Alguém que me escreveu no YouTube:
Irmão, perdoe-me a insistência, mas o texto de João 20:17 deixa claro que Jesus subiu para o Pai somente naquele dia. Não houve subida antes da ressurreição. Veja: ‘Diga a eles que subo para o Pai’.
Um outro ponto que precisamos esclarecer é: Jesus não diz ‘não me toques’ porque ainda não subi para o Pai. Ele disse ‘não me detenhas’, ou seja, não vamos alongar a conversa porque eu tenho algo muito importante para fazer. Portanto, Ele demonstra pressa. E manda um recado aos discípulos: diga a eles para me aguardarem na Galileia, que lá me encontrarão.
A partir daí, Jesus não mais convive com eles. Ele vai fazer aparições esporádicas, e sempre com outras aparências, até subir definitivamente na presença de todos. Isso deixa claro que Ele não estava mais neste mundo e, após a ressurreição, não era mais humano.
Veja que, nessas aparições, os discípulos só percebiam que se tratava de Jesus após Ele falar algo extraordinário e não mais reconheciam Sua aparência. Veja que, no episódio do mar, Jesus Se apresenta a eles novamente, porém eles não O reconhecem fisicamente:
‘Disse-lhes Jesus: Vinde, comei. E nenhum dos discípulos ousava perguntar-lhe: Quem és tu? Sabendo que era o Senhor.’ (João 21:12 — ACF)
Minha Resposta:
Agradeço pela consideração e pela insistência no assunto, porque isso nos dá a oportunidade de examinar com mais atenção aquilo que a própria Escritura diz. Creio, porém, que precisamos separar algumas afirmações, pois algumas delas estão corretas, enquanto outras vão além do que o texto bíblico permite concluir.
João 20:17 não ensina uma ascensão naquele mesmo dia
Concordo que João 20:17 não deve ser usado para ensinar que o Senhor Jesus já havia subido ao Pai naquela manhã e depois retornado à Terra. O próprio Senhor disse:
“Não me detenhas, porque ainda não subi para meu Pai; mas vai para meus irmãos e dize-lhes que eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus” (João 20:17).
Portanto, naquele momento Ele ainda não havia ascendido ao Pai. A ascensão pública e definitiva aconteceria posteriormente, depois do período de quarenta dias mencionado em Atos dos Apóstolos:
“Aos quais também, depois de ter padecido, se apresentou vivo, com muitas e infalíveis provas, sendo visto por eles por espaço de quarenta dias, e falando do que respeita ao reino de Deus” (Atos dos Apóstolos 1:3).
Depois desses quarenta dias:
“E, quando dizia isto, vendo-o eles, foi elevado às alturas, e uma nuvem o recebeu, ocultando-o a seus olhos” (Atos dos Apóstolos 1:9).
Assim, João 20:17 aponta para a ascensão que ainda estava por acontecer. O Senhor estava ensinando Maria Madalena que uma nova condição de relacionamento estava começando. Ela não deveria pensar que tudo simplesmente voltaria à situação existente antes da cruz. Cristo havia ressuscitado, e em breve ascenderia ao Pai.
“Não me toques” ou “não me detenhas”?
Aqui sua observação merece consideração. A ideia de “não me detenhas”, “não continues agarrada a mim” ou “deixa de te apegar a mim” realmente expressa melhor o sentido da passagem do que entender as palavras como uma proibição absoluta de qualquer contato físico.
Isso é importante porque o próprio contexto bíblico prova que tocar no corpo ressuscitado do Senhor não era proibido.
Mais tarde, Ele disse a Tomé:
“Põe aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos; e chega a tua mão, e põe-na no meu lado” (João 20:27).
Em outra ocasião, Ele disse aos discípulos:
“Vede as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo; apalpai-me e vede, pois um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho” (Lucas 24:39).
Portanto, João 20:17 não significa: “Maria, você não pode tocar no meu corpo ressuscitado”. Se esse fosse o significado, haveria dificuldade em harmonizá-lo com Lucas 24:39 e João 20:27.
Maria, tomada pela alegria de reencontrar seu Senhor, queria agarrar-se a Ele. O Senhor estava mostrando que o relacionamento deles não continuaria simplesmente como antes. Sua ascensão estava próxima e uma nova condição seria estabelecida.
Mas isso não significa que Jesus deixou de ser humano
É justamente neste ponto que não posso concordar com a conclusão apresentada.
A afirmação de que, “após a ressurreição, não era mais humano”, contradiz diretamente várias declarações das Escrituras.
O próprio Senhor ressuscitado declarou:
“Vede as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo; apalpai-me e vede, pois um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho” (Lucas 24:39).
Observe cuidadosamente as palavras: “sou eu mesmo”.
Não era outro ser. Não era uma manifestação temporária. Não era um espírito assumindo diferentes aparências. Era o mesmo Jesus que havia sido crucificado, agora ressuscitado e possuindo um corpo glorificado.
Ele inclusive mostrou as marcas da crucificação:
“E, dizendo isto, mostrou-lhes as mãos e os pés” (Lucas 24:40).
