Alguém que me escreveu no WhatsApp:
Algo que chama muita atenção no contexto judaico é que a exceção no cometimento da ilicitude sexual é por parte da mulher e não do homem. Isso já denota que o casamento não se consumaria se a mulher não fosse virgem, pelo que está na Lei mosaica, que vigorava sobre o povo judeu e não sobre os gentios...
Minha Resposta:
Há, realmente, um elemento muito importante nessa observação. Entretanto, eu faria algumas considerações para que possamos compreender melhor o contexto de Mateus 19:9 e, principalmente, não concluir que a virgindade fosse uma exigência moral apenas para a jovem israelita.
A Lei realmente dava grande importância à virgindade da jovem
Deuteronômio 22:13-21 mostra claramente que se esperava que a jovem que chegasse ao casamento fosse virgem.
O texto trata de um homem que se casava com uma mulher e posteriormente a acusava de não ter sido virgem quando a recebeu. Era uma acusação extremamente séria e não poderia ser feita levianamente.
Se a acusação fosse falsa, o homem era castigado, multado e perdia o direito de repudiá-la:
“E ela lhe ficará por mulher; em todos os seus dias não a poderá despedir” (Deuteronômio 22:19).
Por outro lado, se ficasse comprovado que a jovem havia praticado imoralidade enquanto ainda estava na casa de seu pai, a Lei considerava aquilo um pecado gravíssimo.
Portanto, não há dúvida de que a virgindade antes do casamento possuía enorme importância dentro da sociedade de Israel.
Isso também ajuda a compreender por que a descoberta de imoralidade durante o período de desposamento era uma questão tão séria.
Mas a pureza sexual não era exigida somente da mulher
Aqui precisamos fazer uma ressalva importante.
Quando lemos Deuteronômio 22:13-21 isoladamente, pode parecer que toda a responsabilidade pela virgindade estava colocada sobre a mulher. Mas continuando a leitura do mesmo capítulo percebemos que Deus também responsabilizava severamente o homem por sua conduta sexual.
A Lei não concedia ao homem solteiro liberdade para manter relações sexuais antes do casamento enquanto exigia virgindade da mulher.
Muito pelo contrário.
Veja, por exemplo, Deuteronômio 22:28-29. Se um homem tivesse relações com uma jovem virgem não desposada, ele passava a ter uma responsabilidade muito séria diante dela e de sua família:
“Então o homem que se deitou com ela dará ao pai da moça cinquenta siclos de prata; e porquanto a humilhou, lhe será por mulher; não a poderá despedir em todos os seus dias” (Deuteronômio 22:29).
Êxodo 22:16-17 apresenta igualmente o princípio da responsabilidade do homem que seduzisse uma virgem não desposada.
Portanto, um jovem israelita não poderia raciocinar: “A minha futura esposa precisa ser virgem, mas eu posso ter relações com outras mulheres antes de me casar.”
A Lei não lhe concedia essa liberdade.
Se ele tivesse relações com uma jovem solteira e virgem, isso poderia trazer sobre ele a obrigação matrimonial, além das responsabilidades financeiras estabelecidas pela Lei.
Isso significa que a sexualidade masculina também estava debaixo da autoridade de Deus.
Se a mulher fosse casada, a situação era ainda mais grave
Aqui sua observação também está correta.
Deuteronômio 22:22 estabelece:
“Quando um homem for achado deitado com mulher casada com marido, então ambos morrerão, o homem que se deitou com a mulher e a mulher; assim tirarás o mal de Israel.”
Observe que Deus não pune somente a mulher.
“Ambos morrerão.”
O homem não podia alegar que a responsabilidade era dela. Se ambos participaram voluntariamente do adultério, ambos eram culpados.
Levítico 20:10 estabelece a mesma coisa:
“Também o homem que adulterar com a mulher de outro, havendo adulterado com a mulher do seu próximo, certamente morrerá o adúltero e a adúltera.”
Portanto, moralmente, não existiam dois padrões diante de Deus: um padrão de castidade para a mulher e outro mais permissivo para o homem.
