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No contexto judaico a exceção no cometimento da ilicitude sexual é somente por parte da mulher e não do homem?

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Algo que chama muita atenção no contexto judaico é que a exceção no cometimento da ilicitude sexual é por parte da mulher e não do homem. Isso já denota que o casamento não se consumaria se a mulher não fosse virgem, pelo que está na Lei mosaica, que vigorava sobre o povo judeu e não sobre os gentios...

Minha Resposta:

Há, realmente, um elemento muito importante nessa observação. Entretanto, eu faria algumas considerações para que possamos compreender melhor o contexto de Mateus 19:9 e, principalmente, não concluir que a virgindade fosse uma exigência moral apenas para a jovem israelita.

  1. A Lei realmente dava grande importância à virgindade da jovem

Deuteronômio 22:13-21 mostra claramente que se esperava que a jovem que chegasse ao casamento fosse virgem.

O texto trata de um homem que se casava com uma mulher e posteriormente a acusava de não ter sido virgem quando a recebeu. Era uma acusação extremamente séria e não poderia ser feita levianamente.

Se a acusação fosse falsa, o homem era castigado, multado e perdia o direito de repudiá-la:

“E ela lhe ficará por mulher; em todos os seus dias não a poderá despedir” (Deuteronômio 22:19).

Por outro lado, se ficasse comprovado que a jovem havia praticado imoralidade enquanto ainda estava na casa de seu pai, a Lei considerava aquilo um pecado gravíssimo.

Portanto, não há dúvida de que a virgindade antes do casamento possuía enorme importância dentro da sociedade de Israel.

Isso também ajuda a compreender por que a descoberta de imoralidade durante o período de desposamento era uma questão tão séria.

  1. Mas a pureza sexual não era exigida somente da mulher

Aqui precisamos fazer uma ressalva importante.

Quando lemos Deuteronômio 22:13-21 isoladamente, pode parecer que toda a responsabilidade pela virgindade estava colocada sobre a mulher. Mas continuando a leitura do mesmo capítulo percebemos que Deus também responsabilizava severamente o homem por sua conduta sexual.

A Lei não concedia ao homem solteiro liberdade para manter relações sexuais antes do casamento enquanto exigia virgindade da mulher.

Muito pelo contrário.

Veja, por exemplo, Deuteronômio 22:28-29. Se um homem tivesse relações com uma jovem virgem não desposada, ele passava a ter uma responsabilidade muito séria diante dela e de sua família:

“Então o homem que se deitou com ela dará ao pai da moça cinquenta siclos de prata; e porquanto a humilhou, lhe será por mulher; não a poderá despedir em todos os seus dias” (Deuteronômio 22:29).

Êxodo 22:16-17 apresenta igualmente o princípio da responsabilidade do homem que seduzisse uma virgem não desposada.

Portanto, um jovem israelita não poderia raciocinar: “A minha futura esposa precisa ser virgem, mas eu posso ter relações com outras mulheres antes de me casar.”

A Lei não lhe concedia essa liberdade.

Se ele tivesse relações com uma jovem solteira e virgem, isso poderia trazer sobre ele a obrigação matrimonial, além das responsabilidades financeiras estabelecidas pela Lei.

Isso significa que a sexualidade masculina também estava debaixo da autoridade de Deus.

  1. Se a mulher fosse casada, a situação era ainda mais grave

Aqui sua observação também está correta.

Deuteronômio 22:22 estabelece:

“Quando um homem for achado deitado com mulher casada com marido, então ambos morrerão, o homem que se deitou com a mulher e a mulher; assim tirarás o mal de Israel.”

Observe que Deus não pune somente a mulher.

“Ambos morrerão.”

O homem não podia alegar que a responsabilidade era dela. Se ambos participaram voluntariamente do adultério, ambos eram culpados.

Levítico 20:10 estabelece a mesma coisa:

“Também o homem que adulterar com a mulher de outro, havendo adulterado com a mulher do seu próximo, certamente morrerá o adúltero e a adúltera.”

Portanto, moralmente, não existiam dois padrões diante de Deus: um padrão de castidade para a mulher e outro mais permissivo para o homem.

O homem também precisava conservar-se sexualmente puro.

  1. O caso da jovem desposada é especialmente importante para Mateus 19

Deuteronômio 22 continua:

“Quando houver moça virgem, desposada com algum homem...” (Deuteronômio 22:23).

Veja as duas características:

ela era “virgem”;

e estava “desposada”.

Se ela voluntariamente tivesse relações com outro homem, tanto ela quanto aquele homem seriam culpados (Deuteronômio 22:23-24).

Isso nos aproxima bastante do ambiente que encontramos no primeiro capítulo de Mateus.

Maria estava desposada com José:

“Ora, o nascimento de Jesus Cristo foi assim: Estando Maria, sua mãe, desposada com José, antes de se ajuntarem, achou-se ter concebido do Espírito Santo” (Mateus 1:18).

A expressão “antes de se ajuntarem” é muito importante.

O casamento ainda não havia sido consumado.

Entretanto, José já é chamado de “seu marido”:

“Então José, seu marido, como era justo e a não queria infamar, intentou deixá-la secretamente” (Mateus 1:19).

E o anjo chama Maria de “tua mulher”:

“José, filho de Davi, não temas receber a Maria, tua mulher” (Mateus 1:20).

Isso demonstra uma particularidade do casamento judaico que precisamos considerar quando chegamos a Mateus 19.

O desposamento já estabelecia um compromisso legal muito mais forte do que aquilo que atualmente chamamos simplesmente de namoro ou noivado. Eles já podiam ser chamados marido e mulher, embora ainda não tivessem se ajuntado e o casamento não estivesse consumado.

Por isso José pensou em “deixá-la”.

Ele acreditava, naquele momento, que havia ocorrido imoralidade sexual durante o desposamento.

Depois Deus revelou-lhe que Maria não havia cometido pecado algum, porque aquilo que nela estava gerado era do Espírito Santo.

  1. É nesse contexto que entendemos melhor a cláusula de Mateus 19:9

O Senhor Jesus declarou:

“Eu vos digo, porém, que qualquer que repudiar sua mulher, não sendo por causa de fornicação, e casar com outra, comete adultério” (Mateus 19:9).

A palavra traduzida por “fornicação” é porneía, enquanto “adultério” corresponde a moicheía.

Essa distinção merece atenção.

Dentro da compreensão que temos adotado, a exceção refere-se à imoralidade sexual descoberta no contexto anterior à consumação do casamento, durante aquele vínculo judaico do desposamento.

Por isso Mateus é particularmente importante.

No início do Evangelho, Mateus já nos apresentou exatamente uma situação na qual um homem é chamado “marido”, uma mulher é chamada “mulher”, existe possibilidade de repudiá-la e, contudo, eles ainda não haviam se ajuntado.