Depois:
“Então eles apresentaram-lhe parte de um peixe assado e um favo de mel; o que ele tomou e comeu diante deles” (Lucas 24:42-43).
Tudo isso foi feito justamente para demonstrar a realidade da Sua ressurreição corporal.
A ressurreição não destruiu a humanidade de Cristo; glorificou Seu corpo humano.
Ele continua sendo verdadeiro Deus e verdadeiro Homem.
O Senhor Jesus continua sendo Homem depois da ascensão
Esta verdade torna-se ainda mais evidente quando observamos aquilo que o Novo Testamento diz depois da ascensão.
Paulo escreveu:
“Porque há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo, homem” (1 Timóteo 2:5).
Observe que Paulo não disse que Cristo “foi homem”. Ele escreveu depois da ressurreição e ascensão e ainda O apresenta como “Jesus Cristo, homem”.
Também lemos:
“Porquanto tem determinado um dia em que com justiça há de julgar o mundo, por meio do homem que destinou; e disso deu certeza a todos, ressuscitando-o dos mortos” (Atos dos Apóstolos 17:31).
A humanidade de Cristo não foi uma condição temporária que começou em Belém e terminou na manhã da ressurreição.
“O Verbo se fez carne” (João 1:14).
O Filho eterno de Deus assumiu verdadeira humanidade e, depois de ressuscitado, permanece o Homem glorificado no Céu.
Por isso Estêvão, depois da ascensão, declarou:
“Eis que vejo os céus abertos e o Filho do homem, que está em pé à mão direita de Deus” (Atos dos Apóstolos 7:56).
Ele ainda é chamado “Filho do Homem” no Céu.
Seu corpo ressuscitado era diferente, mas continuava sendo um corpo real
Aqui talvez esteja a origem da dificuldade.
O corpo ressuscitado do Senhor não estava mais sujeito às limitações próprias da vida mortal. Isso, porém, não significa que Ele tenha deixado de possuir humanidade.
Paulo explica esse princípio em 1 Coríntios 15:
“Semeia-se corpo natural, ressuscitará corpo espiritual. Se há corpo natural, há também corpo espiritual” (1 Coríntios 15:44).
“Corpo espiritual” não significa “um espírito sem corpo”. Se assim fosse, a própria expressão seria contraditória.
É um corpo verdadeiro, porém adequado à nova condição da ressurreição.
O próprio Senhor demonstrou isso quando apareceu aos discípulos estando as portas fechadas:
“Chegada, pois, a tarde daquele dia, o primeiro da semana, e cerradas as portas onde os discípulos, com medo dos judeus, se tinham ajuntado, chegou Jesus, e pôs-se no meio” (João 20:19).
Seu corpo possuía propriedades que ultrapassavam as limitações de nosso corpo mortal. Mas continuava sendo o Seu corpo.
O fato de algumas pessoas não O reconhecerem não significa que Ele assumisse constantemente “outras aparências”
Precisamos tomar cuidado para não transformar uma observação em uma doutrina que o texto não afirma.
Maria inicialmente não O reconheceu:
“Ela, cuidando que era o hortelão...” (João 20:15).
Mas basta observar a situação: Maria estava chorando junto ao sepulcro e não esperava encontrar Jesus vivo.
No caminho de Emaús existe uma explicação ainda mais clara:
“Os olhos deles estavam como que fechados, para que o não conhecessem” (Lucas 24:16).
Não diz que Jesus estava necessariamente com outro corpo ou outra identidade física. A Escritura explica que havia um impedimento no reconhecimento deles.
Posteriormente:
“Abriram-se-lhes então os olhos, e o conheceram” (Lucas 24:31).
Portanto, não devemos inverter o texto. A passagem não diz que Jesus mudou de aparência e por isso não O reconheceram; diz que os olhos deles estavam impedidos de reconhecê-Lo.
João 21:12 também não prova mudança de aparência
O texto citado diz:
“Disse-lhes Jesus: Vinde, comei. E nenhum dos discípulos ousava perguntar-lhe: Quem és tu? Sabendo que era o Senhor” (João 21:12).
Observe a última expressão: “sabendo que era o Senhor”.
João já havia reconhecido Jesus antes:
“Então aquele discípulo, a quem Jesus amava, disse a Pedro: É o Senhor” (João 21:7).
Além disso, a cena acontece de manhã, com Jesus na praia e os discípulos inicialmente dentro do barco:
“E, sendo já manhã, Jesus se apresentou na praia, mas os discípulos não conheceram que era Jesus” (João 21:4).
Portanto, construir sobre João 21:12 a doutrina de que Cristo possuía “outras aparências” ou de que “não era mais humano” vai muito além daquilo que João está dizendo.
Durante quarenta dias Jesus permaneceu neste mundo
Também não podemos afirmar que, depois da ressurreição, Jesus “não estava mais nesse mundo”.
Atos dos Apóstolos 1:3 é muito claro:
“Aos quais também, depois de ter padecido, se apresentou vivo, com muitas e infalíveis provas, sendo visto por eles por espaço de quarenta dias.”
