Alguém que me escreveu no YouTube:
Perdoe-me, acho que não fui claro na minha colocação. Eu não disse que você havia afirmado que Jesus tinha pressa, mas eu quis dizer que a pressa fica evidente ao ler João 20:17. Porém, a sua resposta para esse trecho que diz: ‘Não me detenhas’ seria porque Ele ainda não havia sido glorificado, ao passo que eu disse que isso não faria sentido, pois, após deixar Maria Madalena, Jesus volta a aparecer no mesmo dia à tarde; depois, só aparece oito dias depois, vindo a ser glorificado quase 40 dias depois, conforme você mesmo afirma.
Então, podemos concluir que a pressa de Jesus não era por causa daquele glorioso dia em que Ele sobe na presença de todos, mas para nos deixar claro que Ele ainda não havia se apresentado a Deus, fato esse que pode ter acontecido logo após deixar Maria.
Pois bem, João 20:17 deixa claro o seguinte: o espírito só sobe após a ressurreição, e não antes dela. E isso fica claro quando Paulo afirma, em 1 Coríntios 15, que, sem a ressurreição, estaríamos perdidos. Ora, se o espírito já está com Deus, como, pois, estaríamos perdidos sem a ressurreição?
Em relação a Cristo assumir diferentes corpos, nós sabemos que, para Ele, tudo é possível, pois foi Ele quem ressuscitou Lázaro num corpo carnal; porém, no nosso caso, ressuscitar-nos-á num corpo espiritual ou em espírito.
Assim, voltando aos dois discípulos no caminho de Emaús, se, por um lado, Lucas afirma que era como se eles tivessem escamas nos olhos, por outro, Marcos diz que Jesus aparece em outra forma, o que deixa entender que Ele pode ter aparecido em outro corpo, não reconhecido pelos dois. Veja:
‘Depois disso, Jesus se apresentou com outra aparência a dois discípulos que iam caminhando para o campo. Eles voltaram e foram contar isso aos outros discípulos, e estes não acreditaram no que os dois disseram.’ (Marcos 16:12-13, versão Gateway).
Minha Resposta:
Obrigado pelo esclarecimento. Agora compreendi melhor o seu argumento. Entretanto, creio que precisamos separar alguns assuntos que estão sendo colocados juntos: a ascensão do Senhor Jesus, o destino do Seu espírito quando morreu, a necessidade da ressurreição e a natureza do corpo ressurreto.
João 20:17 não ensina uma ascensão secreta naquele mesmo dia
O ponto principal está nas próprias palavras do Senhor:
“Não me detenhas, porque ainda não subi para meu Pai; mas vai para meus irmãos e dize-lhes que eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus” (João 20:17).
A expressão “não me detenhas” não significa necessariamente: “Não me toque porque preciso subir imediatamente ao céu”. A ideia é de não continuar segurando, prendendo-se ou apegando-se fisicamente a Ele.
Isso fica ainda mais claro porque o próprio Senhor permitiu contato físico depois da ressurreição.
Em Mateus 28:9, as mulheres “abraçaram os seus pés e o adoraram”. Em Lucas 24:39, o Senhor disse:
“Vede as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo; apalpai-me e vede, pois um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho.”
E, em João 20:27, disse a Tomé:
“Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; e chega a tua mão e põe-na no meu lado.”
Portanto, João 20:17 não pode significar simplesmente que Maria estava proibida de tocar no corpo de Cristo porque Ele ainda não havia se apresentado ao Pai.
Há também outro problema. Não encontramos nenhum texto das Escrituras afirmando que Cristo subiu secretamente ao céu naquela manhã, apresentou-Se ao Pai e depois voltou à terra.
Ao contrário, a ascensão é apresentada nas Escrituras como um acontecimento definido, ocorrido depois do período em que Cristo ressurreto apareceu aos discípulos.
Lucas escreve:
“Aos quais também, depois de ter padecido, se apresentou vivo, com muitas e infalíveis provas, sendo visto por eles por espaço de quarenta dias” (Atos dos Apóstolos 1:3).
Depois:
“E, quando dizia isto, vendo-o eles, foi elevado às alturas, e uma nuvem o recebeu, ocultando-o a seus olhos” (Atos dos Apóstolos 1:9).
