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O que significa, na prática, a eleição e a predestinação mencionadas em Romanos 8:29–30

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RESUMO DA DÚVIDA APRESENTADA

  1. PERGUNTAS EXPLÍCITAS DO DENIS

A dúvida do Denis nasce a partir da leitura de Romanos 8:28–30 e do texto do autor citado, e pode ser organizada nas seguintes perguntas:

  1. O que significa, na prática, a eleição e a predestinação mencionadas em Romanos 8:29–30, já que ele nunca havia ouvido esse ensino dessa forma?

  2. Quem são exatamente “os que amam a Deus” e “os que são chamados segundo o Seu propósito” mencionados em Romanos 8:28? Trata-se de um grupo específico e previamente definido?

  3. O que significa Deus “chamar” alguém?
    Esse chamado é algo que pode ser recusado ou é uma intervenção irresistível e garantida?

  4. Se a conversão acontece por uma intervenção direta de Deus na mente do pecador, tornando a fé absolutamente certa, como entender a responsabilidade humana?

  5. Como pessoas poderão ser julgadas e condenadas por incredulidade (Apocalipse 21:8) se, segundo essa explicação, Deus não lhes concedeu essa chamada eficaz ou “autorização” para crer?

  6. No juízo final, alguém poderia legitimamente dizer:
    “Senhor, eu não cri porque o Senhor não deixou”?

Essa última pergunta é o ponto central da inquietação do Denis.

  1. O QUE O AUTOR DO TEXTO AFIRMA (EM SÍNTESE ORGANIZADA)

O autor do texto que Denis leu apresenta a doutrina da eleição e da predestinação da seguinte forma:

  1. Romanos 8:29–30 descreve um processo completo e garantido de conversão e salvação, composto por etapas sequenciais:
    conheceu → predestinou → chamou → justificou → glorificou.

  2. Esse processo não é meramente informativo ou descritivo, mas uma intervenção direta de Deus na alma do pecador.

  3. A “chamada” de Deus é definida como uma ação irresistível, na qual Deus interfere diretamente na mente do pecador, tornando-o sensível ao evangelho e garantindo que essa sensibilidade resultará necessariamente em conversão.

  4. Os que amam a Deus não chegaram a esse ponto por iniciativa própria, mas exclusivamente por terem sido alvos dessa intervenção divina.

  5. O “conhecer de antemão” não é presciência, nem previsão do comportamento humano, mas um relacionamento íntimo e amoroso estabelecido por Deus antes da existência dessas pessoas.

  6. Esse conhecimento está inseparavelmente ligado à eleição; Deus conhece porque escolhe, ou escolhe e, ao mesmo tempo, conhece.

  7. A eleição é totalmente incondicional, não baseada em qualquer atitude futura, fé prevista ou resposta humana.

  8. Deus escolheu determinadas pessoas antes da fundação do mundo para terem comunhão eterna com Ele.

  9. A predestinação é a garantia absoluta de que essa eleição se cumprirá; ou seja, que o eleito inevitavelmente chegará à salvação.

  10. Os eleitos não podem deixar de ser salvos e não podem ser enganados por falsas doutrinas, pois a predestinação assegura tanto a salvação quanto a preservação na verdade.

  11. Embora o evangelho seja pregado a todos, apenas os eleitos recebem a graça eficaz da fé salvadora.

  1. ONDE NASCE A DÚVIDA CENTRAL

A dúvida do Denis surge exatamente da combinação entre essas afirmações do autor e textos como Apocalipse 21:8.

O conflito percebido por ele é o seguinte:

– Se apenas os eleitos recebem essa intervenção irresistível de Deus que os leva infalivelmente à fé,
– e se os não eleitos nunca recebem essa chamada eficaz,
– como essas pessoas podem ser julgadas e condenadas por incredulidade?

Em termos simples, a pergunta final do Denis é:

Como Deus pode condenar alguém por não crer, se essa pessoa nunca recebeu, segundo essa explicação, a ação divina necessária para que pudesse crer?