O homem também precisava conservar-se sexualmente puro.
O caso da jovem desposada é especialmente importante para Mateus 19
Deuteronômio 22 continua:
“Quando houver moça virgem, desposada com algum homem...” (Deuteronômio 22:23).
Veja as duas características:
ela era “virgem”;
e estava “desposada”.
Se ela voluntariamente tivesse relações com outro homem, tanto ela quanto aquele homem seriam culpados (Deuteronômio 22:23-24).
Isso nos aproxima bastante do ambiente que encontramos no primeiro capítulo de Mateus.
Maria estava desposada com José:
“Ora, o nascimento de Jesus Cristo foi assim: Estando Maria, sua mãe, desposada com José, antes de se ajuntarem, achou-se ter concebido do Espírito Santo” (Mateus 1:18).
A expressão “antes de se ajuntarem” é muito importante.
O casamento ainda não havia sido consumado.
Entretanto, José já é chamado de “seu marido”:
“Então José, seu marido, como era justo e a não queria infamar, intentou deixá-la secretamente” (Mateus 1:19).
E o anjo chama Maria de “tua mulher”:
“José, filho de Davi, não temas receber a Maria, tua mulher” (Mateus 1:20).
Isso demonstra uma particularidade do casamento judaico que precisamos considerar quando chegamos a Mateus 19.
O desposamento já estabelecia um compromisso legal muito mais forte do que aquilo que atualmente chamamos simplesmente de namoro ou noivado. Eles já podiam ser chamados marido e mulher, embora ainda não tivessem se ajuntado e o casamento não estivesse consumado.
Por isso José pensou em “deixá-la”.
Ele acreditava, naquele momento, que havia ocorrido imoralidade sexual durante o desposamento.
Depois Deus revelou-lhe que Maria não havia cometido pecado algum, porque aquilo que nela estava gerado era do Espírito Santo.
É nesse contexto que entendemos melhor a cláusula de Mateus 19:9
O Senhor Jesus declarou:
“Eu vos digo, porém, que qualquer que repudiar sua mulher, não sendo por causa de fornicação, e casar com outra, comete adultério” (Mateus 19:9).
A palavra traduzida por “fornicação” é porneía, enquanto “adultério” corresponde a moicheía.
Essa distinção merece atenção.
Dentro da compreensão que temos adotado, a exceção refere-se à imoralidade sexual descoberta no contexto anterior à consumação do casamento, durante aquele vínculo judaico do desposamento.
Por isso Mateus é particularmente importante.
No início do Evangelho, Mateus já nos apresentou exatamente uma situação na qual um homem é chamado “marido”, uma mulher é chamada “mulher”, existe possibilidade de repudiá-la e, contudo, eles ainda não haviam se ajuntado.
Mateus 1:18-20 fornece, portanto, um excelente pano de fundo para compreendermos Mateus 5:31-32 e Mateus 19:9.
Mas eu faria uma pequena correção nesta frase: “o casamento não se consumaria se a mulher não fosse virgem”
Eu compreendo o que você quis dizer, mas colocaria de outra maneira.
Não podemos estabelecer como regra absoluta que qualquer ausência de virgindade automaticamente tornava impossível todo casamento posterior.
A própria Lei mostra situações mais complexas.
Por exemplo, havia viúvas que legitimamente podiam casar novamente. Rute é um exemplo evidente. Ela havia sido casada com Malom e, depois da morte dele, casou-se legitimamente com Boaz (Rute 4:9-13).
A Lei também estabelecia o casamento levirato. Se um homem morresse sem filhos, havia circunstâncias em que seu irmão deveria tomar a viúva para suscitar descendência ao falecido (Deuteronômio 25:5-10).
Portanto, não era a condição física da virgindade, considerada isoladamente, que determinava se toda mulher podia ou não casar.
O que devemos destacar em Deuteronômio 22 é a imoralidade sexual praticada antes do casamento e ocultada no momento de sua consumação.
Isso é diferente de uma mulher que legitimamente havia sido casada e posteriormente ficou viúva.
E aqui entra a questão dos sacerdotes
Também é importante fazer uma distinção.
