar as Escrituras.

O versículo seguinte explica:

“Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo” (2 Pedro 1:21).

O assunto é a origem da profecia.

A profecia bíblica não nasceu da imaginação particular do profeta. Isaías não inventou sua mensagem. Jeremias não criou a sua. Daniel não produziu suas profecias mediante conclusões pessoais. Pedro explica que aqueles homens falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo.

Por isso mesmo devemos interpretar as Escrituras com reverência, permitindo que a própria Escritura esclareça a Escritura.

Também concordo plenamente com a importância de Judas 3:

“Batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos.”

Existe, portanto, um depósito doutrinário recebido. Não estamos autorizados a criar outro cristianismo para cada geração.

Paulo escreveu a Timóteo:

“Conserva o modelo das sãs palavras que de mim tens ouvido” (2 Timóteo 1:13).

E novamente:

“Tu, porém, fala o que convém à sã doutrina” (Tito 2:1).

Isso estabelece um princípio fundamental: a Igreja não determina o que é verdade; ela recebe a verdade de Deus e deve preservá-la, ensiná-la e praticá-la.

É exatamente aí que Efésios 2:20 se torna tão importante.

A Igreja é apresentada como um edifício:

“Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina.”

Entretanto, precisamos comparar essa passagem com Primeira aos Coríntios 3:11:

“Porque ninguém pode pôr outro fundamento, além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo.”

Não existe contradição.

Cristo é o fundamento absoluto. Os apóstolos e profetas foram aqueles através dos quais o fundamento doutrinário da Igreja foi estabelecido. Eles anunciaram Cristo e, mediante inspiração divina, deixaram registrada a doutrina que a Igreja deveria seguir.

Atos dos Apóstolos 2:42 mostra exatamente isso:

“E perseveravam na doutrina dos apóstolos.”

Observe que não diz que perseveravam numa doutrina que seria posteriormente desenvolvida segundo a vontade de cada geração. A doutrina já havia sido recebida.

Por isso Judas pode falar da fé “uma vez” entregue aos santos.

Também por isso João estabelece um limite muito sério:

“Todo aquele que prevarica e não persevera na doutrina de Cristo não tem a Deus” (2 João 9).

Portanto, chegando diretamente à sua pergunta final: “Como uma denominação que se diz igreja vai estar edificada em falsos fundamentos, falsa doutrina?”

Se uma organização ensina conscientemente doutrinas contrárias às Escrituras em questões fundamentais da fé cristã, o simples fato de ela utilizar o nome “igreja” não transforma o erro em verdade.

O nome não autentica a doutrina. A doutrina deve ser examinada pela Palavra de Deus.

O Senhor Jesus advertiu:

“Em vão, porém, me honram, ensinando doutrinas que são mandamentos de homens” (Marcos 7:7).

E Paulo advertiu:

“Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema” (Gálatas 1:8).

Veja a força desse princípio. Paulo não disse: “Aceitem a doutrina porque fui eu quem ensinou”. Ele colocou até a si próprio debaixo da autoridade da mensagem divina já recebida: “ainda que nós mesmos”.

Portanto, nenhuma autoridade humana está acima da Palavra de Deus.

Mas acrescento uma cautela igualmente importante: nem toda divergência de interpretação significa necessariamente “outro evangelho”.

Há doutrinas fundamentais e há questões secundárias nas quais cristãos verdadeiros podem chegar a conclusões diferentes por limitações de entendimento.

Por exemplo, negar a divindade de Cristo, negar Sua verdadeira humanidade, negar Sua ressurreição corporal, negar que Jesus Cristo é o Filho de Deus ou apresentar outro caminho de salvação atinge fundamentos da fé.

Já diferenças sobre determinados detalhes proféticos, certos aspectos da organização das reuniões, interpretação de uma passagem difícil ou outras questões semelhantes precisam ser examinadas cuidadosamente, mas não devemos automaticamente colocar toda divergência no mesmo nível de Gálatas 1.

A própria Escritura nos ensina a distinguir as coisas.

Existe “outro evangelho” que deve ser rejeitado (Gálatas 1:6-9), existem “doutrinas de demônios” (1 Timóteo 4:1), existem falsos mestres que introduzem “heresias de perdição” (2 Pedro 2:1), mas também existem questões nas quais Paulo ordena paciência entre irmãos que possuem diferentes níveis de compreensão, como vemos em Romanos 14.

A unidade bíblica, portanto, não significa uniformidade produzida por uma autoridade denominacional. Também não significa que cada pessoa possa interpretar a Bíblia como quiser.

Os dois extremos são perigosos.

De um lado: “A instituição decide o que a Bíblia significa.”

Do outro: “A Bíblia significa aquilo que eu quiser que ela signifique.”

Nenhuma dessas posições é segura.

A pergunta correta é:

“O que realmente está escrito?”

Depois:

“O que o escritor inspirado quis comunicar naquele contexto?”

E finalmente:

“Como essa passagem se harmoniza com o restante das Escrituras?”

