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Em relação à reunião da palavra aberta, como funciona na prática, em que falam 2 ou 3 e os outros julgam (1 Coríntios 14:29)?

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Oi, irmão. Em relação à reunião da palavra aberta, como funciona na prática, em que falam 2 ou 3 e os outros julgam (1 Coríntios 14:29)?

Minha Resposta:

Essa expressão de 1 Coríntios 14:29 precisa ser entendida primeiro no seu contexto original:

“E falem dois ou três profetas, e os outros julguem.”

Naquele tempo ainda existia o dom de profecia no sentido de receber revelação direta de Deus. Portanto, Paulo está falando especificamente dos profetas. Dois ou três poderiam falar, um depois do outro, e os outros profetas deveriam julgar, isto é, discernir se aquilo que estava sendo apresentado realmente procedia de Deus. Não era uma reunião de debates, em que alguém pregava e depois os demais davam opiniões sobre se gostaram ou não da mensagem.

Hoje, entendendo que esse dom de revelação direta cessou, não temos profetas nesse mesmo sentido. Temos a Palavra de Deus completa e irmãos capacitados pelo Senhor para ensinar as Escrituras. Entretanto, os princípios de 1 Coríntios 14 continuam muito importantes para uma reunião aberta de ministério.

Na prática, eu entenderia assim:

  1. A reunião não fica necessariamente entregue a um único pregador previamente escolhido. Há liberdade para irmãos reconhecidos como capazes de ministrar a Palavra participarem, sujeitos à direção do Espírito Santo. Isso não significa que qualquer irmão obrigatoriamente deva falar.

  2. Dois ou três é um excelente princípio para limitar as participações. Não é necessário que todos falem. Aliás, o objetivo não é preencher o tempo, mas edificar a igreja: “Faça-se tudo para edificação” (1 Coríntios 14:26).

  3. Cada irmão fala por sua vez. Não deve haver interrupções, disputas ou dois irmãos falando simultaneamente. “Porque Deus não é Deus de confusão, senão de paz” (1 Coríntios 14:33).

  4. O irmão que participa não precisa fazer uma pregação longa. Pode expor uma passagem durante 10, 15 ou 20 minutos, por exemplo, e deixar espaço para outro irmão. O princípio é que ninguém monopolize a reunião desnecessariamente.

  5. “Os outros julguem” não significa que, depois da mensagem, alguém tenha de dizer publicamente: “Eu concordo” ou “Eu discordo”. Hoje todo ministério deve ser examinado à luz das Escrituras. Isso está de acordo com 1 Tessalonicenses 5:21: “Examinai tudo. Retende o bem”. Também encontramos o belo exemplo dos bereanos, que examinavam diariamente nas Escrituras se aquilo que Paulo ensinava era assim (Atos 17:11).

  6. Os anciãos têm uma responsabilidade especial nesse discernimento. Se um irmão começar a ensinar algo contrário às Escrituras, eles não devem simplesmente permitir que o erro continue sendo difundido. A reunião é aberta à direção do Espírito Santo, mas não aberta a qualquer doutrina.

Há ainda uma distinção importante: reunião aberta não significa “microfone aberto”. Paulo não ensina que qualquer pessoa presente pode levantar-se e ensinar aquilo que desejar. O próprio texto fala de pessoas que possuíam dons reconhecidos. Hoje, igualmente, a igreja deve reconhecer aqueles que receberam capacidade do Senhor para ensinar.

Imagine, por exemplo, uma reunião de uma hora.

Depois de um cântico e oração, um irmão sente-se exercitado a ministrar sobre João 15 e fala durante cerca de 15 minutos. Ele termina e senta-se. Há alguns minutos de silêncio. Outro irmão percebe que pode contribuir com uma passagem de Filipenses 2, complementando o assunto, e ministra durante 10 ou 15 minutos. Talvez um terceiro irmão apresente uma aplicação final durante alguns minutos.

Não é necessário que os três falem sobre exatamente o mesmo assunto. Entretanto, quando existe verdadeira direção espiritual, frequentemente percebemos uma harmonia muito bonita entre as participações.

E também pode acontecer de somente dois irmãos ministrarem. Não precisamos fabricar uma terceira mensagem apenas porque Paulo disse “dois ou três”.

O ponto central é este: não é um homem dirigindo antecipadamente quem falará, nem vários homens falando simplesmente porque desejam falar. Os irmãos devem chegar em comunhão com Deus, preparados espiritualmente e sensíveis à direção do Espírito, lembrando sempre dos dois grandes limites colocados por Paulo:

“Faça-se tudo para edificação” (1 Coríntios 14:26).

“Faça-se tudo decentemente e com ordem” (1 Coríntios 14:40).

Portanto, o “julgar” não transforma a reunião numa discussão após cada mensagem. É discernimento espiritual. A igreja ouve, examina pela Palavra e recebe aquilo que está de acordo com as Escrituras. E os irmãos responsáveis pela igreja devem estar atentos para que aquilo que é ensinado seja a sã doutrina.

Josué Matos

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É possível outro entendimento ou estarmos equivocados, irmão?

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Resumindo, irmão, eu entendi que a Lei Mosaica foi para conduzir o povo no dízimo e no casamento, em comunhão e santidade, no desposório até a consumação do casamento. É verdade que Jesus deu uma exceção entre os judeus, mas até o fim da Lei. Na Nova Aliança, o plano original permanece até a consumação de tudo...

É possível outro entendimento ou estarmos equivocados, irmão?

Eu não acredito, irmão, em outro contexto. Não dá para refutar. Quando lemos a Bíblia e, ao mesmo tempo, lembramos que a Lei Mosaica ainda estava em vigor, fica claro o contexto que as denominações ignoram...

Uma coisa, irmão: a Bíblia diz que só haverá misericórdia se confessar e abandonar o pecado, mas isso no Antigo Testamento. Na Nova Aliança já é diferente: diz que ninguém será justificado por obras da Lei, mas mediante a fé em Cristo. Só que há advertências no Novo Testamento sobre aqueles que não herdarão o Reino de Deus. Essas advertências são para quem não crê no sacrifício de Jesus ou, mesmo crendo, se estiver em algum pecado, anula o sacrifício de Cristo?

Minha Resposta:

Bem, há duas questões importantes aqui, e é bom separá-las: primeiro, o ensino do Senhor Jesus acerca do casamento, divórcio e da chamada “cláusula de exceção”; segundo, a relação entre justificação pela fé, pecado na vida do crente e as advertências sobre não herdar o Reino de Deus.