Levítico 21:7 determina acerca dos sacerdotes:
“Não tomarão mulher prostituta ou desonrada, nem tomarão mulher repudiada de seu marido; pois o sacerdote é santo a seu Deus.”
Mas não devemos dizer que todo sacerdote comum estava necessariamente proibido de casar com qualquer viúva.
A restrição mais rigorosa aparece especificamente para o sumo sacerdote.
Levítico 21:13-14 diz:
“E ele tomará por esposa uma mulher na sua virgindade. Viúva, ou repudiada, ou desonrada, ou prostituta, estas não tomará, mas virgem do seu povo tomará por mulher.”
Portanto, para o sumo sacerdote, a exigência era expressa: deveria casar-se com uma virgem israelita. A viúva também estava excluída nesse caso.
Essa distinção é importante para não atribuirmos a todos os sacerdotes exatamente a mesma exigência dada ao sumo sacerdote.
Isso, porém, não significa que a Lei exigisse expressamente que todo noivo apresentasse prova física de virgindade
Aqui também precisamos ser muito precisos.
Podemos afirmar seguramente que Deus exigia castidade sexual tanto do homem quanto da mulher.
Mas não encontramos uma disposição paralela a Deuteronômio 22:13-21 dizendo que todo homem, antes de casar, precisava apresentar uma “prova de virgindade” equivalente àquela discutida no caso da jovem.
Portanto, devemos distinguir duas coisas:
a exigência moral de castidade, que alcançava ambos;
e determinadas disposições jurídicas da Lei, que não eram idênticas para homens e mulheres.
Isso é importante porque senão acabamos dizendo mais do que o próprio texto bíblico diz.
O jovem israelita deveria chegar puro ao casamento não porque existisse necessariamente um procedimento judicial idêntico para comprovar sua virgindade, mas porque toda relação sexual ilícita que ele tivesse antes do casamento já constituiria pecado e poderia trazer consequências previstas pela própria Lei.
Portanto, o homem que chegasse casto ao casamento também seria virgem
Nesse sentido, sua observação ajuda bastante.
Se um jovem obedecesse aos mandamentos de Deus acerca da sexualidade e nunca tivesse sido casado, naturalmente chegaria virgem ao casamento.
Se tivesse relações sexuais com uma jovem solteira, já haveria consequências.
Se adulterasse com uma mulher casada, havia pena para ambos.
Se tivesse relações com uma jovem desposada e ela participasse voluntariamente, novamente a Lei responsabilizava ambos.
Ou seja, a Lei não dava ao jovem uma espécie de período de liberdade sexual antes do casamento.
A virgindade feminina aparece de maneira mais explícita em determinadas leis porque aquelas leis tratam especificamente da condição da noiva e da legitimidade de uma acusação feita contra ela. Mas daí não podemos concluir que Deus não exigisse pureza do noivo.
Isso também nos ajuda a compreender que o assunto de Mateus 19 não é uma inferioridade moral da mulher
Quando o Senhor diz:
“Qualquer que repudiar sua mulher...”
Ele está falando dentro de determinado contexto histórico e jurídico.
Não está ensinando que somente a mulher pode cometer pecado sexual ou que a castidade masculina seja irrelevante.
Aliás, o próprio Senhor já havia colocado o homem debaixo de um padrão extraordinariamente elevado em Mateus 5:27-28:
“Ouvistes que foi dito aos antigos: Não cometerás adultério. Eu, porém, vos digo que qualquer que atentar numa mulher para a cobiçar já em seu coração cometeu adultério com ela.”
Cristo não suaviza a responsabilidade masculina.
Ele a aprofunda.
Não basta ao homem dizer: “Nunca fui descoberto praticando adultério.”
Cristo alcança o próprio coração.
Marcos deixa ainda mais evidente a responsabilidade dos dois lados
Em Marcos 10, quando o Senhor explica particularmente o assunto aos discípulos, Ele aplica o princípio aos dois:
“Qualquer que deixar a sua mulher e casar com outra adultera contra ela. E, se a mulher deixar a seu marido e casar com outro, adultera” (Marcos 10:11-12).