Mateus 1:18-20 fornece, portanto, um excelente pano de fundo para compreendermos Mateus 5:31-32 e Mateus 19:9.

  1. Mas eu faria uma pequena correção nesta frase: “o casamento não se consumaria se a mulher não fosse virgem”

Eu compreendo o que você quis dizer, mas colocaria de outra maneira.

Não podemos estabelecer como regra absoluta que qualquer ausência de virgindade automaticamente tornava impossível todo casamento posterior.

A própria Lei mostra situações mais complexas.

Por exemplo, havia viúvas que legitimamente podiam casar novamente. Rute é um exemplo evidente. Ela havia sido casada com Malom e, depois da morte dele, casou-se legitimamente com Boaz (Rute 4:9-13).

A Lei também estabelecia o casamento levirato. Se um homem morresse sem filhos, havia circunstâncias em que seu irmão deveria tomar a viúva para suscitar descendência ao falecido (Deuteronômio 25:5-10).

Portanto, não era a condição física da virgindade, considerada isoladamente, que determinava se toda mulher podia ou não casar.

O que devemos destacar em Deuteronômio 22 é a imoralidade sexual praticada antes do casamento e ocultada no momento de sua consumação.

Isso é diferente de uma mulher que legitimamente havia sido casada e posteriormente ficou viúva.

  1. E aqui entra a questão dos sacerdotes

Também é importante fazer uma distinção.

Levítico 21:7 determina acerca dos sacerdotes:

“Não tomarão mulher prostituta ou desonrada, nem tomarão mulher repudiada de seu marido; pois o sacerdote é santo a seu Deus.”

Mas não devemos dizer que todo sacerdote comum estava necessariamente proibido de casar com qualquer viúva.

A restrição mais rigorosa aparece especificamente para o sumo sacerdote.

Levítico 21:13-14 diz:

“E ele tomará por esposa uma mulher na sua virgindade. Viúva, ou repudiada, ou desonrada, ou prostituta, estas não tomará, mas virgem do seu povo tomará por mulher.”

Portanto, para o sumo sacerdote, a exigência era expressa: deveria casar-se com uma virgem israelita. A viúva também estava excluída nesse caso.

Essa distinção é importante para não atribuirmos a todos os sacerdotes exatamente a mesma exigência dada ao sumo sacerdote.

  1. Isso, porém, não significa que a Lei exigisse expressamente que todo noivo apresentasse prova física de virgindade

Aqui também precisamos ser muito precisos.

Podemos afirmar seguramente que Deus exigia castidade sexual tanto do homem quanto da mulher.

Mas não encontramos uma disposição paralela a Deuteronômio 22:13-21 dizendo que todo homem, antes de casar, precisava apresentar uma “prova de virgindade” equivalente àquela discutida no caso da jovem.

Portanto, devemos distinguir duas coisas:

a exigência moral de castidade, que alcançava ambos;

e determinadas disposições jurídicas da Lei, que não eram idênticas para homens e mulheres.

Isso é importante porque senão acabamos dizendo mais do que o próprio texto bíblico diz.

O jovem israelita deveria chegar puro ao casamento não porque existisse necessariamente um procedimento judicial idêntico para comprovar sua virgindade, mas porque toda relação sexual ilícita que ele tivesse antes do casamento já constituiria pecado e poderia trazer consequências previstas pela própria Lei.

  1. Portanto, o homem que chegasse casto ao casamento também seria virgem

Nesse sentido, sua observação ajuda bastante.

Se um jovem obedecesse aos mandamentos de Deus acerca da sexualidade e nunca tivesse sido casado, naturalmente chegaria virgem ao casamento.

Se tivesse relações sexuais com uma jovem solteira, já haveria consequências.

Se adulterasse com uma mulher casada, havia pena para ambos.

Se tivesse relações com uma jovem desposada e ela participasse voluntariamente, novamente a Lei responsabilizava ambos.

Ou seja, a Lei não dava ao jovem uma espécie de período de liberdade sexual antes do casamento.

A virgindade feminina aparece de maneira mais explícita em determinadas leis porque aquelas leis tratam especificamente da condição da noiva e da legitimidade de uma acusação feita contra ela. Mas daí não podemos concluir que Deus não exigisse pureza do noivo.

  1. Isso também nos ajuda a compreender que o assunto de Mateus 19 não é uma inferioridade moral da mulher

Quando o Senhor diz:

“Qualquer que repudiar sua mulher...”

Ele está falando dentro de determinado contexto histórico e jurídico.

Não está ensinando que somente a mulher pode cometer pecado sexual ou que a castidade masculina seja irrelevante.

Aliás, o próprio Senhor já havia colocado o homem debaixo de um padrão extraordinariamente elevado em Mateus 5:27-28:

“Ouvistes que foi dito aos antigos: Não cometerás adultério. Eu, porém, vos digo que qualquer que atentar numa mulher para a cobiçar já em seu coração cometeu adultério com ela.”

Cristo não suaviza a responsabilidade masculina.

Ele a aprofunda.

Não basta ao homem dizer: “Nunca fui descoberto praticando adultério.”

Cristo alcança o próprio coração.

  1. Marcos deixa ainda mais evidente a responsabilidade dos dois lados

Em Marcos 10, quando o Senhor explica particularmente o assunto aos discípulos, Ele aplica o princípio aos dois:

“Qualquer que deixar a sua mulher e casar com outra adultera contra ela. E, se a mulher deixar a seu marido e casar com outro, adultera” (Marcos 10:11-12).

Portanto, diante de Deus, a fidelidade matrimonial é exigida de ambos.

Paulo mantém exatamente essa reciprocidade em 1 Coríntios 7:10-11.

A esposa não deve apartar-se do marido.

O marido não deve deixar a esposa.

Se ocorrer separação, a orientação não é procurar outro casamento, mas permanecer sem casar ou reconciliar-se.

  1. Tudo isso fortalece, e não enfraquece, a compreensão da exceção de Mateus

A particularidade da cláusula de Mateus não deve ser interpretada como se Cristo estivesse dizendo:

“Se depois de muitos anos de casamento a mulher cometer adultério, o marido está livre para desfazer aquilo que Deus ajuntou e casar novamente.”

Isso entraria em dificuldade com a declaração que Ele acabara de fazer:

“Assim não são mais dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem” (Mateus 19:6).

Também entraria em dificuldade com Marcos 10:11-12, Lucas 16:18, Romanos 7:2-3 e 1 Coríntios 7:10-11.

A compreensão da exceção dentro do contexto judaico do desposamento harmoniza essas passagens.

