Igreja

07/05/2024

1. Presbíteros e Diáconos

Bispos (Presbíteros - Anciãos)
Qualificações Citadas (1 Timóteo 3: 1-7)


O segundo elemento do mandamento dado a Timóteo para a preservação do testemunho trata das qualificações que devem ter aqueles que exercerão autoridade na igreja local. Certas qualidades morais e espirituais estarão em evidência em homens capacitados para esta tarefa. Tais homens, pelo seu trabalho e caráter, tem uma parte vital no testemunho para Deus.


1. O trabalho é descrito como "episcopado" (episkope). 

Isto não destaca uma posição, mas o trabalho envolvido. Thayer mostra que o substantivo significa "inspeção, visitação, e o verbo cognato tem vários sentidos, como considerar, examinar, superintender, cuidar, interessar-se por." Todos estes significados têm, como ideia básica, vigilância e observação.


Dentro do contexto imediato, os seguintes pontos devem ser notados:
a. O trabalho em questão é definido por duas palavras. A primeira é "terá cuidado" (v. 5), e a segunda é o particípio traduzido "governam bem", de 5:17. As palavras revelam a natureza das responsabilidades no trabalho de um bispo.


b. O fato de que só os homens são contemplados para assumir estas responsabilidades, é consequência do ensino de 2:13-14 (veja "use de autoridade", v. 12) e, concordando com isto, todos os adjetivos que seguem são masculinos.


c. Quando vistos em operação, os bispos são mencionados no plural (Atos 20:17, 28; I Tim. 5:17). Há sempre uma pluralidade de bispos em cada igreja local.


d. Timóteo não é chamado a apontar tais homens; Tito foi instruído a fazer isto (Tito 1:5) entre os novos convertidos em Creta. Já em Éfeso, os bispos eram reconhecidos na igreja local (Atos 20:28; I Tim. 5: 17). 

Esta lista de qualificações impostas aos bispos, portanto, não é dada apenas, ou principalmente, para o benefício de Timóteo, mas para que os santos possam reconhecer a capacidade divina em tais homens. Não há qualquer justificativa bíblica para a ideia de que apenas os apóstolos ou seus enviados podiam apontar bispos. Cada igreja, divinamente reunida, deve esperar ter tais homens, divinamente preparado levantados entre eles, para serem reconhecidos (I Tess 5: 12).


Estes requisitos não apresentam um padrão ideal ao qual se deve aproximar, mas são as qualidades essenciais para alguém que exerce este trabalho. Nenhuma seleção ou eleição pela igreja local pode assegurar tal capacidade. 

Também não é conseguida por ser nomeado a um comitê, mas o Espírito Santo capacita o homem para o trabalho, providencia a oportunidade para a sua execução, e os santos reconhecem (I Tess. 5:12) a pessoa que está na realidade fazendo o trabalho.Esta ordem das palavras é exatamente a mesma usada nas outras quatro ocasiões em que ocorre. É a única das três ocorrências nesta epístola em que não vem acrescida da expressão "e digna de toda aceitação". 

Alguns tentam ligar esta afirmação com a do final do capítulo anterior, mas não há nada que apoie esta ideia, já que nenhuma "palavra fiel" é aparente em 2:15. 

Mais uma vez, Paulo usa uma expressão cristã comum e bem conhecida aos cristãos e, pela supervisão do Espírito Santo, coloca-a nos registros das Escrituras, selando-a com o selo da autoridade divina. Pode bem ser que, à luz da tarefa difícil do bispo e da tendência das autoridades civis em perseguir estes líderes, haveria uma certa relutância por parte de alguns, que foram preparados por "Deus para o trabalho, em aceitar a responsabilidade na igreja local. Paulo então passa a mostrar a excelência de tal trabalho. 

A palavra "excelente" é kalos, e W. E. Vine a traduz "trabalho nobre". A palavra "obra" é ergon (em física temos erg como uma unidade de trabalho); a tarefa requer um gasto de energia física e também espiritual.Dois verbos fortes são usados para descrever o desejo para este trabalho. 

O primeiro (orgo) significa esticar-se a si mesmo para tocar ou pegar algo; significa mais do que simplesmente desejar, pois inclui o estender a mão para um determinado objeto. A segunda palavra (epithumeo) significa desejar ardentemente, e destaca o impulso que nos impele em direção ao objeto. Este é o motivo por trás do movimento sugerido pelo primeiro verbo.


Três palavras bíblicas são usadas em relação aos homens que exercem autoridade na igreja local:
a. "Presbíteros" traduz presbuteroi, um adjetivo, o grau comparativo de prebus, um homem velho; assim, indica um homem mais velho, um ancião. Usada em Atos 14:23; 20:27; Fil. 1:1; I Tim. 5: 17; Tito 1:5, esta expressão tem origem judaica no Velho Testamento, e enfatiza a maturidade espiritual dos que estão aptos para o trabalho.


b. "Bispos" (episkopoi, de epi, sobre, e skopeo, olhar ou vigiar) é encontrada em Atos 20:28; Fil. 1:1; I Tim. 3:1; Tito 1:7; I Ped. 2:5. Baseado no contexto grego da palavra, Thayer a define, no sentido secular, como indicando um supervisor, um homem que tem por tarefa certificar-se de que esteja tudo sendo feito corretamente pelos outros, um guardião, superintendente, um tutor. Na igreja local, a palavra descreve alguém que olha ou cuida dos cristãos. Esta palavra enfatiza a natureza do trabalho espiritual de supervisão que é feito para Deus.


c. "Pastores" (poimen), usado em Ef. 4: 11, é o cognato do verbo em Atos 20:28 e em I Ped. 5:1-2. Esta palavra enfatiza a capacidade espiritual daqueles que necessariamente moldam o seu caráter ao de Cristo, que é descrito como o Sumo Pastor (I Ped. 5:4). 

Aquele que Se deu sem reserva nos interesses do Seu rebanho (João 10:11).
Fica claro que estes termos são usados das mesmas pessoas, indistintamente, pela comparação de Atos 20:17 (anciãos) e Atos 20:28 (bispos) - onde, evidentemente, o mesmo grupo de homens está sendo considerado. No v. 28, este grupo de homens é exortado a "apascentar" (poimano, agir como pastor, verbo cognato do substantivo poimen) a igreja de Deus. 

Pedro usa a mesma troca em I Ped. 5:1-2, entre "apascentar" (poimano) e "anciãos" (de episkopos). Uma referência a anciãos (presbuteros) e bispos (episkopos) em Tito 1:5 e 1:7 indica a mesma verdade. 

Todas as conotações eclesiásticas oficiais destes termos, ou distinções hierárquicas entre eles, elevando um acima do outro, são de origem pós-apostólica e não encontram apoio algum nas Escrituras.
A maturidade espiritual (presbíteros) e capacidade espiritual (pastores) serão manifestas em homens equipados por Deus para fazer o trabalho espiritual de bispos. Este trabalho exigirá um caráter impecável e uma conduta irrepreensível, pois envolve cuidar (3:5) e governar (5: 17) na igreja de Deus.

Se aceitamos o sentido abrangente contido na primeira afirmação, "irrepreensível", então veremos que existem catorze qualificações (a ARA, na evidência de bons manuscritos, omite "não cobiçoso de torpe ganância", v. 3), e uma divisão conveniente seria definir quatro áreas, bem amplas, onde o ancião deve se destacar em relação aos outros cristãos:

  • a. Em Conduta Moralidade Pessoal 4 afirmações
  • b. Em Companhia Maturidade Patente 4 afirmações
  • c. Em Caráter Personalidade Paciente 3 afirmações
  • d. Na Comunidade Integridade Pública 3 afirmações


2. O uso de "presbítero", no singular e com o artigo, é genérico; descreve um de uma classe, como em Tito 1:7; quando vistos na igreja, o plural é sempre usado (veja 5:17). 

"Convém" afirma a necessidade de tal qualificação (a ARA traduz "é necessário"), e "pois" (ARC), ou "portanto" (ARA), liga com o versículo anterior para mostrar que tal boa obra requer um bom homem. 

A qualificação abrangente é "irrepreensível". 

A palavra é anepileptos, indicando que o bispo não deve apresentar qualquer defeito de caráter ou conduta que pessoas mal intencionadas, dentro ou fora da igreja, poderiam usar como armas contra ele. 

A palavra é usada apenas nesta epístola. As outras ocorrências são 5:7 e 6: 14 ("sem mácula") onde, como aqui, significa alguém que não dá motivo para censura ou crítica.

"Marido de uma mulher" (mias gunaikos andra) quer dizer, traduzindo literalmente, "homem de uma mulher". 


Há vários pontos de vistas em relação a esta frase que descreve a qualificação conjugal do bispo:
a. O bispo precisa ser casado. 

Este ponto de vista concordaria com o lugar altamente valorizado do casamento nesta epístola, como em 4:3; 5:14; e é certamente verdade que as Escrituras geralmente presumem que o bispo seja casado. Entretanto, tal interpretação é muito improvável nesta passagem, pois deixa o enfático "uma" sem sentido. Assim, a insistência de que o bispo seja casado não pode ser baseado nesta afirmação.


b. O bispo não pode casar novamente se sua primeira esposa falecer; em outras palavras, ao bispo é permitido apenas uma mulher em toda a sua vida. Apesar de muitos aceitarem este ponto de vista, novamente esta interpretação é pouco provável. 

Ela sugere algum tipo de suspeita em relação ao segundo casamento, como se, enquanto fosse permitido, não deveria ser incentivado, como se a espiritualidade de cristãos casados pela segunda vez fosse ligeiramente suspeita. Isto é contrário a Rom. 7:23, e à instrução clara às viúvas mais jovens no cap. 5: 14. 

Supor que os deveres do bispo deveriam ter - prioridade, após o falecimento da primeira esposa, é dar ao estado de não casado um mérito que nunca é sugerido nas Escrituras. É difícil entender como Paulo poderia insistir, mesmo de forma implícita, no celibato para um viúvo que desejasse o episcopado, e, ao mesmo tempo denunciar o celibato forçado dos falsos mestres (4:3). 

Veja também Heb. 13:4, e note o "todos" naquele versículo.


c. O bispo deve ter apenas uma mulher de cada vez. Assim, segundo esta interpretação, proíbe-se a bigamia ou poligamia, e o bispo deveria ser fiel a uma mulher. Esta também é uma interpretação pouco provável. O Novo Testamento jamais sugere que um bígamo ou polígamo pudesse ser recebido na comunhão de uma igreja neotestamentária, muito menos aspirar ao episcopado. Não existe qualquer evidência histórica de que a poligamia fosse, em qualquer época, aceita no testemunho da Igreja. Muitos desconhecem o fato de que a poligamia era proibida no Império Romano nos dias de Nero.


d. A interpretação simples é ver esta afirmação como enfatizando a fidelidade absoluta do bispo a uma mulher. Contra o pano de fundo do paganismo de Éfeso, com a sua degradação moral centrada no culto de Artemis, onde a prostituição, o concubinato, a fornicação, o adultério e o divórcio prevaleciam, o bispo precisava evidenciar uma fidelidade absoluta, de onde nada pudesse surgir, mesmo nos dias anteriores à sua conversão, que pudesse ser usado contra ele. 

Tomar o lugar de bispo coloca um homem numa posição na qual a moralidade e a fidelidade conjugal precisam ser intocáveis. Se, por exemplo, surgisse, mesmo do tempo anterior à sua conversão, uma esposa divorciada ou crianças ilegítimas, não seria isto uma culpa sobre ele, de forma que não mais seria "irrepreensível"? 

O fato desta moralidade pessoal englobar os dias anteriores à conversão, é decorrente do princípio de que os padrões de moralidade de Deus são para todos os homens, e não apenas para os salvos.
"Vigilante" (nephalios, "ternperante" na ARA), usado no v. 11 (de esposas) e Tito 2:2 (de homens idosos), significava, inicialmente, abstinência total do álcool, mas aqui é usado num sentido figurado (sendo que a embriaguez é tratada especificamente no v. 3, para descrever um temperamento que não se exalta com facilidade. Kelly traduz apropriadamente: "mente-clara".

Este uso figurado está também no verbo cognato, "ser temperante", de I Tess 5:6, 8."Sóbrio" (sophron) é o adjetivo do substantivo em 2:9 ("modéstia") e é usado três vezes em Tito (1:8; 2:2, 5). 

Indica a qualidade de autocontrole que surge de uma mente bem equilibrada.O adjetivo kosmios ("honesto") é traduzido "decente" em 2:9, (ARA) e "decoroso" na ARA. 

Sugere a mente ordeira, refletida numa vida bem organizada, pois o pensamento disciplinado leva a um comportamento disciplinado e digno. 

A vida de muitos cristãos consiste em um verdadeiro turbilhão de atividades caóticas, que manifesta falta de ordem e disciplina no pensamento."

Hospitaleiro" (philoxenos, de phileo, amar, e xenos, um estranho) indica um homem que não tem o espírito anti-social que se esconde atrás de uma porta fechada, mas expressa o desejo de receber um estranho na sua casa, e cuidar dele. 

Esta atitude era essencial nos dias de Paulo, quando acomodação apropriada era quase inexistente para os viajantes cristãos, e ainda hoje é importante oferecer o calor e o amor de um lar cristão aos que precisam. 

A palavra é usada novamente somente em Tito 1:8 e I Ped. 4: 19. 

Aqui, o bispo está na companhia de estranhos.A palavra traduzida "apto para ensinar" (didaktikos) é usada outra vez somente em II Tim. 2:24 do servo do Senhor. Ela não indica apenas o conhecimento em si, mas a capacidade de transmitir tal conhecimento. 

Prontidão e habilidade neste ponto equipam o bispo a apresentar a verdade, formal ou informalmente. Um ensinador hábil e preparado, em companhia, nunca perde uma oportunidade de instruir. Aqui o bispo está na companhia dos santos.


3. "Não dado a muito vinho" (me paroinos) expressa a ausência, não apenas de embriaguez, o sentido básico da palavra, mas também daquela grosseria e arrogância que acompanham a falta de autocontrole causado pelo vinho. É daí que vem a agressividade.Nenhum cristão tem o direito de se embriagar (veja I Cor. 6: 10), mas o bispo deve estar separado de todas as cenas barulhentas causadas pela tolerância ao vinho. Aqui ele é visto na companhia de pecadores, e se destaca por ser diferente.

Na palavra "não espancador" (me plektes) o temperamento do homem é evidente, independentemente de sua companhia. Seja qual for a provocação, de outro cristão ou dum pecador, ele permanece em total controle de si mesmo, e nunca apela para a violência.O adjetivo vem dum verbo que é traduzido por "espancar", encontrado em Apoc. 8:12. 

Um bispo que responde à provocação com violência física desqualifica-se a si mesmo.

"Mas" leva o nosso pensamento das duas negativas anteriores para o positivo nesta afirmação, "moderado" (epieikes, "cordato" na ARA). 

Em Tito 3:2, a mesma palavra é ligada com mansidão, e em li Cor. 10:1 o substantivo cognato é usado de Cristo, o modelo de paciência e consideração. Consideração, e preocupação em favor dos outros, estão por trás desta palavra, que M. Arnold traduz, "doce moderação", e J. N. D. Kelly, "magnânimo". 

A expressão "não contencioso" (amachos, "inimigo de contendas" na ARA) é traduzida por W. E. Vine como, "não combatente". 

Tendo um caráter pacífico, não arrogante, ele estará sempre disposto a renunciar aos seus direitos pessoais. Isto não quer dizer que ele não "batalha pela fé" (Judas 3), mas não faz isto com um espírito áspero e contencioso.

"Não avarento" (aphilarguros, de a, prefixo de negação, phileo, amar, e argurion, prata; isto é, um que não ama a prata) é usada outra vez apenas em Heb. 13:5. 

Amar o dinheiro demonstra um defeito sério do caráter cristão. O bispo deve claramente estar livre da avareza; o desejo pelo dinheiro não deve dominar a sua vida. Se o fizer, ele se tornará mercenário e mesquinho.


Três itens são apresentados para completar as qualificações do bispo que definem como ele é visto objetivamente, pelos outros:

  • a. Sua autoridade moral vs. 4-5
  • b. Sua maturidade evidente v.6
  • c. Seu bom testemunho v.7


4-5. O caráter do homem se torna evidente dentro do ambiente familiar. Sua qualificação para a liderança é revelada numa casa bem governada. 

A palavra "governar" é proistemi (que significa estar adiante, portanto liderar, ou presidir), e é a palavra usada em 5:17 e em Rom. 12:8; I Tess. 5:12 ("presidem sobre vós") para descrever o trabalho de um bispo. Assim, o lar mostra a sua capacidade para uma esfera mais ampla de responsabilidade na igreja. 

Ao passo que este versículo não exige que o bispo seja casado e tenha filhos, reflete um padrão normal de maturidade, e avalia um aspecto vital de seu caráter.O advérbio "bem" (kalos) mostra que não é apenas autoridade autocrática que está em vista no pensamento de governar. Pelo contrário, é o governar feito de tal forma que o resultado é admirável.

A admiração, logicamente, não é baseada em conquistas educacionais, nas boas maneiras das crianças, mas na bênção espiritual vista na família. É nas crianças, especialmente, que isto será observado, no fato de ele conseguir a sua obediência de uma forma digna ("com toda a modéstia"). 

Enquanto alguns veem aqui uma descrição da modéstia e do comportamento das crianças, parece mais de acordo com o contexto vê-lo como descritivo da maneira com que o homem trata a sua família. Ele o faz com uma firmeza que toma aconselhável obedecer, com uma sabedoria que toma natural obedecer, e com um amor que toma agradável obedecer.Paulo apoia o valor deste requisito com um paralelo tipicamente paulino; um argumento do menor ao maior. 

Se um homem demonstra incompetência no lar, no governar de seus próprios filhos, então o problema precisa ser encarado; como conseguirá ele tomar conta da igreja? "Sua própria casa" (oikos, como no v. 4) fica em contraste com "a igreja de Deus". A ausência do artigo antes de "igreja" frisa o caráter da igreja local (veja v. 15). 

O termo "igreja de Deus" no Novo Testamento é usado apenas da igreja local (Atos 20:28; I Cor. 1:2, 10,33; 11:16, 22; 15:9; Gál. 1:3; 11Tess. 1:4), e descreve a companhia dos santos numa localidade, reunidos ao nome do Senhor Jesus Cristo (Mat. 18:20).

O segundo contraste é entre os verbos usados. Em relação à sua própria casa, é "governar"; em relação à igreja, é "ter cuidado", um verbo usado, no Novo Testamento, apenas em Luc. 10:34-35, na parábola do bom samaritano. 

Indica o interesse amoroso que será mostrado pelo bispo no bem-estar dos membros da igreja; o mesmo cuidado que um pai demonstraria pelos membros de sua família.

Em relação a isto, veja o uso interessante do substantivo cognato na afirmação de Atos 27:3, traduzida "ver os amigos para que cuidassem dele" (literalmente, ter o cuidado deles); esta é uma linda ilustração de tal cuidado.


6. A palavra "neófito" '(neophutos), encontrada somente aqui no Novo Testamento, significa, literalmente, recém-plantado, e descreve aqui um recém-convertido (na LXX, é usada de árvores recém-plantadas, Sal. 144:12; 128:3, e assim, figurativamente, das crianças na família). 

Isto não indica um limite arbitrário na idade cronológica do bispo, pois a experiência não é exclusiva de homens na faixa etária mais velha, mas mostra que a experiência nas coisas de Deus, nas verdades das Escrituras e entre o povo de Deus é essencial.Nenhum recém-convertido pode ter isto. A falta de experiência carrega um perigo inerente para o bispo. Este perigo surgirá da possibilidade que é definida no particípio traduzido "ensoberbecendo-se". 

O verbo ensoberbecer-se (tuphoo) originalmente significava envolver em fumaça e, usado figurativamente, indica um inchaço mental (compare também com 6:4, "soberbo", e 11Tim. 3:4, "orgulhosos"); ou, como a fumaça cega fisicamente, assim também o orgulho cega espiritualmente, e leva, inevitavelmente, à queda. 

Em ambos os casos, o bispo corre o risco do mesmo tropeço que teve o grande representante do orgulho, o diabo. O artigo ligado à palavra "diabo", mostra que nenhum impostor humano está em vista, mas o próprio diabo. A expressão "condenação do diabo" deve ser entendida objetivamente, como a condenação que o diabo trouxe sobre si por causa de orgulho vanglorioso (Isa. 14: 12-15; João 8:44). 

O particípio aoristo (traduzido "ensoberbecendo-se") e o tempo aoristo do verbo "cair" indicam quão rápida, repentina e desastrosamente a falta de experiência pode ser evidenciada.


7. Na comunidade, distinta da igreja de Deus (v. 5), o bispo deve ter "bom testemunho". A palavra "testemunho" é marturia, e isto precisa ser "bom" (kalos). Um testemunho excelente ajudará a capacitar o homem para uma excelente obra (v. 1). Os que estão de fora da igreja local precisam ter razões para falar bem de sua honestidade, integridade e santidade. 

"Os que estão de fora" são os que não estão na comunhão da igreja local; esta referência passageira faz demarcação clara entre os reunidos ao nome do Senhor Jesus Cristo e todos os outros. As Escrituras esperam que cada cristão obedeça à Palavra de Deus neste' ponto, e, se assim fizerem, reunirão "ao nome do Senhor Jesus Cristo" (Mat. 18:20). 

Dentro da igreja local, os princípios das Escrituras, o poder do Espírito Santo e a presença do Salvador são conhecidos por experiência.Entretanto, aqueles que estão "fora" (exothen) da comunhão, certamente irão observar, criticamente, as vidas dos santos. Um homem conhecido por ter um temperamento, ou linguagem, desagradáveis, ou por sua desonestidade ou impureza, não pode ocupar lugar de bispo, pois isto seria "cair em afronta", isto é, dar razão aos que debocham ou zombam de sua vida. 

Mesmo os incrédulos, com a Lei de Deus gravada no seu coração (Rom. 1:15), sabem distinguir, instintivamente, o certo do errado, e podem avaliar corretamente o valor de uma profissão de fé. N. D. White tem uma nota interessante:"Existe algo questionável no caráter de um homem, se o consenso da opinião dos de fora é desfavorável a ele, independentemente do quanto ele seja admirado e respeitado pelos membros do seu próprio grupo". 

Governar dentro requer respeito de fora, e desafiar a opinião de fora é convidar desastre. A suspeita e censura (repreensão) apontadas contra um bispo poderiam facilmente desencorajá-lo, e nesta condição ele seria um alvo fácil para o diabo, que certamente colocaria uma armadilha (laço) no seu caminho. 

A palavra "laço" (pagida) se refere à'l armadilhas que I Timóteo cap. 3 Satanás coloca para os pés incautos. A imagem transmitida pela palavra mostra o diabo como um caçador de almas. Isto causaria grande mal ao homem e grande estrago para a igreja. Quanto à libertação do laço do diabo (mesma expressão que aqui) veja 2Tim. 2:26. 

O alvo do diabo é sempre destruir os líderes, e um que não tem a qualificação mencionada aqui lhe daria esta oportunidade.É evidente que o "laço do diabo" deve ser entendido como um subjetivo genitivo, isto é, o laço que o diabo arma para o santo.



Diáconos
Qualificações Citadas (1 Timóteo 3: 8-13)


Os diáconos, aqui, são aqueles homens aos quais o Senhor concedeu dons para o ministério e ensino dentro da igreja.Para que este ministério tenha valor espiritual, certas qualidades devem marcar os homens. Estas são, também, apresentados em quatro itens:


a. Sua Dignidade Pessoal v.8;

b. Sua Vitalidade Espiritual vs. 9-10;

c. Sua Integridade Conjugal v. 11;

d. Sua Fidelidade Familiar vs. 12-13.


A palavra "diácono" (diakonos) ocorre 29 vezes no Novo Testamento, e é sempre traduzida "servo" ou "ministro", a não ser em três ocasiões, onde diácono é usado (Rm. 1:1; I Tim. 3:8-12). É evidente que a tradição eclesiástica influenciou nesta tradução. 

A ideia principal é "servo", mas com uma referência específica ao trabalho que ele faz. Outra palavra geralmente traduzida "servo" é doulos, mas esta apresenta um escravo em relação a seu senhor. 

A palavra diakonos é usada de Cristo em relação ao Seu povo (Rom. 13:15), e do magistrado em relação à função que ele exerce para Deus (Rom. 13:4).

Os dois aspectos do trabalho do diácono que se tomam claros no Novo Testamento, com relação ao serviço da igreja, podem ser encontrados em Atos cap. 6, onde, mesmo que esta palavra não seja usada, as palavras cognatas são instrutivas. Em Atos 6:1, temos o substantivo: "suas viúvas eram desprezadas no ministério (diaconia) cotidiano". 

No V. 2, temos o verbo:"não é razoável que deixemos a palavra de Deus e sirvamos (diakoneim) às mesas." 

Estes dois versículos ligam o diaconato I Timóteo cap. 3 com o serviço material; mas, no V. 4, temos a afirmação apostólica:"mas nós perseveraremos na oração e no ministério (diakonia) da palavra". 

Isto indica que diaconato tem outro aspecto, um lado espiritual, ilustrado no trabalho apostólico. 

W. Hoste (Bishops, Priests and Deacons, pág. 115) afirma que "tanto os sete quanto os doze cumpriram os seus respectivos diaconatos. Como resultado de um, não houve mais murmuração entre as viúvas; como resultado do outro, 'crescia a palavra de Deus, e em Jerusalém se multiplicava muito o número de discípulos', Atos 6:7."

Assim é evidente que o diácono será visto em duas esferas diferentes de trabalho:
a. Um plano físico, material, administrativo, para o benefício do grupo, por homens escolhidos por, e responsáveis a, este grupo (Atos 6:5). 

Em apoio a isto, o substantivo cognato é usado desta forma em Atos 12:25; Rom. 15:31; II Cor. 8:4, 9, 12.

Dentro desta esfera, estariam os trabalhos administrativos a serem realizados em benefício da igreja; o cuidado do local de reuniões, a distribuição dos hinários, os deveres de tesoureiro, etc. Todos estes contribuem para o bem-estar da igreja de uma forma material.


b. Um trabalho espiritual, de ministrar ao cristão e ao pecador.Embora exercido dentro e através da igreja, é ministrado por homens capacitados e apontados pelo Senhor para tal responsabilidade.Paulo referiu-se desta maneira a si próprio e a outros em 11Cor. 3:6; 6:4; Ef. 3:7; 6:21; Col. 1:7,23,25; 4:7; I Tess 3:2, na pregação do Evangelho e no ministério aos santos. 

É neste contexto que as três ocorrências da palavra nesta epístola devem ser vistas, duas vezes neste capítulo (vs. 8 e 12), e de Timóteo em 4:6, "bom ministro (diakonos) de Jesus Cristo." 

Com dons dados pelo Senhor, e responsáveis a Ele, eles exerceram um ministério dentro da igreja local para a edificação dos santos.
São as qualificações de tais diáconos que são citadas em 3:11- 13, e isto explica a razão por que estas qualidades apresentam o mesmo padrão daquele requerido dos presbíteros. 

Em alguns aspectos, de fato, especialmente em relação "à fé" (vs. 9 e 13), são até mais exigentes. O uso da palavra no plural serve para sugerir que pode haver mais diáconos do que presbíteros numa igreja.


8. "Da mesma sorte" (hosautos) tem a mesma função que teve em 2:9, de marcar um paralelo do mesmo caráter. 

Assim, os diáconos, em suas qualificações, devem ter o mesmo padrão que os bispos. O mesmo verbo (dei), traduzido "convém" no v. 2, é usado para completar a gramática do versículo. "Honestos" (semnos) traz em si o pensamento de dignidade e sobriedade, sendo que "distinto" daria uma boa ideia do sentido desta palavra. 

