Theodore Austin-Sparks (1888-1971)

09/05/2024

1. Biografia de Theodore Austin-Sparks 


T. Austin-Sparks nasceu em Londres, na Inglaterra. Aos 25 anos de idade foi ordenado pastor. Alguns anos depois, deixou a denominação, abandonou o título de "Reverendo" e recebeu aquilo que denominou "um céu aberto". Seu foco agora seria simplesmente Cristo. A partir de então, foi convidado a ministrar em conferências ao redor do mundo. Deixou-nos como LEGADO um rico tesouro em suas mensagens repletas da sabedoria, vida e da revelação de Cristo.


Algo que fica claro quando se lê os escritos de T. Austin-Sparks é que mui pouca informação é dada sobre ele e sua vida pessoal; pelo contrário, o foco é consistentemente sobre Cristo como sua (e nossa) vida. 

Sua atenção é continuamente conduzida para longe do mensageiro na direção daquele que é a Mensagem: "Porque não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus como Senhor e a nós mesmos como vossos servos, por amor de Jesus" (2 Coríntios 4:5).

Na edição de julho de 1966 da revista em que Sparks era editor, ele escreveu o seguinte:"É apenas em certas ocasiões que nós escrevemos pessoalmente. Nosso desejo tem sempre sido o de não atrair atenção para pessoas e coisas no ministério, e o de ocupar nossos leitores com o Senhor e com o ministério de Sua Palavra. 

Mas de tempos em tempos temos sentido ser sábio e importante lembrar nossos leitores do propósito que definitivamente governa este ministério – e que sempre tem agido assim...O que, então, é este ministério? Devemos retornar um pouco. 

O nome deste pequeno jornal, que tem sido a expressão impressa do ministério pelos últimos 44 anos, incorpora seu sentido – 'Testemunha e testemunho'. 'Testemunha': o instrumento ou vaso usado; 'Testemunho': o ministério dentro e através do vaso. O testemunho tem sempre existido – mas crescendo à medida que a luz tem aumentado – para a grandeza e plenitude de Jesus Cristo, o Filho de Deus e Filho do Homem. 


Esta grandeza é centralizada e desdobrada em:

(1) Sua pessoa

(2) A imensidão do propósito eterno de Deus como centralizado nele e exclusivamente relacionado a Ele

(3) A grandeza de Sua cruz como básica e essencial para a grandeza de Sua pessoa e obra tanto pelos crentes como neles

(4) A grandeza da Igreja que é Seu corpo como essencial para, e escolhida para, Sua manifestação final em plenitude e governo no novo céu e nova terra

(5) A necessidade de que todo o povo de Deus saiba, não apenas da salvação, mas do imenso propósito de salvação no eterno conselho de Deus, sendo trazido ao "pleno crescimento" pelo suprimento de Cristo Jesus em ampla medida.


Percebemos que o Novo Testamento contém uma tremenda urgência nesta matéria; tal urgência é resumida nas palavras do apóstolo Paulo: 'advertindo a todo homem e ensinando a todo homem... a fim de que apresentemos todo homem perfeito [completo] em Cristo' (Colossenses 1:28). Cremos que todas as atividades soberanas do Espírito Santo são direcionadas para este alvo e determinadas por este objetivo.

Pode haver aspectos diferentes, mas o alvo é simples e único. Os grandes esforços evangelísticos e missionários, em tanto quanto são governados pelo Espírito Santo, têm este alvo em vista... Embora possamos honestamente afirmar que nunca entendemos ser parte de nossa comissão dizer às pessoas para deixarem suas igrejas ou missões, antigos leitores saberão quanto a questão do alimento tem sido um peso para nós. 

O assunto do alimento espiritual tem espaço amplo no Novo Testamento, e se podemos corretamente ser chamados de 'ministério' e não de 'Movimento' ou organização, esta alimentação dos famintos, mundo afora pode certamente interpretar nossa preocupação..."

Baseado em Honor Oak, Londres, T. Austin-Sparks não teve falta de oposição e rejeição a si mesmo e a seu ministério nos círculos denominacionais da época. Ele entendia que não devia se defender, o que não ajudava a desfazer mal-entendidos. Entretanto, à medida que os ensinos de Austin-Sparks começaram a encontrar aceitação entre aqueles que tinham um desejo e sede pela plenitude de Cristo, abriram-se portas ao redor do mundo para suas mensagens tanto na forma falada quanto escrita.


O genro de Austin-Sparks, Angus Kinnear, escreveu o seguinte sobre seu sogro: "Desde seus anos iniciais ele creu no poder e na importância da Palavra de Deus falada, e em que todas as instâncias de Sua exposição e aplicação deviam estar relacionadas vitalmente às necessidades atuais e crescentes da vida espiritual das congregações representativas do povo de Deus. 

Através de Sua Palavra, Deus encontrará os Seus, mas Seu modo de revelação a Seus servos não é meramente através de temas letrados, reclusos ou pesquisados. Ao contrário, faz-se necessário, projeta-se e toma sentido pelo chamado e reação de condições reais. Seu valor – se é para ser algo mais que palavras – está em ser capaz de tocar o povo do Senhor em suas experiências e necessidade, o que tem sido a ocasião de seu chamado original. 


Este era o chamado especial de T. Austin-Sparks, um homem trilhando um caminho talvez um pouco à parte de seus contemporâneos, mas sempre fiel a Cristo Jesus, seu Salvador e Senhor, e comprometido com uma visão de colheitas espiritualmente frutíferas por todo o campo - o mundo de Deus".

O clamor que vem de suas mensagens repetidamente é para que os crentes cresçam no pleno conhecimento de Cristo, conheçam-no como o Único, o Tudo em Todos, o Cabeça de todos. Ele escreveu numa carta pessoal: "O grande inimigo não desiste em sua determinação de interromper a comunhão e de prejudicar a obra do Senhor ao trazer divisão entre Seu povo. 

Em todo lugar esta obra maligna está sendo forçada com intensidade crescente. O inimigo está atacando para destruir qualquer coisa que resulte na vinda do Senhor Jesus ao Seu pleno lugar. 


Precisamos permanecer e resistir e fazer tudo em nosso poder para manter este campo longe dele. Isto tem alto custo, e demanda que nós deixemos de lado tudo que é apenas pessoal, e que nós permaneçamos apenas para a glória do nome do nosso Senhor e de Seus interesses. Estou certo que você nunca fará de mim ou de meu ministério um motivo de divisão. Não há necessidade de lutar por mim; o Senhor está no Trono, e Ele pode ordenar as coisas conforme Sua própria vontade".

Ele fez conferências na Europa, Ásia e nos Estados Unidos, muitas das quais foram gravadas em fitas. Tais fitas estão disponíveis ainda hoje, assim como muitos de seus livros e artigos que tem sido republicados (informações de contato para alguns destes livros e fitas podem ser encontradas na seção de Recursos). 

Ele cria que aquilo que lhe era dado pelo Único Espírito de Deus devia ser livremente repartido com o Único Corpo de Cristo. Assim, ele não queria seus escritos ou fitas com Copyright – eles estão ainda disponíveis para serem distribuídos em qualquer modo que Deus dirigir - entretanto, ele insistia que todos os seus materiais deviam ser reproduzidos exatamente como foram originalmente entregues.


Alguns dos escritos deste website foram transcritos de fitas, outros são de seus muitos escritos. Enquanto ele estava vivo, ele publicou e vendeu seus livros ao preço de custo em Honor Oak. 

Muitos de seus livros foram primeiro publicados capítulo a capítulo, em uma revista chamada "Uma testemunha e um testemunho" ("A witness and a testimony"), que era publicada em Honor Oak, a qual Austin-Sparks frequentemente denominava "este pequeno jornal". Não havia custo de assinatura para a revista, a qual era enviada gratuitamente para todos os que a desejassem. 

Estava escrito nestas revistas que "Este ministério é mantido pelo Senhor através da mordomia daqueles que o valorizam".

Na primeira página da revista, ele tinha esta simples constatação: "O objetivo do ministério deste pequeno jornal, publicado bimestralmente, é contribuir para o alvo divino que é apresentado nas palavras de Efésios 4:3 – 'até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo, para que não mais sejamos como meninos...'.

Não está conectado com nenhum Movimento, Organização, Missão ou corpo separado de cristãos, mas é apenas um ministério a 'todos os santos'. Seu caminhar é acompanhado da oração e esperança de que resultará em uma mais completa medida de Cristo, em um nível mais rico e mais alto de vida espiritual. 


Isto irá trazer a Igreja de Deus a uma crescente aproximação da vontade revelada dele. Assim, a Igreja pode ser mais bem qualificada para ser usada por Ele no testemunho às nações, e no completar de seu próprio número pela salvação daqueles que ainda serão adicionados pelo Senhor".

T.A-S. era o editor da revista, que foi publicada de 1923 até sua morte em 1971. Foi então renomeada como "Em direção ao alvo" ("Toward the mark") e continuou a ser publicada por um colega e colaborador da revista, Harry Foster, até 1989. 


Após a morte de Austin-Sparks, Harry Foster escreveu:"Talvez um de seus primeiros livros possa nos dar melhor uma pista real de sua vida e ministério. É chamado 'A centralidade e supremacia do Senhor Jesus Cristo'. 

Aí foi onde ele começou, e aí foi onde ele terminou, pois se tornou notório em seus anos finais que ele perdeu interesse em outros assuntos e concentrou sua atenção na pessoa de Cristo. Cristo é central! Nenhum de nós afirmará que sempre esteve 'no centro', e ele certamente não faz tal afirmação, mas era o objetivo de sua vida e o alvo de toda a sua pregação e ensino reconhecer esta centralidade e prostrar-se a esta supremacia.

No culto de seu funeral havia centenas que responderam com todo seu coração à sugestão de que o irmão Sparks os tinha ajudado a conhecer Cristo de um modo mais profundo e satisfatório. 

Se alguém pode fazer os homens notar algo mais da importância e maravilha de Cristo, de forma que eles O amem mais e O sirvam melhor, então tal pessoa não viveu em vão. Muitos ao redor do mundo podem verdadeiramente dizer que através das palavras escritas ou faladas de 'T. A-S' foi isto que lhes aconteceu. 

E, em especial, aqueles que reconheceram a Cristo como Salvador através de seu ministério, estes serão sua alegria no dia de Jesus Cristo. Além disso, algumas das verdades, as quais não foram de modo algum aceitas quando ele as proclamou anos atrás, agora se tornaram largamente aceitas entre os cristãos evangélicos. 

Assim é possível que a longo termo seu ministério se prove ter sido mais frutífero do que aparentou a seu tempo para ele ou para outros. É função do mordomo ser fiel, e isto ele buscou ser: apenas o Mestre é competente para julgar seu sucesso".

2. O Grande Prêmio

Leitura: Filipenses 3.1-16

A carta aos filipenses começa com uma declaração de Paulo: "Porque para mim o viver é Cristo" (2:21) e, depois, continua a expressar seu desejo de conhecer ao Senhor mais e mais, com sua determinação de perseguir tal conhecimento como um prêmio muito desejado.

Se quisermos saber o que significa ganhar a Cristo, temos de voltar para Romanos 8:29, onde descobriremos que a intenção de Deus é que sejamos conformados à imagem do Seu Filho. Ser conformado é ganhar a Cristo – este é o prêmio, e ele envolve alcançar a plenitude de Cristo em perfeição moral. 

Tal plenitude deve expressar a glória a ser manifestada pelos filhos de Deus. É simplesmente isto: tornar-se moral e espiritualmente um com Cristo em Seu lugar de exaltação é o alvo e o prêmio da vida cristã. Faremos bem se mantivermos diante dos olhos este final glorioso: "a manifestação dos filhos de Deus".

Quando Paulo falou sobre ganhar a Cristo e sobre alcançar o prêmio, ele estava expressando seu desejo ardente de ser conformado à imagem do Filho de Deus. Essa conformação é o objetivo da salvação e é o propósito de Deus na salvação, não deixando, porém, de ser algo pelo que precisamos batalhar. É claro que não fazemos nada para ganhar a salvação, e que também não precisamos sofrer a perda de todas as coisas para sermos salvos. Somos salvos pela fé, não por obras; salvação não é um prêmio a ser alcançado, não é algo pelo qual tenhamos de nos esforçar, mas é um presente, um dom gratuito. 

Além desse presente, contudo, Paulo ainda aspirava alcançar alturas não conquistadas e, por isso, escreveu que considerava todas as coisas como perda por causa da excelência do conhecimento de Jesus Cristo seu Senhor. Se o poder do mesmo Espírito está operando em nós, certamente produzirá o mesmo efeito de nos fazer entender quão pequeno é o valor de tudo o mais quando comparado com o grande prêmio de Cristo. 


A SUPREMA QUESTÃO 

É interessante comparar Marcos 10 com Filipenses 3, já que cada passagem nos fala de um jovem e de sua decisão em certo momento. Os dois homens eram parecidos em vários aspectos: eram ambos ricos legisladores, homens com alta posição social, intelectual, moral e religiosa entre os seus. Eram provavelmente ambos fariseus e foram ambos amados pelo Senhor. De um precisou ser dito: "Uma coisa te falta", enquanto o outro afirmou: "Uma coisa eu faço". 

O jovem sem nome retirou-se de Jesus com muita tristeza, mas não retrocedeu, e a razão foi porque ele não estava preparado para repartir suas grandes posses. Paulo também tinha muitas posses, mas elas perderam todo seu atrativo na luz da visão que ele teve de Cristo. Para ele, era uma escolha entre as recompensas terrenas ou o único e grandioso prêmio celestial - e ele alegremente optou por esta último.

Podemos dizer, de certo modo, que ele tinha uma grande vantagem e uma visão diferenciada de Cristo, porque ele viu o Senhor no pleno poder da ressurreição. Ele não viu somente Jesus de Nazaré como o outro jovem havia visto, mas ele pôde apreciar algo da sobreceleste grandeza do poder de Deus ao levantar da morte este Único que, humilhado e rejeitado pelos homens, na cruz foi reduzido ao desamparo e aparente desespero somente para ser erguido da morte e da tumba e ser exaltado estando à direita da majestade nas alturas. Foi o poder da ressurreição que fez Paulo decidir conquistar o prêmio. 


O PODER DA SUA RESSURREIÇÃO 

O que torna tudo possível na vida espiritual é o fato de que o mesmo poder de ressurreição que levantou Cristo levando-o ao Seu destino espiritual é o poder que opera em nós (Ef 3:20). É verdade que nossa justificação repousa na ressurreição do Senhor Jesus, mas ainda assim a total abrangência daquela ressurreição vai muito além da esfera da salvação pessoal, porque seu poder é o meio pelo qual toda realização do pensamento eterno de Deus pode ser cumprida. 

Provavelmente uma das maiores necessidades do nosso tempo – o qual eu creio ser o tempo do fim – é a de um conhecimento experimental mais pleno da vida de ressurreição, pois o triunfo final da Igreja com sua definitiva chegada ao trono, e consequente desalojamento do reino satânico, só pode ser alcançado por esse meio. Essa vida é algo que confrontou todo o poder diabólico do universo e provou que não pode ser tocada ou corrompida; portanto, tanto moral quanto fisicamente, é a vida que triunfou sobre a morte.

Vida de ressurreição não é uma ideia abstrata ou uma sensação mística, mas é uma expressão muito prática da vitória sobre o pecado e sobre Satanás. Se essa vida pudesse ser maculada ou corrompida, então Satanás teria alcançado a vitória final. Mas não há temor desta tragédia, pois a vida de Cristo é aquela que plena e definitivamente venceu a morte. E, ainda que Sua vida de ressurreição O colocou numa posição inacessível, "acima de tudo", ela visa trazer Sua Igreja para compartilhar da Sua vitória e de Seu trono. Portanto, em sua busca pelo prêmio, Paulo primeiramente menciona sua necessidade de conhecer "o poder da Sua ressurreição".

Eu creio que essa atitude de Paulo testa nosso próprio conhecimento de Cristo. Não consigo entender como um cristão que realmente conhece o habitar interior da vida de ressurreição de Cristo pode se apegar a coisas, mantendo controvérsia com o Senhor sobre abrir mão disto ou daquilo, quando a única alternativa é o total despojamento para Cristo. O que deveria determinar todas as disputas e questões é a percepção da natureza real de nosso supremo chamamento em Cristo e a determinação de não permitir que algo fique entre nós e a operação plena da Sua vida de ressurreição. 


A COMUNHÃO DOS SEUS SOFRIMENTOS 

A busca de Paulo pelo prêmio fez com que ele desejasse não somente conhecer Cristo no poder da Sua ressurreição, mas também estar pronto a penetrar nas aflições por causa dEle e com Ele. Isto coloca o sofrimento no seu devido lugar, relacionado a um caminho para a glória. Frequentemente o sofrimento está fora de lugar em nós, nos causando problemas ao ser aquilo que nos preocupa e que prejudica tudo o mais. O Senhor pode nos fazer ver o sofrimento conforme deve ser visto, ou seja, em relação a algo que nos faz vê-lo bem menor do que poderia ser. "Porque para mim tenho por certo que as aflições deste tempo presente não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada", e esta glória é a glória dos filhos de Deus. 

Essa foi a glória que Paulo descreveu como o grande prêmio de ganhar a Cristo.Se perguntarmos o que significa ganhar a Cristo, temos que considerar Romanos 8, onde encontraremos que a intenção de Deus é que sejamos conformados à imagem de Seu Filho. Esse processo de ser conformado a Cristo é de fato ganhar a Cristo: este é o prêmio. Isso implica alcançar a plenitude de Cristo em perfeição moral, pois esta perfeição moral e espiritual é a Sua glória. 

Assim, para nós, a questão básica é esta: estar moral e espiritualmente onde Cristo está em Seu lugar de exaltação é a meta, o prêmio. Fazemos bem em não perder de vista este final glorioso: "a manifestação dos filhos de Deus", quando seremos revelados com Cristo e feitos como Ele. Enquanto isso, no tempo presente nós gememos. Se francamente analisarmos tais gemidos, descobriremos que eles representam nosso desejo ardente por sermos libertos da vida da velha criação, com seu laço de corrupção, pecado e morte, de modo que possamos conhecer a perfeição moral em Cristo. Um dia os gemidos cessarão, esse será o momento de nossa chegada à perfeita conformidade a Cristo.

