Alguém que me escreveu no WhatsApp:
Meditando aqui nesse texto de Gálatas 1:4, "... a era má ou o período de tempo deste período mau", começa quando Deus confiou a Satanás a responsabilidade de administrar este mundo, no Éden, e termina com a segunda vinda de Cristo, que destruirá todo governo humano influenciado por Satanás e toda atividade demoníaca, para reinar neste mundo. É isso, não é?
Gostaria de compreender melhor Tiago 4:4 e 1 João 2:15.
O que realmente significam "concupiscência da carne" e "amizade do mundo"?
Por exemplo, na prática, como servos de Deus, nascidos de novo, seria pecado ter prazer em desejar comer um doce, passear em um shopping, ir ao cinema, viajar, assistir a uma orquestra, ler um livro ou ouvir alguma música não cristã?
Qual seria o nosso limite?
Minha Resposta:
Sua pergunta é muito importante, porque envolve uma questão fundamental da vida cristã: como viver neste mundo sem pertencer moral e espiritualmente ao sistema que se opõe a Deus?
Para compreendermos corretamente o assunto, precisamos distinguir três coisas que, embora relacionadas, não são iguais: o mundo criado por Deus, o presente sistema mundial governado por princípios contrários a Deus e os desejos pecaminosos que ainda podem manifestar-se na natureza humana.
Essa distinção é necessária para não cairmos em dois extremos: o mundanismo, que procura justificar praticamente tudo, e o legalismo, que transforma a vida cristã numa sucessão de proibições que a própria Escritura não estabeleceu.
1. O presente século mau — Gálatas 1:4
O apóstolo Paulo escreveu acerca do Senhor Jesus Cristo:
"Que se deu a si mesmo por nossos pecados, para nos livrar do presente século mau, segundo a vontade de Deus, nosso Pai." (Gálatas 1:4).
A expressão "presente século mau" refere-se à presente era, caracterizada pela condição moral e espiritual de uma humanidade afastada de Deus.
Sua compreensão está parcialmente correta, mas precisamos ajustar um detalhe importante: a Bíblia não afirma que Deus entregou a Satanás, no jardim do Éden, a responsabilidade legítima de administrar o mundo.
Em Gênesis 1:26-28, Deus confiou ao homem o domínio sobre a criação terrestre. Entretanto, com a entrada do pecado, a humanidade passou a viver sob a influência daquele que a Escritura identifica como o príncipe deste mundo (João 12:31; 14:30; 16:11).
Em 2 Coríntios 4:4, Satanás é chamado de "deus deste século", porque exerce influência sobre os pensamentos e a condição espiritual dos incrédulos, cegando-lhes o entendimento para que não lhes resplandeça a luz do evangelho.
Em 1 João 5:19, lemos que o mundo inteiro jaz no maligno.
Isso não significa que Satanás tenha recebido de Deus uma autoridade independente ou absoluta. Deus continua soberano sobre todas as coisas, e o inimigo somente pode agir dentro dos limites da permissão divina, como podemos observar em Jó 1:6-12 e 2:1-6.
Quanto ao término dessa presente ordem, a manifestação gloriosa de Cristo estabelecerá uma mudança decisiva.
O Senhor Jesus voltará para exercer Seu legítimo direito de governo sobre a Terra, conforme Apocalipse 19:11-21. Satanás será preso durante mil anos (Apocalipse 20:1-3), e Cristo estabelecerá Seu reino de justiça e paz.
Entretanto, devemos observar que a eliminação definitiva de toda atividade satânica ocorrerá depois do Milênio, quando Satanás será lançado no lago de fogo, conforme Apocalipse 20:7-10.
Portanto, a segunda vinda de Cristo encerrará o presente domínio satânico sobre o sistema mundial e inaugurará Seu reino milenar, mas a destruição definitiva do diabo ocorrerá posteriormente.
Há ainda uma verdade preciosa em Gálatas 1:4: Cristo não morreu apenas para nos livrar da condenação dos nossos pecados, mas também para nos libertar moral e espiritualmente do presente século mau.
O cristão continua vivendo nesta era, mas já não deve viver segundo os seus princípios.
2. O que significa a amizade do mundo? — Tiago 4:4
Tiago escreveu:
"Adúlteros e adúlteras, não sabeis vós que a amizade do mundo é inimizade contra Deus? Portanto, qualquer que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus." (Tiago 4:4).
Para entendermos essa passagem, precisamos compreender o significado da palavra "mundo".
