Origem dos "Irmãos"

1. Em que consiste este movimento chamado de “Irmãos”?


Para muitos dos seus amigos cristãos, eles aparecem como figuras indistintas, um pouco exóticas, possuídas de um forte desejo de permanecerem anônimos, e sem pretensões de serem reconhecidos como denominação vasta e influente. Têm muitos salões de reunião, mas nenhuns profusamente decorados, ou arquitetônicos templos de adoração. São normalmente vistos como cristãos bem intencionados, mas desprovidos de história, e dificilmente de qualquer identidade.


É, contudo, interessante notar que um historiador, ao escrever acerca do movimento dos Irmãos, começou as suas observações afirmando o seguinte: "...não tem paralelo em toda a história da Igreja de Deus, visto que em nenhuma outra altura foi a Palavra de Deus por si só e liberta de qualquer tradição, tomada como guia daqueles que buscam um reavivamento na Igreja de Deus" – H. Soltan, 1863.
Muitas pessoas considerarão a afirmação acima como algo de extravagante, mas verifica-se que ainda hoje os Irmãos aderem muito de perto à Palavra de Deus, e buscam ser primariamente guiados por essa Palavra.


Assim, a pergunta tem que ser feita: Como surgiu este movimento? Onde começou? Quem foram os homens e mulheres envolvidos no seu começo? Será que a voz deste movimento tem alguma relevância no mundo evangélico atual? Tê-lo-á tido algum efeito marcado na mudança do padrão do pensamento evangélico desde o seu princípio? De forma a poder responder a todas estas perguntas com profundidade, seria necessário ter-se ao dispor mais tempo e material do que este escritor possui. Só nos é permitido assim oferecer um breve esboço da história do movimento, referindo sumariamente algo relacionado com os esforços missionários (ou seja, a difusão do movimento à escala mundial), e considerando a posição doutrinária e situação atual do movimento, no fecho do século XX.


2. A ORIGEM

Ao olharmos para a história do movimento dos Irmãos, chegamos rapidamente à conclusão de que se trata de uma descrição cativante de uma contínua herança espiritual que tem suas raízes nos tempos apostólicos. É verdade que o movimento agora conhecido por Irmãos (Irmãos Plymouth, Irmãos Cristão pode ser reconstituído até à data de 1825, mas sido provado que este foi simplesmente um saliente, marcando um acontecimento dentro de movimento constante do Cristianismo. 

A declaração de Soltan (referida no capítulo 1), conquanto possa ser um pouco enfática, mostra pelo menos uma coisa: se os pioneiros Irmãos estavam pisando caminho bem gastos por anteriores espíritos radicais, fizeram-na na ignorância de seus predecessores. O momento foi uma erupção espontânea de um continuado elemento no cristianismo, que ainda hoje é largamente ignorada pelos escritores de assuntos religiosos.


Não se pode assim marcar uma data definida para o começo desta obra de Deus que conhecemos como movimento dos Irmãos. Ao contrário disto, porém, parece que durante um determinado período de tempos certos homens piedosos reconheceram que nem tudo estava bem com a Igreja estabelecida. Eles ansiavam por uma caminhada mais íntima com o Senhor, e um relacionamento mais simples e significativo com Ele.
Na maior parte dos países da Europa Ocidental e na maioria dos grupos religiosos, o começo século XVIII foi marcado como sendo uma altura de declínio da vitalidade. 

Nos países católico-romanos, Roma dominava e determinava os termos pelos quais pessoas se podiam aproximar do Senhor. Nos países protestantes estava-se na idade da razão, e todas as formas de fervor religioso eram consideradas perigosas e degradantes Os pioneiros Irmãos foram de muitas formas uma reação contra a atitude dominante e ditadora do catolicismo romano, e a inércia e superficialidade do protestantismo em geral. 

Não há nenhuma dúvida que eles estavam na vanguarda da reforma radical. "O seu movimento, cristalizando à volta de líderes de personalidade e influência, focalizou algumas das tendências que tinham estado presentes em todos os desenvolvimentos desde Wycliffe" – F. R. Coad.
Ele juntou uma alta insistência na conduta santa, a um apelo direto às Escrituras, acima da cabeça de qualquer e toda autoridade existente; a rejeição de ditaduras ministeriais, o conceito da Igreja como comunhão e unidade de todos os crentes, e a libertação dos dons em todos os membros da congregação.
Homens como Anthony Norris Groves, J. N. Darby, Lord Congleton, J. G. Bellett, Dr. Edward Cronin e outros, ficaram impressionados com a importância, bem como com a possibilidade de um retorno à Palavra de Deus. Não apenas para assuntos relacionados com a salvação pessoal, mas também em assuntos de conduta e o testemunho das Igrejas.


Anthony Norris Groves

Em 1827, Anthony Norris Groves, um dentista de Plymouth, encontrava-se em Dublin, Irlanda, estudando no Colégio Trinity. Em conversas com J G. Bellett, um advogado, Groves afirmou que pelos seus estudos das Escrituras parecia-lhe que os crentes eram livres para partirem o pão uns com os outros, tal como o Senhor lhes ordenara; e ainda que, deixando-se guiar pelas Escrituras, passariam a reunir-se sempre no dia do Senhor para este mesmo propósito, aparte de quaisquer restrições eclesiásticas. Até àquela altura, o dispensar da ceia do Senhor tiha estado nas mãos das autoridades eclesiásticas. Muito pouco tempo depois, um grupo reunia-se em Dublin com este propósito.
Mais ou menos nessa mesma altura, um outro grupo se estava formando com o mesmo propósito John Vesey Parnell (posteriormente Lord Congleton), e dois amigos, tentaram começar a reunir-se, como demonstração da sua unidade como filhos de Deus, apesar de algumas divergências eclesiásticas. Não conseguindo encontrar nenhuns companheiros que tivessem a mesma opinião que eles, e desconhecendo o facto de que Groves, Bellet e outros já se estavam a reunir, começaram a partir o pão em suas próprias casas.


John Nelson Darby

Pouco tempo depois, um dos elementos daquele grupo encontrou-se com Bellet, e após breve conversação, reconheceram a sua unidade de propósito, e isso resultou na junção dos dois grupos. Nesta altura, Groves tinha saído da Inglaterra, mas um jovem clérigo irlandês, John Nelson Darby, se tinha entretanto juntado ao grupo.
Darby tinha recebido a sua graduação do Colégio Trinity, Dublin, como "Medalhista Clássico", estagiou algum tempo como conselheiro jurídico, foi ordenado sacerdote na Igreja, e nomeado ,para uma paróquia em Co.Wicklow. 

Depois de ter assistido a algumas reuniões de estudo bíblico na casa da viscondessa Powerscourt, Darby encontrou-se com A. N. Groves e Lord Congleton, e abandonou em 1827 a sua posição paroquial, completando um ano depois a sua separação da Igreja Católica-Romana, e encontrando-se com os irmãos acima mencionados.


George Müller 

Darby foi persuadido a visitar Oxford em 1830, e aí encontrou-se com B. W. Newton, um erudito de grande distinção, G. V. Wigram (que mais tarde compilou uma Concordância grega do Novo Testamento, seguida mais tarde de uma Concordância Hebraico-Caldaica do Velho Testamento), e W. E. Gladstone (que mais tarde se tornou em primeiro-ministro da Inglaterra).
B. W. Newton era oriundo de Plymouth, Inglaterra, e no ano de 1832 formava-se uma reunião naquela cidade, a primeira do gênero em toda a Inglaterra. Em breve se lhe seguiriam reuniões em Londres e Bristol. 

Alguns grandes nomes estiveram ligados a essas reuniões pioneiras, tais como George Müller, Henry Craik, S. P. Tregelles (crítico textual), R. Chapman, etc. O tempo e o espaço não permitem a menção de outros, mas é evidente que o Senhor escolheu homens proeminentes para executarem a Sua obra.
Da Inglaterra, o movimento espalhou-se pela Suíça, Alemanha, Holanda, Itália, Canadá, E. U A., Índias Ocidentais, Nova Zelândia, mas alguns mais tarde. Tal foi o início daquilo que é agora conhecido por movimento dos "Irmãos". 

Este nome nunca foi apropriado pelos irmãos pioneiros, os quais não conheciam outro nome a não ser o do Senhor Jesus Cristo. O nome, quer seja Irmãos, Irmãos Plymouth, Irmãos Cristãos, etc., tem sido aplicado por outros e, contudo, é ainda verdade que as muitas assembleias espalhadas por todo o mundo se reúnem apenas no Nome que é sobre todo o nome, o Nome do Senhor Jesus Cristo. Os homens e mulheres pioneiros deste movimento não tiveram nenhum desejo de ter qualquer título exclusivo, a sua única preocupação era um retorno à Palavra de Deus com única autoridade em relação à sã doutrina, vida pessoal, e reuniões colectivas dos filhos de Deus.