Isso foi o que Deus pré-ordenou, porque notamos que o trabalho de Deus numa criação que geme está relacionado com o conhecimento prévio que Ele tem e, portanto, relacionado com Sua pré-determinação das coisas. Tal predestinação não estava vinculada ao assunto básico da salvação, mas muito mais com o objetivo da salvação. Isso faz toda a diferença. O objetivo da salvação é a conformidade à imagem do Filho de Deus, pois àqueles que Ele conheceu de antemão Ele os pré-ordenou, não para serem salvos ou se perderem, mas para serem "conformados à imagem do Seu Filho". 

O trabalho do Espírito do Seu Filho em nós, constituindo-nos filhos e capacitando-nos a clamar "Abba, Pai", é o início do trabalho de Deus na criação que geme - o trabalho de manter em segredo aqueles filhos que proverão a chave para sua libertação do completo estado de vaidade e decepção que ela possui atualmente. Toda criação será levada a desfrutar da liberdade da glória dos filhos de Deus, pois esse é o objetivo do poder da ressurreição operando em nós. Estamos vinculados, em nossa própria filiação, com o emancipar toda a criação da vaidade que foi imposta sobre ela. Todavia veja: não basta a criação ser liberta no momento da manifestação, é necessário reaver seu caráter a partir de Cristo revelado nos filhos de Deus. 

Ela somente encontrará sua verdadeira glória quando o poder da ressurreição de Cristo tiver expressão plena na glorificação dos filhos de Deus à medida que eles recebem seus corpos redimidos, feitos como o de Jesus.Você pode pensar que esta vasta concepção não o ajuda muito quando se depara com suas próprias dificuldades. Mas é por isso mesmo que Romanos 8:28 vincula tais experiências práticas com o total alcance do propósito de Deus em Cristo. Esse chamado e propósito governam cada detalhe de nossa jornada espiritual. 

Se, porém, consideramos os fatos da vida meros incidentes pessoais, não conseguiremos ver neles benefício algum. Mas, se por outro lado, consideramos a relação desses fatos com a determinação de Deus de nos fazer como Cristo, então encontramos a chave do significado deles. Isso é mais do que algo pessoal, pois a provação, dificuldade, perplexidade ou provocação carregam o segredo de desenvolver em nós a vida do Senhor Jesus, a vida de ressurreição que traz consigo o objetivo final de Deus - a glorificação de todo o universo. O Novo Testamento é muito prático: as grandes coisas das eternidades são trazidas ao nível dos mais íntimos detalhes da nossa vida espiritual, fazendo com que todas as coisas operem conjuntamente. 

Essas "todas as coisas" contribuirão para o bem final, se consideradas à luz do propósito divino. A intenção de Deus não deve ser esquecida. Pode parecer que estamos sofrendo uma contradição: pedimos algo e recebemos o contrário; isso ocorre porque Deus não está nos isentando da responsabilidade, mas usa experiências contrárias para forjar em nós aquela força moral que somente o Espírito Santo pode conceder. 


CONFORMIDADE COM SUA MORTE 

Foi o Espírito Santo que fez Paulo escrever as coisas nessa ordem: primeiro o poder da Sua ressurreição, depois a comunhão em Seus sofrimentos e, finalmente, ser conformado à Sua morte. Na verdade, só conseguiremos conhecer o poder da Sua ressurreição se participarmos com Ele de Sua experiência de morte, o que implica em deixarmos de lado tudo o que é pessoal para fazermos das coisas de Cristo nosso único objetivo. Não é verdade que a base do pecado é o orgulho? 

E o que é orgulho, essa raiz do pecado? Ele consiste em interesses pessoais, egoístas e individualistas. Foi desse modo que o pecado entrou no universo de Deus no princípio, porque Satanás caiu quando disse: " Eu exaltarei meu trono... eu serei como o Altíssimo". Em seguida ele persuadiu Adão a agarrar a oportunidade de ser "como Deus" (Gn 3:5), fazendo o interesse pessoal entrar para a raça humana. Tal orgulho é nativo em todos nós, somente uma experiência prática de conformidade a Cristo em Sua morte pode nos libertar dele.

As tentativas contínuas de Satanás em trabalhar no nosso interesse pessoal são tão sutis, que ele pode até parecer estar propagando Cristo se puder fazê-lo de modo a subjugar servos de Deus. Foi em Filipos, cidade para qual essa carta foi dirigida, que um dos seus demônios proclamou publicamente que Paulo era um servo do Deus Altíssimo que apresentava aos homens o caminho da salvação. O que mais Paulo poderia desejar? 

Ele tinha propaganda gratuita! Bem, o fato é que podemos ter certeza de que um plano sutil do diabo está a caminho quando ele começa a patrocinar o Evangelho e a tornar seus pregadores populares. O apóstolo percebeu isso e, tendo esperado em Deus, repreendeu o demônio, com resultados calamitosos para ele e Silas, pois isto os levou à prisão, com todo o inferno enfurecido contra eles. Paulo, porém, havia sido liberto de uma armadilha satânica, embora estivesse na cadeia. 

Embora estivesse naquele momento sendo conformado a Cristo numa nova experiência de Sua morte, isto inevitavelmente o levou a ter uma nova experiência do poder da ressurreição de Deus. Ele sobreviveu para escrever aos filipenses de uma prisão em outra cidade, e lhes assegurou mais uma vez que as coisas que lhe aconteceram possibilitaram a expansão do Evangelho. Quando ideias, preferências e desejos humanos são colocados à parte, isto pode significar privação no primeiro instante; mas quando os interesses pessoais são mortificados, um novo lugar é dado a Cristo em nossas vidas e estaremos mais e mais próximos de nosso grande prêmio. 


CRISTO MAGNIFICADO 

Parece claro que à medida que o apóstolo seguia em direção ao fim da sua vida, mais ardentemente ele buscava o prêmio de ser conformado a Cristo. Creio que é um avanço verdadeiro quando chegamos ao lugar onde podemos viver sem a sedução de sinais visíveis de sucesso ou milagres óbvios, onde podemos ser completamente felizes com o próprio Senhor. 

O que eu tenho em meu coração é que você e eu venhamos mais e mais para o lugar onde o próprio Senhor Jesus é tudo para nós. Não buscamos conformidade a Ele em si mesma ou para nossa satisfação, mas somente para que Ele possa encontrar alegria ao nos aproximarmos mais dEle. Esta é a marca de crescimento espiritual e maturidade: desejar tão-somente que Cristo seja magnificado e prosseguir resolutamente neste objetivo. "Cristo é o caminho e Cristo é o prêmio."

3. Companheiros

“Por isso, santos irmãos, que participais da vocação celestial, considerai atentamente o Apóstolo e Sumo Sacerdote da nossa confissão, Jesus”.

(Hebreus 3:1)

Eu desejo enfatizar aquela expressão: "que participais" – da vocação celestial. Este é, para o momento, o propósito desta breve meditação, seu ponto focal. Mas, como se vê, decorre de uma continuação sugerida pelas primeiras palavras da sentença: "Por isso". É matéria de comum conhecimento que esta carta aos hebreus é cheia de comparações e contrastes. Há vários deles. Neste ponto, enfoca-se duas casas e duas pessoas responsáveis por e pertencentes a estas duas casas. 

Duas casas, como se percebe nas palavras imediatamente seguintes: de um lado, em primeiro lugar, a de Moisés em que ele era fiel como um servo; de outro lado, a casa de Jesus na qual Ele é Filho e sobre a qual Ele é cabeça.
A palavra "casa", é claro, é mais literalmente uma "economia" ou "ordem" de Deus nesta dispensação. Assim, de um lado há a casa terrena; do outro, a celestial em contraste. De um lado a temporal, do outro a espiritual. De um lado, como diz: "a que veio por meio de anjos"; do outro, a que veio pelo Filho de Deus. 

A carta inteira tem este objetivo: a superioridade, a grandeza da última sobre a primeira.
Estas palavras com as quais o capítulo inicia nos dizem ou indicam algo quanto à constituição desta casa celestial, espiritual e tão mais superior. 

Faz isto usando as palavras: "Por isso, santos irmãos, que participais da vocação celestial". Santos irmãos: são eles que constituem esta casa. A casa santa, portanto, é composta daqueles que foram separados de um sistema, domínio e natureza para Deus; para uma outra ordem. Separados do mundo, do pecado, da morte; este é o sentido da palavra "santos" - separados.
Irmãos - santos irmãos. Bonito título para a casa de Deus! A família dos santos, dos separados. Esta é a natureza superior DESTA casa. Gostaria de permanecer nisto pois há muito dito sobre isto antes, sobre Cristo cantando no meio de Seus irmãos e não se envergonhando em chamá-los de irmãos, dizendo: "Eu e os filhos que Deus me deu" e assim por diante, tudo conduzindo a isto: "santos irmãos". 

A casa celestial, espiritual, é uma casa de irmãos e irmãs santificados. É uma FAMÍLIA SANTA.

Mas então chegamos ao ponto especial para este momento, a designação particular daqueles que são desta casa. "Por isso, santos irmãos, que participais..." - uma tradução infeliz. 

No original a expressão "que participais" é "companheiros" (NT: ou "parceiros"). Companheiros - a mesma palavra ocorre em Lucas 5:7 sobre os discípulos e os peixes: "fizeram sinais aos companheiros". Esta é exatamente a mesma palavra aqui. Por que a mudaram para "que participais" em vez de dizer "Por isso, santos irmãos, companheiros na vocação celestial"? Há muitas designações na Palavra de Deus a respeito dos servos do Senhor. Estamos familiarizados com escravos de Jesus Cristo, ministros de Cristo, mordomos do mistério, cooperadores; e assim podemos ir adiante - um grande número de títulos e concepções dos servos do Senhor na casa do Senhor. Mas aqui está uma outra designação. E se pudermos capturar seu peculiar e particular sentido, veremos que ela vai um pouco além que muitas das outras... Praticamente todos estes outros títulos trazem a ideia de responsabilidade delegada. Um servo, por exemplo, é encarregado em seu serviço com responsabilidade. 

A um mordomo lhe são confiados recursos, é algo delegado a ele. E assim todos os outros títulos têm esta ideia embutida neles. Mas aqui está algo que vai além - COMPANHEIROS! Companheiros na vocação celestial... trazidos ao companheirismo com Cristo e uns com os outros a respeito desta casa. Esta casa é um companheirismo, uma parceria.
Estou bem certo, caros amigos, que vocês percebem quase todo dia a diferença entre um empregado e um parceiro. Todos percebemos isto, pois salta aos olhos em todo lugar. Estive numa casa durante esta semana, enquanto este evento transcorria. Os empregados estavam trabalhando. Eles não relacionam o ir embora após o trabalho e o deixar TODAS as luzes acesas. Eu vi um jovem pondo seu casaco para sair, deixando uma grande lâmpada acesa. Eu lhe disse: "Aonde você vai?" "Pra casa jantar". "Por que deixa a luz acesa?" "Oh, eu nunca pensei sobre isto!". 

Veja, ser "empregado" é uma coisa – eu é que senti a ofensa, pois partilharei as contas a pagar e tudo o mais. Se tivesse sido um companheiro - um parceiro, um co-proprietário - ele teria sido muito, muito cuidadoso sobre a casa, sobre toda sorte de detalhes, porque como um companheiro ele está envolvido em todas as contas a pagar. Há toda esta diferença. Parece simples, mas há TODA esta diferença na casa de Deus entre empregados (servos, num sentido) e companheiros. E percebendo que o companheirismo de que se fala aqui é de um tipo familiar, a família está em companheirismo sobre a casa, a economia, a ordem; uma responsabilidade familiar de parceria - é isto que temos aqui. Uma responsabilidade FAMILIAR de parceria por esta casa.
Isto traz a casa para bem perto do coração, não? Para uma preocupação legítima, um cuidado real, um ciúme verdadeiro. 

Estamos envolvidos como companheiros! Veja, as perdas serão as nossas perdas, não são as perdas do patrão, do proprietário, de alguém para quem trabalhamos e que tem que arcar com isso; são NOSSAS perdas. Os ganhos são NOSSOS ganhos! Estamos tão envolvidos nos assuntos desta casa que o que a toca, nos toca. As perdas e os ganhos, tudo que tem a ver com ela é um assunto da nossa própria vida.
Uma responsabilidade conjunta porque, e é tremendo ouvir isto dito aqui, a casa de DEUS é a nossa casa - sim, é a casa de Deus e também é a nossa casa. 

De que casa somos? É dito que somos herdeiros de Deus e coerdeiros com Jesus Cristo. Esta é a nossa casa, somos co-proprietários. Pertence a nós em um sentido espiritual, é parte de nós e somos co-participantes em todos os interesses desta casa.
Enfatizo esta palavra "companheiros". 

Isto é tudo que desejo dizer, pense nisto. Isto convém muito. Penso que vai até o coração de tudo, vai mesmo. É uma ideia linda. Não somos mais apenas empregados do Senhor - servos no sentido oficial ou profissional - nós somos companheiros.
Pense sobre os discípulos em parceria no lago. Tenho certeza de que o que afetava um bote, afetava todos os parceiros. O que afetava um parceiro afetava os outros. Era uma parceria e a perda de qualquer parte era uma perda para todos; o ganho de qualquer parte era o ganho de todos. E quando o bote estava quase afundando pela abundância da pesca, eles não guardaram para si, como sua bênção; eles sinalizaram aos parceiros e repartiram a bênção. Esta é a casa de Deus.

Possa Ele justamente aplicar a nós Seu próprio entendimento nisto: "santos irmãos, companheiros na vocação celestial".

4. Cristo — Tudo em Todos

“Ele é a cabeça do corpo, da igreja. Ele é o princípio, o primogênito de entre os mortos, para em todas as coisas ter a primazia”. 

(Colossenses 1:18)

“no qual não pode haver grego nem judeu, circuncisão nem incircuncisão, bárbaro, cita, escravo, livre; porém Cristo é tudo em todos”. 

(Colossenses 3:11)


Muito tem sido feito nos últimos dias para trazer as grandes magnitudes do universo à compreensão do homem e mulher comuns. Isto significa que muitas pessoas estão interessadas na explicação do universo e, sem dúvida alguma, do curso desta Terra e da criação e história do homem; mas cremos ter a resposta final e positiva para esta investigação. Para nós há somente uma definida e conclusiva explicação do universo, e esta explicação é uma Pessoa – o Senhor Jesus Cristo, com tudo que é eternamente relacionado a Ele. 

Não importa quanto leiamos e estudemos, nunca teremos a explicação do universo, no todo ou em parte, até que venhamos a enxergar o lugar do Senhor Jesus no eterno propósito de Deus. As simples contudo abrangentes palavras "Cristo é tudo em todos" resumem toda a matéria desde a eternidade, através de todos os estágios de tempo, até a eternidade.Primeiramente, então, vemos que "Cristo é tudo em todos" significa:


1. A explicação da própria criação

Esta carta aos colossenses faz esta mesma declaração em outras palavras. Ela nos diz que "pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste" (1:16-17). Esta é uma declaração abrangente, e claramente mostra que Cristo sendo tudo em todos é a explicação de toda a criação. Por que foram todas as coisas criadas? Por que Deus por meio dele trouxe o universo à existência? Por que este grande sistema universal existe e se mantém? Qual é a explicação do mundo? 

A resposta é para que Cristo possa ser tudo e em todos.A intenção no coração de Deus ao ter trazido este universo à existência era que, ao final, toda a criação pudesse apresentar a glória e a supremacia de Seu Filho, Jesus Cristo. E este específico pequeno fragmento "e nele tudo subsiste" diz muito claramente que, se não fosse o Senhor Jesus Cristo, o universo inteiro se desintegraria, desmembrar-se-ia; ele estaria sem seu fator unificador; ele cessaria de ter uma razão para ser mantido como uma completa e concreta unidade. 

Seu subsistir, sua falha em se desintegrar e acabar é por causa disto: Deus tem determinado que o Senhor Jesus será o centro – o centro governante – deste universo inteiro, e Ele, o Filho de Deus, é a explicação da criação. Se não fosse por Ele, nunca teria havido uma criação. Tire-o fora e a criação perde seu propósito e seu objeto, e não precisa mais ir adiante. "Cristo é tudo, e em todos" era o pensamento – o pensamento dominante – na mente de Deus durante a criação do universo.Isto pode deixá-los indiferentes em certa medida e não levá-los muito longe, mas eu arrisco pensar que o que irei dizer irá levá-los um pouco mais adiante e aquecerá seus corações. 

Pois a perspectiva é esta, que quando Deus tiver as coisas como na eternidade passada determinou tê-las – e Ele irá tê-las assim – cada átomo deste universo inteiro irá mostrar a glória de Jesus Cristo. Vocês não serão capazes de olhar para algo ou alguém sem ver Cristo glorificado. Uma abençoada perspectiva!É algo feliz quando, como um grupo de filhos do Senhor, nós podemos estar juntos por horas a fio ou mesmo dias a fio; quando nós estamos ocupados com o Senhor como nosso único interesse comum e todos estão enlevados nele. 

Quando temos um tempo como este e voltamos ao mundo, que atmosfera diferente encontramos! Como nos sentimos frios! É algo agradável encontrar o Senhor em seus filhos e estar enclausurado com Ele desta forma; contudo mesmo isto é apenas em parte. Todavia o eterno dia está chegando quando não haverá o voltar para o mundo em uma manhã de segunda-feira depois de um dia nos átrios do Senhor; quando estaremos tocando ninguém mais além do Senhor, e o universo inteiro estará cheio dele – "Cristo, tudo em todos"! 

Este é o alvo de Deus. Isto é o que Ele tem determinado; tudo mostrando o Senhor Jesus; tudo para Ele.Agora vemos uns nos outros muitas outras coisas que não o Senhor Jesus; o dia está chegando quando vocês nada verão exceto o Senhor Jesus em mim, e eu nada verei exceto o Senhor Jesus em vocês; nós seremos "conformados à imagem do Seu Filho": Sua glória moral brilhará e será mostrada; Cristo será "tudo em todos". Deus o determinou, e o que Deus determinou, Ele terá. Esta, então, é a explicação da criação, que Cristo seja tudo, e em todos, e sobre tudo tenha a preeminência.Em Romanos, o apóstolo Paulo tem uma declaração muito notável dentro deste contexto: "A ardente expectativa da criação aguarda a revelação dos filhos de Deus. 

