AS SETE DISPENSAÇÕES

Em Êxodo capítulo 19 e seguintes, observa-se uma mudança significativa na forma em que Deus vem se relacionando com a humanidade, especialmente por meio da escolha de Israel como povo. Esse tipo de mudança divina no trato com os seres humanos, tanto aqui como em outras passagens, indica uma mudança na dispensarão, ou administração.
 
Agostinho disse certa vez: "Faça distinção entre as eras, e as Escrituras se harmonizarão". Deus dividiu a história humana em eras, que podem ser curtas ou longas. O que as diferencia não é sua duração, pias a forma de Deus tratar a humanidade naquele período histórico.
 
Embora Deus nunca mude em si mesmo, seus métodos podem ser alterados. O Senhor trabalha de maneira diferente em determinadas épocas. Essa maneira diferente de Deus administrar a história e tratar o ser humano durante certo período é chamada dispensação.
 
Rigorosamente falando, uma dispensação não significa uma era, mas uma forma de administração, intendência, método ou economia (a palavra "economia" provém do grego oikonomia, que (o NT é empregado em referência à "dispensação" ou "administração"). É difícil, entretanto, pensar em dispensação sem relacioná-la ao tempo. A história do governo dos Estados Unidos, por exemplo, é dividida em administrações: a administração Kennedy ou a administração Bush. Com isso, queremos nos referir, obviamente, à forma pela qual o governo era administrado durante o exercício daqueles presidentes. A gestão principal, nesse caso, se refere às orientações políticas de cada administrador. Contudo, ao estudar essas políticas, necessariamente as relacionaremos a determinado período de tempo.
 
A dispensação, portanto, se refere à maneira de Deus tratar o ser humano em determinado período da história. O tratamento dispensacionalista de Deus pode ser comparado à forma de as pessoas gerenciarem o lar: se somente o marido e a esposa estiverem em casa, a rotina familiar assumirá certo padrão; se os filhos pequenos estiverem presentes, surgirá um padrão diferente; conforme os filhos atingem a maturidade, surgem outros padrões e sistemas. Esse mesmo padrão é percebido em como Deus trata a raça humana (Cl 4:1-5).
 
Por exemplo, quando Caim matou seu irmão Abel, Deus colocou uma marca nele para que ninguém o matasse (Cn 4:15). Contudo/após o dilúvio instituiu a pena de morte: "Se alguém derramar o sangue do homem, pelo homem se derramará o seu" (Gn 9:6). A diferença no padrão está na mudança de dispensação.
 
Encontramos outro exemplo em Salmos 1 37:8-9, texto no qual o autor pede juízo contra a Babilônia: "Filha da Babilônia, que hás de ser destruída, feliz aquele que te der o pago do mal que nos fizeste.
 
Feliz aquele que pegar teus filhos e esmagá-los contra a pedra".
 
Mais tarde, porém, Deus ensinou o seguinte a seu povo: "Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem" (Mt 5:44).
 
Parece claro que a linguagem do salmista que vivia sob a lei não é mais adequada para o cristão que vive sob a graça.
 
Em Levítico 11, certos tipos de alimentos foram classificados como impuros. Todavia, em Marcos 7:19b, Jesus considerou puros todos os alimentos.
 
Em Esdras 10:3, os judeus tiveram de expulsar suas esposas (e filhos) estrangeiras. No NT, os cristãos são instruídos a permanecer com o cônjuge (1 Co 7:12-16).
 
De acordo com a lei, somente o sumo sacerdote podia comparecer à presença de Deus (Hb 9:7). Sob a graça, porém, todos os cristãos têm acesso ao Santo dos Santos (Hb 10:19-22).
 
Tudo isso indica claramente que houve uma mudança nas dispensações. Todavia, não há unanimidade entre os cristãos quanto ao número de dispensações, nem quanto ao nome que estas devem ter. Até mesmo, há cristãos que não as aceitam.
 
Apesar disso, é possível demonstrar a existência das dispensações usando os argumentos a seguir.
 
Primeiro, existem pelo menos duas dispensações: a lei e a graça. "Porque a lei foi dada por intermédio de Moisés; a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo" (Jo 1:17). A própria divisão entre Antigo e Novo Testamento indica uma mudança de administração.
 
Além disso, o fato de os cristãos não precisarem oferecer sacrifícios de animais é evidência adicional de que Deus introduziu uma nova ordem.
 
Pouquíssimos cristãos negam essa grande ruptura entre os Testamentos.
 
Se concordarmos com essas duas dispensações, seremos forçados a acreditar em uma terceira dispensação, pois a dispensação da lei só foi introduzida em Êxodo 19, séculos depois da criação do mundo, de modo que deve ter havido pelo menos uma dispensação antes de sua entrega (cf. Rm 5:14). Temos, portanto, no mínimo três dispensações.
 
Prosseguindo com o argumento, se concordarmos com essas três dispensações, teríamos de concordar com uma quarta, pois a Escritura fala de um "mundo vindouro" (Hb 6:5), isto é, quando o Senhor Jesus Cristo retornar para reinar sobre a terra (período conhecido como milênio).
 
Paulo também faz distinção entre a era atual e a era futura. Em primeiro lugar, o apóstolo fala de uma dispensação que lhe foi confiada e que está relacionada à verdade do evangelho e da igreja (1 Co 9:1 7; Ef 3:2; Cl 1:25). Essa é a era atual. Em contrapartida, Paulo também fala de uma era futura (Ef 1:10) que chama de "dispensação da plenitude dos tempos". Fica claro, com base na descrição do apóstolo, que essa era futura não chegou. Sabemos, portanto, que ainda não estamos vivendo a época final da história do mundo.
 