Foi exatamente assim que o próprio Senhor Jesus tratou as Escrituras. Repetidamente Ele dizia:

“Está escrito” (Mateus 4:4,7,10).

E, depois da ressurreição:

“Começando por Moisés e por todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras” (Lucas 24:27).

Portanto, você está certo quanto ao princípio fundamental: precisamos voltar às Escrituras.

Não devemos perguntar primeiramente: “O que ensina a minha denominação?”

Muito menos: “O que eu gostaria que este texto significasse?”

Devemos perguntar: “O que diz a Escritura?” (Romanos 4:3).

E, quando descobrimos claramente aquilo que Deus revelou, nossa responsabilidade não é adaptar a Palavra à nossa tradição, mas adaptar nossa crença e nossa prática à Palavra.

A verdadeira unidade cristã nunca será alcançada colocando uma instituição acima das Escrituras. Tampouco será alcançada permitindo que cada indivíduo transforme sua opinião pessoal em doutrina.

A verdadeira unidade encontra seu centro em Cristo, sua autoridade na Palavra de Deus e seu poder no Espírito Santo.

“Um só Senhor, uma só fé, um só batismo” (Efésios 4:5).

Cristo continua sendo a Cabeça da Igreja (Efésios 1:22-23; Colossenses 1:18), as Escrituras continuam sendo nossa autoridade doutrinária (2 Timóteo 3:16-17), e a responsabilidade dos crentes continua sendo perseverar “na doutrina dos apóstolos” (Atos dos Apóstolos 2:42).

Se uma tradição concorda com as Escrituras, podemos recebê-la porque é bíblica. Se uma tradição contradiz as Escrituras, devemos ficar com as Escrituras.

“À lei e ao testemunho! Se eles não falarem segundo esta palavra, nunca verão a alva” (Isaías 8:20).

Josué Matos

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Eu posso administrar minhas contribuições ajudando as pessoas necessitadas, priorizando os da fé?

 Alguém que me escreveu no YouTube:

Agradeço muito pela atenção. As contribuições têm uma finalidade, que é ajudar os necessitados etc. Se não estiverem priorizando essas finalidades, eu posso administrar minhas contribuições ajudando as pessoas necessitadas, priorizando os da fé? Tem um WhatsApp para eu falar com você?

Minha Resposta:

Agradeço muito pela sua mensagem e pela confiança. Para contato, prefiro responder por e-mail. Você pode escrever para:

palavrasdoevangelho@ymail.com

Quanto à sua pergunta, é importante distinguir alguns aspectos do ensino bíblico sobre contribuições. No Novo Testamento, a contribuição do cristão não aparece como uma espécie de imposto religioso que simplesmente entregamos sem qualquer preocupação com a sua finalidade. Pelo contrário, contribuir é apresentado como um exercício espiritual, voluntário, consciente e responsável diante de Deus.

Paulo escreveu:

“Cada um contribua segundo propôs no seu coração; não com tristeza, ou por necessidade; porque Deus ama ao que dá com alegria” (Segunda Epístola aos Coríntios 9:7).

Portanto, existe responsabilidade pessoal diante de Deus na maneira como usamos aquilo que Ele colocou em nossas mãos.

Ao mesmo tempo, encontramos no Novo Testamento contribuições feitas por intermédio da igreja. Em Primeira Epístola aos Coríntios 16:1-2, Paulo orientou os irmãos a separarem regularmente uma contribuição destinada aos santos necessitados. Em Segunda Epístola aos Coríntios, capítulos 8 e 9, encontramos novamente uma grande coleta sendo organizada para socorrer irmãos que estavam passando necessidade. Isso mostra que uma das finalidades importantes das contribuições cristãs é justamente a assistência aos necessitados.

Há também um princípio muito claro em Gálatas:

“Então, enquanto temos tempo, façamos bem a todos, mas principalmente aos domésticos da fé” (Epístola aos Gálatas 6:10).

Observe o equilíbrio da Palavra de Deus: “a todos”, mas “principalmente aos domésticos da fé”. Portanto, não devemos ser indiferentes ao sofrimento de qualquer pessoa, mas existe uma responsabilidade especial para com nossos irmãos e irmãs em Cristo.

Encontramos esse mesmo cuidado na igreja primitiva. Em Atos dos Apóstolos 4:34-35, havia preocupação para que as necessidades existentes entre os santos fossem supridas. Mais tarde, quando surgiu uma necessidade específica entre as viúvas, a igreja tomou providências para que elas fossem atendidas, conforme Atos dos Apóstolos 6:1-4.

Primeira Epístola de João também apresenta essa responsabilidade de maneira muito prática:

“Quem, pois, tiver bens do mundo, e, vendo o seu irmão necessitado, lhe cerrar as suas entranhas, como estará nele o amor de Deus?” (Primeira Epístola de João 3:17).

Então, respondendo diretamente à sua pergunta: sim, biblicamente existe lugar para a contribuição pessoal e direta. Um cristão pode ajudar uma família necessitada, um irmão desempregado, uma viúva, alguém passando por dificuldades financeiras ou outra necessidade legítima. Não encontramos no Novo Testamento um mandamento dizendo que toda manifestação de generosidade do cristão obrigatoriamente precisa passar pela administração da igreja.