Antes da consumação, poderia ser descoberta uma imoralidade sexual que tornava legítima a ruptura daquele desposamento.

Foi exatamente a situação que José pensou estar enfrentando em Mateus 1.

Depois da consumação, porém, temos o princípio estabelecido pelo próprio Cristo:

“Não são mais dois, mas uma só carne.”

  1. Há, portanto, algo muito significativo na escolha das palavras

Em Mateus 19:9, Cristo menciona porneía como exceção e depois diz que aquele que casa novamente, fora dessa exceção, comete moicheía, adultério.

Se toda a cláusula estivesse simplesmente tratando do adultério dentro de um casamento já consumado, seria natural perguntarmos por que o Senhor não empregou diretamente a ideia de adultério na própria exceção.

A distinção das palavras, somada ao contexto judaico de Mateus, ao episódio de José e Maria e à ausência da cláusula em Marcos e Lucas, fornece elementos importantes para compreendermos a exceção como pertencente à situação particular do desposamento.

  1. Então eu concordaria com a essência da sua observação, mas ampliaria desta maneira

A Lei de Moisés realmente colocava grande importância sobre a virgindade da jovem israelita que chegava ao casamento, e Deuteronômio 22 demonstra isso claramente.

Porém, não devemos concluir que Deus exigia castidade apenas dela.

A pureza sexual também era exigida do homem.

Se ele se envolvesse sexualmente com uma virgem solteira, assumia graves responsabilidades perante ela.

Se adulterasse com uma mulher casada, ambos eram culpados.

Se mantivesse relações com uma jovem desposada que consentisse no ato, ambos estavam sujeitos ao julgamento previsto pela Lei.

Portanto, um jovem israelita fiel à Lei também deveria conservar sua pureza sexual até o casamento.

Ao mesmo tempo, precisamos distinguir a exigência moral de castidade das diferentes normas jurídicas aplicadas a homens e mulheres na sociedade israelita.

E, finalmente, é precisamente esse ambiente judaico de virgindade, desposamento, compromisso legal anterior à consumação e possibilidade de ruptura desse compromisso por imoralidade sexual que nos ajuda a compreender a cláusula de exceção registrada exclusivamente por Mateus.

Não se trata, portanto, de estabelecer um privilégio para o homem casado abandonar sua esposa depois que ambos foram unidos por Deus. Trata-se de compreender uma circunstância judaica anterior à consumação matrimonial.

Depois de constituído o casamento, permanece a palavra do Senhor:

“O que Deus ajuntou não o separe o homem” (Mateus 19:6).

E a doutrina apostólica confirma:

“Porque a mulher que está sujeita ao marido, enquanto ele viver, está-lhe ligada pela lei” (Romanos 7:2).

Assim, tanto antes como depois do casamento, o padrão divino nunca foi dois pesos e duas medidas: pureza para a mulher e liberdade sexual para o homem. Deus exige santidade de ambos. E no casamento exige fidelidade de ambos.

Josué Matos

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Mas tenho uma dúvida sobre a questão da imortalidade da alma.

 Alguém que me escreveu por e-mail:

Olá, tenho visto vídeos do canal no YouTube e estou no grupo do WhatsApp. Gosto da mensagem do Evangelho que pregam; vejo o Evangelho puro sendo pregado. Mas tenho uma dúvida sobre a questão da imortalidade da alma.

No início do homem, Deus disse a Adão que ele morreria se comesse do fruto proibido. Deus disse que ele morreria. E, depois de comer, Deus deu a sentença de que ele voltaria ao pó, pois ele era pó e ao pó voltaria. Nesse momento, Deus não disse nada sobre ele ir para um inferno ou algo assim. Apenas disse que ele morreria. Se ele fosse ao inferno, não seria esse o momento de dizer isso?

Grato pela atenção e pelo seu ministério.

Minha Resposta:

Muito obrigado pelas suas palavras e também pela pergunta. Ela é muito importante porque toca em três assuntos que frequentemente são confundidos: a morte do corpo, a sobrevivência consciente da alma e do espírito depois da morte e o destino final do homem.

O ponto principal para compreendermos Gênesis é não exigir que Deus revele, logo nos primeiros capítulos da Bíblia, todos os detalhes que posteriormente seriam esclarecidos ao longo das Escrituras. Deus realmente disse a Adão:

“Porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gênesis 2:17).

Depois do pecado, disse:

“No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás” (Gênesis 3:19).

Portanto, sua observação está correta quanto ao texto: Deus não menciona ali Geena, Hades ou lago de fogo. Mas daí não podemos concluir que, na morte, o ser humano deixa completamente de existir ou que a alma morre juntamente com o corpo. Para entendermos isso, precisamos observar o restante da revelação bíblica.

  1. O que exatamente voltou ao pó?

Esta é uma questão fundamental.

Em Gênesis 2:7 encontramos:

“E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em seus narizes o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente.”

Observe a ordem. Deus formou o corpo de Adão do pó da terra. Portanto, quando posteriormente disse: “és pó e em pó te tornarás”, estava descrevendo especialmente o destino do corpo.

Isso é confirmado de maneira muito clara em Eclesiastes 12:7:

“E o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu.”

Aqui temos uma distinção que ajuda muito. Na morte, alguma coisa volta ao pó e alguma coisa não volta ao pó. O corpo retorna à terra, mas o espírito não é apresentado como se transformando em pó.

A morte física, portanto, não é a extinção do ser humano. É a separação das partes que constituem o homem.

Tiago 2:26 confirma:

“Porque, assim como o corpo sem o espírito está morto...”

O texto não diz que o espírito morreu. Diz que o corpo sem o espírito está morto.

  1. O homem é corpo, alma e espírito

A Bíblia apresenta o ser humano em sua constituição completa como corpo, alma e espírito.

Paulo escreve:

“E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito, e alma, e corpo sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Tessalonicenses 5:23).

Essas três partes não devem ser confundidas.

O corpo é material.

A alma e o espírito são imateriais.

Hebreus 4:12 inclusive fala da “divisão da alma e do espírito”, mostrando que, embora intimamente relacionados, alma e espírito não são simplesmente duas palavras para a mesma coisa.

Essa distinção torna-se particularmente importante quando estudamos a morte.

  1. A Bíblia mostra expressamente a alma deixando o corpo

Um dos textos mais claros encontra-se na morte de Raquel:

“E aconteceu que, saindo-lhe a alma (porque morreu)...” (Gênesis 35:18).

Veja a ordem da declaração. Sua alma saiu porque ela morreu.

Isso significa que sua alma não se tornou cadáver juntamente com seu corpo. Houve uma separação.

Encontramos uma demonstração ainda mais interessante em 1 Reis 17. O filho da viúva morreu, e Elias orou:

“Ó Senhor meu Deus, rogo-te que a alma deste menino torne a entrar nele” (1 Reis 17:21).