O dr. C. I. Scofield propõe sete dispensações: 
 
  • 1. Inocência (Gn 1:28): desde a criação do mundo até a queda de Adão.
  • 2. Consciência ou responsabilidade moral (Gn 3:7): da queda até o final do dilúvio.
  • 3. Governo humano (Gn 8:15): do final do dilúvio até o chamado de Abraão.
  • 4. Promessa (Gn 12:1): do chamado de Abraão até a entrega da lei.
  • 5. Lei (Êx 19:1): da entrega da lei até o Pentecostes.
  • 6. Igreja (At 2:1): do Pentecostes até o arrebatamento.
  • 7. Reino (Ap 20:4): o reino milenar de Cristo.
Embora os detalhes particulares de cada dispensação sejam de menor importância, é muito útil perceber que há diferentes dispensações. A distinção entre a lei e a graça é uma das mais importantes. Do contrário, tomaremos passagens da Escritura que se referem a outras eras e as aplicaremos à nossa época. Embora toda a Escritura seja útil (2Tm 3:16), nem tudo que foi escrito se aplica a nós atualmente. 
 
Passagens que tratam de outras épocas têm aplicação para nós hoje, mas a interpretação principal se refere ao período para o qual foram escritas. Falamos sobre as restrições alimentares em Levítico 11.
 
Embora essa proibição não se aplique aos cristãos atualmente (Mc 7:18-19), o princípio que sustentava aquela proibição permanece o mesmo, isto é, devemos evitar a impureza moral e espiritual. 
 
Deus prometeu ao povo de Israel que, se obedecesse, o Senhor lhe concederia prosperidade material (Dt 28:1-6). A ênfase das bênçãos de Deus nessa época estava nos bens materiais e nas possessões territoriais. Contudo, isso não se aplica a nós hoje, pois o Senhor não prometeu prosperidade financeira se lhe obedecermos. Em vez disso, as promessas da dispensação atual se referem às bênçãos espirituais nas regiões celestiais (Ef 1:3). Embora existam diferenças entre as épocas, há uma coisa que nunca muda: o evangelho. A salvação sempre foi e sempre será concedida por meio da fé em Deus. E a base da salvação para todas as épocas está na obra que Cristo realizou na cruz.18 As pessoas no AT eram salvas por meio da revelação que Deus lhes concedia. Abraão, por exemplo, foi salvo por crer na promessa do Senhor de que teria uma descendência numerosa como as estrelas (Gn 15:5-6).
 
Provavelmente, ele sabia muito pouco, se é que sabia alguma coisa, sobre o que aconteceria no Calvário séculos mais tarde, mas Deus sabia e, quando Abraão creu, o Senhor creditou em sua conta todo o valor da vindoura obra de Cristo na cruz.
 
Diz-se que os santos no AT eram salvos por meio de "crédito", isto é, com base no preço que o Senhor Jesus pagaria séculos mais tarde (esse é o sentido de Rm 3:25). Atualmente, somos salvos com base na obra que Jesus realizou quase dois mil anos atrás. Em ambos os casos, porém, a salvação provém da fé em Cristo.
 
Precisamos refutar a ideia de que durante a dispensação da lei as pessoas eram salvas por meio da observância da lei ou mesmo do sacrifício de animais. A lei não pode salvar, apenas condenar (Rm 3:20); o sangue de touros e bodes não é capaz de remover pecados (Hb 10:4). A única forma de salvação é por meio da fé (cf. Rm 5:1).
 
Outra questão importante: quando nos referimos à era da igreja como a era da graça, não queremos dizer que Deus não era misericordioso nas antigas dispensações; antes, desejamos enfatizar que agora o Senhor está experimentando o homem por meio da graça, não por meio da lei. 
 
Além disso, é importante perceber que a forma de tratamento entre as épocas não termina num dia e hora específicos. Muitas vezes, há um período de transição que se sobrepõe. Percebemos isso, por exemplo, em Atos. Levou algum tempo para que a nova igreja descartasse pesos desnecessários das dispensações anteriores. Também é possível que haja um período entre o arrebatamento e a tribulação no qual o homem da iniquidade será revelado e o templo será reconstruído em Jerusalém.
 
Por fim, mais uma coisa. Assim como ocorre com tudo o que é bom, o estudo das dispensações também pode ser mal-empregado. Alguns cristãos se preocupam tanto com o dispensacionalismo, que consideram somente as epístolas da prisão de Paulo forno aplicáveis à igreja atualmente! Em consequência dessa distorção, não aceitam o batismo nem a ceia, uma vez que essas ordenanças não constam nas epístolas que Paulo escreveu na prisão.
 
Além disso, dizem que a mensagem evangelística de Pedro não era a mesma mensagem que Paulo ensinava (para uma refutação sobre esse argumento, cf. Cl 1:8-9). Tais cristãos às vezes são chamados ultradispensacionalistas ou bullingeristas (em homenagem ao professor E. W. Bullinger). Devemos rejeitar esse extremismo em relação às dispensações.
 

Por William MacDonald (Extraio do Comentários Bíblico Popular A. T. - pgs 65, 67, 68 - Editora Mundo Cristão)