Entretanto, eu teria cautela em transformar isso numa escolha entre “contribuir para a igreja” ou “ajudar os necessitados”. O Novo Testamento apresenta as duas responsabilidades. Há necessidades relacionadas à obra de Deus, ao sustento daqueles que trabalham na Palavra e ao funcionamento das responsabilidades da igreja; e há também o socorro aos necessitados. Veja, por exemplo, Primeira Epístola aos Coríntios 9:7-14; Epístola aos Gálatas 6:6; Primeira Epístola a Timóteo 5:17-18 e Terceira Epístola de João 5-8.

Também é importante lembrar que as contribuições administradas pela igreja são algo sério e santo. Segunda Epístola aos Coríntios 8:18-21 mostra o cuidado que havia na administração da oferta. Paulo tomou providências para que tudo fosse feito corretamente, não apenas diante do Senhor, mas também diante dos homens. Isso ensina transparência, responsabilidade e cuidado na administração dos recursos confiados pelos irmãos.

Portanto, se a sua preocupação é que os necessitados não estejam recebendo a devida atenção, creio que é legítimo conversar com os irmãos responsáveis e procurar compreender como as contribuições estão sendo empregadas. Não devemos fazer acusações sem conhecer os fatos, mas também não precisamos tratar a administração financeira da igreja como um assunto sobre o qual ninguém pode perguntar.

Além disso, nada impede que você tenha um exercício pessoal diante de Deus para ajudar diretamente alguém necessitado. Dorcas, por exemplo, era conhecida pelas boas obras e esmolas que fazia (Atos dos Apóstolos 9:36). Cornélio dava muitas esmolas ao povo (Atos dos Apóstolos 10:2). Essas atitudes pessoais foram registradas de maneira positiva pela Palavra de Deus.

O princípio fundamental é reconhecer que aquilo que possuímos pertence ao Senhor e somos apenas administradores. Por isso, devemos buscar sabedoria diante dEle para distribuir nossos recursos de maneira que O agrade, lembrando especialmente dos necessitados e, conforme Gálatas 6:10 ensina, “principalmente dos domésticos da fé”.

A contribuição cristã não deveria ser simplesmente o ato de entregar determinado valor e esquecer o assunto. Ela faz parte da nossa mordomia diante de Deus e deve ser acompanhada de amor, discernimento, generosidade e responsabilidade.

“Porque Deus não é injusto para se esquecer da vossa obra e do trabalho da caridade que, para com o seu nome, mostrastes, enquanto servistes aos santos e ainda servis” (Epístola aos Hebreus 6:10).

Josué Matos

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Meu irmão, o ‘ide a todo o mundo, pregai o evangelho’ não se refere à Igreja.

 Alguém que me escreveu no YouTube:

Meu irmão, o ‘ide a todo o mundo, pregai o evangelho’ não se refere à Igreja. E, quanto ao Evangelho como responsabilidade da assembleia local, não temos esse modelo nas Sagradas Escrituras. É muito útil quando observamos todo o contexto. Observação: temos aí ideias clericais herdadas de irmãos carnais, que adoram e elevam costumes humanos acima da vontade do Senhor e dos ensinamentos das Sagradas Escrituras.

Minha Resposta:

Meu irmão, concordo plenamente com uma coisa que você disse: precisamos observar todo o contexto. Entretanto, justamente quando examinamos o conjunto do Novo Testamento, não creio que seja possível sustentar que a evangelização esteja desligada da responsabilidade e do testemunho da igreja local.

Antes de tudo, precisamos fazer uma distinção. A igreja local não é a fonte da comissão, nem o evangelista é servo da igreja no sentido de receber dela o seu chamado. O evangelista é servo de Cristo e recebe do Senhor o seu dom e direção. Porém, disso não se segue que seu trabalho seja independente da igreja local. O Novo Testamento apresenta exatamente o contrário: o evangelista pertence ao Corpo de Cristo, está em comunhão com os santos e seu trabalho está relacionado ao testemunho das igrejas.

  1. Efésios 4 apresenta um argumento muito importante

Depois da Sua morte, ressurreição e ascensão, Cristo concedeu homens à Sua Igreja:

“E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores” (Efésios 4:11).

É importante observar cuidadosamente a linguagem. Aqui não temos simplesmente dons abstratos dados aos homens. Temos homens dotados que o Cristo ressuscitado e glorificado concede ao Seu Corpo.

Entre eles está o evangelista.

E aqui surge uma pergunta muito simples: por que Cristo deu evangelistas à Igreja?

Certamente não para evangelizarem a própria Igreja, porque o evangelista, propriamente dito, anuncia as boas-novas aos que estão fora. A Igreja é constituída daqueles que já receberam o Evangelho.

Portanto, o fato de o evangelista ser dado à Igreja demonstra precisamente que a atividade evangelística, embora dirigida ao mundo, pertence ao serviço que procede do âmbito da Igreja.

Efésios 4:12 prossegue falando do “aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo”.