Nas Escrituras, ela pode apresentar diferentes sentidos, dependendo do contexto.
Em João 3:16, o mundo representa a humanidade que Deus amou e pela qual deu Seu Filho unigênito.
Em Atos 17:24, refere-se ao mundo criado por Deus.
Entretanto, em Tiago 4:4 e 1 João 2:15, o mundo representa o sistema moral e espiritual organizado independentemente de Deus e contrário à Sua vontade.
Esse sistema possui valores, ambições, prazeres, filosofias e objetivos que procuram satisfazer o homem sem que Deus ocupe o lugar que Lhe pertence.
É um mundo que pode admirar a inteligência, a beleza, a riqueza, o progresso e até determinadas formas de religiosidade, mas que não deseja submeter-se à autoridade do Senhor Jesus Cristo.
A amizade do mundo, portanto, não significa simplesmente conviver com pessoas incrédulas, trabalhar numa empresa secular, frequentar estabelecimentos comerciais ou desfrutar das coisas legítimas da criação.
Significa desenvolver afinidade, identificação e compromisso com os princípios de um sistema que rejeita a autoridade de Deus.
Observe o contexto de Tiago 4:1-4. O escritor menciona guerras, contendas, invejas, cobiças e desejos desordenados. São manifestações de um coração que procura satisfação fora da vontade divina.
O problema está na orientação dos afetos.
Uma pessoa pode viver numa casa simples, não frequentar cinemas, não viajar e não possuir grandes recursos financeiros e, ainda assim, ser profundamente mundana, porque seu coração está dominado pela inveja, pelo orgulho, pela ambição ou pelo desejo de reconhecimento.
Por outro lado, um cristão pode possuir bens materiais, viajar, apreciar a natureza e desfrutar de atividades legítimas sem necessariamente estar vivendo em amizade com o mundo.
O mundanismo não é determinado apenas pelo ambiente exterior, mas principalmente pela conformidade interior com os valores que se opõem a Deus.
Por isso, Paulo escreveu:
"E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso entendimento." (Romanos 12:2).
O cristão não foi chamado a abandonar fisicamente a sociedade, mas a não assumir a forma moral e espiritual dela.
O próprio Senhor Jesus esclareceu essa distinção em Sua oração ao Pai:
"Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal." (João 17:15).
Estamos no mundo, mas não pertencemos ao seu sistema espiritual.
3. O que significa a concupiscência da carne? — 1 João 2:15-17
O apóstolo João escreveu:
"Não ameis o mundo, nem o que no mundo há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele." (1 João 2:15).
Em seguida, apresenta três características fundamentais desse sistema:
- A concupiscência da carne.
- A concupiscência dos olhos.
- A soberba da vida.
A palavra "concupiscência" significa desejo intenso ou cobiça. No contexto dessa passagem, refere-se aos desejos desordenados da natureza humana caída.
É importante observar que nem todo desejo natural é pecaminoso.
Sentir fome, desejar descansar, apreciar uma boa refeição, contemplar uma bela paisagem ou sentir satisfação numa atividade legítima não constitui, por si só, pecado.
Deus criou o homem com capacidades físicas, emocionais e intelectuais. O pecado não está na existência dessas capacidades, mas no uso contrário à vontade divina.
A concupiscência da carne ocorre quando os apetites e inclinações da natureza humana passam a governar nossas escolhas, conduzindo-nos à satisfação própria independentemente da vontade de Deus.
Em Gálatas 5:19-21, encontramos manifestações das obras da carne, entre elas prostituição, impureza, lascívia, idolatria, inimizades, invejas, bebedices e glutonarias.
Observe que a carne não se manifesta somente em pecados relacionados ao corpo. Ela também se expressa em atitudes interiores, como orgulho, inveja, rivalidade e egoísmo.
Já a concupiscência dos olhos está relacionada à cobiça despertada por aquilo que contemplamos. É o desejo de possuir, experimentar ou desfrutar de algo simplesmente porque nossos olhos o consideram atraente, mesmo quando isso contraria a vontade divina.
A soberba da vida refere-se à ostentação, à autossuficiência e ao orgulho fundamentado naquilo que alguém possui, realiza ou aparenta ser.
Podemos observar esses três elementos, de maneira ilustrativa, na tentação de Eva, em Gênesis 3:6: a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos e desejável para dar entendimento.