Na versão que utilizamos aqui, Almeida Revisada e Corrigida Fiel, a palavra dispensação aparece várias vezes (lCo 9:17; Ef 1:10; Ef 3:2; Ef 3:9; Cl 1:25; 1Tm 1:4). Este termo é a tradução do vocábulo grego oikonomia, de onde deriva a palavra mordomia (administração). Ela aparece em Efésios 1:10 com o sentido preciso de dispensação ou mordomia. Essa passagem fala do propósito eterno de Deus quanto à "dispensação da plenitude dos tempos" .
Trata-se das disposições que Deus, que governa tudo nos períodos subsequentes, previu para o milênio, tempo que encerra, ou concluitodos os demais.
A palavra oikonomia também se encontra em Efésios 3:2 e em Colossenses 1:25.
Nestas passagens, está o mistério da Igreja, o que Deus, em sua soberania, havia escondido por completo em todos os tempos anteriores, e que revelou no tempo oportuno por intermédio do apóstolo Paulo. Esses versículos, por sua vez, lembram a administração de Deus e aquela que ele confiara a Paulo. Além disso, é difícil distinguir uma da outra. Em 1Coríntios 4:12, Paulo se apresenta como um "despenseiro (ou mordomo - oikonomos) dos mistérios de Deus". E "requer-se dos despenseiros que cada um se ache fiel". A palavra oikonomia também se encontra em Lucas 16:2-4, que nossa versão traduz por "mordomia", na qual se coloca em evidência o sentido de uma gestão confiada a um administrador que deverá prestar conta.
Como termos técnicos para designar o objeto de nosso estudo, as palavras dispensação e mordomia são equivalentes. A vantagem da primeira, embora não pertença à linguagem corrente, é que evoca a ideia de dispensar, isto é, de conceder, outorgar ou distribuir. Deste modo, as dispensações de Deus são aquilo que Deus dispensa, em sua soberana administração.
A revelação progressiva de Deus "Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho" (Hb 1:1).
Este versículo indica um eixo de muita importância nas comunicações divinas: é a vinda do Senhor Jesus Cristo à Terra. Tudo o que antecede foi, de alguma maneira, um crepúsculo, do qual a luz crescente anunciava o nascer do Sol. "O povo, que estava assentado em trevas, viu uma grande luz; E, aos que estavam assentados na região e sombra da morte, A luz raiou" (Mt 4: 16, citação de Is 9:2).
O Antigo Testamento - o crepúsculo - foi escrito em hebraico, a língua de Israel, por autores, em sua totalidade, pertencentes ao povo judeu. Foi uma revelação de Deus a Israel, embora possamos beneficiarnos muito dela atualmente.
O Novo Testamento - a  plena revelação de Deus - foi escrito em grego, a língua mais difundida nos países civilizados daquela época, Jesus ordenou a seus discípulos que anunciassem o  evangelho a toda a criação. (Deus preparou isto ao conduzir Alexandre Magno, fundador do terceiro grande império mundial, a impor o grego como a língua oficial do império.)
 
As determinações feitas pelo Senhor aos seus discípulos têm um alcance universal.
 
O Antigo Testamento nos apresenta quatro grandes períodos:
 
  • 1) No livro de Gênesis, os primeiros 11 capítulos: Os tempos que antecederam o chamado de Abraão.De modo geral, os gentios (as nações) estão sem Deus e se afundam na corrupção e idolatria.Apesar disso, há algumas comunicações de Deus a homens de fé.
  • 2) No Gênesis, desde o capítulo 12: A época dos patriarcas. Deus está em relação/contato com a família de Abraão, a quem ele se revelou e fez promessas.
  • 3) Em todo o restante do Antigo Testamento: A época da lei. Deus está em relação com Israel, a quem ele resgatou da escravidão e escolheu para que fosse seu povo. Por intermédio do ministério de Moisés, primeiro, e depois os profetas, Deus revelou a seu povo o que Ele é, e quais são os seus desígnios. Particularmente, anuncia a vinda do Messias. Pela experiência feita com Israel, aprendemos o que é o homem, e, mui felizmente, o que é Deus.
  • 4) Nos profetas: A época da bênção futura. Esta situação é relatada com grande quantidade de detalhes, mas a cronologia dos acontecimentos não é nem sempre é fácil de discemir. Uma parte desses eventos se cumpriu no momento da primeira vinda de Cristo, o restante se cumprirá na sua segunda vinda. É a restauração de Israel por intermédio da prova do fogo refinador, e portanto a bênção milenar. As profecias do Antigo Testamento sempre têm, essencialmente, Israel em mira e a bênção particular desse povo, o qual aguardará no futuro seu lugar separado.
Por sua vez, o Novo Testamento nos apresenta três períodos:
 
  • 1) Nos evangelhos: A vida do Senhor na terra. a Messias é apresentado a Israel.É a prova suprema do homem, a demonstração de seu estado decaído. Ao mesmo tempo, é a demonstração maravilhosa do amor de Deus, que dá seu Filho para resgatar os homens perdidos.
  • 2) No livro de Atos e nas epístolas: O tempo da igreja. É a revelação de um mistério que estiver escondido até então.  De maneira geral, não é o cumprimento das profecias do antigo Testamento, mas sim uma forma de parênteses nos desígnios de Deus. a povo de Israel, como tal, é momentaneamente colocado de lado e o evangelho é anunciado às nações.
  • 3) No Apocalipse e em outras passagens: Os tempos futuros. As bênçãos futuras se cumprem depois dos terríveis juízos que alcançam toda a terra. Essas bênçãos incluem tudo o que fora prometido a Israel, mas têm um alcance maior. Apenas o Novo Testamento nos revela que o reinado de Cristo sobre a terra terá Umfim, e que será seguido da eternidade.
 