Durante esses quarenta dias Sua presença entre os discípulos já não tinha o mesmo caráter de antes da cruz. Ele não retomou simplesmente a rotina anterior. Suas aparições foram específicas e tiveram propósitos determinados.
Mas Ele ainda não havia ascendido ao Céu.
Somente depois:
“Foi elevado às alturas” (Atos dos Apóstolos 1:9).
Portanto, precisamos conservar a ordem bíblica:
morte → sepultamento → ressurreição corporal → quarenta dias de aparições → ascensão → glorificação à direita de Deus.
Uma distinção importante: Mesa do Senhor e Ceia do Senhor
Aproveito para esclarecer também uma distinção que frequentemente causa confusão.
As expressões “Mesa do Senhor” e “Ceia do Senhor” estão relacionadas, mas não são simplesmente sinônimos.
A “Mesa do Senhor” aparece em 1 Coríntios 10:
“Não podeis beber o cálice do Senhor e o cálice dos demônios; não podeis ser participantes da mesa do Senhor e da mesa dos demônios” (1 Coríntios 10:21).
Já a “Ceia do Senhor” aparece em 1 Coríntios 11:
“De sorte que, quando vos ajuntais num lugar, não é para comer a Ceia do Senhor” (1 Coríntios 11:20).
Em 1 Coríntios 10, a ênfase está na comunhão e na associação. Em 1 Coríntios 11, a ênfase está no memorial realizado quando a igreja se reúne.
Por isso, podemos dizer de maneira simples:
A Mesa do Senhor fala do princípio de comunhão e da esfera de associação sob a autoridade do Senhor.
A Ceia do Senhor fala do ato memorial realizado pela igreja reunida, usando o pão e o cálice para recordar o Senhor e anunciar Sua morte até que Ele venha.
Na Mesa temos comunhão; na Ceia temos comemoração.
A Mesa nos leva a perguntar: “Com quem e com o que estamos associados?”
A Ceia nos leva a perguntar: “De quem estamos nos lembrando?”
É justamente por isso que Paulo trata primeiro da Mesa no capítulo 10 e depois da Ceia no capítulo 11.
Na Mesa:
“O cálice de bênção que abençoamos, não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos não é porventura a comunhão do corpo de Cristo?” (1 Coríntios 10:16).
Na Ceia:
“Fazei isto em memória de mim” (1 Coríntios 11:24).
E:
“Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice anunciais a morte do Senhor, até que venha” (1 Coríntios 11:26).
Portanto, a Mesa do Senhor não é simplesmente o móvel sobre o qual colocamos o pão e o cálice. É uma expressão espiritual de comunhão sob o senhorio de Cristo.
A Ceia do Senhor, por sua vez, é aquilo que fazemos em memória dEle, conforme Sua própria ordem.
A grande verdade que precisamos preservar
Finalmente, penso que devemos tomar muito cuidado com a afirmação de que Cristo “após a ressurreição não era mais humano”, porque ela atinge uma verdade fundamental acerca da Pessoa do Senhor Jesus.
O Cristo que morreu é o Cristo que ressuscitou.
“Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; e que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras” (1 Coríntios 15:3-4).
O túmulo ficou vazio porque Seu corpo ressuscitou.
Ele disse:
“Sou eu mesmo” (Lucas 24:39).
Mostrou as mãos e os pés.
Convidou os discípulos a tocá-Lo.
Comeu diante deles.
Tomé pôde contemplar as marcas dos cravos.
E, quarenta dias depois, aquele mesmo Jesus foi elevado ao Céu diante dos discípulos.
Por isso os anjos disseram:
“Esse Jesus, que dentre vós foi recebido em cima no céu, há de vir assim como para o céu o vistes ir” (Atos dos Apóstolos 1:11).
Não foi outro Jesus que ascendeu, e não será outro Jesus que voltará.
Ele é o Filho eterno de Deus que verdadeiramente Se fez Homem, morreu, ressuscitou corporalmente, ascendeu ao Céu e permanece o Homem glorificado à direita de Deus.
Por isso a esperança cristã não é que um espírito ou uma aparência de Jesus venha novamente. Esperamos o próprio Senhor:
“Porque o mesmo Senhor descerá do céu” (1 Tessalonicenses 4:16).
E nossa própria ressurreição está ligada à dEle:
“Que transformará o nosso corpo abatido, para ser conforme o seu corpo glorioso” (Filipenses 3:21).
Seu corpo é agora glorioso, incorruptível e imortal; mas continua sendo corpo verdadeiro. Sua humanidade não foi abandonada na ressurreição. Ao contrário, a ressurreição demonstrou o triunfo da Sua humanidade perfeita sobre a morte.
Assim, concordamos que “não me detenhas” transmite adequadamente a ideia de João 20:17 e que não precisamos imaginar uma ascensão secreta naquela manhã. Contudo, não podemos avançar daí para a conclusão de que Jesus deixou de ser Homem. Lucas 24:39 praticamente encerra essa questão nas próprias palavras do Senhor ressuscitado:
“Sou eu mesmo; apalpai-me e vede, pois um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho.”
Josué Matos