Assim, a seriedade de propósitos que domina a mente do diácono possui evidências exteriores que a refletem. 

O substantivo cognato ocorre em 2:2 ("honestidade") em no v. 4 ("modéstia"). A demonstração deste comportamento digno está em contraste nítido com o comportamento proibido nas próximas três negativas:"Não de língua dobre" (me dilogous) se refere a palavras: literalmente, significa não falsos no falar. Usado somente aqui no Novo Testamento, dá a ideia de inconsistência no falar. M. E. Bengel explica: "Dizer uma coisa para uns e outra para outros".
Hoje, diríamos: "adaptar a mensagem aos ouvintes". Não há qualquer seriedade de propósito neste tipo de atitude."Não dados a muito vinho" (me oino pollo prosechontas) chama a atenção ao vinho. Compare com o que foi dito do bispo no v. 3. 

O verbo cognato, usado em 1:4 ("se deem") e em 4:1 ("dando ouvidos"), não significa, apenas, não dar atenção, mas não dar consentimento, ou não aderir de qualquer maneira. Nada faz um cristão perder a dignidade mais depressa do que a tolerância ao vinho; perde-se o controle, e o desastre vem logo a seguir. 

Beber "socialmente" tem estragado muitos testemunhos."Não cobiçosos de torpe ganância" (me aischokedeis) chama a atenção à riqueza. Esta é uma palavra muito forte, derivada de kerdos, ganho, e de aischros, sujo, e é usada, novamente, somente em Tito 1:7. 

O ganho se toma contaminado pelo motivo que o inspira.O diácono deve estar livre de qualquer suspeita de que o seu motivo de servir seja de proveito pessoal. 

O ganho se toma sórdido (ARA) quando o homem faz da aquisição do mesmo, e não da glória de Deus, o seu principal objetivo. 

Não há nada mais vergonhoso do que tratar das coisas divinas, esperando enriquecer-se por meio delas.Este dinheiro merece ser descrito como "imundo".


9. Os diáconos devem ter uma vida espiritual vital se pretendem que o seu ministério seja válido. A ênfase recai nas palavras finais, "uma pura consciência", mostrando um relacionamento íntimo entre sã doutrina ("a fé") e uma consciência livre de mácula e auto condenação. 

"Mistério", no Novo Testamento, não significa algo secreto, misterioso ou incompreensível, mas aquilo que, anteriormente desconhecido, agora foi revelado (veja 16).

Assim, quando Paulo usa esta palavra (como em Rom. 16:25; Col. 1:26) ele está se referindo àquilo que, fora da esfera de compreensão humana natural, agora é revelado em Cristo para o Seu povo, pelo Espírito (I Cor. 2:7-19). 

Esta revelação é incorporada "na fé", que, entendida como genitivo descritivo, isto é, explicando o que é o mistério, fala do conjunto de ensinos objetivos, sendo equivalente à totalidade da verdade, inacessível ao raciocínio humano não iluminado, mas conhecido por revelação divina. 

Usando uma metáfora _ esta valiosa "joia" deve ser preservada numa "caixa" especial.Esta "caixa" é o centro da natureza moral do diácono - a consciência (veja 1:5). 

Esta faculdade, que distingue entre o bem e o mal, é agora iluminada por revelação, e purificada pelo sangue de Cristo (Heb. 9:22), para dar testemunho à correlação entre o que se crê ("a fé") e o que se pratica na vida. 

O diácono só pode ter tal consciência quando ele pratica na vida o que prega com os lábios.Abstrações teológicas devem ser refletidas na pureza da vida. I Timóteo cap. 3 10. 

H. Alford sugere que a primeira palavra deste versículo deveria ser traduzida "além do mais", para indicar que os diáconos precisam, não apenas, dar provas de seu caráter, mas ter, também, um período em que seu trabalho é posto a prova. 

O uso da palavra "também" provavelmente está ligado a este requisito adicional. 

A palavra "provados" (dokimazo) era a palavra usada para descrever o testar dos metais (Prov. 8: 10; 17: 10, na LXX), geralmente referindo-se ao processo de passá-los pelo fogo, com o objetivo de colocar um selo de autenticidade sobre eles. Figurativamente, é usada pelo apóstolo de si mesmo em I Tess. 2:4, "aprovados de Deus para que o evangelho nos fosse confiado". 

Com isso, ele não quer dizer conseguir permissão para pregar, mas aprovação divina depois de ser testado. 

Ele não se refere a um tempo de experiência ou a um exame formal como os que são agora estabelecidos nos círculos eclesiásticos, mas a uma observação constante e minuciosa do homem e do trabalho que ele já faz. Este exame constante leva à aprovação.

O imperativo presente traz a ideia de continuar pondo a prova. 

A ideia não é de condenação crítica constante, mas de uma apreciação daquelas qualidades de caráter de um homem que Deus está preparando para a obra, bem como uma avaliação da eficiência do seu ministério. 

10. "Irrepreensível" (anenkeletos) é sinônimo da palavra usada do presbítero (v. 2), e mostra que não há nada duvidoso na sua vida, nenhuma acusação contra ele. 

"Exerçam o diaconato" é a tradução, na ARA, de uma palavra que é melhor traduzi da pela ARC, "depois sirvam", Sendo o homem e seu trabalho testados e aprovados, o diácono é incentivado a cumprir seu ministério.


11. Muitos comentaristas questionam a tradução "suas mulheres", dizendo que não há nenhum artigo que poderia ser traduzido como possessivo ("suas''). Rejeitando, e com razão, a tradução da ARC, "mulheres", como se fossem mulheres em geral que estavam em vista, tais expositores (Elliott, H. Alford, W. E. Vine) sugerem que aqui temos uma ordem de diaconisas, cujas qualificações são citadas.

Em apoio a esta ideia, Febe (Rom. 16: 1) é mencionada como sendo representante desta classe de mulheres, reconhecida dentro da igreja e que executa tarefas especiais dentro da sua esfera de trabalho.Busca-se apoio gramatical dizendo-se que "da mesma sorte" (hosautos) separa classes; isto acontece no V. 8, portanto, agora no V. 11, dizem que uma terceira classe é introduzida.

O argumento é muito fraco. Paulo poderia ter usado a palavra "diácono" no feminino singular, (o plural seria igual à palavra do v. 8) se ele quisesse identificar uma outra classe. No mínimo, esperaríamos algo mais específico do que gunaikas (mulheres, ou esposas) sem o artigo. 

Um estudo das quatro ocorrências de hosautos nesta epístola (2:9; 3:8, 11; 5:25), ou as outras três ocorrências no Novo Testamento, não apoiam esta ideia, de que necessariamente introduz uma nova classe; pelo contrário, serve para comparar urna nova afirmação com a anterior. 

O presbítero irrepreensível (v. 2) corresponde ao diácono irrepreensível (v. 8) e, de acordo com isto, suas esposas (ambas, do presbítero e do diácono) precisam ter certo caráter. Seria estranho introduzir aqui uma nova classe, e resumir as qualificações do diácono no v. 12. É evidente que a tradução "suas mulheres" seria correta. 

A razão da inclusão desta afirmação aqui pode ser que os diáconos necessariamente aparecem em público, ainda mais que os bispos, e suas parceiras precisam ter caráter que combine com a sua posição.As qualificações das mulheres refletem, de perto, as qualificações dos diáconos. 

A palavra "honestas" é a mesma do v. 8, e mostra a seriedade de propósito por trás de uma conduta digna. Em Fil. 4:8 é traduzida "honestos", e na ARA, "respeitáveis".

"Não maldizentes" (me diabolous) lembra a palavra usada 34 vezes no Novo Testamento para descrever Satanás como o acusador (o diabo); em IITim. 3:3 e Tito 2:3 (traduzi da "falsos acusadores"), frisa o perigo da fofoca maldosa e maliciosa com que o diabo faz o seu trabalho. 

Compare a palavra no v. 8, "não de língua dobre". O Expositors Greek Testament diz, convincentemente, que, enquanto os homens são mais propensos do que as mulheres a "ter língua dobre", as mulheres são mais propensas do que os homens a ser "maldizentes"."Sóbrias" ("temperantes" na ARA), a mesma palavra que a do v. 2, tem a ideia do controle próprio cuja fonte é uma mente bem equilibrada (veja o substantivo cognato em 2:9). 

Compare com a ilustração paralela do v. 8, "não dado a muito vinho".Paulo agora acrescenta "fiéis em tudo". Já vimos, nesta epístola, um apóstolo "fiel" (1: 15; 3: 1); agora, uma mulher "fiel", onde a ideia é alguém de confiança. 

Ela merece confiança em todas as esferas. Como a mulher virtuosa de Prov. 30: 10-11, "o coração de seu marido está nela confiando". Uma das coisas incluída neste "tudo" seria, sem dúvida, o manejar das finanças da família.

Com referência às mulheres: Febe é chamada "nossa irmã que serve (diakonos) na igreja" (Rom 16:1), e seria reconhecida como uma pessoa a quem atos definidos de serviço, consistentes com o seu sexo, poderiam ser confiados pela igreja. Dentro desta esfera, o seu serviço abrangeria tanto o material como o espiritual. 

No plano material, físico, e administrativo, estariam as obras de caridade, o cuidado dos doentes, a hospitalidade dentro do lar, etc; na esfera espiritual, estaria o ensinar a outras mulheres mais jovens, o ensino e cuidado das crianças, etc. 

As que irão se responsabilizar por tal trabalho devem ter, da mesma forma que o diácono masculino, as qualificações dadas pelo Senhor e a confiança dos santos aos quais ministram.

12. O padrão moral requerido dos diáconos é o mesmo que o do presbítero. A expressão "maridos de uma só mulher", é a mesma I Timóteo cap. 3 expressão do V. 2 (exceto, é claro, pelo plural). 

Veja o comentário daquela passagem. Não pode haver qualquer registro de má conduta conjugal naquele que ocupa uma posição proeminente e responsável no testemunho, de onde possa surgir qualquer acusação contra ele, mesmo dos dias anteriores à sua conversão.

O caráter do diácono, como do presbítero, será manifesto dentro do lar. Veja, no v. 5, os comentários acerca de "governar" e "bem" (kalos). 

O manejar dos filhos e do lar fornece uma evidência clara do calibre do diácono.

13. O "porque" neste versículo e o particípio do verbo diakoneo limitam este incentivo aos diáconos focalizados. O particípio ativo aoristo traduzido "servirem bem como diáconos" é um incentivo à felicidade no serviço dos diáconos e forma uma conclusão adequada para a passagem.

Duas promessas são feitas:
a. "uma boa posição" ("justa preeminência", na ARA). A palavra "posição" (bathmos) significa, literalmente, uma base, um alicerce ou degrau. Baseado na ideia errônea de que os diáconos eram oficiais subordinados da igreja, alguns veem nisto a promessa de promoção para o presbitério. Embora a palavra viesse a indicar isto em escritos eclesiásticos, tal significado é totalmente estranho ao seu uso no tempo do Novo Testamento.Outros têm visto esta palavra como referência à revelação de serviço no tribunal de Cristo. Eles apontam para o tempo aoristo no particípio (servirem bem como diáconos) como indicativo de um serviço completo. Mas Paulo não estava se referindo à promoção eclesiástica (uma noção não bíblica) e nem a uma recompensa futura. A referência é à excelente posição na igreja que o diácono obtém através de seu ministério excelente.O tempo aoristo chama atenção aos atos completos do serviço. O verbo "adquirirão" (usado de Deus em Atos 20:28) é o verbo "ganhar" e, na voz média, como aqui, significa ganhar para: si; o tempo presente indica que a "boa posição" é o resultado presente do seu serviço fiel.


b. "Muita confiança". A palavra "confiança" (parrhesia, de pas, toda, e rhesis, fala) significa, literalmente, liberdade de fala. Veja o seu uso em Atos 2:29 e em Atos 4:13, 29, 31. 

A palavra, entretanto, no seu uso geral veio a ser entendida como aquela confiança ou coragem que estão por trás da liberdade de expressão oral, e é melhor traduzida pela palavra "intrepidez". 

 Esta intrepidez pode ser perante Deus (Ef, 3: 12) ou perante os homens (II Cor. 7:4; Fil. 1:20; I Tess. 2:2). 

Aqui, fala da confiança interior que vem da consciência de ter integridade pessoal e de ser aceito pela igreja, que capacita o diácono a falar com autoridade e convicção.

Alguns consideram a "fé" como o crer pessoal e subjetivo do diácono em Cristo, que é fortificada. Assim, ele ganha em confiança à medida que seu ministério é cumprido fielmente. 

Esta ideia ganha força devido à ausência do artigo antes de "fé", e a frase final "que há em Cristo Jesus", onde Cristo é a pessoa em quem a fé descansa. Entretanto, isto é difícil de sustentar pelo contexto. Antes, a ideia é frisar uma confiança crescente em relação aos ensinos de fé que ele claramente expõe. 

Estes ensinos todos encontram a sua base em Cristo Jesus. Um resumo majestoso desta fé segue imediatamente no v. 14. 

Seria de esperar que "aguardando o mistério da fé" (v. 9) resultaria na exposição confiante da mesma, ao ser o ministério do diácono aceito na igreja. 

Embora não haja artigo antes de "fé", existe um imediatamente após, que gramaticalmente age como pronome; "na fé, a (qual), em Cristo Jesus".


O Conceito Divino

Governando o Testemunho

A Conduta Esperada na Igreja: a Casa de Deus (1 Timóteo 3: 14-15)


Estes versículos são a chave da epístola. Paulo explica por que ele está escrevendo, e nisto indica a importância e urgência do mandamento que ele está dando a Timóteo.

A questão em debate é a manutenção de um testemunho local para Deus, que refletiria glória no próprio Deus. Alguns termos são usados para indicar que este testemunho é divino, em caráter e constituição, e isto exige uma conduta correspondente aos associados com tal testemunho.


14. A razão pela qual esta epístola foi escrita é dada neste versículo.Incerto quanto aos seus movimentos futuros dentro da vontade de Deus, Paulo, pelo Espírito, é levado a registrar "estas coisas". 

Esta expressão, em primeiro lugar, se refere a assuntos já expostos, mas a figura gráfica no tempo presente do verbo "escrever" (eu estou escrevendo) necessariamente inclui assuntos dos versículos seguintes que completarão o mandamento. 

As palavras "em breve" não apresentam adequadamente o grau comparativo do advérbio tachion ("bem depressa", na ARC) que H. Alford traduz muito bem por "vir até ti mais cedo (do que pareça possível)". Isto simplesmente quer dizer que, apesar das circunstâncias aparentemente desfavoráveis, o apóstolo esperava chegar em Éfeso mais cedo do que o esperado.


15. Por causa da possibilidade de demora na sua vinda, temos esta epístola tão importante ao testemunho local da igreja. O verbo "saber" (oida) indica aquilo que "está na esfera de percepção do conhecedor" (W. E. Vine) e, por isso, frequentemente sugere a revelação divina. A epístola traz à esfera de percepção do leitor assuntos relevantes à conduta exigida aos que estão associados com a igreja local. 

Timóteo, ao exercer a sua autoridade como bom ministro (diácono) de Jesus Cristo (4:6) seria responsável por trazer estes assuntos ao conhecimento dos cristãos. Com o verbo impessoal (dei) o sujeito normalmente seria o neutro. A pessoa sobre quem cai esta tarefa seria colocada no caso acusativo. 

Como, porém, não há qualquer pronome de caso acusativo, é possível inserir "você" ou "o homem".Qualquer sugestão de que a conduta de Timóteo estava em falta é totalmente sem fundamento, e seria melhor manter a expressão "como convém andar" impessoal. Note o uso do verbo dei na epístola: v. 3 ("precisar"), v. 7 ("precisar") e 5: 13 ("deve"). 

Esta tradução impessoal é apoiada pelo verbo compreensivo "comportar" (anastrepho) que, na voz média, significa conduzir-se, e não descreve ações isoladas, mas toda uma maneira de vida. Seja qual for a esfera de vida, quer homem ou mulher, presbítero ou diácono, jovem ou idoso, existe subentendida uma maneira de vida digna da associação com este testemunho. 

Podemos ver que o verbo tem este alcance em Ef. 2:3 ("nós andávamos") e 11 Cor. 1:12 ("temos vivido"); abrangendo todo um estilo de vida.O comportamento (modo de vida) deve estar em acordo com a dignidade do testemunho, que é descrito sob o termo "a casa de Deus". 

A palavra "casa" (oikos) já foi usada três vezes neste capítulo, duas vezes referindo-se ao presbítero (vs. 4 e 5), e uma ao diácono (v. 12); portanto, já está estabelecido que indica, aqui, uma família. 

Todas as referências a uma "casa", nas epístolas Pastorais, subentendem a ideia de "família" (veja 5:4; 11 Tim. 1:16; 4:19; Tito 1:11). 

Desta forma, Paulo usa a analogia da família humana para definir uma responsabilidade: da mesma forma que pertencer a uma família terrestre traz certas responsabilidades sobre o homem, assim, de maneira muito mais abrangente, pertencer à família de Deus também o traz. Uma figura diferente é usada em I Cor. 3:9: "edifício de Deus", onde a palavra é oikodome. 

Outra figura é encontrada em I Cor, 3: 16, "templo de Deus", onde a palavra é naos, um santuário.A expressão "família de Deus", em Ef. 2:19, tem em vista indivíduos, como que enfatizando o seu lugar no propósito de Deus quando ligados a Cristo. "Cristo como Filho sobre a Sua própria casa" tem em vista a Igreja da dispensação, a totalidade dos cristãos na "Igreja que é o Seu corpo" (Ef. 1:22-23). Aqui, porém, refere-se à companhia local dos santos reunidos em nome do Senhor Jesus Cristo, em obediência às Escrituras, e vista como urna.unidade de testemunho. A ausência de qualquer artigo frisa o caráter de tal agrupamento.A descrição apositiva da próxima frase dá mais dignidade ao testemunho local. Para a expressão "igreja de Deus", veja o v. 5. 

O adjetivo "vivo" mostra a atividade de um Deus que agiu desta forma na formação de um grupo como este, por meio de Seu Filho, das Escrituras, e do Espírito, em contraste aos ídolos mortos do paganismo.

Em 4: 10 e 6: 17 (A tradução da AV diz: "... no Deus vivo, ..." (N. do R.)., o mesmo adjetivo irá indicar o cuidado constante, e as provisões infalíveis, que os santos podem esperar deste que assim os chamou para o testemunho. A ausência do artigo outra vez frisa o caráter do agrupamento.A frase apositiva final aumenta ainda mais o valor do testemunho divino. Duas figuras arquitetônicas são empregadas. 

O pilar (stulos) indica a coluna que apoia o peso do prédio. Figurativamente, é usada acerca de homens em Gál. 2:9, e do vencedor em Apoc. 3: 12. 

No testemunho divino, a igreja dá testemunho de um homem ressurreto, em Quem está personificada a verdade, a ausência do artigo, outra vez, testificando do caráter de cada local.A palavra "firmeza" (hedraioma) indica um apoio, baluarte, ou arrimo. 

Esta última palavra seria a melhor alternativa, de acordo com o contexto, onde a ideia é de testemunho positivo à verdade (o pilar) e a manutenção dele (arrimo) em face da oposição. A expressão "da verdade", como em 2: 14, não deve ser limitada a um aspecto da verdade. É aquilo que, revelado em Cristo, que é a verdade (João 14:6), é mantido em testemunho a Ele. Todos os aspectos da verdade absoluta serão assim mantidos; quanto à Sua pessoa e obra (evangelicamente), quanto ao Seu propósito e testemunho neste século (eclesiasticamente) e quanto à Sua prometida volta e reino (escatologicamente).


O Cristo em Evidência no Testemunho: 

O Filho de Deus (1 Timóteo 3:16)


Temos aqui apresentado tudo o que está contido em "a verdade", da qual toda igreja local dá testemunho. Tudo isto foi personificado, historicamente, numa pessoa, e é ao testemunhar dEle como Deus que o testemunho divino atinge o seu ápice.

16. " Sem dúvida alguma" traduz o adverbio homologumenos, do verbo homologeo, confessar (homos, igual, e lego, falar), e assim indica todos falando a mesma coisa, por consentimento comum, onde nenhuma voz discordante é ouvida. Esta é a grande confissão pública da verdade em Cristo, testemunhada por cada cristão na igreja. Deve ser associada com "grande", pois todos que testemunham da verdade reconhecerão quão grande é o mistério da piedade.

A palavra "mistério" (veja v. 9) tem o seu significado neotestamentário normal,. isto é, aquilo que, anteriormente escondido, é agora revelado. Neste caso, a revelação é da piedade. 

Pode-se ver aqui qual seria a resposta cristã ao grito do culto de Éfeso, "grande é Diana dos Efésios" (Atos 19:28). O único outro mistério chamado de grande no Novo Testamento está em Ef. 5:32. 

"Piedade" (eusebia) não é um atributo de Deus, como santidade ou justiça, mas é uma atitude, para com Deus, daqueles que O conhecem e reverenciam, o qual é refletido no modo de vida deles. 

A manifestação preeminente desta atitude foi, histórica e evidentemente, em Cristo, e o que a epístola enfatiza é que este testemunho de piedade deve ser reproduzido agora, nos santos, em testemunho coletivo a Ele.

Batalhas textuais são travadas sobre a questão da próxima palavra ser "Deus" (Theos), como em algumas versões, ou "Aquele" (os), como na ARC. 

W. E. Vine afirma claramente: "Seria bom esclarecer a razão desta tradução [da ARC]. Nos manuscritos antigos, o pronome relativo 'aquele' era escrito os. Por outro lado, a palavra Theos, Deus, era frequentemente abreviada para os. 

Os mais importantes manuscritos antigos, e todas as versões anteriores ao século VII, estão claramente a favor do pronome. 

Theos facilmente seria derivado de os, e confusão entre os dois seria fácil.

"Numa passagem extensa, W. Kelly defende a tradução "Aquele", e mostra que isto não infringe, de qualquer maneira, a divindade absoluta, pois somente a divindade poderia "se manifestar em carne".

Apesar de tudo isto, a palavra Theos tem apoio textual bem forte, e era a leitura conhecida de muitos dos pais da Igreja. Significa, também, que o problema do antecedente do pronome relativo não aparece. 

Este antecedente não pode ser, gramaticalmente, "o mistério" (senão a palavra seria "que"); por isso, a maioria dos comentaristas é levada, como C. J. Ellicott, a descrevê-lo como "relacionado a um antecedente omitido, mas facilmente reconhecido, isto é, Cristo." 

Assim, é contextualmente permitido, exegeticamente correto, e textualmente aceitável, defender a tradução "Deus se manifestou em carne".

O mistério da piedade é apresentado em seis afirmações rítmicas e bem harmoniosas. O paralelismo cuidadoso das linhas, a assonância marcada das sílabas, e os seis verbos aoristos na terceira pessoa, tem levado alguns a sugerir que talvez seja a citação de um hino primitivo, ou talvez uma afirmação de fé formulada deliberadamente.

Esta sugestão é desnecessária, e rouba a afirmação do êxtase de espírito que claramente enchia o coração do apóstolo, enquanto contemplava a completa personificação da verdade na Pessoa de Cristo, em quem, historicamente, havia uma manifestação divina de propósito.

As seis afirmações foram divididas de diversas maneiras, seja em dois grupos de três, ou em três grupos de dois. 

Uma maneira simples de apresentar a harmonia entre as afirmações é apresentada no diagrama que, com estrutura cruzada dupla, relaciona três grupos de duas unidades em dois grupos desta maneira:
1. Se manifestou em carne2. Justificado em espírito

3. Visto dos anjos

4. Pregado aos gentios

5. Crido no mundo

6. Recebido acima na glória


O paralelismo contrastante (destacado abaixo) também fica claro no diagrama acima.
1. Em carne Em espírito

2. Anjos Gentios

3. No mundo Na glória.


A frase "se manifestou em carne" enfatiza a encarnação, sendo que o termo inclui tanto o Seu nascimento quanto a Sua vida na terra. A ARA (''foi manifestado") traduz o tempo aoristo, que descreve a época quando Cristo esteve na terra em humanidade. O mesmo verbo é usado, do mesmo acontecimento, em Heb. 9:26; I Ped. 1:20. 

"Em carne" (en sarki), sem o artigo, abrange o período desde a encarnação até a ascensão (Rom. 8:3), quando Ele estava visivelmente presente na terra como Homem. Nenhum mistério pode ser mais inescrutável do que a divindade encarnada."Justificado em espírito" é a expressão paralela. 

"Em carne", o julgamento dos homens colocou Cristo numa cruz, como se Ele não fosse digno de viver. Deus, porém, O declarou justo; Ele O justificou, vindicou-O em Sua ressurreição. A ressurreição é a vindicação tanto de Sua pessoa (Rom. 1:4) quanto de Sua obra (Rom. 4:23- 25). 

Isto ainda não é visto pelos homens; mas nesta esfera, ainda invisível aos homens, Ele tem sido vindicado. Deus, de fato, reverteu o julgamento da terra. Assim, à luz destas coisas, o contraste não está entre a carne e o espírito de Cristo, ou entre a ação do homem e a do Espírito Santo em ressurreição, mas entre a esfera do visível, "em carne", e a esfera do invisível, "em espírito" (veja I Ped. 3: 18 para um contraste semelhante). 

Deus coloca um Homem no trono, mas na esfera terrestre isto ainda não é visível.

"Visto dos anjos" é a primeira das duas afirmações paralelas seguintes, chamando atenção aos cidadãos das duas esferas mencionadas acima, mas em ordem contrária, baseada na estrutura cruzada.Na esfera invisível aos mortais, os anjos O tem observado, exaltado e entronizado (I Ped. 3:23). 

É certamente verdade que eles anunciaram o Seu nascimento (Luc, 1:9-14), serviram-nO em vida (Mar 1:13; Luc. 2:13; 24:23), e devem ter se horrorizado com a Sua morte, quando Ele foi sozinho para a cruz, mas este não é o ponto do contraste. 

Esta afirmação enfatiza a observação e, consequentemente, a admiração e adoração que as hostes angelicais ofereceram a Cristo, quando, na ressurreição, observaram Sua ascensão vitoriosa ao trono (I Ped. 3:2; Heb. 1:6).

"Pregado aos gentios" enfatiza que, na esfera do visível, Ele foi proclamado (o verbo é kerusso, o cognato de "pregador" em 2:7) às, ou entre as, nações (ARA; veja 2:7 para "gentios"). Não mais entre os limites da nação de Israel, mas a proclamação mundial centraliza-se numa Pessoa. 

Embaixadores deste Cristo ressurreto (2 Cor. 5:20) tem levado tal notícia a todas as nações.As afirmações finais destacam as características dominantes das duas esferas. 

Na esfera visível da humanidade, onde o Cristo entronizado ainda não é visto, a fé na sua pessoa é exercitada. 

Na esfera ainda invisível aos olhos mortais, Ele é entronizado em glória, um fato ainda a ser demonstrado universalmente (Fil. 2:9-11).

"Crido no mundo" está claramente ligado na estrutura cruzada à afirmação anterior. 

É na terra que a mensagem é pregada, e a fé exercitada (João 20:31; 11 Tess. 1:10). O que não é visto é aceito pela fé, baseado na Palavra de Deus.

"Recebido acima na glória", como Mar. 16:19; Atos 1:2, 11, 22, enfatiza as boas-vindas oferecidas Àquele que foi rejeitado na terra. Outras palavras para ascensão são "elevado" (Luc. 24:51), "subiu" (Atos 1: 10 e Ef. 4: 10). 

