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Como a Bíblia trata do divórcio?

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Irmão, eu escrevi muita coisa, mas a dúvida principal é: por que no grego original Jesus fala em esposa (γυναίκα) e em divorciar-se em Mateus 5:32 e 19:9? Como aceitar que não está falando de um casamento consumado?

Minha Resposta:

A sua pergunta é muito pertinente, e dá para perceber que o irmão está examinando com cuidado o texto — isso é muito bom. Vou ser direto e procurar organizar bem a resposta para que fique claro.

1. Primeiro ponto: a palavra “esposa” no grego não resolve a questão sozinha

A palavra grega usada, gynē (γυνή), pode significar tanto “mulher” quanto “esposa”, dependendo do contexto. Isso é importante.

No próprio caso que o irmão citou:

  • Mateus 1:18 → Maria estava “desposada”
  • Mateus 1:19 → José é chamado de “marido”

Ou seja, antes da consumação, já se usa linguagem de casamento.

Isso mostra claramente que:

  • A linguagem jurídica já tratava os desposados como marido e mulher
  • Mesmo sem coabitação nem relação conjugal

Então o fato de Jesus usar “esposa” não prova automaticamente que o casamento já estava consumado.

2. O desposório judaico: vínculo real, mas ainda não consumado

O irmão explicou muito bem esse ponto — e está correto:

  • Havia um vínculo legal real
  • Era necessário divórcio para romper
  • A infidelidade já era considerada pecado grave

Mas havia uma distinção fundamental:

  • Desposório (promessa legal)
  • Casamento consumado (“uma só carne”) — Gênesis 2:24

Essa distinção é confirmada em toda a Escritura.

3. O ponto-chave: por que Mateus traz a cláusula e os outros evangelhos não?

Aqui está o argumento mais importante.

Compare:

  • Mateus 5:32 / 19:9 → traz a exceção (“por causa de porneia”)
  • Marcos 10:11-12 → não traz exceção
  • Lucas 16:18 → não traz exceção

Se a exceção fosse para o casamento consumado, haveria uma contradição direta entre os evangelhos.

Mas a Escritura não se contradiz.

Então a única forma de harmonizar é entender que:

  • Mateus (escrevendo aos judeus) trata de uma situação específica do contexto judaico
  • Marcos e Lucas apresentam o princípio absoluto do casamento

4. O significado de “porneia” (πορνεία)

Outro ponto decisivo.

Jesus não usa “moicheia” (adultério), mas “porneia”.

Isso indica algo mais amplo, e no contexto judaico aponta para:

  • Imoralidade antes da consumação
  • Situações como a de Maria e José (Mateus 1:18-19)

Ou seja, o caso em Mateus encaixa exatamente no cenário de desposório.

5. Então por que se fala em “divórcio”?

O irmão perguntou algo importante:

“Como alguém poderia se divorciar sem estar casado?”

Resposta:
Porque no sistema judaico o desposório exigia divórcio para ser rompido.

Exemplo claro:

  • José “intentou deixá-la” → Mateus 1:19
  • Isso implica um rompimento formal, mesmo sem casamento consumado

Portanto:

  • Havia linguagem de casamento
  • Havia necessidade de divórcio
  • Mas ainda não havia união plena (“uma só carne”)

6. O ensino completo da Escritura sobre o casamento

Quando vamos para o ensino doutrinário completo:

  • Gênesis 2:24 → união permanente (“uma só carne”)
  • Romanos 7:2-3 → vínculo até a morte
  • 1 Coríntios 7:10-11 → não separar; se separar, não casar de novo

Nunca é dada permissão para novo casamento após divórcio entre crentes.