3. ATIVIDADE MISSIONÁRIA DO MOVIMENTO

A atividade missionária do movimento é algo de espantoso. Logo desde o início, e começando com A. N. Greves, o seu zelo missionário foi algo de notório É difícil haver algum país do mundo que não tenha sido afetado por este movimento.
Assim, longe de constituir um movimento mera mente anglo-saxônico, ele espalhou-se até aos quatro cantos da terra. Na maior parte dos antigos países comunistas (de leste) podiam e pode encontrar-se assembleias de cristãos que se reúnem sob os princípios simples do Novo Testamento, os mesmos princípios que foram a luz guiadora dos primeiros "Irmãos". Deus, na Sua grande graça, tomou e enviou das suas fileiras vastos números para testemunharem em terras estrangeiras.


Em 1829, A. N. Groves, dependendo apenas de Deus, foi até Bagdade, capital do Iraque, por meio de um pequeno iate, indo primeiro a S. Petersburgo (ex-Leninegrado), e depois através do Sul da Rússia, em carroça, até Bagdade. Foi com sua esposa e dois filhos, de 9 e 10 anos, o tutor dos rapazes, a irmã de sr. Groves, Lídia, Miss Taylor, e o sr Bathie, um jovem da Irlanda. 

Depois de terríveis contratempos, começaram a trabalhar em uma região que estava sendo devassada pela praga bubônica. Quase todos es habitantes da cidade eram muçulmanos fanáticos que se deliciavam em assassinar pessoas, fazer guerras e roubar. Durante aquele tempo, Mary Groves morreu atingida pela praga, bem como o pequeno bebê que lhes tinha nascido. 

Mais de 30.000 pessoas pereceram naquela terrível doença. Durante todo aquele tempo Groves tinha-se mantido fiel ao seu Senhor, dependendo dEle apenas para suprir às suas necessidades. De Bagdade, Groves foi até à Índia, e estabeleceu ali o trabalho no Delta Godaveri. 

Visitando e Inglaterra em 1853, ficou enfermo, e passou à presença do seu Senhor na casa de George Müller, em Bristol, com a idade de 58 anos.
Groves era um exemplo típico dos velhos pioneiros, aqueles que através de labutas auto-impostas e sacrifícios levaram e Evangelho a muitas terras, estabelecendo assembleias de povo de Deus, e dando muitos o seu todo, e mesmo até suas vidas por amor ao Evangelho.
A obra no continente europeu tinha sido ajudada por uma viagem evangelística na Espanha, em 1832, conduzida por R. C. Chapman. Mais tarde, isso foi acompanhado e seguido por ensinadores, e depois de 1869 a obra desenvolveu-se em Barcelona, Madrid, e na província da Galiza.


Cerca de 1870, a obra desenvolveu-se também em Portugal, e tornou-se em um dos maiores grupos evangélicos no país.
Um trabalho interessante começou na Itália, sob a liderança de Conde Piero Guiccardini, cabeça de uma das mais antigas e famosas famílias em Florença. 

Em 1851, Guiccardini e outros seis crentes foram presos pela polícia por terem organizado leituras privadas da Bíblia, em sua casa. Foi condenado a 6 meses de prisão, e mais tarde exilado. Numerosas prisões de crentes se seguiram em Florença, por nenhuma outra razão a não ser a profissão da fé evangélica, e por organizarem leitura da Bíblia em seus lares. A Itália tem tido um forte trabalho indígena por mais de um século, o qual continua, apesar do que e inimigo possa fazer.


Os esforços missionários continuaram a espalhar-se através de toda a Europa, América do Norte, do Sul, Canadá, Neva Zelândia, Austrália, África, Rússia, Índia e Ilhas das Caraíbas. A China, Japão e outros países do Extremo-Oriente foram alcançados e grupos de assembleias foram formados em todos estes ugares.
Muitas organizações missionárias bem conhecidas atualmente tiveram suas origens nos Irmãos. Podiam-se mencionar muitos nomes ligados ao grande esforço de obedecer ao mandamento de Senhor: "Ide todo o mundo e pregai o Evangelho...".

Podemos pensar no Dr. Baedeker, que gastou tanto tempo na Rússia, Hudson Taylor na China, F. S. Arnot na África, C. Bull no Tibete, ao lado dos que já foram mencionados, e muitos mais que deixaram suas casas e familiares, sacrificando-se, em simples obediência ao mandamento do Senhor. Tem sido afirmado que de todos os grupos evangélicos, nenhum providenciou tantos missionários para terras estrangeiras como o movimento conhecido por "Irmãos". 

A nossa oração constante é para que os jovens de hoje possam receber essa mesma visão que receberam os primeiros Irmãos, entregando-se totalmente ao Senhor, e estando dispostos a ir onde quer que Ele envie. Os campos de hoje estão, na verdade, brancos para a ceifa, o mandamento de ir foi dado há quase 2.000 anos atrás, e nunca foi rescindido. Há tantas portas abertas, tantas almas partindo para a eternidade sem Cristo; que desculpa teremos nós para, apresentar ao Senhor por não termos saído para alcançar os perdidos? Jovem cristão, não esperes que os homens te enviem, olha somente para o Senhor, e confia nEle completamente para direção e para o suprimento de todas as tuas necessidades. Não compareças perante o tribunal de Cristo de mãos vazias.


4. POSIÇÃO DOUTRINÁRIA

Nesta secção, tentaremos contemplar brevemente a posição doutrinária do movimento dos Irmãos, e considerar a posição corrente.
Não têm faltado ao movimento os seus críticos e detratores, mas poucas pessoas espirituais poderiam negar que não tenha sido uma tentativa honesta de retorno às Sagradas Escrituras, e que tenha e certa medida atuado como um saí da terra para por em cheque a apostasia da cristandade moderna.


Os antigos crentes em Dublin e Plymouth voltaram ao Novo Testamento para sua direção. Eles não perguntaram: "Que diz Roma?"; ou: "Que pensavam os Pais da Igreja?"; mas sim: "Que diz Espírito Santo através da Palavra?". Aqui estava o princípio vivo, a base para cada reavivamento autêntico que tem tido lugar, um retorno à Palavra de Deus.
Havia uma simplicidade de coração quase que ingênua em resposta à leitura da Bíblia, e que conduzia a uma completa devoção a Cristo como Cabeça da Igreja. Isto conduziu em troca a um reconhecimento da unidade do Corpo de Cristo, á presença do Espírito Santo, o sacerdócio de todos os crentes e as implicações da unidade cristã.
Eles reconheceram que a Igreja não é uma monarquia, tão-pouco uma democracia, mas sim uma teocracia.


Ou seja, somente Cristo é o Cabeça da Igreja. A liberdade do Espírito não é a "liberdade para que cada um faça o que lhe apetece, mas para que cada um seja guiado e controlado pelo Espírito Santo. Uma coisa que se verifica em assembleias modernas é a relutância em reconhecer a importância de uma obediência literal ao ensino das Santas Escrituras. E alguns casos, o ensino e princípios da Bíblia têm sido suplantados pelos ensinos de homens, por vezes em busca de algo de novo e, e outras vezes por ser mais fácil seguir os homens, do que, em oração e devoção, seguir o ensino do Senhor, tal come está revelado em Sua Palavra.


Nos dias antigos, o exame longo e cuidadoso das Escrituras constituía a regra na decisão da conduta, tanto dentro como fora das reuniões. Os antigos Irmãos verificaram que o próprio Senhor coloca anciãos em cada Igreja como guias e ensinadores. Isto não implica que estes crentes devam eleger anciães de acordo com os seus próprios desejos, mas que devem, sim, esperar no Senhor que Ele levante aqueles que Ele qualifica para apascentarem o rebanho. Os santos irão reconhecer aqueles a quem e Espírito Santo tem chamado, e submeter-se-ão a eles no Senhor.
Os antigos "Irmãos" também puderam ver pela Escritura que cada assembleia loca devia ser independente das outras no governo da igreja, não estando ligadas por estruturas denominacionais, ou políticas eclesiásticas, mas sendo livres para reconhecerem outras assembleias como parte da grande grela de Cristo, quando vistas nessas assembleias evidências da presença de Cristo.