Esse é o núcleo da dúvida que ele está apresentando.

Minha Resposta:

Denis, a tua pergunta é legítima e toca exatamente no ponto onde muitos sistemas teológicos entram em tensão com o conjunto das Escrituras.

O próprio texto que citaste levanta um problema que ele não resolve: se a chamada é uma intervenção irresistível, garantida e seletiva, como o autor define, então o juízo final de Apocalipse 21:8 se torna moralmente incoerente. A Bíblia, porém, não entra em contradição consigo mesma.

Vamos responder usando os próprios termos e textos apresentados.

Primeiro, sobre Romanos 8:28–30.

Paulo não está explicando como alguém passa da incredulidade para a fé, mas descrevendo o caminho completo daqueles que já estão “em Cristo”. O texto começa com “os que amam a Deus”, não com “os que ainda estão mortos em pecados”. O foco é segurança, não mecanismo de conversão.

Quando Paulo diz “aos que de antemão conheceu”, ele não está afirmando que Deus impediu outros de crer, mas que Deus conhece plenamente aqueles que viriam a estar em Cristo. Em nenhum momento o texto afirma que Deus criou incrédulos incapazes de crer para depois condená-los.

O próprio Paulo esclarece isso mais adiante:

“Deus encerrou a todos debaixo da desobediência, para com todos usar de misericórdia” (Romanos 11:32).

Segundo, a definição de “chamada” apresentada no texto não é a única bíblica.

A Bíblia fala claramente de chamados rejeitados:

“Porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos” (Mateus 22:14).

Se a chamada fosse irresistível, esse versículo não faria sentido. O chamado é real, verdadeiro e pode ser resistido. Isso não diminui a soberania de Deus; apenas mantém a responsabilidade humana.

Terceiro, sobre João 15:16.

Jesus não está ali falando de salvação individual eterna, mas da escolha dos apóstolos para um ministério específico. O contexto é frutificação e missão, não condenação ou eleição para o céu. Usar esse texto para sustentar que ninguém pode crer sem autorização prévia ignora o contexto imediato.

Quarto, 2 Tessalonicenses 2:13 resolve o ponto-chave.

O texto diz que Deus escolheu “para a salvação, pela santificação do Espírito e fé na verdade”. A fé não é apresentada como algo imposto, mas como meio. O Espírito atua, a verdade é anunciada, e a fé responde. Não há qualquer indicação de que Deus negue fé a quem deseja crer.

Quinto, Romanos 9 não ensina condenação sem responsabilidade.

Paulo fala do direito soberano de Deus em conduzir a história da redenção, especialmente no contexto de Israel e dos gentios. Ele mesmo antecipa a objeção moral e não responde dizendo “Deus impede alguns de crer”, mas afirmando que Deus suporta “com muita longanimidade os vasos da ira” (Romanos 9:22). Longanimidade não combina com impedimento ativo.

Sexto, Apocalipse 21:8 responde diretamente à tua pergunta.

Os condenados são chamados de “incrédulos”. A Bíblia nunca diz que são “impedidos de crer”, mas que “não quiseram crer”. O próprio Senhor Jesus afirma:

“Não quereis vir a mim para terdes vida” (João 5:40).

No juízo, ninguém será condenado por falta de autorização divina, mas por rejeição consciente da luz recebida.

“Esta é a condenação: que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz” (João 3:19).

Se alguém disser no juízo “não cri porque Deus não deixou”, essa acusação não encontra respaldo em nenhum texto bíblico. A Escritura afirma repetidamente que Deus chama, convida, anuncia, adverte e oferece, e que a condenação ocorre porque o homem rejeita.

A eleição bíblica jamais transforma Deus em injusto, nem o homem em vítima. Ela exalta a graça sem anular a responsabilidade.