Portanto, diante de Deus, a fidelidade matrimonial é exigida de ambos.
Paulo mantém exatamente essa reciprocidade em 1 Coríntios 7:10-11.
A esposa não deve apartar-se do marido.
O marido não deve deixar a esposa.
Se ocorrer separação, a orientação não é procurar outro casamento, mas permanecer sem casar ou reconciliar-se.
Tudo isso fortalece, e não enfraquece, a compreensão da exceção de Mateus
A particularidade da cláusula de Mateus não deve ser interpretada como se Cristo estivesse dizendo:
“Se depois de muitos anos de casamento a mulher cometer adultério, o marido está livre para desfazer aquilo que Deus ajuntou e casar novamente.”
Isso entraria em dificuldade com a declaração que Ele acabara de fazer:
“Assim não são mais dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem” (Mateus 19:6).
Também entraria em dificuldade com Marcos 10:11-12, Lucas 16:18, Romanos 7:2-3 e 1 Coríntios 7:10-11.
A compreensão da exceção dentro do contexto judaico do desposamento harmoniza essas passagens.
Antes da consumação, poderia ser descoberta uma imoralidade sexual que tornava legítima a ruptura daquele desposamento.
Foi exatamente a situação que José pensou estar enfrentando em Mateus 1.
Depois da consumação, porém, temos o princípio estabelecido pelo próprio Cristo:
“Não são mais dois, mas uma só carne.”
Há, portanto, algo muito significativo na escolha das palavras
Em Mateus 19:9, Cristo menciona porneía como exceção e depois diz que aquele que casa novamente, fora dessa exceção, comete moicheía, adultério.
Se toda a cláusula estivesse simplesmente tratando do adultério dentro de um casamento já consumado, seria natural perguntarmos por que o Senhor não empregou diretamente a ideia de adultério na própria exceção.
A distinção das palavras, somada ao contexto judaico de Mateus, ao episódio de José e Maria e à ausência da cláusula em Marcos e Lucas, fornece elementos importantes para compreendermos a exceção como pertencente à situação particular do desposamento.
Então eu concordaria com a essência da sua observação, mas ampliaria desta maneira
A Lei de Moisés realmente colocava grande importância sobre a virgindade da jovem israelita que chegava ao casamento, e Deuteronômio 22 demonstra isso claramente.
Porém, não devemos concluir que Deus exigia castidade apenas dela.
A pureza sexual também era exigida do homem.
Se ele se envolvesse sexualmente com uma virgem solteira, assumia graves responsabilidades perante ela.
Se adulterasse com uma mulher casada, ambos eram culpados.
Se mantivesse relações com uma jovem desposada que consentisse no ato, ambos estavam sujeitos ao julgamento previsto pela Lei.
Portanto, um jovem israelita fiel à Lei também deveria conservar sua pureza sexual até o casamento.
Ao mesmo tempo, precisamos distinguir a exigência moral de castidade das diferentes normas jurídicas aplicadas a homens e mulheres na sociedade israelita.
E, finalmente, é precisamente esse ambiente judaico de virgindade, desposamento, compromisso legal anterior à consumação e possibilidade de ruptura desse compromisso por imoralidade sexual que nos ajuda a compreender a cláusula de exceção registrada exclusivamente por Mateus.
Não se trata, portanto, de estabelecer um privilégio para o homem casado abandonar sua esposa depois que ambos foram unidos por Deus. Trata-se de compreender uma circunstância judaica anterior à consumação matrimonial.
Depois de constituído o casamento, permanece a palavra do Senhor:
“O que Deus ajuntou não o separe o homem” (Mateus 19:6).
E a doutrina apostólica confirma:
“Porque a mulher que está sujeita ao marido, enquanto ele viver, está-lhe ligada pela lei” (Romanos 7:2).
Assim, tanto antes como depois do casamento, o padrão divino nunca foi dois pesos e duas medidas: pureza para a mulher e liberdade sexual para o homem. Deus exige santidade de ambos. E no casamento exige fidelidade de ambos.
Josué Matos
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