Alguém que me escreveu no WhatsApp:
Graça, irmão Josué!
Um irmão me perguntou e necessito da sua orientação.
A comissão dada aos discípulos foi específica para Israel? Nesse caso, será pregada novamente após o Arrebatamento?
E a dispensação de Paulo foi específica para a Igreja?
Pergunta: No Reino, as pessoas são submissas ao Rei; na Graça, não temos um Rei, e sim um Pai. Confere?
Minha Respasta:
Sua pergunta é muito interessante, pois envolve algumas distinções importantes no estudo das Escrituras, especialmente no que diz respeito a Israel, à Igreja, ao Reino de Deus e à presente dispensação da Graça.
Entretanto, precisamos ter cuidado para não fazer uma separação tão acentuada entre essas verdades a ponto de criar uma oposição que a própria Bíblia não estabelece.
Vou procurar responder por partes, porque há elementos corretos no seu raciocínio, mas a última afirmação necessita de um ajuste importante.
1. A comissão dada aos discípulos foi especificamente para Israel?
Primeiramente, precisamos distinguir duas comissões que encontramos no Evangelho segundo Mateus.
Em Mateus 10:5-7, quando o Senhor Jesus enviou os doze discípulos durante Seu ministério terreno, deu-lhes uma ordem bastante específica:
"Não ireis pelo caminho das gentes, nem entrareis em cidade de samaritanos; mas ide, antes, às ovelhas perdidas da casa de Israel; e, indo, pregai, dizendo: É chegado o reino dos céus."
Observe que essa comissão tinha um caráter expressamente judaico. Os discípulos não deveriam ir aos gentios nem aos samaritanos, mas exclusivamente às ovelhas perdidas da casa de Israel.
Isso estava relacionado à apresentação do Messias prometido à nação de Israel e à proclamação da proximidade do Reino dos Céus.
Entretanto, quando chegamos a Mateus 28:18-20, encontramos uma comissão com características diferentes.
O Senhor Jesus já havia morrido e ressuscitado. Agora, apresentando-Se com toda a autoridade recebida, declarou:
"É-me dado todo o poder no céu e na terra. Portanto, ide, ensinai todas as nações..."
Observe a mudança: em Mateus 10, a missão estava restrita a Israel; em Mateus 28, o alcance é ampliado para todas as nações.
Portanto, não seria correto afirmar que toda a comissão dada aos discípulos era exclusivamente destinada a Israel.
Precisamos distinguir a missão restrita de Mateus 10 da comissão mais ampla de Mateus 28.
2. Essa pregação será retomada depois do Arrebatamento?
Aqui entramos no campo profético.
A Igreja, que é o Corpo de Cristo, será arrebatada antes do período da Grande Tribulação, conforme encontramos em Primeira Tessalonicenses 4:13-18 e na promessa de Apocalipse 3:10.
Após o Arrebatamento, Deus retomará Seu trato profético com Israel, sem que isso signifique que Israel tenha deixado de existir durante a presente dispensação.
O capítulo 9 de Daniel apresenta as setenta semanas determinadas sobre o povo de Daniel e sobre sua santa cidade, isto é, Israel e Jerusalém (Daniel 9:24).
A última dessas semanas ainda aguarda seu cumprimento profético.
Durante esse período futuro, haverá novamente a proclamação do Evangelho do Reino.
O próprio Senhor Jesus declarou:
"E este evangelho do reino será pregado em todo o mundo, em testemunho a todas as gentes, e então virá o fim." (Mateus 24:14).
Esse versículo está inserido no contexto profético de Mateus 24, que trata dos acontecimentos relacionados à tribulação e à manifestação futura do Filho do Homem.
Em Apocalipse 7, encontramos os 144 mil assinalados dentre as tribos de Israel. O mesmo capítulo apresenta uma grande multidão de todas as nações, tribos, povos e línguas, que vem da grande tribulação.
Embora o texto não declare expressamente que todos esses convertidos sejam resultado exclusivo da pregação dos 144 mil, as passagens mostram que haverá um testemunho divino durante aquele período.
Assim, dentro da compreensão dispensacional das Escrituras, entendemos que, depois do Arrebatamento, a proclamação do Reino terá novamente um lugar destacado no programa profético de Deus.
Contudo, precisamos esclarecer algo: isso não significa que haverá outro Salvador ou outro meio de salvação.
Em todas as dispensações, a salvação depende da obra de Cristo. Ninguém jamais foi salvo por méritos próprios, e ninguém será salvo independentemente do sangue do Cordeiro.
Apocalipse 7:14 declara que aqueles que vieram da grande tribulação lavaram suas vestes e as branquearam no sangue do Cordeiro.
O conteúdo e a ênfase da proclamação podem variar conforme o período dos propósitos divinos, mas a base da salvação permanece sendo a obra redentora do Senhor Jesus Cristo.