Para compreender corretamente eleição, predestinação e responsabilidade humana, é necessário partir do testemunho completo das Escrituras, evitando definições isoladas que absolutizam um aspecto em detrimento de outro.

Eleição, na Bíblia, é o ato soberano de Deus pelo qual Ele decide salvar um povo para Si em Cristo. Essa eleição não é apresentada como um decreto arbitrário e desconectado do evangelho, mas como parte do propósito eterno de Deus realizado em Jesus Cristo. A Escritura afirma que Deus escolheu “em Cristo” antes da fundação do mundo, não indivíduos isoladamente fora dele. Cristo é o Eleito de Deus, e todos os que estão unidos a Ele participam dessa eleição. Assim, a eleição é sempre cristocêntrica, graciosa e redentora, nunca fatalista.

A eleição não significa que Deus criou dois grupos — um destinado à salvação e outro à condenação — sem qualquer relação com fé, resposta ou rejeição da verdade. A condenação nunca é atribuída à eleição, mas ao pecado e à incredulidade. A Bíblia é clara ao afirmar que os homens se perdem porque rejeitam a luz, resistem à verdade e não creem no testemunho que Deus lhes deu acerca do Seu Filho.

Predestinação, por sua vez, não trata do ato inicial de crer, mas do destino final daqueles que estão em Cristo. Os textos que falam de predestinação afirmam que Deus determinou de antemão que os salvos seriam conformados à imagem do Seu Filho, adotados como filhos, feitos herdeiros e glorificados. A predestinação diz respeito ao propósito de Deus quanto ao fim, não ao meio pelo qual o pecador entra em Cristo.

Em nenhum texto bíblico a predestinação é apresentada como uma imposição de fé ou como um impedimento para que alguém creia. Ela é a garantia divina de que aqueles que pertencem a Cristo não serão abandonados no caminho, mas chegarão com segurança ao destino que Deus estabeleceu. A predestinação assegura a consumação da salvação, não a negação da oportunidade de crer.

Quanto à responsabilidade humana, a Escritura a afirma de forma inequívoca. O homem é chamado ao arrependimento, à fé e à obediência. O evangelho é anunciado a todos, e o convite é sincero e verdadeiro. A fé vem pelo ouvir a Palavra de Deus, e o Espírito Santo atua convencendo o mundo do pecado, da justiça e do juízo. Essa atuação divina não anula a responsabilidade do homem; antes, a torna real e inescapável.

A Bíblia reconhece que o homem, por si mesmo, não busca a Deus nem pode produzir salvação por obras. Contudo, isso não significa que ele seja impedido de crer quando confrontado pela verdade. A incredulidade não é causada por falta de permissão divina, mas pela rejeição consciente da luz. Sempre que a Escritura descreve a condenação, ela a vincula à incredulidade, à desobediência e ao amor ao pecado.

A harmonia bíblica é esta: Deus é absolutamente soberano, e o homem é verdadeiramente responsável. Deus chama, anuncia, oferece e convida; o homem responde ou rejeita. Quando alguém crê, toda a glória pertence a Deus; quando alguém se perde, a culpa recai sobre a rejeição da verdade. A eleição exalta a graça; a responsabilidade humana preserva a justiça de Deus.

Assim, eleição e predestinação nunca devem ser usadas para explicar por que alguém não creu, mas para assegurar aos que creram que a sua salvação não depende do acaso, do mérito ou da perseverança humana, e sim do propósito fiel e eterno de Deus em Cristo.

Josué Matos

Então penso que a lei que serve para o judeu também serve para o gentio convertido

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

A lei foi para Israel, mas a Bíblia diz que somos judeus de coração. Então penso que a lei que serve para o judeu também serve para o gentio convertido. Por isso fico pensativo com isso e outras questões desde Gênesis.

Romanos 2

28 Porque não é judeu o que o é exteriormente, nem é circuncisão a que o é exteriormente na carne.

29 Mas é judeu o que o é no interior, e circuncisão a que é do coração, no espírito, não na letra; cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus.