Pois a criação está sujeita à vaidade, não voluntariamente, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança de que a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Porque sabemos que toda a criação, a um só tempo, geme e suporta angústias até agora" (8:19-22).Notem o que isto realmente diz e implica. A criação está imbuída por uma expectativa ardente. Esta expectativa é com gemidos tais como em árduo trabalho, uma expectativa de esperança – não da dissolução do universo, sobre o quê certos cientistas tanto falam. 

Contudo, a esperança e os gemidos até o momento estão deliberadamente colocados sob um reinado de vaidade – feitos para ser tudo em vão – até um tempo e alvo fixados. Este clímax é em duas partes: uma, a revelação dos filhos de Deus; a outra – ligada com aquela – o livramento da criação de estar sujeita à corrupção.Tudo isto é levado de volta à eternidade passada e unido com o Senhor Jesus como Filho: "Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos" (8:29).

Na passagem anterior há uma declaração definida e uma clara implicação. A declaração é que a criação estava sujeita à vaidade, e seu estado é o cativeiro da corrupção. Claramente, a implicação é que houve um tempo definido quando, por causa de sua corrupção, a criação inteira foi levada a uma condição na qual é forçada a gemer e se esforçar em direção a um alvo que não pode ser alcançado. É em conexão com isto que surge espaço para toda a gama e a natureza da interferência satânica na criação, a qual objetiva a desafiar o propósito divino final na criação e a frustrá-lo ao trazer corrupção. Tão universal foi esta corrupção que uma sentença de vaidade foi pronunciada sobre "toda a criação". 

O efeito disto foi, e é, que a criação nunca pode atingir o objetivo de sua existência, salvo no campo da santidade e semelhança divina.Aqui também se encaixa toda a gama da "redenção que está em Cristo Jesus"; a obra universal que Ele consumou por meio de Sua cruz destruindo a obra do diabo e, potencialmente, o próprio diabo; com todo o poder destruidor do pecado e destruidor da corrupção advindos de Sua natureza e vida sem pecado, a eficácia de Seu incorruptível sangue, e a provisão de justificação e santificação para todos os que crerem, estes por regeneração se tornando uma nova criatura em Cristo Jesus (2Co 5:17).

Apenas por este meio a criação pode ser liberta. Quando estes filhos de Deus forem manifestos – seu número completo – e todos que têm recusado esta salvação forem rejeitados do domínio de Deus, então a criação será liberta e sua intenção original será atingida, Cristo sendo tudo, e em todos.


2. A explicação do homem

Depois, em seguida, como uma parte central da criação, temos o homem. Qual é a explicação do homem? Qual é a explicação de Adão como o primeiro homem? Há uma pequena passagem da Escritura que responde a isto: "... Adão, o qual prefigurava aquele que havia de vir" (Rm 5:14), que é Cristo. 

Uma figura daquele que havia de vir; esta é a explicação do homem. Deus planejou que cada homem ingresso neste mundo seja conformado à imagem de Seu Filho, Jesus Cristo. Multidões perderão isto, mas haverá multidões tais que nenhum homem poderá enumerar, de cada tribo, raça, nação e língua, que alcançarão isto. Que alto chamado! 

Que concepção diferente do homem esta é daquela que é popularmente aceita, e que tremenda coisa a ser perdida! E ainda assim, há muitos que dizem reclamando que se tivessem podido escolher, nunca teriam vindo a este mundo. Tem havido aqueles que, numa hora de eclipse, maldizem o dia em que viram a luz. Ah! Mas algo deu errado aí; isto não é como o Senhor planejou que fosse. E não importa quantos dias depressivos tenhamos: quando nos perguntarmos depois de tudo se realmente vale a pena, retornemos em nosso íntimo ao pensamento de Deus. 

É nosso tremendo privilégio, a mais alta honra que podia ser conferida a nós do ponto de vista divino, que tenhamos nascido.Nem sempre nos sentimos ou falamos deste jeito, mas constantemente somos compelidos a nos voltarmos ao ponto de vista de Deus sobre isto e a nos lembrarmos que Seu propósito é o de ter um universo povoado com tais que sejam conformados à imagem de Seu Filho, Jesus Cristo, um povo que é uma manifestação universal do Cristo glorificado com a glória do Pai. Este é um privilégio, uma honra, algo para o qual vale a pena ter nascido! Esta é a explicação do homem.Podemos apenas tocar levemente muitos destes assuntos, e caminhar adiante.


3. A explicação da redenção

Além disso, esta palavra "Cristo é tudo em todos" é a explicação da redenção. As coisas, é claro, deram errado: o propósito de Deus sofreu interferência. Ele não poderia nunca ser frustrado completamente, mas houve outro que determinou, tanto quanto estivesse em seu poder, que aquela apresentação universal de Jesus Cristo – o "ser-tudo-em-todos" do Senhor Jesus – nunca acontecesse. 

Houve alguém que desejou ter aquilo para si mesmo – que ele pudesse ser o senhor universal da terra e céu. Esta interferência tem feito uma grande diferença por certo tempo. Ela tem interferido com o homem e o transformado em outro, aquém do que Deus pretendia que ele fosse. Ela tem arruinado a imagem.No entanto, há redenção através da cruz do Senhor Jesus. 

Qual é a explicação da cruz? Por um lado, qual é a explicação de toda aquela expiação, aquela obra redentiva do Senhor Jesus ao tratar com o pecado, em tomar o pecado universal sobre Si, e ser feito uma maldição por nós, em nosso lugar?

E ainda, por outro lado, como complemento disto, qual é a explicação daquela cruz sendo operada no crente de forma que o crente se torne unido com Ele na semelhança de Sua morte e enterro como uma experiência espiritual? – toda aquela aplicação do Calvário que é tão dolorosa, tão terrível de passar através: sim, a desintegração do "velho homem", o cortar fora do "corpo da carne", aquele conhecimento interior do poder da cruz, tão terrível à carne. 

Qual é a explicação? Amados, é que Cristo seja tudo, e em todos.Por que somos quebrados? Para dar lugar ao Senhor Jesus. Por que somos trazidos ao pó pelo Espírito Santo quando Ele opera a morte do Calvário sobre nós? De forma que o Senhor Jesus possa tomar o lugar que nós na carne temos ocupado. Algumas vezes entendemos errado esta aplicação da cruz. O inimigo está sempre em nosso ombro, insinuando e sugerindo a inclemência de Deus em nos esmagar, nos humilhar, nos reduzir a nada, e dizendo que não há fim nisto, tentando assim nos derrubar.Amados, a cruz foi pretendida somente para fazer o Senhor Jesus tudo em todos, para nós. 

Devido ao modo como o Senhor tem tratado conosco, o modo pelo qual Ele tem aplicado a cruz, nos plantando naquela morte e enterro, não é verdade que nós O conhecemos de um modo que nunca O conhecêramos antes? Não é por este modo que Ele tem se tornado o que é para nós, cada vez mais e mais amado dos nossos corações? O aumento do Senhor Jesus em nós e para nós é pelo caminho da cruz. Sabemos muito bem que o nosso principal inimigo é o nosso eu, a nossa carne. Esta carne não nos dá descanso, nem paz, nem satisfação; não temos alegria nela. Ela é obsessiva, nos absorve, constantemente se pavoneia atravessando nosso caminho para nos roubar a verdadeira alegria de viver. 

O que deve ser feito com ela? Bem, na cruz e pela cruz somos libertos de nós mesmos; não apenas de nossos pecados, mas de nós mesmos; e sendo libertos de nós mesmos somos libertos para Cristo, e Cristo se torna muito mais que nós.É um processo doloroso, mas gera um fim abençoado; e aqueles dentre nós que tenham tido a maior agonia ao longo deste caminho testificariam, eu creio, que o que isto nos trouxe do conhecimento e das riquezas do Senhor Jesus faz todo o sofrimento valer a pena. Assim é a obra do Senhor por nós! E a obra do Senhor em nós, pela cruz, somente é pretendida no pensamento divino para abrir espaço para o Senhor Jesus.O altar de bronze do tabernáculo, assim como o do templo, era um altar bem grande. Era possível pôr toda a mobília restante do tabernáculo inteiro dentro dele. Sim, o altar tem que ser bem grande; deve haver um grande espaço para Cristo Crucificado. Ele irá preencher todas as coisas e Ele será a plenitude de tudo, e não haverá lugar para nós no final de tudo. Isto o deixa atônito? Certamente não. 

Assim a cruz, a obra de redenção através daquela cruz, tem como sua explicação simplesmente isto, que Cristo seja tudo, e em todos; que em todas as coisas Ele possa ter a preeminência.Isto, pois, é a explicação de nossas experiências – o porquê do Senhor tratar conosco como Ele trata; o porquê dos crentes passarem através das experiências que atravessam; o porquê eles passam por coisas que ninguém mais parece chamado a atravessar; o porquê de algumas vezes eles quase invejarem os incrédulos pela vida fácil que tantos deles têm. Isto explica os tratamentos do Senhor com Israel no deserto. Mesmo após sua libertação do cativeiro e tirania do Egito, houve quebrantamento de corações e agonia. Por que esta disciplina? 

No deserto, eles ainda pensavam no Egito. A obra que o Senhor estava fazendo neles era de forma que Ele pudesse ser tudo neles e para eles. Se Ele cortava seus recursos naturais, era apenas para mostrar quais eram seus recursos celestiais. Se Ele cortava seu poder natural, era para que eles pudessem vir a conhecer o poder dos céus. O que quer que seja que Ele pudesse tirar deles ou os conduzir a, era com vista a tirá-los de si mesmos e com vista a que Ele mesmo pudesse ser tudo em todos.Esta é a explicação de nossas dificuldades. O Senhor conhece como melhor tratar com cada um de nós, e Ele não usa métodos padronizados. Ele trata com você de um modo e comigo de outro. Ele sabe como nos conduzir a experiências que são bem calculadas para nos trazer à posição aonde o Senhor é tudo e em todos.


4. A explicação do crescimento cristão

O que é crescimento espiritual? O que é maturidade espiritual? O que é caminhar no Senhor? Temo que tenhamos ideias embaralhadas sobre isto. Muitos pensam que maturidade espiritual é um conhecimento mais abrangente da doutrina cristã, uma compreensão mais larga da verdade das Escrituras, uma ampla expansão do conhecimento das coisas de Deus; e muitas destas características são registradas como marcas de crescimento, desenvolvimento, maturidade espiritual. 

Amados, não é nada disso. A marca distintiva do verdadeiro desenvolvimento e maturidade espiritual é esta: que nós tenhamos crescido bem pouco e que o Senhor Jesus tenha crescido muito mais. A alma madura é aquela que é pequena a seus próprios olhos, mas em cujos olhos o Senhor Jesus é grande. Isto é crescimento. Nós podemos saber muitas coisas, podemos ter uma maravilhosa compreensão da doutrina, do ensino, da verdade, até mesmo das Escrituras, e ainda ser espiritualmente muito pequenos, muito imaturos, muito infantis. (Há muita diferença entre ser infantil e ser semelhante a uma criança). O crescimento espiritual real é somente isto: eu diminuo, Ele cresce. É o Senhor Jesus se tornando mais. Vocês podem testar o crescimento espiritual através disto.Então, de novo, esta palavra é:


5. A explicação de todo o serviço

O que é o serviço cristão de acordo com a mente de Deus? Não é necessariamente termos uma programação cheia de atividades cristãs. Também não é que estejamos sempre ocupados naquilo que denominamos "coisas do Senhor". Não é a medida e a quantidade de nossa atividade e trabalho, nem o grau de nossa energia e entusiasmo nas coisas do reino de Deus. Não são nossos esquemas, nossos projetos para o Senhor. Amados, o teste de todo serviço é seu motivo. Será que o motivo é, do começo ao fim, que em todas as coisas Ele possa ter a preeminência, que Cristo possa ser tudo em todos?Vocês conhecem as tentações e a fascinação do serviço cristão; a fascinação de estar engajado, de estar ocupado com muitas coisas; ter sua programação, esquemas, projetos; estar envolvido nestas coisas e sempre presente a elas. 

Há um perigo aí que tem apanhado multidões dentre os servos do Senhor. O perigo é que isto os leva à projeção, torna a obra deles; é a obra deles, interesses deles, e quanto mais governam e caminham nisto mais satisfeitos ficam.Não, há uma diferença entre passar o dia no serviço cristão como mero desfrutar da atividade, com a fascinação disto e todas as vantagens e facilidades que isto provê para nós mesmos, e a gratificação disto à nossa carne – há uma grande diferença entre isto e "Cristo, tudo em todos". 

Algumas vezes este último é alcançado ao sermos postos fora de ação. Pois então, este é o teste: se estamos ou não completamente satisfeitos de sermos colocados totalmente fora de ação para que tão somente o Senhor possa ser mais glorificado deste modo. Se tão somente Ele puder vir ao que é seu, não importa nada se somos vistos ou ouvidos. Estamos alcançando um lugar, na graça de Deus, aonde ficamos bem contentes em ser largados num canto, sem ser vistos ou notados, se deste modo o Senhor Jesus puder vir para o que é seu mais rápida e completamente.

De algum modo temos sido pegos nisto e pensamos que o Senhor somente pode vir ao que é Seu se nós formos o instrumento. A rivalidade na plataforma e no púlpito; a sensibilidade porque um é posto antes do outro, porque o sermão de um recebe mais atenção que o do outro; os comentários favoráveis feitos todos em uma só direção, etc! Conheço bem tudo isto. Afinal de contas, o que nós estamos buscando? Estamos buscando impressionar nossa audiência pela nossa habilidade ou fazer conhecido nosso Senhor? É uma grande diferença! 

Algumas vezes o Senhor ganha mais de nossos maus momentos do que pensamos, e pode ser que quando temos bons momentos Ele não tenha obtido o máximo. É por causa disto que há a necessidade de sermos postos de lado, mantidos fracos e humildes, para que Ele possa ter a preeminência.O desafio do serviço conforme o pensamento de Deus é somente este – por que o estamos fazendo? Queremos estar na obra porque gostamos de estar ocupados? Ou é absolutamente e somente para que, por qualquer meio, Ele possa vir ao que é Seu, para que o alvo de Deus possa ser concretizado? Se Ele puder ser tudo, e em todos, pela nossa morte assim como pela nossa vida, será que chegamos ao ponto onde realmente desejamos que "Cristo seja glorificado em meu corpo, quer pela vida ou pela morte" (Fp 1:20)? Esta é a explicação do serviço do ponto de vista de Deus.É claro, isto é a explicação de muitas outras coisas. É também...


6. A explicação de todo o Antigo Testamento

Nós não nos demoraremos examinando em detalhes como é isto, mas apenas o indicaremos e passaremos adiante. O que é o Antigo Testamento? Ele está todo resumido em grandes representações de Jesus Cristo. Veja as duas principais, o tabernáculo e o templo. Estas são representações abrangentes do Senhor Jesus tanto em Sua pessoa como em Sua obra e elas ocupam, desta forma, o lugar central na vida do povo escolhido, cuja vida é unida a elas. 

As duas são uma. Enquanto o povo eleito se mantém num relacionamento correto com aquele objeto central (o tabernáculo ou o templo), enquanto lhe dá seu lugar de honra e reverência e o mantém em seu lugar da mais alta santidade, enquanto eles são verdadeiros ao seu espírito, suas leis e seu testemunho, e embora sejam entre todos os povos da terra os menos capazes naturalmente de cuidar de seus próprios interesses, ainda assim são o povo supremo da terra: não há uma nação ou povo na terra capaz de permanecer diante deles. Eles nunca foram treinados na arte da guerra, não têm uma longa história de armas e estratégia militar, e são em si mesmos um povo indefeso, ainda assim eles tomam ascendência não apenas sobre nações individuais maiores e mais fortes que eles, mas sobre uma combinação de nações. 

E embora todos se unam contra eles, enquanto verdadeiros àquele objeto central, eles são supremos. Aquele objeto central é uma representação do Senhor Jesus em Sua pessoa e obra.A interpretação espiritual disto é que quando o Senhor Jesus tem Seu lugar há supremacia; há absoluta supremacia quando Ele em todas as coisas tem a preeminência em, através e por meio de Seu povo. "Cristo é tudo em todos". Quando isto é verdade em Seu povo não existem forças capazes de lhes resistir. O segredo da absoluta supremacia e soberania é o Senhor Jesus ter Seu lugar nas vidas e nos corações, em todos os afazeres e relacionamentos do Seu próprio povo; então os portões do inferno não poderão prevalecer.Além disto, é também...


7. A explicação do Novo Testamento

O Novo Testamento traz diminutos grupos, pequenos entre os povos da terra, desprezados, expulsos, dificilmente permitidos a falar sem serem amargamente molestados, e sobre os quais eventualmente vinha a ira e o ódio organizado das nações deste mundo, culminando em que todos os recursos do grande império de ferro foram explorados e postos em operação para destruir a memória deste humilde e desprezado povo.

A história é exatamente esta, que os impérios quebraram, e os poderes mundiais cessaram de existir. Nós rodamos o mundo agora para olhar as relíquias e ruínas destes grandes impérios; mas onde está aquele povo do Caminho do desprezado Nazareno? Uma grande multidão que nenhum homem pode numerar! O céu está cheio deles, e aqui na terra há dezenas de milhares que conhecem e amam o Senhor Jesus, que são deste Caminho. A explicação é que Deus determinou que Seu Filho seja tudo, e em todas as coisas tenha a preeminência.Tenha um relacionamento vivo com o Filho de Deus, e homens e inferno podem fazer o que quiserem – Deus irá atingir Seu alvo e tal povo será triunfante.Uma palavra mais. Isto também é...