7. Conclusão equilibrada

Então juntando tudo:

✔ A palavra “esposa” pode ser usada antes da consumação
✔ O desposório já era um vínculo legal real
✔ A exceção de Mateus está ligada ao contexto judaico
✔ “Porneia” aponta para imoralidade antes da união plena
✔ Marcos e Lucas confirmam o princípio absoluto: não há exceção no casamento consumado

Portanto, não há contradição:

  • Mateus trata de um caso específico do contexto judaico
  • Os demais evangelhos e as epístolas mostram a doutrina completa

Se resumirmos em uma frase:

A cláusula de Mateus não autoriza divórcio no casamento consumado, mas trata de uma situação anterior à plena união conjugal, dentro do contexto judaico do desposório.

Se o irmão quiser, posso aprofundar ainda mais na diferença entre “porneia” e “moicheia” ou mostrar como isso se encaixa em toda a doutrina do Novo Testamento.

Josué Matos

A Escritura nos diz que os homens não podem ser justificados pela guarda da lei?

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

A Escritura nos diz que os homens não podem ser justificados pela guarda da lei. Mas, como entender, então, as palavras do Senhor Jesus em Mateus 19:17? Isto depõe contra o princípio de Sola Fide? De igual modo, parece-me ler isto em Romanos 2:13. Como entender o contraste deste último versículo e Romanos 3:24? Isaías 63:5: Como explicar que Deus tenha se admirado, visto ser Ele onisciente? Como conciliar Efésios 2:8-9 com Romanos 3:28 e Tiago 2? A qual nação o Senhor Jesus se refere em Mateus 21:43? E, se os judeus tivessem crido, os gentios seriam alcançados?

Minha Resposta:

Antes de tudo, agradeço pela sua mensagem, pelo cuidado em não ser inconveniente e, principalmente, pela confiança. Fico feliz em poder ajudar, e pode escrever sempre que precisar. Vamos às suas perguntas.

Vamos por partes.

  1. Mateus 19:17 e a lei

Quando o Senhor Jesus diz: “Se queres entrar na vida, guarda os mandamentos” (Mateus 19:17), Ele não está ensinando salvação pelas obras, mas expondo o coração do homem.

O jovem rico confiava em si mesmo. Então o Senhor usa a lei para revelar sua incapacidade. Isso está em perfeita harmonia com o ensino posterior: “Pela lei vem o conhecimento do pecado” (Romanos 3:20).

A lei nunca foi dada como meio de justificação, mas como meio de revelação do pecado. Por isso, Gálatas 3:24 diz que a lei foi o “aio” que nos conduz a Cristo.

  1. Romanos 2:13 e Romanos 3:24

Romanos 2:13 diz: “Os que praticam a lei hão de ser justificados”. Mas isso é um princípio hipotético: se alguém cumprisse perfeitamente a lei, seria justificado.

O problema é que ninguém cumpre. Logo em seguida, Paulo conclui: “Todos pecaram” (Romanos 3:23) e “são justificados gratuitamente pela sua graça” (Romanos 3:24).

Portanto, Romanos 2 mostra o padrão; Romanos 3 mostra a realidade e a solução em Cristo.

  1. Efésios 2:8-9, Romanos 3:28 e Tiago 2

Não há contradição aqui, mas complementação.

Efésios 2:8-9 ensina que a salvação é pela graça, mediante a fé, “não vem das obras”.

Romanos 3:28 confirma: “o homem é justificado pela fé sem as obras da lei”.

Já Tiago 2 não trata da raiz da salvação, mas da evidência dela. Ele diz que a fé verdadeira produz obras. Uma fé que não produz nada é morta.

Ou seja:

  • Paulo fala da justificação diante de Deus (pela fé)
  • Tiago fala da demonstração dessa fé diante dos homens (pelas obras)

  1. Isaías 63:5 — Deus se admirou?

O texto diz que Deus “se maravilhou de não haver quem intercedesse”. Isso não significa ignorância.

Na Escritura, muitas vezes Deus é apresentado em linguagem humana (antropomorfismo), para que possamos compreender.

Isso expressa a gravidade da situação: não havia absolutamente ninguém capaz de interceder. Então Ele mesmo trouxe salvação.