Também encontramos um contraste precioso nas tentações enfrentadas pelo Senhor Jesus em Mateus 4:1-11. Diferentemente do primeiro homem, Cristo permaneceu em perfeita obediência à Palavra de Deus.
Assim, o problema não é simplesmente desejar alguma coisa, mas permitir que os desejos assumam o governo da nossa vida, substituindo a obediência ao Senhor.
4. Comer um doce, passear, viajar ou desfrutar de atividades culturais é pecado?
Vamos considerar seus exemplos individualmente, porque eles ajudam a compreender a diferença entre liberdade cristã e mundanismo.
Comer um doce ou apreciar uma boa refeição
Não existe pecado em sentir prazer ao comer algo agradável.
Em 1 Timóteo 6:17, Paulo afirma que Deus nos dá abundantemente todas as coisas para delas gozarmos.
Em 1 Timóteo 4:4-5, aprendemos que toda criatura de Deus é boa e que nada deve ser rejeitado quando recebido com ações de graças, sendo santificado pela Palavra de Deus e pela oração.
O pecado aparece quando o prazer se transforma em domínio, quando há falta de moderação ou quando a satisfação do apetite ocupa um lugar indevido em nossa vida.
Paulo declarou:
"Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma." (1 Coríntios 6:12).
Portanto, comer um doce não é concupiscência da carne simplesmente porque proporciona prazer.
Entretanto, a incapacidade de controlar nossos apetites pode revelar uma dificuldade espiritual que precisa ser tratada.
Passear num shopping
Um shopping é um ambiente comercial. Entrar nele, fazer compras, passear ou tomar um café não constitui, por si só, amizade com o mundo.
O problema surge quando o coração passa a ser governado pelo consumismo, pela cobiça, pela comparação social ou pela necessidade constante de possuir aquilo que os outros possuem.
Em Lucas 12:15, o Senhor Jesus advertiu:
"Acautelai-vos e guardai-vos da avareza, porque a vida de qualquer não consiste na abundância do que possui."
Podemos frequentar um shopping sem amar o mundo, assim como podemos permanecer em casa e alimentar um coração inteiramente dominado pelo materialismo.
Viajar e conhecer outros lugares
Viajar não é pecado.
A criação revela a sabedoria e o poder de Deus, conforme Salmos 19:1 e Romanos 1:20.
Conhecer lugares, contemplar paisagens, visitar familiares ou desfrutar de momentos de descanso são atividades que podem ser recebidas com gratidão.
Entretanto, precisamos avaliar nossas prioridades.
Uma viagem pode tornar-se espiritualmente prejudicial quando é motivada pela ostentação, quando envolve práticas pecaminosas ou quando, deliberadamente, colocamos nossos prazeres acima das responsabilidades que temos diante de Deus.
O descanso é legítimo; transformar o prazer pessoal no objetivo supremo da existência é que contraria a vida cristã.
Assistir a uma orquestra
A música, como expressão artística, não é necessariamente pecaminosa.
A capacidade humana de produzir sons, desenvolver instrumentos e compor obras musicais faz parte das habilidades que Deus permitiu ao homem desenvolver.
O simples fato de uma composição não possuir letra cristã não a torna automaticamente pecaminosa.
Uma apresentação instrumental, por exemplo, pode ser apreciada pelo seu valor artístico sem que isso represente comunhão com os princípios do mundo.
Entretanto, devemos considerar que nem toda manifestação musical é moralmente neutra. O conteúdo, a mensagem, o ambiente e os efeitos sobre a mente precisam ser avaliados.
O princípio de Filipenses 4:8 é particularmente importante: devemos ocupar nossos pensamentos com aquilo que é verdadeiro, honesto, justo, puro, amável e de boa fama.
Ler um livro que não seja cristão
A Bíblia não ensina que o cristão somente pode ler livros religiosos.
Existem obras de história, literatura, ciência, medicina, tecnologia e outras áreas do conhecimento que podem contribuir legitimamente para nossa formação intelectual e profissional.
Entretanto, precisamos distinguir entre conhecer determinada ideia e alimentar voluntariamente nossa mente com conteúdos que promovem o pecado.
Um livro pode ser intelectualmente interessante e, ao mesmo tempo, apresentar ensinamentos que exigem discernimento espiritual.
Em 1 Tessalonicenses 5:21-22, Paulo estabelece dois princípios: examinar tudo, reter o bem e abster-se de toda forma de mal.
Portanto, o critério não é apenas perguntar se o livro foi escrito por um cristão, mas considerar seu conteúdo e a maneira como nos relacionamos com ele.