Minha Resposta:

A sua reflexão é compreensível e toca num ponto central da interpretação bíblica: a relação entre a Lei dada a Israel e a posição do gentio convertido em Cristo. Para responder com clareza, é necessário distinguir cuidadosamente entre identidade espiritual, economia divina e propósito da Lei.

Em primeiro lugar, quando o apóstolo Paulo escreve em Romanos 2:28–29, ele não está redefinindo o gentio como judeu no sentido nacional, histórico ou legal. O próprio contexto da carta deixa isso claro. Paulo está lidando com a falsa segurança religiosa, tanto do judeu que confiava nos privilégios externos quanto do gentio que poderia imaginar que a mera posse de conhecimento religioso fosse suficiente. Assim, “judeu no interior” não significa alguém colocado debaixo da Lei mosaica, mas alguém cujo relacionamento com Deus é real, interno e produzido pelo Espírito.

A circuncisão do coração já era um conceito conhecido nas Escrituras do Antigo Testamento. Em Deuteronômio 10:16 e 30:6, o próprio Deus fala de uma obra interior, e não meramente ritual. Logo, Paulo não está introduzindo uma nova Lei para o gentio, mas mostrando que o verdadeiro valor sempre esteve na obra de Deus no coração, algo que a Lei, por si mesma, nunca pôde produzir.

É fundamental lembrar que a Lei foi dada especificamente a Israel como nação. Isso é afirmado de forma inequívoca em textos como Êxodo 19:3–6 e Salmos 147:19–20, onde se declara que Deus não tratou assim com nenhuma outra nação. A Lei tinha um propósito definido: revelar o caráter santo de Deus, expor o pecado e conduzir o homem à necessidade de redenção.

No Novo Testamento, Paulo explica esse propósito de modo direto em Gálatas 3:24–25, ao afirmar que a Lei foi aio até Cristo, mas que, chegada a fé, já não estamos debaixo desse aio. Isso significa que a Lei cumpriu sua função pedagógica e condenatória, mas não é o princípio regulador da vida cristã.

Quando Paulo fala do gentio convertido, ele afirma claramente que esse gentio não é colocado sob a Lei. Em Romanos 6:14, lemos que o crente não está debaixo da Lei, mas da graça. Mais adiante, em Romanos 7, Paulo mostra que a Lei é santa, justa e boa, mas impotente para libertar o homem do domínio do pecado. A libertação vem exclusivamente por meio de Cristo.

Além disso, o Concílio de Jerusalém, relatado em Atos dos Apóstolos 15, é decisivo nessa questão. Ali, os apóstolos rejeitam explicitamente a ideia de impor a Lei de Moisés aos gentios convertidos. Pedro chega a afirmar que isso seria colocar um jugo que nem os próprios judeus conseguiram suportar.

Portanto, ser “judeu no interior” não significa estar sujeito à Lei mosaica, mas possuir uma realidade espiritual: um coração transformado, regenerado e dirigido pelo Espírito Santo. O crente hoje vive sob outro princípio, chamado no Novo Testamento de a lei de Cristo, mencionada em Gálatas 6:2. Essa não é uma repetição da Lei de Moisés, mas a vida de Cristo expressa em amor, obediência e dependência de Deus.

Finalmente, olhar para Gênesis e para toda a Escritura é correto e necessário, mas sempre à luz da revelação progressiva. A Palavra de Deus não se contradiz, mas avança até a plena revelação em Jesus Cristo. O erro surge quando se misturam economias diferentes, aplicando ao Corpo de Cristo aquilo que foi dado exclusivamente a Israel como nação.

Assim, a Lei continua tendo valor como revelação do caráter de Deus e como testemunho histórico e moral, mas não como regra de vida para o crente em Cristo. A nossa posição não é a do Sinai, mas a do Calvário; não a da letra que mata, mas a do Espírito que vivifica, conforme ensinado em 2 Coríntios 3:6.