A responsabilidade do homem Desde sempre, e em todos os lugares, os homens têm sido responsáveis perante Deus segundo a medida do que Deus lhes tem revelado de si mesmo, de seus pensamentos e de sua vontade, e segundo a natureza das relações que ele estabelecera com eles.
a Senhor estabelece o  princípio: "E o servo que soube a vontade do seu senhor, e não se aprontou, nem fez conforme a sua vontade, será castigado com muitos açoites; Mas o que a não soube, e fez coisas dignas de açoites, com poucos açoites será castigado. E, a qualquer que muito for dado, muito se lhe pedirá, e ao que muito se lhe confiou, muito mais se lhe pedirá" (Lc 12:47- 48). a escravo é julgado - segundo a sua conduta - porque está em relação de escravidão com o senhor.
Além do mais, o "servo que soube a vontade do seu senhor", isso é, se recebeu uma comunicação positiva dele, a sua responsabilidade é maior. a fator de não ter recebido a comunicação diminui a responsabilidade, mas não a elimina.
Todo homem, como críatura de Deus dotada de inteligência, é responsável perante o seu Criador. "Porque as suas coisas invisíveis,desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se veem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis" (Rm 1 :20). Alémdo mais,desde a queda, o homem possui uma consciência, que lhe dá certo conhecimento do bem e do mal e, por conseguinte, certa responsabilidade. Com relação aos pagãos: "testificando juntamente a sua consciência, e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendoos" (Rm 2: 15).
Em cada etapa das comunicações divinas, os homens que as receberam foram colocados em uma autêntica relação com Deus.
Cada uma dessas relações implica uma responsabilidade correspondente. A chamada de Abraão o colocou, a ele e a seus descendentes, em uma privilegiada relação com Deus. a mesmo acontece com o povo de Israel quando Deus o chamou, o libertou e o trouxe a Ele. a mesmo diz respeito também aos cristãos, que são "participantes da vocação celestial" (Hb 3:1).
Essas relações constituem a base da responsabilidade daqueles com os quais Deus as estabeleceu, e tanto mais ainda os privilégios que elas envolvem são grandes.
Entre os em que há o conhecimento do verdadeiro Deus (especialmente Israel, além das nações cristãs),há uma responsabilidade particular do que se pode chamar de herança espiritual.
Herdamos de nossos pais (em um sentido mais amplo) não apenas os bens materiais, educação e instrução, mas também tudo o que nos transmitiram do conhecimento que eles tinham de Deus.
Isso implica responsabilidade, na medida em que nos fora transmitido, e que devemos também comunicar.
Esse dever nos é formalmente lembrado no salmo 78:5-7: "Porque ele estabeleceu um testemunho em Jacó, e pôs uma lei em Israel, a qual deu aos nossos pais para que a fizessem conhecer a seus filhos; Para que a geração vindoura a soubesse, os filhos que nascessem, os quais se levantassem e a contassem a seus filhos; Para que pusessem em Deus a sua esperança, e se não se esquecessem das obras de Deus, mas guardassem os seus mandamentos.". De igual modo, é lembrado a Timóteo a fé de sua mãe e de sua avó, e o ensino que ele 'recebeu delas (2Tm 1:5; 3:15). Com respeito a essa transmissão, a Palavra destaca tanto o dever dos pais quanto o dos filhos (Dt 6:6-9; Pv 1:8-9; 6:20-23).
Antes da invenção da imprensa, e a maioria das pessoas não sabia ler, a transmissão oral desempenhava um papel fundamental. Para nós que temos a Palavra de Deus completa em nossas mãos, é de nossa inteira responsabilidade guardar fielmente a herança espiritual que recebemos, e de transmiti-Ia, recorrendo constantemente às suas fontes, com a atitude dos bereanos. Eles estudavam "examinando cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim" (At 17: 11).
 
O que é imutável
 
Quando nos ocupamos das mudanças que intervieram nas disposições que Deus tomou com respeito às suas criaturas, lembremo-nos que Deus mesmo não muda. Ele é "o mesmo", "o Deus eterno", aquele que disse: "Porque eu, o SENHOR,não mudo" (SI 102:27; Rm 16:26; MI 3:6).
Por conseguinte, aquilo que é bom e que é mau aos olhos de Deus é independente das dispensações. As normas do bem e do mal são as mesmas em todas as épocas.
 
Há princípios imutáveis que podemos encontrar ao longo de todas as dispensações.
 
Eis alguns exemplos:
 
  • 1- O amor divino é a fonte de todas as relações que Deus estabeleceu com o homem, sejam os patriarcas, Israel ou os cristãos (Dt 4:37; 7:8; Ef 2:4). Por este motivo, Deus espera que aqueles que se relacionam com ele manifestem o amor. "O cumprimento da lei é o amor" , como também se constitui na marca distintiva dos discípulos de Jesus (Rm 13:10; Jo 13:35).
  • 2- A aceitação do homem pecador pelo Deus santo só pode acontecer unicamente com base em um sacrifício oferecido. Falta um substituto que carregue a culpa do pecador perante Deus. O único verdadeiro substituto é Cristo. Antes de sua vinda, os diversos sacrifícios oferecidos o representavam aos olhos de Deus.
  • 3- De acordo com Hebreus 11, em todas as épocas, somente pela fé o homem pode entrar em uma verdadeira relação com Deus.
  • 4- Do Gênesis ao Apocalipse, Deus se apresenta como o justo juiz que "aquele que, sem acepção de pessoas, julga segundo a obra de cada um" (lPe 1:17). Isto também é garantido para aqueles que foram colocados ao amparo do juízo eterno e que invocam a Deus como Pai.
  • 5- Embora possa apresentar formas diferentes, o governo de Deus para com os homens sempre existe. "Porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará" (GI 6:7). A graça não anula esse princípio.
  • 6- O temor de Deus é, em todas as épocas, a atitude que convém ao homem (Jó 28:28; SI 111:10). Deste modo, no cristianismo, todo o temor do juízo está descartado para os crentes, não obstante isso, deve servir a Deus com temor (Hb 12:28).
  • 7- No Novo Testamento, assim como no Antigo, Deus espera daqueles que se relacionam com ele que andem em santidade, fazendo a separação do mal. "Mas, como é santo aquele que vos chamou, sede vós também santos em toda a vossa maneira de viver; Porquanto está escrito: Sede santos, porque eu sou santo" (lPe 1: 15-16).
  • 8- Tanto para Israel "debaixo da lei" quanto para nós que estamos "debaixo da graça", Deus tem se revelado como um Deus de misericórdia (Êx 33: 19; 34:6; Lc 1:50; Ef 2:4). Jesus nos diz: "Sede, pois, misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso" (Lc 6:36). .' Desde os primeiros dias da humanidade, Deus se fez conhecer como o Deus da paciência (Rm 15:5; 1Pe 3:20). Todo o Antigo testamento é um testemunho de Sua imensa paciência para com Israel, e do mesmo modo hoje, segundo "as riquezas da sua benignidade, e paciência e longanimidade", move os homens ao arrependimento (Rm 2:4).Por isso, ele espera dos seus que manifestem a paciência, seja na vida cristã ou geral, enquanto esperam o Senhor, por meio de suas provas ou em suas relações uns com os outros (CI 1:11; 1Ts 1:3; Tg 5:11; 1Ts 5:14).
Esboço das diversas dispensações
 
Nosso propósito aqui é esboçar as sucessivas dispensações, bem como as grandes etapas da revelação de Deus aos homens, desde a Criação. Consideraremos nove períodos característicos, conscientes de que a divisão do tempo poderia ser feita de diversas maneiras:
 