8. A explicação da Igreja

O que é a igreja? O pensamento de Deus não é o Cristianismo; não é o de ter igrejas como centros organizados do Cristianismo; não é a propagação do ensino e empreendimento cristãos. O pensamento de Deus é o de ter um povo na terra no qual, e no meio do qual, Cristo é tudo em todos. Esta é a igreja. 

Temos que revisar nossas ideias. No pensamento de Deus a igreja começa e termina com isto – a absoluta supremacia do Senhor Jesus Cristo. E o que Deus está sempre buscando é juntar aqueles de Seu povo que mais completamente concretizarão este pensamento dele, e serão para Ele a satisfação de Seu próprio desejo eterno: o Senhor Jesus em todas as coisas tendo a preeminência e sendo tudo em todos. Ele ignora a grande instituição, a assim chamada "Igreja", e está com aqueles que em si mesmos são de um humilde e contrito espírito e que tremem diante de Sua palavra, e nos quais o Senhor Jesus é o único objeto de reverência e adoração. Estes satisfazem o coração de Deus. 

Estes, para Ele, são a resposta à Sua eterna busca.Vocês percebem que a Palavra de Deus diz isto. Vejam novamente Cl 3:11: "no qual não pode haver grego nem judeu, circuncisão nem incircuncisão, bárbaro, cita, escravo, livre; porém Cristo é tudo em todos". Eles têm se revestido "do novo homem, que se refaz para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou". Observem atentamente estas palavras e vocês entenderão que este é o homem corporativo, a Igreja, o Corpo de Cristo, "a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas" (Ef 1:23). 

E ali, naquele homem corporativo, não pode haver grego ou judeu. Note as palavras. Não diz que gregos e judeus se unem em uma abençoada comunhão. Não, não há nacionalidades na igreja; temos nos livrado de todas as nacionalidades, e agora temos um novo homem espiritual, uma nova criação, onde não pode haver grego, judeu, escravo, livre. Todas as distinções terrenas se foram para sempre – é um novo homem. O braço direito não é um judeu e o braço esquerdo um grego!Não, isto passou. Nesta Igreja há apenas um novo homem – não uma combinação onde anglicanos, metodistas, batistas, congregacionais e todo o resto se juntam e esquecem suas diferenças por um tempo; isto não é a Igreja. Na Igreja estas diferenças não são meramente cobertas por um tempo – elas não existem. Há um Corpo, um Espírito. A Igreja é isto, "Cristo é tudo em todos". Tenha isto e tem-se a Igreja. 

Chamar qualquer outra coisa de Igreja e deixar isto de fora é uma contradição. Testem-na através disto.Se é verdade que a vida cristã conforme o pensamento e a mente de Deus é somente isto, "Cristo, tudo em todos", então somos eu e você verdadeiros cristãos? Pois temos visto que mediante a cruz nós desaparecemos para dar lugar para o Senhor Jesus. Agora, se professamos ter vindo pelo caminho do Calvário até o Senhor, a implicação é que desaparecemos por intermédio desta cruz, para que Cristo seja tudo em todos.O que pensar? Queremos nós um pedacinho do mundo? Nós ainda voluntariamente nos apegamos a esta ou aquela coisa fora do Senhor, porque o Senhor Jesus não tem nos satisfeito plenamente e precisamos ter um contrapeso? Um cristão mundano é uma contradição de termos. 

Ter um pouquinho de algo fora de Cristo é negar o Calvário e permanecer diretamente em oposição ao eterno propósito de Deus referente a Cristo. Você assume esta responsabilidade? Deus determinou isto desde toda a eternidade no referente a Seu Filho. Podemos nós professar pertencer ao Senhor Jesus e ao mesmo tempo ainda não ser verdade que Ele é tudo em todos para nós? Se podemos, há algo errado, há uma negação, uma contradição. Estamos nos opondo ao pensamento e propósito de Deus. É verdade que Ele é tudo em todos? Ele será isto se tomarmos todo o caminho.Oh! Estas sugestões sutis que estão sempre sendo sussurradas em nossos ouvidos, que se desistirmos disto ou daquilo iremos nos arruinar, e a vida será mais pobre, e seremos reduzidos até que nada tenha restado. É uma mentira! É isto que contrapõe o grande pensamento de Deus sobre nós. 

O pensamento de Deus sobre nós é que alguém, nada menos que Seu Filho, Jesus Cristo, em Quem toda a plenitude da divindade habita em forma corpórea, seja a nossa plenitude. Toda a plenitude de Deus em Cristo para nós! Você nunca obterá isto ao rejeitá-lo. A vida será muito menos do que precisa ser se você não for até o fim com o Senhor. E o que se obtém em matéria de nossa consagração ao Senhor, nosso inteiro e completo abandono a Ele em nossa vida, nosso deixar completamente tudo que não é do Senhor, isto se obtém no domínio do serviço. Esta carne ama se jactar na obra cristã, e nos diz que se passarmos a ser dependentes do Senhor nós passaremos a ter um tempo de ansiedade. Mas uma vida de dependência de Deus pode ser uma vida de contínuo romance. É ali que fazemos descobertas que são constantes maravilhas.

Você pode estar quase morto num minuto e no seguinte o Senhor lhe dá algo para fazer e você fica muito vivo, dependendo dele para cada respiração sua. Assim você vem a conhecer o Senhor. Mas, depois daquela experiência, você se torna de novo inútil e morto por um tempo, contudo você se lembra de que o Senhor fez algo. Então Ele faz de novo; e a vida se torna um romance. Ninguém pensaria que você estava dependendo do Senhor para sua própria respiração. É algo muito abençoado saber que o Senhor está fazendo isto, quando você não pode fazê-lo de jeito nenhum – é humana e naturalmente impossível, mas o Senhor o está fazendo!Prossigamos, amados, no assunto da Igreja. Apliquem o teste. 

Não estou falando com julgamento ou censura, nem tenciono discriminar num sentido errado, mas deixe-me ser fiel – para nós, nossa comunhão deve estar onde o Senhor Jesus é mais honrado. Nossa comunhão deve estar onde Deus tem o que é seu mais plenamente, onde Cristo é tudo em todos. Nós não podemos estar presos por tradições, por coisas que levantam um clamor e assumem uma denominação. Onde o Senhor é mais honrado, aí é onde nossos corações devem estar; onde tudo o mais é feito subserviente a apenas isto: "Cristo, tudo em todos". Este é o pensamento de Deus sobre a Igreja, e este deve ser o lugar aonde nossos corações gravitam. O lugar onde Deus vai registrar Seu testemunho e trazer o impacto deste testemunho sobre outros será encontrado onde o Senhor Jesus é mais honrado. E vocês perceberão que onde houver pessoas famintas vocês terão oportunidade de ministério se vocês estiverem completamente em acordo com o propósito de Deus referente a Seu Filho.


9. Vivenciando tudo

Lembre-se que tudo relacionado ao cristão é experimental. Tudo em relação ao Senhor Jesus é essencialmente experimental. Não é apenas doutrina. Não é questão de credo. Não é que aceitemos certas declarações de doutrina ou credo, e que somente por isto sejamos trazidos a um relacionamento com o Senhor Jesus. Nós não nos tornamos cristãos por aceitar declarações doutrinárias ou credos ortodoxos, ou fatos sobre o Senhor Jesus. 

A Igreja não se constitui sobre estes parâmetros, embora a Igreja defenda certos princípios. A experiência tem que ser operada na vida, você deve ser tornar parte dela e ela parte de você. Não é suficiente crer que Cristo morreu na cruz. Isto deve se aplicar aqui em nossas vidas tornando-se uma experiência, uma poderosa e operante força e fator em nosso ser. A igreja não é constituída sobre uma base de declarações doutrinárias. Você não pode juntar pessoas e dizer: "isto parece perfeitamente confiável, constituiremos nossa igreja sobre esta base". Você não pode fazer isto.A Igreja é aquela na qual a verdade tem sido operada, na qual ela tem se tornado experimental. Credos não podem nos manter juntos quando o inferno se levanta para nos dividir. Não, o credo mais ultra-fundamentalista não tem conseguido manter as pessoas juntas. 

A unidade do Espírito é algo trabalhado lá dentro. A menos que seja assim, nada pode resistir contra os espíritos de divisão e cismas que estão por aí. Tudo precisa ser experimental, não apenas doutrinário ou confessional.Agora, é aqui onde você chega à realidade de Deus. É uma coisa cantar hinos sobre Cristo ser tudo em todos, olhar para isto como algo objetivo e concordar com isto; mas é outra coisa ser trazido experimentalmente ao lugar onde a verdade realmente opera. Há muitos que dirão hoje "sim, isto está certo. Cristo é tudo em todos", e amanhã de manhã, quando você os toca sobre algum assunto melindroso em que suas preferências estão envolvidas, você percebe que Cristo não é tudo em todos. Temos que chegar a isto pela experiência. 

Que o Senhor nos dê graça para isto.O apelo final que faço é que nós todos busquemos novamente a entronização do Senhor Jesus como supremo Senhor em nossos corações, em cada parte de nossa vida, em todos os nossos relacionamentos; que se houver algo que temos segurado, que deixemos ir; se temos tido qualquer reserva, que a quebremos agora; se temos sido menos que completamente comprometidos com Ele, de agora em diante isto não seja mais assim, mas que Ele seja tudo em todos, a partir de agora. Este deve ser nosso entendimento, nosso compromisso com o Senhor. Fará você isto? Peça ao Senhor para quebrar cada amarra que está no caminho de Ele ser tudo em todos. Estamos preparados para isto?

5. Adoração na Casa de Deus

Efésios 1:4-10, 12, 18-19.

Voltando para o livro de Êxodo, nós nos lembramos de que o tabernáculo visava apresentar as glórias de Cristo. Moisés recebeu o modelo, e outros foram dotados com o Espírito Santo para realizar a obra. Tudo o que foi fazer o tabernáculo era para mostrar os muitos aspectos das glórias de Cristo:

Bronze/ Justiça provindo do juízo, a justiça de Cristo.
Prata/ Redenção para Deus.
Ouro/ A glória de Deus.
Azul/ Natureza celestial.
Púrpura/ Realeza.
Escarlata/ Sofrimento.
Azeite/ O testemunho do Espírito Santo.
Incenso/ O merecimento do Senhor Jesus como o terreno da comunhão com Deus.
Pedras preciosas/ A preciosidade do Senhor Jesus para o Pai.

Isso é suficiente para transmitir a verdade de que este tabernáculo visava apresentar as glórias e excelências do Senhor Jesus. É aquilo que a Igreja, a habitação de Deus, é destinada a ser; aquilo que apresenta as glórias e valores de Cristo. Há um fim em vista, "que sejamos para o louvor de Sua glória"; que as glórias de Deus sendo manifestas em nós, no Santuário, na Igreja, ocasione louvor a Ele.

Adoração é louvor pela Sua graça e louvor para Sua glória em Jesus Cristo – graça conduzindo a glória. Primeiramente é a graça que nos faz ser uma habitação de Deus, porque fornece as condições necessárias para a presença de Deus. Depois é a obra de Deus, através da graça, nos conformar à imagem do Seu Filho, para que eventualmente sejamos para o louvor da Sua glória. Esse é o desenvolvimento completo dos propósitos da graça.

Efésios 1 nos mostra do que Deus está atrás, e como Ele começa no que aos crentes diz respeito, e qual o final a ser – o louvor da Sua glória.

Efésios 6 nos traz em contato com as forças que estão opostas.

O que jaz entre o capítulo 1 e o capítulo 6 é tudo aquilo pelo qual o fim de Deus é atingido e o objetivo de Satanás é derrotado. Existe uma ordem Divina no Corpo e na Casa. Subverta a ordem Divina e a glória Divina desaparecerá. Na ordem está a glória de Deus; na desordem está a desonra de Deus. Uma expressão viva do pensamento de Deus na Igreja é um objetivo de terrível antagonismo por parte do inimigo.

Supremamente, a Casa de Deus é caracterizada pela adoração. Deus a trouce à existência para esse propósito. Quando você entra na esfera da Igreja viva, você entra na realidade viva dos poderes do mal, por causa da adoração. Adoração não é uma forma de palavras, ou atitude do corpo, ou mente, não somente o canto de hinos. É uma tão grande habitação nas excelências do Senhor Jesus pelo Espírito Santo que Deus está a ser glorificado. É primeiramente a expressão do coração da apreciação da graça de Deus em Jesus Cristo.


Primeiramente publicado na revista "A Witness and A Testimony", em Jul-Ago 1938, Vol. 16-4. Origem: "Chapter 5 - Worship in the House of God". (Traduzido por Marcos Betancort Bolanos)

6. A Parábola dos Talentos

Leitura: Mt 25:14-46

Tentarei expor de forma simples e clara alguns pontos principais encontrados nesta porção do ensino de nosso Senhor.


O que são os talentos

A primeira questão que vamos abordar é o que seriam os talentos. Acredito que não precisamos discutir qual é exatamente a natureza deles. O importante é reconhecer o seu significado, ou seja, o que eles representam. Evidentemente, os talentos são valores dados a nós pelo Senhor com o objetivo de proporcionar um aumento para Ele - e isso pode abranger uma grande variedade de coisas. 

Podemos dizer que tudo o que o Senhor nos concede com a possibilidade de crescimento para Ele pode ser considerado um talento. Desse modo, nossa atitude diante da vida deveria ser de vigilância para saber como, onde e o que deve ser multiplicado para o agrado do Senhor. Essa deve ser uma atitude, uma mentalidade, um estado do coração. Esses talentos têm sido considerados como um grupo muito pequeno de qualificações ou dons. O que me parece é que o Senhor está, antes, se referindo a todo tipo de coisa que pode ser feita para servi-Lo na expansão dos Seus interesses por intermédio de nossa diligência.


A Soberania de Deus na Concessão dos Talentos

Então a segunda coisa (e não vou me alongar para chegar a uma conclusão a respeito desses pontos, só quero trazer essas lições muito práticas e importantes do Senhor aos nossos corações) é que os talentos que recebemos não são responsabilidades nossa. Isso tudo é uma questão da soberania Divina. Ele deu, e deu um tanto a este, outro tanto àquele e uma porção diferente àquele outro. 

Os destinatários não eram responsáveis pelo que recebiam, nem mesmo pelo que possuíam. Isso dependia inteiramente do julgamento do Doador, e reconhecer isso possibilitava evitar que caíssem em posições falsas ou que arriscassem ir além da própria capacidade, tentando fazer o trabalho ou ascender à posição do outro. Não, o Senhor deu cada talento pelo Seu próprio julgamento, e os talentos que possuímos não são de forma alguma nossa responsabilidade. Eles são o resultado de Sua soberana graça, julgamento e sabedoria.

É extraordinário quando conseguimos avaliar e reconhecer a nossa medida. Isso traz descanso aos nossos corações, nos mantém em uma posição de segurança e resulta em mansidão no que diz respeito a isso: 'Essa é a minha medida, a minha capacidade e é isso que o Senhor me concedeu. Dentro dessa esfera me movimentarei, não me esforçarei para ser outra pessoa, para fazer o trabalho do outro, mas reconhecerei exatamente o que recebi do Senhor e o que isso representa.' Se você pensar bem, isso é muito mais útil na nossa vida do que pode parecer. Lembremo-nos, então, que a soberania de Deus assume a responsabilidade pelo nosso chamado e serviço. Essa é uma designação de Deus e Ele sabe o que está fazendo conosco.


O Prazer do Senhor, a Consideração Governante

A terceira coisa é que, acima de tudo, a satisfação e o prazer do Senhor deve ser a consideração que governa tudo que fazemos. Você perceberá que isso permeia toda esta seção da Palavra – a satisfação e o prazer do Senhor. As palavras usadas pelo Senhor para elogiar os dois servos, o homem de cinco talentos e o homem de dois talentos, foi que eles trabalharam diante de Sua face e que a recompensa deles era entrar "no gozo do teu Senhor" [vs 21; 23]. 

E na segunda parte do capítulo que veremos a seguir [vs 31-46], e que acredito que está intimamente relacionada com a primeira parte, vemos a repetição constante da expressão: "a Mim". "A Mim o fizestes"[vs 40]. "A Mim o deixastes de fazer" [vs 45]. Tudo é para o Senhor, e Ele está sempre em vista, diante do servo: tudo é para a satisfação e o prazer do Senhor.É isso que rege a vida do filho de Deus, do servo do Senhor. Tudo deve ser visto dessa maneira. Não é apenas uma questão de dever, obrigação, mandamento, mas do prazer e da satisfação do Senhor. 

Novamente, se trata de um estado do coração. Os dois servos tinham um estado de coração correto em relação ao seu Senhor. O terceiro servo tinha uma atitude de coração errada - sei "que és homem severo" [vs 24]. A atitude interior do coração em relação ao Senhor foi o que fez a diferença no resultado.

Então aqui o Senhor está dizendo, em outras palavras, que o que governa a vida de um verdadeiro servo do Senhor é que ele deve viver com o foco de trazer prazer e a satisfação ao Senhor, não deve viver buscando sua própria satisfação. Não devemos agir por constrangimento, mas devemos ser dirigidos por uma devoção de coração ao Senhor.


A regra do aumento

A seguir, o Senhor estabelece a regra para o aumento – ampliação das oportunidades e facilidades. A doação Divina é baseada na nossa fidelidade e devoção a Ele com os recursos que dispomos agora. Não há dúvida de que muita coisa se perde porque deixamos de aproveitar a oportunidade do presente, ansiando o tempo todo por uma oportunidade maior, pensando sempre no dia em que seremos capazes de servir ao Senhor mais plenamente, quando poderemos entrar no ritmo e desfrutaremos de facilidade, ocupando uma posição adequada para servi-Lo. 

Estamos sempre projetando isso para o futuro e nos apegando mentalmente à esperança de chegar um tempo quando encontraremos condições em que será possível fazermos algo grandioso e real para o Senhor, e essa vontade se torna a esperança intangível de um amanhã que nunca chega e que consome todos os ganhos e valores do hoje. Talvez seja uma das coisas mais terríveis de se contemplar; aquele momento que percebemos que poderíamos ter dado ao Senhor muito mais se estivéssemos verdadeiramente empenhados, em vez de ter ficado aguardando sempre aquele momento apropriado quando poderíamos dar-Lhe mais.