Josué Matos

Tenho visto que boa parte da teologia cristã, em maior ou menor grau, se desenvolveu não tanto de um estudo sério da Escritura

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Irmão Josué, em minhas leituras, tenho visto que boa parte da teologia cristã, em maior ou menor grau, se desenvolveu não tanto de um estudo sério da Escritura, (respeitando seu contexto mediato e imediato em sua forma histórico-gramatical), mas muito da mesma foi desenvolvido com base em pressupostos filosóficos, principalmente de Aristóteles, dentre outros. Vemos isto na teologia católica, com Tomás de Aquino, que foi profundamente influenciado por Aristóteles (já citado), bem como no Calvinismo, que se escorou profusamente em Agostinho de Hipona, que foi profundamente também influenciado pela filosofia grega. Irmão Josué, como estudar a Bíblia sem este "fermento" filosófico, que tanto influenciou o entendimento das coisas divinas com raciocínios limitados pela filosofia, nos trazendo, por fim, uma "mistura" doutrinária que tanto mal fez à obra de Deus no mundo?

Minha Resposta:

Amado irmão,

A sua percepção é bastante pertinente e toca num ponto sensível da história do pensamento cristão. De fato, ao longo dos séculos, a teologia cristã foi sendo desenvolvida em contextos culturais específicos, e isso fez com que categorias filosóficas externas às Escrituras fossem, muitas vezes, usadas como lentes interpretativas. O problema não é apenas histórico, mas metodológico e espiritual.

É inegável que, desde os primeiros séculos, houve uma aproximação entre fé cristã e filosofia grega. Já no período patrístico, especialmente com figuras como Agostinho, houve forte diálogo com o platonismo e, mais tarde, com o neoplatonismo. Na Idade Média, a síntese entre fé e razão ganhou contornos sistemáticos com Tomás de Aquino, profundamente influenciado por Aristóteles. Esses sistemas procuravam organizar a doutrina cristã de forma lógica, coerente e defensável diante do pensamento dominante da época. O mesmo pode ser observado, ainda que de forma diferente, em sistemas teológicos posteriores, inclusive no calvinismo, que herdou categorias metafísicas e conceituais anteriores à Reforma.

A Escritura, porém, não se apresenta como um tratado filosófico. Ela é revelação divina dada em linguagem histórica, progressiva, pactual e redentiva. Os autores bíblicos não pensam a partir de categorias aristotélicas como “ato e potência”, “substância e acidente”, ou “causa primeira”, mas a partir da relação viva entre Deus e o homem, do pecado, da redenção, da promessa e do cumprimento. Quando essas categorias filosóficas passam a governar a leitura do texto bíblico, o risco é inverter a ordem: em vez de a Escritura julgar os nossos sistemas, os sistemas passam a julgar a Escritura.

O próprio Novo Testamento alerta contra esse perigo. O apóstolo Paulo escreve aos colossenses advertindo: “Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo” (Colossenses 2:8). Aqui não se trata de uma rejeição ao uso da razão, mas de uma denúncia clara contra qualquer estrutura de pensamento que se torne concorrente ou superior à revelação de Deus em Cristo.

Como, então, estudar a Bíblia sem esse “fermento” filosófico?

Primeiro, é necessário reafirmar a suficiência e a autoridade das Escrituras. A Bíblia interpreta a própria Bíblia. Textos claros lançam luz sobre textos mais difíceis, e nenhuma doutrina deve ser construída a partir de inferências filosóficas que não estejam firmemente ancoradas no testemunho global da Palavra de Deus. “Toda a Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça” (2 Timóteo 3:16).

Segundo, é fundamental respeitar o método histórico-gramatical em submissão espiritual. Isso significa ler cada texto no seu contexto imediato e mediato, considerando o género literário, o momento histórico, o propósito do autor humano e, sobretudo, a intenção do Autor divino. Mas esse método, por si só, não basta se for aplicado de forma meramente académica. O Senhor Jesus disse: “Se alguém quiser fazer a vontade dele, conhecerá a respeito da doutrina” (João 7:17). O entendimento espiritual está ligado à disposição do coração.

