Longe de ser mero assunto de discussão acadêmica, a verdade da Divindade de nosso Senhor é fundamental para nossa salvação. Quando nos curvamos perante Deus e pensamos no que Ele é, na imensidão da Sua eternidade e na intensidade da Sua santidade, nossos corações clamam por alguém que possa colocar “as mãos sobre nós ambos” (Jó 9:33), descendo até o nosso humilde paradeiro e subindo até a sublimidade de Deus. Não clamamos em vão, pois encontramos esta Pessoa no nosso Senhor Jesus Cristo, o Verbo que se fez carne. Ele é tão verdadeiramente Deus quanto homem, tão verdadeiramente homem quanto Deus.
 
Um Salvador perfeito não pode ser menos do que Deus. Somente a Divindade poderia suportar o peso da obra que o Senhor realizou quando veio nos salvar. Nosso Salvador precisa ter plena Divindade para carregar nossos pecados eficazmente, satisfazendo para sempre as exigências da santidade de Deus; para ser o verdadeiro Mediador, compreendendo tanto as profundezas de Deus quanto as necessidades dos homens; para ser aquele que plenamente nos revelou Deus; para ser a Fonte inesgotável de prazer para o Seu povo.
 
Nosso propósito neste capítulo é meditar em alguns dos títulos que nosso Senhor recebe nas Escrituras e que referem-se ao Seu relacionamento com Deus. Apesar de serem apenas uma fração do retrato rico da majestade de Cristo, eles prestam um testemunho rico à glória da Sua Pessoa. Unem-se para apresentar-nos um em quem nossas almas podem descansar naquele descanso pleno que a criatura encontra apenas no Criador, e que o finito encontra apenas no infinito e eterno. 
 
O resplendor da Sua glória (Hb 1:3). A palavra “glória” é usada aqui no seu sentido mais amplo, descrevendo a plenitude radiante das excelências de Deus, incluindo todo o esplendor da Sua natureza e caráter. A glória do Senhor durará para sempre (Sl 104:31), ao passo que a glória do homem é como a flor da erva que seca e cai (I Pd 1:24). A glória humana é vã e transitória; a divina é real e eterna. Hamã podia falar “da glória das suas riquezas” (Et 5:11), mas Deus possui riquezas de glória. 
 
Tua, Senhor, é a majestade, Brilhando eterna, não como a humanidade; A Tua glória é vasta e imensurável, Fluindo eternamente, inescrutável!
 
O Pai é a fonte viva desta glória e o Filho é seu rio vivo. O Filho é o brilho, o fulgor, o resplendor da glória, de tal forma que o relacionamento entre o Pai e o Filho possui aquela intimidade que existe entre a luz e o raio que dela flui. Tal qual a luz é o raio, e um não existe sem o outro. Tal qual a santidade, o amor e a graça do Pai são também as virtudes do Filho. Deveras, todas as glórias de Deus resplandecem imutáveis em Cristo, sem desvanecer em seu brilho, sem serem corrompidas em sua beleza, e sem vacilar em seu ardor. 
 
Além disto, a luz só pode ser vista pelos seus próprios raios, assim como Deus só pode ser conhecido através de Cristo. Nosso Senhor, em Sua existência eterna, independentemente das diversas manifestações da Sua majestade, é única e exclusivamente o resplendor da glória de Deus. 
 
Nada menos do que igualdade de natureza é apresentado nesta possessão das riquezas da glória divina. Assim, ter Cristo é ter tudo nEle. Quão rica é a Escritura que diz: “Jesus Cristo … para nós foi feito por Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção” (I Co 1:30). Ele próprio foi feito para nós todas estas coisas. A Sua própria plenitude é sua única medida. Com grande reverência, portanto, dizemos que Deus não poderia ter nos abençoado mais do que fez. Ele deu-nos Cristo, Seu tesouro supremo, cujas riquezas ninguém poderá sondar ou contar. Ele deu-nos Cristo, e neste dom inefável deu-nos tudo que Ele próprio é. 
 
A expressa imagem da Sua Pessoa (Hb 1:3). A palavra traduzida “expressa imagem” significa uma gravura, algo esculpido, e era usada especialmente para descrever as impressões feitas por uma matriz ou carimbo, como na gravação de moedas. A impressão reproduz exatamente o que está no carimbo. Ver um é ver o outro. Depois a palavra “pessoa” refere-se ao que é interno, não simplesmente aparência externa, mas realidade interna. O Filho é a expressa imagem da Pessoa de Deus, a manifestação perfeita de tudo que essencialmente pertence a Deus. 
 