Então lemos:

“E o Senhor ouviu a voz de Elias; e a alma do menino tornou a entrar nele, e reviveu” (1 Reis 17:22).

Se a alma “tornou a entrar nele”, evidentemente havia saído.

Assim, a morte física não é a destruição da alma.

  1. O próprio Senhor Jesus distinguiu o corpo da alma

Talvez uma das declarações mais importantes sobre este assunto tenha sido feita pelo próprio Senhor Jesus:

“E não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo” (Mateus 10:28).

Observe cuidadosamente a linguagem.

Um homem pode matar o corpo.

Mas não pode matar a alma.

Se a morte do corpo significasse automaticamente a morte da alma, as palavras do Senhor não fariam sentido. Ele estabelece deliberadamente uma diferença entre ambos.

Portanto, biblicamente, quando alguém mata um homem, pode produzir a morte física, mas não pode extinguir sua existência imaterial.

  1. O que significou, então, “certamente morrerás”?

A sentença de Gênesis 2:17 foi muito mais profunda do que simplesmente Adão cair morto fisicamente no mesmo instante em que comeu do fruto.

Quando Adão pecou, a morte entrou na experiência humana.

Romanos 5:12 explica:

“Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, por isso que todos pecaram.”

A partir daquele momento, Adão tornou-se mortal. Seu corpo, que não estava originalmente sujeito à morte, passou a caminhar inevitavelmente para ela.

Por isso Gênesis 5:5 termina a história de Adão com estas palavras solenes:

“E foram todos os dias que Adão viveu novecentos e trinta anos; e morreu.”

Deus cumpriu exatamente aquilo que havia dito.

Entretanto, houve também uma consequência espiritual imediata. Antes do pecado, Adão desfrutava da presença de Deus. Depois de pecar, quando ouviu a voz do Senhor no jardim, escondeu-se:

“E esconderam-se Adão e sua mulher da presença do Senhor Deus, entre as árvores do jardim” (Gênesis 3:8).

A morte havia entrado. O corpo ainda estava biologicamente vivo, mas sua relação com Deus fora profundamente afetada pelo pecado.

É por isso que o Novo Testamento pode falar de pessoas fisicamente vivas como estando espiritualmente mortas.

Efésios 2:1 diz:

“E vos vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados.”

Portanto, na Bíblia, “morte” não deve ser automaticamente entendida como inexistência.

  1. Morte significa separação, não aniquilação

Esse ponto resolve grande parte da dificuldade.

A morte física separa o corpo da alma e do espírito.

A morte espiritual descreve a condição do homem separado de Deus por causa do pecado.

E a “segunda morte” é o destino eterno dos perdidos.

Apocalipse 20:14 diz:

“E a morte e o inferno foram lançados no lago de fogo. Esta é a segunda morte.”

E Apocalipse 21:8 novamente identifica o lago de fogo com “a segunda morte”.

Portanto, “morte” não pode significar simplesmente “deixar de existir”. Se significasse isso, a expressão “segunda morte” seria muito difícil de compreender, porque aqueles que experimentam a segunda morte são apresentados como existentes sob o juízo de Deus.

  1. Mas por que Deus não explicou tudo isso a Adão?

Porque Gênesis 3 não pretende apresentar uma exposição completa da doutrina do estado após a morte.

Este é um princípio importante na interpretação da Bíblia: ausência de informação em determinada passagem não significa negação de uma verdade revelada posteriormente.

Por exemplo, em Gênesis 3 Deus também não explicou a Adão detalhadamente a ressurreição dos mortos, o Grande Trono Branco, a segunda morte ou o lago de fogo. Isso não significa que essas coisas não existam.

A revelação bíblica é progressiva.

Em Gênesis encontramos a semente de muitas doutrinas que serão desenvolvidas posteriormente. Quando chegamos ao Novo Testamento, temos uma revelação muito mais completa sobre a morte, a ressurreição, Hades, Geena, o juízo e o estado eterno.

Não seria seguro estabelecer toda a doutrina da vida após a morte somente com base em Gênesis 3:19.

Precisamos permitir que toda a Escritura fale.

  1. Um detalhe importante: “alma” nem sempre significa a mesma coisa

Aqui também surge muita confusão.

A palavra “alma” pode ser usada na Bíblia com sentidos diferentes, e o contexto determina seu significado.

Às vezes, “alma” significa a própria pessoa.

Por exemplo:

“Todas as almas, pois, que procederam da coxa de Jacó foram setenta almas” (Êxodo 1:5).

Atos dos Apóstolos 2:41 também fala de aproximadamente “três mil almas”, isto é, três mil pessoas.

Por isso, quando Ezequiel 18:20 diz:

“A alma que pecar, essa morrerá”,

não devemos automaticamente interpretar isso como uma declaração de que a parte imaterial do homem deixa de existir. No contexto, “alma” significa a pessoa: a pessoa que pecar é responsável por seu próprio pecado.

Em outras passagens, “alma” significa vida.

E em outras, significa claramente a parte imaterial do homem.

Mateus 10:28 é um exemplo incontestável deste último uso, porque Cristo distingue expressamente “corpo” e “alma”.

Portanto, não podemos pegar todas as ocorrências da palavra “alma” e dar-lhes mecanicamente o mesmo significado.

  1. O que acontece com a pessoa depois da morte?

O Novo Testamento esclarece muito esse assunto.

O Senhor Jesus contou sobre o rico e Lázaro em Lucas 16:19-31. Ambos morreram.

Lázaro foi consolado.

O rico encontrava-se em tormentos.

O rico podia falar.

Podia recordar.

Reconhecia Abraão.

Lembrava-se de seus cinco irmãos.

Preocupava-se com o destino deles.

Ele diz:

“Porque estou atormentado nesta chama” (Lucas 16:24).

E posteriormente:

“Para que lhes dê testemunho, a fim de que não venham também para este lugar de tormento” (Lucas 16:28).

Qualquer que seja a discussão sobre os detalhes dessa passagem, uma coisa é impossível negar: o Senhor descreveu existência consciente depois da morte.

  1. O caso do ladrão na cruz

Há ainda uma declaração muito simples do Senhor Jesus ao ladrão que creu nEle:

“Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso” (Lucas 23:43).

Observe: “hoje”.

O corpo daquele homem morreria e seria retirado da cruz. Ainda assim, Cristo lhe prometeu uma existência consciente com Ele.

Isso concorda perfeitamente com aquilo que Paulo escreveu:

“Desejamos antes deixar este corpo, para habitar com o Senhor” (2 Coríntios 5:8).

E novamente:

“Tendo desejo de partir, e estar com Cristo, porque isto é ainda muito melhor” (Filipenses 1:23).