Assim, existe uma diferença entre o destinatário da evangelização e a esfera à qual o evangelista pertence.

O destinatário é o mundo.

O evangelista é dado à Igreja.

Seu Senhor é Cristo.

Sua mensagem é o Evangelho de Deus.

Seu campo são os perdidos.

E os convertidos, por meio desse trabalho, são posteriormente batizados, ensinados e agregados ao testemunho de uma igreja local.

Isso aparece repetidamente em Atos dos Apóstolos.

  1. A Grande Comissão foi dada pelo Cristo ressuscitado

Também não me parece correto afastar Mateus 28:18-20, Marcos 16:15 e Lucas 24:46-49 da presente dispensação simplesmente porque a Igreja, historicamente, ainda não havia sido formada em Atos dos Apóstolos 2.

É verdade que a Igreja começou no dia de Pentecostes, quando o Espírito Santo desceu e os crentes foram unidos num só Corpo. Primeira Epístola aos Coríntios 12:13 nos ajuda a compreender essa verdade.

Mas não podemos concluir daí que tudo aquilo que Cristo disse aos discípulos antes de Atos 2 esteja automaticamente fora da presente dispensação.

Se aplicássemos esse princípio de maneira consistente, criaríamos enormes dificuldades.

Observe a sequência.

Depois da ressurreição, o Senhor disse:

“Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura” (Marcos 16:15).

Em Mateus:

“Portanto ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo; ensinando-as a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado” (Mateus 28:19-20).

Em Lucas, o Senhor declara que “em seu nome se pregasse o arrependimento e a remissão dos pecados, em todas as nações, começando por Jerusalém” e acrescenta: “E destas coisas sois vós testemunhas” (Lucas 24:47-48).

Agora observe Atos dos Apóstolos 1:8:

“Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até aos confins da terra.”

Como separar essas declarações?

Lucas 24 termina com a comissão e com a promessa do poder do alto. Atos dos Apóstolos começa retomando exatamente o mesmo assunto. O Senhor manda os discípulos aguardarem em Jerusalém até receberem o Espírito Santo.

Depois, em Atos 2, o Espírito Santo vem.

Portanto, temos uma sequência histórica e doutrinária:

Cristo morre;

Cristo ressuscita;

Cristo comissiona Seus discípulos;

Cristo promete o Espírito Santo;

Cristo ascende;

o Espírito Santo desce;

a Igreja é formada;

os discípulos começam a cumprir a comissão.

Não estamos tratando de acontecimentos desconectados.

  1. Os apóstolos da comissão são os apóstolos da Igreja

Há outro problema com a tentativa de separar completamente a Grande Comissão da Igreja.

A quem o Senhor deu aquela comissão?

Aos Seus apóstolos.

E quem encontramos como fundamento doutrinário da Igreja?

Os mesmos apóstolos.

Efésios 2:20 diz que a Igreja está “edificada sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina”.

Atos dos Apóstolos 2:42 diz que os primeiros crentes “perseveravam na doutrina dos apóstolos”.

Portanto, não podemos tratar aqueles homens como se pertencessem exclusivamente a um programa relacionado com Israel e não tivessem relação com a Igreja.

Foram precisamente aqueles homens que, depois da descida do Espírito Santo, aparecem conduzindo o testemunho inicial da Igreja.

Pedro prega em Atos 2.

Pedro e João testemunham em Atos 3 e 4.

Os apóstolos testemunham da ressurreição em Atos 4:33.

Depois, o Evangelho alcança Samaria em Atos 8.

Posteriormente chega aos gentios.

Isso corresponde perfeitamente à progressão de Atos dos Apóstolos 1:8:

Jerusalém → Judeia → Samaria → confins da terra.

  1. Antioquia torna a relação com a igreja local ainda mais evidente

Talvez um dos exemplos mais claros seja Atos dos Apóstolos 13.

Ali encontramos uma igreja local estabelecida em Antioquia:

“E na igreja que estava em Antioquia havia alguns profetas e doutores” (Atos dos Apóstolos 13:1).

Enquanto aqueles irmãos serviam ao Senhor e jejuavam, o Espírito Santo disse:

“Apartai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado” (Atos dos Apóstolos 13:2).

Quem chamou Barnabé e Saulo?

O Espírito Santo.

Portanto, a autoridade não veio da assembleia.

Mas onde estavam esses homens?

Na igreja local.

E o que fez aquela igreja?

“Então, jejuando, e orando, e pondo sobre eles as mãos, os despediram” (Atos dos Apóstolos 13:3).

O versículo seguinte preserva perfeitamente o equilíbrio:

“E assim estes, enviados pelo Espírito Santo, desceram a Selêucia e dali navegaram para Chipre” (Atos dos Apóstolos 13:4).

A igreja os despediu em comunhão; o Espírito Santo os enviou.

Isso destrói dois extremos.

O primeiro é o clericalismo, no qual uma organização religiosa controla o servo de Deus.

O segundo é o independentismo, no qual alguém afirma servir ao Senhor sem qualquer vínculo prático com a comunhão da igreja.