Quanto à primeira questão, o seu entendimento está, em linhas gerais, no caminho que considero mais coerente com o conjunto das Escrituras. Entretanto, faria alguns ajustes na maneira de expressá-lo.

  1. O casamento é anterior à Lei de Moisés

O princípio fundamental do casamento não começou com Moisés nem pertence exclusivamente a Israel. Ele foi estabelecido por Deus na criação:

“Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne” (Gênesis 2:24).

Quando os fariseus perguntaram ao Senhor Jesus sobre o divórcio, Ele não começou por Deuteronômio 24. Ele voltou a Gênesis:

“Não tendes lido que aquele que os fez no princípio macho e fêmea os fez, e disse: Portanto, deixará o homem pai e mãe, e se unirá a sua mulher, e serão dois numa só carne? Assim não são mais dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem” (Mateus 19:4-6).

Este é um ponto fundamental. O padrão de Deus não é determinado pela concessão mosaica do divórcio, mas pelo princípio estabelecido na criação.

Quando os fariseus perguntaram: “Então, por que mandou Moisés dar-lhe carta de divórcio, e repudiá-la?”, o Senhor respondeu:

“Moisés, por causa da dureza dos vossos corações, vos permitiu repudiar vossas mulheres; mas ao princípio não foi assim” (Mateus 19:7-8).

Portanto, a Lei não criou o casamento nem estabeleceu o divórcio como ideal. Ela regulamentou uma situação que existia por causa da dureza do coração humano.

  1. A cláusula de exceção deve ser entendida dentro do contexto judaico de Mateus

Aqui está um detalhe muito importante.

A chamada cláusula de exceção aparece em Mateus 5:32 e Mateus 19:9, mas não aparece nas declarações paralelas de Marcos e Lucas.

Marcos registra:

“Qualquer que deixar a sua mulher e casar com outra adultera contra ela. E, se a mulher deixar a seu marido e casar com outro, adultera” (Marcos 10:11-12).

Lucas é igualmente direto:

“Qualquer que deixa sua mulher e casa com outra adultera; e aquele que casa com a repudiada pelo marido adultera também” (Lucas 16:18).

Por que, então, Mateus apresenta uma particularidade?

Porque Mateus apresenta fortemente o contexto judaico, e o próprio Evangelho começa dando-nos uma ilustração extremamente importante do desposório judaico.

Maria estava desposada com José, mas ainda não haviam consumado o casamento:

“Estando Maria, sua mãe, desposada com José, antes de se ajuntarem...” (Mateus 1:18).

Apesar disso, José já é chamado de “seu marido”:

“Então José, seu marido, como era justo, e a não queria infamar, intentou deixá-la secretamente” (Mateus 1:19).

E o anjo lhe diz:

“José, filho de Davi, não temas receber a Maria, tua mulher” (Mateus 1:20).

Veja a situação: eles ainda não haviam se ajuntado, mas José é chamado marido e Maria é chamada sua mulher.

Isso é essencial para compreender a questão.

No desposório judaico havia um compromisso muito mais forte que o nosso conceito moderno de noivado. Uma infidelidade durante aquele período era gravíssima e podia exigir um repúdio formal.

É nesse contexto que se torna significativa a diferença entre “porneía”, geralmente traduzida por fornicação, prostituição ou imoralidade sexual, e “moicheía”, adultério.

Em Mateus 19:9 aparecem conceitos distintos:

“Qualquer que repudiar sua mulher, não sendo por causa de fornicação, e casar com outra, comete adultério.”

Assim, entendo que a exceção se refere à infidelidade descoberta no contexto do desposório, antes da consumação matrimonial. O exemplo de José e Maria, logo no primeiro capítulo de Mateus, fornece a chave judaica necessária para compreender essa particularidade.

Isso também explica por que Marcos e Lucas, escrevendo sem essa mesma necessidade de explicar a situação especificamente judaica, apresentam a regra sem cláusula de exceção.

  1. Depois de consumado o casamento, permanece o princípio: “uma só carne”

Quando chegamos às epístolas, encontramos o mesmo princípio.

Paulo escreve:

“Porque a mulher que está sujeita ao marido, enquanto ele viver, está-lhe ligada pela lei; mas, morto o marido, está livre da lei do marido. De sorte que, vivendo o marido, será chamada adúltera se for de outro marido; mas, morto o marido, livre está da lei, e assim não será adúltera se for de outro marido” (Romanos 7:2-3).

E novamente:

“A mulher casada está ligada pela lei todo o tempo que o seu marido vive; mas, se falecer o seu marido, fica livre para casar com quem quiser, contanto que seja no Senhor” (1 Coríntios 7:39).

Portanto, a morte é apresentada claramente como aquilo que encerra o vínculo matrimonial e deixa o sobrevivente livre para outro casamento.

É importante observar também 1 Coríntios 7:10-11:

“Todavia, aos casados mando, não eu mas o Senhor, que a mulher se não aparte do marido. Se, porém, se apartar, que fique sem casar, ou que se reconcilie com o marido; e que o marido não deixe a mulher.”

Paulo admite que uma separação possa acontecer. Contudo, não apresenta um novo casamento como solução. As alternativas dadas são permanecer sem casar ou reconciliar-se.

Portanto, não diria simplesmente que “a exceção terminou porque terminou a Lei”. Eu diria de maneira mais precisa: a exceção de Mateus deve ser compreendida no contexto judaico do desposório, enquanto o princípio permanente do casamento vem da criação e continua confirmado no Novo Testamento.

  1. Agora chegamos à segunda pergunta: somos justificados pela fé ou precisamos abandonar o pecado?

As duas coisas não se contradizem.

A Bíblia ensina claramente que ninguém é justificado diante de Deus pelas obras da Lei:

“Por isso nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da lei” (Romanos 3:20).

E:

“Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé sem as obras da lei” (Romanos 3:28).

Também lemos:

“Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie” (Efésios 2:8-9).

Portanto, abandonar pecados não é o preço que pagamos pela salvação. Cristo pagou o preço. A justificação não é uma recompensa que Deus concede ao homem que conseguiu melhorar suficientemente sua vida.

Somos justificados pela graça de Deus mediante a fé no Senhor Jesus Cristo.

Mas isso não significa que a graça permita ao salvo permanecer deliberadamente no pecado.

Paulo antecipou exatamente essa conclusão errada:

“Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado, para que a graça abunde?”

A resposta é imediata:

“De modo nenhum. Nós, que estamos mortos para o pecado, como viveremos ainda nele?” (Romanos 6:1-2).