A expressão "na glória", no sentido técnico, vai além do ato da ascensão e exaltação, para mostrar o brilho estonteante da própria presença de Deus: ali, um Homem está entronizado.

O paralelismo antitético e a estrutura cruzada das seis afirmações declaram assim, de uma forma cronológica, o mistério da piedade revelado em Cristo, desde a encarnação até a coroação na glória.Deus e a glória são manifestos em um Homem.

Este resumo majestoso da verdade, personificada em Cristo, e que agora deve ser mantida no testemunho da igreja local, dá uma conclusão adequada à primeira parte da epístola. 

A manutenção do testemunho, evidenciado na atmosfera e na autoridade dentro da casa de Deus, tem um novo significado quando visto em contraste com o pano de fundo histórico da verdade revelada em Cristo.

Estabelece também uma base apropriada para se tratar do perigo do ataque satânico, que inicia a próxima parte da carta.


Livros deste autor são adquiridos pelas editoras:
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Por James Allen

2. A Igreja e o Judaísmo

"E [eu conheço] a blasfêmia dos que a si mesmo se declaram judeus, e não são".
Apocalipse 2:9


Aqui devemos dar atenção para o problema dos judeus. O Senhor disse que nos seus sofrimentos, a igreja tem tribulação e pobreza; com isso é fácil tratar. Mas tratar com aquilo que vem do interior não é fácil. Os judeus mencionados aqui não se referem aos judeus no mundo, mas aos judeus na igreja, assim como as pessoas que vimos antes relacionadas aos nicolaítas não se referem às pessoas do mundo, mas ao laicato na igreja. Aqui fala sobre os judeus que os perseguiram. Isso é mais doloroso entre as coisas dolorosas. Nas sete cartas há uma linha de oposição. Os nicolaítas são mencionados duas vezes: uma vez na igreja em Éfeso e outra em Pérgamo. 

Os judeus também foram mencionados duas vezes: uma vez aqui, e de novo na igreja em Filadélfia. Em Pérgamo, o ensinamento de Balaão é mencionado. Em Tiatira, Jezabel é mencionada. Todos estes constituem a linha de oposição. Você pode perguntar: qual é o significado dos judeus? A salvação não é dos judeus? 

Por que eles falam blasfêmias aqui? Por essa razão devemos saber o que é judaísmo e o que é igreja. Há muitas diferenças essenciais entre judaísmo e a igreja. Aqui quero mencionar quatro pontos para os quais devemos dar especial atenção; o templo, a lei, os sacerdotes e as promessas. 

Os judeus identificaram um templo esplêndido de pedras e de ouro, como o lugar de adoração. Como padrão de comportamento, eles tinham os Dez Mandamentos e muitos outros regulamentos. Para cuidar dos assuntos espirituais eles tinham o ofício dos sacerdotes, um grupo de pessoas especiais. E, finalmente, eles também tinham as bênçãos pelas quais podiam prosperar na terra.


Por favor, note que o judaísmo é uma religião terrena. O que eles possuem é um templo material, regulamentos de letras, sacerdotes mediadores e gozo na terra. Quando os judeus entraram na terra de Canaã, eles construíram o templo. Se sou um judeu e desejo servir a Deus, devo ir ao templo. Se sinto que pequei eu preciso oferecer um sacrifício, devo ir ao templo para oferecer o sacrifício. Se sinto que Deus me tem abençoado e quero agradecer, devo ir ao templo para agradecer. Todas às vezes devo tomar esse caminho. Posso adorar a Deus somente quando vou ao templo. Este é chamado lugar de adoração. Os judeus são adoradores, e o templo é o lugar onde eles adoram. Os adoradores e o lugar de adoração são duas coisas diferentes. Mas é assim no Novo Testamento? A característica especial da igreja é que não há lugar nem templo, pois nós, o povo, somos o templo.


Efésios 2:21-22 diz: "No qual todo edifício, bem ajustado, cresce para santuário dedicado ao Senhor, no qual também vós juntamente estais sendo edificados para habitação de Deus no Espírito". 

A característica especial da igreja é que seu corpo é a habitação de Deus. Individualmente falando, cada um de nós é o templo de Deus. 

Coletivamente falando, Deus nos edifica e adequadamente nos ajunta para tornar-nos Sua habitação. Não há lugar de adoração na igreja; o lugar de adoração é o adorador. 

Carregamos nosso lugar de adoração aonde quer que vamos. Isso é fundamentalmente diferente do judaísmo. O templo no judaísmo é um templo material; o templo na igreja é um templo espiritual. 


Alguém certa vez calculou o valor total do templo judeu – é o suficiente para proporcionar a todas as pessoas da terra uma quota financeira. Mas, e quanto ao templo dos cristãos hoje? Alguns são mancos, alguns são cegos e alguns são pobres, mas este é o templo. Hoje algumas pessoas dizem: "Se você não quer ir a um templo solene e magnífico, no mínimo precisa de uma capela". Mas a igreja não tem um templo. Aonde quer que os crentes vão, para lá o templo também vai. Deus habita em homens, não em uma casa. 

Os homens pensam que, se forem adorar a Deus, eles precisam de um lugar. Alguns até chamam templo de "igreja". Isso é judaísmo, não a igreja! A palavra igreja em grego é "eklésia", que significa "os chamados para fora de". A igreja é um povo comprado com o sangue precioso – esta é a igreja. 

Hoje temos o templo no andar superior, temos o templo no pórtico de Salomão, temos o templo na porta chamada Formosa e temos templo no andar inferior. O judaísmo tem o lugar material. Então, quem são os judeus? São os que levam o lugar material para dentro das igrejas. Se os filhos de Deus desejam andar no Seu caminho, eles devem pedir a Deus que abra seus olhos, para que possam ver que a igreja é espiritual, não material. Os judeus também têm as leis, os regulamentos para seu viver diário (Deus somente usa leis para fazer os homens conhecerem os seus pecados). 

Todo aquele que for um judeu deve guardar os Dez Mandamentos. Mas o Senhor Jesus disse claramente que mesmo que você guarde os Dez Mandamentos, ainda lhe falta uma coisa (Lc 18:20-22).


O judaísmo tem um padrão de princípios para seu viver diário, o qual está escrito em tábuas de pedra e precisa ser memorizado. Mas o problema está aqui: se sou alfabetizado, entendê-lo-ei; se sou analfabeto, não o entenderei. Se tiver boa memória, consigo lembrá-lo; se não tiver boa memória, não consigo lembrá-lo. Isso é judaísmo. O padrão do viver diário do judaísmo é morto; é exterior. 

Na igreja não há lei; em vez disso, sua lei está em outro lugar. Não está escrita em tábua de pedra, mas nas tábuas do coração. A lei do Espírito da vida está dentro de mim. 

O Espírito Santo habita em mim; o Espírito Santo é a minha lei. Leia Hebreus 8 e Jeremias 31. Deus diz: "Nas suas mentes imprimirei as minhas leis, também sobre os seus corações as escreverei" (Hb 8:10). 

Hoje, certo e errado não estão em tábuas de pedra, mas no coração. Hoje nossa especial característica é que o Espírito de Deus habita em nós.


Gosto de contar uma história que expressa o sentido aqui. Em certa cidade havia certo senhor, um eletricista, que tinha pouca escolaridade. Posteriormente, ele foi salvo. Quando os dias esfriavam, ele se preparava para beber vinho conforme seu antigo costume. 

A comida estava pronta, o vinho aquecido e ele, a esposa (que conhecia algumas letras a mais do que ele), e um aprendiz estavam sentados e prontos para comer. Ele começou a dar graças; contudo, por algum tempo nenhum som saiu. Finalmente ele disse: "Agora que sou um cristão, quero saber se é certo os cristãos beberem vinho. 

É uma pena que o pregador tenha ido embora; do contrário, poderíamos, perguntar-lhe. Vamos procurar na Bíblia para ver se é certo os cristãos beberem vinho". 

Assim, os três começaram a folhear as páginas da Bíblia, mas não encontraram nada. Por fim, a esposa sugeriu que o tomassem desta vez. Mais tarde, disse ela, eles poderiam escrever uma carta ao pregador, e se ele dissesse que não é correto beber, eles parariam; se ele dissesse que é correto beber, eles continuariam. 


Então o irmão levantou-se de novo e preparou-se para dar graças. Ma novamente, por algum tempo, nenhum som saiu. Após esse incidente, o pregador encontrou-o, e a questão foi levantada. O pregador perguntou-lhe se ele afinal bebeu na ocasião, e ele replicou: "O Chefe que mora dentro de mim não me permitiu; então eu não bebi". Há um "Chefe interior" – este é um regulamento muito bom.
Se o Espírito Santo não concorda, o que quer que você diga não vale nada; se o Espírito Santo concorda, o que quer que você diga também não vale nada. A lei torna-se uma questão interior, não exterior. Há leis escritas e regulamentos no judaísmo. Hoje também há muitas normas e regulamentos escritos na "igreja", mas isto não é a igreja. 

Qualquer regulamento que é colocado exteriormente não é a igreja. Não temos leis exteriores; nosso padrão de viver diário é interior. A tribulação da igreja em Esmirna foi devido ao fato de aqueles que chamavam a si mesmo judeus estarem impondo regulamentos judaicos sobre ela. No judaísmo, os homens que adoram e o Deus que é adorado estão separados e muito distanciados um do outro. 


A distância é o judaísmo. Quando o homem vê o Deus do judaísmo, ele imediatamente morrerá. Como os do judaísmo conseguem aproximar-se de Deus? Eles dependem de um mediador, o sacerdote. Os sacerdotes os representam para ir a Deus. As pessoas são seculares; elas somente podem fazer coisas seculares e ser mundanas. Mas os sacerdotes devem ser totalmente santos e cuidar das coisas santas. A responsabilidade dos judeus é levar o boi ou a ovelha ao templo. 

Quanto a servir a Deus, esse é um assunto dos sacerdotes, não dos judeus. Mas na igreja não é assim. Na igreja, Deus não apenas quer que tragamos coisas materiais a Ele, mas também deseja que o povo venha a Ele. Hoje a classe mediadora foi abolida. Quais foram as palavras de blasfêmia faladas pelos judeus? Um grupo de pessoas na igreja em Esmirna estava dizendo: "Se aos irmãos é permitido fazer tudo, se os irmãos podem batizar as pessoas, se os irmãos podem partir o pão, não há qualquer ordem! Isto é terrível!" Eles queriam estabelecer uma classe mediadora.


O cristianismo de hoje já tem sido judaizado. O judaísmo tem os sacerdotes, enquanto o cristianismo tem os rigorosos padres, os clérigos que não são assim tão severos, e os pastores comuns no sistema pastoral. Os padres, os clérigos e os pastores cuidam de todas as coisas espirituais. Sua única expectativa quantos aos membros da igreja é o donativo. Nós, o laicato (os crentes comuns), somos seculares; podemos somente fazer coisas seculares e ser mundanos o quanto quisermos. 

Mas a igreja não tem qualquer pessoa secular (mundana)! Isso não significa que não cuidamos de coisas seculares, mas que o mundo não pode tocar-nos. 

Na igreja cada um é espiritual. Deixe-me dizer-lhe: toda vez que a igreja chega a ponto de somente poucas pessoas cuidarem das coisas espirituais, tal igreja já caiu. Todos sabemos que aos padres católicos romanos não é permitido casar; quanto mais eles diferirem em aparência dos seres humanos, mais seguras as pessoas sentir-se-ão em confiar-lhes as coisas espirituais. A igreja não é nada disso. 


A igreja exige que ofereçamos todo o nosso ser a Deus. Esta é a única maneira. Cada um deve servir o Senhor. Fazer coisas seculares é apenas tomar conta de nossas necessidades diárias. Agora prosseguiremos para o quarto ponto. 

O propósito dos judeus ao servirem a Deus é que eles pudessem colher mais trigo dos campos e que os bois e rebanho não perdessem seus filhotes, mas multiplicassem muitas vezes, exatamente como no caso de Jacó. 

Eles estão buscando a bênção neste mundo. As promessas de Deus a eles são também promessas da terra, para que entre as nações da terra eles sejam a cabeça e não a cauda. Mas a primeira promessa à igreja é que devemos tomar a cruz e seguir o Senhor. 

Algumas vezes quando prego o evangelho, as pessoas perguntam: "Haverá arroz para comer quando crermos em Jesus?" 


Eu respondo: "Quando você crê em Jesus, a tigela de arroz é quebrada". Esta é a igreja. Não é que após crer você ganhará mais em todas as coisas. Certa vez quando eu estava em um local, um pregador disse em sua mensagem: "Se você apenas crer em Jesus, embora possa não fazer fortuna, no mínimo, você conseguirá uma vida confortável". 

Quando ouvi isso, pensei:" Isto não está de acordo com a igreja. 

O que a igreja ensina não é quanto eu vou ganhar diante de Deus, mas quanto estarei disposto a perder diante de Deus". 

A igreja não acha que o sofrimento é uma coisa dolorosa; pelo contrário, é uma alegria. Hoje, estes quatro itens – o templo material, as leis exteriores, os sacerdotes mediadores e as promessas terrenas – estão na igreja.
Desejamos pregar mais as palavras de Deus. Esperamos que todos os filhos de Deus, embora todos tenham ocupações seculares, sejam homens espirituais. Aqui o Senhor fala uma palavra muito forte: "Dos que a si mesmos se declaram judeus, e não o são, sendo antes sinagogas de Satanás." 

A palavra sinagoga está especialmente relacionada ao judaísmo, assim como templo ao budismo, mosteiro ao taoismo e mesquita ao islamismo. Certo irmão disse que não deveríamos denominar nosso lugar de reunião "local de reuniões da igreja", mas de sinagoga cristã. Se fosse assim, quando um judeu passasse, ele ficaria muito confuso, porque sinagoga é um termo usado exclusivamente no judaísmo. 


Como poderíamos dizer que há algo como sinagoga cristã e não relacionar isto ao judaísmo? O Senhor disse que eles eram sinagoga de Satanás. Os judeus citados aqui pelo Senhor referem-se aos judeus na igreja, porque eles até mesmo introduziram a sinagoga. Que Deus seja misericordioso para conosco. Devemos livrar-nos completamente de todas as coisas do judaísmo.
Ao apóstolo Paulo foi confiado um mistério especial, o mistério da Igreja como corpo e como noiva de Cristo. Alguém poderia indagar: mas por que razão isto foi mantido em sigilo?

A resposta é que se tratava de algo celestial, objeto dos desígnios celestiais de Deus. As profecias do Antigo Testamento, por sua vez, tinham como finalidade manifestar os desígnios divinos com respeito a esta terra.

É importante atentarmos para esta consideração, pois indica que a Igreja está situada fora do mundo.

Ela tem outra origem, foi manifestada em outro tempo, acalenta outra esperança.

Pertence, enfim, a outra esfera.
A Igreja não é herdeira de promessas do Antigo Testamento, e não tem cumprimento de profecias do Antigo Testamento associadas a ela. 

Muito pelo contrário, tais coisas lhe são totalmente antagônicas. Israel e a Igreja são tão diferentes entre si, que nem poderiam existir um ao lado do outro. Enquanto os desígnios divinos com vistas à terra iam sendo manifestos, o mistério da Igreja permaneceu oculto. 

Quando, enfim, foi revelado o mistério da Igreja, os propósitos de Deus com relação à terra também foram suspensos e adiados.

A Igreja está associada com Cristo no céu; Israel está associado com Ele sobre a terra. A Igreja o conhece em Seus sofrimentos e perseverança; Israel o há de conhecer na Sua exaltação e poder.
A Igreja regozija-se nele como a noiva em seu noivo; Israel terá sua alegria nele como uma nação que venera o seu governante soberano.

A Igreja espera que Ele venha e a leve consigo ao céu; a esperança de Israel é que Ele estabeleça o Seu reino aqui na terra.

É nisto que se resume a parte celestial que nos toca, a nossa bendita porção, muito em contraste com o mais abençoado povo da terra. Só é uma pena que os nossos corações captem tão pouco desta maravilhosa posição celestial!


Por J. B. Baines

3. Os anjos das 7 igrejas do Apocalipse

Leitura: Apocalipse 1 - 3
A compreensão da palavra "anjo" relacionada a cada igreja tem sido um dos pontos de maior controvérsia durante anos, e uma variedade de interpretações são apresentadas. 

Alguns comentaristas insistem que a dificuldade surge porque a palavra "angellos" foi transliterada e não traduzida. Ao invés do seu significado normal, "ser espiritual", os que defendem este ponto de vista a traduzem como "mensageiro". 

Temos que reconhecer que ela é assim traduzida em Mat. 11: 10; Mar. 1:2 (ARA); Luc. 7 :24, 27 (ARA); 9:52; II Cor. 12:7; Fil. 2:25 - assim, sete vezes de um total de 186 ocorrências da palavra. 

Isto faz do anjo somente um mensageiro humano que levaria (como um carteiro) a epístola às igrejas mencionadas. 

O comentarista que apresenta os argumentos mais claros sobre este ponto de vista provavelmente é G. A. Hadiantonlou no seu livro The Postman of Patmos (O Carteiro de Patmos). 


Embora este ponto de vista é atrativamente simples, os argumentos contra ele são importantes:


A) A razão por que a palavra angellos deveria ser traduzida "mensageiro" nos três primeiros capítulos, mas "anjo" em todas as outras 67 ocorrências da palavra neste livro, nunca foi explicada de maneira satisfatória.


B) É muito difícil entender como um "mensageiro", ou até mesmo, como alguns sugerem, "secretário" ou "correspondente", poderia ser considerado responsável pelos fracassos das igrejas. O anjo é acusado pelo Senhor como se ele fosse a igreja.
Muitos comentaristas, talvez a grande maioria, fariam do anjo um símbolo "do bispo", "do pastor" ou "ministro" da igreja. 

A expressão varia de acordo com a convicção eclesiástica do comentarista, mas o anjo é visto, geralmente, como o homem responsável pela igreja. 

Os que compreendem que esta interpretação é antibíblica, além de anacrônica, diriam que o anjo simboliza "o presbítero responsável", "o elemento responsável", ou simplesmente "a liderança" da igreja. 


Estas explicações novamente são atraentes e simples, mas apresentam as seguintes dificuldades:
a) É óbvio que o anjo não faz parte da igreja, fisicamente, pois as estrelas estão na mão do Senhor e Ele está no meio dos candeeiros.


b) O anjo é mencionado e acusado corno se ele fosse a igreja. O Senhor nunca sugere que o anjo deveria agir independentemente da igreja.


d) As estrelas são símbolos; o Senhor explicou que os símbolos são anjos. Para ir além disto, seria criar um símbolo do símbolo, e acrescentar uma explicação pessoal. 

Sabemos que temos um símbolo duplo em 17:9-10, mas ali ele é explicado. 

Nenhuma explicação é dada aqui, e parece que precisaríamos ter cuidado na aceitação desta interpretação. Há sempre o perigo de usarmos a imaginação neste método de interpretação. Tal passo de interpretação simbólico duplo necessitaria uma indicação clara, que não temos neste caso. 


W. Hoste, referindo-se a esta interpretação do anjo, dá uma explicação bem clara: 

"Outros, também, talvez com mais autoridade bíblica, verem nos anjos aqueles que são capacitados para governar e edificar nas igrejas - os pastores responsáveis ao Sumo Pastor. A objeção a isto, que eu considero insuperável, é que um símbolo não pode ser interpretado por um símbolo.  Os candeeiros são simbólicos de igrejas literais, e as estrelas só podem representar seres angelicais literais".


Ver o anjo de cada igreja como um anjo literal é talvez o ponto de vista com maior apoio bíblico. Não podemos duvidar do fato de que os anjos literais têm um grande interesse na Igreja dispensacional (Ef. 3: 10) e local (I Cor. 11: 10), mas concluir que, um anjo literal está associado com cada igreja local provoca uma série de perguntas difíceis de responder. 

A ideia de um "anjo de guarda" para cada igreja local pode agradar à nossa inclinação religiosa, mas tem pouco apoio bíblico. 


Também, parece estranho que anjos, que são chamados de "santos" e "eleitos", sejam acusados de fracasso e pecado, e chamados a se arrependerem. 

Dizer que as características especiais deste livro exigem este método de apresentação parece simplesmente querer evitar a questão, e levantar perguntas difíceis sobre como um anjo e uma igreja podem se comunicar. O ponto de vista literal precisará de alguma modificação.
Aceitando o anjo literalmente, há uma maneira bíblica de entender o que o Senhor quer dizer com isso. Há uma linha de ensino nas Escrituras que mostra uma correspondência entre as coisas celestes e seu correlativo terrestre (veja Heb. 8:2, 5; 9:23-24). 

Quando é o caso de pessoas, parece que a palavra "anjo" é usada de forma representativa. É assim que o Senhor usou a palavra em Mat. 18:10, em relação àqueles que Ele chamou de "pequeninos". 

"Porque eu vos digo que os seus anjos nos céus sempre veem a face de meu Pai que está nos céus". 

Isto não deve ser mal interpretado como sendo um "anjo de guarda" - pelo contrário, a ideia é que os pequeninos são representados por anjos no Céu. 

A reação dos cristãos reunidos, que disseram: "é o seu anjo" (Atos 12: 15), quando Rode anunciou a chegada de Pedro, se encaixa nesta mesma classe - não estavam pensando em "seu fantasma", nem "seu anjo da guarda"; eles queriam dizer "seu representante". 

A palavra de conforto a Josué, o sumo sacerdote da nação de Israel restaurada da Babilônia em Zac. 3:7, é muito relevante: "e te darei lugar entre os que estão aqui". 


O interesse dos céus era tal que eles tinham seus representantes no Céu. A ideia é de representação diante de Deus.
Assim, se os candeeiros representam congregações literais e físicas, vistas contra um fundo terrestre, então as estrelas devem representar o mesmo grupo, mas na sua condição moral e espiritual contra um fundo celestial. 

A expressão que o Senhor usou para representar sua verdadeira condição é "anjo". 

Se surgir o argumento que isto parece estar repetindo o erro do símbolo duplo, podemos dizer que não é verdade; estamos simplesmente aplicando a palavra "anjo" a um de seus significados autorizados, apresentados nas Escrituras. 

O uso que o Senhor faz da palavra "anjo" focaliza, de maneira representativa, a ideia do verdadeiro "espírito" ou "essência" da igreja. No "anjo" representativo a igreja é vista contra um fundo celestial, e assim não pode haver engano - tudo é real, o verdadeiro estado da igreja está em vista. 


Por esta razão é o anjo, a igreja, vista no seu estado espiritual verdadeiro, que é aprovado, condenado, cobrado e desafiado.
Pode surgir a pergunta: por que o Senhor usa a palavra "mistério" (musterion) em relação às sete estrelas e sete candeeiros? 

A palavra precisa ter seu significado normal no NT, indicando algo que não pode ser conhecido pelo processo de dedução humana, mas é revelado por Deus, no Seu tempo. 

Portanto, o mistério deve estar na razão, ou razões, porque o Senhor escolheu estas sete igrejas para receber as mensagens. 

Em outras palavras, o Senhor está indicando que há mais envolvido aqui do que apenas sete mensagens a sete igrejas. 

Este mistério será revelado, no tempo determinado, pelo próprio Senhor.


(Extraído do Comentário RITCHIE – Apocalipse de James Allen

–> Publicado por Edições Cristãs - Todos os Direitos Reservados)

4. Quem são os Nicolaítas em Apocalipse?

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5. Dízimos - Qual o seu propósito?

A lei de Moisés apresenta o propósito divino com relação ao dízimo. O dízimo demonstrava a forma de Deus suprir as necessidades materiais dos Levitas e dos pobres em Israel. Era um programa complexo e detalhado de taxação designado a dar auxílio e apoio à classe sacerdotal, aos pobres, aos estrangeiros e as viúvas. Os levitas não tinham herança terrena; portanto, as outras tribos supriam as suas necessidades.


O estudioso, R. E. O. White, explica o propósito do dízimo da seguinte forma:"O dízimo representa uma cobrança sobre produção ou trabalho tributável para a manutenção das atividades religiosas".
Eugene Merrill, outro grande erudito, concorda com este ponto de vista ao afirmar:"O dízimo era dado aos Levitas como fonte de renda e compensação pelo seu serviço no tabernáculo".


Um estudo minucioso do dízimo revela que os israelitas davam mais do que simplesmente dez por cento da sua renda. Pelo contrário, eles davam quase que o dobro disso, ou mais. Havia três itens principais no estatuto do dízimo, e depois havia as leis adicionais.

Primeiramente, havia o dízimo levítico (Lev.27: 30-33 Núm.18: 21-24, 26-28), que separa produção, renda e animais para o sustento do sacerdócio.

Em segundo lugar, após entrar na terra prometida, um segundo dízimo de toda a produção deveria ser levado a Jerusalém, ou, se a distância fosse muito grande, a produção poderia ser vendida e o seu preço levado (Deut.12:6-7, 17-18, 14:22-27). 

Em terceiro lugar, a cada terceiro ano, chamado de "o ano do dízimo" outros dez por cento da produção deveriam ser postos de lado para os Levitas que moravam no campo, para os estrangeiros e para as viúvas (Deut.14:28-29). 

Além disto, "quando também segardes a sega da vossa terra, o canto do teu campo não segarás totalmente, nem as espigas caídas colherás da tua sega. Semelhantemente não rabiscarás a tua vinha, nem colherás os bagos caídos da tua vinha; deixá-las-ás ao pobre e ao estrangeiro" (Lev.19:9-10).

Os Israelitas também pagavam uma taxa para o templo, de uma terça parte de um ciclo "para o ministério da casa do nosso Deus; para os pães da proposição, e para a contínua oferta de manjares, e para o contínuo holocausto dos sábados e das luas novas" (Neem.10:32).

Além disto, os Judeus precisavam descansar a terra a cada sete anos, e a terra deveria ficar em repouso por um ano (Ex.23:10-11).

Também no sétimo ano era ordenado que os Israelitas perdoassem as dívidas uns dos outros (Deut.15:1-2). O total exigido para custear as estruturas religiosas e cívicas era de 25-30% da renda anual de um Israelita. Os dízimos eram os impostos da Teocracia Israelita do Velho Testamento.

Este sistema de taxas foi instituído por Deus para o sustento do governo e dos que tinham necessidades naquela sociedade Teocrática. Hoje, não existe urna sociedade Teocrática; e em seu lugar temos os governos das nações que tem suas leis de impostos para suprir as estruturas governamentais e cívicas.


O Novo Testamento e o Dízimo
O Novo Testamento fica em silêncio sobre o dízimo. A prática do dízimo não é ordenada pelo Senhor, nem por nenhum outro dos escritores do Novo Testamento. Este fato tem dado grande peso para a ideia de que o dízimo era ligado ao sistema Mosaico e era a forma de sustentar os Levitas, os pobres, e os estrangeiros.

Muitos estudiosos de renome têm, portanto, deduzido que o dízimo não é obrigação do cristão hoje.
Wick Broomail escreve:"O silêncio dos escritores do Novo Testamento, especialmente Paulo, com relação à validade do dízimo nos dias de hoje pode ser explicada somente pelo fato que a dispensação da graça não tem lugar para a lei do dízimo, da mesma forma que não tem lugar para a lei da circuncisão".
Entretanto, Deus deseja que nós ofertemos, e ofertemos graciosamente. As necessidades financeiras dos pobres, dos que servem a Cristo, e da viúva ainda deveriam ser nossa preocupação.

Generosidade deveria certamente caracterizar a igreja Neo Testamentária. O ensinador da Bíblia, G. Campbell Morgan, enquanto leva em conta a perspectiva do Novo Testamento sobre o dízimo e o desejo de Deus, sabiamente aconselha os cristãos que tem questionado o papel do dízimo.