Ouvir uma música não cristã
Aqui também precisamos evitar uma generalização.
Nem toda música que não menciona Deus é necessariamente uma música pecaminosa. Entretanto, nem toda música aparentemente agradável é apropriada para alguém que deseja viver em santidade.
Uma composição instrumental não apresenta as mesmas questões de uma canção cuja letra exalta a imoralidade, a violência, a sensualidade ou a rebeldia contra Deus.
A pergunta importante é: que mensagem estou recebendo e que influência estou permitindo sobre meus pensamentos e sentimentos?
Em Colossenses 3:16, somos incentivados a permitir que a Palavra de Cristo habite abundantemente em nós.
Isso deve orientar nossas escolhas, inclusive musicais.
Não precisamos afirmar que toda produção artística secular é pecaminosa para reconhecer que muitas produções culturais apresentam valores incompatíveis com a vida cristã.
Ir ao cinema
O cinema exige um discernimento semelhante, considerando especialmente o conteúdo apresentado.
Não seria correto afirmar que todo filme é pecaminoso simplesmente porque é exibido numa sala de cinema. Entretanto, também seria imprudente considerar que qualquer filme pode ser assistido sem consequências espirituais.
Há produções que exploram a sensualidade, normalizam o adultério, glorificam a violência gratuita, ridicularizam a fé ou apresentam o pecado como algo desejável.
O cristão precisa avaliar aquilo que voluntariamente coloca diante dos olhos.
O salmista declarou:
"Não porei coisa má diante dos meus olhos." (Salmos 101:3).
É importante observar que o mesmo princípio vale para a televisão, o telefone, a internet e as plataformas de streaming.
Seria incoerente condenar exclusivamente o cinema e, ao mesmo tempo, consumir em casa conteúdos moralmente equivalentes.
O problema fundamental não é o aparelho ou o estabelecimento, mas aquilo que estamos escolhendo contemplar e permitir que influencie nosso coração.
5. Afinal, qual é o limite da liberdade cristã?
Esta é a parte mais importante da sua pergunta.
O Novo Testamento não apresenta uma lista completa de atividades culturais, recreativas ou sociais permitidas e proibidas. Em vez disso, estabelece princípios espirituais pelos quais devemos avaliar nossas escolhas.
Gostaria de destacar sete perguntas que considero particularmente úteis.
Isso contraria algum ensinamento claro da Palavra de Deus?
A liberdade cristã nunca autoriza aquilo que Deus expressamente condena.
"Como filhos obedientes, não vos conformando com as concupiscências que antes havia em vossa ignorância." (1 Pedro 1:14).
Posso fazer isso para a glória de Deus?
"Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus." (1 Coríntios 10:31).
Observe que Paulo utiliza atividades extremamente comuns, como comer e beber, para demonstrar que toda a nossa vida deve ser vivida diante de Deus.
Isso está me dominando?
"Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma." (1 Coríntios 6:12).
Algo inicialmente legítimo pode tornar-se prejudicial quando passamos a depender dele emocionalmente ou quando perdemos o domínio próprio.
Isso contribui para minha edificação espiritual?
"Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas edificam." (1 Coríntios 10:23).
Nem tudo que é permitido é necessariamente proveitoso.
O cristão maduro aprende a avaliar não apenas se determinada atividade é proibida, mas também se é conveniente.
Isso prejudica minha comunhão com o Senhor?
Em Efésios 4:30, somos advertidos a não entristecer o Espírito Santo de Deus.
Se determinada atividade alimenta pensamentos impuros, enfraquece nossa disposição para a oração ou nos conduz deliberadamente à desobediência, temos motivos espirituais para abandoná-la.
Isso pode prejudicar outras pessoas?
Romanos 14:13-21 ensina que devemos considerar a consciência e o bem espiritual dos outros.
Nossa liberdade não deve ser exercida de maneira egoísta, desprezando aqueles que podem ser prejudicados pelo nosso comportamento.
Posso fazer isso com uma consciência tranquila diante de Deus?
Romanos 14:23 declara que tudo o que não provém de fé é pecado.
Quando não conseguimos realizar determinada atividade com uma consciência tranquila diante do Senhor, o caminho prudente é abster-nos dela até termos clareza bíblica.
Isso não significa transformar nossas convicções pessoais em mandamentos universais, mas reconhecer nossa responsabilidade individual diante de Deus.