Nenhum dos dois corresponde ao padrão apresentado em Atos.

  1. E o que aconteceu quando terminaram aquela viagem evangelística?

Esse ponto é ainda mais esclarecedor.

Depois de pregarem o Evangelho em várias cidades, fazerem discípulos e estabelecerem igrejas, Paulo e Barnabé retornaram.

Para onde?

Antioquia.

“E dali navegaram para Antioquia, de onde tinham sido encomendados à graça de Deus para a obra que já haviam cumprido” (Atos dos Apóstolos 14:26).

Depois:

“E, quando chegaram e reuniram a igreja, relataram quão grandes coisas Deus fizera por eles e como abrira aos gentios a porta da fé” (Atos dos Apóstolos 14:27).

Por que reunir a igreja para contar o que Deus havia realizado?

Porque havia comunhão entre a obra evangelística e aquela igreja local.

Não era “meu ministério”, “minha missão” ou “minha obra” funcionando independentemente dos santos.

Era trabalho para o qual o Espírito Santo havia chamado os servos, realizado em comunhão com uma igreja local, e depois relatado àquela igreja.

  1. A evangelização produzia novas igrejas

Atos dos Apóstolos também apresenta uma progressão extremamente importante.

O Evangelho era anunciado.

Pessoas eram salvas.

Os convertidos eram ensinados.

E igrejas eram estabelecidas.

Em Atos dos Apóstolos 14:21-23, Paulo e Barnabé anunciaram o Evangelho, fizeram muitos discípulos, voltaram fortalecendo os convertidos e estabeleceram anciãos em cada igreja.

Portanto, evangelização e igreja local não aparecem como duas realidades sem ligação.

A evangelização alcança os perdidos e, pela graça de Deus, produz convertidos. Esses convertidos são batizados, ensinados e passam a constituir testemunhos locais.

Essa relação é tão clara que o objetivo do trabalho evangelístico não é simplesmente produzir decisões individuais, mas ver pessoas salvas, discipuladas e reunidas segundo o padrão da Palavra de Deus.

  1. Filipe também confirma que evangelizar é um dom exercido para fora

Atos dos Apóstolos 21:8 chama Filipe especificamente de “evangelista”.

Mas onde vemos Filipe exercendo esse dom?

Especialmente em Atos 8.

Ele desce a Samaria e “lhes pregava a Cristo” (Atos dos Apóstolos 8:5).

Depois, o Senhor o dirige ao encontro do eunuco etíope e Filipe “lhe anunciou a Jesus” (Atos dos Apóstolos 8:35).

Isso confirma exatamente o sentido de Efésios 4.

O evangelista é um homem dado por Cristo à Igreja, mas seu dom o leva aos não convertidos.

Não há contradição alguma nisso.

O pastor é dado à Igreja e trabalha especialmente entre as ovelhas.

O mestre é dado à Igreja e ensina a verdade.

O evangelista é dado à Igreja e sai à procura dos perdidos.

Todos pertencem ao mesmo sistema divino de serviço sob a autoridade da Cabeça, Cristo.

  1. A igreja local possui, sim, um testemunho evangelístico

Também precisamos distinguir entre dizer que não encontramos no Novo Testamento exatamente o formato moderno de uma “reunião evangelística dominical às 19 horas” e afirmar que não existe responsabilidade evangelística ligada à igreja local.

São coisas completamente diferentes.

O Novo Testamento não determina um horário semanal chamado “reunião do Evangelho”. Mas isso não significa que uma igreja local não possa organizar oportunidades para a pregação do Evangelho.

Atos dos Apóstolos mostra igrejas apoiando servos, enviando-os em comunhão, recebendo relatos do trabalho e vendo novas igrejas surgirem por meio da evangelização.

Além disso, cada cristão individualmente é testemunha.

Atos dos Apóstolos 1:8 estabelece o princípio do testemunho.

Primeira Epístola de Pedro 3:15 mostra o crente preparado para responder acerca da esperança que possui.

Filipenses 2:15-16 apresenta os santos resplandecendo “como astros no mundo”, retendo “a palavra da vida”.

Portanto, há evangelização pessoal por irmãos e irmãs e há o trabalho específico daquele que recebeu do Senhor capacidade de evangelista.

  1. Primeira Epístola aos Tessalonicenses é particularmente significativa

Paulo escreveu a uma igreja local:

“Porque por vós soou a palavra do Senhor, não somente na Macedônia e Acaia, mas também em todos os lugares a vossa fé para com Deus se espalhou” (Primeira Epístola aos Tessalonicenses 1:8).

Isso é muito importante.

Paulo não está falando somente de um evangelista individual. Está escrevendo à “igreja dos tessalonicenses” (1:1) e diz que, a partir deles, “soou a palavra do Senhor”.

Portanto, uma igreja local pode possuir um poderoso testemunho evangelístico.

Isso não significa que todos sejam evangelistas. Efésios 4 não diz isso.

Mas toda a companhia pode estar envolvida no testemunho: alguns pregando publicamente, outros convidando pessoas, outros distribuindo literatura, outros conversando pessoalmente, outros ajudando materialmente, outros sustentando a obra e todos orando.