Portanto, a mesma graça que salva o pecador não lhe dá autorização para continuar vivendo como antes.

  1. As obras não são a causa da salvação, mas uma vida transformada é consequência dela

Efésios 2 esclarece maravilhosamente essa questão.

Depois de dizer que somos salvos “pela graça... mediante a fé” e “não pelas obras”, Paulo acrescenta imediatamente:

“Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas” (Efésios 2:10).

Observe a ordem.

Não praticamos boas obras para sermos salvos.

Somos salvos pela graça mediante a fé e, como consequência dessa nova vida, fomos criados em Cristo Jesus “para as boas obras”.

A obra não é a raiz da salvação; é fruto dela.

  1. Então, o que significa “não herdarão o Reino de Deus”?

Esta é a parte que precisa ser tratada com muito cuidado.

Paulo escreve:

“Não sabeis que os injustos não hão de herdar o reino de Deus? Não erreis: nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o reino de Deus” (1 Coríntios 6:9-10).

Mas o versículo seguinte é indispensável:

“E é o que alguns têm sido; mas haveis sido lavados, mas haveis sido santificados, mas haveis sido justificados em nome do Senhor Jesus e pelo Espírito do nosso Deus” (1 Coríntios 6:11).

Paulo não diz: “É o que alguns de vocês são”.

Ele diz: “É o que alguns têm sido”.

Houve mudança.

Isso não significa que um cristão verdadeiro nunca mais poderá cair em pecado. Infelizmente poderá. Pedro caiu gravemente. Os próprios coríntios cometeram pecados sérios. Mas existe uma enorme diferença entre cair em pecado e estabelecer-se no pecado como modo de vida, justificando-o e recusando-se a abandoná-lo.

João deixa essa distinção muito clara.

Por um lado:

“Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e não há verdade em nós” (1 João 1:8).

E:

“Meus filhinhos, estas coisas vos escrevo para que não pequeis; e, se alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o justo” (1 João 2:1).

Portanto, João reconhece a possibilidade de o crente pecar.

Mas, por outro lado, ele não aceita que a vida cristã seja caracterizada pela prática habitual e tranquila do pecado:

“Qualquer que permanece nele não vive pecando” (1 João 3:6).

E ainda:

“Quem comete o pecado é do diabo” (1 João 3:8).

O contraste está entre cair em pecado e viver sob o domínio e a prática do pecado.

  1. Então, se um crente pecar, ele “anula o sacrifício de Cristo”?

Não devemos colocar dessa maneira.

Nenhum pecado torna o sacrifício de Cristo imperfeito. A obra realizada no Calvário permanece perfeita, completa e suficiente.

Hebreus diz:

“Porque com uma só oblação aperfeiçoou para sempre os que são santificados” (Hebreus 10:14).

Não existe necessidade de Cristo morrer novamente cada vez que um crente peca.

O problema não é uma deficiência no sacrifício de Cristo. O problema é a condição espiritual daquele que afirma crer em Cristo enquanto deliberadamente escolhe permanecer no pecado.

Hebreus apresenta uma advertência muito solene:

“Porque, se pecarmos voluntariamente, depois de termos recebido o conhecimento da verdade, já não resta mais sacrifício pelos pecados” (Hebreus 10:26).

Isso não significa que cada pecado cometido conscientemente por um cristão torna impossível o perdão. Se fosse assim, praticamente ninguém poderia ser salvo, pois nem todos os nossos pecados são cometidos por ignorância.

O contexto de Hebreus é muito mais grave: trata-se de abandonar deliberadamente o único sacrifício eficaz, desprezando o Filho de Deus e voltando as costas para Cristo. Não existe “outro sacrifício” para substituir o de Cristo.

Se alguém rejeita o único Salvador, não existe um segundo Salvador.

  1. O verdadeiro crente que cai deve confessar o pecado

A confissão não desapareceu com o Antigo Testamento.

Pelo contrário, João escreve diretamente aos crentes:

“Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda a injustiça” (1 João 1:9).

Portanto, a graça não elimina a confissão.

O que mudou é o fundamento sobre o qual recebemos o perdão. Não estamos oferecendo sacrifícios de animais nem tentando alcançar justificação mediante as obras da Lei. O fundamento é a obra consumada de Cristo.

É justamente por causa dessa obra que Deus é “fiel e justo” para perdoar.

  1. A graça nunca deve ser usada para justificar a permanência consciente no pecado

Aqui está, talvez, o ponto central da sua pergunta.

Imagine alguém dizendo:

“Eu sei que aquilo que estou fazendo é pecado. Sei o que a Palavra de Deus diz. Não pretendo abandonar isso. Continuarei assim até morrer. Mas creio que Jesus morreu por mim, portanto está tudo resolvido.”

Essa atitude não corresponde ao ensino do Novo Testamento.

Paulo diz:

“Não erreis.”

E depois apresenta aqueles que vivem caracterizados por determinadas práticas como pessoas que “não herdarão o reino de Deus” (1 Coríntios 6:9-10).

Em Gálatas ele repete:

“Os que cometem tais coisas não herdarão o reino de Deus” (Gálatas 5:21).

A expressão aponta para uma prática que caracteriza a vida.

Não devemos transformar essas advertências em salvação pelas obras. Mas também não podemos esvaziá-las dizendo que não têm relação com pessoas que professam ser cristãs. Paulo escreveu essas advertências dentro de cartas dirigidas a igrejas.

Elas nos ensinam que uma profissão de fé que convive tranquilamente com uma vida dominada pelo pecado deve ser seriamente examinada.

  1. Há uma diferença entre luta contra o pecado e acomodação ao pecado

Um cristão pode dizer:

“Eu pequei, estou envergonhado, confessei ao Senhor, quero abandonar isso e preciso da graça de Deus para vencer.”

Isso é muito diferente de alguém dizer:

“Sei que é pecado, mas não vou abandonar. Deus terá de aceitar porque sou salvo pela graça.”

O primeiro está lutando contra o pecado.

O segundo está tentando transformar a graça em autorização para pecar.

O primeiro encontra a maravilhosa provisão de 1 João 2:1:

“Se alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o justo.”

O segundo precisa ouvir Romanos 6:1-2:

“Permaneceremos no pecado, para que a graça abunde? De modo nenhum.”

  1. Aplicando isso à questão do casamento

Aqui precisamos ser igualmente coerentes.

Se concluímos pelas Escrituras que determinada relação constitui adultério enquanto o primeiro cônjuge vive, não podemos dizer que o simples fato de alguém professar fé em Cristo transforma aquela relação em algo que deixou de ser pecado.