Nas antigas reuniões dos Irmãos, a prática de batizar os crentes na altura da sua confissão de fé no Senhor Jesus, tal come é ensinado e exemplificado no Novo Testamento, foi iniciada, e tem sido continuada até hoje nas assembleias, através de todo o mundo.
Da mesma forma, o ajuntamento para celebrar a Ceia do Senhor era, e tem sido até hoje, uma das principais reuniões dos Irmãos. 

Em relação a isto, podemos acrescentar dois comentários, ou melhor, duas citações dos antigos Irmãos: Primeiro, o Dr. Edward Cronin, convertido do catolicismo romano que escreveu a um amigo: "Oh, os abençoados períodos com a minha alma que conhecemos naquelas primeiras reuniões, quando deixando a mobília lado, e pondo a simples mesa com o seu vinho, nos encontrávamos para recordar e Ser períodos de alegria para nunca mais esquecer; certamente que tínhamos e sorriso e aprovação do Mestre naquelas reuniões". 

Em segundo lugar, citamos George Müller: "Em relação à Ceia do Senhor, embora tenhamos um mandamento específico relacionado com a frequência da sua observância, o exemplo dos apóstolos e dos primeiros discípulos levar-nos-á, apesar disso, a observar esta ordenança em cada dia do Senhor". Assim tem esta prática continuado até ao dia presente em todas as assembleias conhecidas por Irmãos.
O movimento conhecido como Irmãos surgiu porque a vida que existia na Igreja parecia ser formal e sem vida. Quando raiou e século XVIII, raiou uma igreja adormecida, havia pouco ou nenhum entusiasmo em lado algum por uma caminhada íntima com o Senhor, a aderência à Sua Palavra tinha deixada de lado, e o Racionalismo e Ritualismo estavam tomando o seu lugar.


O movimento dos Irmãos começou espontaneamente, como um movimento do Espírito Santo operando nos corações e mente dos homens. Ocorreram fraquezas, e ainda ocorrem hoje. Elas sempre ocorrerão enquanto os homens não seguirem pensar através das implicações totais de suas crenças, ou compreenderem o que é que estão realizando. Contudo, e apesar das fraquezas, Deus tem-Se dignado abençoar este movimento de uma forma notável, para a salvação de milhares de preciosas almas, e para o avanço de Seu reino universal.


Os Irmãos primitivos não publicaram qualquer credo, ou declaração de fé, mas tal como tem sido diversas vezes dite neste esboço, eles dependiam unicamente da direção de Espírito Santo, através da Palavra de Deus. 

Há, contudo, quatro princípios básicos e duradouros que se têm caracterizado desde o princípio, e aqui, cito F. R. Coad. Ele apelida-os de "quatro liberdades dos Irmãos":

  • A liberdade da Palavra de Deus no meu pensamento;
  • A liberdade do Senhor Jesus Cristo no meu viver;
  • A liberdade do Espírito Santo na minha adoração e serviço;
  • A liberdade de todo o Corpo de Cristo na minha comunhão.

Por Arnold Doolan

2. Os "Irmãos" na Bíblia


Há quem fale e pense dos Irmãos como tendo origem em 1825. Importa, contudo, recordar a nossa verdadeira origem. Ei-la:

  • "Qualquer que fizer a vontade de Meu Pai celestial, esse é meu irmão", disse o Senhor Jesus.
  • "Vós todos sois irmãos" (Mateus 23:8);
  • "O Rei, respondendo, lhes dirá: Em verdade vos afirmo que sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes" (Mateus 25:40);
  • "Então Jesus lhes disse: Não temais. Ide avisar a meus irmãos..." (Mateus 28:10);
  • "Irmãos, reparai, pois, na vossa vocação; vós sois d'Ele em Cristo Jesus, o qual, para nós, foi feito por Deus, sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção" (1 Coríntios 1:26 e 30);
  • "Não já como escravo, antes, como irmão caríssimo" (Filemon 16);
  • "Por isso Ele não Se envergonha de lhes chamar irmãos" (Hebreus 2:11);

Nós não somos "OS IRMÃOS" chamados de tal ou tal homem, de tal ou tal localidade que apareceram há uns 200 anos, não! 

Nós somos "IRMÃOS" entre os numerosos irmãos que compõem a grande família de Deus cuja origem remonta bem mais alto. 

Nós somos "IRMÃOS" que, pela graça de Deus, foram libertos do longo cativeiro babilônico da Igreja e se recolocaram no terreno primitivo destes assentados nos lugares celestiais em Cristo, para confessar o Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, como fonte de unidade, o Deus e Pai da família de Deus toda inteira dispersa ou congregada – para confessar Cristo' como a Cabeça do Seu corpo (Efésios 1:19-23 e 2:1-18), e para reconhecer o Espírito Santo como Aquele que edifica e habita a casa de Deus (Efésios 2:19-22). 


"E qual a sobre-excelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força do seu poder, que manifestou em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e pondo-o à sua direita nos céus, acima de todo o principado, e poder, e potestade, e domínio, e de todo o nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro; e sujeitou todas as coisas a seus pés, e sobre todas as coisas o constituiu como cabeça da igreja, que é o seu corpo, a plenitude daquele que cumpre tudo em todos." 

(Efésios 1:19-23)


"E vos vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados, em que noutro tempo andastes segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que agora opera nos filhos da desobediência; entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também.

Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou, estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos), E nos ressuscitou juntamente com ele e nos fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus; Para mostrar nos séculos vindouros as abundantes riquezas da sua graça pela sua benignidade para conosco em Cristo Jesus.

Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie; porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas.

Portanto, lembrai-vos de que vós noutro tempo éreis gentios na carne, e chamados incircuncisão pelos que na carne se chamam circuncisão feita pela mão dos homens; que naquele tempo estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo.

Mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto.

Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um; e, derrubando a parede de separação que estava no meio, na sua carne desfez a inimizade, isto é, a lei dos mandamentos, que consistia em ordenanças, para criar em si mesmo dos dois um novo homem, fazendo a paz, E pela cruz reconciliar ambos com Deus em um corpo, matando com ela as inimizades.

E, vindo, ele evangelizou a paz, a vós que estáveis longe, e aos que estavam perto; porque por ele ambos temos acesso ao Pai em um mesmo Espírito.

Assim que já não sois estrangeiros, nem forasteiros, mas concidadãos dos santos, e da família de Deus; Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina; no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para templo santo no Senhor. No qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus em Espírito." 

(Efésios 2:1-22) 


A nossa origem não está em doutores, poderosos por Deus, suscitados por Ele há uns cento e sessenta, ou cento e oitenta anos, para fazerem reviver verdades durante muito tempo sepultadas nos escombros da igreja professante, por muito abençoados e reconhecidos por Deus que eles tenham sido. 

Esta origem é de Deus que, pela Sua graça soberana, chamou Pedro, André e João, de Deus, que entregou Cristo à morte pelas nossas ofensas e O ressuscitou para nossa justificação (Romanos 4:25); que, mais tarde, do alto da glória, chamou Saulo de Tarso e o retirou do mundo, dos Judeus e das nações que haviam rejeitado Cristo, e que, da glória, o enviou como um homem unido a Cristo, para dar testemunho à Sua glória e à união dos santos com Ele, como seu corpo e Sua esposa. 

O nosso lugar não está num corpo cuja origem data de 160 ou 170 anos; está em Cristo, que, após ter revelado a Maria a nova relação estabelecida por estas palavras: "Subo para meu Pai e vosso Pai, para meu Deus e vosso Deus", vem e Se apresenta no meio dos Seus irmãos reunidos e lhes comunica a paz que Ele tinha feito para eles ao morrer sobre a Cruz, mostrando-lhes as provas nas Suas mãos e o Seu lado traspassados.

 Nós estamos em Cristo, o Filho Unigênito de Deus, enviado do Pai, soprando nos Seus a Sua própria vida de ressurreição, unindo-nos assim a Si próprio, o Chefe ressuscitado da nova Criação. 

Nós estamos em Cristo, que, depois, subiu ao Céu como Homem, e enviou o Espírito Santo, prometido do Pai, para morar nos Seus; de sorte que a nova família de Deus, plenamente estabelecida, tem podido desde então, individual e colectivamente, clamar: "Abba, Pai!" (João 20:19-22; Atos 1:4). 

Somos batizados em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo – e o mesmo Espírito nos baptiza num só corpo e nos edifica juntamente, para sermos a Sua habitação sobre a Terra. Tal é a nossa origem e tal é a nossa posição! 

E somente a esta família, e a este corpo, e a esta casa que nós pertencemos. Somos irmãos em Cristo – somos CRISTÃOS, e nada mais.