O Senhor enuncia esta regra de aumento que é: 'o caminho do aumento no Meu serviço é o caminho de total fidelidade e devoção à medida que você tem hoje' [vs 21,23]. Você pode ser uma pessoa com apenas um talento; mas existe a perspectiva, a possibilidade de você se tornar uma pessoa com dois talentos, uma pessoa de cinco talentos, mas o caminho é fazer o bem, mesmo que seja numa pequena medida. Leve isso em consideração e se assegure de que o Senhor receba todo ganho possível nesse pouco que você tem. A fidelidade hoje pode ser uma oportunidade e provisão ampliada amanhã, mas podemos assumir que a menos que haja essa fidelidade no hoje, o amanhã nunca chegará.

Agora serei muito prático sobre isso. Estamos realmente fazendo o bem dentro dos limites estreitos da nossa vida atual? Quais seriam as oportunidades que tenho no momento? Façamos um balanço das nossas oportunidades de hoje, das nossas possibilidades. Quais seriam elas? Algum de nós pode realmente dizer que não tem oportunidades na vida, que não há nada que possa ser usado para prestar contas ao Senhor hoje na sua posição atual? Não creio que alguém possa afirmar isso. Você pode ter uma esfera estreita e ter poucas oportunidades, mas você tem algumas. Talvez você esteja o tempo todo procurando uma oportunidade maior, mais completa e melhor. Isso nunca acontecerá, a menos que hoje faça o bem com o pouco que você tem.

Portanto, o Senhor nos diz aqui que o caminho do aumento, da ampliação, da dádiva e da confiança mais plena é o caminho da fidelidade e da devoção à oportunidade, a possibilidade e à medida que você tem hoje. A palavra para os dois foi "bom e fiel" [vs 21, 23].

Bom - você fez o bem ao ser fiel à sua medida de oportunidade! Compare isso com o que Ele disse ao outro homem – "Servo mau e negligente" [vs 26]. Aí está o cerne da questão. O que é maldade? É deixar de aproveitar a oportunidade que o Senhor lhe deu, e isso resulta de uma indolência interior. Lembre-se das palavras de Paulo: "No zelo, não sejais remissos; sede fervorosos de espírito, servindo ao Senhor" (Rm 12:11), ou, como Moffatt traduz, "Preservem o brilho espiritual". Essa é a chave, o brilho espiritual. O que seria esse brilho? Ora, é o oposto da indolência, seria aproveitar todas as oportunidades para o Senhor. Esse é o caminho do alargamento.


Nossa recompensa é a alegria do Senhor

Então você olha novamente e vê que a bênção e recompensa é a alegria do Senhor. Esse é o resultado do Senhor receber Sua porção, e como é importante entendermos isso - não há recompensa maior, nenhuma bênção mais completa do que ter um eco nos nossos próprios corações da satisfação do Senhor conosco. Todos nós gostamos de saber que as pessoas estão satisfeitas conosco e muitas vezes um pequeno elogio já nos deixa "extremamente satisfeitos". 

Ficaremos muito felizes se as pessoas puderem perceber e comentar que viram algo bom em nós. Bem, suponho que isso seja da natureza humana e que poucas vidas podem continuar seguindo em frente sem uma palavra sequer de elogio de vez em quando. Acho que o Senhor indicou que deseja que encorajemos uns aos outros dessa maneira, elogiando uns aos outros, mas se isso é verdade no âmbito da vida humana, quão maior será ter o testemunho nos nossos corações pelo Santo Espírito de que o Senhor está satisfeito conosco. Isso poderia ser como o paraíso para nós, e acredito que essa seja a chave deste capítulo.

Você percebe que toda a questão aqui se resume em céu e inferno. Há coisas terríveis aqui neste contexto sobre o inferno. "Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos" [vs 41]. Existe o inferno; o céu, por outro lado... embora não descarte nada definido como o céu e o inferno, penso que a própria natureza do céu ou do inferno se resume nisso: o prazer ou o desagrado do Senhor registrado positivamente na nossa alma. Isso pode se tornar no nosso céu ou no nosso inferno, e saber que o Senhor diz: "Muito bem, servo bom e fiel; foste fiel" [vs 21, 23] - ouvir o Senhor dizer isso pode trazer o céu para dentro dos nossos corações, mas essa é, na verdade, a Sua própria satisfação, prazer e deleite encontrando um eco em nossos corações. Nossa recompensa e bênção será essa: não há nada mais gratificante do que isso.


"Para mim"

Então, a última coisa. O que significa que o Senhor recebe a Sua porção, encontra o Seu prazer e satisfação - pois tudo está atrelado e depende disso? O que isso significa? Se a nossa atitude em relação à vida for a de que o Senhor esteja satisfeito e receba a Sua porção, se essa for a consideração que governa tudo, se os talentos apenas extraírem o seu significado das possibilidades que possuem para trazer satisfação ao Senhor, se a regra de incremento for a nossa atitude em relação ao prazer do Senhor para usar a oportunidade de hoje e a medida de possibilidades do agora, então o que significa isso - que o Senhor recebe Sua porção, Sua satisfação, Seu prazer?

Isto é extremamente prático e é aqui que penso que a segunda parte do capítulo se relaciona com a primeira. 'Na medida em que você fez isso (ou não fez isso) a um destes pequeninos, você fez isso (você não fez isso) para mim' [conf vs 40; 45]. 

Digo que isso é prático e nos mantém com os pés no chão. Isso nos salvará de uma falsa posição espiritual que está sempre tentando de alguma forma agradar, servir e fazer as coisas para o Senhor, mas negligencia cento e uma questões práticas do dia a dia relacionada aos interesses dEle relacionadas a nós. Isso aproxima as coisas da realidade. Ele diz que aquele que é necessitado, seja qual for a necessidade, é o próprio Jesus Cristo, no sentido prático para nós. É uma coisa terrível de se contemplar, mas olhar para este preso, aflito, necessitado, não fechar os olhos e ainda dizer: 'Aí está o Senhor Jesus necessitado!' - Isso é prático, não é? Não se trata apenas imaginação, é o que o Senhor diz aqui. Ele está dizendo, na verdade: 'Você não pode ter uma atitude em relação a um deles sem tomar essa atitude em relação a Mim; qualquer que seja a sua atitude, essa é a sua atitude em relação a Mim, porque eles representam uma oportunidade, a necessidade deles chama o que você tem de Mim para atender a essa demanda. 

Ao dar o que você tem de Mim, haverá um aumento Meu ali, e é isso que Meu coração está determinado a fazer - ganhar terreno, território, ampliar o espaço!'Oh, sinto, amado, que uma de nossas necessidades é sermos salvos de posições espirituais falsas. E uma delas é esse tipo de vida e obra espiritual, essa posição e mentalidade espiritual tão abstrata que simplesmente perde mil e uma situações práticas ao seu redor. Então, tudo se volta para o que estávamos dizendo no início. Como o Senhor recebe Sua porção: Qual é a minha oportunidade neste momento, qual é a necessidade ao meu redor? É claro que não me refiro ao plano meramente social, não é nisso que estou pensando. 

Falo de Cristo ganhando terreno, de serviço ao Senhor, cuidar dos interesses do Senhor. Qual é a minha oportunidade agora nesse sentido? Qual a necessidade ao meu redor? Como posso enfrentar essa situação com Cristo? Essa é a verdadeira vida e serviço cristão. Digo que é muito prático, mas nos sonda e nos desafia. Isso trará as coisas à luz e nos salvará de uma posição falsa. Aqui está uma necessidade de Cristo – esse é o ponto. Se ao menos o Senhor pudesse entrar ali, haveria algo para Seu prazer, satisfação, glória, e essa atitude em relação aos nossos contatos, associações, oportunidades todos os dias é o que o Senhor quer dizer com fazer ou não fazer isso para Ele.

O Senhor é personificado em cada oportunidade que nos é dada para trazê-Lo à luz. Você entende isso? Lá está Ele, de fato. Basta seguir essas coisas em silêncio e pensar sobre elas, pois aqui está a palavra do Senhor para governar nossas vidas. A oportunidade pode ser pequena – isso é problema dEle. Se ela será expandida, compete a mim, o aumento depende de minha devoção e fidelidade. Mas o que deve governar em meus pensamentos e permanecer diante dos meus olhos não é a ampliação de minha oportunidade e influência, mas o prazer do Senhor, Sua Satisfação - um estado de coração devotado a Ele.


Editado e fornecido pela Golden Candlestick Trust. Origem: "The "Parable of the Talents" (Traduzido por Maria P. Ewald)

7. Acerca de Jerusalém

Leitura: Neemias 1:1-11

Em Esdras e Neemias, os quais são realmente duas metades de um todo, e forma uma narrativa, há um sentido no qual o todo pode ser reunido em três coisas representativas e simbólicas que são achadas lá em Jerusalém, principalmente, o Altar, A Casa e o Muro. Podemos dizer que estas três coisas representam Jerusalém, pois quando você analisa o desempenho do coração em Esdras e Neemias, tem a sua operação e a sua expressão quase, se não for inteiramente, em conexão com essas três coisas. 

Houve outras fases e características, mas todas eram dirigidas em direção a estas três coisas, o altar, a casa e o muro. Estas três ocupavam a atenção e energia deles, e assim podemos dizer que isso é o que se entende por Jerusalém, e era um assunto de preocupação com Jerusalém como estando reunida nessas três coisas. E quando você pergunta pelo significado espiritual do Novo Testamento de Jerusalém, a resposta sem dúvida é que Jerusalém representa a inclusividade e plenitude de Cristo. 

Poderíamos analisar isso diretamente pela Palavra para um benefício muito grande. Não é a nossa intenção fazer isso pelo momento, mas se você está precisando de um pouco de trabalho com a Palavra em algum momento, sugeriria a você que estudasse Jerusalém nessa perspectiva: a inclusividade e plenitude de Cristo. E se você quiser acelerar o seu estudo para uma rápida conclusão, comece em Apocalipse, pois lá a Nova Jerusalém, a Jerusalém celestial é sem dúvida a plenitude de Cristo.


Quando Neemias fez a sua indagação, ele descobriu o estado de ruína em que Jerusalém estava. O altar desapareceu, a casa tinha sido destruída, e o muro tinha sido derrubado, até que Esdras retornou, substituiu o altar, reconstruiu a casa, mas ainda havia uma representação imperfeita de Cristo lá, as condições eram, portanto, insatisfatórias e desoladoras. O altar desaparecido; isso resultou em derrota espiritual, pois o altar foi colocado no seu lugar porque o povo tinha medo por causa dos povos ao redor, de modo que o altar se tornou a ocasião da remoção do medo deles, o símbolo de proteção, segurança, libertação, vitória, mas com o altar desaparecido, se segue a derrota espiritual. A casa destruída; logo a vida espiritual e comunhão, e plenitude do povo do Senhor desapareceu, pois a casa entra depois do altar, como uma coisa celestial, por meio da cruz, como aquilo em que o povo do Senhor têm comunhão e plenitude em vida celestial. O muro derrubado; logo o testemunho da plenitude de Cristo para o mundo desapareceu, e Jerusalém está em ruínas e o testemunho do Senhor na sua plenitude como representado desse modo é inexistente. O resultado dentre o povo do Senhor é um estado de servidão, daquilo que representa um estado de sujeição aos poderes do mundo, desonra, isto é, uma perda da dignidade, vergonha e repreensão. 

E mais, cisão e discórdia dentre o povo do Senhor, pois este livro revela uma boa quantia disso dentre os judeus em Jerusalém e em redor. E então, pobreza, pobreza terrível. Você lê isso novamente e perceberá como era quase impossível para eles sobreviver. Estas são as consequências de um altar desaparecido, uma casa destruída e um muro derrubado. São sempre as consequências daquilo que é tipificado desse modo. Numa palavra, quando a cruz, na plenitude do seu significado, está fora de lugar, então há derrota espiritual dentre o povo do Senhor. Quando a casa, a verdade da Casa de Deus, a igreja, o Corpo de Cristo é negligenciada, ou ignorada, ou não capturada e aplicada, o resultado é que a vida celestial e comunhão celestial, e a plenitude celestial desaparece. E quando o muro, o testemunho da plenitude do Senhor ao Seu povo, é derrubado, então não há nada mais que mostrar ao mundo, o testemunho para o mundo é destruído.


O resultado para o povo do Senhor é que eles são levados a um estado de servidão, e esta é, de longe, a maior condição do povo cristão do que o oposto. O cristianismo está em servidão ao mundo. Está quase indo de joelhos implorando ao mundo para que permita existir. Está fazendo tudo que pode a fim de obter o favor do mundo; está em servidão, está pagando seus dízimos ao mundo. Cada vez que você vê um aviso ou uma propaganda sobre uma venda, um concurso ou um bazar, ou algo assim, você sabe que lá há servidão ao mundo, e se vê obrigado a implorar a sua própria vida do mundo; tanto assim que muitos cristãos estão chegando a sentir que é demasiado caro pertencer a uma igreja, existem tantas coisas pelas que pagar. Ó, a vergonha disso, o descrédito para o Senhor, a indignidade, a desonra. E quanto à discórdia e a cisão dentre o povo do Senhor; e a pobreza espiritual; que tão poucos têm alguma coisa para dar de abundância, recursos e riquezas espirituais, para os demais. Isto é por causa da cruz, em todo seu significado da plena vitória e libertação não estar no seu lugar. O altar desapareceu. 

É por causa da grande verdade, a realidade da Casa de Deus, o Corpo de Cristo não estar em operação; isso conduz à discórdia, isso conduz à divisão e cisão, isso conduz à pobreza espiritual. Que é o oposto de pobreza espiritual nesta conexão? Ora, uma assembleia constituída nos princípios do Corpo de Cristo no qual todos têm algo para dar. O oposto disso é uma congregação, com somente um homem preparando algo dia após dia para dar para o povo, e se esse homem ficasse doente não haveria uma alma na congregação que assumisse o serviço ou desse uma mensagem, então eles devem andar em correrias para achar um pregador: toda a congregação está em pobreza espiritual sem um fragmento de comida para dar. Isso é por causa de que a verdade, a grande verdade da Casa de Deus não está em operação. 

Consiga introduzir essa verdade e todo o povo de Deus serão sacerdotes, e todos vocês terão algo para dar. Está você no benefício da verdade da Casa de Deus? Você tem riquezas e abundância espiritual? Assim é como o Senhor quer que Jerusalém seja: a plenitude de Cristo.


E então o muro se segue, e o muro é a expressão circunferencial externa do que está dentro. Isto é, dentro do muro está a plenitude de Cristo, e o testemunho de Cristo como a máxima satisfação para o Seu povo é transmitido ao mundo; este é o testemunho para o mundo de que em Cristo há plena satisfação. Isso é Jerusalém. E essa era a preocupação de Neemias, e a preocupação de Esdras com Jerusalém, pois eles representavam o completo significado de Jerusalém na cruz, e a casa de Deus, e o testemunho às nações da plenitude de Cristo, pela Sua cruz e na Sua Casa. Mas aqui não era assim; o mundo estava no controle e Jerusalém estava submergida. O povo de Deus estava espiritualmente dividido e disperso. Ora, o que temos aqui é a restauração, e Esdras e Neemias lidaram com todo o estado das coisas para recuperar a plenitude do testemunho do Senhor em Jerusalém, e o que eles recuperaram tipologicamente era, a plenitude de Cristo. 

E essa é a preocupação do tempo do fim do Senhor que Ele colocaria no coração de um instrumento em relação à Sua Volta. Um verdadeiro interesse pela restauração da plenitude de Cristo, o testemunho de Deus em Cristo da Sua inclusividade e plenitude. O que é, outra vez, a plenitude de Cristo? É a vitória da Sua morte como é representada pelo altar, a cruz. A vitória da morte de Cristo. Não nos vamos alargar nisso muito no momento, mas devemos ver que na medida em que esse altar em Jerusalém era o símbolo da libertação e segurança na presença dos inimigos em volta, a cruz, a morte do Senhor Jesus é a libertação do Seu povo do poder das trevas, a tirania do diabo, as forças do mal, e se torna o terreno da segurança deles mesmo quando o inimigo está rugindo em volta. A morte de Cristo é a nossa vitória. 

O testemunho da cruz é que na Sua cruz Ele triunfou. O grande, grande poder na morte de Cristo para destruir a morte e aquele que tinha o poder da morte, que é o diabo. Devemos deixar que todo o peso disso caia nos nossos corações, "...para que pela morte destruísse aquele que tinha o poder da morte, isto é, o diabo; e livrasse todos aqueles que, com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à escravidão". Foi a Sua morte, uma morte destruidora de Satanás, uma morte libertadora do poder do diabo. Essa é a cruz, e o "medo da morte". "...e livrasse todos aqueles que, com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à escravidão". Ele libertou através da morte. Esse é o primeiro aspecto da plenitude de Cristo como revelada na Sua cruz.


Então, o poder da Sua ressurreição como representada pela Casa de Deus, ou o Corpo de Cristo, porque é o Corpo de Cristo e a Casa de Deus que se torna o repositório da verdade e poder da Sua ressurreição. A Casa é o resultado, como temos visto, da cruz. O Corpo de Cristo vem a existir através da cruz, como a imediata consequência da cruz, e Ele entra nesse Corpo no poder da Sua ressurreição; na sala superior, na vida e poder da ressurreição, Ele é achado imediatamente no meio. "...veio Jesus e permaneceu no meio", e isso representa para toda esta dispensação, a natureza da igreja. É aquilo em que Cristo no poder da Sua ressurreição, está habitando, está residindo. Isso é Jerusalém. Essa é a plenitude de Cristo como vista na Casa.


E logo, o testemunho da Sua suficiência para o Seu povo como representado pelo muro. O Senhor é suficiente para o Seu povo, e era esse o objetivo de Neemias, conduzir o povo para dentro dos muros e lhes dizer que o Senhor era suficiente para eles. E através de todo o conflito, toda a prova e as dificuldades, e as perplexidades, e inquietações que são vistas no curso da reconstrução desse muro, o ponto contínuo de optimismo, louvor e gloriar por parte de Neemias era em relação à suficiência do Senhor para a inteira situação. Ele inspirou o povo com isso e assim em seis messes toda a obra foi terminada, porque o povo tinha uma mentalidade trabalhadora. Eles tinham essa mente porque Neemias inspirou eles com a sua própria confiança na suficiência do Senhor, e todos os de fora chegaram a reconhecer que os que eles tinham chamado "estes fracos judeus" tinham obtido um recurso de plenitude que era superior ao dos homens, a plenitude do Senhor; e esse era o testemunho externo à plenitude de Cristo.