  1. Isso não é clericalismo

Quanto à afirmação de que essa posição seria consequência de “ideias clericais”, penso que acontece justamente o contrário quando seguimos o padrão bíblico.

Clericalismo é criar uma classe profissional que monopoliza o serviço espiritual.

Mas o padrão do Novo Testamento reconhece a diversidade de dons concedidos soberanamente por Cristo.

O evangelista evangeliza.

O mestre ensina.

O pastor cuida.

Os anciãos supervisionam localmente.

Os demais santos também servem conforme aquilo que receberam do Senhor.

Primeira Epístola aos Coríntios 12 compara a igreja a um corpo justamente porque nenhum membro possui todas as funções.

Efésios 4 apresenta Cristo como a Cabeça e mostra que “todo o corpo, bem ajustado e ligado pelo auxílio de todas as juntas”, contribui para seu próprio crescimento (Efésios 4:16).

Isso é precisamente o oposto do clericalismo.

  1. O evangelista não pertence a uma organização missionária; pertence a Cristo e ao Seu Corpo

É importante manter esse equilíbrio.

Não creio que uma igreja local tenha autoridade para fabricar evangelistas, assim como não pode fabricar mestres ou pastores.

É Cristo quem dá o evangelista.

Efésios 4:11 é claro: “Ele mesmo deu”.

A igreja reconhece aquilo que Cristo concedeu.

Do mesmo modo, a recomendação de um irmão para dedicar-se integralmente ao Evangelho não transforma aquele irmão em evangelista. Se ele é verdadeiramente evangelista, o dom já veio de Cristo.

Entretanto, quando esse dom é reconhecido, é perfeitamente bíblico que os irmãos tenham comunhão com ele, orem por ele, auxiliem-no e acompanhem com interesse o trabalho que Deus está realizando.

Foi exatamente o que vemos entre Antioquia, Paulo e Barnabé.

Portanto, irmão, eu concordo que devemos rejeitar costumes meramente humanos quando são elevados ao nível da Palavra de Deus. Também concordo que não devemos transformar determinado formato de “reunião evangelística” numa ordenança bíblica, como se toda igreja fosse obrigada a realizar exatamente o mesmo tipo de reunião, no mesmo dia e da mesma maneira.

Mas daí concluir que o Evangelho não constitui parte da responsabilidade e do testemunho da igreja local é ir além do que as Escrituras permitem.

A própria Escritura apresenta:

Cristo ressuscitado ordenando que o Evangelho alcance todas as nações;

Cristo prometendo o Espírito Santo para capacitar Suas testemunhas;

o Espírito Santo vindo em Atos dos Apóstolos 2 e formando a Igreja;

os mesmos apóstolos iniciando imediatamente o testemunho;

Cristo glorificado dando evangelistas à Igreja;

uma igreja local, Antioquia, tendo comunhão com homens chamados pelo Espírito para levar o Evangelho;

esses homens voltando e relatando à igreja aquilo que Deus fizera;

o Evangelho produzindo convertidos;

e esses convertidos sendo ensinados e constituídos em novas igrejas locais.

Não vejo como chamar esse conjunto de evidências de “ideias clericais”.

Pelo contrário, considero um princípio muito simples do Novo Testamento: a Igreja não existe para si mesma. Enquanto está neste mundo, ela deve resplandecer como testemunho de Cristo. O evangelista é servo do Senhor, não empregado da assembleia; mas Cristo o deu à Igreja, e seu serviço para alcançar os perdidos não está desligado da comunhão, das orações e do testemunho dos santos.

E talvez Efésios 4:11 seja justamente uma das passagens que tornam isso mais claro: Cristo deu evangelistas à Igreja porque a Igreja já foi evangelizada, mas o mundo ainda precisa ser.

Josué Matos

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Qual sua opinião sobre cursos de teologia?

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Qual sua opinião sobre cursos de teologia?

Minha Resposta:

Minha opinião precisa partir, antes de tudo, daquilo que encontramos na Palavra de Deus. Não tenho nada contra estudar profundamente a Bíblia; muito pelo contrário. Creio que todo cristão deveria ser estimulado a conhecer cada vez mais as Escrituras. A questão é distinguir entre estudar profundamente a Palavra de Deus e adotar como modelo de formação espiritual um sistema que não encontramos estabelecido no Novo Testamento.

Quando observamos a igreja no Novo Testamento, não encontramos o modelo de um seminário teológico para formar uma classe especial de cristãos, separando alguns para receberem uma formação bíblica que os demais não recebem. O padrão que encontramos é o ensino da Palavra de Deus dentro da igreja local, beneficiando todo o povo de Deus.

Em Atos dos Apóstolos 2:42, os primeiros cristãos “perseveravam na doutrina dos apóstolos”. Mais tarde, quando Paulo permaneceu em Corinto, ele ficou ali “ensinando entre eles a palavra de Deus” (Atos dos Apóstolos 18:11). Em Antioquia, Barnabé e Saulo passaram um ano inteiro reunidos com a igreja e “ensinaram muita gente” (Atos dos Apóstolos 11:26). O ensino estava ligado à vida da igreja.