Ele escreve:"Eu não creio pessoalmente que o dizimo seja uma incumbência nossa. Era uma provisão judaica que já passou, junto com o restante da lei. Isto não significa que devemos ser desleixados quanto ao ato de dar... por esta razão eu nunca pude dizer às pessoas que se sentem dirigidas a dar o dízimo para não fazerem isto, mas sim que elas não devem se limitar a dar somente o dízimo".


O Propósito de Dar Livremente Além do que o dízimo exigido
O Israelita piedoso dava as ofertas "voluntárias" e também "as primícias". A ênfase desta oferta não era a porcentagem, mas a atitude do ofertante e a qualidade da oferta. Estas ofertas eram principalmente para o sustento da obra de Deus e para adorar a Deus: "todo o melhor do azeite, e todo o melhor do mosto e do grão, as suas primícias que derem ao SENHOR" (Núm.18:12)
Quando era para ofertar para o tabernáculo ou para o templo, não era o dízimo, mas oferta voluntária que era o desejo do coração de Deus.

"Fala aos filhos de Israel que me tragam uma oferta alçada; de todo o homem cujo coração se mover voluntariamente, dele tomareis a minha oferta alçada" (Êxodo 25:2).
Quando o templo ia ser construído, encontramos o mesmo princípio: ofertas voluntárias vindas de corações dispostos; adoradores, era o que o Senhor desejava. 

"E o povo se alegrou do que deram voluntariamente; porque com coração perfeito, voluntariamente deram ao SENHOR. .." (I Crôn.29:9).
A oferta voluntária era diferente do dízimo em muitos aspectos: o dízimo era uma taxa exigida ao passo que a oferta voluntária era o transbordar do coração do adorador; o dízimo era para o sustento do sacerdote, dos pobres, das viúvas enquanto a oferta voluntária era para Deus e para a Sua obra; e finalmente a oferta voluntária não era restrita a porcentagens, mas era limitada somente pela capacidade do ofertante de dar.


O Plano de Deus para o Ofertar Hoje
Tem sido dito que a generosidade era a graça dos reis. Em dias passados, somente os reis podiam fazer tal coisa, mas hoje generosidade e um coração disposto a dar são o plano de Deus para o ofertar.

 Debaixo da graça, Deus não tem pedido aos cristãos que deem meramente dez por cento da sua renda. 

Se um cristão quisesse seguir o exemplo de Israel, seria exigido dele não simplesmente um décimo da sua renda, mas sim 25% da mesma. O sistema de dízimo de Israel não é o propósito de Deus para hoje, mas Deus deseja que os cristãos ofertem generosamente aos pobres, aos necessitados e à obra de Deus.
Na verdade, muitos cristãos ofertam abundantemente e sacrificialmente para a obra de Deus; em alguns casos, muito acima dos padrões do Velho Testamento.
William McDonald corretamente diz: "... 0 cristão deve dar liberalmente. O dízimo era o mínimo que um Israelita podia dar. 

Ele trazia dízimos e ofertas. Nenhum cristão deveria se contentar em dar, hoje no período da graça, o que era o mínimo exigido no período da lei".


Conclusão
Hoje os princípios do ofertar não são pesados, complexos, nem rígidos. Recursos não precisam ser solicitados, mas são voluntária e generosamente supridos pelos cristãos compromissados.
O cristão deve ofertar:
regularmente: "todo primeiro dia da semana";

individualmente: "cada um de vós";

proporcionalmente: "conforme a sua prosperidade";

generosamente: "0 que semeia em abundância em abundância também ceifará";

e por fim, alegremente: "Deus ama ao que dá com alegria".

Hoje, nossas ofertas voluntárias, vindas de corações alegres, são o plano de Deus para promover a causa de Cristo e da Sua igreja. 

Que o Espírito de Deus opere em nossos corações a fim de que possamos ofertar abundantemente para Ele.


(Traduzido por Janice Gebara. Título original: 

"The Purpose of Tithing" por David Dunlap. Permissão concedida pelo autor.)


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Um pouco mais sobre o dízimo e a oferta...


O dízimo aparece pela primeira vez na Bíblia em Gênesis 14:20, quando Abraão vinha de uma guerra travada a favor de seu sobrinho Ló, e se encontrou com Melquisedeque dando-lhe o dízimo de tudo.

A prática do dízimo, de dedicar uma décima parte, especialmente do despojo de guerra, se tornou uma prática aceita entre as nações.

O dízimo da batalha era oferecido a uma divindade através de um sacerdote desta divindade. 

Em Israel, Jeová exigia um dízimo anual da produção da terra. Uma décima parte, ano após ano, era dedicada ao sustento material e à manutenção da tribo de Levi (Núm. 18:21).

Jeová deu ao povo a abundância da terra, frutas, trigo, óleo e vinho e através do mandamento dAquele que deu a abundância, os filhos de Levi recebiam o dízimo desta produção (Neem. 10:34-39). 

Nem todos os filhos de Levi eram sacerdotes, portanto dos dízimos que pertenciam à tribo de Levi, uma décima parte pertencia aos sacerdotes.

Isto era conhecido como "o dízimo dos dízimos" (Neem. 10:38; Núm. 18:26). 

Os levitas não tinham herança pessoal, ou posse de terra e por isto eram sustentados pelos dízimos dos que tinham, para que, por sua vez, eles pudessem se dedicar ao serviço da casa de Deus. Os sacerdotes, portanto, por decreto, eram semelhantemente sustentados pelo "dízimo dos dízimos", uma décima parte de tudo o que era dado aos levitas.

Em Hebreus 7:5, o escritor está querendo mostrar que estes levitas, no sacerdócio, recebiam o dízimo de seus irmãos. Porém, era um acordo legal e ritualístico; era um mandamento. Não indicava, de forma alguma, que os sacerdotes ou os levitas em geral, eram melhores do que seus irmãos, pois eles também eram filhos de Abraão. 

Em Israel, os que pagavam o dízimo e os que recebiam o dízimo, eram filhos do mesmo pai Abraão. No caso deles, receber o dízimo não era por causa de alguma Superioridade ou qualquer outra grandeza. Era uma coisa da Lei; nada mais. Era o seu direito somente por causa do mandamento.

Mas quando passamos para a época da igreja, que nascera no dia de pentecostes em Atos 2, não vemos mais esta prática nas igrejas locais.

Em Atos 15, vemos que houve uma reunião para decidir o que da lei os crentes devia observar, e ficou decidido que: "Na verdade, pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor mais encargo algum, senão estas coisas necessárias: Que vos abstenhais das coisas sacrificadas aos ídolos, e do sangue, e da carne sufocada, e da fornicação; destas coisas fareis bem se vos guardardes. Bem vos vá." (Atos 15: 28-29) 

Seria conveniente ler todo capítulo de Atos 15.

Em nenhuma parte das epístolas no Novo Testamento, e na história da igreja no livro de Atos, encontramos mandamento de pagar o dízimo. Pois, como acima já frisamos, este mandamento estava ligado com a nação de Israel que dizimavam para os levitas e sacerdotes, por ter direito a recebê-lo.

No Novo Testamento encontramos "A Coleta", que não é um mandamento, nem uma continuação do dízimo, mas uma contribuição voluntária ofertada pelo crente quando a igreja está reunida no primeiro dia da semana.

"Ora, quanto à coleta que se faz para os santos, fazei vós também o mesmo que ordenei às igrejas da Galácia. No primeiro dia da semana cada um de vós ponha de parte o que puder ajuntar, conforme a sua prosperidade, para que se não façam as coletas quando eu chegar." (1 Coríntios 16: 1-2)

A frase "agora, quanto a" indica que na carta enviada pela igreja em Corinto havia uma pergunta sobre a coleta (veja este preceito em 7:1; 7:25; 8:1; 12:1). 

A questão toda da coleta era de suma importância ao coração do apóstolo. Tinha por finalidade suprir a necessidade dos pobres dentre os santos em Jerusalém (Rom. 15:26). É mencionada em 2 Cor. 8 e 9, Rom. 15, e Atos 24:17.

Anteriormente, Paulo e Barnabé tinham participado na coleta para aliviar os efeitos da fome na Judeia (Atos 11:27-30). Fica claro, de Rom. 15:25-27, que Paulo considerava a coleta como a expressão da dívida espiritual que os convertidos gentios deviam à igreja em Jerusalém, e como uma manifestação tangível da unidade e solidariedade dos santos. 

A palavra "coleta", que se encontra nos vs. 1 e 2, é a palavra grega" logia" (veja a nota abaixo para ver outras palavras usadas, em outros lugares, para descrever a oferta). 

Embora não temos nenhuma informação quanto às instruções dadas às igrejas da Galácia, deduzimos que receberam as mesmas instruções que foram dadas, aqui, aos coríntios. Paulo coloca diante dos coríntios o exemplo das igrejas da Galácia e, em II Cor. 8:1-4, o exemplo dos macedônios; em II Cor. 9:2, ele coloca diante das igrejas da Macedônia o exemplo dos coríntios; e em Rom. 15, ele coloca diante dos romanos o exemplo das igrejas da Macedônia e Corinto. 

Paulo está fazendo tudo ao seu alcance para estimular interesse nas necessidades e sofrimentos dos santos em Jerusalém. 

A doação de seus bens expressaria, de uma maneira muito prática, a verdade de um só Corpo, cada membro cuidando dos outros.

A referência ao "primeiro dia da semana" (todo domingo) salienta o significado que este dia tinha para a igreja primitiva (veja também Atos 20:7; Apoc. 1:10), e está em contraste com o sábado, que nunca é assim chamado. Está obviamente ligado com a ressurreição do Senhor Jesus, como também com o dia de Pentecostes.

"Cada um de vós" indica que ele esperava que cada crente, qualquer que fosse as suas circunstâncias, faria uma contribuição.

"Ponha de parte" é entendido, por alguns, como significando colocar alguma coisa à parte em casa ("ponha de parte, em casa", ARA), enquanto outros julgam que a menção do primeiro dia da semana indica que era levado à igreja e guardado pelos tesoureiros.

Nenhum princípio está em risco, embora colocar à parte, em casa, evitaria qualquer tentação a mau uso. 

"O que puder ajuntar, conforme a sua prosperidade", faz com que a oferta seja de acordo com a prosperidade. Um crente piedoso atribuiria toda a sua prosperidade à bondade de Deus. Esta contribuição sistemática faria com que a igreja não estaria despreparada para enfrentar um apelo de ajuda quando o apóstolo chegasse; o necessário estaria prontamente disponível para ajudar suprir a necessidade. 

É muito interessante que Paulo não impõe o princípio do dízimo para suprir a necessidade desta situação. Enquanto a cobrança do dízimo foi praticada no VT, as únicas referências, nos Evangelhos, além da confissão do fariseu em Lucas 18:12, estão em Mat. 23:23 e Lucas 11:42, onde o Senhor pronunciou um ai aos fariseus. 

Nas epístolas, não há nenhuma menção do dízimo, mas contribuíam "conforme a sua prosperidade", ou "segundo propôs no seu coração" (11 Cor. 9:7). 

O fato de que se espera que demos proporcionalmente à nossa renda, deve exercitar profundamente a nossa consciência. 

É dito com frequência que se uma décima parte (o significado da palavra "dízimo") era exigido debaixo da Lei, então o efeito da graça deve exceder esta exigência. Deste versículo devemos compreender que nossa contribuição deve ser:

  • a) regular no primeiro dia da semana;
  • b) individual cada um de vós;
  • c) sistemática ponha de parte;
  • d) proporcional.. conforme a sua prosperidade.


Uma verdadeira apreciação da graça de Deus, e da morte de Cristo por nós, influenciaria profundamente o valor da nossa contribuição.

Seria difícil gastar mais em férias, em roupas, ou em passatempos, do que se dá a Deus. Um senso da responsabilidade de mordomo também nos faria perceber que não é uma questão de dar do nosso dinheiro a Deus, mas sim, de guardar o dinheiro dEle para nós mesmos.

Esta palavra, "Coleta" (logia), é apenas uma de muitas palavras usadas para descrever a dádiva a ser enviada a Jerusalém. Foi uma coleta extra, adicional e voluntária.

"Dádiva" (charis, v. 3) é uma dádiva dada gratuitamente, um ato gracioso de benevolência. Expressa a alegria e o prazer de dar.

"Comunicação" (koinonia, II Cor. 8:4, também traduzida "dons" em II Cor. 9: 13 e "coleta" em Rom. 15:26). Esta palavra mostra a comunhão que a dádiva expressa, e assim significa compartilhar e repartir ativamente com os outros.

"Serviço" (diakonia, II Cor. 8:4; traduzido "administração" em 9: 1, 12, 13) destaca a ideia de uma forma de serviço prático que o cristão pode expressar. Sugere que os nossos recursos e meios podem alcançar lugares que nós não podemos alcançar.

"Abundância" (hadrotes, II Cor. 8:20) ocorre uma só vez. Destaca a liberalidade e generosidade da dádiva dos santos.

"Bênção" (eulogia, II Cor. 9:5), traduzido "dádiva" na ARA, é literalmente "bênção" como na ARC. Os santos em Corinto tinham sido abençoados por Deus, e, portanto, agora procurariam abençoar os outros em Seu nome, tal "bênção" evidenciando-se no seu dar.


"Ministração" (leitourgia, II Cor. 9: 12; Fil. 2: 17, traduzida "serviço") enfatiza a ideia de serviço sagrado ou sacerdotal. A dádiva era a expressão de tal serviço, prestado por um grande número de crentes para suprir as necessidades dos outros. É verdade que a palavra transmite a ideia de serviço público, porém seu uso em Fil. 2, e a associação do verbo cognato em Rom. 15:27, lhe daria um caráter sagrado.

"Esmolas" (eleemosune, Atos 24: 17) significa que a dádiva expressava a "misericórdia" daqueles que haviam contribuído. Eles mesmos, havendo recebido misericórdia da parte de Deus, ficaram contentes em poder expressar misericórdia desta maneira aos seus irmãos.

"Ofertas" (prosphora, Atos 24:17) é usada do sacrifício de Cristo em Ef. 5:2, e dos próprios crentes em Rom. 15:16. O que foi uma dádiva aos homens, foi em primeiro lugar uma oferta a Deus. Assim, paulo enfatiza o seu caráter elevado.

6. Eleição - Presciência - Predestinação


Eleição é um assunto profundo a respeito do qual muitas palavras já foram escritas e muitas batalhas travadas. O homem encontra grandes dificuldades quando procura encaixar o eterno no tempo, e explicar a mente divina em termos do seu próprio vocabulário. O

 fato de Deus ser soberano é fundamental à fé. O fato que Deus, na Sua soberania, deu ao homem uma vontade que ele pode exercer livremente é fundamental à nossa natureza.Deus nunca Se opõe à Sua própria vontade, nem viola a natureza que Ele próprio planejou. 

Ele não vai obrigar uma pessoa a entrar no céu contra a sua vontade, nem condenar ao inferno aqueles que não têm possibilidade de serem salvos. Tentar reconciliar a soberania de Deus e o livre arbítrio do homem, ou tentar explicar em termos humanos como eles se relacionam, é fútil, e toda a tentativa de resolver o aparente paradoxo fracassará. 

Clique Aqui Para Assistir Vídeo Sobre o Assunto.


Contudo: "Qualquer dificuldade em reconciliar a eleição de Deus com o livre arbítrio do homem está na mente do homem e não na mente de Deus. A Bíblia ensina ambas estas doutrinas, e nós devemos crer em ambas. A verdade se encontra em ambos os extremos - não no meio" (W. MacDonald).

Cristo é o eleito de Deus como o Servo de Jeová (Is. 42: I). Ele foi escolhido para cumprir uma missão e realizar um propósito. 


Na encarnação, Ele tomou "a forma de servo" (Fil. 2:7), para que pudesse cumprir a vontade do Pai aqui na terra. "Ele não Se disfarçou de servo, mas tomou a forma (morphe), isto é, a 'natureza e essência' de servo" (Gifford). 

Ele foi escolhido "para cumprir os propósitos de propiciação" (W. E. Vine).Nesta grande eleição houve também uma nação escolhida em amor (Deut. 7:7), para ser a "propriedade peculiar" do Senhor (Êx. 19:5). 

Ela deveria cumprir uma missão e realizar um propósito, pois os oráculos de Deus lhe foram confiados (Rom. 3:2), e era através dela que Cristo viria (Rom. 9:5). Dentro e fora desta nação havia indivíduos escolhidos para ministérios e trabalhos especiais, tais como Moisés (Sal. 106:3), Aarão (Sal. 105:26), Davi (I Crôn. 28:4), Ciro (Is. 45:1) e outros.


Também nesta grande eleição "em Cristo" há um grupo de pessoas chamada para fora, a ekklesia, a Igreja ou Assembleia, escolhida em Cristo "antes da fundação do mundo", escolhida por amor, individualmente amada, para estar "diante dEle", e ministrar ao Senhor para o Seu prazer (Ef. 1:4; Êx. 28). 

"Ele terá santos na Sua presença da maneira que somente Deus pode. Ele nunca terá o que não é digno do Seu amor e presença" (W. Kelly). 

Portanto, são escolhidos para serem santos, irrepreensíveis e agradáveis a Ele, feitos finalmente conformes à imagem do Seu Filho (Rom. 8:29).Sua grande eleição não é por causa de mérito humano. 

"A misericórdia do próprio Deus, espontânea, imerecida, compassiva, O moveu. Deus é Seu próprio motivo. Seu amor não é atraído pelas nossas boas qualidades, mas jorra, como um poço artesiano, das profundezas de Sua natureza" (A. Maclaren). Torna-se real e conhecida, por experiência, através do ministério santificador do Espírito Santo que visa a submissão do indivíduo e a aplicação do "sangue de Jesus Cristo".
A fé dos demônios é ineficaz, não é viva. Eles "também ... Creem, e estremecem" (Tiago 2: 19). 

Creem na identidade de Cristo, na Sua humanidade, na Sua divindade, na Sua soberania e autoridade, mas não haverá nenhum demônio no céu (Mar. 1:24). O filho de Deus crê "para a salvação da alma" (Heb. 10:39, VB). Qual é a diferença, então, entre a fé daquele que crê em Cristo e a fé destas criaturas infernais? O que falta na fé dos demônios é a obediência. O seu pecado é rebeldia.


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Doutrina da Eleição Colocada Fora do seu Lugar


"Não reduza os limites da propriedade do teu próximo, que os antigos estabeleceram"

(Deuteronômio 19:14).


"Remova os obstáculos do caminho do meu povo"

(Isaías 57:14).


Que ternos cuidados e que benigna consideração exalam destas passagens! Os limites antigos não deviam ser movidos de seu lugar, mas os obstáculos devem ser removidos. A herança do povo de Deus deve permanecer inteiramente inalterada, enquanto os contratempos devem ser diligentemente removidos de seu caminho. 

A porção que Deus tinha dado a cada um deve ser apreciada, enquanto, ao mesmo tempo, a maneira pela qual cada um foi chamado para andar, deve ser mantida livre de todas as ocasiões de tropeço.No entanto, acreditamos que, a julgar pelas comunicações recentes, somos chamados a prestar atenção ao espírito desses preceitos antigos. 

Alguns dos nossos leitores têm escrito para nós dizendo-nos as suas dúvidas e medos, suas dificuldades e perigos, seus conflitos e exercícios espirituais, e queremos ser instrumentos nas mãos de Deus para ajudá-los a determinar os limites que Ele, pelo Espírito Santo tem definido, e remover os obstáculos que o inimigo tem colocado em seu caminho.
Podemos ver claramente como o inimigo tem usado tropeço, como a doutrina da eleição fora do seu lugar. 

A doutrina da eleição, em seu devido lugar, em vez de ser uma pedra de tropeço no caminho das almas ansiosas para examinar mais a verdade, se verá que é bem mais um limite estabelecido pelos antigos, até mesmo pelos apóstolos inspirados do nosso Senhor Jesus Cristo, na herança do Israel espiritual de Deus.

Mas todos nós sabemos que uma verdade que está fora do seu lugar, é mais perigoso do que um erro positivo. Se um homem se levanta e declara abertamente que a doutrina da eleição é falsa, sem dúvida rejeitaríamos suas palavras, mas talvez não estejamos bem preparados para lidar com aquele que, embora admitindo que a doutrina da eleição é verdadeiro e importante, a coloca fora do seu lugar divinamente designado. E este último, é precisamente o que acontece muitas vezes, causando danos à verdade de Deus e lançando um manto de trevas sobre as almas dos homens.


Qual é, então, o verdadeiro lugar da doutrina da eleição?
Seu verdadeiro lugar, seu lugar divinamente estabelecido é este: essa doutrina está dirigida apenas para aqueles que já estão dentro da casa, para a confirmação dos verdadeiros crentes. 

Em vez disso, o inimigo coloca fora da casa, para tropeço das almas ansiosas por descobrir a verdade.

Preste atenção às seguintes palavras de uma alma profundamente exercitada:"Se eu soubesse que eu sou um dos eleitos, seria completamente feliz, porque então eu poderia aplicar com confiança os benefícios da morte de Cristo para mim".

Certamente, esta seria a linguagem de muitos se fossem deixados apenas para saciar seus próprios sentimentos. Estão usando mal a doutrina da eleição, que é abençoadamente verdadeira doutrina em si mesma – um "limite" muito valioso -, mas o inimigo tem convertido em uma "pedra de tropeço".

Para aquele que tem o desejo de conhecer a verdade, ele deve ter em conta, que deve aplicar a si mesmo os benefícios da morte de Cristo apenas como um pecador perdido, e não como "um dos eleitos."

A visão correta de salvação que alcançamos pela morte redentora de Cristo, não é a eleição, mas a consciência da nossa ruína. Esta é a graça inefável, pois eu sei que sou um pecador perdido; mas eu não sei se sou um dos eleitos, até que tenha recebido a Cristo, através do testemunho e ensinamento do Espírito, as boas novas de salvação pelo sangue do Cordeiro.Para mim se pregar a salvação, uma salvação tão livre como os raios do sol, tão cheio como o mar e tão permanentes como o trono do eterno Deus, não como um dos eleitos, mas como a um pecador, completamente perdido, culpado e em ruínas, e quando recebo esta salvação, há uma prova conclusiva da minha eleição.


"Porque conhecemos, irmãos amados de Deus, a vossa eleição; porque o nosso evangelho não chegou até vós somente em palavras, mas também em poder, no Espírito Santo e em plena convicção" (1. Tessalonicenses 1:4-5). 

A eleição não é o que me leva a aceitar a salvação, mas a recepção da salvação constitui a prova da minha eleição. 

Pois, como sabe um pecador que é um dos eleitos? P

ara quem ele deve perguntar? 

Se não for uma questão de fé, então deve ser uma questão de revelação divina. Mas onde está revelado? 

Onde está escrito que o conhecimento da eleição é um pré-requisito indispensável para a aceitação da salvação? 

Em nenhum lugar da Palavra de Deus. Minha única base para a salvação é o fato de que eu sou um pobre pecador culpado, que merece o inferno. Se eu esperar por algum outro título, só vou-me ver removendo um valioso "limite" do seu próprio lugar, e colocando um obstáculo no meu caminho. Quão tolo é fazer isso!


Mas na realidade é mais do que tolo, é uma oposição positiva a Palavra de Deus, não só para as citações no início deste artigo, mas contra o espírito e o ensino de toda a Escritura. Ouça a comissão que o Salvador ressuscitado deu primeiramente: "E ele disse: Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura" (Marcos 16:15). 

Existe talvez uma dica nestas palavras, algum ponto sobre o qual basear uma pergunta sobre a eleição? 

Por acaso tem alguém que prega este glorioso evangelho, que possa ser chamado para resolver uma questão preliminar sobre a eleição? Certamente que não.

"Todos" e "toda criatura" são expressões que resolvem todas as dificuldades, e a salvação tornar-se tão livre como o ar, e tão amplo como a família humana. 

Não é dito: "Vá a uma parte específica do mundo, e pregai o evangelho a um número de pessoas." Não, isto não estaria em harmonia com a graça que deve ser proclamada ao mundo na sua totalidade. 

Quando veio a lei, ela se dirigiu a um certo número de pessoas, dentro de um determinado setor, mas quando o Evangelho devia ser proclamado, o seu poderoso alcance devia ser "Todo o mundo" e seu objeto "Toda a criatura".

Mais uma vez, ouvimos que o Espírito Santo através do apóstolo Paulo diz: "Esta é uma palavra fiel e digna de toda aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal" (1 Timóteo 1:15). 

Existe algum espaço aqui que permitir levantar um ponto da eleição para que alguém seja salvo? Em absoluto. Se Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, e se eu sou um pecador, então eu tenho o direito de aplicar a minha própria alma os benefícios do precioso sacrifício de Cristo. 

Para que eu seja excluído desta salvação, eu deveria ser mais do que um pecador. Se em alguma parte das Escrituras declarasse que Cristo Jesus veio salvar somente os eleitos, então é claro que de uma forma ou de outra, eu deveria demonstrar-me a mim mesmo que eu pertenço a esse número, antes que eu possa tornar meus, os benefícios da morte de Cristo. Mas, graças a Deus, não há nada disto, absolutamente nada parecido em todo o plano do Evangelho.
"O Filho do Homem veio buscar e salvar o que estava perdido" (Lucas 19:10). E não é o que justamente, o que eu sou? Certamente que sim. 

Bem, não é do ponto de vista de um perdido que eu considero a morte de Cristo? Sem dúvida que sim. Eu não posso, por acaso, contemplar este precioso a partir daí, e adotar a linguagem da fé, e dizer, "que me amou e se entregou por mim" (Gálatas 2:20)? Sim, um amor sem reservas, absolutamente incondicional, assim como se eu fosse o único pecador na terra.

Nada pode ser de maior alívio e conforto para o espírito de quem busca ansiosamente descobrir a verdade, em reparar que a maneira em que lhe é oferecida a salvação, é como ele está, e sobre o mesmo fundamento em que se encontra. 

Não há nenhum tropeço por todo o caminho para a gloriosa herança dos santos, herança estabelecida por limites que nem os homens, nem demônios podem jamais remover.O Deus de toda graça deixou nada por fazer, nada por dizer, ele podia dar descanso completo, segurança perfeita e completa satisfação para a alma. 

Ele mostrou a condição e caráter daqueles por quem Cristo morreu, em termos que não deixam espaço para dúvida ou objeção. 

Preste atenção a estas palavras ardentes: "Porque Cristo, quando éramos ainda sem força, no devido tempo, Cristo morreu pelos ímpios." 

"Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco, em que, quando éramos ainda pecadores, Cristo morreu por nós". 

"Porque sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho "(Romanos 5:6, 8, 10).

O que poderia ser mais clara ou mais explícita do que essas passagens? 

Se faz uso de algum termo que pode levantar algumas dúvidas no coração de um pecador quanto a seu direito completo de apreciar os benefícios da morte de Cristo para si? Não! Sou um "ímpio"? Por ímpios Cristo morreu. Sou um "pecador"? 

Para os tais Deus recomenda seu amor. Eu sou "inimigo"? 

Para eles, Deus reconcilia pela morte de seu Filho.Tudo é tão claro como um raio de sol, e é, portanto, inteiramente removido o tropeço teológica causado por colocar fora do seu lugar a doutrina da eleição.Eu obtenho os benefícios da morte de Cristo como um pecador. Como alguém que está totalmente perdido obtenho uma salvação gratuita e permanente. Tudo que necessito para aplicar a mim o valor do sangue do Senhor Jesus Cristo, é reconhecer-me como um pecador perdido. 