Então, Esdras e Neemias restauraram tipologicamente, aquilo que representava a plenitude de Cristo. E nós aplicamos isso, é claro, para ver que isso é o que o Senhor está procurando fazer num tempo do fim. Sempre a restauração é mais difícil do que a construção original. Quando algo é perdido, sempre resulta mais difícil recuperá-lo do que foi para originalmente estabelecê-lo. Chegamos ao livro de Atos e vemos a coisa entrando em vida, espontaneamente, em poder. Foi resistido, foi combatido, mas permaneceu lá em toda a sua glória original, e poder, e esplendor. 

Mas foi perdido, e para que seja recuperado, representa uma tarefa muito maior. Assim percebemos que este livro representa a dificuldade da restauração. Estamos chegando a ver o que essas dificuldades são num momento. E depois, a restauração não é somente marcada por dificuldades que são naturais para uma perda de posição, mas a restauração é também cheia da oposição de todos os engenhos satânicos que se possam imaginar. Se o diabo está por trás da perda do testemunho, podemos estar certos de que ele resistirá a sua recuperação com todos os meios ao seu comando. Estas são as duas coisas que surgem tanto no livro de Neemias: as dificuldades da restauração de dentro e a resistência do inimigo de fora.


Vejamos algumas destas dificuldades, as dificuldades da restauração. Há uma frase que indica uma dificuldade inicial para Neemias. Enquanto ele estava dando voltas na sua investigação secreta pessoal pela noite, não tendo falado com ninguém, pessoalmente e secretamente se exercitando sobre todo este assunto, uma frase que é usada sobre a situação é esta: "...há muito entulho", e isso é sempre uma característica de restauração. Você não tem isso no mesmo sentido no cenário original ou constituição, você tem mais ou menos um caminho aberto para algo novo, mas quando se trata de renovar algo você descobre que enquanto isso uma boa quantia de entulho foi acumulado, e no lugar onde o muro outrora estava, agora há muito entulho. E lembre que esse muro é posto para representar a clara definição do que é de Deus e do que não é de Deus. Define o ponto onde o que é de Deus termina e o que não é de Deus começa, mas é uma marca clara de divisão. Ora, quando Neemias chegou ao lugar que fora marcado tão definidamente, tão precisamente, tão claramente, e que você poderia dizer: "As coisas de Deus terminam aí, e as coisas do mundo começam aí, e o muro faz essa divisão claramente", esse mesmo lugar que fora a marca clara de definição e divisão, e separação está cheia de todo tipo de entulho. Ou seja, a clara definição desapareceu, você não sabe onde terminam as coisas de Deus e onde começam as coisas do mundo. 

Existe essa sobreposição e mistura entre si, tanta confusão, tanta bagunça que a clara definição é perdida. "...muito entulho". Poderia ser perigoso tentar aplicar isso exaustivamente - mas o homem, mesmo religiosamente, tem colocado uma boa quantia sobre o que uma vez representava a linha clara de Deus de demarcação que até o povo cristão não sabe onde está hoje. O homem tem construído suas próprias interpretações do Cristianismo e da verdade, tem introduzido seus próprios sistemas e tem confundido as coisas tanto que você realmente não sabe a menos que você tenha um claro discernimento, como o que Neemias tinha, o que é de Deus e o que não é de Deus. Existem multidões de pessoas boas, honestas e sinceras que realmente estão na mais terrível neblina quanto ao que é de Deus e ao que não é de Deus religiosamente. Os sistemas religiosos do homem têm causado essa confusão e multidões de pessoas honestas acreditam com todo os seus corações que a coisa em que eles estão é de Deus, e é justamente possível para eles terem um despertamento para ver que toda aquela coisa era provocada pelo homem e não de Deus em absoluto. "...muito entulho". 


Paulo era um desses. Reflita sobre a sua vida passada, privilégios, heranças que ele uma vez acreditava serem tão completa e absolutamente de Deus, para ele, e que ele realmente estava dentro da vontade de Deus. Ele chegou a um tempo em que ele disse: "As coisas que para mim eram lucro, essas coisas as tenho como perda por causa de Cristo". "...pelo qual sofri a perda de todas as coisas, e as considero como refugo, para que possa ganhar a Cristo"; e, contudo, ele era tão devotado a tudo isso como um sistema religioso tradicional no qual ele uma vez estava vivendo como sendo de Deus, que tinha agora se tornado meramente uma coisa externa de formas e leis externas. Ele acreditava, no entanto, que era tudo de Deus até que a luz brilhou, até que ele viu que na comparação com a plenitude de Cristo era refugo. É uma palavra forte que ele usa; a palavra que ele usa é "coisas para lançar aos cachorros". 

Saulo de Tarso lançando o seu Judaísmo aos cachorros! Ele o fez quando viu Cristo. Você nunca pode sair do entulho até que você veja Cristo. Peça ao Senhor para lhe revelar a plenitude de Cristo e você descobrirá que as coisas que agarravam e asseguravam você se convertem em mero refugo, coisas a serem lançadas aos cachorros. Havia muito entulho no lugar que uma vez representava uma clara linha de divisão entre o que era de Deus e o que não era de Deus; confusão, mistura. 


Não tentarei aplicar isso muito mais. O Senhor terá que nos mostrar por revelação, o que o entulho é, mas aí está a simples declaração e contém uma verdade, e você e eu teremos que realmente pedir ao Senhor para nos mostrar mesmo nos assuntos religiosos, onde o homem termina e Deus começa, ou onde Deus termina e o homem começa, para que sejamos libertos de tudo que o homem tem imposto ou acrescentado ao que é de Deus, e seremos capazes de ir direito às fundações, o entulho sendo removido: e existe uma grande quantia de entulho eclesiástico por toda parte nestes dias que tem de ir. 

Recuperar o pleno testemunho do Senhor Jesus supõe uma autêntica dificuldade. São os sistemas há muito defendidos do homem religiosamente, as tradições dos homens, aquilo que o homem trouce para o Cristianismo e disse: "Isto é de Deus". Para obter o pleno testemunho do Senhor Jesus você se depara com isso muito acertadamente e muito severamente, e você descobre que as pessoas são confrontadas com a grande obstrução das suas heranças e as suas aceitações antes que possam chegar direito à plenitude do Senhor Jesus. Leva muito tempo para retirar esse entulho - é assim.


Logo, a segunda coisa era a passada história deles que tenderia a ser uma base de grande desanimo, até desespero, e os lançaria num estado de inércia, paralisia. Eles olhariam para trás no passado e diriam: "Sim, os bons velhos tempos, nunca voltarão, não podemos esperar ter as coisas de novo como eram; se foram para sempre". "Qual é a vantagem de tentar restaurar?" Você encontra bastantes pessoas hoje que, em face de um esforço divinamente inspirado para restaurar a plenitude do testemunho de Cristo no Seu Corpo, dirão: "Ó sim, mas têm havido muitas coisas assim nos séculos passados, um grande número de pessoas têm tentado isso e sempre falhou". "Fulano e beltrano lideraram um movimento assim, e em outro tempo houve uma outra coisa que disse que era seu objetivo, e têm havido bastantes tentativas nesse sentido, mas a história mostra que eles não tiveram sucesso e um após o outro se decompuseram; qual a vantagem?" Veja há uma história, e uma história ruim da igreja, e há bastantes pessoas hoje que caem no desespero e dizem: "Bem, a única coisa que nos resta é vivermos como crentes individuais e nunca termos nada corporativo, e tentar sermos pessoalmente frutíferos para o Senhor". 


Esse é o conselho do desespero. Isso é completamente contrário ao Senhor. Nós não estamos pensando num grande mover mundial, numa coisa pública grande, mas se somente fosse numa companhia de uma dúzia que o Senhor tiver uma plenitude autêntica da realização do Seu fim, que é uma contradição de todos esses conselhos de desespero, e que é a resposta de Deus à obra do diabo. E você acha que está bem para nós assentarmos e dizermos ao Senhor que Ele começou a fazer uma coisa e isso tudo foi estragado e não serve de nada Ele tentar fazê-lo? "Senhor, no começo o Seu Plano, o Seu caminho era ter o Seu pleno pensamento e desejo como é representado pelas companhias pequenas aqui e lá; as coisas deram erradas, o Seu objetivo foi estragado, o diabo entrou e perturbou tudo, e é completamente impossível para Você reparar qualquer ideia ou ideal desses". 

Você está preparado para lançar isso ao Senhor? Nem um pouco. Neemias não aceitará isso, e Neemias representa o espírito de um mover do tempo do fim, e diz: "Bem, se somente for numa pequena companhia aqui e lá e em algum outro lugar, Deus pode ter aquilo que satisfaz o Seu coração, e se a satisfação do coração do Senhor é para ser realizado nesse sentido então é assunto nosso, e não devemos ficar desanimados pela história passada". Lembramos de moveres antigamente que eram grandes moveres, moveres abençoados e representavam algo muito rico para o Senhor, e depois eram perturbados e detidos, e por isso dizemos: "Bem, não adianta tentarmos alguma coisa, o mesmo resultado se seguirá". Isso é contrário ao espírito de Neemias. Um instrumento como Neemias repudia todos os argumentos e conselhos como esses, e diz: "Apesar da coisa ter falhado milhares de vezes, Deus é ainda capaz de fazer aquilo no qual Ele fixou o Seu coração" - e a resposta finalmente a toda a obra do diabo, será que Deus tem aquilo no qual o Seu coração se fixou. Deus não pode ser derrotado. 

Quando você e eu chegarmos à gloria e vermos o que Deus obteve lá, diremos: "Isto é aquilo sobre o que o Senhor colocou o Seu coração; aqui está..." "Parecia para nós como se tivesse se tornado não existente e completamente impossível; parecia para nós como se o inimigo tivesse destruído a coisa toda - mas aqui está". Deus responderá a todas as obras do diabo e terá finalmente aquilo no qual Ele fixou o Seu coração. Estamos com Ele nessa fé e confiança? O que Ele obterá no final, Ele pode obter pelo menos numa certa medida agora em pequenas representações aqui e lá, Seu próprio desejo e pensamento. As condições são tais que se você escutar o salmista, você nunca tentará nenhuma coisa nesse sentido; se você escutar os que falam dos "bons velhos tempos" que nunca poderão voltar de novo, você será paralisado.


A terceira dificuldade - homens na carne estão demasiadamente em possessão. Homens na carne têm tomado a possessão do território do Senhor e as coisas do Senhor. Acaso não nos deparamos com dificuldades dessas? A dificuldade dos interesses adquiridos de tantas pessoas; os seus ofícios e posições, reputações e nomes, e suas outras milhares de coisas. O homem tem ficado no caminho de Deus e no lugar de Deus, e por isso você se depara com esses interesses pessoais de tantas pessoas na obra do Senhor, que a restauração do pleno testemunho do Senhor Jesus é excessivamente dificultada. Neemias encontrou isso.

Nós vemos que as condições neste livro eram que havia aqueles lá que tinham tomado posse e que tinham posição, e detiveram as atividades de Neemias, os nobres e outros. Bem, agora, nós nos deparamos com isso. 

Você vai para obter algo que é totalmente do Senhor e você encontra pessoas no caminho, homens e mulheres na carne criando dificuldades. A necessidade muitas vezes é para o Senhor quebrar o homem ou colocá-lo para fora. Não é essa a dificuldade? Eles tomaram controle, eles estão dirigindo isto, isto é as suas obras, isto rodeia eles, eles eram os fundadores disso e vive ou morre com eles. Ora, se você quer algo da universalidade de Cristo, a preeminência de Cristo, que não tem espaço para o homem, mas que é totalmente ocupado pelo Senhor Jesus, ou esses homens e mulheres na carne têm que ser esmagados, reduzidos ao pó, ou então o Senhor terá que colocar eles para fora ou senão Ele não poderá fazer nada - e isso é sempre uma dificuldade na restauração.


E a quarta coisa era o empobrecimento do povo do Senhor: a dominação do mundo. Neemias encontrou esse empobrecimento dentre o povo em Jerusalém. Isso representava para ele uma grande dificuldade para recuperar o testemunho. Temos nos referido à dominação do mundo, e, portanto, ao empobrecimento resultado do povo do Senhor. Estas duas coisas sempre vão juntas. O sabemos pela experiência, que se o mundo tiver espaço nas nossas vidas, ou no que é chamado a igreja, o empobrecimento espiritual será achado lá, pobreza espiritual. Quando o mundo é descartado absolutamente e Cristo é tudo em todos, sempre haverão as riquezas de Cristo, sempre há o meio de Deus para avançar. Temos dito muitas vezes que quando descemos para Egito o Senhor nos deixa tomar a responsabilidade para levas as coisas. Quando nós repudiamos Egito e colocamos a nossa confiança no Senhor, e fazemos Dele o nosso recurso, Ele toma a responsabilidade para avançar. E isso é um testemunho fiel à vida. 

Nós, sem nenhuma vanglória em absoluto, ou regozijo, ou vangloria na carne, somos capazes de dar o nosso testemunho muito, muito definidamente disso. Havia um tempo na nossa história em que descemos para Egito, quando tivemos que extrair os nossos recursos do mundo para continuar o que chamávamos a obra da igreja. Foi um tempo abençoado na nossa história quando o Senhor nos fez repudiar Egito e parar todo o programa de apelos ao mundo em qualquer sentido, e nos fez voltar para Ele e Lhe dar o Seu lugar, e a partir desse dia até hoje Ele tem nos ajudado e continuado, e não temos tido falta de nada; mas antes, nós somos um constante assombro para os demais a respeito de onde os recursos vem. isso não é se gloriar na carne, não quero que pareça dessa maneira; é um testemunho, e é transmitido para reforçar a verdade do que estamos dizendo. 

A habilidade que o Senhor dá para fazer muito mais pelos demais quando Ele tem o Seu pleno lugar é incrível. Então você não vai de chapéu na mão ter com o mundo, você tem algo para dar ao mundo, você tem o conhecimento da plenitude de Cristo e seus muros estão levantados, seu testemunho externo é estabelecido e você não precisa extrair do mundo por nada, mas você tem algo para dar ao mundo e o mundo está em pobreza em comparação. Mas aqui havia empobrecimento porque o Senhor não tinha o Seu pleno lugar e os muros estavam derrubados. Mas isso é sempre uma dificuldade.


Não temos tocado o lado satânico desta restauração, mas podemos deixar isso para mais tarde. O Senhor simplesmente nos dá essa clara percepção, apreensão para ver o que o Seu pensamento é e termos a nota positiva. Sinto que precisamos reconhecer o valor de uma nota positiva. Não vamos denunciar isto e aquilo e termos a nota negativa todo o tempo, devemos ter esse lado positivo das coisas que porque temos o que temos, por mera comparação os demais podem ser compelidos a ver que a posição deles não é a certa. Não porque dizemos que é errada, não porque estamos pregando que eles estão errados, mas porque eles têm que ver sem nada que pudesse sair de nossos lábios, que nós temos o segredo. Esse é o caminho da eficácia. Nós temos o segredo, e o segredo é o próprio Senhor. Que o Senhor possa nos conduzir até a Sua plenitude, a plenitude de Cristo, a nossa plena satisfação.


Editado e suprido por Golden Candlestick Trust. Origem: "Concerning Jerusalem". (Traduzido por Marcos Betancort Bolanos)

8. Cidades de Refúgio

Leitura: Deuteronômio 19:1-13

Consideremos as impressionantes características das cidades de refúgio, cujo aspecto exterior e literal está claramente descrito no texto Bíblico, não sendo difícil de entender. Entretanto, tais características representam também princípios espirituais de grande importância para nossa consideração.

Ao lermos a história, conseguimos saber exatamente a finalidade dessas cidades de refúgio, o que estava no pano de fundo no caso do assassino que cometeu um crime involuntariamente, e para quem o Senhor tinha feito tal provisão.

Então, somos conduzidos ao futuro, por meio desses tipos, ao grande Antítipo, o nosso Senhor Jesus, que foi a Própria Graça de Deus encarnada - essas cidades de refúgio eram uma prefiguração da graça de Deus em Cristo. Este é o antítipo! O que foi prefigurado é bem mais grandioso do que o tipo, indo muito além da ilustração - como sempre acontece. Isso pode ser visto quando chegamos ao Calvário e ouvimos o Senhor Jesus orando ao Pai da cruz: "Pai, perdoa-os; porque eles não sabem o que fazem" [Lc 23:34]. Em incredulidade, cegueira e ignorância, os judeus se tornaram culpados do sangue do Filho de Deus, se tornaram assassinos, e aquela oração do Senhor Jesus por eles os assegurou uma cidade de refúgio, um lugar que aqueles assassinos pudessem ser livres da vingança. O mesmo espírito é encontrado nas palavras de Estêvão: "Senhor, não lhes imputes este pecado!" [At 7:60].

Como o antítipo vai muito além do tipo, é até difícil harmonizar as duas coisas: o fato de ter havido ódio, malícia, vingança, amargura e, ainda assim, ignorância. A graça de Deus foi tão longe, a ponto de ver aquele ódio cego e ignorância e, mesmo assim, fazer provisão por aquilo que eles fizeram naquele estado de incredulidade e ignorância. Aquela provisão foi feita por eles, mas apenas alguns poucos se aproveitaram dela. Entre aqueles poucos estava Saulo de Tarso, que falou depois a respeito de ter corrido para tomar refúgio nAquele que era poderoso. Ali estava uma pessoa amargurada, cheia de ódio, ira e rancor, mas sabemos como ele posteriormente confessou que fez aquilo em ignorância [1 Tm 1:13], que verdadeiramente acreditava que estava fazendo a coisa certa, e que deveria fazer muitas coisas contrárias ao Nome do Senhor Jesus. E o Senhor levou em consideração as trevas, a cegueira, a ignorância que se expressou, mesmo no mais amargo ódio por Ele. A oração do Senhor na cruz foi ouvida e Saulo de Tarso encontrou a Cidade de Refúgio, apesar de ter sido um assassino: uma Cidade de Refúgio no Senhor Jesus.