  • 1. O tempo da inocência
  • 2. A queda do homem no Éden até o dilúvio
  • 3. Do dilúvio até Abraão
  • 4. A época dos patriarcas
  • 5. A lei
  • 6. O ministério de Jesus
  • 7. A Igreja e o período cristão
  • 8. Os juízos futuros
  • 9. O milênio
 
1) O tempo da inocência
 
A Bíblia nos diz muito pouco a respeito da condição do homem no jardim do Éden. Adão e Eva transgrediram a única proibição que Deus Ihes impusera. Assim, desde o princípio, o homem tem faltado com a sua responsabilidade. "Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram" (Rm 5: 12). Por outro lado, desde a queda há no homem uma faculdade de origem divina: o conhecimento do bem e do mal (Gn 2:9,17; 3:5), ou seja, a sua consciência.
É interessante notar que a instituição divina do casamento remonta ao início da humanidade, e que o Senhor Jesus faz referência a ela quanto lhe perguntaram a respeito do divórcio. Ele remete a como as coisas foram estabelecidas "no princípio" (Mateus 19:3-9). A norma "e serão ambos uma carne" (Gn 2:24), mencionada várias vezes na Escritura, constitui a base sobre a qual a dissolução do vínculo conjugal, a fornicação e o adultério estão proibidos (Mt 19:6; 1Co 6:16-17).
A história de Adão e Eva nos dá um exemplo de cada uma das maneiras que o Antigo Testamento anuncia a Cristo: os símbolos e as profecias explícitas. O sonho no qual Adão recebeu de Deus uma mulher, "osso dos meus ossos, e carne da minha carne" (Gn 2:23), é uma imagem da morte de Cristo, mediante o qual ele recebe uma esposa, a Igreja; "Porque somos membros do
seu corpo, da sua carne, e dos seus ossos" (Ef 5:30). Deste modo, depois da entrada do pecado no mundo, e de pronunciar o juízo sobre a serpente, Deus faz uma das mais claras declarações proféticas concernentes à "semente da mulher", a qual é Cristo: "esta te ferirá a cabeça, e tu (Satanás) lhe ferirás o calcanhar" (Gn 3: 15). Na cruz, o Senhor foi ferido momentaneamente em seu caminho, mas através disto obteve uma vitória definitiva sobre Satanás.
 
2) Desde a queda do homem no Éden até o dilúvio
 
No tempo entre a entrada do pecado no mundo e o dilúvio, a Palavra nos mostra, por um lado, a família de Caim estabelecendo-se no mundo - caracterizavamna a crueldade e o pouco caso da instituição divina do casamento (Gn 4:19) -, e, por outro, uma família na qual se começa a "invocar o nome do SENHOR"(Gn 4:26). Nesta última vemos homens de fé - Enoque e Noé - caminhando com Deus, e aos quais Deus faz revelações pessoais (Gn 5:24; 6:9- 22; Jd 14-15). No entanto, a corrupção e a violência se desenvolveram a tal ponto que "arrependeu-se o SENHOR de haver feito o homem sobre a terra" (Gn 6:6). Os homens não escutaram a Noé, o "pregoeiro da justiça" (2Pe 2:5), e então "veio o dilúvio, e os levou a todos" (Mt 24:39). Nesta época, observamos que as revelações de Deus dizem respeito: ao juízo que deve vir sobre os homens ímpios e ao meio de escapar deste juízo. Estes são, na essência, os primeiros elementos do evangelho que é pregado nos dias de hoje.
 
3) Desde o dilúvio até Abraão
 
Depois do dilúvio, Deus introduz algo novo. Para conter a violência que conduz ao homicídio, confia o governo ao homem. Este se torna responsável de matar o assassino: "Quem derramar o sangue do homem, pelo homem o seu sangue será derramado; porque Deus fez o homem conforme a sua imagem" (Gn 9:6). Deus permite ao homem comer carne, mas lhe proíbe comê-Ia com sangue (Gn 9:3-4); proibição que é reiterada na lei de Moisés (Lv 7:26-27) e no cristianismo (At 15:20,29).
Afora tais características distintivas, este período é idêntico ao anterior. Sem dúvida, a responsabilidade dos homens é incrementada pelo fato de terem conhecido o juízo de Deus, que foi o dilúvio, o que deveria levá-los a temê-lo. Neste período, Deus também fez comunicações individuais a certos homens que o temiam, como Jó, Eliú e Melquisedeque. Porém, em geral, a idolatria se desenvolveu na Terra. Em meio a tal estado de coisas, Deus chamou a Abraão (Js 24:2). Para as nações em geral (os gentios), esta dispensação prosseguiu até o começo do cristianismo. Romanos 1:18-32 nos descreve a depravação moral delas. Doravante são as comunicações divinas feitas a Abraão e a seus descendentes que ocupam o centro da cena.
 
4) A época dos patriarcas
 
Todos os eventos precedentes ocupam os primeiros onze capítulos de Gênesis. Nos capítulos 12 a 50, temos a história dos patriarcas: Abraão, Isaque e Jacó. Deus escolhe um homem e o chama. Dá-lhe promessas de bênção cujo alcance se estende até o fim dos tempos: uma descendência numerosa e um país. E mais ainda: a partir de "sua semente", a bênção se estenderá a
todas as nações da Terra (Gn 22: 16-18). O "amigo de Deus" e seus descendentes vivem uma vida de fé como estrangeiros no país que lhes foi prometido. Abraão ensina fielmente "a seus filhos e à sua casa depois dele, para que guardem o caminho do SENHOR" (Gn 18: 19). Por sua vez, Isaque e Jacó se mostram apegados à bênção prometida. Que tipo de comunicações Deus faz aos patriarcas?
Essencialmente, são promessas; ocasionalmente, ordens concernentes a um ato a cumprir ou uma mudança a realizar. A essas promessas se agarra a sua fé, a essas ordens responde a sua obediência. Nestes relatos, encontramos poucas instruções morais diretas e poucos preceitos. Não obstante, Deus espera de seus servos uma conduta que esteja de acordo com o seu chamado. Ele disse a Abraão:
"Eu sou o Deus Todo-Poderoso, anda em minha presença e sê perfeito" (Gn 17: 1). E a epístola aos Hebreus testifica que "Deus não se envergonha deles, de se chamar seu Deus" (Hb 11:16). O relato de sua fidelidade e de suas debilidades é uma fonte muito rica de ensinos práticos.
Afora esta família privilegiada, Deus também se coloca a par dos caminhos dos homens, e quando o mal se agrava, ele exerce o seu juízo governamental. Desta maneira, Sodoma e Gomorra sofreram uma completa destruição (Gn 19). Mas se a destruição dessas cidades, assim como o dilúvio, evidencia o governo de Deus sob a forma de um juízo destruidor e derradeiro, a história dos patriarcas nos revela outro aspecto deste governo: a disciplina. Deus toma conhecimento de todas as ações daqueles que estão em relação com ele, e faz vir sobre eles as consequências.
Este principio de retribuição se destaca particularmente na vida de Jacó e na história dos irmãos de José. Esta forma de governo não é apenas uma exigência de um Deus que obriga a si mesmo a exercer a justiça; mas é a também a expressão da bondade de um Deus que deseja formar os seus, para sua maior benção.
No Gênesis, essas coisas não se nos apresentam em forma de princípios abstratos, mas sim mediante atos.
 