Se Paulo acreditasse que morrer significava entrar numa inexistência ou inconsciência absoluta até a ressurreição, seria estranho dizer que partir e estar com Cristo era “muito melhor”.

  1. Apocalipse mostra almas conscientes sem seus corpos ressuscitados

Apocalipse 6:9-11 fornece outra evidência muito forte.

João diz:

“Vi debaixo do altar as almas dos que foram mortos por amor da palavra de Deus.”

Seus corpos haviam sido mortos, mas João vê suas “almas”.

E essas almas clamam:

“Até quando, ó verdadeiro e santo Dominador, não julgas e vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra?”

Elas sabem quem são.

Sabem o que aconteceu.

Lembram-se de sua morte.

Sabem que seus perseguidores ainda estão sobre a Terra.

Falam com Deus.

Esperam o cumprimento de acontecimentos futuros.

Isso não corresponde ao conceito de uma alma inconsciente ou inexistente.

  1. Precisamos distinguir Hades de Geena

Talvez esta seja uma das maiores fontes de confusão quando usamos simplesmente a palavra portuguesa “inferno”.

A Bíblia apresenta uma diferença entre o estado intermediário dos mortos e o destino final dos perdidos.

No Antigo Testamento encontramos a palavra hebraica Seol. No Novo Testamento encontramos a palavra grega Hades. Em Atos dos Apóstolos 2:27, a citação do Salmo 16:10 mostra a correspondência entre esses termos.

Hades não deve ser confundido simplesmente com a sepultura.

A sepultura recebe o corpo.

Hades está relacionado com o estado dos mortos.

Isso é especialmente claro em Apocalipse 20:13:

“E deu o mar os mortos que nele havia; e a morte e o inferno deram os mortos que neles havia.”

Depois:

“E a morte e o inferno foram lançados no lago de fogo” (Apocalipse 20:14).

Portanto, Hades não é o lago de fogo, porque finalmente o próprio Hades será lançado no lago de fogo.

  1. Então o perdido não vai imediatamente para o lago de fogo quando morre

Esta distinção é importante.

Quando uma pessoa não salva morre atualmente, seu corpo retorna ao pó, enquanto sua existência imaterial continua no estado dos mortos, aguardando a ressurreição e o julgamento.

O rico de Lucas 16 estava no Hades em tormentos, mas o julgamento do Grande Trono Branco, descrito em Apocalipse 20, ainda era futuro.

Depois haverá a ressurreição dos perdidos.

O Senhor Jesus disse:

“Vem a hora em que todos os que estão nos sepulcros ouvirão a sua voz. E os que fizeram o bem sairão para a ressurreição da vida; e os que fizeram o mal, para a ressurreição da condenação” (João 5:28-29).

Portanto, o corpo também ressuscitará.

  1. É depois da ressurreição e do julgamento que encontramos o destino final

Apocalipse 20:11-15 descreve o Grande Trono Branco.

Os mortos são ressuscitados.

São julgados.

E então lemos:

“E aquele que não foi achado escrito no livro da vida foi lançado no lago de fogo” (Apocalipse 20:15).

É importante perceber a sequência:

morte física → estado intermediário → ressurreição → julgamento → destino eterno.

Por isso, quando Deus disse a Adão: “és pó e em pó te tornarás”, estava anunciando uma consequência real do pecado: a morte atingiria seu corpo. Mas Gênesis 3 não estava apresentando todos os detalhes daquilo que aconteceria com o homem depois da morte.

  1. Geena é diferente de Hades

O Senhor Jesus usou a palavra Geena para falar do destino final de julgamento.

Em Mateus 10:28, que já citamos, encontramos algo muito importante:

“Temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo.”

Aqui temos “alma e corpo”.

Por quê?

Porque o destino final vem depois da ressurreição.

Enquanto no estado intermediário o corpo permanece na morte, no destino eterno o homem ressuscitado encontra-se novamente em sua existência completa.

É por isso que Apocalipse chama o lago de fogo de “segunda morte”.

  1. A ressurreição prova que o corpo também faz parte do propósito eterno de Deus

A doutrina bíblica não ensina que a alma é importante e o corpo descartável.

Isso seria outro erro.

Cristo morreu também para redimir nosso corpo.

Romanos 8:23 fala da:

“redenção do nosso corpo”.

E 1 Coríntios 15 explica detalhadamente a ressurreição.

O corpo é semeado em corrupção e ressuscitará em incorrupção; é semeado em ignomínia e ressuscitará em glória; é semeado em fraqueza e ressuscitará em vigor (1 Coríntios 15:42-44).

Assim, a esperança cristã não é permanecer eternamente como uma alma sem corpo.

Quando Cristo vier, os mortos em Cristo ressuscitarão.

“Porque o mesmo Senhor descerá do céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro” (1 Tessalonicenses 4:16).

Depois os vivos serão transformados e arrebatados juntamente com eles.

“E assim estaremos sempre com o Senhor” (1 Tessalonicenses 4:17).

  1. Portanto, a expressão “imortalidade da alma” precisa ser explicada biblicamente

Eu prefiro não construir a doutrina apenas em torno da expressão “alma imortal”, porque o mais importante é perguntar: o que as Escrituras ensinam que acontece com a alma quando o corpo morre?

E a resposta bíblica é clara: ela não deixa de existir com a morte do corpo.

Gênesis 35:18 mostra a alma saindo.

1 Reis 17:21-22 mostra a alma retornando.

Mateus 10:28 mostra que os homens podem matar o corpo, mas não podem matar a alma.

Lucas 16:19-31 apresenta consciência depois da morte.

Lucas 23:43 apresenta o salvo com Cristo no Paraíso.

2 Coríntios 5:8 fala em deixar o corpo e habitar com o Senhor.

Filipenses 1:23 fala em partir e estar com Cristo.

Apocalipse 6:9-11 mostra almas de mortos conscientes diante de Deus.

Tudo isso precisa ser considerado juntamente com Gênesis.

  1. Voltando finalmente à sua pergunta

O irmão perguntou, em essência: “Se Adão fosse para o inferno, não seria aquele o momento para Deus dizer isso?”

Eu responderia: não necessariamente.

Deus estava pronunciando em Gênesis 3 a sentença correspondente à desobediência de Adão, incluindo a mortalidade e o retorno do corpo ao pó. Ele não estava, naquele momento, expondo toda a doutrina bíblica sobre o estado intermediário, ressurreição, Hades, Geena, Grande Trono Branco e lago de fogo.

Essas verdades seriam reveladas progressivamente.