Fazemos bem em meditar a respeito da graça de Deus. Existem profundezas da nossa natureza que nunca perscrutamos ou compreendemos, mas, como o Senhor foi fundo nas maiores profundezas da nossa inconsciente necessidade! Existem profundidades de inconsciente necessidade, no que tange ao pecado na nossa natureza, grandes profundezas! Mas, bendito seja Deus, pois Ele fez provisão no Seu Filho por tudo, até o fundo do poço da nossa natureza pecaminosa. Além do alcance e esfera da nossa consciência, o Senhor proveu refúgio, um lugar de cobertura, um meio de graça.

Não sei por que o Senhor está trazendo isso à luz logo no início dessa mensagem, mas independente de ter uma aplicação específica e um objeto em Sua mente para alguns, certamente isso deve trazer a cada um de nós um frescor para louvar e magnificar a graça do Senhor. É simplesmente difícil chegar a uma correta estimativa do mal que fazemos ao Senhor (e um ao outro, que é ao Senhor) e o reconhecimento e compreensão de quão ruim aquilo foi. Se por um lado pode ter sido algo de mal, por outro lado, pode não ter havido uma consciência tão real do mal cometido. Podemos até acordar para isso algum dia, e então vermos e reconhecermos a profundidade do erro, e quão grande foi a graça de Deus por não termos sido julgados de acordo com o que Deus viu. A graça de Deus é algo muito maior do que imaginamos, muito mais profunda. Nosso senso de pecado e mal é sempre menor do que de fato Deus vê, porque Ele vai até as profundezas do Seu próprio julgamento de pecado, diferente do julgamento do homem.

Um dia nós veremos como o pecado é pecaminoso, e quão horroroso é o mal no seu princípio e natureza, e então veremos quão grandiosa foi a graça de Deus. Se compreendemos qualquer coisa sobre aquilo que incita o cântico dos redimidos, é porque estes foram levados a ver quão grandiosa foi a sua redenção, quão profunda foi a necessidade dela, e como foi maravilhosa a graça de Deus [pelo contexto, o autor provavelmente se refere a Ap 14:3,4]. Nós então cantaremos do nosso Redentor e de Seu extraordinário amor por nós, como não podemos cantar agora, porque ainda não chegamos ao lugar onde podemos reconhecer a pecaminosidade do pecado como Deus o vê, mas quando estivermos ao Seu lado, veremos como Ele vê, e então não saberemos como expressar nossa apreciação pela graça de Deus. Isso significa que o curso da vida do crente deveria ser de um aumento da apreciação da graça de Deus, e esse é o teste. Se estamos fazendo qualquer tipo de progresso espiritual, mas este falha em nos trazer sob uma forte e cada vez mais poderosa percepção da pecaminosidade do pecado e, consequentemente, da grandeza da graça de Deus, este não é um verdadeiro progresso espiritual. Se o progresso espiritual não representar para nós que o pecado se tornou mais hediondo, mais terrível, então este é um progresso falso. O verdadeiro avanço para a luz é reconhecer quão negra é a escuridão, e esse reconhecimento deve estar se aprofundando em nossos corações. A graça de Deus – ou as cidades de refúgio - deve se tornar muito preciosa para nós. Colocando isso em termos do Novo Testamento, o Senhor Jesus, em Sua obra universal para nós, deve se tornar mais e mais precioso, pelo refúgio que Ele proporcionou, pela graça de Deus demonstrada naquelas cidades de refúgio.

Outro fator a ser levado em consideração, além do fato de ser o Senhor Jesus, Ele próprio, a cidade de refúgio no sentido máximo, é que tais cidades me parecem representar algo da natureza corporativa do Senhor Jesus em Sua igreja. É verdade que Saulo de Tarso encontrou seu refúgio em Cristo. Aquele assassino, aquele que consentiu na morte daqueles que eram de Cristo, e se opunha ao Senhor Jesus até a morte, encontrou refúgio Nele. Mas, podemos notar que o Senhor Jesus não deu a ele nenhuma resposta completa e plena satisfação, até que ele foi até a assembleia em Damasco: "Vá para Damasco, onde te dirão todas as coisas que será indicado a fazer". E quando ele foi à Damasco, em meio ao povo do Senhor, a palavra do Senhor o encontrou e ele se levantou e foi batizado, seus pecados foram lavados e o Senhor selou a paz e perdão ali. O que quero dizer com isso é seguido no livro de Josué, onde os Levitas estão na posse das cidades de refúgio. Isso indica que o Senhor proveria, em meio ao Seu povo, um ministério sacerdotal, por meio do qual haveria uma cobertura, um refúgio, libertação e segurança. O Senhor estaria no meio do Seu povo para libertar do acusador o assediado, pressionado e fugitivo.

Isso funciona de duas formas: para tal pessoa, o Senhor proveria, entre o Seu verdadeiro povo espiritual, um ministério de intercessão, um ministério sacerdotal. Ali o homicida poderia ser liberto do opressor, perseguidor, da condenação e do acusador, que é aquele que assedia e persegue até trazer ao julgamento, condenação e morte. O Senhor proveria para tal pessoa, entre o Seu próprio povo, meios de graça para o seu socorro e proteção. "Vá para Damasco", busque aquele ministério sacerdotal, busque aquele socorro entre o povo do Senhor. Se você se sentar lá fora e se afastar, o perseguidor o perseguirá e o acusará. Mas, venha para o meio e busque o ministério Levítico entre o povo de Deus, na virtude do sangue derramado, porque os Levitas têm aquele ministério designado a eles, na virtude do sangue derramado pelos seus pecados, para orar por você.

Conhecemos alguns dos filhos de Deus que estão debaixo de acusação, e a tendência é se afastar e ficar vagando sozinhos. Eles têm ficado assim um mês após o outro, em um interminável curso de acusação, condenação, opressão e morte, mas se eles apenas tivessem entrado e deixado os santos, ajudá-los, isso teria sido sua libertação. Entretanto, lembre-se disso, se você for tentado dessa maneira, e se essa for a atitude de qualquer um dentre o povo do Senhor, essa é a provisão do Senhor: "Vá para Damasco". O Senhor cumpre Seu ministério sacerdotal por meio dos Seus santos, a fim de os libertar do acusador. E isso, amado, funciona no outro sentido também: deve haver o sustento de um ministério forte em favor de tais pessoas. Devemos reconhecer isso. A nós é dado sermos, como foi o Senhor, uma cidade de refúgio para o oprimido, e a nós é confiado o ministério de libertação dos assediados, em cujos calcanhares o acusador tem pressionado com força, para recebê-los em nossa habitação espiritual, socorrê-los e orientá-los ao Senhor. Lembre-se de que esse ministério, tendo sido entregue a nós, está no Senhor, está em nosso poder salvar muitos de serem dragados pela morte devido a alguma acusação, algo que eles nunca desejaram, não premeditaram, mas no qual eles caíram e imediatamente o acusador saltou sobre esse território para o destruir. É dado a nós, exercitar o ministério em favor de tais pessoas. O Senhor dá a nós a graça para cumprir e manter tal ministério, porque tais cidades de refúgio são Levíticas. Elas pertencem aos sacerdotes do Senhor.

Temos, na mesma conexão, tal verdade e tal palavra de exortação tão profundas, que a graça de Deus, que está em Cristo Jesus, deveria estar em nós operando da mesma forma: "Pai, perdoa-os". Fico muito feliz ao ver que houve pelo menos um homem no Novo Testamento que teve a mesma graça em seu coração, assim como estava no coração do Senhor Jesus: "Senhor, não lhes imputes este pecado!" [Estêvão - At 7:60]. O apóstolo [Paulo], que tinha boas razões para se lembrar dessa verdade [At 7:58], escrevendo para os crentes Romanos, disse: "Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira; porque está escrito: A mim me pertence à vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor. Pelo contrário, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas vivas sobre a sua cabeça" [Rm 12:19-20]. Isso é um eco da graça de Deus em Cristo nos nossos corações.

Não sei quão necessária é uma palavra como essa. Não sei se você já foi levado a devolver algo na mesma moeda em que recebeu, ou dar uma resposta no mesmo tom e no mesmo espírito, e adotar armas carnais. Eu estava hoje pensando em um homem muito prezado que conheci anos atrás na América, a quem o Senhor falou muito e de forma muito real, levando-o a um conhecimento mais abundante Dele e a uma vida espiritual mais elevada. Sei que aquele homem era um objeto especial da palavra e atividade do Senhor naquele país anos atrás. No ano passado, quando eu estive lá, o encontrei e percebi que ele não havia prosseguido espiritualmente com o Senhor, e fiquei entristecido ao saber que ele havia assumido a causa de outro homem que, independente de ter sido mal ou corretamente exposto (não cabe a mim dizer), estava diante da lei contra os Cristãos, lutando furiosamente com armas carnais. Ele então tentou me arrastar para essa briga. Tive que dizer: "Meu irmão, as armas da nossa milícia não são carnais, mas são poderosas em Deus". E quais são elas? Elas não são as cortes legais, nem os caminhos humanos de vindicação. Entre elas, temos o amor – será que existe uma arma mais poderosa no universo do que essa? O que conquistou a mim e a você? O amor de Deus, que conquistou os maiores triunfos que esse mundo nunca viu? Não a espada, mas o amor de Deus. Estas armas são poderosas no Senhor: longanimidade, paciência... são armas difíceis até nos acostumarmos a manejá-las, mas são poderosas. "Todos os que lançam mão da espada, à espada perecerão" [Mt 26:52], disse o Senhor Jesus. Amado, esteja certo de que se tomarmos as armas carnais, seremos feridos por elas, e por meio delas cairemos.

Por que o Senhor está dizendo isso? Não sei! Isso tem estado em meu coração. Tenho pensado em Nabal, Abigail e Davi [1 Sm 25:2-38]. Nabal foi uma pessoa a quem Davi havia sido muito bom e amável. Em uma hora de necessidade, Davi lhe pediu ajuda. Nabal, sendo o homem que era – sua mulher disse "ele é homem de Belial, não fale com ele"- se voltou a Davi, recusou seu pedido e repudiou qualquer obrigação para com ele. Davi então pegou sua espada, chamou seus homens e se posicionou para se vingar de Nabal. Mas a mulher de Nabal, Abigail, ouviu tudo isso e buscou todas as provisões que podia, colocando-as sobre os animais, e então partindo ao encontro de Davi que vinha abordar seu marido. Ela admitiu todo o mal relativo a Nabal e ainda assim (que sabedoria a dela!) disse a Davi as seguintes palavras de efeito: "Davi, você fará mais mal a si mesmo do a Nabal se tomar esse curso. Se você colher sua vingança em Nabal, você será aquele que mais se lamentará, isso te fará mais mal do que a ele. Isso porque todos os dias da sua vida serão infelizes por ter agido por meio de sua ira. Você tem uma boa razão para estar irado, isso é verdade, cada coisa ruim que você falar do meu marido, é verdade, e ainda assim você tem interesses mais elevados a servir do que gratificar sua própria vingança, você é chamado para algo superior a isso, Davi". E a sabedoria daquela mulher prevaleceu com Davi. Ele disse: "Se você não tivesse falado isso comigo, não teria sobrado nada de Nabal", e então Davi agradeceu ao Senhor pela sabedoria de Abigail. Ele agradeceu ao Senhor, porque foi livrado daquilo.

Você e eu seremos os sofredores se deixarmos que nosso espírito de vingança nos conduza em qualquer caminho que leve a essa gratificação. Iremos sofrer se adotarmos métodos carnais. É bem verdade que, se tomarmos a espada para viver por ela, iremos perecer por ela também. Davi deu lugar à ira. "Portanto, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber". Isso é vitória. Isso é triunfo. Isso coloca o Espírito do Senhor Jesus dentro de nossos corações, e qual é o resultado? Frequentemente, simplesmente algo maravilhoso acontece, e aquele a quem iriamos colhido vingança é salvo, e ao invés de sermos vingadores de sangue, nós nos tornamos uma cidade de refúgio. É bem melhor ser uma cidade de refúgio do que um vingador de sangue. Em que posição estamos? Somos aqueles que perseguem, ou somos uma cidade de refúgio? Se o Senhor Jesus tivesse exercitado Seus poderes de julgamento contra Seus inimigos, teria sido um vingador de sangue, mas Ele escolheu, ao contrário, orar pelo perdão daqueles que o feriram, Se tornando uma Cidade de Refúgio. O que somos nós?

Não vou dizer mais do que apenas isso. Mas o que sinto que eu mesmo preciso, sinto ser a necessidade de forma muito maior para os filhos do Senhor, especialmente grupos distintos dos filhos do Senhor reunidos em comunhão e companheirismo, assembleias aqui e ali, de forma que possam aproximar-se mais plenamente da semelhança do Senhor Jesus. A grande necessidade é de mais amor. Você não sente essa necessidade? Falo por mim mesmo e isso também cobiço pelo povo do Senhor acima de tudo, um maravilhoso espírito de amor.

Crítica, suspeita, questionamentos, dúvidas, distância, indiferença, todas essas e muitas outras coisas simplesmente destroem nossa utilidade para o Senhor, roubando de nós muitas preciosas oportunidades, que ficam completamente no caminho de nosso progresso espiritual. Podemos ter uma grande quantidade de conhecimento, mas o conhecimento ensoberbece. Amor edifica, e se realmente desejamos ser edificados, não seremos edificados pelo conhecimento apenas, mas pelo amor. Isso significa que o Senhor pode nos dar tanto mais de Seu precioso descortinar. Se tivermos mais amor, tenha certeza que revelação virá lado a lado com essa linha do amor, e o Senhor poderá nos capacitar a cumprir um ministério muito mais poderoso e potente a favor dessas almas a quem amamos. Existe toda a diferença entre ter a verdade sobre libertação de almas e tentar exercitar aquela verdade não chegando a lugar nenhum, e ter um amor que consegue realizar tudo isso. Não significa ficar de joelhos com um caso difícil no meio, e começar a nos exercitar em muitas doutrinas sobre libertar almas do diabo. O Senhor não opera assim. Uma cidade de refúgio é uma cidade de graça, um lugar para pessoas obterem a libertação. Não é um lugar para eles chegarem onde há muitos ensinamentos maravilhosos; é entrar em um lugar onde há muita graça maravilhosa. Oh, que possamos ser uma verdadeira cidade de refúgio! Isto é, aqueles que realmente estão assediados precisam saber que este é o lugar para o socorro deles e sua libertação, não porque temos luz, mas porque temos graça. Que o que é verdade para o grupo seja verdade para nós individualmente.

Que o Senhor possa conduzir essas coisas em nossos corações, e se vamos clamar por qualquer coisa, que seja por mais amor e por graça. Graça é o ingrediente pelo qual o Senhor cumpriu Seus propósitos, e é assim que sempre será.


Editado e suprido por Golden Candlestick Trust. Origem: "Cities of Refuge". (Traduzido por Maria P. Ewald)

9. Fé em Deus em meio a Circunstâncias Desesperadoras


Leitura: Jeremias 32: 6-27.


"Ah! Senhor Deus, eis que fizeste os céus e a terra com o teu grande poder e com o teu braço estendido; coisa alguma te é demasiadamente maravilhosa." (vs 17).

"Eis que eu sou o Senhor, o Deus de todos os viventes; acaso, haveria coisa demasiadamente maravilhosa para mim?" (vs 27).


Vemos no incidente do campo de Ananote uma exposição prática dessa declaração e dessa pergunta. Conhecemos a situação que ocorria no período relacionado a esse capítulo, nela vemos um aprisionamento dúplice: Jeremias estava encerrado no pátio da guarda, e a cidade estava cercada pelo invasor. Então, em meio àquela situação, de alguma forma o Senhor imprimiu no coração de Jeremias que seu primo viria até ele pedindo-lhe que comprasse o seu campo. Não sabemos como isso de fato aconteceu, mas concluímos que Jeremias foi avisado que seu primo viria até ele com esse pedido, e assim aconteceu. Por quarenta anos Jeremias profetizou a respeito da destruição de Jerusalém, da terra e do cativeiro do povo. Seu encargo se relacionava com a destruição e desolação da terra, o que colocou Jeremias em circunstâncias muito difíceis. Não há dúvida sobre a escuridão do panorama diante dele; tudo era muito real. Seu ministério, que havia durado todos aqueles anos, agora estava em suspenso. Havia a situação peculiar daquele momento, quando Jeremias era um cativo dentro de um cativeiro. Aquele foi um desafio muito real à sua fé. Não se tratava de uma situação hipotética; foi tudo muito real. Inclusive a vinda de Hananel, seu primo, buscando-o como parente redentor, ou seja, aquele que tinha o direito de resgatar e salvar aquela herança de ser perdida para a posteridade, de ser tirada do seio da família.

Bem, não sei o que Hananel estava de fato pensando, mas considerando a inicialmente a situação a partir da terra e suas perspectivas, alguém poderia concluir que certamente aquela propriedade sairia do contexto da família. Os caldeus iriam tomar a terra, invadindo-a e a deixando destruída e desolada. Então, do ponto de vista natural, não era hora de embarcar nesse tipo de coisa, pois redimir naquela época envolvia muito mais do que apenas transferir algo de uma pessoa da família para a outra, por meio de uma escritura. Redimir, nessa ocasião, representava muito mais do que apenas redimir dos caldeus e da própria condição pessoal. Isso porque o que Jeremias poderia fazer com um campo em Anatote quando já estava envelhecendo e em iminente risco de vida? Ele não poderia vislumbrar nada diante de si, e sabia o que ia lhe acontecer, depois de tantos anos profetizando compulsoriamente a respeito disso. Realizar um ato de redenção em meio a tudo isso foi um tremendo desafio à fé.