Assim, não vejo fundamento bíblico suficiente para introduzir outra ascensão entre João 20:17 e João 20:19. A Bíblia registra uma ascensão corporal de Cristo ao céu depois das Suas aparições durante aqueles quarenta dias.
O espírito de Cristo foi ao Pai quando Ele morreu
Aqui está, talvez, o ponto principal da nossa diferença.
João 20:17 não diz: “Meu espírito ainda não foi ao Pai”. Cristo diz:
“Ainda não subi para meu Pai.”
Ascensão e entrega do espírito não são a mesma coisa.
Na cruz, as últimas palavras do Senhor são muito importantes:
“Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito” (Lucas 23:46).
Imediatamente depois, Lucas acrescenta:
“E, havendo dito isto, expirou.”
Portanto, não me parece possível usar João 20:17 para afirmar que o espírito de Cristo somente foi ao Pai depois da ressurreição, porque Lucas 23:46 indica exatamente o contrário.
Isso também está de acordo com a promessa feita ao ladrão:
“Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso” (Lucas 23:43).
Observe a palavra “hoje”.
O corpo de Cristo foi colocado no sepulcro, mas isso não significa que Sua existência pessoal cessou até a ressurreição. O Senhor entregou Seu espírito ao Pai.
Encontramos algo semelhante na morte de Estêvão:
“Senhor Jesus, recebe o meu espírito” (Atos dos Apóstolos 7:59).
Portanto, precisamos distinguir entre o estado da pessoa após a morte e a futura ressurreição do corpo.
Se o espírito está com Cristo, por que ainda precisamos da ressurreição?
Essa é uma excelente pergunta, mas 1 Coríntios 15 não ensina que a existência consciente do crente começa somente na ressurreição.
Paulo ensina claramente:
“Mas temos confiança e desejamos, antes, deixar este corpo, para habitar com o Senhor” (2 Coríntios 5:8).
Observe a distinção: deixar o corpo e estar com o Senhor.
Em Filipenses 1:23, Paulo também escreve:
“Tendo desejo de partir e estar com Cristo, porque isto é ainda muito melhor.”
Se a pessoa permanecesse inexistente ou inconsciente até a ressurreição, seria difícil compreender por que Paulo consideraria “partir e estar com Cristo” algo “muito melhor”.
A ressurreição é necessária porque a salvação que Deus planejou para o homem não consiste simplesmente na sobrevivência do espírito ou da alma.
Deus criou o homem como um ser completo. A morte produz uma separação anormal entre a parte material e a parte imaterial do homem. A ressurreição desfaz definitivamente essa obra da morte.
Por isso Paulo escreve:
“Esperando a adoção, a saber, a redenção do nosso corpo” (Romanos 8:23).
Portanto, quando um salvo morre, ele está com Cristo, mas ainda aguarda a ressurreição do seu corpo.
É exatamente por isso que 1 Tessalonicenses 4:16 diz:
“Os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro.”
Depois haverá a reunião definitiva:
“E assim estaremos sempre com o Senhor” (1 Tessalonicenses 4:17).
Então, por que Paulo diz que sem a ressurreição estaríamos perdidos?
Porque, em 1 Coríntios 15, Paulo está demonstrando as consequências de negar a ressurreição.
Ele não está dizendo que a alma ou o espírito permanecem no cadáver até a ressurreição.
O argumento começa em 1 Coríntios 15:12:
“Ora, se se prega que Cristo ressuscitou dos mortos, como dizem alguns dentre vós que não há ressurreição de mortos?”
Paulo então demonstra a consequência lógica:
“E, se não há ressurreição de mortos, também Cristo não ressuscitou” (1 Coríntios 15:13).
E:
“E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados” (1 Coríntios 15:17).
Este é o ponto.
Se não existe ressurreição, então Cristo também não ressuscitou. Se Cristo não ressuscitou, o Evangelho é falso, a fé cristã é vã e não existe salvação.
Mas Paulo imediatamente declara:
“Mas, agora, Cristo ressuscitou dos mortos e foi feito as primícias dos que dormem” (1 Coríntios 15:20).
A ressurreição de Cristo é a garantia da nossa própria ressurreição.
Portanto, não há qualquer contradição entre dizer que o crente que morre está com Cristo e afirmar que ele ainda precisa da ressurreição.