5) A lei
 
No tempo de José, Jacó e sua família descem ao Egito. A descendência dos patriarcas aumenta consideravelmente, mas sofre a opressão e a escravidão.
Deus ouve o lamento do povo e se recorda das promessas feitas a Abraão, Isaque e Jacó. É muito significativo que ele reconhece a descendência deles como sendo "seu próprio povo".
Pela primeira vez, Deus estabelece uma relação com um povo. Israel deveria ser, em meio aos outros povos, uma "nação santa" e um "reino de sacerdote", testemunha do único Deus
verdadeiro (Êx 19:5-6).
Depois de sua liberação do Egito, no Sinai, Deus dá a eles os dez mandamentos, e numerosas ordenanças. Começa então uma nova prova para o homem, a qual permanecerá até a volta de Cristo.
A responsabilidade particular de Israel se baseia, desde o êxodo, em dois grandes atos. Em primeiro lugar, este povo foi resgatado da escravidão do Egito, libertado do poder de Faraó. Viu as maravilhas do SENHORatuando em bondade para com ele, e com juízo para os seus opressores (Êx 19:4). Em segundo lugar, em toda a solenidade do fogo e dos trovões do Sinai, este povo ouviu a voz de Deus (Dt 4:33-35).
Não obstante, se bem que a lei expressa o que o homem deve ser para satisfazer as exigências do Deus santo, não lhe dá nenhuma força, nenhuma capacidade, para cumpri-Ia. O povo de Israel, desconhecendo o que é  o ser humano, exclama uníssono: "Tudo o que o SENHORtem falado, faremos" (Êx 19:8; 24:3,7). Porém, recém concedida, a lei já é transgredida em seu primeiro mandamento, no caso do bezerro de ouro (Êx 32). Isto propiciou a Deus a ocasião de introduzir um novo elemento, muito diferente da lei, sem o qual o homem pecador não poderia subsistir diante dele: a misericórdia.
"E terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, e me compadecerei de quem eu me compadecer" (Êx 33:19). Em sua soberania, Deus "compadece-se de quem quer" (Rm 9: 18). Nisto está um mistério profundo; no entanto, quem compreende que é objeto desta graça totalmente imerecida, só lhe resta dar graças e adorá-lo.
Em toda a história subsequente, desde o deserto do Sinai até Cristo, Israel prossegue sendo um povo debaixo da lei. Deus  manifesta seu governo para ele: adverte-o, castiga-o, perdoa-o, repreende-o, sustenta-o. Quanto mais passa o tempo, mais se manifesta o estado incurável do homem e a imensa paciência de Deus. E quando esta prova do homem tem demonstrado que "pelas obras da lei nenhuma carne será justifícada" (GI 2: 16), terá chegado o momento para que Deus envie seu Filho à Terra.
Durante a história de Israel, de acordo com o que nos revela o Antigo Testamento, Deus se manifestou de duas maneiras, para nossa instrução maior.
De um lado, contemplamos seus caminhos para com seu povo, de outro, ouvimos as novas revelações que ele lhe faz.
Seus caminhos são as suas maneiras de atuar. Ele se coloca a par da conduta de seu povo, que com tanta frequência se distancia dele, e por intermédio dos profetas, fala ao seu oração para que se volte a ele. Ele o disciplina, com um pai a seus filhos.
Seus caminhos revelam o que ele é: um Deus santo, que não pode suportar o mal e deve corrigi-lo, porém, ao mesmo tempo, também é um Deus de paciência, tardio em irar-se, que não quer a  morte do ímpio, senão que se afaste de seus caminhos e viva (Ez 18:23). "E o SENHOR Deus de seus pais, falou-Ihes constantemente por intermédio dos mensageiros, porque se compadeceu do seu povo e da sua habitação.
Eles, porém, zombaram dos mensageiros de Deus, e desprezaram as suas palavras, e mofaram dos seus profetas; até que o furor do SENHOR tanto subiu contra o seu povo, que mais nenhum remédio houve" (2Cr 36: 15-16).
No entanto, os profetas têm também outro ministério.
São os canais pelos quais Deus faz novas revelações.
Embora o povo esteja, debaixo da lei, Deus todavia se compraz em anunciar os planos de graça que tem preparado e a obra profunda que um dia há de realizar a seu favor. "E dar-vos-ai um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne" (Ez 36:26). A vinda do Messias é o seu tema preferido.
Sob formas mais ou menos veladas, o Messias é anunciado ao longo de todo o Antigo Testamento.
Assim Jesus poderá declarar aos seus discípulos: "o que dele se achava em todas as Escrituras" (Lc 24:27). No entanto, certamente se faz necessário que ele Ihes abra as Escrituras, e que Ihes
abra o entendimento para que possam compreendê-Ias (Lc 24:32,45). Para crescer no conhecimento do nosso Salvador, o Antigo Testamento nos é uma fonte inesgotável. Ele nos apresenta o Senhor Jesus por diversos meios, pelo menos quatro:
 
• por intermédio de personagens típicos (como José e Davi),
• por meio de instituições levíticas (como os sacrifícios),
• mediante experiências vividas pelos fiéis (como nos Salmos),
• por meio de profecias explícitas (como Is 7:14; 9:6-7; 49:1-9; 53:1-12).
 