3. História de crentes fiéis ao padrão bíblico 

Existem muitos livros, bem autenticados e bem detalhados, que contam a história do cristianismo, desde o seu começo humilde em Jerusalém (At 2:41) até ao dia de hoje. Falam do seu desenvolvimento e das suas divisões; mostram a origem e a história das inúmeras denominações que professam ser a Igreja, ou uma parte dela.


É uma história que nos empolga e, ao mesmo tempo nos envergonha. Ficamos empolgados ao ler as histórias da fé e da coragem dos mártires que não negaram o seu Senhor. Envergonham-nos, porém, as intrigas, as heresias, as guerras chamadas santas e a Inquisição. Alegra-nos ler das conquistas do Evangelho, mas entristece-nos ver o abandono das doutrinas Bíblicas, e até da honestidade e da sinceridade.
Esta história, porém, não é a história da Igreja de Jesus Cristo. É a história daquela pequena semente que tornou-se em grande árvore e as aves do céu fizeram ninho nos seus ramos (Mt 13:31-32). É a história de organizações que professam o Nome de Cristo.
A Igreja do Senhor Jesus Cristo, porém, não é uma organização; é um organismo vivo. Não tem sede em lugar algum na Terra; é celestial. Não tem líder humano; Jesus Cristo é o "Cabeça". As igrejas que vemos no Novo Testamento pouco ou nada têm em comum com as organizações eclesiásticas do cristianismo histórico.


A VERDADEIRA HISTÓRIA

A verdadeira história começou a ser escrita por Lucas, que nos deixou um livro inspirado pelo Espírito Santo, e portanto digno de toda a confiança. Neste livro vemos como o Evangelho foi levado de Jerusalém para outras cidades, países e continentes. Vemos também como os salvos em cada localidade se reuniam, formando igrejas locais. Segundo a história relatada em Atos dos Apóstolos, estas igrejas não se uniram para organizar uma "Igreja" composta de muitas "igrejas filiadas"; eram igrejas autônomas. Cada uma destas igrejas, diretamente responsável ao Senhor, tornou-se um centro de evangelismo, levando as boas novas a todos em redor, e desta forma se multiplicavam.
Seguindo a estrada do tempo, logo encontramos uma bifurcação. Até o ano 63 a.D. tudo é claro, pois o Espírito Santo registrou a história como Ele a viu. A partir desta data, porém, vemos dois caminhos que atravessam os séculos. Aquele que segue em frente parece estreito, escuro, e pouco movimentado. A maioria segue pelo outro caminho, que desvia ligeiramente para um lado, mas parece ser o principal, pois é bem iluminado e muito movimentado. A maioria dos historiadores seguiu este caminho largo, contando-nos a história da "Igreja Professa". É bem documentada e bem conhecida. Neste livreto, porém, vamos caminhar pela outra estrada, observando o que pudermos da história esquecida. Este caminho é estreito, e relativamente pouco movimentado, porque a maioria desviou-se dele; é escuro, pois existem poucas informações a seu respeito, mas isto não deve nos assustar. Creio que nossa viagem por este caminho trará muitas recompensas, e a nossa fé será fortalecida.


O fato da maioria dos cristãos professos se desviarem do modelo bíblico não surpreende aquele que lê o Novo Testamento. Vez após vez o Espírito Santo avisou que isto aconteceria. Ao conversar com os anciãos da igreja em Éfeso, Paulo disse que lobos crueis entrariam no meio deles, e também avisou que do meio daqueles presbíteros se levantariam homens que procurariam atrair os discípulos após si, dividindo a igreja (At 20:29-30).
Na primeira carta a Timóteo, o Espírito expressamente diz que nos últimos tempos alguns apostatariam da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores e doutrinas de demônios (I Tm 4:1). Na última carta inspirada que Paulo escreveu, aprendemos que muitos não suportariam a sã doutrina e resistiriam à verdade (II Tm 4:3 e 3:8). O apóstolo Pedro também avisou deste desvio da verdade, dizendo: "entre vós haverá falsos doutores, que introduzirão encobertamente heresias de perdição" (II Pd 2:1). E João, o último dos apóstolos, disse: "Amados, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus; porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo" (I Jo 4:1).


POUCAS INFORMAÇÕES

A escassez de informações quanto à história de igrejas neotestamentárias é devido a dois fatos importantes:
Através dos séculos, as organizações eclesiásticas dominaram e perseguiram aquelas igrejas autônomas que procuravam manter a simplicidade do modelo deixado no Novo Testamento. Em consequência disto, a literatura daquela época ainda existente é a do grupo dominante. Os escritos das igrejas locais foram, quando possível, destruídos pelos perseguidores, de sorte que a maior parte das informações que temos acerca destas igrejas é o que seus perseguidores escreveram a respeito delas.


A própria natureza destas igrejas contribuiu para esta escassez de informações. Sendo celestiais e espirituais, ficaram separadas das organizações e movimentos terrenos, e consequentemente há pouca menção delas na história secular. Também como igrejas locais e autônomas, não se filiaram a nenhuma organização, e, portanto não chamaram a atenção dos historiadores.
Em O Cristianismo Através dos Séculos, H. H. Muirhead diz: "Infelizmente os dados históricos não permitem traçar passo a passo a história das igrejas do Novo Testamento. Isto porque a quase totalidade das informações acerca dos grupos divergentes procede dos seus maiores inimigos. Sustentamos, porém, que a continuação histórica das doutrinas essenciais pode ser traçada, e que Deus não tem ficado sem testemunhas" (pág. 76).


IGREJAS NEOTESTAMENTÁRIAS

Apesar da escassez de informações, e das dificuldades que cercam este estudo, haverá grande recompensa para aquele que procura descobrir a história das igrejas de Deus. Ele descobrirá que nestes dois mil anos que já se passaram desde o começo da primeira igreja local (a de Jerusalém — Atos cap. 2), sempre houve igrejas que procuravam seguir fielmente o modelo deixado no Novo Testamento. Neste livreto vamos chamá-las de igrejas locais porque, permanecendo fieis ao ensino do NT, não se filiaram a nenhuma organização ou movimento; continuaram sendo igrejas autônomas e, consequentemente, locais. Deus nunca se deixou a Si mesmo sem testemunho (At 14:17).

O historiador E. H. Broadbent escreve: "Há uma sucessão ininterrupta de igrejas, compostas de crentes, que procuravam praticar o ensino do Novo Testamento. Esta sucessão não é encontrada necessariamente num só lugar, pois frequentemente estas igrejas foram dispersas ou se degeneraram, mas outras, semelhantes, surgiram em outros lugares. O modelo é apresentado nas Escrituras com tanta clareza, que é possível haver igrejas semelhantes em diversos lugares, mesmo não sabendo que outros, antes deles, seguiram o mesmo caminho, ou que nos seus próprios dias alguns estavam fazendo isto em diversos lugares" (The Pilgrim Church, pág. 2).

H. H. Muirhead afirma: "Há duas linhas históricas a traçar; duas tendências que não se conciliam — a centralização administrativa e a fixidez dogmática, por um lado, e a reação em favor dos ensinos e práticas do Novo Testamento, simples e desartificiosos, por outro. A primeira delas tem o seu ponto culminante na hierarquia romana: a segunda, numa volta à norma apostólica" (O Cristianismo Através dos Séculos, pág. 75).
No final do terceiro século, a maioria das igrejas era muito diferente daquelas igrejas dos dias dos apóstolos. As mudanças foram realmente grandes. O livro já citado, O Cristianismo Através dos Séculos, ainda comenta: "Essa transformação, que gradualmente ia formando a Igreja Católica, foi motivada pela rápida influência judaica e pagã. Naturalmente essa transformação não poderia deixar de provocar protestos por parte dos mais espirituais nas igrejas, resultando em divisões". 


E. H. Broadbent também escreve sobre esta transformação: "À medida que a organização do grupo católico de igrejas desenvolvia, surgiram no seu meio grupos que almejavam uma reforma; também algumas igrejas se separam dela; e ainda outras, perseverando nas doutrinas e práticas reveladas no NT, achavam-se isoladas daquelas igrejas que as abandonaram &ldots; Havia naquele tempo, como agora, várias linhas divergentes de testemunho &ldots; e vários grupos de igrejas que se excluíam mutuamente" (The Pilgrim Church, pág. 11).


OS MONTANISTAS

Muitos daqueles que se opuseram às mudanças nas igrejas foram apelidados Montanistas, devido à grande influência de Montano que, partindo da região da Frígia, condenava corajosamente os desvios das igrejas que abandonavam o modelo bíblico da igreja local.
Os Montanistas, entre outras coisas, ensinavam que a direção das igrejas é prerrogativa do Espírito Santo, e resistiam à dominação exercida pelos "bispos". Destacavam a necessidade de cada igreja deixar lugar para a operação do Espírito no seu meio. 