Terceiro, é preciso deixar que a linguagem bíblica molde as nossas categorias, e não o contrário. A Bíblia fala em termos como vida e morte, luz e trevas, carne e espírito, fé e incredulidade, justiça e pecado, cabeça e corpo, pastor e ovelhas. Quando substituímos essas categorias por esquemas abstratos importados da filosofia, perdemos a força e a simplicidade da revelação divina.

Quarto, devemos reconhecer que o Espírito Santo é o verdadeiro Mestre. O Senhor prometeu que o Espírito guiaria os Seus discípulos em toda a verdade (João 16:13). O estudo sério das Escrituras não é independente da dependência espiritual. A iluminação do Espírito não anula o estudo, mas dá vida, direção e equilíbrio a ele.

Por fim, convém lembrar que Deus nunca confiou a preservação da verdade a sistemas, mas à Sua Palavra viva. A história da Igreja mostra que, sempre que a teologia se cristalizou em esquemas fechados, a vida espiritual enfraqueceu. Em contrapartida, os períodos de maior frescor espiritual foram marcados por um retorno simples, reverente e obediente às Escrituras.

Portanto, estudar a Bíblia sem o “fermento” filosófico não significa ignorar a história do pensamento cristão, mas submeter toda tradição, todo sistema e todo raciocínio à autoridade final da Palavra de Deus. É voltar a ouvir a Escritura como Palavra viva, capaz de julgar os pensamentos e intenções do coração (Hebreus 4:12), permitindo que ela mesma forme o nosso entendimento das coisas divinas.

Josué Matos

Por qual razão Deus permite ou envia o mal e o pecado no mundo?

 Alguém que me escreveu no YouTube:

Amado amigo e irmão Josué.  Por que sofre o justo? Minha sogra, crente temente a Deus, está com câncer.  Além de orar por ela, poderia, por favor, nos ajudar quanto a esta questão? Por que parece que a providência de Deus demora tanto nas vidas dos justos? Obrigado, e que Deus te abençoe sempre.

Mês que vem fará sete anos da morte de meu filho, na época com 22 anos. Infarto fulminante. Por que dessas dores nas nossas vidas?

Em suma, por qual razão Deus permite ou envia o mal e o pecado no mundo?

Minha Resposta:

Recebo a sua mensagem com profundo respeito e temor diante da dor que o senhor compartilha. Não se trata de uma pergunta teórica, mas de um clamor que nasce do coração ferido. A Palavra de Deus não ignora esse tipo de dor; ao contrário, ela a reconhece, a acolhe e a ilumina com verdade, ainda que nem sempre com explicações simples.

  1. Por que sofre o justo?

A Bíblia é muito clara ao afirmar que o sofrimento não é, necessariamente, consequência direta de pecado pessoal. O livro de Jó foi preservado justamente para corrigir essa ideia simplista. Jó é apresentado como homem íntegro, reto, temente a Deus e que se desviava do mal, e ainda assim foi profundamente afligido. O próprio Deus confirma isso em Jó 1:8 e Jó 2:3.

O sofrimento do justo não significa ausência de cuidado divino, nem indiferença da parte de Deus. Muitas vezes, ele ocorre dentro de um mundo que está debaixo das consequências da queda. Desde Gênesis 3, a criação inteira foi sujeita à corrupção. O apóstolo Paulo declara que toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até agora, conforme Romanos 8:22. A doença, a morte e a fragilidade do corpo fazem parte desse estado decaído da criação, e os justos não estão imunes a isso.

  1. Por que a providência de Deus parece demorar?

A demora da providência de Deus não é descaso, mas faz parte do Seu modo perfeito de agir. A Escritura nos ensina que Deus vê o fim desde o princípio, como afirma Isaías 46:10. Aquilo que para nós parece atraso, para Ele está dentro de um tempo exato.