Poderia se dizer que a dispensação da lei sofreu certa mudança a partir da introdução do ministério profético, a partir de Samuel. Os profetas tinham por missão fazer o povo voltar à lei, porém Deus os utilizou de forma especial para manifestar sua graça, na medida em que isso foi possível naquela dispensação. Sua importância moral é tal que, para caracterizá-la, o Senhor emprega a expressão "a lei e os profetas". Diz: "A lei e os profetas duraram até João; desde então é anunciado o reino de Deus" (Lc 16:6. Esta passagem nos mostra também o momento preciso que marca o fim da dispensação da lei.
 
Na linguagem cristã, comum ente chamamos de dispensações ou mordomias aos diferentes períodos da história da humanidade. As épocas não são distinguidas pelos grandes acontecimentos que retêm a atenção do mundo, mas sim pelos períodos caracterizados pelas revelações que Deus fez aos homens e pelas disposições que tomou para com eles em suasoberana administração.
A revelação de Deus tem sido progressiva. Isto não significa que a inteligência do homem, no transcurso do tempo, tenha feito progressos que lhe permitam compreender sempre melhor quem é Deus, mas sim que Deus desejou comunicar a sua vontade, seus pensamentos e seus desígnios por etapas sucessivas, dependendo a revelação, por sua vez, da conduta do homem com respeito à revelação precedente e aos desígnios soberanos de Deus. As comunicações divinas colocaram, aos homens que a receberam - ou seja, Adão, Noé, Abraão, o povo de Israel e muitos outros - em uma particular posição de responsabilidade. E a história bíblica nos mostra, em cada caso, como o homem cumpriu com sua responsabilidade: mal, na maioria das vezes. Mas a história decepcionante do homem responde à revelação gloriosa da graça de Deus, a qual "superabundou" quando o pecado abundou (Rm 5:20).
 
Atualmente, o conjunto da revelação de Deus está em nossas mãos. Como podemos fazer bom uso do que foi comunicado a outros no passado? Sem dúvida alguma, recebendo pela fé tudo o que a Palavra de Deus nos diz, mas também compreendendo as diferenças entras as diversas condições nas quais sem encontravam os homens aos quais Deus se dirigiu. Isso evitará que caiamos em deploráveis equívocos, especialmente quando se aplicam aos elementos cristãos arcaicos e obsoletos do sistema legal instituído em outros tempos por Deus em Israel, e que assim sejamos privados das plenas bênçãos do cristianismo.
Outro erro também seria deixar simplesmente de lado o Antigo Testamento, em vez de o ler à luz do Novo. Este assunto é muito imenso, visto que se trata de toda a revelação de Deus, do que o homem fez dela, e dos caminhos de Deus para com o homem ao longo do tempo. Por isso, somente pudemos esboçar algumas linhas gerais. As abundantes referências bíblicas introduzidas no texto permitirão ao leitor, não apenas comprovar o exposto, mas também ampliar os seus conhecimentos recorrendo à fonte, e fundamentar assim as suas convicções na própria Palavra de Deus.
 