Compare com Isaías 59:16: “Viu que não havia homem algum… então o seu braço lhe trouxe a salvação”.

  1. Mateus 21:43 — que nação é essa?

“O reino de Deus vos será tirado e será dado a uma nação que produza os seus frutos”.

Aqui o Senhor Jesus não está falando de uma nação política, mas de um povo espiritual.

Refere-se àqueles que receberiam o reino — judeus e gentios que creem. Isso se cumpre na formação da Igreja, composta de todos os que creem no Senhor Jesus.

Compare com 1 Pedro 2:9: “vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa”.

  1. Se os judeus tivessem crido, os gentios seriam alcançados?

Sim. O plano de Deus sempre incluiu os gentios.

Veja Gênesis 12:3: “em ti serão benditas todas as famílias da terra”.

Se Israel tivesse recebido o Messias, seria instrumento de bênção para as nações. Mas, como rejeitou, Deus trouxe os gentios diretamente pela graça.

Romanos 11 explica isso: a queda de Israel resultou em riqueza para os gentios (Romanos 11:11-12).

Mas isso não anulou o plano de Deus com Israel. Há restauração futura.

Conclusão

Não há contradições nas Escrituras. O que há são diferentes aspectos da verdade:

  • A lei revela o pecado
  • A graça salva
  • A fé justifica
  • As obras evidenciam essa fé
  • Deus usa linguagem humana para se revelar
  • O plano de Deus sempre incluiu judeus e gentios

A Escritura é perfeita, e quanto mais comparamos passagem com passagem, mais vemos sua harmonia.

Continue firme na Palavra. Suas perguntas mostram zelo e reverência — e isso é precioso diante de Deus.

Um forte abraço, meu irmão. Que o Senhor continue te dando entendimento.

Josué Matos

O ‘inferno’ é apenas um mito copiado do Zoroastrismo?

Alguém que me escreveu no YouTube:

O ‘inferno’ é apenas um mito copiado do Zoroastrismo, mas, ao contrário do ‘inferno’ cristão, o inferno do Zoroastrismo não era eterno, o Cristianismo é a religião mais perversa da História da humanidade!

Minha Resposta:

A sua afirmação envolve duas ideias principais: a origem do conceito de inferno e o caráter do Cristianismo. É importante tratar ambas com base na revelação bíblica e não apenas em comparações históricas superficiais.

Primeiramente, a ideia de juízo eterno não surge de influências externas, mas está profundamente enraizada nas Escrituras, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Já no Antigo Testamento há a distinção entre o destino dos justos e dos ímpios. Em Daniel 12:2 está escrito: “muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para vergonha e desprezo eterno”. Isso mostra que o conceito de punição não é temporário, mas eterno.

No Novo Testamento, o próprio Senhor Jesus Cristo falou claramente sobre isso. Em Mateus 25:46 Ele declara: “E irão estes para o tormento eterno, mas os justos para a vida eterna”. Observe que a mesma palavra “eterno” é usada tanto para a vida dos salvos quanto para o castigo dos ímpios. Se alguém nega a eternidade do juízo, teria que negar também a eternidade da vida, o que é inconsistente.

Além disso, o ensino bíblico não apresenta o “inferno” como uma ideia mítica ou filosófica, mas como uma realidade ligada à justiça de Deus. Deus é amor, mas também é justo. Romanos 2:5-6 afirma que Deus “retribuirá a cada um segundo as suas obras”. O juízo eterno não é fruto de crueldade, mas da santidade de Deus diante do pecado.

Quanto à afirmação de que o Cristianismo seria “perverso”, isso não corresponde à mensagem central da fé cristã. O coração do Cristianismo não é o juízo, mas a salvação. Deus não deseja que ninguém pereça, como está em 2 Pedro 3:9: “não querendo que alguns se percam, senão que todos venham ao arrependimento”.