A graça perdoa o pecador, mas nunca redefine o pecado como santidade.

Quando o Senhor encontrou a mulher apanhada em adultério, manifestou maravilhosa graça. Contudo, Suas palavras finais foram:

“Vai-te e não peques mais” (João 8:11).

Graça e santidade aparecem juntas.

Da mesma forma, em 1 Coríntios 6, depois de mencionar fornicários, idólatras, adúlteros e outros pecadores, Paulo diz:

“E é o que alguns têm sido.”

A graça de Deus alcança qualquer pecador. Não existe adultério, fornicação, idolatria, embriaguez ou qualquer outro pecado que seja grande demais para o sangue de Cristo.

Mas a salvação não consiste em Cristo deixar o homem exatamente como estava.

“Haveis sido lavados... santificados... justificados” (1 Coríntios 6:11).

  1. Portanto, a resposta à sua pergunta é esta

Não, a pessoa não “anula” ou torna insuficiente o sacrifício de Cristo simplesmente porque caiu em pecado. O sacrifício de Cristo é perfeito e suficiente.

Mas também não é bíblico afirmar que uma pessoa pode deliberadamente escolher permanecer numa prática que Deus chama de pecado, recusar-se a abandoná-la e usar a justificação pela fé como garantia de que sua condição espiritual não precisa ser examinada.

A salvação é inteiramente pela graça, mediante a fé, e não pelas obras da Lei. Entretanto, a fé salvadora une o pecador a Cristo, e essa união necessariamente produz uma nova direção de vida.

Não significa perfeição sem pecado.

Significa que o pecado deixou de ser senhor.

Romanos 6:14 diz:

“Porque o pecado não terá domínio sobre vós, pois não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça.”

Veja como isso é importante: Paulo não diz que, porque estamos debaixo da graça, o pecado pode dominar-nos. Ele ensina exatamente o contrário. O pecado não deve dominar-nos justamente porque estamos debaixo da graça.

Por isso, não devemos cair em nenhum dos dois extremos.

De um lado, o legalismo diz: “Preciso abandonar pecados e fazer boas obras para merecer a salvação.”

Isso está errado.

Do outro lado, uma falsa compreensão da graça diz: “Já que sou salvo pela fé, posso permanecer conscientemente no pecado.”

Isso também está errado.

A verdade bíblica é:

Somos salvos somente pela graça de Deus, mediante a fé em Cristo, fundamentados exclusivamente em Sua obra consumada; porém, aquele que foi alcançado por essa graça recebe uma nova vida e não pode considerar normal permanecer voluntariamente debaixo do domínio do pecado.

Por isso, as advertências de 1 Coríntios 6:9-11 e Gálatas 5:19-21 devem ser levadas muito a sério. Elas não ensinam salvação pelas obras, mas mostram que existe uma incompatibilidade fundamental entre uma vida permanentemente caracterizada pelas obras da carne e a profissão de pertencer ao Reino de Deus.

A segurança do cristão não está em dizer: “Posso continuar pecando porque Cristo morreu por mim.”

Sua segurança está em Cristo e em Sua obra perfeita. E exatamente porque pertence a Cristo, quando peca, ele não deseja permanecer caído: reconhece o pecado, confessa-o, busca restauração e deseja andar novamente em comunhão com o Senhor.

“Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda a injustiça” (1 João 1:9).

E assim vemos a maravilhosa harmonia da verdade: somos justificados pela fé sem as obras da Lei, mas a mesma graça que nos justifica nunca nos ensina a fazer paz com o pecado.

“Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens, ensinando-nos que, renunciando à impiedade e às concupiscências mundanas, vivamos neste presente século sóbria, justa e piamente” (Tito 2:11-12).

Josué Matos

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Mateus 11:12 diz que a salvação é pelas obras, e qual relação tem com Mateus 7:13?

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Mateus 11:12 diz que a salvação é pelas obras, e qual relação tem com Mateus 7:13?

Minha resposta:

Bem, vamos começar com Mateus 11:12, quando o Senhor Jesus diz:

“E, desde os dias de João Batista até agora, se faz violência ao reino dos céus, e pela força se apoderam dele.”

É realmente um texto que pode causar alguma dificuldade, principalmente porque às vezes ele é usado para ensinar que o crente precisa fazer uma espécie de “violência espiritual”, um esforço extraordinário, para conquistar as coisas de Deus ou “tomar o céu à força”. Mas não creio que esse seja o pensamento da passagem.

Para entendermos o versículo, precisamos olhar para João Batista, o reino e a rejeição do Rei.

João Batista apareceu anunciando: “Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus” (Mateus 3:2). Depois, o próprio Senhor Jesus começou Seu ministério proclamando a mesma coisa: “Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus” (Mateus 4:17). Ou seja, o reino havia se aproximado porque o Rei estava presente. O Messias prometido a Israel estava no meio deles.

Entretanto, em vez de Israel, especialmente seus líderes, receber o Rei e se submeter à Sua autoridade, começou a surgir uma oposição cada vez maior. É dentro desse desenvolvimento que devemos entender Mateus 11:12. O reino estava sendo anunciado, mas estava encontrando violência e oposição. Os homens não estavam simplesmente se submetendo à autoridade de Deus; havia aqueles que queriam controlar, resistir e agir segundo os seus próprios interesses.

E veja como o próprio contexto confirma isso. João Batista estava preso quando chegamos a Mateus 11. Por quê? Porque havia sido fiel à Palavra de Deus. Mais tarde, em Mateus 14:3-12, vemos que Herodes chegaria ao ponto de mandar decapitá-lo. Portanto, aquele que anunciou a chegada do reino estava sofrendo literalmente a violência dos homens.

Ao mesmo tempo, a oposição ao próprio Senhor Jesus estava aumentando. Ela vai crescendo até chegarmos a Mateus 12:24, quando os fariseus atribuem a Satanás aquilo que o Senhor realizava pelo poder do Espírito de Deus. A rejeição se torna tão grave que, a partir de Mateus 13, o Senhor começa a apresentar os mistérios do reino dos céus.

Por isso, eu teria bastante cuidado com a interpretação de que Mateus 11:12 está ensinando que precisamos ser “violentos espiritualmente” para conquistar o céu, receber bênçãos ou alcançar um nível espiritual superior. Esse não parece ser o assunto principal do texto.