Efésios 4:11-16 também mostra que Deus concedeu à Igreja homens capacitados para ensinar, tendo em vista o aperfeiçoamento dos santos e a edificação do Corpo de Cristo. O objetivo não é criar uma classe superior de cristãos, mas levar os santos à maturidade.

Primeira Epístola aos Coríntios 12 é igualmente importante. Os dons são distribuídos pelo Espírito Santo e exercidos para benefício de todos. A capacidade espiritual e a liderança não são produzidas simplesmente pela frequência a uma faculdade ou seminário; elas se desenvolvem sob a ação de Deus, mediante a Palavra, o exercício do dom e a experiência prática no meio do povo de Deus.

Isso não significa que todos os cristãos terão o mesmo conhecimento, o mesmo dom ou a mesma capacidade. Evidentemente, alguns se dedicarão muito mais ao estudo e alguns serão capacitados por Deus para ensinar. Romanos 12:7 menciona especificamente aquele que possui o dom de ensino: “se é ensinar, haja dedicação ao ensino”. Mas uma coisa é reconhecer diferentes dons e capacidades; outra é estabelecer uma classe espiritual diferenciada mediante formação acadêmica.

Também devemos distinguir conhecimento acadêmico de conhecimento espiritual. Uma pessoa pode estudar hebraico, grego, história, arqueologia, filosofia, hermenêutica e teologia sistemática e, apesar disso, não possuir discernimento espiritual. Primeira Epístola aos Coríntios 2:14-15 estabelece um princípio fundamental: as coisas do Espírito de Deus são discernidas espiritualmente.

É por isso que o verdadeiro conhecimento da Palavra não pode ser separado da atuação do Espírito Santo. O próprio Senhor Jesus prometeu acerca do Espírito Santo: “esse vos ensinará todas as coisas” (João 14:26). Isso não significa que o cristão não precise estudar. Pelo contrário. Significa que estudo e dependência do Espírito precisam caminhar juntos.

Paulo escreveu a Timóteo:

“Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade” (Segunda Epístola a Timóteo 2:15).

Veja que há esforço envolvido. Conhecer profundamente a Bíblia exige trabalho.

Existe uma diferença muito grande entre ler a Bíblia e estudar a Bíblia.

Uma pessoa pode ler vários capítulos diariamente durante muitos anos e ainda possuir um conhecimento bastante limitado das Escrituras. A leitura é importante, inclusive a leitura devocional, mas aquele que deseja aprofundar-se precisa aprender a estudar com propósito.

Precisa comparar Escritura com Escritura, observar o contexto, perguntar quem está falando, para quem está falando, em que circunstâncias, perceber as diferenças entre Israel e a Igreja, estudar doutrinas, acompanhar temas através de diferentes livros, observar palavras importantes e procurar compreender cada passagem dentro do conjunto da revelação bíblica.

Por isso, sou favorável a que o cristão utilize boas ferramentas. Dicionários bíblicos, concordâncias, léxicos, comentários, mapas, livros de história bíblica e outros recursos podem ser muito úteis. O problema começa quando essas ferramentas ocupam o lugar da própria Escritura ou quando a autoridade de um professor, instituição ou sistema teológico passa a determinar aquilo que devemos encontrar na Bíblia.

Nenhum comentário é inspirado. Nenhum professor é infalível. Nenhuma escola teológica possui toda a verdade.

A Palavra de Deus permanece sendo a autoridade.

É interessante observar também que alguns homens que exerceram enorme influência na exposição bíblica não foram produtos de seminários teológicos. Homens como John Nelson Darby, William Kelly e C. H. Mackintosh desenvolveram grande conhecimento das Escrituras por meio de estudo intenso e pessoal. Isso não significa que devamos aceitar tudo o que qualquer um deles escreveu. Significa simplesmente que conhecimento bíblico profundo não depende necessariamente de uma formação institucional.

Aliás, esse princípio não se limita aos homens. As irmãs também devem conhecer profundamente as Escrituras.

Um belo exemplo disso aparece em Atos dos Apóstolos 18.

Apolo era um homem eloquente e “poderoso nas Escrituras” (Atos dos Apóstolos 18:24). Entretanto, seu conhecimento ainda era incompleto. Ele conhecia somente o batismo de João. Quando Áquila e Priscila o ouviram, perceberam essa deficiência.

Então lemos:

“E, ouvindo-o Priscila e Áquila, o levaram consigo e lhe declararam mais precisamente o caminho de Deus” (Atos dos Apóstolos 18:26).

É uma passagem muito instrutiva.

Priscila não aparece assumindo publicamente o lugar de mestre na igreja. Contudo, seria igualmente errado concluir que ela era uma mulher sem conhecimento bíblico. Pelo contrário, o próprio fato de estar envolvida nessa situação mostra que possuía discernimento suficiente para perceber que havia uma deficiência naquilo que Apolo estava ensinando.