3. A dispensação revelada a Paulo foi especificamente para a Igreja?
Sim, mas precisamos compreender corretamente essa afirmação.
O apóstolo Paulo recebeu do Senhor uma revelação especial acerca do mistério de Cristo e da Igreja.
Em Efésios 3:2-6, ele escreve sobre a dispensação da graça de Deus que lhe foi confiada e explica que esse mistério não havia sido manifestado às gerações anteriores da maneira como agora foi revelado pelo Espírito Santo.
Qual era esse mistério?
Que os gentios seriam coerdeiros, membros do mesmo Corpo e participantes da promessa em Cristo pelo Evangelho.
Isso é extraordinário!
No Antigo Testamento, Deus havia feito promessas específicas à nação de Israel. Entretanto, a Igreja, como um só Corpo formado por judeus e gentios unidos a Cristo, não havia sido revelada daquela maneira.
Paulo escreve:
"Porque todos nós fomos batizados em um Espírito, formando um corpo, quer judeus, quer gregos, quer servos, quer livres, e todos temos bebido de um Espírito." (Primeira Coríntios 12:13).
Essa é uma característica da presente dispensação.
A Igreja não é uma continuação de Israel, tampouco substituiu Israel nas promessas nacionais e territoriais que Deus lhe fez.
A Igreja é um povo celestial, unido a Cristo, sua Cabeça glorificada.
Paulo também recebeu a responsabilidade especial de anunciar essa verdade, como podemos observar em Colossenses 1:24-27.
Entretanto, isso não significa que Paulo tenha anunciado um Salvador diferente daquele anunciado pelos demais apóstolos.
Em Gálatas 2:7-9, encontramos uma distinção entre o apostolado de Pedro, particularmente relacionado à circuncisão, e o de Paulo, especialmente direcionado aos gentios. Contudo, ambos reconheciam a mesma graça divina e mantinham comunhão no serviço do Senhor.
Portanto, podemos afirmar que Paulo recebeu uma administração especial da verdade relativa à Igreja, mas não devemos transformar essa distinção em dois cristianismos ou dois caminhos de salvação.
Também precisamos lembrar que a presente dispensação não começou simplesmente porque Paulo se converteu. A Igreja teve seu início no Pentecostes, com a descida do Espírito Santo, conforme Atos dos Apóstolos 2, enquanto a revelação acerca de sua natureza, posição e privilégios foi desenvolvida progressivamente no Novo Testamento.
4. No Reino temos um Rei, mas na Graça temos somente um Pai?
Aqui está o ponto principal da sua pergunta.
A afirmação contém uma verdade importante, mas, colocada dessa maneira, não está inteiramente correta.
É verdade que, na presente dispensação, desfrutamos de uma relação maravilhosa com Deus como nosso Pai.
Essa é uma das grandes bênçãos da nossa posição em Cristo.
Romanos 8:15 declara:
"Porque não recebestes o espírito de escravidão, para, outra vez, estardes em temor, mas recebestes o Espírito de adoção de filhos, pelo qual clamamos: Aba, Pai."
Também lemos em Gálatas 4:6:
"E, porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai."
Portanto, o crente não se aproxima de Deus simplesmente como um súdito diante de um soberano, mas como um filho que foi recebido na família divina.
Essa é uma diferença preciosa.
Entretanto, seria incorreto concluir que, por estarmos na dispensação da Graça, não temos um Rei ou não estamos sujeitos à autoridade de Cristo.
Precisamos distinguir a posição da Igreja em relação ao Reino messiânico futuro da autoridade que Cristo exerce sobre os crentes atualmente.
O Senhor Jesus não é apresentado à Igreja, em seu relacionamento específico com ela, simplesmente como seu Rei, mas como sua Cabeça.
Efésios 1:22-23 declara:
"E sujeitou todas as coisas a seus pés e, sobre todas as coisas, o constituiu como cabeça da igreja, que é o seu corpo, a plenitude daquele que cumpre tudo em todos."
Observe a expressão: Cabeça da Igreja.
Essa é a relação especial de Cristo com Seu Corpo.
Em Efésios 5:23, encontramos outra figura: Cristo é apresentado como a Cabeça da Igreja e seu Salvador, assim como o marido é a cabeça da mulher.
Portanto, a relação entre Cristo e a Igreja é muito mais íntima do que aquela existente entre um monarca terreno e seus súditos.
Somos membros do Seu Corpo e estamos unidos a Ele pelo Espírito Santo.
Contudo, essa intimidade não elimina Sua autoridade.
Em João 13:13, o próprio Senhor declarou:
"Vós me chamais Mestre e Senhor e dizeis bem, porque eu o sou."
E Paulo, escrevendo aos crentes, afirmou:
"Porque foi para isto que morreu Cristo e tornou a viver, para ser Senhor tanto dos mortos como dos vivos." (Romanos 14:9).