No leste do Império Romano logo surgiu uma separação definitiva, porém no ocidente os chamados "Montanistas" permaneceram em comunhão com as igrejas que aceitavam a autoridade dos "bispos" até o começo do século III, quando finalmente seguiram o exemplo dos seus irmãos do leste, separando-se daquele grupo que viria a ser a Igreja Católica. Um dos ensinadores mais destacados naquela época entre os Montanistas foi Tertuliano, cuja oposição à ideia de federação, e cuja defesa da autonomia das igrejas locais, foram decisivas nesta separação. O alvo dos chamados Montanistas era "fazer voltar o Cristianismo aos seus moldes primitivos" (O Cristianismo Através dos Séculos, pág. 85). A Shaff-Herzog Encyclopedia, Vol III, diz o seguinte a respeito deles: "Não foi uma nova forma de Cristianismo: foi a volta ao velho, à Igreja primitiva, em oposição à corrupção do cristianismo corrente" (pág. 1562).


Não devemos pensar, porém, que todas as igrejas, que foram apelidadas "Montanistas" eram realmente igrejas segundo o modelo nas Escrituras. A "Igreja" perseguidora incluía sob este nome muitos que divergiam entre si, da mesma maneira que as palavras "crente" ou "evangélico" são usadas hoje. Muitos que se chamam de crentes em nossos dias professam falar em línguas desconhecidas e ter o poder de fazer milagres, expulsar demônios e curar os enfermos. São divididos em inúmeras denominações onde cada congregação tem o seu Pastor. Qualquer historiador daria ênfase a estes, pois são a vasta maioria, e se mencionasse aquelas igrejas que hoje seguem o modelo claro do NT as chamaria também de "crentes" ou "evangélicas", embora estas nada têm em comum com as denominações.


Entre os chamados Montanistas havia divergências. Algumas destas igrejas, fugindo do erro de organização humana na obra de Deus, caíram em outro erro por não entender as Escrituras no tocante aos dons do Espírito Santo. Procuravam os dons de línguas, de profecia, e outros semelhantes que foram dados como sinais nos primeiros anos da era apostólica, não percebendo que tais dons haviam cessado (veja Mc 16:16-20 e Hb 2:3-4). Outras igrejas, porém, baseando-se no ensino da Palavra de Deus, sabiam que tais dons não mais existiam, e continuavam seu testemunho simples e fiel segundo a Palavra de Deus. Estes foram chamados de Novacianos.


OS NOVACIANOS

Foram assim apelidados porque um certo Novácio, que mais tarde foi martirizado, foi um bem conhecido ensinador entre estas igrejas. Eles não aceitavam nome algum, mas afirmavam ser individualmente cristãos e irmãos. Não reconheciam como igreja aquela que se uniu ao Estado, nem davam qualquer valor às suas ordenanças.
Estes irmãos, bem como os demais Montanistas, se opunham à hierarquia na igreja, e ensinavam e praticavam a verdade do sacerdócio de todos os salvos. 


Foram inimigos implacáveis das inovações que gnósticos e pagãos introduziam nas igrejas. Discordavam também daqueles Montanistas que diziam possuir dons espetaculares, tais como o de línguas e profecia (veja O Cristianismo Através dos Séculos, págs. 86-87).
Durante muitos anos estes irmãos continuaram o seu testemunho. Espalharam-se por diversas partes do Império Romano, especialmente no Norte da África e na atual Turquia. Em Ecclesiastical Researches o Dr. Robinson escreve: "Continuaram a florescer por duzentos anos. Depois, quando as leis penais os obrigaram a se esconder em lugares retirados e adorar a Deus secretamente, foram designados por vários nomes, e a sua sucessão continuou até a Reforma."


No quarto século havia muitas destas igrejas na atual Turquia e na Armênia, muitas das quais haviam começado nos dias dos apóstolos (provavelmente fruto dos trabalhos de Paulo e seus companheiros). Além do Eufrates, onde provavelmente Pedro e outros trabalharam bastante, havia ainda muitas igrejas seguindo o modelo original. Retomaremos a história destas igrejas após uma breve referência aos Donatistas.


OS DONATISTAS

Este movimento no Norte da África foi influenciado pelos chamados Novacianos. Receberam o nome de Donatistas porque dois dos seus ensinadores mais notáveis se chamavam Donato. 

Este grupo separou-se da igreja dos bispos por questões disciplinares, mas manteve a mesma forma de hierarquia; não voltou ao modelo deixado nas Escrituras. E. H. Broadbent diz: "Os Donatistas, sendo muitos no norte da África, e tendo mantido muito da organização católica, possuíam condições para apelar ao Imperador no seu conflito com o grupo católico" (The Pilgrim Church, págs. 20-21). 


Discordavam da Igreja Católica, pois acreditavam que o caráter moral dos ministrantes afeta seu ministério. Foram condenados em concílios convocados pela Igreja Católica e cruelmente perseguidos. Foram finalmente extintos quando a invasão maometana atingiu o Norte da África.
Assim podemos ver que a ideia de que existia, nos primeiros três séculos, uma igreja verdadeiramente católica e unida está longe da verdade. Muito pelo contrário, a verdade incontestável é que naqueles dias, como agora, havia várias correntes de testemunho, vários grupos que mutuamente se excluíam. 


O livro O Cristianismo Através dos Séculos, comentando os primeiros três séculos do cristianismo, diz: "... o crescimento fora fenomenal ... Também o Cristianismo ganhara alta posição social e, em muitas igrejas, grande parte dos membros eram ricos ... Esta expansão, todavia, custou um alto preço. Se o Cristianismo venceu o paganismo, de seu turno, o paganismo operou transformação no Cristianismo... O mundo grego-romano fora cristianizado, e o Cristianismo, em parte, paganizado. Todavia, seria erro supor que esta situação prevalecesse ... em todas as igrejas ... Entre os grupos dissidentes havia uma aproximação ao Cristianismo primitivo" (págs. 126-127).


CONSTANTINO (Séc. IV e depois)

Quando Constantino entrou vitorioso em Roma ele pôs fim às perseguições aos cristãos. Estes haviam sofrido desde o começo, primeiramente nas mãos dos judeus e depois nas do Império Romano. Todos os grupos de igrejas, bem como aquelas igrejas que não faziam parte de grupo algum, sofriam a mesma perseguição.


Com o Imperador Constantino, porém, uma fase nova começou. Este Imperador, sem renunciar a sua posição de Pontífice Máximo da religião pagã, assumiu a mesma posição entre os cristãos. O célebre intelectual brasileiro, Rui Barbosa, escreveu na introdução do livro que traduziu (O Papa e o Concílio): "Foi o que entrou a suceder sob Constantino. Estreou-se aí o sacrifício do cristianismo ao engrandecimento da hierarquia. 


O Imperador não batizado recebe o título de bispo exterior; julga e depõe bispos; convoca e preside concílios; resolve sobre dogmas. Já não era mais esta ... a igreja dos primeiros cristãos."
No mesmo livro, Rui Barbosa continua descrevendo a Igreja que se uniu ao Império, e comenta: "de perseguida, tornou-se perseguidora". Logo, todo o poder do Império estava à disposição dos bispos e, liderados pelos Metropolitanos, não hesitaram em perseguir aquelas igrejas que ainda mantinham fielmente o ensino apostólico. 

Dentro do possível eles procuravam exterminar os verdadeiros servos de Deus, e juntamente com eles destruíam, quando possível, todos os seus escritos. Esta é a razão da escassez de informações existentes quanto à história das igrejas locais. É necessário também lembrar que a Igreja Católica as difamava injustamente, chamando-as de hereges e dando-lhes nomes, tais como Paulicianos, Cátaros e outros; nomes estes que estas igrejas repudiavam.

Ao prosseguir por esta estrada escura convém lembrar de certos fatos. As acusações feitas pela "Igreja" perseguidora não são de confiança, a não ser quando há evidências para sustentá-las. Além disto, devemos lembrar da tendência de generalizar. As igrejas locais, como mencionamos acima, não reconheceram nenhum nome denominacional, mas os perseguidores as chamavam de Paulicianos, e outros nomes. Não devemos pensar que todos os que a Igreja Católica classificava de Paulicianos compartilhavam as mesmas crenças.
Em nossos dias, o nome de "crente" inclui muitos grupos com pensamentos e práticas diferentes, e foi assim através dos séculos. Qualquer historiador que tentasse escrever sobre o cristianismo no Brasil neste século XX daria destaque aos movimentos pentecostal e carismático, e pouco ou nada teria a dizer das igrejas locais que não fazem parte de organização alguma, porque mantém fielmente os princípios da Palavra de Deus (por exemplo, a autonomia de cada igreja local).