Não me ajudaria, no mínimo, neste caso, o fato de me dizerem que sou um dos eleitos, visto que Deus não se dirigiu a mim neste caráter pelo Evangelho, mas sim de um modo totalmente diferente, ou seja, como um pecador perdido.
Mas então, alguém pode perguntar: "Você vai deixar de lado a doutrina da eleição?" 

Deus me livre! Nós apenas queremos vê-la em seu devido lugar. 

Vemos isso como um limite, e não como um tropeço. 

Acreditamos que o evangelista não deve se ocupar na pregação com a eleição. Paulo nunca pregou a eleição. Ele ensinou a eleição, mas pregou a Cristo. Isso faz toda a diferença. Acreditamos que ninguém que se ache de alguma maneira impedido pela doutrina da eleição, colocada fora do se lugar, possa ser um verdadeiro evangelista.

Temos notado que se tem causado sérios danos a duas classes de pessoas por causa da pregação da eleição, em vez de Cristo:

a) aos pecadores negligentes, se tem tornado ainda mais negligentes,

b) enquanto as almas ansiosas pela verdade, se tornam mais ansiosos ainda.


Estes resultados são tristes, de fato, e deveria ser suficiente para despertar sérios pensamentos nas mentes daqueles que querem ser pregadores exitosos desta livre e plena salvação que brilha sobre o evangelho de Cristo, e que deixa todos os que ouvem sem a menor desculpa. 

A ocupação principal do evangelista em sua pregação, é apresentar o amor perfeito de Deus, a eficácia do sangue de Cristo e do registro fiel, inspirado e deixada pelo Espírito Santo. Sua mente deve estar totalmente livre de todos os constrangimentos, e o evangelho que ele prega, tão claro como o horizonte sem nuvens. 

Deve pregar uma salvação presente, livre para todos, e firme como os pilares que sustentam o trono de Deus. O Evangelho mostra o coração de Deus aberto, o que encontra expressão na morte de seu Filho, como está escrito pelo Espírito Santo.Se fosse tratado com mais atenção a este fato, teriam maior poder para responder a tais acusações feita pelos descuidados, e para acalmar as ansiedades profundas de almas exercitadas e carregadas.A primeira razão não teriam o direito de oposição, o último, não há razão para temer.Quando as pessoas rejeitam o Evangelho alegando os decretos eternos de Deus, rejeitam o que está revelado apoiando-se no que está oculto. 

O que eles podem saber sobre os eternos decretos de Deus? Simplesmente nada. Como pode então o que é secreto ser alegado como razão, para rejeitar o que é revelado? Por que rejeitar o que pode ser conhecido, com base no que não pode? É óbvio que os homens não fazem assim nos casos, quando querem crer num assunto. Dizemos simplesmente que alguém queira crer em algo, e não o veremos ansioso por achar motivo de objeção. Mas infelizmente os homens não querem crer em Deus. 

Eles rejeitam o seu testemunho precioso que é tão claro como o sol do meio-dia, e colocam como uma desculpa, os decretos divinos que estão envoltos em trevas impenetráveis. Quanta loucura, cegueira e culpabilidade!
E enquanto às almas ansiosas que são atormentados com perguntas sobre a eleição, anelamos mostrar que não está de acordo com a mente de Deus que essas dificuldades surjam. Deus se dirige a elas exatamente no estado em que Ele os vê e em que elas podem ver-se a si mesma. Ele se dirige a elas como pecadores, e precisamente isto é o que são. A partir do momento em que um pecador toma seu lugar como tal, não há nada para ele, além da salvação. Isso é muito simples para uma alma simples. Levantar questões sobre a eleição, é apenas pura descrença. É rejeitar o que está revelado baseando-se no que está oculto. É rejeitar o que eu posso saber baseando-me no que eu não posso.Deus revelou-se através de Jesus Cristo, para que o conheçamos e confiamos nEle. Além disso, Ele fez provisão completa por meio da expiação da cruz para todas as nossas necessidades e culpas. 

Assim, em vez de chocar-me com a pergunta: "Será que vou ser um dos eleitos?" Eu tenho o privilégio abençoado de descanso no amor perfeito de Deus, na plena suficiência de Cristo, e nas fiéis palavras em que o Espírito Santo nos deixou na Bíblia Sagrada.Devemos terminar este artigo, embora existam outros obstáculos que anelamos que sejam removidos do caminho dos filhos de Deus, assim como muitos limites e fronteiras que são, infelizmente, perdidos de vista.

Por C. H. Mackintosh



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Eleição e Responsabilidade - Como conciliar os dois?


Como conciliar a eleição e a responsabilidade do homem? 

Alguém disse que sobre o lado externo da porta para o céu, todos podiam ler estas palavras: "Todos estão convidados para entrar aqui." E sobre o lado interior, o qual não se podia ver, a não ser que tenha entrado pela porta por meio da fé, estava escrito: "Todos aqueles que entraram aqui, haviam sido eleitos". Quanto ao conhecimento que Deus nos dá a este respeito, encontramos em (2° Pedro 1: 10)

"Portanto, irmãos, procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição; porque, fazendo isto, nunca jamais tropeçareis." a consolidação de nossa escolha, não no coração de Deus, mas no nosso, e nos demais. Esta consolidação se produz por uma marcha fiel. A marcha dos tessalonicenses mostrava para o apóstolo a eleição deles; e os frutos da vida divina neles eram o que provava que pertenciam a Cristo.

"Sabendo, amados irmãos, que a vossa eleição é de Deus; porque o nosso evangelho não foi a vós somente em palavras, mas também em poder, e no Espírito Santo, e em muita certeza, como bem sabeis quais fomos entre vós, por amor de vós. E vós fostes feitos nossos imitadores e do Senhor, recebendo a palavra em muita tribulação, com gozo do Espírito Santo, de maneira que fostes exemplo para todos os fiéis na Macedônia e Acaia." (1 Tessalonicenses 1: 4-7)


Por H. Rossier

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Efésios 1.3-8

"como me foi este mistério manifestado pela revelação como acima, em pouco, vos escrevi,4 pelo que, quando ledes, podeis perceber a minha compreensão do mistério de Cristo,5 o qual, noutros séculos, não foi manifestado aos filhos dos homens, como, agora, tem sido revelado pelo Espírito aos seus santos apóstolos e profetas,6 a saber, que os gentios são coerdeiros, e de um mesmo corpo, e participantes da promessa em Cristo pelo evangelho;7 do qual fui feito ministro, pelo dom da graça de Deus, que me foi dado segundo a operação do seu poder.8 A mim, o mínimo de todos os santos, me foi dada esta graça de anunciar entre os gentios, por meio do evangelho, as riquezas incompreensíveis de Cristo." 

3. Este versículo está repleto da ideia de bênção, Os santos bendizem a Deus por tê-los abençoado com todas as bênçãos espirituais. Quando bendizemos a Deus, não Lhe acrescentamos nada, simplesmente rendemos-Lhe Seu devido louvor. Quando, porém, Deus nos abençoa, Ele acrescenta-nos tudo que vale a pena ter, "todas as bênçãos espirituais". 

Aquele que abençoa é o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, e as bênçãos são todas de natureza espiritual, e se encontram nos lugares celestiais em Cristo, Aquele que abençoa é um que nem os patriarcas, nem a nação de Israel, conheciam como tal - Ele é o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, ressurrecto dentre os mortos (João 20:17); as bênçãos são coerentes com isto estão em Cristo, agora à destra de Deus, não assentado no trono de Davi, e são, portanto, celestiais e não terrestres, espirituais e não temporais. Nenhuma bênção terrestre ou temporal poderá ser maior do que estas. 

Leia "com todas as bênçãos espirituais"(en pase eulogiay, e entenda que a totalidade de bênçãos espirituais é o dom de Deus para cada um dos Seus santos. 

Deus não distribui Suas bênçãos por etapas; não há primeira, segunda e terceira bênçãos; todas elas já nos pertencem. Contudo, o desfrutar delas é outra questão.


4. Agora Paulo fala mais sobre essas bênçãos espirituais, referindo-se, especialmente, Àquele que as dá. No v. 4, o Deus soberano faz uma escolha em Cristo antes da fundação do mundo; no v. 5, o Pai de nosso Senhor Jesus, segundo o beneplácito da Sua vontade, predestina para a adoção de filhos, Vemos Deus operando para Sua própria glória, e para a satisfação eterna de Seu próprio coração. 

No v. 4, Ele quer um povo diante (katenopion) dEle em amor; no v. 5, Ele quer um povo para (eis) Si, como filhos, Eleição, conforme o v, 4 ensina, relaciona-se com um Deus soberano, refere-se ao passado, e diz respeito a pessoas; predestinação, porém, conforme o v, 5 ensina, tem a ver com o beneplácito do Pai, refere-se ao futuro, e diz respeito a uma posição designada para pessoas (veja também Rom, 8:29). 

No caso de Israel houve também eleição e adoção de filhos, mas com esta diferença: a sua eleição foi como nação, eram uma raça eleita; sua adoção também foi como nação: "Israel é Meu filho" (Êx, 4:22). 

A eleição desta era presente é individual, como também o é a adoção de filhos, A Bíblia ensina sobre a eleição de anjos, de Israel, e da Igreja e, embora haja muito nesta verdade que não podemos compreender, nós a aceitamos com humildade e adoração. Para entendê-Ia plenamente, seria necessário saber tanto quanto Deus sabe. É a orgulhosa mente humana que rejeita aquilo que não pode compreender.

Paulo mostra a esfera, o tempo, e o propósito da escolha de Deus. A esfera foi "em Cristo": a escolha do indivíduo foi em Cristo, e não em qualquer coisa no próprio indivíduo, O tempo foi "antes da fundação do mundo" (veja também João 17:24; I Ped. 1:20): isto é, antes da criação do mundo, antes que o tempo começasse, antes que o homem existisse, e antes da entrada do pecado. 

O propósito foi "que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dEle em já tornou-se essencialmente verdadeiro dos santos de Deus. O que a Igreja há de ser naquele grande dia, quando Cristo a apresentar a Si mesmo (5:27), assim é cada filho de Deus agora, essencialmente, e assim será eternamente, perante a face de Deus. Embora muitos julgam que a expressão "em amor" introduz o assunto da predestinação no v. 5 (veja, por exemplo, a pontuação dos vs. 4 e 5 na ARA; N. do R.) o pensamento parece ser, todavia, que o propósito de Deus é ter perante Si um povo, não somente conforme a Sua santidade, "santos e irrepreensíveis", mas também um povo que se alegra no Seu amor.


5. Predestinação significa simplesmente "designar de antemão" (veja também Atos 4:28; Rom. 8:29,30; I Cor. 2:7). 

A palavra ocorre duas vezes neste capítulo (nos vs. 5 e 11), e a ligação, além de ser importante, é preciosa: no v. 5 é predestinação para adoção de filhos, mas no v. II é predestinação para uma herança. "Filhos de adoção" é uma só palavra no texto grego (huiothesia), e ocorre em Rom. 8:15, 23; 9:4; Gál. 4:5; e Ef. 1:5. 

É composta de duas palavras, e quer dizer, literalmente, "colocação de filhos" ou "posição de filho". 

Já recebemos esta adoção (Gál. 4:5); e já temos o Espírito de adoção (Rom. 8: 15); mas na sua plenitude, adoção de filhos também indica conformidade física com o Filho de Deus, e isto nós aguardamos (Rom. 8:23), e para isto fomos predestinados (Ef. 1 :5; veja também Rom. 8:29). O Pai terá para Si muitos filhos trazendo a imagem de Seu próprio Filho, e está realizando isto por meio de Jesus Cristo (veja também Gál. 4:4, 5). 

Desse modo, o Pai manifesta o beneplácito de Sua própria vontade. Deus queria ter prazer nos homens (Luc. 2:14), mas nunca o encontrou, a não ser no Seu próprio Filho (Mal. 3: 17; 17:5; Mar. I: 11; Luc. 3:22); alcançá-lo-á também em nós, pois nos predestinou para sermos semelhantes ao Seu próprio Filho.


6. "Agradáveis a Si no Amado" resume o ensino dos vs. 4 e 5. 

Traduzir charitoo como "agradáveis" é insuficiente; esta palavra ocorre outra vez somente em Luc. 1:28, onde é traduzida "muito favorecida" (ARA). Usando esta palavra, Paulo refere-se à plenitude do favor que Deus nos concedeu, quando nos elegeu e nos predestinou. Sendo abençoados em Cristo (v. 3), e eleitos nEle (v. 4), agora, diz o apóstolo, somos "muito favorecidos no Amado". 

Essa plenitude de favor divino nos pertence nAquele que é o Amado de Seu Pai. Foi-nos concedido, não somente favor divino no Amado, mas isto é uma expressão da glória da graça de Deus, e há de ser o motivo de louvor a Deus, tanto agora como para todo o sempre.


7. Nos vs. 7-12 Paulo escreve sobre a obra de Cristo em relação ao passado e ao futuro. 

Observe a repetição de "em quem" nos vs. 7 e 11; 

"Em quem temos a redenção pelo Seu sangue, a remissão das ofensas" (v. 7); 

"Em quem também fomos feitos herança" (v. 11). 

Na sua defesa perante Agripa, em Atos 26: 18, Paulo outra vez associa a remissão com uma herança. A vontade de Deus a nosso respeito jamais poderia ser realizada sem a obra de Cristo; nunca poderíamos ser tão favorecidos por Deus, sem que a nossa necessidade, devido ao pecado, fosse resolvida. 

Agora Paulo dá-nos a entender que, conforme as mesmas riquezas da Sua graça, pelas quais, Deus perdoou os nossos pecados. Ele também nos recebe e nos revela os segredos de Seu coração. 

Os nossos pecados, ou transgressões (paraptoma), necessitam de perdão divino, ou remissão (aphesis), e isto já temos como possessão nEle (no Amado), e pelo Seu sangue.
Tudo isso é segundo as riquezas da graça de Deus. Deus veio ao encontro de nossas necessidades, não segundo a medida da nossa necessidade, e sim, segundo as riquezas da Sua graça. 

No v. 6, Paulo faz menção da glória da graça de Deus, e no v. 7 das riquezas da Sua graça. A glória da Sua graça é graça coerente com a Sua glória; as riquezas da Sua graça é uma graça que supre abundantemente a nossa necessidade.


8. "Que Ele fez abundar para conosco" indica que há algo nas riquezas da Sua graça que vai além do mero suprimento de nossa necessidade como pecadores. 

Nestas mesmas riquezas da Sua graça, por meio das quais, Deus perdoou as nossas transgressões. 

Ele também fez abundar o Seu favor para conosco em toda a sabedoria e prudência. Sabedoria ou esclarecimento (sophia), e prudência ou inteligência (phronesis), não se referem à maneira como Deus fez abundar a Sua graça, mas antes, referem-se àquilo que Ele nos outorgou, capacitando-nos a conhecer aquilo que está além da compreensão natural - a inteligência para conhecer, e toda a sabedoria para admirar.

Por A. Leckie - Editora Edições Cristãs


1 Pedro 1.1-2

"Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, aos estrangeiros dispersos no Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia,2 eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo: graça e paz vos sejam multiplicadas."

 
1b. Três das províncias mencionadas por Pedro foram representadas no dia de Pentecostes (Atos 2:9), bem como "judeus ... de todas as nações" (Atos 2:5). 

Sem dúvida o Evangelho foi levado às suas localidades por estes novos convertidos. Paulo também tinha trabalhado em algumas partes da Ásia e da Galácia, de sorte que "todos os que habitavam na Ásia ouviram a palavra do Senhor Jesus, assim judeus como gregos" (Atos 16:6; 19: 10, 26).As cinco localidades mencionadas eram províncias do império romano, situadas na Ásia Menor, no que agora se chama Turquia.
Ponto e Bitínia ocupavam a região norte, formando o litoral sul do Mar Negro. A Galácia ficava no centro com a província da Ásia ao oeste e Capadócia ao leste. A ordem dos nomes não é alfabética, mas poderia sugerir o trajeto de uma suposta viagem, começando em algum lugar no Ponto, no litoral do Mar Negro, indo ao sudeste, atravessando uma parte do norte da Galácia, entrando na Capadócia, e então voltando pelo centro da Galácia, diretamente ao oeste da Ásia e virando para o norte para Bitínia e o litoral.
Pedro chama seus leitores de "estrangeiros". 

A palavra foi escolhida com cuidado para descrever um povo que não somente estava longe da sua terra natal, mas como se diz, eram "estranhos numa terra estranha". 

É a palavra parepidemos, que significa "residente temporário que não pertence à região". Estavam "junto" deles, mas não eram "de entre" eles. 

Em outras palavras, eram "forasteiros", distantes do lar, mas caminhando para o lar, um povo peregrino.Podemos perceber, em todos os escritos de Pedro, a grande influência das palavras do Senhor Jesus. 

Ao escrever esta palavra ele bem poderia estar-se lembrando da oração do Senhor, em João 17: " ... o mundo os odiou, porque não são do mundo, assim como Eu do mundo não sou. Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal" (João 17:14b-15).

Estas pessoas não eram somente peregrinos, mas estavam "dispersos". Novamente, uma palavra específica (diaspora) é usada para descrevê-los. 

Normalmente traduzida "a dispersão", esta palavra tornou-se sinônima dos judeus distantes da sua terra natal, a Palestina (João 7:35; Atos 8:1, 4).

Contudo, o uso do nome Pedro indica outros leitores, além de cristãos judeus. 

Isso parece ser apoiado pelas suas referências aos leitores, por exemplo, como aqueles cujo passado é descrito como "vossa ignorância" (I: 14). 

Naquele tempo "não éreis povo" (2: 10) mas seguiam práticas pagãs das quais foram libertos (4:3,4). Por meio da sua conversão eles se tornaram filhos de Abraão (Gál. 3:7).A palavra diaspora, porém, é muito mais esclarecedora. É derivada do verbo speiro, "semear como semente". 

Temos aqui, novamente, ecos das palavras do Mestre ouvidas por Pedro: "O que semeia a boa semente, é o Filho do homem; o campo é o mundo; e a boa semente são os filhos do reino" (Mat. 13:37,38).
Alguns, por causa da perseguição e opressão, e outros por causa das circunstâncias, foram "dispersas"; mas por traz da mão humana de repressão estava outra mão, a do soberano Senhor da seara.
Como Pedro dirá mais adiante nesta epístola (3:22), todos os poderes estão sujeitos a Ele (3:22).
Que consolo e incentivo isso é para santos sofredores de todas as eras. As consequências desta palavra atingem o próprio trono e propósito de Deus. 

O Seu povo não é disperso pelos ventos do destino, nem pela mão do inimigo, nem pelas mudanças das circunstâncias. Eles não são o resultado de alguma coincidência química nem de algum acidente genético. Não são os peões da providência. 

O que são, onde estão e quando estão, tudo é pela vontade e propósito do seu soberano Senhor (veja também Is. 43: 1-7).


2a. Assim como a soberania de Deus é vista nas circunstâncias do Seu POVO, assim também o é na sua salvação. Eles não eram somente peregrinos, espalhados como sementes semeadas na esperança de uma colheita gloriosa, mas eram também peregrinos "eleitos", selecionados por causa de um propósito glorioso.
"Eleitos" quer dizer selecionados, escolhidos. Através dos séculos muitas coisas, algumas proveitosas, outras não, foram apresentadas sobre a doutrina de eleição.
"Pedro, como os outros escritores do NT, não entra em tais discussões. Se, vivendo na certeza absoluta de uma fé recém adquirida, os cristãos primitivos não encontravam dificuldades intelectuais, ou se o Espírito que habitava neles os levou a sentir que tais questionamentos eram insolúveis, não sabemos; mas é instrutivo observar que as Escrituras não as mencionam" (R. Lumby).


Aqui, em um só versículo, estão apresentadas as atividades das Pessoas divinas no plano da redenção: a determinação soberana do Pai, o ministério santificador do Espírito, e a provisão e aplicação do sangue do Filho, Jesus Cristo.
Eleição é "segundo a presciência de Deus". 

A palavra "presciência" (prognosis), em sua forma substantiva, ocorre duas vezes no NT, e é usada somente' por Pedro (v. 2; Atos 2:23). 

Não sabemos tudo que esta presciência abrange, mas é muito mais do que um mero saber de antemão, no sentido de ter conhecimento antecipado de acontecimentos futuros. Na forma verbal, ela aparece em Rom. 8:29: " ... os que dantes conheceu ... " Embora Deus conhece todos os homens. 

Ele não conhece a todos com respeito ao Seu propósito em eleição. No juízo, o Senhor Jesus dirá aos falsos professos: "Nunca vos conheci" (Mat. 7:23). Quanto à Sua onisciência: "a todos conhecia" (João 2:24). 

Quanto à eleição divina, Ele disse: "Eu bem sei os que tenho escolhido" (João 13: 18).


Paulo escreveu aos coríntios: "se alguém ama a Deus, esse é conhecido dEle" (I Cor. 8:3). A presciência de Deus, portanto, parece incluir uma escolha em amor. Qualquer receio que os leitores desta epístola pudessem ter sobre sua eleição seria tranquilizada pela certeza de que foi segundo a presciência de Deus Pai. 

"A escolha e o conhecimento não eram a vontade arbitrária de um soberano inconstante, como são os soberanos da terra, mas de um Pai, cujas misericórdias são sobre todas as Suas obras " (E. H. Plumptre).

A fonte daquela grande eleição estava no coração de Deus Pai. A operação dela vem pelo ministério santificador do Espírito Santo: "em santificação do Espírito". 

"O Espírito Santo é o Agente em santificação ... é um ato divino ... " (C. F. Hogg e W. E. Vine). 

O substantivo usado aqui, hagiasmos, refere-se ao ato de santificar, não ao seu aperfeiçoamento num caráter santo; isto seria expresso pela palavra hagiosune. 

"O caráter santo ... não é vicário, isto é, não pode ser transferido ou imputado, é uma possessão individual, acumulada, pouco a pouco, como resultado da obediência à palavra de Deus, e de seguir o exemplo de Cristo ... no poder do Espírito Santo" (Expository Dictionary of NT Words, W. E. Vine - Dicionário Expositivo de Palavras do NT, pág. 317). 

Hagiasmos é "a soma e medida, como efeito, como um todo, de modo característico, não hagiosune, a qualidade ... " (JND, I Cor. 1:30, nota de rodapé). 

Esta é a obra inicial do Espírito Santo que resulta na formação progressiva do caráter santo no cristão, durante toda a sua vida, e o aperfeiçoamento disto na presença do Senhor.
Esta santificação é "para [tendo em vista] a obediência", não como resultado da obediência. Não é um galardão, mas sim a obra da graça sobre o indivíduo. 

Tem que haver a obediência da fé. "A doutrina da eleição nunca teve por intenção anular a responsabilidade do homem sobre o estado da sua própria alma. A Bíblia toda se dirige aos homens como tendo livre arbítrio, como sendo responsáveis diante de Deus ... " (J. C. Ryle).

O Evangelho sempre chama o pecador à obediência voluntária. Isso sugere que há uma alternativa. O Evangelho é apresentado e há os que creem e os que não crerem (João 3:36). Há os que "obedeceram de coração" (Rom. 6: 17) e os que "não obedeceram ao evangelho" (11 Tess. 1:8). 

Há aspectos da vontade divina que podem ser resistidos. Exemplos disso foram deixados para nosso aviso.
Na Sua própria pátria, o Senhor Jesus "não podia fazer ali obras maravilhosas ..." (Mar. 6:5). 

Esta limitação não foi por causa da Sua própria Pessoa ou poder, mas sim, por causa do princípio da fé: Ele "estava admirado da incredulidade deles" (v. 6). 

Ele chorou sobre a cidade, dizendo: "quantas vezes quis Eu ajuntar os teus filhos ... e não quisestes". 

A perda não foi por causa da Sua vontade, mas por causa da vontade deles.Esta obediência não é o mero consentimento a um credo ou sistema de doutrina mas "para a obediência ... de Jesus Cristo".
Primeiro, obediência ao Evangelho, resultando numa vida de obediência. Assim como foi a obediência de Cristo à vontade do Pai, assim será também o caráter e atitude dos eleitos (Fil. 2:5-8). Aos eleitos, santificados para obediência, se aplica todo o valor e virtude do "sangue de Jesus Cristo". 

Isto não é o derramamento do sangue, mas a aspersão dele. 

O sangue precisava ser derramado antes de poder ser aspergido, mas poderia ser derramado e a sua eficácia nunca ser aplicada ao indivíduo. 

O derramamento do sangue é a entrega da vida como sacrifício pelo pecado. É a provisão feita. 

A aspersão do sangue é a aplicação do valor e da eficácia do sacrifício. Esta é a comunicação do poder.
No VT, a aspersão era vista em relação ao seu poder para proteger os primogênitos no Egito, seu poder para purificar os sacerdotes para o serviço, seu poder para preparar o caminho de entrada ao lugar santíssimo, e seu poder para purificar o leproso de sua imundícia cerimonial. 

Porém, parece que aqui se refere a Êxodo 24, quando Moisés tomou o sangue do sacrifício, e aspergiu a metade dele sobre o altar e em seguida leu o livro da aliança na presença do povo que respondeu, prometendo obedecer. 

Moisés então tomou a outra metade do sangue e aspergiu o povo, dizendo: "Eis aqui o sangue da aliança ... ". Aquele sangue ligou o povo ao altar dos frequentes e repetidos sacrifícios. Prendeu-os à palavra da sua própria frágil promessa. Sua aplicação era limitada à nação.


Quão gloriosamente diferente era a porção dos cristãos a quem Pedro estava escrevendo. Esta aspersão de sangue associa os cristãos do NT com uma obra consumada, um sacrifício que nunca precisará ser repetido (Heb. 10: 11,12). 

Liga o cristão à infalível promessa de Deus (Heb. 6: 17-18). A sua eficácia é ilimitada em favor de "quem quiser", quer seja judeu, quer seja gentio.

Que ânimo e incentivo estas palavras trariam e que esperança inspirariam a um grupo de peregrinos dispersos, que possuíam muito pouco, ou talvez nada, neste mundo, não tinham pousada certa e viviam sob a constante ameaça de perseguição ou até mesmo de morte. 

Como o seu Senhor, eles foram rejeitados pelos homens, mas, oh pensamento bendito! foram escolhidos por Deus Pai, escolhidos para uma herança eterna, para estar na presença de Deus, mais privilegiados do que os anjos, para servi-Ia como filhos adoradores no Seu santuário celeste. Rejeitados e excluídos da comunidade dos homens, foram separados pelo Espírito Santo para aquela obediência semelhante à obediência de Cristo para com Seu Pai. 

Eles eram homens desprezados, censurados enquanto andavam entre o povo, mas invisível aos olhos dos homens, eles tinham sido aspergidos com o sangue precioso de Cristo, sinal de um sacrifício mais nobre do que qualquer um que em qualquer tempo manchou os altares de Israel ou os pedestais pagãos romanos.


Por J. B. Nicholson - Editora Edições Cristãs

7. A Variedade dos Dons Espirituais - (1 Coríntios 12:1-31)



"Acerca dos dons espirituais, não quero, irmãos, que sejais ignorantes. Vós bem sabeis que éreis gentios, levados aos ídolos mudos, conforme éreis guiados. Portanto, vos quero fazer compreender que ninguém que fala pelo Espírito de Deus diz: Jesus é anátema, e ninguém pode dizer que Jesus é o Senhor, senão pelo Espírito Santo. 

Ora, há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo.

E há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo.E há diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos.