Existe uma passagem semelhante em Lucas 16:16: “A lei e os profetas duraram até João; desde então é anunciado o reino de Deus, e todo homem emprega força para entrar nele”. Ali existe, sim, a ideia de pessoas que, diante da mensagem do reino, procuram entrar apesar da oposição. Portanto, há um aspecto de seriedade e decisão diante da mensagem de Deus. Mas isso não significa conquistar a salvação por força humana. A entrada no reino está ligada ao arrependimento, à fé e à obra de Deus, não ao mérito ou à energia da carne.

Há ainda algo muito bonito no contexto. O Senhor acabara de falar da grandeza de João Batista:

“Entre os que de mulher têm nascido, não apareceu alguém maior do que João Batista; mas aquele que é o menor no reino dos céus é maior do que ele” (Mateus 11:11).

João estava no encerramento de uma dispensação. Ele era o precursor do Messias, aquele que apontava para Cristo e dizia: “Eis o Cordeiro de Deus” (João 1:29). Contudo, ele próprio disse: “É necessário que ele cresça e que eu diminua” (João 3:30). O Senhor estava mostrando que uma grande mudança estava acontecendo nos caminhos de Deus.

Então eu entenderia Mateus 11:12 dentro desse cenário: o Rei chegou, o reino foi anunciado, mas encontrou resistência e violência por parte dos homens. João já estava sofrendo essa violência; o próprio Cristo sofreria uma rejeição ainda maior, culminando na cruz.

Portanto, não usaria esse versículo para ensinar: “Temos que tomar o céu à força”, como se bênçãos espirituais fossem conquistadas pela intensidade do nosso esforço. A vida cristã certamente exige diligência, renúncia, perseverança e combate espiritual — Primeira Epístola aos Coríntios 9:24-27; Epístola aos Efésios 6:10-18; Segunda Epístola a Timóteo 2:3-5 —, mas isso é outro assunto. Mateus 11:12 precisa permanecer dentro do contexto do reino dos céus, de João Batista, da apresentação do Rei a Israel e da oposição que essa apresentação encontrou.

Sobre Mateus 7 e Mateus 11, sim, existe uma relação, mas é importante não misturar os dois textos.

Quando o Senhor Jesus diz em Mateus 7:13: “Entrai pela porta estreita”, Ele está falando da necessidade de entrar pelo caminho que conduz à vida. Há duas portas, dois caminhos e dois destinos. A maioria segue pelo caminho largo, mas o verdadeiro discípulo entra pela porta estreita.

Isso exige uma decisão pessoal diante de Cristo, mas não significa conquistar a salvação pela força ou pelo esforço humano. A porta é estreita porque não há vários caminhos para Deus, nem podemos entrar levando conosco a nossa justiça própria, a religião ou as condições que desejamos impor. É preciso receber aquilo que Deus estabelece.

Mateus 11:12 tem outro enfoque. Ali o Senhor está falando do reino dos céus num período em que o Rei já estava presente, mas encontrava forte oposição. João Batista anunciou: “Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus”; depois o próprio Senhor Jesus anunciou a mesma coisa. Contudo, em vez de se submeterem ao Rei, especialmente os líderes religiosos começaram a resistir à sua autoridade.

Portanto, eu não entenderia “os violentos o tomam à força” como uma ordem para que nós usemos uma espécie de violência espiritual para conquistar o céu. O contexto de Mateus mostra justamente a crescente oposição ao Rei e ao seu reino.

Mateus 7 ajuda-nos a compreender outro aspecto: não basta dizer que pertencemos ao reino. Logo depois, em Mateus 7:21, Jesus diz: “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus”. Havia pessoas que professavam conhecer o Senhor e até apresentavam grandes obras religiosas, mas não eram realmente conhecidas por Ele.

Então podemos colocar assim: Mateus 7 apresenta a necessidade de entrar verdadeiramente pela porta estreita; Mateus 11 mostra a oposição que o reino e o Rei estavam encontrando. Em nenhum dos dois casos a ideia é de que o homem conquista a salvação ou o céu pela força.

Há, sim, seriedade, decisão, renúncia e perseverança no caminho cristão. Mas isso é diferente de dizer que precisamos “tomar o céu à força”. A salvação é recebida pela graça de Deus, enquanto o discípulo verdadeiro demonstra, depois, pela sua vida, que realmente entrou pela porta estreita.

Mateus 7:21-23 provavelmente estabelece uma ligação ainda mais direta com o assunto do reino do que apenas a expressão “porta estreita”: alguém pode tentar associar-se exteriormente ao reino, fazer obras impressionantes e até chamar Jesus de “Senhor”, sem ter entrado verdadeiramente. Isso ajuda bastante a entender por que “tomar o reino à força” não pode significar simplesmente manifestar grande esforço ou intensidade religiosa.

Josué Matos

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Como funciona, na prática, esse reconhecimento dos presbíteros?

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Irmão, sabemos que a igreja local é governada pelo Espírito Santo, que constitui presbíteros para o cuidado do rebanho da igreja de Deus. Logo, esse cuidado é coletivo, e não individual, exercido por um só presbítero.

A minha pergunta é: como são constituídos esses presbíteros? Refiro-me à prática. Eles são apresentados diante de toda a igreja para que fique claro que estes são os presbíteros da igreja local que cuidam do rebanho? Como funciona, na prática, esse reconhecimento dos presbíteros?

Paz seja contigo.

Minha Resposta:

Sua pergunta é muito importante, porque precisamos fazer uma distinção entre duas coisas que, embora estejam relacionadas, não são exatamente a mesma coisa: a constituição dos presbíteros e o reconhecimento dos presbíteros.

A resposta mais simples seria esta: quem constitui os presbíteros é o Espírito Santo; a igreja local não os elege, mas deve reconhecê-los. E esse reconhecimento deve ocorrer depois que esses homens já demonstraram, por sua vida, caráter, doutrina e trabalho, que o Espírito Santo os levantou para cuidar do rebanho.

  1. QUEM CONSTITUI OS PRESBÍTEROS?

O texto fundamental é Atos dos Apóstolos 20:28. Paulo chamou os presbíteros da igreja em Éfeso e lhes disse:

“Olhai, pois, por vós e por todo o rebanho sobre que o Espírito Santo vos constituiu bispos, para apascentardes a igreja de Deus.”

Observe cuidadosamente: Paulo não disse que a igreja os havia constituído. Também não disse que eles haviam se constituído a si mesmos. Ele declarou expressamente: “o Espírito Santo vos constituiu bispos”.

Isso é muito importante.