Além disso, precisamos ter cuidado com a afirmação “Adão iria para o inferno”. Gênesis não nos autoriza a afirmar que Adão foi condenado eternamente. A passagem registra sua queda e a sentença decorrente do pecado, mas não devemos acrescentar ao texto aquilo que ele não afirma sobre o destino eterno pessoal de Adão.

O que podemos afirmar é que, por Adão, o pecado entrou no mundo e, pelo pecado, a morte (Romanos 5:12).

Mas graças a Deus, Romanos 5 não termina em Adão.

Apresenta-nos outro Homem: Jesus Cristo.

“Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos” (Romanos 5:19).

O primeiro Adão trouxe pecado e morte. Cristo veio trazer justiça e vida.

Por isso, a grande questão para nós não é apenas descobrir o que acontece com a alma depois da morte, mas saber onde estaremos depois da morte. E isso depende da nossa relação com Jesus Cristo.

Quem está em Cristo pode dizer com Paulo que partir é “estar com Cristo” (Filipenses 1:23). Quem morre sem Cristo aguarda a ressurreição para o juízo.

A morte do corpo não encerra a existência do homem. Ela encerra sua oportunidade nesta vida. Depois dela permanece a realidade solene expressa em Hebreus 9:27:

“E, como aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo depois disso o juízo.”

É justamente por isso que o Evangelho é uma mensagem tão urgente. Cristo morreu pelos nossos pecados, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia (1 Coríntios 15:3-4). Nele há perdão, vida eterna e a esperança da ressurreição.

“Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá” (João 11:25).

Josué Matos

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Eles confundem o Dia do Senhor com a vinda do Filho do Homem?

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Graça e paz, irmão Josué.

Conversei com um judeu, e ele disse que acredita que, quando vier a ressurreição, eles irão morar na Terra restaurada e não subirão para o terceiro céu.

É isso mesmo que ensina a tradição judaica?

Eles confundem o Dia do Senhor com a vinda do Filho do Homem?

Minha Resposta:

A sua pergunta envolve dois assuntos que precisam ser separados: primeiro, qual é a esperança de Israel apresentada no Antigo Testamento; segundo, o que o Novo Testamento acrescenta a essa revelação.

Em certo sentido, aquilo que esse judeu lhe falou tem uma base compreensível no Antigo Testamento. A esperança profética dada a Israel está fortemente relacionada com a Terra, com a restauração da nação, com Jerusalém e com o reino do Messias. Porém, a revelação completa das Escrituras vai além disso.

  1. A esperança nacional de Israel está realmente relacionada com a Terra

Deus fez promessas literais a Abraão e aos seus descendentes. Em Gênesis 12:1-3, Gênesis 13:14-17 e Gênesis 15:18, encontramos a promessa da terra.

Posteriormente, os profetas desenvolveram amplamente essa esperança. Por exemplo:

“E acontecerá nos últimos dias que se firmará o monte da casa do Senhor no cume dos montes e se exalçará por cima dos outeiros; e concorrerão a ele todas as nações” (Isaías 2:2).

Isaías apresenta ainda um período em que o Messias governará em justiça, haverá transformação nas condições da criação e “a terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as águas cobrem o mar” (Isaías 11:1-9).

Ezequiel também fala da restauração de Israel:

“E vos tomarei dentre as nações, e vos congregarei de todos os países, e vos trarei para a vossa terra” (Ezequiel 36:24).

Encontramos a mesma esperança em Jeremias 30:3; Jeremias 31:8-14; Ezequiel 37:21-28; Amós 9:11-15; Miquéias 4:1-8; Zacarias 8:1-8 e Zacarias 14:9-21.

Portanto, o judeu com quem o irmão conversou não está simplesmente inventando uma esperança terrena. Existe realmente no Antigo Testamento uma expectativa muito forte de restauração de Israel e de um reino messiânico estabelecido sobre a Terra.

O problema aparece quando se pensa que isso constitui toda a revelação de Deus acerca do destino dos santos ressuscitados.

  1. O próprio Antigo Testamento ensina a ressurreição

A ressurreição também fazia parte da esperança de Israel.

Daniel escreveu:

“E muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para vida eterna e outros para vergonha e desprezo eterno” (Daniel 12:2).

O Senhor Jesus confirmou que a esperança da ressurreição já estava implícita na revelação dada aos patriarcas. Respondendo aos saduceus, que negavam a ressurreição, Ele citou Êxodo 3:6:

“Eu sou o Deus de Abraão, e o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó. Ora, Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos” (Mateus 22:32).

Isso é muito importante. Abraão recebeu promessas que não foram plenamente cumpridas durante sua vida terrena. Hebreus 11:13 diz que aqueles homens “morreram na fé, sem terem recebido as promessas”.

Assim, a ressurreição está ligada também à fidelidade de Deus às Suas promessas.

  1. Entretanto, Abraão esperava mais do que simplesmente uma Terra restaurada

Aqui o Novo Testamento acrescenta algo extraordinário.

Sobre Abraão, lemos:

“Porque esperava a cidade que tem fundamentos, da qual o artífice e construtor é Deus” (Hebreus 11:10).

Depois lemos:

“Mas agora desejam uma melhor, isto é, a celestial” (Hebreus 11:16).

Portanto, seria incompleto afirmar simplesmente que todos os santos israelitas ressuscitarão para permanecer na Terra em condições semelhantes às pessoas que entrarão vivas no reino milenar.

Existe uma diferença importante entre Israel restaurado como nação sobre a Terra e os santos ressuscitados e glorificados.

Durante o reino milenar haverá pessoas vivendo naturalmente sobre a Terra. Israel terá seu lugar determinado por Deus, Jerusalém terá importância especial e Cristo exercerá Seu governo universal. Isaías 11; Isaías 35; Isaías 65:18-25; Jeremias 31; Ezequiel 36–37; Zacarias 14 e Apocalipse 20 apresentam diferentes aspectos desse reino.

Mas os ressuscitados pertencem a uma condição diferente. Ressurreição não significa simplesmente retornar à antiga existência natural.

  1. Precisamos também distinguir Israel da Igreja

Aqui encontramos outra diferença fundamental.

As promessas nacionais de Israel não devem ser transferidas para a Igreja, assim como as promessas específicas dadas à Igreja não devem ser confundidas com aquelas dadas a Israel.

A esperança característica da Igreja é celestial.

O Senhor Jesus disse aos discípulos:

“Na casa de meu Pai há muitas moradas [...] vou preparar-vos lugar. E, se eu for e vos preparar lugar, virei outra vez e vos levarei para mim mesmo, para que, onde eu estiver, estejais vós também” (João 14:2-3).

Paulo explica:

“Porque o mesmo Senhor descerá do céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor” (1 Tessalonicenses 4:16-17).