1. Introdução
 
Uma aplicação correta das Escrituras Muitas vezes, a leitura da Palavra de Deus nos coloca perante situações que nos parecem muito distantes das nossas circunstâncias atuais. Aparecem à nossa frente homens de épocas muito antigas, que viveram em civilizações bastante diferentes da nossa. Deste modo, pode surgir a seguinte pergunta em nossa mente:
Em que medida aquilo que lhes foi dito, e o que foi pedido, e o que aconteceu com eles, está relacionado a nós? Na realidade, trata-se de uma pergunta fundamental.
Falando aos coríntios a respeito dos acontecimentos que ocorreram com os israelitas quinze séculos atrás, quando saíram do Egito, o apóstolo Paulo diz: Ora, tudo isto lhes sobreveio como figuras, e estão escritas para aviso nosso (1 Co 10: 11).
No Antigo Testamento, há relatos históricos, bem como prescrições relacionadas ao serviço divino, que têm para nós o valor de exemplos.
Eles são figuras das coisas que estavam por vir. É uma forma de ensinamento de extrema riqueza que Deus deseja nos dar.
A propósito de um mandamento de Deuteronômio relativo aos bois, Paulo pergunta: "Porventura tem Deus cuidado dos bois? Ou não o diz certamente por nós?" E responde: "Certamente que por nós está escrito" (lCo 9:9-10).
Aqui vemos o duplo alcance (a dupla importãncia) de um ensinamento que, primeiramente, parece não ter nada a ver com nós. Em seu significado primeiro, a instrução: "Não atarás a boca ao boi que trilha o grão" (v. 9) manifesta a bondade de Deus para com as suas criaturas, embora sejam animais. Porém, o apóstolo, conduzido pelo Espírito de Deus, faz uma aplicação deste ensinamento ao servo do evangelho: "Assim ordenou também o Senhor aos que anunciam o evangelho, que vivam do evangelho" (v. 14).
O mesmo apostolo diz: "Porque tudo o que dantes foi escrito, para nosso ensino foi escrito, para que pela paciência e consolação das Escrituras tenhamos esperança." (Rm 15:4). "Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça" (2Tm 3:16). Deste modo, não há nenhuma dúvida de que toda a Bíblia, tanto o Aantigo quanto o Novo Testamento, é para nós.
Entretanto, é evidente também que, durante o curso dos séculos, ao longo dos quais Deus se revelou, há coisas que mudaram. Por exemplo, lemos na epístola aos Hebreus: "Porque o precedente mandamento é ab-rogado por causa da sua fraqueza e inutilidade (Pois a lei nenhuma coisa aperfeiçoou) e desta sorte é introduzida uma melhor esperança, pela qual chegamos a Deus" (7: 18-19) E na epístola aos Gálatas: "De maneira que a lei nos serviu de aio, para nos conduzir a Cristo, para que pela fé fôssemos justificados.
Mas, depois que veio a fé, já não estamos debaixo de aio" (3:24-25).
Ao lermos a Bíblia, necessitamos de discernímento espiritual para saber se seus ensinamentos estão diretamente relacionados a nós, ou não. Neste último caso, trata-se de saber qual é a correta aplicação que podemos fazer dela. Fazse a pergunta inclusive com referência ao plano da vida prática. Não é um assunto de doutrina abstrata.
No livro de Êxodo, o mandamento do dia de repouso (sábado) é chamado de "pacto perpétuo" (31:6).
Os cristãos devem guardar o sábado?
A resposta é muito fácil de descobrir; basta ler atentamente a passagem citada. "Guardarão, pois, o sábado os filhos de Israel, celebrando-o nas suas gerações por aliança perpétua entre mim e os filhos de Israel" (v. 16-17).
O sábado está relacionado a Israel.
Há perguntas um pouco mais difíceis. Quando ocorreu  despertar nos tempos de Neemias, observamos que depois de uma leitura assídua do livro da Lei (8: 18), os israelitas fizeram uma promessa a qual cumpriram.
Juraram que andariam na lei de Deus e que cumpririam todos os seus mandamentos, e impuseram a si mesmos um tributo/imposto para a obra da casa de Deus (9:38; 10:1;28-32). Temos de seguir o exemplo deles? Seria muito difícil duvidar que tiveram a aprovação de Deus nesse juramento. Porém, a história de Israel nos mostra com abundantes provas que todas' as promessas que o homem fez não as puderam cumprir.
O fato de que um povo embaixo da lei se impor obrigações estava de acordo com o espírito da lei.
Porém, esta forma de atuar de modo algum corresponde ao espírito do cristianismo. Por sua vez, podemos fazer uma aplicação útil dessa passagem no que concerne a nós. Encontramos um estímulo para observar os mandamentos do Senhor e ter no coração a casa de Deus.
Depois de uma fervorosa exortação à oração, o Senhor Jesus diz: "quanto mais dará o Pai celestial o Espírito Santo àqueles que lho pedirem?" (Lc 11:13).
Isto significa que deveríamos pedir o Espírito Santo? Se temos a consciência de que, na época cristã (a partir do dia de Pentecostes), aqueles que creram foram selados com o Espírito Santo, e que o Espírito habita neles (Ef 1: 13; Rm 8: 11), é evidente que não temos de pedir o que possuímos! Por isso, podemos pedir sempre a Deus que sejamos cheios do Espírito, ou seja, que estejamos em um estado de coração no qual o Espírito seja livre para operar (Ef 5:18).
Deus promete a Josué:  "não te deixarei nem te desampararei" (Js 1 :5). Porém, a epístola aos Hebreus nos diz expressamente que esta promessa também é para nós: "Não te deixarei, nem te desampararei. E assim com confiança ousemos dizer: O Senhor é o meu ajudador, e não temerei" (13:5-6). Esta passagem nos anima, pois, a nos apoderarmos das promessas que encontramos no Antigo Testamento, embora elas tenham sido dirigidas a outros, e em circunstâncias que não são as nossas. Não obstante, seria correto nos apropriarmos das promessas que evocam uma vida longa, ou riquezas, ou a derrota de nossos inimigos.
Face a essas declarações do Antigo Testamento, entre as quais temos de considerar algumas literalmente e outras deixar de lado, poderíamos sentir superados e exclamar: Mas como posso saber o que é verdadeiramente para mim? Felizmente, temos de tratar com um Deus que deseja ensinar-nos, e se ele nos  deu a sua Palavra, ela está entre as suas mãos para atuar em nós segundo o seu beneplácito (compare com Is 55: 10-11). Ela é a "palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre" (IPe 1:23). "a qual também opera em vós, os que crestes" (1Ts 2:13).
Podemos, pois, contar com ele, para que nos ilumine por seu Espírito e pela própria Palavra, a fim de que façamos uma correta aplicação. Por sua vez, não devemos permanecer como meninos. Deus quer que "prossigamos até à perfeição" (Hb 6: 1), que cresçamos no conhecimento de seus pensamentos.
o que é uma dispensação?
É de grande utilidade para todo cristão ter uma compreensão clara do desenvolvimento das revelações que Deus fez a todos os homens no transcurso do tempo, e do caráter das relações que ele estabeleceu com aqueles aos quais ele se revelou. Em outras palavras, é preciso conhecer algo das díspensaçôes'. Essa palavra pode designar tanto as disposições que Deus toma em sua administração, como os períodos durante os quais ele toma essas disposições. A dispensação da lei, por exemplo, é a condição na qual se encontrava o povo de Israel pelo fato de que havia recebido a lei de Moisés, e de que estava sob a autoridade  dessa lei; e é também a época " que vai desde Moises até a vinda de Jesus Cristo à Terra.
Para conhecer as dispensações - pelo menos em seu aspecto geral - é necessário, como Paulo dizia a Timóteo "que maneja bem a palavra da verdade" (literalmente: que divide retamente; 2Tm 2: 15).
Deus se revelou aos homens para a bênção deles, e para manifestar os diferentes aspectos de sua glória. Porém, ele se revelou de forma progressiva. Em cada dispensação, o homem foi colocado à prova, e o resultado dessas provas foi o fracasso em todas elas. Mas à medida que o homem manifestava a base de sua natureza, Deus tirava de seus tesouros novas riquezas. O estudo do plano de Deus na revelação que ele tem feito de si mesmo é uma fonte de peculiar enriquecimento. Esta fonte nos faz crescer no conhecimento de Deus e do Senhor Jesus Cristo.
 
"A palavra dispensação geralmente é utilizada para designar determinado estado de coisas, estabelecido pela autoridade de Deus durante um dado período" (J,N. Darby) 
 
Por Jacques-André Monard
 

Leia Mais Aqui => Manejando Bem a Palavra da Verdade - C. I. Scofield.pdf

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