Em Atos dos Apóstolos 20:17, esses homens são chamados “anciãos” ou “presbíteros”. No versículo 28, os mesmos homens são chamados “bispos”, isto é, superintendentes, e recebem a responsabilidade de “apascentar” o rebanho. Portanto, presbítero, ancião e bispo não são três níveis diferentes de uma hierarquia eclesiástica. São diferentes designações relacionadas aos mesmos homens e ao seu trabalho.

“Presbítero” ou “ancião” destaca principalmente a maturidade do homem; “bispo” ou “superintendente” destaca sua responsabilidade de supervisionar; e “apascentar” descreve seu trabalho pastoral.

Também devemos observar que o padrão apresentado no Novo Testamento é de pluralidade. Paulo chamou “os presbíteros da igreja” em Éfeso (Atos dos Apóstolos 20:17). Paulo e Barnabé estabeleceram “anciãos em cada igreja” (Atos dos Apóstolos 14:23). Paulo escreveu aos santos em Filipos “com os bispos e diáconos” (Filipenses 1:1). Pedro escreveu: “Aos presbíteros que estão entre vós” (1 Pedro 5:1).

Portanto, concordo com a observação feita na pergunta: biblicamente, o cuidado da igreja local não está concentrado normalmente nas mãos de um único homem. Há uma pluralidade de presbíteros cuidando coletivamente do mesmo rebanho.

  1. A IGREJA ESCOLHE OS PRESBÍTEROS?

Aqui precisamos ter bastante cuidado.

Não encontramos no Novo Testamento uma igreja reunindo-se para realizar uma eleição e, por maioria de votos, decidir quem será presbítero.

Atos dos Apóstolos 20:28 coloca a iniciativa no Espírito Santo.

Isso significa que o presbiterato não começa com uma eleição, mas com uma obra espiritual realizada por Deus naquele homem.

Primeira Epístola a Timóteo 3:1 diz:

“Se alguém deseja o episcopado, excelente obra deseja.”

Observe que ele deseja uma “obra”. O texto não apresenta primeiramente uma posição de honra, mas um trabalho.

Depois, Paulo apresenta as qualificações:

“Convém, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma mulher, vigilante, sóbrio, honesto, hospitaleiro, apto para ensinar...” (1 Timóteo 3:2).

E a lista continua até o versículo 7.

Tito 1:5-9 apresenta qualificações semelhantes.

Portanto, não é uma votação que torna alguém presbítero. O homem precisa possuir as qualificações bíblicas e já demonstrar capacidade espiritual para realizar aquele trabalho.

  1. ENTÃO, O QUE A IGREJA FAZ?

A igreja reconhece aquilo que o Espírito Santo já realizou.

Este princípio aparece de maneira muito bonita na Primeira Epístola aos Tessalonicenses 5:12-13:

“E rogamo-vos, irmãos, que reconheçais os que trabalham entre vós, e que presidem sobre vós no Senhor, e vos admoestam; e que os tenhais em grande estima e amor, por causa da sua obra.”

Veja a ordem.

Primeiro: eles “trabalham entre vós”.

Segundo: eles “presidem sobre vós no Senhor”.

Terceiro: eles “vos admoestam”.

Depois vem a responsabilidade dos santos: “reconheçais”.

Portanto, a prática precede o reconhecimento.

Um homem não começa a cuidar do rebanho porque recebeu o título de presbítero. O contrário é que deve acontecer: ele é reconhecido como presbítero porque já está demonstrando, de maneira bíblica e consistente, que o Espírito Santo o capacitou e levantou para aquele trabalho.

Essa diferença é fundamental.

  1. COMO O ESPÍRITO SANTO TORNA ISSO VISÍVEL?

Não devemos imaginar que o Espírito Santo comunica diretamente à igreja, mediante uma revelação extraordinária, dizendo: “Este homem agora é presbítero”.

As Escrituras fornecem critérios objetivos pelos quais a ação do Espírito Santo pode ser reconhecida.

Primeira Epístola a Timóteo 3:1-7 e Tito 1:5-9 apresentam esses critérios.

É necessário observar sua vida pessoal.

É necessário observar seu casamento e sua vida familiar.

É necessário observar sua reputação.

É necessário observar seu domínio próprio.

É necessário observar sua hospitalidade.

É necessário observar seu conhecimento das Escrituras.

É necessário observar sua capacidade de ensinar e exortar.

É necessário observar sua maturidade espiritual.

É necessário observar sua relação com dinheiro.

É necessário observar sua atitude em relação aos irmãos.

É necessário observar se ele realmente cuida das ovelhas.

Por isso Paulo diz:

“Não neófito, para que, ensoberbecendo-se, não caia na condenação do diabo” (1 Timóteo 3:6).

Presbítero não é simplesmente o irmão mais velho em idade, nem necessariamente aquele que está há mais tempo na igreja. Trata-se de maturidade espiritual comprovada.

  1. ELE JÁ ESTARÁ FAZENDO O TRABALHO ANTES DO RECONHECIMENTO

Este talvez seja o ponto mais importante para responder à pergunta prática.

Antes que uma igreja reconheça formalmente determinado irmão como presbítero, já deverá ser possível perceber nele características do trabalho pastoral.

Ele visita os enfermos.

Procura os que estão se afastando.

Ajuda os fracos.

Admoesta os desordenados.

Consola os abatidos.

Protege a igreja contra falsos ensinamentos.

Ensina a Palavra de Deus.

Demonstra interesse genuíno pelo estado espiritual dos irmãos.

Ora pelo rebanho.

Procura resolver problemas espirituais.

Age com equilíbrio diante das dificuldades.

É procurado espontaneamente pelos irmãos quando surgem problemas.

Tudo isso vai tornando evidente que aquele homem está sendo preparado e usado pelo Espírito Santo para o cuidado do rebanho.

Primeira Epístola de Pedro 5:2-3 descreve muito bem essa atividade:

“Apascentai o rebanho de Deus que está entre vós, tendo cuidado dele, não por força, mas voluntariamente; nem por torpe ganância, mas de ânimo pronto; nem como tendo domínio sobre a herança de Deus, mas servindo de exemplo ao rebanho.”

Portanto, um verdadeiro presbítero não surge simplesmente porque alguém anunciou seu nome numa reunião. Ele já vinha sendo um exemplo para o rebanho.

  1. MAS PODE HAVER UM RECONHECIMENTO PÚBLICO DIANTE DA IGREJA?

Aqui precisamos ter cuidado para não estabelecer um procedimento que o Novo Testamento não estabelece.