Aqui, portanto, Ele é visto como tendo a mesma substância do Pai, mas pessoalmente distinto dEle. No Filho estão presentes todas as qualidades, todos os recursos, todo o poder que habita no Pai. Portanto, contemplar o Filho é contemplar o Pai. 
 
Aprendemos esta verdade preciosa dos lábios do próprio Senhor Jesus. Lembramos das Suas palavras no cenáculo: “Quem Me vê a Mim vê o Pai” (Jo 14:9). Conhecendo o Filho, conhecemos o Pai; não vagamente, mas em verdade. Contemplando a face molhada pelas lágrimas diante do túmulo de Lázaro, vemos que o Pai é misericordioso; examinando a santidade imaculada daquela vida, aprendemos que o Pai é santo; contemplando os sofrimentos na cruz, aprendemos que o Pai é amoroso. 
 
O mesmo acontece quando vemos a ternura com que as criancinhas eram abraçadas, e a compaixão intensa com que contemplava a multidão cansada. Ouvimos a voz que, pronunciando palavras de conforto, animava tantos corações quebrantados e abriu as portas do Paraíso para um ladrão agonizante. Nestas e em tantas outras cenas que povoam nossas mentes de forma tão bendita, aprendemos a conhecer Deus, e nossos corações sentem-se deveras satisfeitos. 
 
“Quem Me vê a Mim vê o Pai”. Estas palavras foram Sua resposta terna à pergunta de Filipe: “Senhor, mostra-nos o Pai, o que nos basta”. Apesar de a afirmação do apóstolo demonstrar o quão pouco ele compreendera o significado do caminho do Senhor, é uma declaração importantíssima, pois é a primeira vez no Novo Testamento que a palavra “Pai” saiu da boca de um discípulo. Filipe falou em verdade do único objeto que pode ser uma visão suficiente. Os olhos humanos têm fome; procuram mais e mais para satisfazer seu apetite. Jamais o olho diz: “Basta”, pois isto só poderá ocorrer quando Deus for visto revelado em Cristo. Curvamos nossos corações e dizemos: “Temos visto o Pai — nosso Pai; certamente isto nos basta!“ 
 
A imagem do Deus invisível (Cl 1:15). É somente no Filho que Deus é plenamente visto. Esta é uma necessidade eterna, que resulta da própria natureza de Deus e não da fragilidade de Suas criaturas. Tal é o relacionamento entre as Pessoas da Trindade que no Filho concentra-se toda a manifestação de Deus. Isto é revelado no título que estamos considerando. A palavra “imagem” fala de uma semelhança derivada e de uma igualdade que é vista não meramente em aparências, mas em identidade de naturezas. Tal é a semelhança que Deus, com infinito prazer, contempla Seu Filho, o reflexo perfeito do Seu caráter. Cada detalhe nEle encontra seu correspondente no Filho. O amor com que Ele contempla Seu Amado é correspondido por um amor semelhante da parte do Filho. Todos os Seus pensamentos de graça para com pecadores indignos encontram uma resposta perfeita em pensamentos semelhantes no coração daquele que é Sua imagem. 
 
Não é só Deus que contempla em Cristo Sua própria semelhança; nós também miramos aquele espelho vivo e vemos nele toda a plenitude da revelação divina. Em Cristo, Deus é plenamente revelado numa revelação que sempre se vê no Filho. A expressão “que é a imagem” é semelhante à que aparece dois versículos adiante: “Ele é antes de todas as coisas” pois o tempo presente é usado para descrever algo que transcende toda noção de tempo. 
 
Temos destacado que foi o Filho que foi visto nas revelações de Deus no Velho Testamento, não ainda encarnado, mas certamente pré-existente. Nos dias da Sua carne Ele ainda era a imagem do Deus invisível, como é agora na Sua posição glorificada. Nas eras vindouras Ele ainda será a manifestação visível de Deus, pois João diz, ao descrever a cidade santa: “…nela estará o trono de Deus e do Cordeiro, e os Seus servos o servirão. E verão o Seu rosto” (Ap 22:3-4). Assim, no rosto que uma vez foi desfigurado por agonia profunda, veremos a glória de Deus — do Pai, do Filho e do Espírito Santo. É perfeitamente apropriado que a revelação da majestade divina seja vista naquele que um dia foi “desfigurado, mais do que outro qualquer” (Is 52:14). 
 
O Verbo (Jo 1:1). Esta expressão mostra ainda mais claramente que nosso Senhor Jesus é a completa revelação de Deus. O Verbo é o meio pelo qual Deus Se expressa. Não é que nosso Senhor traz a revelação de Deus, mas muito mais, Ele próprio é esta revelação. Não é simplesmente que Ele é o mensageiro, mas Ele é a própria mensagem. Como tal, Ele é a resposta plena e final para todos os anseios da alma que busca conhecer Deus. 
 