Mas, apesar da escassez de informações, surge um fato inegável: em todo este período, desde o Imperador Constantino até à Reforma, as igrejas locais continuaram a existir, e a seguir fielmente o modelo da Palavra de Deus. Veja algumas evidências disto. Apesar da perseguição feroz e da difamação cruel, alguns escritos daquela época ainda existem, o que permite que a verdade seja conhecida, pelo menos em parte.


OS PAULICIANOS

Não se sabe ao certo por que receberam este nome, mas presume-se que foi devido ao destaque que davam às cartas de Paulo. A Igreja Católica os chama de hereges, e os acusa de toda a sorte de perversidade, porém a verdade é bem outra. Gregório, considerado um dos "Pais da Igreja", e inimigo dos Paulicianos, escreveu: "não são acusados de perversidade de vida, mas sim de livre pensamento e de não reconhecer autoridade. 

De uma posição negativa quanto à igreja, eles tomaram uma posição positiva, e começaram a examinar o próprio fundamento, as Escrituras Sagradas, procurando ali um ensino puro, e direção sadia para a sua vida moral" (The Pilgrim Church, pág. 59-60). 

E. Gibbon, um historiador do século XVIII, escreveu dos Paulicianos: "Foi esta a forma primitiva do cristianismo".
Estas igrejas se espalhavam na Ásia e na Armênia até além do Eufrates. 

The Pilgrim Church comenta que eram "igrejas de crentes batizados, discípulos do Senhor Jesus Cristo, que guardavam a doutrina dos apóstolos, num testemunho ininterrupto desde o começo" (pág. 44).
No ano de 1891 a.D., W. J. Coneybeare descobriu na Biblioteca do Santo Sínodo em Edjmiatzin, na Armênia, um documento provavelmente escrito por um dos chamados Paulicianos, intitulado A Chave da Verdade. A descoberta deste documento, e outros mais, permitiu que a verdadeira história deste povo, pelo menos em parte, fosse conhecida. Coneybeare comentou: "A igreja Pauliciana não era uma igreja nacional, nem de uma raça particular, mas uma velha forma da igreja apostólica". 

Devemos lembrar que eles mesmos repudiavam o nome "igreja Pauliciana". A Chave da Verdade mostra que eles destacavam a necessidade de arrependimento e fé antes do batismo; suas igrejas eram governadas por anciãos. Sendo igrejas autônomas, sem um centro que dirigisse ou organizasse, é provável que havia certas diferenças entre estas igrejas, mas o pouco que sabemos deles mostra uma determinação de fazer tudo conforme o modelo nas Escrituras.


CONSTANTINO SILVANO

Em cerca de 653 a.D. um cristão da Armênia hospedou-se na casa de um certo Constantino, e ao despedir-se deixou um presente de grande valor — uma cópia dos quatro Evangelhos e das epístolas de Paulo. A leitura das Escrituras impressionou muito este homem, e resultou na sua conversão. Imediatamente, ele "resolveu dedicar-se a trabalhar com todo o esforço, a fim de conseguir a volta do cristianismo à sua primitiva forma" (O Cristianismo Através dos Séculos, pág. 165). 

Outro historiador escreveu: "O estudo destes escritos &ldots; bem depressa afastou do espírito de Constantino qualquer ideia falsa que pudesse ter tido, e deu-lhe um sincero desejo de novamente ver a igreja naquele estado de simplicidade que a distinguia no tempo dos apóstolos" (A História do Cristianismo, A. Knight e W. Anglin). Ele foi um dos Paulicianos mais conhecidos, e devido ao seu zelo e fidelidade foi apedrejado em 690 a.D. Dizem que 100.000 Paulicianos foram mortos na Armênia, por ordem da Imperatriz Teodora.


Com o passar do tempo, sinais de degeneração começaram a aparecer. Alguns, provocados pela perseguição feroz nos dias da Imperatriz Teodora, pegaram em armas para se defenderem; abandonaram a atitude pacifista dos milhares de mártires que haviam selado seu testemunho com o próprio sangue. Alguns sinais de degeneração doutrinária também começaram a aparecer, e como exemplo disto citamos a questão do batismo. Inicialmente estas igrejas insistiam na necessidade de arrependimento e fé antes do batismo, o qual foi administrado por imersão. "Parece que o modo geral de batismo entre os últimos Paulicianos era afusão, ainda que &ldots; os primitivos praticassem imersão" (O Cristianismo Através dos Séculos, pág. 169-170).
Vemos outro exemplo desta degeneração na questão do pão e do vinho na Ceia do Senhor. Pelo menos alguns entre eles passaram a considerar que estes emblemas "abençoados" eram mudados no corpo e sangue de Cristo, e chamavam esta ordenança de "mistério da salvação".


EXPANSÃO DOS PAULICIANOS

Devido ao trabalho missionário dos Paulicianos o Evangelho chegou a muitos lugares, especialmente à Bulgária, Bósnia e Sérvia, e "no princípio do século VIII as doutrinas paulicianas espalharam-se por toda a Europa, firmando-se no sul da França, onde mais tarde floresceram os Albigenses" (O Cristianismo Através dos Séculos, pág. l68).

As igrejas que foram plantadas na Bulgária continuaram durante muito tempo, e mesmo no século XVII há evidências de congregações conhecidas como "Pavlicani" (Paulicianas). Estas foram descritas pela Igreja Ortodoxa como "hereges convictos", enquanto que elas classificaram a Igreja Ortodoxa de "idólatra". 

A degeneração espiritual também atingiu estas igrejas, e gradualmente foram desviadas das verdades que outrora defendiam, e pelo esforço de missionários franciscanos, finalmente foram absorvidas pela Igreja Católica Romana. Os candeeiros iam sendo removidos, mas o testemunho iria continuar em outros lugares.
Muitas igrejas na Bulgária foram apelidadas também de "Bogomili", significando "amigos de Deus", mas sendo perseguidas cruelmente pelo Império Bizantino, os cristãos fugiram para o oeste, e muitos entraram na Sérvia, mas o poder da Igreja Ortodoxa logo obrigou-os a fugir para a Bósnia.


BÓSNIA

No século XII havia muitas igrejas locais na Bósnia, no tempo de Kulin Ban, um dos mais eminentes governantes daquele país. 

Ele e sua esposa, bem como milhares de Bósnios, deixaram a Igreja Católica. E. H. Broadbent diz no livro The Pilgrim Church: "Não havia sacerdotes; eles reconheciam o sacerdócio de todos os salvos. As igrejas eram guiadas por anciãos ... vários deles em cada igreja. Reuniões poderiam ser convocadas em qualquer casa, e os lugares de reunião regular eram simples, sem sinos ou altares" (pág. 61).
No início do século XIII, sob ameaça de invasão, as autoridades da Bósnia cederam às pressões do Papa e a liberdade cessou, mas as igrejas continuaram, apesar de perseguidas. 

O Papa finalmente persuadiu o Rei da Hungria a invadir a Bósnia por causa do fracasso das medidas anteriores, e a Bósnia foi devastada. As igrejas, porém, continuaram o seu testemunho. Diante desta situação o Papa convocou todo o "mundo cristão" para uma "guerra santa", e também estabeleceu a Inquisição no ano de 1291, para destruir definitivamente "os hereges".


É nesta época que observamos uma comunhão verdadeira entre estas igrejas e seus irmãos no sul da França, Alemanha e outros lugares, estendendo-se até a Inglaterra e Itália. Numa época de grande perseguição contra os chamados Albigenses no norte da Itália e sul da França, muitos irmãos conseguiram fugir e achar proteção na Bósnia (The Pilgrim Church, pág. 62).
Estas igrejas da Bósnia formam um elo entre as igrejas primitivas da era apostólica e as outras que surgiram posteriormente nos Alpes da Itália e França. Quando muitos irmãos tiveram de deixar a Bósnia devido às perseguições, passaram pela Itália e chegaram ao sul da França. Pelo caminho todo encontraram com muitos cristãos que compartilhavam a mesma fé. Havia ainda nesta época cristãos que aceitavam as Escrituras como sua única regra de fé. Um dos seus perseguidores queixou-se bastante da atitude destes cristãos em recusar qualquer nome denominacional, e em não reconhecer homem algum como seu fundador. 