“Corpo espiritual” não significa “ser apenas espírito”
Aqui também precisamos fazer uma distinção importante.
Paulo escreve:
“Semeia-se corpo natural, ressuscitará corpo espiritual. Se há corpo natural, há também corpo espiritual” (1 Coríntios 15:44).
Observe que Paulo não diz:
“Semeia-se um corpo e ressuscita um espírito.”
Ele diz:
“ressuscitará corpo espiritual.”
Continua sendo corpo.
“Espiritual” descreve a natureza e a condição daquele corpo, não significa que o corpo deixe de ser corpo e se transforme simplesmente em espírito.
Isso fica absolutamente claro no próprio Senhor Jesus ressuscitado.
Ele disse:
“Um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho” (Lucas 24:39).
Cristo ressurreto tinha um corpo verdadeiro. Ele podia ser visto, tocado e reconhecido. Ele também comeu diante dos discípulos:
“Então eles apresentaram-lhe parte de um peixe assado e um favo de mel; o que ele tomou e comeu diante deles” (Lucas 24:42-43).
Todavia, aquele corpo não estava mais sujeito às limitações da mortalidade.
Assim também será conosco.
Paulo explica:
“Assim também a ressurreição dos mortos. Semeia-se o corpo em corrupção; ressuscitará em incorrupção. Semeia-se em ignomínia; ressuscitará em glória. Semeia-se em fraqueza; ressuscitará com vigor” (1 Coríntios 15:42-43).
E Filipenses 3:21 acrescenta que Cristo:
“Transformará o nosso corpo abatido, para ser conforme o seu corpo glorioso.”
Portanto, não seremos ressuscitados “em espírito”, no sentido de deixarmos de possuir corpo. Receberemos um corpo ressurreto, glorificado, incorruptível e imortal.
Lázaro e Cristo não tiveram o mesmo tipo de ressurreição
Também precisamos fazer essa distinção.
Lázaro foi trazido novamente à vida física, mas voltou à condição mortal. Por isso saiu do sepulcro ainda:
“Ligado de pés e mãos com faixas” (João 11:44).
Lázaro voltou à vida que possuía anteriormente e posteriormente morreu.
A ressurreição de Cristo é diferente.
Cristo:
“Ressuscitado dos mortos, já não morre; a morte não mais terá domínio sobre ele” (Romanos 6:9).
Por isso Cristo é chamado:
“As primícias dos que dormem” (1 Coríntios 15:20).
Sua ressurreição inaugura uma nova ordem.
E quanto aos discípulos no caminho de Emaús?
Aqui precisamos ler Lucas e Marcos juntos, e não fazer um texto eliminar o outro.
Lucas diz:
“Os olhos deles estavam como que fechados, para que o não conhecessem” (Lucas 24:16).
Mais tarde:
“Abriram-se-lhes, então, os olhos, e o conheceram” (Lucas 24:31).
Portanto, Lucas atribui o não reconhecimento deles a uma ação sobre a percepção dos próprios discípulos.
Marcos 16:12 acrescenta:
“E, depois, manifestou-se em outra forma a dois deles que iam de caminho para o campo.”
Isso pode indicar uma aparência diferente, mas não nos autoriza a concluir que Cristo assumiu “outro corpo”.
O texto diz “outra forma” ou “outra aparência”; não diz “outro corpo”.
Essa distinção é importante.
O próprio relato de Lucas identifica continuamente a Pessoa que caminhava com eles como Jesus:
“O próprio Jesus se aproximou e ia com eles” (Lucas 24:15).
Não diz que Jesus criou ou assumiu outro corpo.
Além disso, quando apareceu aos discípulos naquele mesmo dia, fez questão de demonstrar a identidade e continuidade do Seu corpo:
“Vede as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo” (Lucas 24:39).
“Sou eu mesmo” é uma expressão muito significativa.
Não era outro Cristo nem outro corpo assumido temporariamente. Era o mesmo Jesus que havia sido crucificado, agora ressuscitado e glorificado.
As marcas das Suas mãos, pés e lado confirmavam essa continuidade (João 20:20,27).