Se clamarmos, como Davi no deserto: “…a minha alma tem sede de Ti; a minha carne Te deseja muito” (Sl 63:1), e como Moisés no Sinai: “…para que eu Te conheça” (Ex 33:13, ARA), e como Paulo em Roma: “…para que possa conhecê-Lo” (Fl 3:10, tradução literal), não seremos desapontados. Paulo podia se gloriar que o Filho de Deus, que ele pregava, “não foi sim e não; mas nEle houve sim” (II Co 1:19). Jamais o apóstolo teve que baixar a cabeça e confessar, pesaroso, que não havia o suficiente no seu amado Salvador para satisfazer a necessidade de qualquer alma aflita. “NEle houve sim”. Ele é a resposta divina e positiva para toda a necessidade humana. 
 
A perfeição de Cristo como a revelação tem como chave o Seu relacionamento com Deus. João começa seu Evangelho dando-nos uma ilustração da dignidade do Verbo eterno. Em Gênesis Moisés começou dizendo: “No princípio criou Deus”, e depois falou do Senhor Deus que soprou nas narinas do homem o fôlego de vida. João começa: “No princípio era o Verbo … Todas as coisas foram feitas por Ele”, e depois apresenta Cristo ressurreto como aquele que dá vida, realmente o Senhor Deus da nova criação. Moisés voltou atrás ao ponto inicial da criação, mas João vai muito além, pois quando todas as coisas criadas vieram a existir, o Verbo já era. Outra vez, “O Verbo estava com Deus”, não apenas co-existindo, mas gozando duma comunhão imensurável em sua riqueza. E finalmente, “O Verbo era Deus”, possuindo a própria natureza divina. 
 
Cristo é a Palavra viva. Tauler, na Idade Média, afirmou enigmaticamente: “Deus pronunciou apenas uma Palavra, e esta Palavra permanece impronunciável”. Toda a mensagem de Deus está para sempre contida em Cristo, de forma que tudo aquilo que poderemos saber, ou que precisamos saber, está nEle. Como tudo isto está numa Pessoa viva, a mensagem é sempre atual. Assim ela deve ser eternamente; não pode haver fim para a manifestação de Deus em Cristo. 
 
A estes títulos podemos acrescentar o nome divino dado ao Filho. No Velho Testamento Deus foi revelado como o eterno e imutável Ser que condescendeu em fazer um concerto com Seu povo. Isto foi revelado pelo Seu nome Jeová. Este nome era tratado com tanta reverência pelos judeus que eles evitavam pronunciá-lo. Onde está escrito Jeová no texto do Velho Testamento, eles liam Adonai. Sendo assim, se os escritores do Novo Testamento aplicam ao Senhor Jesus citações do Velho Testamento que usam o nome Jeová, fazem isto com convicção total quanto à Sua divindade. O Velho Testamento preparou o caminho para isto ao dizer: “Então Jeová fez chover enxofre e fogo, de Jeová desde os céus, sobre Sodoma e Gomorra” (Gn 19:24). Duas Pessoas são mencionadas ali, cada qual tendo o nome divino. 
 
O apóstolo João cita Isaías em relação à visão que este teve do Senhor, e diz: “Isaías disse isto quando viu a Sua glória e falou dEle” (Jo 12:41). Assim João proclama Cristo como aquele de quem os serafins diziam: “Santo, santo, santo é Jeová dos Exércitos”. 
 
Novamente em Is 8:13-14 lemos: “A Jeová dos Exércitos, a Ele santificai … e Ele vos será por … pedra de tropeço, e rocha de escândalo”. Pedro nos mostra que Cristo é aquela pedra e aquela rocha, e portanto Ele é Jeová (veja I Pd 2:7-8). Na tentação Cristo citou as palavras da lei: “Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a Ele servirás.” (Mt 4:10), onde o Velho Testamento lê “Jeová teu Deus”. Apesar disto, várias vezes Ele aceitou adoração, e nunca a recusou. Assim Ele dizia ser Jeová dos Exércitos. 
 