Mas a manifestação do Espírito é dada a cada um, para o que for útil.Porque a um pelo Espírito é dada a palavra da sabedoria; e a outro, pelo mesmo Espírito, a palavra da ciência; 

E a outro, pelo mesmo Espírito, a fé; e a outro, pelo mesmo Espírito, os dons de curar; E a outro a operação de maravilhas; e a outro a profecia; e a outro o dom de discernir os espíritos; e a outro a variedade de línguas; e a outro a interpretação das línguas. 

Mas um só e o mesmo Espírito opera todas estas coisas, repartindo particularmente a cada um como quer."

(1 Coríntios 12:1-11)


Esta longa seção (12:1-14:40) é composta de seis divisões. A primeira divisão (vs. 1-11) pode ser subdividida da seguinte maneira:


a) O Senhorio de Cristo vs. 1-3;

b) A Atividade da Divindade vs. 4-6;

c) Os Dons do Espírito vs. 7-11.


Devemos notar que, no capítulo 12, os próprios dons são apresentados; no capítulo 13, aquilo que é necessário para que os dons operem em harmonia, isto é, o amor; no capítulo 14, vemos os dons em operação. É importante explicar que, enquanto o Espírito é mencionado nove vezes no capítulo 12, Ele não é mencionado nenhuma vez no capítulo 14. No capítulo 12, Ele é visto como sendo a fonte, o poder e administrador dos dons, enquanto que no capítulo 14 a pessoa que recebe o dom é inteiramente responsável pelo seu uso.

1. Este versículo mostra como os coríntios precisavam de esclarecimento; v. 2 salienta que, nos dias antes da sua conversão, eles estavam em servidão; o v. 3 indica que a verdadeira confissão do Senhorio de Cristo somente pode ser feito sob o controle do Espírito Santo. "Acerca dos" faz-nos lembrar do uso anterior destas palavras, em 7:1 e 8:1; veja a Introdução sob o cabeçalho A Ocasião e o Propósito em Escrever. A palavra "dons" não consta no texto original. A maioria dos tradutores insere a palavra "dons" porque o adjetivo "espirituais" (pneumatikos) está no plural, e porque o assunto dos dons começa no V. 4. R. Young traduz:"coisas espirituais"; J. N. Darby: "manifestações espirituais"; talvez "realidades espirituais" seria mais apropriado nesta passagem.

2. Paulo lembra-lhes da sua origem, a fim de enfatizar a liberdade que agora gozavam em Cristo, e a riqueza da generosidade de Deus, demonstrada na variedade dos dons que possuíam. Antigamente eram idólatras, enganados, cativos, fracos, desamparados e escravizados.Não havia nenhuma liberdade de escolha; estavam oprimidos, dominados por um poder maligno. Este poder não é identificado, mas evidentemente Paulo está pensando nas atividades malignas dos demônios, capacitados e controlados por Satanás. Esta é a resposta à objeção dos ímpios que dizem que o cristianismo é restritivo, e que não querem perder sua liberdade, tornando-se cristãos. O contrário é a verdade. Não são livres, mas sim, cativos e enganados; veja Tito 3:3. "ídolos mudos" dá ênfase a sua incapacidade de falar, sua falta de comunicação; eles são mudos. Veja o Salmo 115:4-8, especialmente o v. 5. Não podem comunicar palavras de consolo e perdão, e são um contraste nítido com o Deus vivo e verdadeiro, que se deleita em falar, e com o Espírito Santo que energiza os dons que comunicam a verdade. Paulo passa a contrastar a nova esfera que agora ocupam, onde Deus, Cristo e o Espírito Santo dominam.


3. Paulo está, claramente, dando-lhes um critério pelo qual poderiam reconhecer a voz do Espírito de Deus. Os recém-convertidos não teriam experiência alguma de tais comunicações, e a lastimável condição espiritual da maioria dos outros os tornariam insensíveis à Sua orientação. Porém, o contraste é impressionante: "Jesus é anátema"; "Jesus é o Senhor". É claro e explícito que o Espírito Santo, falando através dos homens, dará glória a Cristo, e reconhecerá a Sua supremacia como Senhor. O Espírito sempre há de exaltá-Lo. É possível que estes fossem dois lemas, um usado pelos inimigos de Cristo, e o outro pelos Seus seguidores. É difícil aceitar que qualquer verdadeiro cristão diria: "Jesus é anátema". Pode ser que, numa reunião da igreja, um judeu se tivesse levantado e exclamado: "Jesus é anátema", e um cristão piedoso respondido: "Jesus é o Senhor". Mais tarde, em dias de perseguição, os inimigos do Evangelho tentariam obrigar os cristãos a renunciar a sua fé, dizendo:"César é senhor", e o teste supremo para determinar se uma pessoa era cristã ou não, seria ver se ele pudesse ser forçado a dizer: "Jesus é anátema". O que se enfatiza aqui é que somente o Espírito de Deus pode capacitar uma pessoa a descobrir e exclamar, em verdade: "Jesus é o Senhor". Nós pertencemos à esfera onde a igreja reunida reconhece o Senhorio Soberano de Jesus, como proclamado e interpretado pelo Espírito Santo.


4-6. Agora chegamos à atividade da Divindade, o controle soberano das Pessoas divinas em relação a toda a esfera de serviço. Sua unidade de propósito é enfatizada. Três palavras são usadas para indicar os dons, considerando-os de diferentes pontos de vista: dons, ministérios e operações.Os dons são dons da graça, dados aqui pelo Espírito de Deus.São evidências da graça de Deus, e da soberania do Espírito Santo, e fornecem a capacidade necessária para servir a Deus, abençoar o Seu povo, e não causar divisões entre eles.Os ministérios indicam diferentes formas de serviço, todos efetuados e regulados pela direção do Senhorio de Cristo, e todos exercitados para o benefício dos outros.As operações são poderes ou energias fornecidos, tendo em vista a-realização da obra. Deus é quem dá todo o poder e torna tudo eficaz.A revelação destas coisas deve manter-nos humildes, reconhecendo que tudo é de Deus, e que somos privilegiados ao sermos os objetos desta atividade divina. A manifestação de tais dons numa igreja local deve fazer-nos reconhecer a graça da Divindade, ao manifestar a Sua presença entre nós. Observe a referência a cada Pessoa da Trindade nestes versículos: "o Espírito é o mesmo"; "o mesmo Senhor" e "o mesmo Deus". Sem considerar a natureza passageira dos dons dados como sinal (este assunto será abordado depois), a operação destas Pessoas divinas ainda continua no exercício dos dons, na igreja local.


7. Este versículo inicia o parágrafo (vs. 7-11) que trata de alguns dos dons do Espírito. Há mais duas passagens principais que tratam dos dons espirituais: Rom. 12 e Ef. 4. Em Rom.12, Deus é quem os dá (v. 3); Em Ef. 4 o Senhor ressurrecto "deu dons aos homens" (v. 8); aqui é o Espírito Santo quem os dá. Nove dons são mencionados aqui, entre os quais os dons milagrosos e de sinal são muito destacados. Em Rom. 12:6-8, somente sete dons são mencionados, e somente inclui um dos nove mencionados aqui. A lista em Ef. 4: 11 é ainda mais curta; cinco (alguns julgam que há apenas quatro) são especificados, apenas um dos quais se encontra também em nosso parágrafo ("profetas" é paralelo com "profecia" do V. 10, aqui).As diferenças são muito importantes, como veremos mais tarde ao tratarmos dos dons dados como sinal. Devemos observar que enquanto antes, nos vs. 4-6, Paulo usou plurais ao falar de dons ("dons ... ministérios ... operações"), neste versículo ele usa o singular: "manifestação". Ele desenvolve a ideia através dos plurais, e então concentra tudo num singular. Não são apenas alguns que recebem os dons, mas eles são distribuídos a cada um, e deste modo o Espírito se manifesta a Si mesmo para benefício de todos. O benefício será visto no desenvolvimento do caráter espiritual nos santos; há de aumentar-lhes o conhecimento e utilidade; trará à luz a capacidade de liderança (que não é produzida por frequentar seminários ou colégios) ao estarem sob a influência do ensino da Palavra, sendo sensíveis a ela; e promoverá o amor e unidade na igreja local.


8-10. Antes de definir os nove dons, vamos notar que a palavra "outros" (heteros), entre o segundo e terceiro dons e entre o sétimo e oitavo, quer dizer "de espécie diferente". Isto divide os dons em três grupos. Vamos agora apresentá-los quanto ao seu significado, tendo em mente o seu caráter sobrenatural, e a grande probabilidade de que estivessem operando nos tempos primitivos da igreja a fim de manifestar o poder de Deus na nova ordem que fora estabelecida. O novo começo trouxe à luz novas manifestações do poder de Deus. Nenhum destes dons opera no dia de hoje.
A Palavra da Sabedoria, a Palavra da Ciência: É correto estes dois dons estarem juntos, pois operaram somente naquele tempo.Convém reconhecer que naqueles tempos estas igrejas não tinham o NT, para onde pudessem recorrer para receber orientação. Deus providenciou estes dons a fim de suprir a necessidade desta situação."Palavra" aqui significa "expressão"; eram dons que envolviam comunicação. Em qualquer situação, onde surgisse a necessidade de se ter uma percepção profunda, para resolver um problema, um irmão se levantaria para fazer conhecida a mente de Deus, que lhe fora revelada. "Ciência" não se refere ao conhecimento adquirido através de estudo, mas sim ao que foi divinamente revelado para suprir a necessidade do momento. Um exemplo disso se vê no conhecimento concedido a Pedro em Atos 5:3-4. Hoje em dia a Palavra de Deus é o suficiente.
Fé: É claro que este dom não é aquilo que chamamos de fé salvadora, nem a fé e confiança que exercemos diariamente. Aqui, está intimamente associada com curas e milagres, e o contexto mostra que esta fé era divinamente dada, e era necessária para que o dom milagroso operasse. Pondere atentamente Mateus 17: 14-21 e 21: 17-22. Em cada um destes acontecimentos, o Senhor repreende os discípulos por causa de sua falta de fé. Este dom de fé pode transportar montes. Observe a ligação entre Mateus 17:20; 21 :21 e I Cor. 13:2.Este dom forneceu a fé especial que era necessária para o exercício dos dons de curas e da operação de maravilhas, para que homens pudessem realizar aquilo que era humanamente impossível.
Dons de curar: A palavra (no grego) está no plural: "curas".Os Evangelhos estão repletos de exemplos disto, como também o livro de Atos. Observe atentamente a expressão: "dons de curas"; ambas as palavras estão no plural. Isto indica que cada caso de cura manifestava uma operação distinta do dom. Este dom não está operando hoje em sua plenitude, variedade e perfeição, como nos dias do Senhor e dos apóstolos e outros, mencionados aqui. Com a passagem do tempo, tornou-se claro que o dom estava diminuindo. O espinho na carne de Paulo, o problema de estômago de Timóteo, a enfermidade de Trófimo, e a doença de Epafrodito, não foram tratados imediatamente com poder apostólico. Em Tiago 5: 13 etc., nenhum apóstolo, ou outro irmão com o dom de curar, deveria ser chamado, porque o caso envolvia uma questão de pecado; era para chamar os anciãos, os quais, coletivamente, não tinham recebido este dom. Convém dizer que cremos que Deus pode curar hoje, e que Ele tem feito isto; a questão é que isso não é o normal, e Deus não prometeu que seria. Estes poderes estavam operando plenamente a fim de demonstrar que a nova obra era de Deus.
Operação de Maravilhas: observe os plurais outra vez: "operações de milagres" (ARA). Estão em contraste com as curas que Paulo acabou de mencionar. São demonstradas no ministério do Senhor: transformando água em vinho (João 2); alimentando os cinco mil (João 6); acalmando a tempestade (Marcos 4). Nos Atos, há também tais operações: a ressurreição de Dorcas (cap. 9); a cegueira de Elimas (cap. 13), um milagre judicial; a ressurreição de Eutico (cap. 20). Atos 19:11 nos diz que Paulo fazia maravilhas extraordinárias, inclusive expulsar espíritos malignos.
Profecia: Este dom estava em segundo lugar de importância, depois do dom do apóstolo (veja o v. 28), e ambos eram de caráter fundamental. O profeta falava por revelação direta de Deus, seja em doutrina fundamental, ou seja em suprir a necessidade duma situação específica, dando, em ministério, a mente de Deus para aquele tempo presente. Não existem profetas hoje, neste sentido. O ensinador, em contraste, ministra das Escrituras, já completas. Qualquer grupo que diz ter profetas hoje, indica que Deus ainda está revelando-Se, e nega que a Bíblia seja a revelação completa de Deus. 2 Ped. 2: 1 indica que os profetas foram substituídos pelos ensinadores.
Discernimento dos Espíritos: Isto se refere ao dom de discernir se a mensagem era do Espírito Santo, ou se era de um espírito maligno, apresentada de tal maneira a parecer vir de Deus. Uma ilustração disto se encontra em Atos 16:16-18, onde a mensagem pronunciada pela jovem parecia genuína, mas Paulo discerniu que ela estava endemoninhada. Paulo, no v. 3 deste capítulo, e João, em I João 4:2-3, dão testes para descobrir a origem de qualquer ensino.Porém, parece que este dom era dado para discernir o espírito atrás da mensagem quando, aparentemente, parecia ser genuíno, como em Atos 16.
Línguas: Cremos que estas eram línguas naturais. Há muita polêmica sobre a questão de serem somente palavras extáticas, ou se Atos se refere a línguas naturais e I Coríntios se refere a palavras extáticas, ou se em todas as ocasiões, trata-se de línguas naturais.Nós defendemos esta última opinião. O Senhor prometeu, em Marcos 16: 17, que o dom de línguas seria um dos sinais: "Falarão novas línguas" - não novas em relação a tempo, mas novas para quem falasse. Como foi a promessa, assim foi o cumprimento: a promessa falou de línguas dos homens, o cumprimento foi línguas dos homens também, tanto nos Atos, nas três ocasiões mencionadas (capítulos 2, 10 e 19), como também em I Coríntios, nos três capítulos que as mencionam (capítulos 12, 13, 14). É essencial que nosso entendimento da natureza do dom de línguas provenha das Escrituras, e não do culto yagão, nem das chamadas manifestações do dom, no dia de hoje. E claro que algum tipo de linguagem incompreensível não seria sinal algum. O irmão que exercia este dom falava numa língua diferente da sua língua materna, ou da que houvesse aprendido depois. Ele não era linguista. "Variedade de línguas", indica que o mesmo irmão poderia falar em mais de uma língua. Depois, vamos observar a probabilidade clara de que junto com o dom de línguas era dada a capacidade para compreender aquilo que era falado.
Interpretação de Línguas: Este também era um dom, e sendo assim não pode referir-se à capacidade linguística de algum irmão presente na reunião que o capacitaria a traduzir; isto seria um dom natural, e não espiritual. Depois de um irmão falar numa língua estrangeira, um outro irmão, com este dom, se levantaria e interpretaria a mensagem. De acordo com 14: 5, 13, o mesmo irmão que fala em línguas deve orar pelo dom de interpretar, assim, ambos os dons poderiam ser exercidos pela mesma pessoa. Se não houvesse alguém presente que tivesse o dom de interpretar, o dom de línguas não deveria funcionar (14:28). Alguns podem pensar que se tivesse alguém presente que falava em outra língua e a entendesse, poderia interpretá-la. Não é verdade. Vamos citar J.Heading: "Interpretação é uma capacidade além da capacidade de falar". Sua observação apropriada sobre este assunto é muito instrutiva; veja as págs. 201-202 de First Epistle to the Corinthians 11. Este versículo salienta que todos estes dons não somente tem a sua origem no Espírito de Deus, mas que também operam pelo Seu poder. A "operação" (energeo), atribuída aqui ao Espírito Santo, vem da mesma raiz da palavra "operações" no v. 6. Aquilo que se atribui a uma Pessoa da Trindade é frequentemente atribuído também a uma outra Pessoa. Três coisas são observadas, aqui, com respeito ao Espírito Santo: Sua vontade, Sua distribuição, e Seu poder.Observe que Sua vontade controla a Sua distribuição. Ele é quem escolhe o dom que há de dar a cada pessoa, segundo o conhecimento que Ele tem dos poderes e capacidades dela. Então Ele ativa, no Seu infinito poder, todos estes dons em suas variedades e formas.Cada um deve sua origem e função e utilidade a um só e ao mesmo Espírito. Isto deve convencer a todos nós que não há lugar para reclamações, nem jactância, nem inveja, nem rivalidade. Tudo é segundo a Sua vontade, e não segundo os nossos desejos. Cada dom é, igualmente, uma manifestação do Espírito.


NOTAS ADICIONAIS
1 "Não quero ... que sejais ignorantes" é uma frase que Paulo usa quando quer frisar certos assuntos aos seus leitores. Veja 10:1; 12:1; Rom. 1:13; 11:25; II Cor. 1:8; I Tess. 4:13.

5 "Jesus é Senhor". Nenhum dos discípulos jamais chamou o Senhor pelo nome Jesus. Numa passagem impressionante, João 13:25 - 14:22, cinco de Seus discípulos, João, Pedro, Tomé, Filipe e Judas, não o Iscariote, todos dirigem-se a Ele como Senhor.4·

6 Observe a palavra "diversidade" (diairesis) nos vs. 4, 5 e 6. Esta palavra destaca não somente a variedade, como também a distinção de cada dom .

7-11 Observe como a unidade do Espírito é enfatizada. A expressão "o mesmo Espírito" ocorre quatro vezes (vs. 8, 9, 11), e "um só Espírito" uma vez (v. 11).

8-9 Devemos notar que a preposição "pelo", usada nestes versículos, é a tradução de três preposições diferentes no grego. No V. 8a, "pelo" é dia; V. 8b, "pelo" é kata; V. 9, "pelo" é en. A primeira preposição, dia, destaca a agência ou mediação do Espírito; a segunda, kata, Sua determinação ou vontade; a terceira, en, Seu poder.


O Corpo e Seus Membros (vs.12-27)


"Porque, assim como o corpo é um, e tem muitos membros, e todos os membros, sendo muitos, são um só corpo, assim é Cristo também.Pois todos nós fomos batizados em um Espírito formando um corpo, quer judeus, quer gregos, quer servos, quer livres, e todos temos bebido de um Espírito.Porque também o corpo não é um só membro, mas muitos.Se o pé disser: Porque não sou mão, não sou do corpo; não será por isso do corpo?

E se a orelha disser: Porque não sou olho não sou do corpo; não será por isso do corpo?

Se todo o corpo fosse olho, onde estaria o ouvido? Se todo fosse ouvido, onde estaria o olfato?

Mas agora Deus colocou os membros no corpo, cada um deles como quis.E, se todos fossem um só membro, onde estaria o corpo?

Agora pois há muitos membros, mas um corpo.E o olho não pode dizer à mão: Não tenho necessidade de ti; nem ainda a cabeça aos pés: Não tenho necessidade de vós.

Antes, os membros do corpo que parecem ser os mais fracos são necessários.E os que reputamos serem menos honrosos no corpo, a esses honramos muito mais; e aos que em nós são menos decorosos damos muito mais honra.

Porque os que em nós são mais honestos, não têm necessidade disso, mas Deus assim formou o corpo, dando muito mais honra ao que tinha falta dela; Para que não haja divisão no corpo, mas antes tenham os membros igual cuidado uns dos outros.

De maneira que, se um membro padece, todos os membros padecem com ele; e, se um membro é honrado, todos os membros se regozijam com ele.Ora vós sois o corpo de Cristo, e seus membros em particular."


Esta seção pode ser dividida em dois parágrafos: o primeiro trata do Batismo no Espírito (vs. 12-13); o segundo do Funcionamento dos Membros (vs. 14-27). O conteúdo do primeiro é doutrinário, a aplicação do segundo é prática. Vamos considerar agora o primeiro.


12. É claro que o corpo mencionado é o corpo humano, e que a ênfase da ilustração é unidade ("um") e diversidade ("muitos", "todos"). "Assim é o Cristo também" indica que é uma comparação com o Corpo de Cristo. Aqui, Ele dá o Seu nome ao Corpo, declarando assim a união vital entre Cristo e o Seu povo. É a Igreja inteira que está em vista, a Igreja dispensacional. Como ela veio a existir se explica no V. 13.


13. Por Cristo "todos nós fomos batizados em (no poder de) um Espírito formando um corpo". "Batizados" está no tempo aoristo (no grego), que não somente relembra um ato, mas considera o ato como completo, já realizado. Este verbo "batizado" se refere, portanto, ao dia de Pentecostes, e dá-nos a explicação doutrinária daquele acontecimento. Todas as referências a este batismo tinham em vista o dia de Pentecostes, no futuro (Mat. 3: 11; Marcos 1:8; Lucas 3:16; João 1:33; Atos 1:5), ou no passado (Atos 11:15; I Cor. 12: 13). Além disso, "batizados" liga-se com o que aconteceu em Atos 2, onde lemos que o Espírito encheu a casa (v. 2). Foi literalmente um batismo. O Espírito Santo tinha vindo em cumprimento à promessa do Senhor nos Evangelhos (João 14:26; 15:26; 16:7), para formar o corpo de Cristo. Aqueles que estavam presentes foram realmente batizados no elemento, o Espírito. Pela descida do Espírito Santo todos foram batizados em um corpo. Quando Paulo diz "nós", ele está pensando na Igreja inteira, em contraste com "vós" no V. 27, que se refere à igreja local. Não é verdade que as palavras de João Batista, nos Evangelhos, indicam que todos os que ele batizou em água seriam batizados também no Espírito (Marcos 1 :8)? Na mente de Deus, todos os cristãos foram vistos como batizados. É essencial ver que o Espírito Santo desceu uma s6 vez. Sua vinda foi única e final. Foi única, porque nunca acontecera antes; foi final, porque nunca acontecerá outra vez, desta maneira. Houve somente um batismo desse tipo. Este foi o dia do nascimento da Igreja. Nós falamos dos nossos aniversários, mas de fato temos um só dia de nascimento, o resto são apenas aniversários. Os cristãos não são batizados desta maneira na conversão; mas entram no benefício daquilo que aconteceu em Pentecostes. Não existe nenhuma Escritura que diz que o cristão é batizado no Espírito na conversão.As palavras que se usam com respeito àquilo que o Espírito Santo faz na conversão são "habitar", "ungir", "selar", "penhor", mas não batismo. No término de Atos 2, três mil almas foram salvas e receberam o Espírito Santo sem qualquer evidência externa. Não houve nenhum fenômeno. O Espírito veio habitar neles, como Ele habita em nós, pois agora nenhum cristão tem a experiência dos primeiros versículos de Atos 2. Isto demonstra que a experiência dos três mil no término do capítulo é o normal, e destaca a singularidade e finalidade dos primeiros versículos. Os três mil, porém, foram associados com a companhia original batizada no Corpo de Cristo. Foi assim conosco, quando nos convertemos. Entramos nos benefícios do derramamento do Espírito Santo feito uma vez por todas. Esta associação com a experiência de uma companhia original é bíblica. Na história de Israel, citada no capítulo 10, observamos que "todos foram batizados em Moisés ... e todos ... beberam duma mesma bebida espiritual". Este batismo foi coletivo e nacional e nunca foi repetido; também foi posicional e algo realizado por Deus, do qual não estavam cônscios. Em contraste com isto, o beber foi individual; foi algo que fizeram por si mesmos. Qualquer pessoa que nasceu mais tarde não teve a experiência inicial do batismo, mas bebeu da água. Assim foram associados com a experiência dos primeiros.Portanto o batismo na nuvem é uma ilustração do batismo no Espírito, enquanto o beber da bebida espiritual corresponde ao beber de um Espírito. Em Amós 2:10, Deus falou à geração de que Amós fazia parte: "Também vos fiz subir da terra do Egito, e quarenta anos vos guiei no deserto, para que possuísseis a terra do amorreu". Porém, esta geração nunca tinha estado no Egito, nem no deserto, nem fora conduzida na terra. É verdade, mas estavam associados com os que tinham passado por tudo isso, os primeiros. O que foi verdade com respeito a eles, foi verdadeiro com respeito à geração de Amós também. Assim nós temos entrado na realidade daquilo que aconteceu em Pentecostes. Lemos em João 1:29 acerca do "Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo". Isto antecipou o Calvário. Em João 1:33 diz-se a respeito de Cristo: "esse é O que batiza no Espírito Santo". Isto antecipou o dia de Pentecostes. Assim como nós entramos no benefício do Calvário na ocasião da nossa conversão, assim também entramos no benefício de Pentecostes. Se não há nenhum problema com respeito ao primeiro, onde está a dificuldade quanto ao segundo? Além disso, quando Adão caiu, a raça inteira caiu com ele; quando nós nascemos, entramos nos efeitos da Queda. Assim Cristo batizou a Igreja inteira em um Corpo; quando nós nascemos de novo, entramos em todos os benefícios deste ato. A Igreja inteira estava lá em prospecto, vista como um só Corpo, e habitada pelo Espírito Santo.O ensino dos pentecostais sustenta que o Batizador, aqui, seria o Espírito Santo, pois consideram este versículo diferente das outras seis referências citadas anteriormente, onde se afirma que Cristo é o Batizador. Ensinam que, neste versículo, todos são batizados pelo Espírito em um corpo, mas nem todos têm sido batizados com o Espírito Santo. Se as outras seis referências indicam claramente que Cristo é o Batizador, normalmente se entenderia que na sétima, seria Q mesmo. Cabe aos que pensam de outra maneira mostrar as provas.Mas, pensando nisso com atenção, eles verão que o Espírito não pode ser o Batizador. Em qualquer batismo quatro coisas são necessárias.Tem que haver um batizador, a pessoa sendo batizada, o elemento em que o batismo se realiza, e a razão pelo batismo. Ora, neste versículo (v. 13) o Batizador é Cristo, os batizados são todos os cristãos, o elemento é o Espírito Santo, e a razão se resume na expressão "formando um Corpo". Se afirmarem que o Espírito, e não Cristo, é o Batizador, então o elemento é removido. Mas não é possível realizar um batismo sem um elemento. Portanto, essa teoria tem que ser rejeitada.Este versículo afirma também que todos os cristãos têm sido batizados no Espírito, o que contradiz o ensino deles, que diz que apenas alguns cristãos têm-no recebido. Além disso, todos são unidos por este batismo em um corpo, enquanto que o ensino deles divide os cristãos em dois grupos, os que têm experimentado o batismo e os que não o têm. Finalmente, "e todos temos bebido de um Espírito" se refere à recepção do Espírito, na conversão.Gramaticamente, a presença de dois verbos aoristos no mesmo versículo não exige, necessariamente, que se refiram ao mesmo acontecimento."E" introduz uma nova declaração, que ajuda-nos a entender como entramos nos benefícios das declarações anteriores. F. L. Godet comenta isto na sua exposição: "Kai, 'e', indica um fato novo. Se a segunda proposição somente servisse para reafirmar, de outra forma, a idéia da primeira, haveria um assíndeto". Paulo está olhando para traz, como nós também devemos fazer; e é por esta razão que ambos os verbos, "fomos batizados" e "temos bebido", são aoristos (no grego). Referem-se à mesma verdade, mas em tempos diferentes. Em primeiro lugar, "fomos batizados" destaca o que aconteceu no dia de Pentecostes; em segundo lugar, "temos bebido" destaca o que aconteceu na ocasião de nossa conversão, quando entramos na realidade disto. O versículo inteiro ensina que o que aconteceu em Pentecostes foi realizado na nossa conversão, e foi a experiência dos três mil, como temos observado. Esta também foi a experiência de Comélio e sua família. Ao falar disto, em Atos 11:15-16, Pedro se refere a este aspecto da recepção do Espírito.


14-16. Agora chegamos à parte muito prática onde, pela ilustração do corpo humano, ele mostra o absurdo de divisão entre os cristãos numa igreja local (v. 27), pois estar em conflito uns com os outros destrói aquela unidade que é tão necessária para se manter o testemunho.