6. Uma distinção importante: separação do mundo não é isolamento da sociedade
Há algo que considero necessário acrescentar.
Algumas pessoas interpretam a separação do mundo como se a santidade dependesse de eliminar praticamente todo contato com a cultura, a sociedade e as atividades comuns da vida humana.
Entretanto, não foi isso que o Senhor Jesus ensinou.
Em João 17:14-18, Ele declarou que os Seus discípulos não eram do mundo, assim como Ele não era do mundo, mas também afirmou que os enviava ao mundo.
O cristão possui responsabilidades familiares, profissionais, sociais e espirituais.
Ele precisa trabalhar, estudar, conviver com pessoas, administrar seus recursos e desenvolver uma vida responsável diante de Deus e dos homens.
A separação bíblica não significa abandonar essas responsabilidades, mas desempenhá-las de maneira coerente com nossa nova posição em Cristo.
O apóstolo Paulo esclareceu essa questão em 1 Coríntios 5:9-10. Ao tratar da necessidade de separação moral, explicou que não estava exigindo que os cristãos deixassem de ter qualquer contato com as pessoas pecadoras deste mundo, pois, nesse caso, seria necessário sair do próprio mundo.
A separação cristã é moral, espiritual e doutrinária, não uma tentativa de isolamento físico absoluto.
Também precisamos lembrar que a santidade não é produzida simplesmente pela ausência de determinadas atividades.
Uma pessoa pode abandonar todos os entretenimentos e continuar dominada pelo orgulho, pela amargura, pela inveja e pela falta de amor.
A verdadeira santificação envolve a transformação da nossa maneira de pensar, desejar e agir, mediante a Palavra de Deus e a operação do Espírito Santo.
7. O segredo está em quem governa o coração
Gostaria de concluir chamando sua atenção para uma verdade que considero essencial.
O objetivo da vida cristã não é simplesmente descobrir até onde podemos ir sem cometer pecado.
Essa maneira de pensar pode transformar nossa caminhada numa tentativa permanente de encontrar o limite máximo daquilo que é permitido.
A pergunta mais proveitosa deveria ser: como posso agradar mais ao Senhor Jesus Cristo com a vida que Ele me concedeu?
Em 2 Coríntios 5:15, Paulo apresenta a finalidade da nossa nova vida:
"E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou."
Essa é a grande diferença.
Antes da conversão, vivíamos essencialmente para satisfazer nossos próprios interesses. Agora, pertencemos Àquele que nos comprou com Seu precioso sangue.
Isso não significa que deixamos de apreciar uma refeição, uma paisagem, uma viagem, uma obra artística ou momentos agradáveis com nossa família.
Significa que essas coisas já não ocupam o centro da nossa existência.
Podemos desfrutar com gratidão daquilo que Deus legitimamente nos concede, sem transformar Suas dádivas em substitutos do próprio Doador.
Paulo escreveu em Colossenses 3:1-2:
"Portanto, se já ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas que são de cima, onde Cristo está assentado à destra de Deus. Pensai nas coisas que são de cima e não nas que são da terra."
Isso não significa que devemos deixar de cumprir nossas responsabilidades terrenas, mas que nossa orientação espiritual, nossos afetos e nossas prioridades devem estar ligados ao Cristo glorificado.
O mundo oferece satisfação passageira. Cristo oferece uma satisfação que permanece.
Por isso, João conclui sua advertência dizendo:
"E o mundo passa, e a sua concupiscência; mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre." (1 João 2:17).
Portanto, comer um doce, passear num shopping, viajar, apreciar uma orquestra ou ler um livro não constitui automaticamente pecado ou amizade com o mundo.
O limite encontra-se na vontade revelada de Deus, na santidade que Ele requer, no conteúdo daquilo que escolhemos, na influência que permitimos sobre nossa mente e no lugar que essas coisas ocupam em nosso coração.
Não devemos acrescentar proibições humanas à Palavra de Deus, mas também não devemos utilizar a liberdade cristã como justificativa para satisfazer a carne (Gálatas 5:13).
A maturidade espiritual consiste em aprender a desfrutar das coisas legítimas sem ser dominado por elas, rejeitar aquilo que desagrada ao Senhor e reconhecer que nenhuma satisfação terrena pode ocupar o lugar que pertence exclusivamente a Cristo.
Que nossa preocupação principal não seja descobrir quanto do mundo podemos conservar em nossa vida, mas quanto da beleza moral de Cristo pode ser manifestada por meio dela.
Josué Matos