Além disto, há oito ocasiões em que a Bíblia chama Cristo diretamente de Deus: 
 
  • 1) “Se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz” (Is 9:6). Nesta profecia inconfundível sobre aquele que reinará no trono de Davi, Cristo recebe um nome em cinco partes. As primeiras duas estimulam nossa admiração e conduzem à parte central; as últimas duas fluem desta como consequências sublimes. Todo o peso da ênfase recai sobre o expressão central: “Deus Forte”. 
  • 2) “Chamá-lo-ão pelo nome de Emanuel, que traduzido é: Deus conosco” (Mt 1:23). Esta citação é da profecia em Isaías 7 sobre o nascimento do Filho da virgem. O fraco e incrédulo rei Acaz foi instruído a pedir ao Senhor seu Deus um sinal ou embaixo nas profundezas ou em cima nas alturas. Acaz recusou-se a pedir o sinal, portanto Deus lhe deu um sinal que deveria ser tanto nas profundezas como nas alturas. Realmente nosso Senhor é Emanuel — Deus conosco. Nós o vemos na profundeza quando Ele foi feito pecado por nós; nós o vemos nas alturas quando Ele é exaltado acima dos mais altos céus. Tanto na cruz como no trono a imensidão da Sua obra é tal que somente a divindade poderia consumá-la. 
  • 3) “O Verbo era Deus” (Jo 1:1). Já pensamos sobre este versículo neste capítulo. 
  • 4) “Senhor meu e Deus meu” (Jo 20:28). Quando Tomé contemplou o Senhor ressurreto ele foi tão categórico no seu reconhecimento quanto havia sido na sua incredulidade. Ele ouviu as palavras de graça que chamaram sua atenção às mãos furadas e o lado traspassado. E olhando então para a face que foi coroada de espinhos, e nos olhos que uma vez brilharam com lágrimas humanas, ele viu o seu Deus. As palavras de adoração romperam espontaneamente. Na sua devoção não poderia haver reservas. Para ele o homem crucificado era agora Senhor e Deus. 
  • 5) “…dos quais é Cristo segundo a carne, o qual é sobre todos, Deus bendito eternamente” (Ro 9:5). Paulo relata os privilégios dados a Israel como nação, e traz a lista ao seu clímax mencionando o favor supremo mostrado a este povo, que o Cristo veio em carne no meio deles. O que fez Seu nascimento em Israel ser a glória suprema da nação foi o fato de Ele ser mais do que simplesmente descendente de Davi; Ele é Deus bendito eternamente. Nas próprias palavras desta doxologia breve mas expressiva Paulo honra o Filho com a mesma honra dada ao Pai na epístola aos Efésios: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo” (1:3). 
  • 6) “…aguardando a bendita esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus, o qual a Si mesmo Se deu por nós…” (Tt 2:13-14, ARA). A ordem das palavras na versão Atualizada concorda com a verdade óbvia, que aquele que veremos manifestando-Se em glória é nosso Senhor Jesus. A glória será a manifestação adequada da dignidade eterna da Sua pessoa. A palavra “grande” nos lembra que Pedro disse: “nós mesmos vimos a Sua majestade [isto é, Sua grandeza sobreexcelente]” (II Pd 1:16). Aquele que Se entregou por nós, descendo à terrível humilhação da Sua morte vicária, é ninguém menos do que nosso grande Deus. 
  • 7) “Ó Deus, o Teu trono subsiste pelos séculos dos séculos…” (Hb 1:8). É o Pai que dirige estas palavras ao Filho. Ele disse: “Tu és o Meu Filho, hoje Te gerei”, e agora dirige-Se a Ele dizendo: “Ó Deus, o Teu trono…”. Aqui, portanto, a honra divina atribuída a Cristo não parte de uma mera criatura! 8) “Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna” (I Jo 5:20). No começo da sua epístola João escreve: “… vos anunciamos a vida eterna, que estava com o Pai, e nos foi manifestada” (1:2). Agora sua tarefa chega ao fim, e ele diz daquele cuja manifestação ele descreveu: “Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna”. Nós estamos naquele que é verdadeiro; isto é, estamos no Pai porque estamos em Seu Filho Jesus Cristo. O ensino de João é o mesmo, quer no Evangelho quer nesta epístola — Cristo é Deus. 
 
Portanto, nestes títulos que juntos apresentam a dignidade única de Cristo como a revelação de Deus, no fato dEle usar, com todo direito, o nome Jeová, e na repetida aplicação do nome “Deus” para descrevê-Lo, vemos quão grande é o testemunho das Escrituras à plenitude da Sua divindade. Esta divindade é sempre Sua, tanto no trono como na cruz. Pertence a Ele agora, aquele em quem cremos, e será dEle eternamente. “… nEle habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Cl 2:9). Regozijamos em tal Salvador, e O adoramos como nosso Senhor e nosso Deus. 
 
H. C. Hewlett (Adaptado).
 
Extraído da Revista O Caminho – Números 30.
http://periodicoocaminho.blogspot.com.br/p/indice-cronologico-dos-artigos-de-o.html
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