O princípio fundamental é muito claro: quem constitui os presbíteros é o Espírito Santo.

Paulo disse aos presbíteros de Éfeso:

“Olhai, pois, por vós e por todo o rebanho sobre que o Espírito Santo vos constituiu bispos, para apascentardes a igreja de Deus” (Atos 20:28).

Portanto, a igreja não transforma um homem em presbítero por meio de uma votação, eleição, cerimônia ou decisão administrativa. O Espírito Santo é quem levanta homens para esse trabalho.

Mas isso não significa que o presbítero simplesmente declare a si mesmo como tal.

Existe também o reconhecimento da igreja.

Paulo escreveu aos tessalonicenses:

“E rogamo-vos, irmãos, que reconheçais os que trabalham entre vós, e que presidem sobre vós no Senhor, e vos admoestam; e que os tenhais em grande estima e amor, por causa da sua obra” (1 Tessalonicenses 5:12-13).

Observe cuidadosamente a ordem apresentada.

Esses homens já estavam trabalhando entre os santos.

Já estavam exercendo cuidado.

Já estavam tomando a liderança espiritual.

Já estavam admoestando.

Então os santos deveriam reconhecê-los.

Isso é muito importante, porque mostra que a prática precede o reconhecimento.

O homem não começa a cuidar do rebanho porque recebeu o título de presbítero. Ele é reconhecido como presbítero porque, tendo sido levantado pelo Espírito Santo e possuindo as qualificações bíblicas, já vem realizando essa obra entre os santos.

O reconhecimento, portanto, nasce da observação.

A igreja conhece esses homens pelo seu trabalho, caráter, doutrina, maturidade e cuidado pelo rebanho.

É nesse sentido que podemos falar de um reconhecimento dos presbíteros pela igreja.

O Novo Testamento não nos fornece uma cerimônia obrigatória que deva ser reproduzida hoje, nem estabelece que os presbíteros tenham necessariamente de ser apresentados formalmente diante de toda a igreja em determinado culto.

Lendo 1 Tessalonicenses 5:12-13, Hebreus 13:7, 17 e 24, pressupõe-se que esses homens sejam conhecidos pelos santos pelo trabalho que fazem.

  1. COMO ISSO PODERIA FUNCIONAR NA PRÁTICA?

Suponhamos que numa igreja local já existam alguns presbíteros reconhecidos.

Com o passar do tempo, outro irmão começa a manifestar as características necessárias para o cuidado do rebanho.

Ele demonstra maturidade espiritual.

Sua vida familiar corresponde às qualificações apresentadas em 1 Timóteo 3:1-7 e Tito 1:5-9.

Ele conhece e maneja corretamente a Palavra de Deus.

Sua doutrina é sadia.

Seu caráter é conhecido.

Ele demonstra humildade.

Ele ama os santos.

Ele procura os que estão espiritualmente fracos.

Ele aconselha.

Ele admoesta quando necessário.

Ele ajuda a preservar a igreja de erros doutrinários.

Ele demonstra capacidade para cuidar espiritualmente de outros.

E, sobretudo, ele não está simplesmente procurando uma posição: está fazendo a obra.

Os presbíteros já reconhecidos devem estar atentos a homens assim. Devem observar o que o Espírito Santo está fazendo na vida dos irmãos mais novos e discernir aqueles que estão sendo preparados para assumir responsabilidades no cuidado da igreja.

Isso não deve ser feito apressadamente.

A advertência de 1 Timóteo 5:22 é muito importante:

“A ninguém imponhas precipitadamente as mãos.”

No contexto do capítulo, há uma séria advertência contra o reconhecimento prematuro de homens que ainda não tiveram suficientemente provados seu caráter e sua conduta.

Por isso, não se reconhece um presbítero simplesmente porque ele prega bem.

Também não porque possui muito conhecimento bíblico.

Não porque é um dos irmãos mais antigos da igreja.

Não porque tem boa condição financeira.

Não porque é um excelente administrador.

Não porque possui formação acadêmica.

E muito menos porque deseja uma posição de destaque.

É necessário observar sua vida e seu trabalho.

Primeiro vem aquilo que Deus está realizando no homem.

Depois vêm as evidências desse trabalho espiritual.

Finalmente vem o reconhecimento.

Foi exatamente esse princípio que apareceu nas igrejas do período apostólico. Em Atos 14, as igrejas já existiam antes de terem presbíteros reconhecidos. Foi necessário tempo para que determinados homens demonstrassem maturidade e capacidade espiritual para o cuidado do rebanho.

Da mesma forma, 1 Tessalonicenses 5:12 não manda os santos escolherem homens para começar a trabalhar entre eles. Paulo manda reconhecer aqueles que já “trabalham entre vós”.

Portanto, numa igreja local hoje, os presbíteros existentes devem observar cuidadosamente aqueles irmãos nos quais aparecem as qualificações e o exercício do cuidado espiritual.

Quando ficar evidente que determinado irmão está fazendo a obra de um presbítero e possui as qualificações bíblicas para isso, ele pode ser reconhecido como tal.

A igreja deve saber quem são aqueles que cuidam dela, pois os santos são ensinados a reconhecê-los, estimá-los e sujeitar-se à sua liderança espiritual.

Hebreus 13:17 diz:

“Obedecei a vossos pastores e sujeitai-vos a eles; porque velam por vossas almas, como aqueles que hão de dar conta delas.”

Logo, não há necessidade de criar uma eleição, campanha, votação ou sistema denominacional de ordenação.

Também não devemos transformar o reconhecimento numa cerimônia que supostamente concede ao homem uma posição que ele não possuía antes.

O princípio bíblico pode ser resumido desta maneira:

O Espírito Santo constitui.

O homem manifesta as qualificações.

O trabalho torna-se evidente.

Os irmãos espirituais discernem.

A igreja reconhece.

E os santos passam a considerar aquele irmão como um dos homens que Deus levantou para cuidar do rebanho.

Assim, o reconhecimento não cria o presbítero; confirma aquilo que sua vida, suas qualificações e sua obra já demonstraram.

  1. E SE A IGREJA AINDA NÃO POSSUIR PRESBÍTEROS RECONHECIDOS?

Essa situação exige ainda mais cuidado.

Não devemos criar presbíteros simplesmente porque “uma igreja precisa ter presbíteros”.

Melhor uma igreja esperar até que Deus levante homens qualificados do que colocar precipitadamente homens numa responsabilidade para a qual ainda não estão preparados.

Primeira Epístola a Timóteo 5:22 estabelece um princípio muito importante:

“A ninguém imponhas precipitadamente as mãos.”