A ressurreição não é uma sucessão de corpos diferentes
Se dissermos que Cristo simplesmente assumia corpos diferentes depois da ressurreição, enfraquecemos justamente uma das grandes verdades que os Evangelhos procuram demonstrar: o túmulo estava vazio porque o corpo que havia sido crucificado foi ressuscitado.
Quando as mulheres chegaram ao sepulcro, receberam a mensagem:
“Não está aqui, porque já ressuscitou” (Mateus 28:6).
Se o corpo colocado no túmulo permanecesse ali e Cristo simplesmente assumisse outro, isso não seria ressurreição daquele corpo.
Da mesma maneira, Pedro declara acerca de Cristo:
“Nem a sua carne viu a corrupção” (Atos dos Apóstolos 2:31).
A identidade corporal é preservada, embora a condição do corpo seja completamente transformada.
É exatamente a figura empregada por Paulo em 1 Coríntios 15:36-38. Uma semente é colocada na terra e dela surge algo numa condição muito superior, porém existe continuidade de identidade.
O que significa, então, “não me detenhas”?
O sentido parece estar ligado à nova relação que estava começando.
Maria conhecera Cristo segundo Sua presença física aqui na terra. Quando percebeu que Ele estava vivo, naturalmente desejou segurá-Lo, como se a antiga convivência fosse simplesmente continuar.
Mas não seria assim.
Cristo ressuscitou e estava caminhando para Sua ascensão ao Pai. Uma nova ordem estava começando.
Por isso Ele disse:
“Não me detenhas.”
Em outras palavras, Maria não deveria pensar que a relação com Ele continuaria simplesmente como antes da cruz. Ele subiria ao Pai, e os discípulos passariam a conhecê-Lo numa nova relação, associada à Sua posição celestial.
Isso combina perfeitamente com o que Ele já havia ensinado antes da cruz:
“Convém-vos que eu vá; porque, se eu não for, o Consolador não virá a vós; mas, se eu for, enviar-vo-lo-ei” (João 16:7).
A sequência bíblica permanece muito clara
Podemos resumir assim:
Cristo morreu → entregou Seu espírito ao Pai (Lucas 23:46).
Seu corpo foi colocado no sepulcro (João 19:40-42).
Ao terceiro dia, Ele ressuscitou corporalmente (Lucas 24:6; 1 Coríntios 15:4).
Durante quarenta dias apresentou-Se vivo aos discípulos com muitas provas (Atos dos Apóstolos 1:3).
Depois ascendeu corporal e visivelmente ao céu (Atos dos Apóstolos 1:9-11).
Foi exaltado à direita de Deus (Atos dos Apóstolos 2:32-33).
Não precisamos inserir entre esses acontecimentos uma ascensão secreta na manhã da ressurreição, porque nenhum texto bíblico afirma que ela ocorreu.
Da mesma forma, quanto ao salvo, a sequência bíblica é:
Ele morre → deixa o corpo e está com Cristo (2 Coríntios 5:8; Filipenses 1:23).
Seu corpo aguarda a ressurreição.
Na vinda do Senhor, os mortos em Cristo ressuscitarão (1 Tessalonicenses 4:16).
O corpo será transformado em incorruptibilidade e glória (1 Coríntios 15:42-44,51-53).
Finalmente, estaremos completos e para sempre com o Senhor (1 Tessalonicenses 4:17).
Portanto, concordo que Marcos 16:12 mostra uma mudança na aparência sob a qual Cristo Se manifestou aos discípulos de Emaús. O que não creio que possamos concluir é que se tratava de “outro corpo”. Também concordo plenamente que 1 Coríntios 15 torna a ressurreição absolutamente indispensável. Porém, isso não significa que o espírito do salvo permaneça no sepulcro aguardando a ressurreição. A Escritura distingue claramente o estado consciente com Cristo após a morte da futura ressurreição do corpo.
A esperança cristã não é simplesmente que nosso espírito sobreviva à morte. É muito maior: Cristo venceu a própria morte, ressuscitou corporalmente e, por causa da Sua vitória, também ressuscitará os Seus. Por isso Paulo encerra essa grande revelação dizendo:
“Tragada foi a morte na vitória. Onde está, ó morte, o teu aguilhão? Onde está, ó inferno, a tua vitória?” (1 Coríntios 15:54-55).
A ressurreição é a vitória completa de Deus sobre a morte.
Josué Matos