Ele escreveu: "Pergunte a eles quem é o fundador da sua seita, e não apontarão homem algum &ldots; Sob que nome ou sob que título poderá se arrolar estes hereges? Na verdade, sob nome algum, pois a heresia deles não é derivada de homens, mas sim dos demônios." Mesmo assim, outro líder dos Inquisidores os chamou de "Igreja dos Cátaros", ou seja, "Igreja dos de vida pura", e testificou que eles se estendiam desde o Mar Negro até ao Atlântico.
Nos vales dos Alpes estas igrejas se reuniam durante séculos e, embora recusassem reconhecer nome algum, foram conhecidos como Valdenses, Albigenses, etc. Diziam existir desde os tempos dos apóstolos. Não eram igrejas "reformadas", pois nunca desviaram daquele modelo apresentado no Novo Testamento, como fizeram as igrejas que formaram a Igreja Romana, a Ortodoxa, e outras. 

A posição básica destas igrejas era a de considerar as Escrituras como o padrão para os seus dias, não sendo anuladas pelas mudanças nas circunstâncias. O seu alvo era manter o caráter do cristianismo original.
O testemunho dos seus perseguidores é impressionante. Um dos Inquisidores escreveu, em meados do século XIII: "Esta seita é a mais perniciosa de todas, por três razões: "É a mais antiga; alguns afirmam que existe desde o tempo dos apóstolos; Alastrou-se muito: existe em quase todos os países; Eles tem vidas justas e creem tudo a respeito de Deus; apenas blasfemam a Igreja Romana e os seus clérigos."


É um fato histórico que diversos grupos floresceram no sul da França, alguns mais, outros menos evangélicos, do princípio do século XII em diante. Já mencionamos como os perseguidores generalizavam, e isto aconteceu também neste caso, pois o nome Albigenses foi usado de todos os que não se sujeitaram à soberania do Papa. Daí vem muita confusão (veja O Cristianismo Através dos Séculos, pág. 306). Verdadeiras igrejas locais e grupos sectários se confundem na terminologia dos perseguidores, pois classificavam todos os que não reconheciam a Igreja Católica como Albigenses.


Apesar desta confusão, é mais que evidente que sempre houve igrejas conforme o modelo do Novo Testamento desde os tempos dos apóstolos, embora nem sempre no mesmo lugar. Não há dúvida de que havia igrejas nos vales dos Alpes, conhecidas como Valdenses, que baseavam a sua fé e prática somente nas Escrituras, e eram verdadeiros seguidores daqueles que desde a era apostólica fizeram o mesmo. O livro já citado, The Pilgrim Church, diz: "Não possuíam nenhum credo, ou religião, ou regras, a não ser as Sagradas Escrituras, e não permitiam que a autoridade de homem algum substituísse a autoridade das Escrituras" (pág. 98).


Dois documentos datados do século XIII, e escritos por seus perseguidores, são importantes para nos dar uma ideia de quem eram estes Valdenses. Um destes documentos os descreve da seguinte forma: "vestiam-se com relativa simplicidade, comiam e bebiam moderadamente, eram sempre laboriosos e estudiosos, havendo entre eles muitos homens e mulheres que sabiam de cor todo o Novo Testamento". O segundo diz que "rejeitavam os milagres religiosos e os festivais, etc." (veja O Cristianismo Através dos Séculos, págs. 319-320). Os mesmos documentos mostram que rejeitavam o batismo de crianças e a transubstanciação. Os próprios depoimentos dos perseguidores mostram que estas igrejas perseguidas estavam seguindo bem de perto o modelo deixado no NT.


No final da chamada "Idade Média" havia, além das muitas igrejas locais bíblicas, movimentos de protesto dentro da própria Igreja Romana. Muitos verdadeiros cristãos, ainda ligados ao sistema papal, pregavam ousadamente o Evangelho puro, e muitos tiveram de pagar com a própria vida. Embora o nosso propósito seja seguir a história de igrejas locais, não podemos deixar de mencionar nomes como Marcílo de Pádua, na França, e mais tarde João Wycliff na Inglaterra, Conrado do Waldhausen, Pedro Chelcicky da Boêmia, João Huss de Praga, e um verdadeiro exército de reformadores como eles, antes da tão falada Reforma do século XVI.


A REFORMA – SÉCULO XVI

Antes, e até à ocasião da Reforma, havia em muitas partes da Europa grupos de Igrejas que procuravam seguir o modelo do Novo Testamento, e consequentemente não aceitavam nome denominacional. Em 1463 a.D. e também em 1467 a.D. houve Conferências de alguns destes irmãos, quando consideraram juntos os princípios da igreja. 

Naquelas Conferências declararam formalmente a sua separação da igreja Romana, e se descreveram como "Unitas Fratrum", ou seja, Irmãos Unidos, acrescentando que não queriam formar um novo grupo, nem separar-se dos irmãos que, sem qualquer denominação, reuniam-se em muitos países.


Por este fato podemos perceber que havia muitas igrejas naquela época que procuravam agir de acordo com o modelo bíblico de igreja local, mas havia entre elas algumas divergências. Algumas (como as igrejas dos Irmãos Unidos), ao mesmo tempo que procuravam manter a autonomia local, estabeleceram uma certa federação e adotaram, com reservas, um nome. Outras igrejas, porém, permaneceram fiéis ao modelo primitivo, recusando participar destas Conferências e recusando qualquer nome, mesmo o de "Irmãos Unidos".


Não está no escopo deste artigo contar a bem conhecida história da Reforma, mas precisamos observar o efeito dela nestas igrejas locais. Geralmente se crê que a Reforma dividiu a Europa entre Católicos e Protestantes. O grande número de cristãos que reuniam na simplicidade do modelo do Novo Testamento é ignorado. Eram, porém, tão numerosos que tanto a Igreja Católica quanto as Igrejas Protestantes temiam que poderiam ameaçar a sua supremacia. Este fato levou tanto Católicos quanto Protestantes a perseguirem cruelmente aqueles cristãos que não reconheciam a sua autoridade.


MARTINHO LUTERO

Martinho Lutero compreendeu claramente o plano de salvação pela fé, e por suas pregações claras e poderosas levou muitos à certeza da salvação. Também entendeu perfeitamente os princípios bíblicos da igreja, mas após uma intensa luta consigo mesmo os abandonou. 

Johannes Warns, no seu livro Baptism, comenta com surpresa que "um homem como Lutero, que em 1520 a.D. &ldots; defendeu a liberdade do cristão; que em 1526 a.D., no seu tratado German Mass and Order of Divine Service, testificou que conhecia bem o modelo duma igreja de crentes, biblicamente organizada, mais tarde mudou de forma tão radical, contradizendo seus próprios princípios" (pág. 184). 

Warns ainda afirma: "historicamente nada é mais incorreto do que a afirmação de que a Reforma foi um movimento para a liberdade de consciência" (pág. 188)


OS ANABATISTAS

É nesta época que aparece nas páginas da história o nome "Anabatista". Significa "Rebatizador", e foi usado para descrever todos aqueles que rejeitavam a aspersão de crianças, e praticavam a imersão de adultos já salvos. As igrejas locais que procuravam continuar na simplicidade do modelo do Novo Testamento sempre fizeram assim, e obviamente estavam incluídas sob este apelido, junto com diversos grupos que adotavam a mesma posição em relação ao batismo.


A Igreja Católica os perseguia até à morte. Lutero e Zwinglio, líderes das Igrejas Protestantes da Reforma, tomaram a mesma posição, causando o martírio de milhares de cristãos. No início as igrejas locais se alegraram muito com o aparecimento de Lutero, passando a testemunhar de forma muito mais pública. 

A sua alegria e liberdade, porém, durou pouco. Johannes Warns, no já citado livro, diz: "Estas comunidades (as igrejas locais) receberam com alegria e com grande expectativa o advento de Lutero. Os princípios antigos duma comunhão cristã bíblica ... foram proclamados abertamente ... Quando, porém, Lutero e seus companheiros, bem como Zwinglio, abandonaram a ideia de formar igrejas de crentes conforme o modelo bíblico, preferindo estabelecer Igrejas unidas ao Estado, surgiu um antagonismo cruel" (pág. 191) contra todos que recusaram incorporar-se a estas Igrejas do Estado. 

E. H. Broadbent escreve em The Pilgrim Church: "A esperança despertada entre os irmãos gradualmente desapareceu à medida que eles se viam entre dois sistemas eclesiásticos (Católico e Protestante), ambos dispostos a usar a espada para forçar conformidade" (pág. 147).


As igrejas locais sempre foram perseguidas. Nos primeiros três séculos desta era foram perseguidas pelos judeus, e depois pelo Império Romano. Desde a "conversão" do Imperador Constantino estas igrejas passaram a sofrer a perseguição por parte das Igrejas do Estado (Romana no ocidente e Grega no oriente). Agora, porém, havia mais uma agravante. 