A precipitação em reconhecer liderança espiritual pode causar grandes problemas posteriormente.

O tempo revela muita coisa.

Por isso, as qualificações de Primeira Epístola a Timóteo 3 e Tito 1 precisam ser observadas cuidadosamente.

  1. E TITO 1:5? TITO NÃO “ESTABELECEU” PRESBÍTEROS?

Paulo escreveu:

“Por esta causa te deixei em Creta, para que pusesses em boa ordem as coisas que ainda restam, e de cidade em cidade estabelecesses presbíteros, como já te mandei” (Tito 1:5).

Precisamos considerar que Tito estava atuando sob autoridade apostólica. O mesmo aconteceu durante o período apostólico em outros lugares.

Mas isso não significa que Tito pudesse arbitrariamente escolher qualquer homem e transformá-lo em presbítero.

Imediatamente depois, Paulo apresenta as qualificações necessárias:

“aquele que for irrepreensível...” (Tito 1:6).

Ou seja, Tito precisava identificar homens nos quais essas qualificações já fossem evidentes.

A função dele era reconhecer, à luz da orientação apostólica, aquilo que Deus havia produzido naqueles homens.

Hoje não temos apóstolos nem delegados apostólicos com a mesma autoridade de Paulo, Timóteo ou Tito. Temos, porém, as Escrituras inspiradas que eles deixaram.

Portanto, atualmente, a igreja deve aplicar cuidadosamente os critérios que encontramos em Primeira Epístola a Timóteo 3, Tito 1, Primeira Epístola de Pedro 5 e outras passagens relacionadas ao assunto.

  1. O RECONHECIMENTO NÃO DEVE CRIAR UMA CLASSE CLERICAL

Também precisamos evitar outro extremo.

Reconhecer presbíteros não significa criar uma classe clerical acima dos demais irmãos.

Pedro diz aos presbíteros:

“Nem como tendo domínio sobre a herança de Deus, mas servindo de exemplo ao rebanho” (1 Pedro 5:3).

Os presbíteros possuem autoridade espiritual, mas não são donos da igreja.

O rebanho pertence a Deus.

Atos dos Apóstolos 20:28 chama-o de “igreja de Deus”.

Primeira Epístola de Pedro 5:2 chama-o de “rebanho de Deus”.

E no versículo 4, Cristo é chamado de “Sumo Pastor”.

Portanto, todo presbítero é, na realidade, um pastor subordinado ao Sumo Pastor.

Ele não governa segundo sua vontade pessoal. Ele deve cuidar da igreja de acordo com a Palavra de Deus.

  1. O RECONHECIMENTO DEVE SER DA IGREJA, NÃO APENAS DOS OUTROS PRESBÍTEROS

Há também um aspecto importante aqui.

Os presbíteros existentes podem discernir que determinado irmão está sendo levantado por Deus. Entretanto, o reconhecimento precisa tornar-se conhecido entre os santos, porque Primeira Epístola aos Tessalonicenses 5:12 diz:

“Rogamo-vos, irmãos, que reconheçais os que trabalham entre vós.”

O texto dirige a responsabilidade aos irmãos.

Isso não significa votação democrática.

Significa reconhecimento espiritual.

Idealmente, quando um homem realmente possui as qualificações bíblicas e já está realizando o trabalho pastoral, seu reconhecimento não deveria causar surpresa à igreja.

Os santos provavelmente pensarão:

“Sim, já víamos esse irmão dessa maneira.”

Isso é muito saudável.

O anúncio público apenas confirma uma realidade que já vinha sendo percebida.

  1. UMA FRASE RESUME TODO O PROCESSO

Podemos resumir assim:

O Espírito Santo constitui; o homem manifesta as qualificações; os presbíteros discernem; a igreja reconhece; e o presbítero continua fazendo aquilo que já fazia: cuidar do rebanho.

Atos dos Apóstolos 20:28 mostra a constituição:

“O Espírito Santo vos constituiu bispos.”

Primeira Epístola a Timóteo 3 e Tito 1 mostram as qualificações.

Primeira Epístola aos Tessalonicenses 5:12 mostra o reconhecimento:

“Reconheçais os que trabalham entre vós.”

Primeira Epístola de Pedro 5:2 mostra o trabalho:

“Apascentai o rebanho de Deus.”

Hebreus 13:17 mostra a responsabilidade dos santos:

“Obedecei a vossos pastores e sujeitai-vos a eles.”

E Primeira Epístola de Pedro 5:4 mostra a responsabilidade final dos presbíteros perante Cristo:

“E, quando aparecer o Sumo Pastor, alcançareis a incorruptível coroa da glória.”

Portanto, respondendo objetivamente à pergunta: o Novo Testamento ensina que os presbíteros são constituídos pelo Espírito Santo e reconhecidos pelos santos em razão das qualificações que manifestam e do trabalho que já realizam no cuidado do rebanho.

Esse reconhecimento não é uma eleição, uma promoção, nem uma ordenação que transforma determinado irmão em presbítero. Também não encontramos nas Escrituras uma cerimônia estabelecida pela qual um homem passe oficialmente a ocupar esse lugar.

O princípio de 1 Tessalonicenses 5:12-13 é especialmente importante: os santos deveriam reconhecer aqueles que já trabalhavam entre eles, presidiam no Senhor e os admoestavam. Portanto, a obra precedia o reconhecimento.

Isso significa que um homem não se torna presbítero porque seu nome foi anunciado à igreja. Antes, sua vida, suas qualificações e seu trabalho no cuidado dos santos tornam evidente aquilo que o Espírito Santo está realizando nele.

Naturalmente, é necessário que a igreja saiba quem são os homens que exercem essa responsabilidade, pois os santos são ensinados a reconhecê-los, estimá-los e sujeitar-se à sua liderança espiritual. Entretanto, não devemos ir além das Escrituras estabelecendo como necessária uma cerimônia ou apresentação pública formal que o Novo Testamento não determina.

Talvez a melhor maneira de resumir seja esta:

O Espírito Santo constitui o presbítero; suas qualificações confirmam sua aptidão; seu trabalho demonstra sua realidade; e os santos, observando sua vida e seu serviço, reconhecem aquilo que Deus já tornou evidente.

Assim, quando um homem é verdadeiramente reconhecido como presbítero, ele não começa naquele momento a cuidar do rebanho. Ele já vinha fazendo esse trabalho. O reconhecimento apenas corresponde à realidade espiritual que já estava manifesta entre os santos.

Josué Matos

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