O próprio fato de existir um caminho de salvação mostra o contrário daquilo que foi dito. O Senhor Jesus Cristo veio ao mundo justamente para livrar o homem do juízo que ele merece. João 3:16 declara: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”.

Portanto, o ensino bíblico não é uma adaptação de religiões antigas, mas uma revelação progressiva de Deus sobre o pecado, o juízo e a salvação. E longe de ser perverso, o Cristianismo apresenta a única solução real para o problema humano: o perdão dos pecados e a vida eterna por meio de Jesus Cristo.

Ignorar o juízo não o elimina. Mas rejeitar a salvação é desprezar a graça oferecida gratuitamente. A mensagem bíblica mantém ambos os aspectos em equilíbrio: Deus é amor, mas também é justo; há condenação, mas há também redenção disponível a todos que creem.

Josué Matos

A que dia se refere a menção de Filipenses 1:6, ao arrebatamento?

 Alguém que me escreveu no WhatsApp:

Bom dia! A que dia se refere a menção de Filipenses 1:6, ao arrebatamento?

Minha Resposta:

Filipenses 1:6 está falando do “dia de Jesus Cristo”, também chamado em outras passagens de “dia de Cristo” ou “dia do Senhor Jesus Cristo”.

O texto diz:

“Aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até ao dia de Jesus Cristo” (Filipenses 1:6).

Esse “dia” não é simplesmente um dia de 24 horas. É um período relacionado à Igreja, à vinda do Senhor para os Seus, ao arrebatamento, à glorificação dos salvos e aos acontecimentos celestiais que se seguem.

É importante distinguir duas expressões:

O dia de Cristo está ligado à Igreja e ao céu.
O dia do Senhor está ligado à terra e ao juízo.

O dia de Cristo aparece em passagens como:

1 Coríntios 1:8
1 Coríntios 5:5
2 Coríntios 1:14
Filipenses 1:6
Filipenses 1:10
Filipenses 2:16

Esse dia tem relação com a esperança da Igreja. Começa com o arrebatamento, quando o Senhor descerá dos céus, os mortos em Cristo ressuscitarão, e os crentes vivos serão transformados e arrebatados para encontrar o Senhor nos ares (1 Tessalonicenses 4:16-17). Então se cumprirá também Filipenses 3:20-21, quando o nosso corpo abatido será transformado conforme o corpo glorioso do Senhor Jesus Cristo.

Assim, em Filipenses 1:6, Paulo está dizendo que Deus começou uma obra no crente e a completará plenamente naquele dia. Essa obra começou na salvação, continua agora na santificação, e será consumada na glorificação.

Mas o dia de Cristo também envolve o que acontecerá no céu após o arrebatamento: o Tribunal de Cristo, onde as obras dos salvos serão examinadas, não para decidir salvação ou perdição, mas para galardão ou perda de recompensa (2 Coríntios 5:10; Romanos 14:10-12; 1 Coríntios 3:12-15). Também estão ligados a esse período as bodas do Cordeiro e a alegria celestial da Igreja com Cristo (Apocalipse 19:7-9).

Já o dia do Senhor é outro aspecto. Ele está relacionado com a terra, com o juízo de Deus sobre este mundo, com a tribulação, a manifestação pública de Cristo, o julgamento das nações, o reino milenar e, finalmente, a dissolução dos céus e da terra antes do estado eterno (1 Tessalonicenses 5:2-3; 2 Tessalonicenses 2:2-3; 2 Pedro 3:10-13).

Portanto, Filipenses 1:6 não está falando do dia do Senhor em juízo sobre a terra, mas do dia de Jesus Cristo, ligado à Igreja, ao arrebatamento, à glorificação e à apresentação dos salvos diante do Senhor.

Em resumo: o dia de Cristo é o lado celestial desse período, envolvendo a Igreja com Cristo. O dia do Senhor é o lado terreno, envolvendo juízo, governo e manifestação da autoridade do Senhor sobre o mundo.

Josué Matos