As igrejas Protestantes de Lutero e Zwinglio as perseguiam também, queimando milhares de cristãos e afogando outros. Por não negarem a sua convicção quanto à autonomia da igreja local e o batismo somente daqueles que creem, e por não aceitarem a doutrina da Transubstanciação, foram martirizados pelos seus próprios irmãos em Cristo, os Luteranos da Alemanha e os Protestantes da Suíça.

Devemos esclarecer, porém, que nem todos que eram apelidados de Anabatistas estavam seguindo verdadeiramente o modelo bíblico. Havia joio no meio do trigo, mas é um fato inegável que as igrejas que aderiram aos princípios do Novo Testamento foram tão cruelmente perseguidas, tanto pelos católicos como pelos evangélicos, que quase desapareceram das páginas da história. 

Acharam refúgio por algum tempo na Áustria, mas os anos que seguiram à Reforma foram entre os mais difíceis para estas igrejas. Praticamente eliminadas na Alemanha e na Suíça, e perdendo a proteção na Áustria, alguns conseguiram fugir para a Holanda e daí para a Inglaterra, onde continuaram apesar de constantes perseguições. 

E. H. Broadbent comenta que além da Igreja Católica, a Igreja da Inglaterra, e as denominações evangélicas que havia naquele tempo na Inglaterra, "havia também grupos de crentes que correspondiam às igrejas de Deus do Novo Testamento ... mas seu testemunho foi mantido ... no meio de circunstâncias tão confusas que constituíram uma verdadeira prova de fé e amor" (pág. 247-248).


O SÉCULO XIX

No começo do século XIX a história registra um aumento realmente impressionante destas igrejas locais, começando na Irlanda e estendendo-se quase que simultaneamente a vários países na Europa. Sem dúvida alguma foi uma obra do Espírito Santo. 

Em 1827 a.D. alguns cristãos na cidade de Dublin, na Irlanda, começaram a reunir-se para partir o pão e edificar-se mutuamente. 

Não sabiam que outros, por exemplo perto de Omagh na Irlanda do Norte, e em Georgetown na Guiana Inglesa, já estavam fazendo a mesma coisa. Rapidamente mais e mais igrejas locais e autônomas surgiram em muitos lugares.


Logo no começo daquela igreja em Dublin destacou-se um irmão que teria um impacto muito grande, não só na Irlanda, mas em todo o mundo. 

Era J. N. Darby. Até hoje quantos cristãos e quantas igrejas sentem os resultados benéficos dos trabalhos incansáveis daquele saudoso servo do Senhor. 

Quando, porém, ele adotou a ideia de que o corpo místico de Cristo é algo visível na Terra, ele foi levado a conclusões errôneas que trouxeram muito prejuízo ao povo de Deus, provocando uma divisão entre igrejas que até então gozavam de preciosa comunhão mútua. Afirmou que os santos que já partiram estão com Cristo, e consequentemente nesta condição não fazem parte do corpo de Cristo que (a seu ver) é algo visivel na Terra (Letters of J. N. D. Vol. 1, pág. 527). 

Desta forma, ele contemplava um corpo que o Novo Testamento não reconhece. A consequência inevitável deste ensino foi a formação duma seita — exatamente a ideia que ele procurava combater!


As igrejas que seguiram este ensino de J. N. Darby foram apelidadas de "Exclusivistas", mas a bem da verdade devemos reconhecer que estes queridos irmãos não adotam este ou qualquer outro nome. Desde então houve frequentes divisões entre eles, e sub-divisões, o que é consequência inevitável do ensino errado quanto ao corpo de Cristo.
As igrejas que não seguiram este ensino se espalharam pelo mundo inteiro, mas muitas delas, embora dizendo ser igrejas neotestamentárias, tem desviado muito da sua posição original, imitando as práticas das denominações chamadas evangélicas e tornando-se como elas. 

Enquanto ainda professam aceitar o sacerdócio de todos os crentes, estão dependendo mais e mais da liderança dum chamado "obreiro", que em muitos casos já é reconhecido como o Pastor da igreja. Ainda dizem ser igrejas autônomas, mas já faz bastante tempo que dizem ser do "Movimento dos Irmãos". E esta descrição está sendo modificada em nossos dias, pois alguns já dizem que são das "igrejas dos Irmãos". Ainda dizem que não são denominacionais, mas estão caindo no mesmo erro dos "Irmãos Unidos" ao realizarem as suas Conferências em 1463 a.D e 1467 a.D.


Apesar da divisão triste do século XIX, e dos grandes desvios atuais, ainda há no mundo hoje, em muitos países, igrejas locais e autônomas. Obviamente não tem denominação, nem sede, pois aceitam somente as Escrituras Sagradas para sua orientação, e dependem dos dons e da direção do Espírito Santo para sua continuação. Estão, porém, sempre em perigo. Às vezes foram, e ainda são (em alguns lugares) cruelmente perseguidas, mas o maior perigo hoje é a inerente tendência humana de desviar-se de Deus. Muitas igrejas locais tem deixado de existir não devido à perseguição, mas devido ao seu desvio da Palavra de Deus. O Senhor mesmo removeu o candeeiro.


CONCLUSÃO

Temos caminhado rapidamente pelo caminho escuro seguido por igrejas locais durante estes quase dois mil anos desta dispensação. Temos percebido, mesmo nos primeiros anos do seu testemunho, quando os apóstolos ainda viviam, uma tendência constante de desviar-se de Deus e do modelo que Ele estabeleceu. Além disto, temos visto um esforço da parte de Satanás para destruir estas igrejas, desviando-as da simplicidade que há em Cristo (II Co 11:3).


Devido à pouca informação confiável que possuímos, o caminho que acabamos de seguir é obscuro. Uma coisa, porém, fica perfeitamente clara. Apesar das falhas humanas e dos ataques satânicos, Deus nunca Se deixou a Si mesmo sem testemunho (At 14:17). Embora muitas igrejas desviaram da simplicidade original, degenerando-se ao ponto de serem removidas pelo próprio Senhor, sempre houve na Terra verdadeiras igrejas locais, desde a formação da primeira igreja em Jerusalém (Atos cap. 2).


Quando "candeeiros" precisavam ser removidos, o Senhor levantava outras igrejas em outros lugares. O testemunho não se apagava; o candeeiro é que era removido. Em nossos dias, quase dois mil anos depois da primeira igreja, ainda há muitas igrejas conforme o modelo do Novo Testamento — Deus é fiel, Ele tem preservado o testemunho. Que nós sejamos fiéis, guardando a Sua Palavra, apesar dos desvios de muitos em nossos dias.


A NOSSA RESPONSABILIDADE

A fidelidade de Deus não nos livra de responsabilidade. Em nossos dias, provavelmente os últimos dias do testemunho de igrejas locais na Terra, vemos os ataques de Satanás se redobrarem cada dia. Igrejas que outrora amavam a simplicidade do modelo divino agora adotam as maneiras e os métodos das denominações. Com muita música e atividades sociais procuram atrair as pessoas e manter os jovens na igreja. 

Dão muita importância às tradições humanas e às opiniões da sociedade em que vivem, e deixam de lado a Palavra de Deus como algo fora de moda. Muitas já perderam todas as características das verdadeiras igrejas de Deus. A situação é confusa, mas ainda é possível manter o modelo que Deus estabeleceu nas Escrituras.


Deus não mudou. O modelo na Sua Palavra não mudou; a nossa responsabilidade é clara. O cristão não deve tornar-se membro de denominação alguma, mas sim separar-se de todas elas para reunir-se com outros cristãos, simplesmente como cristãos, em Nome do Senhor Jesus Cristo, formando assim uma igreja local e autônoma, onde o Senhor Jesus é a única atração, e a Sua Palavra a única autoridade. 

Estas igrejas não precisam, nem devem, unir-se a movimento algum; mas, ao mesmo tempo que mantém a sua autonomia, devem cultivar comunhão com outras igrejas que seguem os mesmos princípios.


Tais igrejas podem ser fracas, pequenas, e desprezadas pelo mundo religioso, mas o Senhor lhes deixou uma promessa animadora: "eis que diante de ti pus uma porta aberta, e ninguém a pode fechar; tendo pouca força, guardaste a Minha Palavra, e não negaste o Meu Nome" (Apocalipse 3:8).


"Pelo que saí do meio deles, e apartai-vos, diz o Senhor; 
e não toqueis nada imundo, e Eu vos receberei." 

(II Coríntios 6:17)
"Saiamos, pois a Ele fora do arraial, levando o Seu vitupério." 

(Hebreus 13:13)


Por R. E. Watterson