Assim, embora a Igreja tenha uma relação particular com Cristo como Cabeça, ela permanece inteiramente sujeita ao Seu senhorio.
A graça não significa ausência de governo, autoridade ou obediência.
Pelo contrário, a graça nos ensina a viver de maneira santa, justa e piedosa, conforme Tito 2:11-14.
5. Qual é, então, a diferença entre o Reino e a Igreja?
Essa distinção é fundamental.
O Reino, em seu aspecto messiânico futuro, está relacionado ao cumprimento das promessas feitas a Israel, quando o Senhor Jesus Cristo estabelecerá Seu governo sobre a Terra.
Em Lucas 1:32-33, o anjo anunciou a Maria que Deus daria ao Senhor Jesus o trono de Davi, Seu pai, e que Ele reinaria eternamente sobre a casa de Jacó.
Em Apocalipse 20:1-6, encontramos o período de mil anos associado ao reinado de Cristo.
Esse Reino terá uma manifestação pública, gloriosa e universal.
A Igreja, por sua vez, possui uma vocação celestial. Ela é o Corpo de Cristo e também é apresentada como Sua Noiva, conforme Efésios 5:25-32 e Apocalipse 19:7-9.
Entretanto, não devemos concluir que os crentes da presente dispensação não tenham qualquer relação com o Reino.
Paulo escreveu aos colossenses:
"O qual nos tirou da potestade das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor." (Colossenses 1:13).
Observe que essa declaração foi dirigida à Igreja!
Em Romanos 14:17, o mesmo apóstolo afirma que o Reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo.
Portanto, existe uma realidade presente do Reino, embora sua manifestação pública e gloriosa ainda seja futura.
O crente já reconhece a autoridade de Cristo e está moralmente sujeito ao Seu governo, mas aguarda a manifestação futura do Reino em glória.
A Igreja não deve ser confundida com o Reino, embora os crentes estejam sujeitos ao mesmo Senhor que futuramente reinará sobre toda a Terra.
6. Como poderíamos expressar corretamente essa distinção?
Eu formularia a questão da seguinte maneira:
No Reino messiânico futuro, Cristo será manifestado publicamente como Rei, governando as nações e cumprindo as promessas feitas a Israel.
Na presente dispensação da Graça, os salvos desfrutam de uma relação especial com Deus como Pai e com Cristo como Cabeça da Igreja, sem que isso diminua a autoridade soberana do Senhor Jesus sobre suas vidas.
Há ainda uma observação importante.
Quando dizemos que temos Deus como Pai, estamos falando de nossa relação familiar com Ele. Quando dizemos que Cristo é a Cabeça da Igreja, estamos falando da união orgânica entre Cristo e Seu Corpo. Quando falamos de Cristo como Rei, destacamos Sua autoridade e Seu governo.
Essas verdades não se contradizem. São diferentes aspectos da revelação divina.
O mesmo Cristo que hoje é a Cabeça glorificada da Igreja será manifestado como Rei dos reis e Senhor dos senhores, conforme Apocalipse 19:16.
E a Igreja estará associada a Ele em Sua glória, pois Paulo declarou:
"Se sofrermos, também com ele reinaremos." (Segunda Timóteo 2:12).
Conclusão
Portanto, respondendo diretamente às suas perguntas:
A comissão de Mateus 10 foi especificamente dirigida a Israel, enquanto a comissão de Mateus 28 possui alcance universal.
Após o Arrebatamento, a proclamação do Evangelho do Reino terá novamente destaque no cumprimento dos propósitos proféticos de Deus, especialmente em relação a Israel e às nações.
Paulo recebeu uma revelação especial acerca da Igreja, o Corpo de Cristo, formada por judeus e gentios em igualdade espiritual, durante a presente dispensação da Graça.
Na dispensação atual, temos Deus como Pai e Cristo como Cabeça da Igreja. Entretanto, isso não significa que Cristo deixe de ser nosso Senhor ou que estejamos fora de Sua autoridade soberana.
A Igreja e Israel possuem posições distintas nos propósitos divinos, mas ambos encontram em Cristo o centro de todas as bênçãos e promessas de Deus.
Finalizo com uma consideração que considero muito importante: não devemos estudar as dispensações apenas para identificar diferenças entre os períodos bíblicos, mas também para contemplar a maravilhosa unidade dos propósitos de Deus em Cristo.
A dispensação da Graça não é um período sem governo, assim como o futuro Reino não será um período sem graça.
A graça caracteriza a maneira como Deus nos trouxe à Sua família, enquanto a obediência caracteriza a resposta daqueles que reconhecem Jesus Cristo como Senhor.
Que Deus nos conceda sabedoria para distinguir corretamente as Escrituras, sem separar aquilo que Ele uniu e sem confundir aquilo que Ele distinguiu.
Josué Matos