Vamos observar:

a) O Perigo de Inveja vs. 14-16

b) O Perigo de Monopólio vs. 17-20

c) O Perigo de Interdependência vs. 21-22

d) A Necessidade de Consideração Compassiva vs. 23-26

e) A aplicação e o Desafio v. 27


O V. 14 destaca a multiplicidade dos membros, e a necessidade de todos funcionarem. A variedade dos órgãos e a singularidade de função são a essência da vida. No v. 15, ouvimos o pé reclamando, ao considerar a mão, com inveja. Ocupando um lugar mais baixo do que qualquer outro membro, suportando o peso de todos os demais, e cônscio das condições desagradáveis ao seu redor enquanto trabalha despercebido, a maior parte do tempo, ele está cônscio da destreza da mão com seus movimentos hábeis, e sua capacidade de realizar tantas tarefas com habilidade. Estes pensamentos sobre sua sorte tão infeliz logo produzem insatisfação, e então o pé expressa sua inveja e descontentamento, por declarar que não é mais membro do corpo, e assim recusa trabalhar. No V. 16, o ouvido reclama; de formato feio, escondido no lado do rosto, também quase despercebido enquanto desempenha sua tarefa tão importante, ele observa o olho, colocado em lugar de destaque à frente; nota a versatilidade de suas funções, nota como transmite constantemente ao cérebro tudo que observa, notando sua alegria por ser a parte mais inteligente do rosto. O ouvido acha que sua função não é nada em comparação com a do olho, e assim resolve que ele também deixará de trabalhar. O ensino é claro. Os membros são variados, mas todos são necessários. A repetida pergunta dá ênfase à lição: "Não será por isso do corpo?" Mesmo se recusar trabalhar, ainda será uma parte do corpo. Algumas vezes, na vida de uma igreja local, somente percebemos a presença de inveja e descontentamento quando algum irmão deixa de participar na obra e adoração do Senhor. Quão petulantes e invejosos nos tomamos! Também, pode ser que um irmão fica consciente de que o seu dom não é tão óbvio, ou público, como o do outro, e assim ele começa a sentir que tem tão pouca importância que ninguém sentirá a sua falta. Eu tenho tão pouco a oferecer, por que me esforçar para participar? Vamos aprender esta importantíssima lição: recusar trabalhar não nos absolve da responsabilidade.Temos que contribuir com a nossa cota, e funcionar segundo a intenção divina.


17-20. Observamos, no V. 17, que se os membros adotarem esta atitude, seria como se fossem eliminados do corpo. Visto que nenhum membro tem o monopólio de função, nem pode adquirir as funções do outro, o corpo deixaria de ser um organismo complexo com uma variedade de funções, e se tomaria um corpo de um órgão só, que não poderia mais funcionar, segundo o plano. O v. 18 nos leva, em pensamento, dos membros para o Criador do corpo; a colocação dos membros foi conforme a sabedoria de Deus; cada um sendo perfeitamente adaptado e apropriadamente colocado para a sua distinta e única função. Portanto, se algum membro está insatisfeito com o seu dom, sua contenda não é com os outros membros mais dotados do que ele, mas com Deus que tem ordenado tudo segundo o Seu prazer. Se todos fossem um só membro, então não seria mais corpo, mas sim, uma monstruosidade. Isto certamente condenou as divisões em Corinto; eram contrárias à verdade do corpo.Também condena o princípio de clericalismo; isto é, um homem tomando para si uma variedade de funções. Expõe igualmente a loucura de um irmão apropriar para si as mais destacadas responsabilidades.Se o V. 14 salienta a multiplicidade e diversidade dos membros, então o v. 20 indica a diversidade em unidade. Variedade é essencial para a unidade.


21-22. Devemos observar que a analogia do corpo físico é usada nesta passagem toda, e as lições são baseadas na aplicação do V. 27. Antes de considerarmos o ensino, observamos que a "cabeça", aqui, é um membro comum do corpo; não representa o Senhor. O corpo, aqui, é apresentado de um ponto de vista diferente daquele que se apresenta em Efésios ou Colossenses; lá Cristo é contemplado como a Cabeça do Corpo; aqui, Cristo difunde a Sua vida pelo corpo. Como temos observado, o corpo, aqui, é um organismo, e não uma organização. Uma organização requer somente regras e regulamentos para operar, mas um organismo requer vida, que é a vida de Cristo.O perigo que estes versículos mostram é o desenvolvimento de uma atitude de superioridade e independência. Existe a tendência entre os que são mais dotados, de pensar que podem dispensar com os menos dotados. Isto é uma falácia, pois se o olho vê um objeto e deseja obtê-la, ele não pode fazê-la sozinho, mas depende da mão para ajudá-la. Também, se a cabeça deseja ir para outro lugar, depende inteiramente dos pés para realizar esta operação. Portanto, todo membro é necessário, e devemos aprender a apreciar os outros, especialmente aqueles que são muito menos importantes aos nosso olhos. Isto leva Paulo a referir-se aos órgãos que parecem ser mais fracos (v. 22). Agora ele está tratando da necessidade relativa dos vários membros, para a vida do corpo. O corpo poderia existir sem os membros maiores, como braços e pernas, mas não poderia existir sem os membros menores, intestinos ou glândulas. Uma igreja local continua a funcionar quando irmãos estão ausentes, exercendo seus dons (pregando, por exemplo) em outro lugar. Aqueles que frequentemente são considerados de somenos importância estão mantendo o testemunho da igreja local em andamento, demonstrando que são necessários, e mostrando quão valiosa é a sua contribuição.No seu próprio lugar são essenciais.


23-24a. Estes versículos tratam do revestimento do corpo. Aqueles membros do corpo que não devem ser vistos não são expostos à vergonha e ridículo, mas são vestidos com cuidado. "A esses honramos muito mais", quer dizer revestir de modo adequado. Nossos membros "menos honrosos" são os que nunca devem ser vistos em público. Estes nós vestimos com muito cuidado. Por outro lado, nossos membros "mais honestos" (ou "nobres" ARA), aquelas partes do corpo, como mãos e rosto, que podem ser vistos publicamente, não têm necessidade de roupa. Assim, adequadamente vestidos, aparecemos apresentáveis e atraentes. Vamos aplicar isto agora à igreja local. Quando os membros que podem ser vistos, publicamente, estiverem funcionando, desempenhando as responsabilidades de pregação, etc., e os membros que não são capacitados desta maneira estiverem realizando a sua obra, discretamente e fora da atenção do público, então a aparência inteira da igreja local será de ordem piedosa e beleza espiritual.


24b. Foi a sabedoria e habilidade criativa de Deus que planejou o corpo com seu equilíbrio delicado; aquele instinto (v. 23), que dá mais honra aos membros que em si não são atraentes, provém de Deus.


25-26. A maneira pela qual Deus planejou o corpo foi calculada a fim de produzir harmonia e não divisão, cuidado e não indiferença."Igual cuidado" indica que não há nenhuma parcialidade entre os membros; cada um tem a mesma preocupação, a mesma profundidade de cuidado, com o bem-estar de todos. Semelhantemente, não devemos ter predisposição em favor de alguns amigos especiais e somente mostrar este cuidado para com eles. Este cuidado se manifestará em nossa atitude perante os sofrimentos e honras de todos os membros. Todos nós temos experimentado, em nossos próprios corpos, o que significa quando todos os membros sofrem juntos com um membro ferido. Também, quando a mão executa uma obra de arte, a pessoa é quem recebe o louvor, tanto quanto a mão. É assim que deve acontecer conosco. Deve haver um forte sentimento de simpatia uns para com os outros, quando um ou outro dos membros está passando por tempos de dificuldade. A nossa comunhão deve ser caracterizada por carinho e por compartilhar. Do mesmo modo, quando um membro é honrado, e seu dom está se tomando mais aparente e útil, não sejamos invejosos, especialmente se ele é mais novo, mas vamos alegrar-nos por Deus ter assim honrado a ele e à congregação.


27. Agora chagamos à aplicação e desafio da passagem. Observe a ausência do artigo; deve ser traduzido: "vós sais corpo de Cristo" (VR), e não "o corpo"; mas também não é "um corpo", pois Cristo não tem uma multiplicidade de corpos. A ideia principal com respeito ao corpo é a de manifestação; veja I Tim. 3: 16. A ideia secundária na figura, para completá-la, é de unidade em diversidade.O termo "corpo de Cristo" quer dizer que a igreja local é a manifestação de Cristo para a comunidade. Esta é a sua responsabilidade principal. Isto quer dizer que cada membro deve estar vivendo Cristo na sua vida. A igreja local não tem a responsabilidade de representar qualquer denominação, mas sim, representar a Cristo. Ela é qualitativa e caracteristicamente o corpo de Cristo. É Cristo vivendo através do Seu povo, numa determinada localidade. Isto se expressa quando os diversos membros cooperam juntamente em unidade - sem nenhuma divisão, todos dedicados aos interesses do Senhor, e aos interesses uns dos outros. Como tudo isso deve ter tocado as consciências dos coríntios. Em última análise, todos nós somos responsáveis pelo tipo de igreja que mantemos.


A Colocação dos Dons (vs.28-31)


"E a uns pôs Deus na igreja, primeiramente apóstolos, em segundo lugar profetas, em terceiro doutores, depois milagres, depois dons de curar, socorros, governos, variedades de línguas.Porventura são todos apóstolos? são todos profetas? são todos doutores? são todos operadores de milagres? Têm todos o dom de curar? falam todos diversas línguas? interpretam todos?Portanto, procurai com zelo os melhores dons; e eu vos mostrarei um caminho ainda mais excelente."
Devemos reconhecer a soberania de Deus na expressão "pôs Deus", que também foi usada no v. 18. Nos vs. 29-30, Sua sabedoria em selecionar cada dom é enfatizada e confirmada, através de uma série de perguntas, das quais cada uma exige a resposta óbvia: "Não". Há três listas neste capítulo: a primeira nos vs. 8-10; a segunda no v. 28; e a terceira nos vs. 29-30. A segunda lista repete somente quatro dos nove dons da primeira lista, omitindo cinco e acrescentando quatro. A terceira lista não acrescenta nenhum outro dom, omitindo quatro da primeira lista, e dois da segunda. Podemos apresentar isto da seguinte maneira:

  1. Lista 1 - Profecia, Milagres, Dons de Cura, Línguas, Interpretação de Linguas, Palavra de Sabedoria, Palavra de Ciência, Fé, Discernimento dos espíritos.
  2. Lista 2 - Apóstolos, Profetas, Doutores, Milagres, Dons de Curar, Socorro, Governo, Línguas.
  3. Lista 3 - Apóstolos, Profetas, Doutores, Milagres, Dons de Curar, Línguas, Interpretação de Línguas.


Ao todo, treze dons são mencionados. Levando em consideração Rom. 12 e Ef. 4, há um total de, aproximadamente, vinte dons.


28. Paulo começa citando os dons segundo a sua ordem e valor, mencionando as pessoas nos primeiros três, e depois mencionando somente os dons. Devemos notar como o dom de línguas está em último lugar na Lista 2, e no final das Listas 1 e 3, junto com a interpretação de línguas. O fato de ser o menor e último é surpreendente, quando vemos a inundação de literatura sobre este dom, e a importância que ele tem em certos grupos. Agora vamos examinar a lista.Apóstolos: sem dúvida isto se refere aos Doze (com Matias tomando o lugar de Judas) e Paulo. Estes estavam em primeiro lugar com respeito a tempo, sua distinção sendo baseada no chamamento divino (veja 1:1), suplementado, no caso de Paulo, pelo fato dele ter visto o Senhor ressurrecto (9: 1; 15:8), e no caso dos Doze, pelo fato de terem acompanhado o Senhor, e sido testemunhas da Sua ressurreição (Atos 1:21-22). Não existem apóstolos hoje, pois não existe ninguém que pode cumprir estas condições. Convém enfatizar que o dom de apóstolo foi fundamental e incluiu a comunicação da revelação recebida de Deus. Neste ensino exerceram autoridade divina.Profetas: estes falavam por revelação direta, recebida de Deus no poder do Espírito de Deus, o qual era um dom essencial antes que o cânon das Escrituras fosse completo. Quanto à prioridade e distinção, estão ligados com os apóstolos. Outra vez, convém enfatizar que este dom não pode existir hoje.Doutores: estes homens foram especialmente dotados para expor, aos novos convertidos, os fundamentos doutrinários da nova fé, juntamente com suas consequências práticas.Milagres, Dons de Curar: veja e explanação destes dons no comentário sobre os vs. 8-10.Socorros: este dom parece abranger toda a ajuda liberal e prática que pode ser prestada quando uma necessidade for percebida.Paulo falou da necessidade de "auxiliar os enfermos" (Atos 20:35), e instruiu os cristãos: "que ... consoleis os de pouco ânimo, sustenteis os fracos" (I Tess. 5:14). Inclui ajudar os pobres e necessitados, à medida do possível, talvez providenciando concertos e a pintura de suas casas, bem como ajuda financeira e provisão de coisas materiais. Este dom abrange muitas coisas. Alguns ligam-no com o serviço geral dos diáconos. Este poderia ser chamado, corretamente, de o mais numeroso dos dons.Governos: a palavra parece se referir ao trabalho de um piloto ou timoneiro. O dom trata daqueles que têm a capacidade, dada por Deus, de guiar a igreja local através de tempos difíceis e situações cheias de perigo. Enquanto presbíteros não sejam mencionados nesta epístola, a palavra parece incluir os requerimentos administrativos deste grupo - homens dedicados para trabalhar em favor da unidade, saúde, prosperidade espiritual e bem-estar da igreja local.Diversidades de Línguas: temos falado sobre este dom no comentário sobre os vs. 8-10. Observe como "apóstolos" tem o primeiro lugar na lista, e "línguas" o último. Parece que a ordem dos dons havia sido invertida pelos coríntios.


29-30. Todas as sete perguntas exigem uma resposta negativa.Alguns sustentam que a evidência de ter sido batizado pelo Espírito é a capacidade de falar em línguas. Observe que o V. 13 afirma que todos foram batizados no Espírito, mas o V. 30 indica que nem todos falavam em línguas.


31. Por causa da ênfase dada à soberania de Deus na distribuição dos dons, e o fato deles serem ligados à atividade coletiva da igreja local, é possível que "procurai com zelo" seja um apelo a todos para desejarem intensamente que Deus levante homens que possuam os melhores, maiores, e mais úteis dons para a edificação da igreja. Porém, entender esta exortação como "procurai com zelo para vós mesmos" levaria a um resultado semelhante. Se todos desejarem (no sentido espiritual) um dom maior, como, por exemplo, o de profecia (14: 1), para o bem de todos, estarão livres da tendência de enaltecer os dons menores, mas mais espetaculares, como, por exemplo, o dom de línguas. Paulo então lhes apresenta o caminho sobremodo excelente. Não é que o amor seja mais excelente do que os dons, nem preferível aos dons, mas sim, que a motivação suprema para procurar e usar tais dons é o amor. Isto conduz à manifestação do Espírito, antecipada no v. 7.


Agora vamos apresentar as principais lições deste importantíssimo capítulo:
a) Observe a ênfase ao Senhorio de Cristo, no início deste capítulo.Sua autoridade como Senhor é suprema e reconhecida pelos cristãos, individualmente e na igreja local. É somente o poder do Espírito de Deus que pode nos capacitar a reconhecer e confessá-la.
b) Ao considerarmos as três listas de dons, vamos notar a riqueza do Doador, a plena provisão dos dons, e a responsabilidade daqueles que são dotados a exercer os mesmos, para o bem de todos.
c) Vamos ponderar profundamente na singular verdade do Corpo como revelada no NT, e na maravilha da graça que nos colocou nele.
d) Devemos compreender o princípio que forma a base da verdade do Corpo para ser praticado na igreja local, a saber, o de unidade em diversidade. Os membros são tão diversificados, mas demonstram tanta unidade orgânica.
e) Devemos reconhecer que cada membro da igreja local possui um dom, o qual deve ser usado para o bem de todos; não se pode retirar, nem dispensar de nenhum, como se não tivesse importância ou valor.
f) Vamos entender claramente que cada igreja local existe com a finalidade de testemunhar de Cristo à comunidade, e manifestar a Sua vida.
g) O reconhecimento da soberania divina e da sabedoria e riqueza do Doador divino deve humilhar-nos profundamente; se somos possuidores de, pelo menos, um destes dons, já nos tomamos objetos da escolha divina para abençoar os outros.


Jack Hunter

Extraído do Comentário Ritchie

Editora Edições Cristãs

8. A Supremacia do Amor - (1 Coríntios 13:1-13)


"Ainda que eu falasse as Línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse caridade, seria como o metal que soa ou como o sino que tine.E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse caridade, mada seria.

E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse caridade, nada disso me aproveitaria.

A caridade é sofredora, é benigna; a caridade não é invejosa; a caridade não trata com leviandade, não se ensoberbece, Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.

A caridade nunca falha; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá; Porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos; Mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado.

Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino.Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face: agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido.Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e a caridade, estas três, mas a maior destas é a caridade."



No capítulo 12 temos a doação dos dons, e sua relação uns aos outros. No capítulo 14 temos os dons em operação, mas aqui no capítulo 13 temos o ambiente em que eles devem operar. Em Corinto, parece que o amor estava tristemente em falta. Nenhum dom lhes faltava, mas faltava o elemento vital que é tão essencial ao funcionamento de tais dons. Como é agradável chegar a um capítulo como este depois de todas as carnalidades que temos considerado; é como um oásis no deserto. 


Considera-lo-emos da seguinte forma:
a) A Necessidade do Amor vs. 1-3;

b) As Qualidades do Amor vs. 4-7;

c) A Permanência do Amor vs. 8-13.


1. Ao apresentar a necessidade do amor no seu valor supremo, a ausência do qual somente produz um resultado negativo, Paulo se refere à esfera da Fala (v. 1), à esfera do Intelecto (v. 2), e à esfera de Devoção (v. 3). Neste versículo, ele imagina uma pessoa com a capacidade de falar línguas terrestres e celestes, "as línguas dos homens"sendo o comum, e "as línguas dos anjos" o extraordinário; porém, se exercitadas sem amor, tudo que se produz será somente barulho e um som vazio. Pouco, ou nada, sabemos a respeito da linguagem usada entre os anjos; somente sabemos que quando se comunicavam com os homens, usavam a língua que o ouvinte conhecia.Em Atos 26: 14, o Senhor ressurrecto falou ao apóstolo em Hebraico. A impressão geral aqui é de alguém falando muitas línguas com fluência e poder, e até atingindo uma eloquência sobrenatural; contudo, se o amor estiver ausente, não há nada de substância nem de valor duradouro. Que aqueles entre nós que passam muito do seu tempo pregando, possam aprender esta lição salutar: o amor pode proteger o uso do dom, e fazer com que ele seja um meio de bênção aos outros.


2. A pessoa vista aqui seria muito superior aos seus contemporâneos; seria considerada pelos outros como um gigante. 


Vamos notar as coisas mencionadas:
a) Profecia: Este dom foi notado em 12: 10, 28. A profecia vinha através de alguém que recebera uma mensagem de Deus, por revelação direta.
b) Mistérios: Alguns destes já foram mencionados na exposição de 4: 1. São segredos divinos que não foram revelados anteriormente, e que não podiam ser compreendidos, se Deus não os tivesse revelado.
c) Ciência: Este é o conhecimento, divinamente dado, para suprir a necessidade do momento. Veja 12:8.
d) Fé: Veja 12:9. Como já foi observado, esta não é a fé exercitada na conversão, nem na vida cotidiana. Refere-se à fé necessária para realizar milagres, até para transportar os montes.

Observe agora a repetição da expressão "e não tivesse amor".Sem esta qualidade a pessoa não é nada - é sem importância. Isto deve ter sido um tanto surpreendente aos coríntios, que davam muito importância à possessão de dons, mas que tinham muita falta do essencial. É muito difícil aprender esta lição. É tão difícil compreender como alguém tão dotado pode carecer de amor. Mas devemos aceitar este ensino com todo o seu peso e aplicação; é possível ser tão dotado, tão conhecedor, tão apreciado, tão aplaudido, mas ainda exercer esses dons sem amor; a pessoa que faz isto não é nada, e o ministério assim realizado é sem valor.


3. Agora chegamos aos atos que pensaríamos ser impossíveis de realizar sem amor. Temos dois atos de doação sacrificial. Que mais poderia alguém dar do que seus bens e a si próprio? Observe:"todos os meus bens" (ARA); isto abrange tudo, mas ainda falta o amor. Parece que, até certo ponto, Ananias e Safira foram culpados deste pecado.Em seguida, temos o sacrifício supremo, a entrega da vida em martírio. Passo a passo, Paulo nós leva a ver o lugar supremo que o amor deve ter em tudo que for feito em nome de Cristo. Nem mesmo o sacrifício da própria vida poderá ter proveito, ou reconhecimento, se for realizado sem amor. Sem dúvida, Paulo sentiu tudo isso ao escrever tais palavras, mas em Atos 21: 13 ele se declara "pronto ... ainda a morrer em Jerusalém pelo nome do Senhor Jesus". Estêvão e Tiago são exemplos daqueles que voluntariamente pagaram o preço de devoção e lealdade ao Senhor, seu sacrifício sendo caracterizado pelo amor.


4. Nos vs, 4-7, as qualidades do amor são apresentadas em toda a sua beleza, perfeição, poder e valor inestimável. Podemos ver descrito, aqui, o caráter de Deus e a vida de Cristo. O Cristianismo abre para nós um mundo inteiramente novo de experiência, uma oportunidade singular para demonstrar, em nossas vidas, o caminho mais excelente. Outros têm analisado esta passagem de várias maneiras, que nos ajudam muito, considerando-a de diversos pontos de vista, mas nós vamos simplesmente tomar cada qualidade e apresentar o seu ensino. O amor pode ser muito positivo em ação, mas passivo em reação. Que o Senhor nos ensine muitas lições. 


Observe que o amor é personificado e tem em vista a maneira como o cristão deve viver.
a) Sofredor: O amor manifesta auto-domínio diante de provocação, demora a ofender-se e não deseja retaliar; recusa tomar vingança e não perde a calma apesar da conduta dos outros.Está pronto a deixar que o outro aproveite dele. Sendo tardio em irar-se e em mostrar ressentimento, o amor, quando injuriado, não injuria (I Ped. 2:23).
b) Benigno: Se sofredor é passivo, benigno é ativo. Disposto a fazer o bem, mesmo àqueles que se opõe ou nos causam dano; é sempre ajudador, amigável, compassivo.
c) Não é invejoso: Esta qualidade evita o desejo de ter aquilo que pertence ao outro. Não inveja o sucesso dos outros. A alma que ama está contente com o que tem, e se alegra com a prosperidade do outro. Sempre dá honra ao outro, e nunca diminuiria o louvor que lhe é devido. Inveja é mencionada em 3:3 como evidência de carnal idade, e é ilustrada em 12: 15-16.
d) Não trata com leviandade: Ou, "não se vangloria" (Versão Revisada). Não deseja ganhar popularidade com os outros, nem parecer superior. O amor não se gaba, nem é jactancioso, nem ostensivo, nem convencido. O amor não coloca-se a si mesmo em primeiro lugar, nem superestima o seu próprio dom ou sucesso.É caracterizado por abnegação. Os coríntios cometeram o erro de exultar e gloriar-se nos seus próprios dons, havendo perdido de vista o fato de serem apenas receptores.
e) Não se ensoberbece: O amor não se caracteriza por orgulho, arrogância nem amor-próprio, nem fica inchado com sua própria importância. Paulo se refere constantemente ao fato dos coríntios estarem inchados (4:6, 18, 19; 5:2; 8:1) e, no caso deles, isto se manifestou quando se gloriavam contra Paulo, e mostravam indiferença ao mal.
f) Não se porta com indecência: Esta frase anula toda a conduta mal-educada, rude, ou insultante. O amor nunca tem motivo de sentir vergonha por causa de sua conduta. É caracterizado por cortesia, tato, e consideração dos outros. Graça e simpatia são suas qualidades distintas. Não convém que um cristão seja grosseiro e bruto.
g) Não busca os seus interesses: O amor não se preocupa em promover seus próprios interesses ou estabelecer seus próprios direitos; não atenta para o que é propriamente seu, mas também para o que é dos outros (Fil, 2:4). Abnegação, o sacrifício de si mesmo em buscar os interesses dos outros, é a ocupação do amor. Isto teria impedido que os coríntios processassem uns aos outros. Egoísmo é a raiz dos males da sociedade, como também de muitos dos problemas que surgem na vida da igreja local.
h) Não se irrita: Isto é o contrário de ser melindroso, pois o amor não se ofende facilmente. Suporta menosprezo e insultos, e não se entrega à ira que produz amargura, nem fica amargurado por linguagem ofensiva, injúrias, ou prejuízo. Nunca fica exasperado, preferindo antes abençoar aqueles que se opõe (Rom. 12: 14).
i) Não suspeita mal: pode ser traduzido: "não toma nota do mal". O amor não faz "contabilidade" dos erros dos outros para depois cobrá-los. Não dá lugar para ressentimento ou rancor, nem tempo para represálias "com juros". Não registra o mal, nem procura vingança. Estando inteiramente livre de malícia, o amor está sempre pronto a perdoar e esquecer-se de qualquer ofensa contra si mesmo. Devemos estar prontos para esquecer; sem isto não há perdão sincero.
j) Não folga com a injustiça: O amor não tem prazer nos erros dos outros; não se deleita com a queda do outro, nem tem prazer malicioso em ouvir aquilo que é pejorativo. Rodeado por um mundo de injustiça, nós, que temos amor, somos um povo que defende o que é justo. Pertencemos à comunhão dos puros.
k) Folga com a verdade: É claro que "verdade" aqui está em contraste com injustiça. O amor não somente regozija-se com a verdade do Evangelho, como também com aquilo que é verdadeiro e justo em contraste com injustiça. Num mundo falso e perverso, aqueles que são caracterizados pelo amor sempre defendem e representam aquilo que é reto, justo, e honesto.Somos contra toda espécie de corrupção em toda camada da sociedade.
l) Tudo sofre: "Sofre" tem o sentido de suportar o vitupério associado com a defesa da verdade. O amor está sempre pronto a sofrer por causa da justiça, suportando insultos, ou, se necessário, prejuízo. Nunca reclama por causa dos muitos sofrimentos, mas aguenta as aflições, varonilmente e sem reclamar.
m) Tudo crê: Isto não quer dizer que o amor seja ingênuo, ou aceita como verdade tudo que se fala, mas sim, que está sempre pronto a imputar os melhores motivos, e crer o melhor acerca dos outros; está sempre pronto a interpretar da melhor forma, e atribuir os melhores motivos. Isto está em grande contraste com um mundo que sempre está pronto a acreditar o pior.
n) Tudo espera: A esperança é um dos elementos básicos de nossa fé, e deve banir o pessimismo. A esperança nunca aceita uma falha como final. O amor continua esperando, sem se importar com o tamanho do desapontamento. Esta atitude é inspirada no Deus da esperança (Rom. 15:13).
o) Tudo suporta: O amor é caracterizado por firmeza, apesar das circunstâncias. É o espírito que persevera e conquista e triunfa.É a perseverança, não de uma resignação passiva, mas de um glorioso triunfo e coragem.


Devemos notar os negativos, nos vs. 4-6: o que o amor não é, e no V. 7, o que o amor é. Observe também que Paulo vê todas estas qualidades existindo, não num mundo ideal ou numa igreja perfeita, mas em meio de pressão, oposição, angústia e desapontamento. O amor sempre triunfa, e suas qualidades resplandecem em graças radiantes, comprovando sua superioridade a tudo ao seu redor.