Habacuque também lutou com essa sensação de demora e ouviu do Senhor: “Se tardar, espera-o; porque certamente virá, não tardará” (Habacuque 2:3). Aos nossos olhos humanos, a espera é pesada; aos olhos de Deus, ela está ajustada à Sua sabedoria eterna.

Além disso, a Palavra nos mostra que Deus, muitas vezes, opera mais profundamente em nós durante o tempo da espera do que no momento da resposta. Romanos 5:3–5 ensina que a tribulação produz perseverança, a perseverança experiência, e a experiência esperança. Não se trata de romantizar a dor, mas de reconhecer que Deus não a desperdiça.

  1. A dor da perda de um filho

A morte de um filho é uma das dores mais profundas que um ser humano pode experimentar. A Bíblia não tenta minimizar essa dor. O próprio Senhor Jesus chorou diante do túmulo de Lázaro, conforme João 11:35, mesmo sabendo que o ressuscitaria. Isso nos mostra que o choro não é falta de fé, mas expressão legítima de amor e de perda.

O salmista declara: “Preciosa é à vista do Senhor a morte dos seus santos” (Salmos 116:15). Isso não significa que a morte seja boa em si mesma, mas que Deus não trata a vida dos seus filhos com indiferença. O apóstolo Paulo afirma que, para os que estão em Cristo, partir e estar com Cristo é incomparavelmente melhor, conforme Filipenses 1:23. Essa verdade não elimina a dor da separação, mas oferece esperança quanto ao destino daquele que partiu no Senhor.

  1. Deus permite ou envia o mal e o pecado?

A Escritura distingue claramente entre a origem do pecado e a soberania de Deus. Deus não é o autor do pecado, nem da maldade moral. Tiago 1:13 afirma que Deus não pode ser tentado pelo mal e a ninguém tenta. O pecado entrou no mundo pela desobediência do homem, conforme Romanos 5:12.

Contudo, Deus é soberano até mesmo sobre aquilo que Ele não aprova moralmente. Ele permite o mal, mas nunca perde o controle da história. Um dos textos mais claros sobre isso é Gênesis 50:20, quando José diz a seus irmãos: “Vós intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem”. O mal foi real, a dor foi real, mas Deus operou acima e através disso para cumprir Seus propósitos.

No Novo Testamento, vemos o maior exemplo disso na cruz. Atos 2:23 afirma que o Senhor Jesus foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, e ainda assim foi morto por mãos de homens injustos. O pecado humano foi responsável; a soberania divina estava presente; e o resultado foi a nossa redenção.

  1. O que nos sustenta quando não há respostas completas?

A Bíblia não promete que entenderemos todas as razões nesta vida. Deuteronômio 29:29 declara que as coisas encobertas pertencem ao Senhor, mas as reveladas nos pertencem. O que nos é revelado é suficiente para confiar, mesmo quando não compreendemos.

O Senhor Jesus assegurou que nenhuma dor é ignorada por Deus. Ele afirmou que nem um pardal cai por terra sem o consentimento do Pai e que até os cabelos da nossa cabeça estão contados, conforme Mateus 10:29–30. Isso não explica tudo, mas garante que nada escapa ao cuidado divino.

Por fim, a esperança cristã não está na ausência de sofrimento nesta vida, mas na certeza de que ele não é o capítulo final. Apocalipse 21:4 declara que Deus enxugará dos olhos toda lágrima, e que não haverá mais morte, nem pranto, nem dor. Essa promessa não anula a dor presente, mas dá sentido à perseverança.

Que o Deus de toda consolação, que nos consola em toda a nossa tribulação, conforme 2 Coríntios 1:3–4, fortaleça o seu coração, conforte sua família e sustente sua fé, mesmo quando as perguntas permanecem sem resposta completa.

Receba meu abraço fraterno em Cristo.

Josué Matos

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