Portanto, para a Igreja, a questão central nem sequer é simplesmente “onde iremos morar?”, mas “com quem estaremos?”

“E assim estaremos sempre com o Senhor.”

Esta é a esperança cristã.

  1. O terceiro céu

A expressão “terceiro céu” aparece claramente em 2 Coríntios 12:2, quando Paulo diz:

“Conheço um homem em Cristo que, há catorze anos [...] foi arrebatado ao terceiro céu.”

No versículo 4, Paulo relaciona essa experiência com o “paraíso”.

Entretanto, devemos ter cuidado para não transformar a expressão “terceiro céu” numa fórmula aplicada indistintamente a todas as promessas escatológicas.

A Bíblia apresenta diferentes grupos dentro do programa profético de Deus: a Igreja, Israel, os santos do Antigo Testamento e aqueles que serão salvos durante os acontecimentos futuros. Todos são salvos pela obra de Cristo, mas isso não significa que todas as promessas feitas a eles sejam idênticas.

  1. E quanto ao “Dia do Senhor” e à “vinda do Filho do Homem”?

Aqui eu faria uma pequena correção na forma da pergunta.

Não devemos dizer simplesmente que os judeus “confundem” o Dia do Senhor com a vinda do Filho do Homem, porque biblicamente existe realmente uma relação entre essas duas coisas.

O “Dia do Senhor” é uma expressão muito importante dos profetas.

Isaías 2:10-21 mostra o Senhor intervindo diretamente na história humana, humilhando a soberba dos homens.

Joel declara:

“Porque o dia do Senhor está perto” (Joel 2:1).

Sofonias 1:14 diz:

“O grande dia do Senhor está perto.”

Zacarias 14 também associa o Dia do Senhor à intervenção divina, ao juízo das nações e ao estabelecimento do governo do Senhor.

O Novo Testamento conserva essa expressão. Veja Atos dos Apóstolos 2:20; 1 Tessalonicenses 5:2; 2 Tessalonicenses 2:2 e 2 Pedro 3:10.

  1. A vinda do Filho do Homem está inserida nesse cenário

Quando chegamos aos Evangelhos, encontramos repetidamente a expressão “Filho do Homem” relacionada com a Sua manifestação em glória.

O Senhor disse:

“Porque, assim como o relâmpago sai do oriente e se mostra até ao ocidente, assim será também a vinda do Filho do Homem” (Mateus 24:27).

E depois:

“E verão o Filho do Homem, vindo sobre as nuvens do céu, com poder e grande glória” (Mateus 24:30).

Compare também Mateus 16:27; Mateus 24:37-44; Mateus 25:31; Marcos 13:26; Lucas 17:24-30 e Lucas 21:27.

Tudo isso remonta especialmente à profecia de Daniel:

“Eu estava olhando nas minhas visões da noite, e eis que vinha nas nuvens do céu um como o Filho do Homem” (Daniel 7:13).

Portanto, o Dia do Senhor e a manifestação do Filho do Homem não são duas ideias completamente desconectadas.

O Dia do Senhor é um período mais amplo da intervenção e supremacia pública de Deus sobre a Terra. Dentro desse programa encontra-se a manifestação gloriosa de Cristo como Filho do Homem.

  1. O ponto que precisa ser distinguido é o arrebatamento da Igreja

Aqui está uma distinção muito importante.

O arrebatamento descrito em João 14:1-3, 1 Coríntios 15:51-52 e 1 Tessalonicenses 4:13-18 não deve ser confundido com a manifestação pública do Filho do Homem descrita, por exemplo, em Mateus 24:27-31.

No arrebatamento, Cristo vem para receber os Seus.

Na manifestação, Cristo vem com os Seus.

No arrebatamento, o encontro é “nos ares” (1 Tessalonicenses 4:17).

Na manifestação, Ele aparece publicamente em poder e grande glória (Mateus 24:30).

O arrebatamento pertence particularmente à esperança da Igreja. A manifestação do Filho do Homem está relacionada com Sua intervenção pública na Terra, o julgamento e o estabelecimento do Seu reino.

Colossenses 3:4 mostra muito bem essa diferença:

“Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então também vós vos manifestareis com ele em glória.”

  1. Portanto, há uma parte verdadeira no que esse judeu lhe falou

Podemos resumir da seguinte maneira:

A esperança nacional de Israel é realmente terrena e está ligada à restauração da nação, à terra prometida e ao reino do Messias.

Porém, isso não significa que a revelação bíblica sobre os santos ressuscitados se limite a uma existência terrena.

O Novo Testamento revela aspectos celestiais que o Antigo Testamento não desenvolvia plenamente.

Além disso, não podemos colocar Israel e a Igreja exatamente na mesma posição profética. Israel possui promessas nacionais e terrenas que Deus ainda cumprirá literalmente; a Igreja possui uma vocação celestial e aguarda o Senhor Jesus para ser arrebatada e estar para sempre com Ele.

Finalmente, o Dia do Senhor e a vinda do Filho do Homem não devem ser tratados como acontecimentos sem relação. A manifestação gloriosa do Filho do Homem está inserida no grande programa do Dia do Senhor. O que precisamos distinguir dessa manifestação pública é o arrebatamento da Igreja, que constitui a esperança própria daqueles que estão em Cristo nesta presente dispensação.

Assim, o judeu com quem o irmão conversou preserva, ainda que de maneira incompleta, algo da antiga esperança de Israel: ressurreição, restauração, Terra e reino. O que lhe falta é aquilo que somente pode ser compreendido plenamente à luz da revelação do Novo Testamento: Jesus de Nazaré é o Messias prometido, Ele já ressuscitou dentre os mortos, voltará para buscar a Sua Igreja e posteriormente Se manifestará como Filho do Homem em poder e grande glória, cumprindo também as promessas que Deus fez a Israel.

Josué Matos

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O pedobatismo deve ser considerar como má doutrina ou é um mal-entendido sobre o batismo?

 Alguém que me escreveu no YouTube:

Quando um irmão pensa que o pedobatismo é válido, devemos considerar isso como má doutrina ou é um mal-entendido sobre o batismo?

Minha Resposta:

Creio que precisamos fazer uma distinção importante. O pedobatismo, isto é, o batismo de crianças que ainda não exerceram fé pessoal no Senhor Jesus Cristo, não encontra fundamento no ensino do Novo Testamento. Portanto, como ensino, é um erro doutrinário. Entretanto, isso não significa necessariamente que todo irmão que aceita o pedobatismo deva ser considerado um falso mestre ou alguém que ensina deliberadamente uma “má doutrina”. Em muitos casos, trata-se de um entendimento equivocado acerca da natureza, do significado e dos requisitos do batismo cristão.