Não há dúvida, é claro, que essa profecia iria além de Jeremias e até mesmo de Israel. Não é difícil ver que, no grande esquema Divino, temos aqui uma ilustração muito prática de algo que aconteceu anos depois, com um sentido muito mais abrangente - me refiro à redenção realizada por Cristo. Cristo sabia que todo este mundo, mais cedo ou mais tarde, estava destinado para o julgamento e para o fogo, seria consumido e purgado. Ele sabia que estava em uma posição pior do que a de Jeremias, mas Ele realizou o ato da redenção. Por intermédio da redenção, Ele garantiu o mundo para uma glória futura. Aquele foi um poderoso triunfo da fé. Digo isso porque, embora esse incidente tenha valores práticos para nós, tudo se relaciona a coisas muito maiores e, sem dúvida, essa é a principal interpretação desse incidente.

Vemos isso realizado no livro do Apocalipse. Aqui você tem Jeremias ordenando que a escritura seja colocada em um vaso selado para se conservar por muitos dias [vs 14]. No livro de Apocalipse temos os sete selos e quando esses sete selos estão sendo abertos, então sabemos que chegou a hora do Senhor Jesus garantir Sua posse da propriedade adquirida depois de muitos dias. Nesse momento o Senhor estará entrando em Sua herança para possuir o que Ele redimiu. Bem, não vou me alongar nisso nesse momento.

Queremos captar os valores contidos nesse incidente que podem nos ajudar no momento presente. Observe o quão completa foi aquela transação. Jeremias não hesitou, nem estabeleceu condições, redimindo aquela propriedade como se fosse um homem livre e como se os caldeus não existissem. Ele cumpriu todo o processo de acordo com a lei; por meio de uma escritura lacrada como se costumava fazer, guardada em uma espécie de cartório, e com outra via que era um documento aberto para que todos pudessem ler, uma cópia que poderia ser vista publicamente e a qualquer momento. Ele conduziu todo o processo de forma completa e adequada. A questão central é que Jeremias não fez isso de forma hesitante, incerta. Ele o fez com uma precisão que indicou que ele estava seguro de seus atos. Sua fé foi até o fim.

Assim, Jeremias cumpriu todos os trâmites necessários. Sabemos que existem momentos em que temos certeza daquilo que o Senhor deseja que façamos, concedendo-nos sinais, evidências, falando aos nossos corações, confirmando tudo de maneiras diferentes, e naquele momento, respondemos ao chamado da melhor forma que podemos. Finalmente, quando tudo é cumprido, encaramos uma reação. Todo o significado da situação, do que fizemos, é rememorado e ficamos atemorizados pelas nossas ações, pelo caminho tomado. Isso é o que aconteceu com Jeremias. Ele fez isso com total segurança e quando tudo acabou e as pessoas foram embora, quando ele foi deixado sozinho com o Senhor em sua prisão, teve uma terrível reação. Tudo se voltou contra ele. Ele agora estava sendo testado pela posição que havia assumido. Ele se voltou para a oração, afirmando: "coisa alguma te é demasiadamente maravilhosa", e então passa a conjecturar, talvez na busca de sustento para sua própria fé. Ele rememora a história de Israel e as coisas maravilhosas que o Senhor fez, vislumbra seu próprio ministério e vê como ele está sendo cumprido. O que Jeremias tem profetizado todos esses anos, o Senhor está cumprindo. Os caldeus estão lá. Ele repassa tudo, mas na forma de um interrogatório. Ele fez uma declaração, mas é tudo um interrogatório ao Senhor. Ele conclui tudo dizendo: "Contudo, ó Senhor Deus, tu me disseste: Compra o campo por dinheiro e chama testemunhas, embora já esteja a cidade entregue nas mãos dos caldeus." (vs. 25). Ele volta à situação. Então, o Senhor entra em cena e o desafia usando suas próprias palavras: "Haveria coisa demasiadamente maravilhosa para mim? Você disse que nada é muito difícil para mim. Alguma coisa seria muito difícil para mim?" O Senhor o conduz de volta à sua própria posição.

Duas coisas veem à luz nessa situação, e elas são de grande ajuda para nós, ou pelo menos deveriam ser. Uma é que o Senhor por vezes nos chama em meio a situações humanamente impossíveis, situações essas que tornam naturalmente impossível realizar aquilo que Ele nos conclama a fazer. Ele então nos convoca a tomar medidas práticas na presença dessas absolutas impossibilidades, isto é, afirmar nossa posição em meio às coisas que, no presente, tornam impossível assegurar a realização de nossa ação no futuro. A alternativa é: "Bem, a situação é tão desesperadora e impossível que não adianta fazer nada, devemos esperar." Simplesmente nos encolhemos, afirmando: "Não podemos fazer nada, é absolutamente impossível! Veja como estamos calados, aprisionados, veja como as possibilidades estão travadas, veja as perspectivas." Podemos apenas nos sentar, esperar e nada fazer até que a situação se resolva. Frequentemente tem sido em situações como essa, quase invariavelmente, que o Senhor demandou por um ato de fé da nossa parte, de acordo com a posição que tomamos.

Demos um testemunho, tomamos uma posição, fizemos declarações quanto ao propósito, intenções e desejos do Senhor, como o Seu grande propósito nessa dispensação ou algo semelhante. Assumimos uma posição com o Senhor porque Ele gravou isso em nossos corações, e nós respondemos tomando uma posição, declarando isso abertamente. Então surge o tremendo desafio de Satanás, afirmando que a realização da posição que assumimos é absolutamente impossível, que nossa declaração está fora de questão. O que afirmamos ser o propósito do Senhor tem sua realização impossível nesse momento; não pode acontecer. Então tudo reside na questão: vamos abandonar nossa posição, cedendo ao desespero das condições que nos rodeiam? Essa é a alternativa, simplesmente deixar para lá, não fazer nada e esperar até que tudo esteja favorável, antes de fazermos qualquer outra coisa. Nesse momento o Senhor procura alguma expressão prática de fé que se oponha às circunstâncias, assegurando essa posição no futuro, garantindo o título de propriedade, de forma clara e definitiva, levando tudo a cabo sem quaisquer ressalvas, sem 'ses' ou 'mas' - ignorando as circunstâncias e agindo. Podemos passar por um momento difícil, duvidar e a fé pode começar a vacilar um pouco. Podemos ser confrontados com nossa posição. O Senhor diz, em circunstâncias totalmente desesperadoras: "Você ainda acredita? Alguma coisa é muito difícil para mim?".

Esse tipo de situação muitas vezes vem à luz por causa da obra e do testemunho do Senhor, quando existe um chamado relacionado ao propósito do Senhor na vida de uma pessoa, essa situação pode se repetir. Mas isso não acontece apenas em nossas vidas e no nosso relacionamento com o Senhor, mas o Senhor permite que posições como essa ocorram onde naturalmente não há esperança, nenhuma base para a certeza, tudo é ameaçador, indicando que seu cumprimento é impossível! Mas durante aquele período nós interagimos com o Senhor em relação à situação, sentimos que Ele nos guiou naquela direção, que era a Sua vontade. Não tínhamos dúvidas naquela ocasião. Depois de muita oração, esse foi o caminho pelo qual o Senhor nos conduziu, e agora tudo ao nosso redor diz que foi um erro, uma loucura, que nossa atitude foi temerária, e é totalmente impossível, além da nossa capacidade de realização. Tudo ao nosso redor parece afirmar isso, e somos desafiados quanto à posição que assumimos com o Senhor. Em meio a essas condições o Senhor pede uma ratificação da nossa fé na posição assumida com Ele, e isso de forma muito definitiva.
Vamos rever o incidente de Jeremias. Hananel talvez estivesse tentando ser um homem de negócios astuto. Ele viu como as coisas estavam indo e pensou que pegaria o dinheiro em suas mãos logo, antes de perder tudo. Espero não estar o julgando mal, mas é isso que me parece nessa situação. Ele foi direto a Jeremias, que estava pregando sobre a destruição da terra e do seu iminente cativeiro. Jeremias estava na prisão e seu primo, sabia onde poderia encontrá-lo. Mas Jeremias recentemente havia tocado outra nota em sua pregação, uma nota distante de esperança, considerando que até agora tudo se resumia em trevas, julgamento e destruição. Um raio de luz começava a surgir no horizonte profético de Jeremias, uma esperança distante e uma nota de esperança surgiram em sua pregação. O Senhor iria reverter o cativeiro de Sião. Nesse ponto, Hananel veio até Jeremias, mas, como já disse, muito provavelmente agindo apenas como um astuto filho de Israel. Mas isso significava duas coisas para Jeremias. Em primeiro lugar, esse era um desafio àquela nova nota de esperança. "Jeremias, você acredita no que está dizendo? À luz dessas circunstâncias, à luz de tudo o que você sabe que ainda vai acontecer, um cativeiro de setenta anos, você realmente acredita no que está dizendo? Você acredita nessa esperança, nessa luz no fim do túnel, acredita que, embora hoje e por algum um tempo a realização de sua visão seja totalmente impossível, ainda assim ela se cumprirá? Você acredita nisso?."

Existem pessoas que se renderam a uma posição desesperadora no que diz respeito à igreja. Essas pessoas discorrem sobre a ruína desesperada da igreja e, ao fazer isso, renunciam a uma grande parte do Novo Testamento. Será que não cremos que o Senhor ainda pode obter um povo, mesmo que seja apenas um remanescente, que esteja de acordo com a revelação de Sua vontade e que se tornará em Sua esperança? Esse foi o desafio que Jeremias enfrentou. Será que ele de fato acreditava na esperança do Senhor depositada em um grupo que retornaria do cativeiro? Eles eram a esperança do Senhor e neles tudo aquilo que o Senhor sempre mostrou ser Seu propósito seria realizado: esse povo construiria a casa, restauraria todo o testemunho. Parecia distante para Jeremias, mas essa vinda de seu primo, esse desafio de comprar o campo, foi uma prova para Jeremias, nesse sentido. Ele acreditaria que embora a maioria do povo de Israel se perdesse, ainda assim, dentre eles haveria um grupo que, mais cedo ou mais tarde, seria o vaso usado por Deus para realizar todos os Seus propósitos? Jeremias acreditou nisso? O que ele estava fazendo para expressar sua fé, para provar que acreditava? Aqui está sua oportunidade. Ele estava fazendo algo agora, e sua ação era completamente baseada em nada ser impossível e demasiadamente difícil para Deus. Ele estava fazendo isso agora, em meio àquelas condições.

A alternativa é se render à situação hoje na igreja, no mundo e nas circunstâncias afirmando que tudo é absolutamente impossível, que de nada adianta sustentar nosso testemunho; pois nossa uma situação desesperadora, e que devemos esperar até que o Senhor faça algo. Não foi isso que Jeremias fez.

Há outra coisa que pode parecer pequena, mas acredito nos ajudar. Talvez a proposta de Hananel à Jeremias possa ter parecido algo baixo, mundano, comum; como aplicar um golpe de estado. Isso foi o que aconteceu, e era algo não muito louvável naquela ocasião, desfazer-se de sua propriedade por vislumbrar que ela seria perdida de qualquer maneira. Mas, embora isso fosse verdade do ponto de vista de seu primo, Jeremias olhava para tudo, até mesmo algo assim, com a seguinte pergunta em mente: Como isso se relaciona com o trono de Deus? As coisas podem nos parecer comuns, mundanas, meros acontecimentos, alguém é trazido para nossas vidas, cruza nosso caminho, em uma transação de negócios, mas o homem e a mulher que estão em contato com Deus e que estão sempre esperando no Senhor não olham para as coisas dessa maneira. Jeremias não reagiu à proposta de Hananel dizendo: "Você é astuto, não é? Está tentando ser inteligente, você é isso e aquilo! Você acha que vou ser ludibriado assim? Você sabe muito bem que vai perder esse campo de qualquer maneira, e está tentando tirar proveito da situação enquanto há alguma coisa acontecendo; você acha que vai me pegar!" Nada disso aconteceu! Jeremias imediatamente raciocinou: "Isso pode ser verdade sobre Hananel, mas como tudo isso se relaciona com o trono do Senhor? Teria o Senhor algo nessa situação?" Estou sugerindo que essa atitude de Jeremias em relação à vida e seus incidentes pode ser tremendamente frutífera - não olhar para as coisas que acontecem apenas como acontecimentos naturais, mas desafiar cada uma delas à luz do trono do Senhor.

Essa situação estava vitalmente relacionada ao trono do Senhor, embora pudesse ser encarada como algo muito natural. Não acho que estejamos sempre atentos a esses tipos de coisa: pessoas que aparecem em nosso caminho e acontecimentos de nossas vidas. Onde está o Senhor, o que Ele tem nessa situação? Não devemos tomar as coisas pela sua primeira impressão e reagir levando em consideração apenas como isso vai refletir nessa ou naquela esfera, mas devemos perguntar o que o Senhor busca nelas. Essa foi a atitude de Jeremias diante daquelas coisas: nada acontece por acaso na vida daquele que está nas mãos do Senhor. Onde está o trono de Deus nisso? Tanto os maiores desastres como o menor incidente que acontecem em nossas vidas podem estar intimamente relacionados ao trono de Deus, em algum aspecto muito vital. Um homem age segundo sua disposição normal e, ao fazer isso, planejando, maquinando, imaginando, talvez apenas pensando nos seus próprios negócios, ele nos procura. Pode ser que exista algo tremendo envolvendo o trono de Deus por trás disso. Essa pessoa não sabe, não tem noção dessas coisas, mas é isso que acontece. Ele pensa que está apenas agindo de maneira profissional. Não creio que o primo de Jeremias tivesse a sensação de estar fazendo alguma coisa relacionada ao Senhor. Provavelmente ele agiu apenas buscando seus próprios interesses, mas a soberania de Deus provou estar por trás de toda a situação. A atitude de Jeremias em relação à vida pode ser muito frutífera para todos nós.

Observe um fator em Jeremias mais uma vez: a absoluta abnegação da fé. Jeremias não poderia estar agindo a favor de seus próprios interesses quando redimiu aquela propriedade. Como já mencionei, ele estava envelhecendo, era um prisioneiro. A terra seria destruída, como ele bem sabia. Que uso ele teria para aquele campo? Ele sabia dos setenta anos de cativeiro, onde ele estaria no final desse período? Que utilidade aquele campo teria para ele durante aquele período? Não vemos um elemento pessoal nessa decisão. Sua fé era totalmente altruísta. O que ele fez foi como um testemunho em seus dias da fidelidade de Deus, e ele precisou esperar por sua vindicação mais adiante. Ele não viveria para vê-la. Sua vindicação aconteceria depois que ele partisse. O povo de Deus aceitaria os valores de sua fé quando ele já não mais estivesse entre nós. Essa é a natureza da fé. Esse é o verdadeiro teste dos atos de fé. Iremos conseguir o que desejamos com fé, obteremos algo para nós mesmos, ou estaremos vislumbrando os interesses do Senhor? Esse é o verdadeiro teste de fé, que o Senhor tenha aquilo que deseja.

O Senhor desejava ter ali, bem no coração de Israel, em Jerusalém, no pátio da guarda, diante de todos os anciãos e testemunhas, um testemunho prático de Sua fidelidade. "Assim diz o SENHOR: Se a minha aliança com o dia e com a noite não permanecer, e eu não mantiver as leis fixas dos céus e da terra, também rejeitarei a descendência de Jacó e de Davi, meu servo, de modo que não tome da sua descendência quem domine sobre a descendência de Abraão, Isaque e Jacó; porque lhes restaurarei a sorte e deles me apiedarei." [Jr 33:25,26]. Sabemos que isso se cumpriu em Cristo, o maior Filho de Davi, o Rei eterno do trono de Davi. Tudo está cumprido, e em Cristo todo o Israel será salvo, como Paulo afirmou (Rm 11:26). Mas como um testemunho dessas coisas naquele dia escuro e terrível, quando o julgamento estava prestes a acontecer, Jeremias deu este passo prático, erguendo um monumento à fidelidade de Deus. Deus tem ciúmes de Seu Nome, Sua fidelidade, Seu testemunho. Ele está procurando por aqueles que, em total abnegação, ainda que em meio a condições naturais desesperadoras, serão fiéis à revelação que Ele deu, fiéis a Deus e ao que Ele deu a conhecer a respeito de Sua Pessoa.

"Coisa alguma te é demasiadamente maravilhosa." Dizemos isso e tudo se volta contra nós devido às circunstâncias ao nosso redor, e então o Senhor precisa nos responder usando nossas próprias palavras: "Haveria coisa demasiadamente maravilhosa para mim?" Não sei o que isso lhe diz, e como isso se aplica em sua experiência pessoal. Pode não afetá-lo muito, mas atente para conclusão desse assunto, independente da aplicação pessoal que pode ter para cada um de nós. Isso se aplicará ao ministério para o qual alguns de nós, são chamados, ao nosso testemunho, também pode ter aplicações mais pessoais, em relação às nossas próprias vidas e situações, mas tudo se resume em uma única coisa.

O Senhor plantou algo em nossos corações, oramos muito e não tínhamos dúvidas de que era Sua vontade, Seu caminho para nós. Fomos provados, passamos por muitas coisas, e então surge uma situação que parece impossibilitar totalmente sua realização. Diante dessas circunstâncias contrárias, a tentação é questionar nossa liderança original, duvidando do Senhor e simplesmente esmorecendo e aceitando a situação como impossível. É nessas horas que o Senhor espera de nós um testemunho positivo de nossa confiança nEle e deseja que nos comprometamos de alguma forma em fé. Assumimos uma posição positiva em fé; o ego e todos os interesses egoístas são inteiramente deixados de lado, vislumbramos apenas os interesses do Senhor e a Sua glória, e seguimos em frente. O Senhor nos responde desafiando nossa posição original com uma pergunta: "Haveria coisa demasiadamente maravilhosa para mim?", e continua: "Se a minha aliança com o dia e com a noite não permanecer, e eu não mantiver as leis fixas dos céus e da terra, tão firme como isso é Minha fidelidade a você; tão certo quanto isso é o meu comprometimento com a realização daquilo que te revelei."

O Senhor nos conceda uma fé forte em meio a condições muito difíceis.


Editado e fornecido por Golden Candlestick Trust. Origem: "Faith in God in Hopeless Circumstances". (Traduzido por Maria P. Ewald)