Áquila e Priscila receberam aquele homem em particular e o ajudaram. Priscila permaneceu dentro da posição que Deus estabeleceu para a mulher, mas isso não a impediu de conhecer profundamente as coisas de Deus e de participar, juntamente com seu marido, daquele auxílio particular.

Portanto, uma irmã pode e deve estudar profundamente a Bíblia. Não existe na Escritura nenhuma ideia de que profundidade doutrinária seja exclusividade masculina. Existem diferenças estabelecidas por Deus quanto ao exercício público do ministério na igreja, mas não existe qualquer proibição quanto à mulher crescer profundamente no conhecimento das Escrituras.

Outro exemplo é Timóteo. Paulo lhe disse:

“E que, desde a tua meninice, sabes as sagradas Escrituras” (Segunda Epístola a Timóteo 3:15).

De onde veio inicialmente esse conhecimento?

Paulo já havia mencionado “a fé não fingida que em ti há, a qual habitou primeiro em tua avó Lóide e em tua mãe Eunice” (Segunda Epístola a Timóteo 1:5).

Portanto, encontramos mulheres exercendo uma influência espiritual importantíssima na formação de Timóteo.

Quanto a fazer propriamente um curso de teologia, eu não diria que adquirir conhecimento por meio de um curso seja, em si mesmo, pecado. Alguém pode aproveitar determinadas matérias, aprender história, línguas bíblicas, geografia, contexto cultural e outras informações úteis. Entretanto, eu faria uma distinção entre aproveitar ferramentas acadêmicas e aceitar o sistema de formação ministerial do seminário como se fosse o modelo bíblico para preparar servos de Deus.

Esse modelo não encontro no Novo Testamento.

O padrão bíblico que vejo é a igreja local ensinando os santos, homens espiritualmente capacitados ensinando a Palavra, os mais experientes ajudando os mais novos e cada cristão assumindo pessoalmente a responsabilidade de estudar as Escrituras.

Paulo disse a Timóteo:

“E o que de mim, entre muitas testemunhas, ouviste, confia-o a homens fiéis, que sejam idôneos para também ensinarem os outros” (Segunda Epístola a Timóteo 2:2).

Observe a sequência: Paulo → Timóteo → homens fiéis → outros.

Não aparece uma instituição produzindo uma categoria profissional de ministros. Vemos verdade espiritual sendo transmitida a homens fiéis que, por sua vez, seriam capazes de ensinar outros.

Também devemos ter cuidado com a ideia de que um diploma teológico qualifica alguém automaticamente para ser pastor, ancião, mestre ou pregador. No Novo Testamento, as qualificações espirituais não são acadêmicas.

Quando lemos Primeira Epístola a Timóteo 3 e Tito 1, encontramos caráter, maturidade, vida familiar, domínio próprio, hospitalidade, fidelidade à Palavra e capacidade para ensinar. Não encontramos qualquer requisito acadêmico.

Por isso, se um irmão me perguntasse: “Preciso fazer seminário para conhecer profundamente a Bíblia?”, minha resposta seria: não.

Se perguntasse: “Preciso fazer seminário para que Deus possa me usar?”, também responderia: não.

E se perguntasse: “Então não preciso estudar?”, responderia exatamente o contrário: precisa estudar muito.

Talvez mais do que imagina.

Leia a Bíblia inteira repetidamente. Depois estude livros individualmente. Estude capítulos. Estude doutrinas. Compare passagens. Faça anotações. Utilize uma boa concordância. Consulte o significado de palavras. Quando for possível, examine termos gregos e hebraicos com ferramentas responsáveis. Leia bons comentários, mas confira tudo nas Escrituras. Ouça, irmãos, que conhecem a Palavra. Faça perguntas. Aprenda com aqueles que Deus colocou na igreja. E, acima de tudo, faça tudo isso em oração e dependência do Espírito Santo.

O grande perigo é trocar a formação espiritual pela formação meramente intelectual.

A Bíblia não foi dada apenas para informar nossa mente, mas para formar nossa vida.

Esdras apresenta um princípio muito bonito:

“Porque Esdras tinha preparado o seu coração para buscar a lei do Senhor, e para a cumprir, e para ensinar em Israel os seus estatutos e os seus juízos” (Esdras 7:10).

Observe a ordem:

buscar;

cumprir;

ensinar.

Primeiro ele procurou conhecer. Depois procurou viver. Finalmente estava em condições de ensinar.

Esse continua sendo um excelente padrão para qualquer pessoa que deseja conhecer profundamente a Palavra de Deus.

Portanto, não sou contrário ao estudo; sou inteiramente favorável ao estudo bíblico sério e profundo. Minha reserva é quanto a transformar o seminário teológico no método bíblico de formação de servos de Deus ou imaginar que um diploma confere autoridade espiritual.

A melhor “escola” do cristão continua sendo a Palavra de Deus, estudada diligentemente, no contexto da comunhão e ensino da igreja local, com auxílio de irmãos espirituais, utilizando bons recursos quando necessários e, acima de tudo, na dependência do Espírito Santo.

Josué Matos
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