É importante distinguir entre uma doutrina errada e a condição espiritual da pessoa que sustenta esse erro. Um verdadeiro crente pode estar errado sobre determinado assunto bíblico e ainda assim ser um irmão genuíno em Cristo. Áquila e Priscila encontraram Apolo, que era “eloquente e poderoso nas Escrituras”, mas cujo conhecimento ainda era incompleto. Então “lhe declararam mais precisamente o caminho de Deus” (Atos dos Apóstolos 18:24-26). O caminho bíblico é ensinar e corrigir pelas Escrituras.

No caso do batismo, o padrão apresentado no Novo Testamento é bastante claro: primeiro vem a recepção da Palavra e a fé; depois, o batismo.

Em Atos dos Apóstolos 2:41 lemos: “De sorte que foram batizados os que de bom grado receberam a sua palavra”. Portanto, receberam a Palavra e depois foram batizados.

Em Atos dos Apóstolos 8, quando o evangelho foi anunciado em Samaria, “como cressem em Filipe, que lhes pregava acerca do reino de Deus e do nome de Jesus Cristo, se batizavam, tanto homens como mulheres” (Atos dos Apóstolos 8:12). Novamente, a ordem é fé e depois batismo.

O mesmo princípio aparece no caso do eunuco etíope. Filipe anunciou-lhe Jesus e, depois de receber a mensagem, ele pediu para ser batizado (Atos dos Apóstolos 8:35-38).

Também encontramos essa ordem na casa de Cornélio. Eles ouviram a Palavra, receberam o Espírito Santo como consequência da fé em Cristo e então Pedro perguntou: “Pode alguém porventura recusar a água, para que não sejam batizados estes, que também receberam como nós o Espírito Santo?” (Atos dos Apóstolos 10:47).

O carcereiro de Filipos também é significativo. Paulo e Silas disseram: “Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo, tu e a tua casa” (Atos dos Apóstolos 16:31). Depois “lhe pregaram a palavra do Senhor, e a todos os que estavam em sua casa” (Atos dos Apóstolos 16:32). Somente depois disso ocorreu o batismo. Portanto, usar os chamados “batismos de casas” para provar o pedobatismo exige colocar no texto algo que ele não afirma. Não há indicação de que bebês tenham sido batizados.

Além disso, o próprio significado do batismo pressupõe uma experiência espiritual anterior. Romanos 6:3-4 apresenta o batismo relacionado à identificação do crente com a morte, o sepultamento e a ressurreição de Cristo. Colossenses 2:12 igualmente diz: “Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus”. O batismo, portanto, é uma figura pública da identificação do crente com Cristo.

Há ainda um episódio particularmente esclarecedor em Atos dos Apóstolos 19:1-7. Alguns homens haviam recebido anteriormente o batismo de João. Quando Paulo percebeu que a compreensão deles era incompleta, explicou-lhes a verdade acerca do Senhor Jesus. Depois disso, foram batizados em nome do Senhor Jesus. Isso demonstra que não basta ter passado anteriormente por uma cerimônia chamada “batismo”; é necessário que o ato corresponda ao significado bíblico do batismo cristão.

Por isso, uma pessoa que foi “batizada” quando bebê e posteriormente se converte ao Senhor Jesus não deveria pensar que já recebeu o batismo cristão. Biblicamente, ela ainda precisa ser batizada como crente. Não se trata propriamente de “rebatismo”, pois aquilo que recebeu quando criança não corresponde ao padrão neotestamentário do batismo cristão.

Também devemos lembrar que a palavra grega baptízō traz a ideia de mergulhar, imergir. O próprio relato de João Batista é significativo: “João estava também batizando em Enom, junto a Salim, porque havia ali muitas águas” (João 3:23). Se fosse simplesmente uma questão de colocar algumas gotas de água sobre alguém, a referência a “muitas águas” perderia grande parte de sua força.

Portanto, há dois problemas no pedobatismo: o sujeito e, frequentemente, o modo. O sujeito bíblico do batismo é aquele que recebeu a Palavra e creu em Cristo; e o modo apresentado pelo significado da palavra e pelo simbolismo de Romanos 6 é a imersão.

Entretanto, há ainda uma distinção muito importante quanto à gravidade do erro.

Uma coisa é um irmão dizer: “Creio que filhos pequenos de cristãos podem ser batizados como sinal de pertencimento à família da aliança”. Consideramos essa interpretação equivocada e sem apoio suficiente no Novo Testamento. Outra coisa, muito mais grave, é ensinar que o batismo infantil regenera a criança, remove o pecado original, comunica salvação ou torna automaticamente aquela criança participante da vida de Cristo.

Nesse segundo caso, já não estamos apenas diante de uma interpretação equivocada sobre quem deve ser batizado. Estamos tocando na própria doutrina da salvação.

A Escritura é clara:

“Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie” (Efésios 2:8-9).

“Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo” (Atos dos Apóstolos 16:31).

“Aquele que crê no Filho tem a vida eterna” (João 3:36).

Nenhuma cerimônia exterior possui poder regenerador. A salvação está em Cristo e é recebida mediante a fé. Atribuir ao batismo poder salvador é, portanto, um erro consideravelmente mais grave do que simplesmente estar equivocado quanto à idade ou condição da pessoa que deve ser batizada.

Assim, eu responderia à pergunta desta maneira: o pedobatismo é uma doutrina errada acerca do batismo, porque não corresponde ao padrão apresentado no Novo Testamento. Porém, não devemos automaticamente classificar todo irmão pedobatista como falso mestre ou alguém comprometido com doutrinas destruidoras da fé. Precisamos saber exatamente o que ele crê.

Se ele reconhece que a salvação é somente pela graça, mediante a fé em Cristo, mas entende equivocadamente que filhos de crentes podem ser batizados, estamos diante de um irmão que necessita de melhor compreensão bíblica sobre o batismo.

Se, porém, ele atribui ao batismo infantil poder regenerador, salvador ou sacramental, então o problema se torna muito mais sério, porque já interfere diretamente na doutrina bíblica da salvação.

Finalmente, nossa atitude para com um irmão que pensa diferente nesse assunto não deve ser de hostilidade, mas também não deve ser de indiferentismo doutrinário. Paulo escreveu: “Examinai tudo. Retende o bem” (Primeira Epístola aos Tessalonicenses 5:21). Devemos receber aquilo que está de acordo com a Palavra de Deus e corrigir, com mansidão e clareza, aquilo que não está.

O padrão apostólico continua sendo simples: a Palavra é anunciada, a pessoa ouve, arrepende-se, crê no Senhor Jesus Cristo e, como discípulo, é batizada. Não encontramos no Novo Testamento um mandamento, um exemplo inequívoco ou uma explicação doutrinária que estabeleça o batismo de bebês como prática da Igreja.

Josué Matos

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