Os últimos versículos (vs. 8-13) tratam da permanência do amor; vamos dividi-los em três partes:
a) Em Parte e Perfeito vs. 8-10

b) Ilustrações da Revelação Progressiva vs. 10-12

c) A Preeminência do Amor V. 13

É importante observar que o V. 8 menciona apenas três dons, o V. 9 apenas dois, e que no V. 10, "o que é perfeito" está em contraste com os dois dons do V. 9. 

Devemos observar também que no V. 8 a ARC traduz a mesma palavra grega (katargeo) por duas palavras diferentes "serão aniquiladas" e "desaparecerá". Convém dizer também que nossa exposição destes versículos será diferente da interpretação de muitos eruditos e ensinadores cuja ajuda tem sido valiosa enquanto temos procurado expor esta epístola. Não devemos deixar esta diferença de opinião sobre a interpretação de "o que é perfeito" causar divisão. De acordo com o ensino dos versículos anteriores, amor e cortesia devem caracterizar nossa atitude para com aqueles que têm genuínas dificuldades em aceitar aquilo que será apresentado aqui. Convém dizer que a prova da cessação dos dons de sinal não depende da interpretação de I Coríntios 13, como Ef. 2:20 e Heb. 2:3-4 demonstram.


8. Este versículo diz que o amor nunca há de falhar, nunca deixará de ser ativo ou manifesto. Isto está em contraste com os três dons mencionados: profecias, línguas, e ciência. Vamos diferenciá-los novamente:
Profecias: proclamando a mensagem de Deus, recebida por revelação direta.
Línguas: o dom de falar um idioma que não é a língua materna daquele que fala.
Ciência: conhecimento dado diretamente por Deus para suprir uma determinada necessidade naquele tempo, até que as Escrituras fossem completas. É conhecimento recebido por revelação, e não conhecimento adquirido por estudo.
Ao comentarmos 12:8-10 acima, foi observado que a palavra heteros, que quer dizer "outro de espécie diferente", ocorre entre o segundo e terceiro dom, e entre o sétimo e oitavo, dividindo assim a lista em três grupos. Observe que aqui um dom é tomado de cada grupo para dar-nos os três dons mencionados acima: "profecias" do segundo grupo, "língua" do terceiro grupo, e "ciência" do primeiro grupo. O fato destes três não terem, como veremos, o propósito de ser permanentes, indica que os outros dons, nos três grupos, também cessariam.Agora precisamos notar como profecias e ciência "desaparecerão" (VB). Este verbo "desaparecer" é katargeo, e quer dizer tirar de serviço, tomar inativo, reduzir à inatividade, tornar sem efeito, abolir, anular. É uma palavra com um significado muito forte, e indica uma cessação completa, sem a possibilidade de revocação. A voz é passiva, indicando que foram abolidos por um poder fora de si mesmos; isto é, logicamente, pela mesma autoridade que os deu, a saber, o Espírito Santo (veja o capítulo 12). A cessação não foi temporária, mas sim permanente. Em contraste com estes, porém, vemos que línguas "cessarão". "Cessarão" (pausontai) está na voz média, indicando que cessariam espontaneamente, "ficarão quietas". Devemos notar esta declaração geral, pois não se repete. É declarada claramente, e deixada assim.Novamente, vemos que estes dons não eram permanentes, de sorte que tanto a profecia, que era para os cristãos, como as línguas, que eram para os descrentes (veja 14:22), e a ciência, que era comunicada a certas pessoas escolhidas, todos acabariam.


9. Como já foi dito anteriormente, os dons agora são apenas dois. A profecia, que compreende a recepção e proclamação da verdade revelada, e a ciência, que compreende a revelação da mente de Deus, são parciais, em contraste com aquilo que é completo. O versículo seguinte repete o que foi dito no v. 8, que estes dons "desaparecerão", e diz-nos quando isto aconteceria. Deve ter ficado claro que o assunto é revelação divina, e se relaciona com a terra e não com o céu.


10. "O que é perfeito" se refere à conclusão daquilo que mais tarde ficou reconhecido como o cânon das Escrituras. Quando o último livro do NT foi escrito, a revelação ficou completa. Não há necessidade de introduzir a idéia do céu. Afinal, não é necessário informar-nos que os dons cessarão ao chegarmos lá. Isto é óbvio demais. W. Hoste, em Bible Problems and Answers, pág. 332, comenta:"Não é necessário provar que estes dons serão supérfluos lá no céu. Se você encontrasse um amigo carregando uma lamparina através de uma rua suburbana escura, e lhe dissesse solenemente que, quando o sol nascesse, ele não precisaria mais da sua lamparina, ele pensaria que você só falava banalidades; mas se você lhe dissesse: 'Você não vai precisar mais desta lamparina quando a companhia elétrica terminar o seu projeto na localidade', isto seria compreensível e digno de atenção". Assim também, por que mencionar estes dois dons separadamente de todos os outros dons que , hão de cessar quando chegarmos ao céu? Estes dons são mencionados porque eram dons de revelação, através dos quais Deus revelou a Sua mente até que as Escrituras fossem completas. Escrevendo sobre as duas expressões, ek merous ("em parte") e teleion ("perfeito"), G. B. Weaver salienta o seguinte: "Logicamente to teleion tem que referir-se a algo completo ou perfeito na mesma esfera daquela a que se refere a expressão ek merous. Já que to ek merous se refere à transmissão da verdade divina através de revelação, o outro termo, teleion, deve se referir à revelação completa da verdade de Deus, o Novo Testamento inteiro (juntamente, é claro, com o livro que forma o seu fundamento, o Velho Testamento)".Mais uma coisa: se profecia e ciência continuam até a vinda do Senhor, então a Bíblia ainda está sendo escrita. Esta é a posição do movimento carismático. Os reformadores salvaram o cristianismo de erros extra-bíblicos com o clamor: "Sola Scriptura", que quer dizer:"Somente as Escrituras". Agora destes, e de outros, vem o clamor: "As Escrituras mais a nova revelação de Deus". Que Deus nos preserve.É importante notar que, se os dons mencionados como "em parte" continuam, então há uma contínua revelação divina. De fato, os carismáticos insistem numa contínua revelação contemporânea. J. Rodman Williams, no seu livro The Era of the Spirit, diz: "A Bíblia realmente tomou-se co-testemunha da presente atividade de Deus ...Hoje, se alguém tem talvez uma visão de Deus e de Cristo, é bom saber que isso já aconteceu antes ... Se alguém disser: 'Assim diz o Senhor', e se atreve a dirigir-se à congregação usando a primeira pessoa - indo até além das palavras das Escrituras - é isso que aconteceu na antigüidade ... O Espírito, como o Deus vivo, move através e além dos registros do testemunho passado, por mais valiosos que sejam tais registros, como um modelo para o que acontece hoje ... Na profecia Deus fala ... De fato a fala pode ser até rude e gramaticamente incorreta; pode ser uma mistura de linguagem antiga e moderna: pode gaguejar ou fluir - realmente isto não tem importância ... A maioria de nós, é claro, estamos familiarizados com discursos proféticos como os que são registrados na Bíblia, e prontos para aceitá-los como a palavra de Deus. Estávamos acostumados com o 'assim diz o Senhor' de Isaías ou Jeremias, mas ouvir um João ou uma Maria hoje, no século vinte, falar do mesmo jeito ... ! Muitos de nós havíamos convencido a nós mesmos que profecias tinham terminado com a chegada do Novo Testamento (apesar de toda a evidência neo-testamentária que diz o contrário), até que, de repente, através do impulso dinâmico do Espírito Santo, a profecia reviveu. Agora gostaríamos de saber como pudemos ter interpretado maio Novo Testamento durante tanto tempo!" Esta citação, enquanto surpreendente, apresenta plenamente o ponto de vista do movimento carismático.


Observe certas coisas nessa declaração:
a) A afirmação de que a Bíblia é co-testemunha com a presente revelação em profecia.
b) Diz-se que é possível alguém apresentar o que tem a dizer, hoje, como sendo uma revelação nova, usando a expressão: "Assim diz o Senhor".
c) O autor insiste que é permissível usar a primeira pessoa. Isto significa que se pode dizer: "Eu, porém, vos digo", e ir além das Escrituras, acrescentando alguma coisa à revelação já existente.
d) Ele diz que o Espírito vai além dos registros de testemunhas passadas, isto é, além dos testemunhos do VT e do NT.
e) Ele considera que qualquer João ou Maria, hoje, podem profetizar com autoridade igual à de Isaías, Jeremias, Pedro e Paulo.


Fica perfeitamente claro que, uma vez que aceitamos a ideia de que o que é "em parte" ainda continua, a evidência da autoridade final das Escrituras fica enfraquecida, e qualquer João ou Maria pode dizer ter revelação divina com autoridade igual à do VT e NT.Que sejamos avisados, e que falemos, constantemente, do perigo de tal ensino; todas as suas implicações são realmente assustadoras.


11. Aqui e no V. 12 temos duas ilustrações. A primeira trata do crescimento da infância à maturidade, do parcial ao completo, não do imperfeito ao perfeito. Levou tempo, e foi progressivo, à medida que as Escrituras chegavam à conclusão. Maturidade é o fim do processo natural; aqui, o resultado é a Escritura completa. 

Outras Escrituras confirmam o uso da palavra "menino" como referindo-se a um estado imaturo. Heb. 5: 11-14, fala de cristãos hebreus que haviam deixado de progredir e estavam inclinados a apegar-se à Lei. O escritor repreende-os e deseja que sejam homens maduros.Em vez de serem negligentes para ouvir (v. 11), na fase de alunos (v. 12), alimentados com mamadeira (v. 13), deveriam progredir para se tomarem mestres, alimentando-se de alimento sólido, e sendo caracterizados por percepção espiritual e discernimento. 

Em I Cor. 3: 1-3 ele expõe aos coríntios a sua condição pouco desenvolvida.

Ainda eram meninos, com o crescimento interrompido, atrasados quanto ao desenvolvimento, não espirituais. Em Ef. 4: 13-15, o apóstolo almeja ver os santos em Éfeso deixarem de ser meninos (para que não sejam expostos à exploração dos falsos mestres) e chegarem à maturidade. Assim também, aqui, o desenvolvimento de "menino" para "homem" se apresenta para demonstrar a revelação de Deus avançando até a conclusão.


12. Temos agora a segunda ilustração da mesma verdade do V. 11.Não tem nada a ver com o céu, embora possamos aplicá-Ia desta maneira. O espelho é aquela parte da palavra de Deus que tinha sido revelada até o tempo quando o apóstolo escreveu. O único outro uso da palavra é em Tiago 1:23, onde também significa a palavra de Deus. "Em enigma" significa uma coisa complicada, que precisa de mais esclarecimento; algo precisa ser acrescentado para explicar o seu significado. Corresponde, perfeitamente, com a ideia do estado parcial da revelação no tempo quando estes dons estavam operando, esperando a revelação plena da Bíblia completa. "Face a face" é a plena e clara revelação das Escrituras. Vamos deixar a palavra de Deus confirmar esta interpretação. Em Núm. 12, Deus defende Moisés dizendo que com os outros a revelação foi através de uma visão ou sonho (correspondendo ao parcial), mas que com Moisés foi "boca a boca" (correspondendo a "face a face"). É muito interessante observar a semelhança entre as expressões em Núm. 12 e nesta passagem.Muitos se opõe a esta interpretação, dizendo que estamos afirmando ter um conhecimento maior do que o conhecimento de Paulo. Mas não é assim. Os apóstolos tinham todo o conhecimento que era necessário para aquele tempo. "Conheço em parte" volta aos vs. 9-10. Paulo estava cônscio da revelação parcial, e estava profundamente cônscio que Deus estava constantemente revelando verdades novas. Conhecimento mais completo é a revelação progressiva das Escrituras. Não há nenhuma questão do conhecimento dele, ou nosso, chegar a ser igual ao conhecimento de Deus. "Então conhecerei" significa chegar à revelação final de Deus, como revelado nas Escrituras, cônscio de que Deus sempre nos conheceu perfeitamente.


13. "Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor", quando todos os dons tiverem desaparecido. A expressão "Agora, pois" (nunide), é temporal e lógica. Paulo está contrastando a natureza temporária dos dons mencionados no v. 9 com a permanência da fé, esperança e amor. Estes são três dos elementos essenciais do cristianismo.Então, ele afirma que o maior destes é o amor. A fé permanece na excelência de sua função, e a esperança na clareza de sua visão, mas o amor excede a todos, no seu valor superlativo. Não é que o amor excede à fé e à esperança em duração, mas sim, que as excede em importância, agora, como a verdadeira essência do cristianismo, pois "o amor é de Deus" (I João 4:7) e "Deus é amor" (I João 4:8). A questão de alguma ou todas estas graças continuarem na eternidade não aparece neste versículo.


Vamos agora ajuntar algumas das lições apresentadas neste capítulo:
a) A excelência do amor em todo o seu inestimável valor e necessidade, e a terrível perspectiva da sua ausência.
b) A futilidade de oratória (v. 1), de amplo conhecimento (v. 2), e de ofertas sacrificiais (v. 3), se não houver amor.
c) A riqueza das variadas excelências do amor, cuja presença tanto enriquecerá as nossas vidas.
d) As excelentes qualidades do amor nos seus valores positivos e negativos.
e) As afirmações positivas acerca do amor excluem as funções negativas, e as afirmações negativas garantem a presença das funções positivas.
f) Observe que, em contraste com a permanência do amor (v. 8), certos dons cessarão, serão retirados, tendo realizado aquilo para o que existiram.
g) Note a importância do tempo na revelação progressiva de Deus, quando as Escrituras foram completadas. Este foi um marco importante (Quando os dons de sinal cessaram. N do R).


Jack Hunter

Extraído do Comentário Ritchie

Editora Edições Cristãs

9. A Superioridade da Profecia - (Coríntios 14:1-25)


"Segui a amor, e procurai com zelo os dons espirituais, mas principalmente o de profetizar. Porque o que fala língua estranha não fala aos homens, senão a Deus; porque ninguém o entende, e em espírito fala de mistérios. Mas o que profetiza fala aos homens para edificação, exortação e consolação.

O que fala língua estranha edifica-se a si mesmo, mas o que profetiza edifica a igreja.E eu quero que todos vós faleis línguas estranhas, mas muito mais que profetizeis, porque o que profetiza é maior do que o que fala línguas estranhas, a não ser que também interprete para que a igreja receba edificação.

E agora, irmãos, se eu for ter convosco falando línguas estranhas, que vos aproveitaria, se vos não falasse ou por meio da revelação, ou da ciência, ou da profecia, ou da doutrina? Da mesma sorte, se as coisas inanimadas, que fazem som, seja flauta, seja cítara, não formarem sons distintos, como se conhecerá o que se toca com a flauta ou com a cítara? Porque, se a trombeta der sonido incerto, quem se preparará para a batalha? Assim também vós, se com a língua não pronunciardes palavras bem inteligíveis, como se entenderá o que se diz? porque estareis como que falando ao ar.

Há, por exemplo, tanta espécie de vozes no mundo, e nenhuma delas é sem significação.

Mas, se eu ignorar o sentido da voz, serei bárbaro para aquele a quem falo, e o que fala será bárbaro para mim.Assim também vós, como desejais dons espirituais, procurai abundar neles, para edificação da igreja. Pelo que, o que fala língua estranha, ore para que a possa interpretar.

Porque, se eu orar em língua estranha, o meu espírito ora bem, mas o meu entendimento fica sem fruto. Que farei pois? 

Orarei com o espírito, mas também orarei com o entendimento; cantarei com o espírito, mas também cantarei com o entendimento.Doutra maneira, se tu bendisseres com o espírito, como dirá o que ocupa o lugar de indouto, o Amém, sobre atua ação de graças, visto que não sabe o que dizes?Porque realmente tu dás bem as graças, mas o outro não é edificado.Dou graças ao meu Deus, porque falo mais línguas do que vós todos.

Todavia, eu antes quero falar na igreja cinco palavras na minha própria inteligência, para que possa também instruir os outros, do que dez mil palavras em língua desconhecida.Irmãos, não sejais meninos no entendimento, mas sede meninos na malícia, e, adultos no entendimento.

Está escrito na lei: Por gente doutras línguas, e por outros lábios, falarei a este povo; e ainda assim me não ouvirão, diz o Senhor.De sorte que as línguas são um sinal, não para os fiéis, mas para os infiéis; e a profecia não é sinal para os infiéis, mas para os fiéis.

Se, pois toda a igreja se congregar num lugar, e todos falarem línguas estranhas, e entrarem indoutos ou infiéis, não dirão porventura que estais loucos?Mas, se todos profetizarem, e algum indouto ou infiel entrar, de todos é convencido, de todos é julgado.Os segredos do seu coração ficarão manifestos, e assim, lançando-se sobre o seu rosto, adorará a Deus, publicando que Deus está verdadeiramente entre vós."


Nesta seção (vs, 1-25), Paulo está mostrando o contraste entre línguas e profecia, e estabelece claramente que o dom de profecia deve ser preferido e procurado, pois é mais produtivo. Havendo colocado o dom de línguas em último lugar nas listas dos dons (12:28-30), e mostrado o prejuízo que pode causar se não for interpretado, agora, nas palavras de H. Chadwick, ele "vai dar uma ducha de água gelada sobre toda esta prática". 

É extremamente estranho que os pentecostais e carismáticos não têm percebido isto, e ainda elevam este dom a um lugar de supremacia nos seus pensamentos e conduta. (Fica claro que o que dizem ser o dom, isto é, falar em êxtase, fazendo sons que mais parecem o barulho dos animais de uma fazenda (como J. M. Davies o descreve), sem qualquer vocabulário distinto, sem características gramaticais, e com poucos sons vocálicos, não tem nada a ver com o dom dos dias primitivos.)

Também convém afirmar que o dom de profecia era um dom fundamental (Ef. 2:20); um irmão falava por revelação direta, o que não acontece hoje. Alguns tentam ensinar-nos que este dom é permanente, e o comparam com a pregação, ensino expositivo, ou com uma palavra do Senhor, inspirada pelo Seu Espírito. Isto não pode ser sustentado pelas Escrituras. Hoje, falamos através das Escrituras já completas; não existe revelação direta. 


Vamos dividir esta seção em três partes:
a) O Teste quanto a Edificação vs. 1-5

b) O Teste quanto a Inteligibilidade vs. 6-12

c) O Teste quanto ao Proveito vs. 13-25


1-2. Nestes versículos, o apóstolo os exorta a procurar, ardentemente, o amor com todas as suas excelentes virtudes, e juntamente com isto desejar dons espirituais, mas especialmente o de profetizar.Em seguida, ele começa a contrastar línguas e profecia, e apresenta as suas razões pela escolha de profecia como o dom superior. O dom de línguas era somente para com Deus (quando não houvesse interpretação), mas o dom de profecia era para a edificação da igreja, era dirigida ao homem. 

No V. 2, ele destaca que alguém falando em língua estrangeira não é entendido pelos ouvintes, somente Deus o entende. A razão por não ser entendido não se encontra no conteúdo da mensagem, mas no meio de comunicação da mensagem; ele usava uma língua que ninguém entendia, pois não há nenhuma menção de um intérprete. Ele poderia estar expressando mistérios, isto é, verdades que antes não foram reveladas, e que agora estavam sendo reveladas por Deus, mas ninguém o entenderia. 

Observe que esta pessoa falava com Deus, sugerindo uma fala coerente e não sons ininteligíveis. Ele entendia o que estava falando. Isto é muito importante, e dá apoio àquilo que vamos falar mais tarde sobre inteligibilidade. Os carismáticos, e outros, geralmente supõem que aquele que falava não entendia oque dizia.


3-4. Em contraste com o que dissemos acima, Paulo mostra, agora, que o profeta fala "aos homens" (compare com "a Deus", no v. 2) para edificação, exortação e consolação. Edificar significa informar a mente e fortalecer a alma; tanto ilumina quanto capacita.Exortar quer dizer encorajar, animar, estimular, incentivar para mais esforço e devoção. Consolar quer dizer ajudar, socorrer, apoiar em meio às tempestades da vida, chegar ao lado e falar palavras de conforto e ternura, trazer uma palavra para elevar o espírito e encorajar a alma. Este deve ser o resultado de todo o ministério público. Paulo indica, no v. 4, que aquele que falava em línguas edificava-se a si mesmo. 

Isto quer dizer que ele entendia o que falava.Aquilo que não pode ser entendido não pode edificar.

Observe que o profeta edificava a igreja. O grau de edificação resultante do uso de cada dom está no fato de que aquele que falava em línguas edificava uma só pessoa, a si mesmo, enquanto que o profeta edificava a muitos, a igreja inteira. Permita-me salientar, mais uma vez, que aquele que falava em línguas tinha que entender o que falava para ser edificado. Se pudesse ser edificado sem entender, a igreja toda poderia ser edificada do mesmo modo. Havia um certo egoísmo no exercício de um dom que somente edificava aquele que falava, e o amor "não busca os seus interesses" (13:5). 

Neste uso egoísta dos dons é que estava o abuso. Não tendo ninguém que entendesse a sua língua, ele poderia ter edificado a todos usando a sua língua materna.

5. Paulo se apressa a lhes assegurar que ele não queria que deixassem de usar o dom de línguas. Ficaria feliz se todos possuíssem este dom, mas preferiria que profetizassem. A profecia era superior, porque o proveito da igreja era maior. Uma maneira de compensar a limitação das línguas era para aqueles que falavam línguas ter a capacidade de interpretá-las. Isto indica que uma só pessoa poderia possuir ambos os dons. 

O v. 13 supõe a mesma situação, enquanto que o v. 28 mostra a possibilidade daquele que falava em línguas não possuir o dom de interpretação. Se a mensagem fosse interpretada, ela então assumiria o caráter de profecia, e a igreja era edificada.O fato da interpretação edificar a igreja indica que a mensagem era importante e proveitosa, e não meramente um amontoado de sons.

Os vs. 6-12 salientam a importância de comunicação inteligente e distinta para garantir a compreensão. 

Isto se vê ao notarmos certas expressões usadas nesta passagem: 

"que vos aproveitaria?" (v. 6); 

"como se conhecerá?" (v. 7); 

"quem se preparará?" (v. 8); 

"como se entenderá?" (v. 9); 

"nenhuma delas é sem significação" (v. 10); 

"se eu ignorar o sentido" (v. 11). 

Inteligibilidade é o que se espera daquele que fala (v. 6); 

de instrumentos musicais (vs. 7-9); 

de línguas (vs. 10-11); 

depois, segue-se a exortação (v. 12).

6. Aqui, o apóstolo contrasta a inutilidade do dom de línguas com o grande proveito de revelação, conhecimento, profecia, ou doutrina.Novamente, o contraste está entre falar em outras línguas e falar na sua própria língua. 

De acordo com o v. 30, revelação e profecia estão ligadas; a primeira é interior e a segunda é a expressão externa.O profeta tem que ter uma revelação. Da mesma forma, conhecimento e ensino (doutrina) estão ligados, pois o primeiro é necessário para o segundo. Mas a questão de suma importância é: "que vos aproveitaria?" Este é o alvo de todo o falar.

7-9. Três instrumentos são mencionados para esclarecer a necessidade de distinção nos sons: a flauta, a cítara, e a trombeta. 

O v. 7 indica que estes dois instrumentos (flauta e cítara) eram bem-conhecidos; a flauta representa os instrumentos de sopro, e a cítara instrumentos de corda. Mas estes, a fim de apresentarem um som distinto, estavam sujeitos às leis de som, ritmo e tom, para poderem produzir um som claro, ou uma melodia, que todos pudessem apreciar. Paulo está enfatizando que sem interpretação, as línguas são sons ininteligíveis, sem proveito aos ouvintes. No caso da trombeta, a clareza do som era vital, no exército; se não fosse, tudo seria confuso (veja Núm. 10:1-10). 

Agora, o V. 9 aplica estes princípios ao ato de falar na igreja local. A "língua", aqui, é a língua humana.Sua ligação com inteligibilidade é clara. Um discurso deve ser caracterizado por simplicidade, clareza, e linguagem que pode ser entendida.Se as palavras que se falam não são inteligíveis, seria o mesmo que falar "ao ar"; seriam palavras que nunca alcançariam as mentes e corações dos ouvintes; seria como se não houvesse ouvintes.Que todos os irmãos que falam em público possam aprender esta importante lição.


10-11. A terceira ilustração é a existência de muitas línguas no mundo; cada uma tem suas próprias qualidades. Não existe língua sem palavras distintas. No v. 11, Paulo imagina alguém falando numa língua estrangeira - para ele é só uma voz. 

Tudo é incompreensível à sua mente. O "bárbaro" seria um estrangeiro que não falava grego. É claro que, para o bárbaro, a língua grega era igualmente ininteligível. Qualquer um que viaja ao exterior já teve esta experiência. 

Quando alguém falava em línguas, levantava uma barreira, impossibilitando a comunhão. "Sentido", aqui, é literalmente "poder". O poder da fala se encontra na sua inteligibilidade.


12. Paulo agora os exorta, lembrando-lhes do seu zelo em procurar dons espirituais. A palavra "espiritual", aqui, é diferente daquela em 12:1 e 14:1. J. N. Darby a traduz "espírito"; mas o sentido parece ser dons ou manifestações espirituais. 

Ele exorta-os a direcionar o seu zelo na edificação da igreja. Edificar os outros era a coisa mais importante. Paulo volta constantemente a este tema supremo pois, em comparação, tudo toma um lugar secundário.
Os próximos treze versículos (vs. 13-25) destacam o que é proveitoso.É extremamente importante observar que nesta passagem o apóstolo está tratando do dom de línguas em operação, mas sem interpretação.Nenhuma interpretação foi necessária em Atos 2, porque os ouvintes podiam entender as línguas. A utilidade do dom dependia, inteiramente, da sua interpretação, quer seja por aquele que falava, quer seja por outro. 


Vamos considerar estes versículos sob três aspectos:
a) Do ponto de vista daquele que fala vs. 13-15;

b) Do ponto de vista da igreja vs. 16-19;

c) Do ponto de vista do visitante vs. 20-25.


13. Paulo encoraja o irmão que tem o dom de línguas a orar pelo dom de interpretação. O exercício do dom sozinho era muito limitado quanto ao seu valor, e de nenhum proveito aos ouvintes.Exercer o dom de línguas era falar uma língua estrangeira, mas interpretar era traduzir a mensagem com explanação no vernáculo, na língua que todos entendiam. Esta é a premissa básica sobre a qual ele vai construir o seu argumento.


14. Agora ele exemplifica o que vai acontecer quando não há intérprete."Porque" estabelece a ligação; esta é a razão pela qual ele deve orar pela capacidade de interpretar. Se não há interpretação, o espírito ora, mas o entendimento fica infrutífero, significando que não há nenhum proveito para o ouvinte. "Se eu orar em língua estranha" é o exercício do dom; "o meu espírito ora", se refere ao seu próprio espírito sob a influência do Espírito de Deus. "Meu entendimento fica sem fruto" não significa que a sua mente não está envolvida, ou que fica de lado. Tal conclusão incrível é impossível, especialmente depois de toda a ênfase que se deu no versículo anterior à inteligibilidade. 

Paulo não diz que a mente não está envolvida; o que ele realmente diz é que o entendimento fica infrutífero - infrutífero, embora envolvido. Nenhum fruto se produz no ouvinte. 

O contexto dá apoio a esta interpretação: 

"procurai abundar neles, para edificação da igreja" (v. 12); 

"não sabe o que dizes" (v. 16); 

"o outro não é edificado" (v. 17). 

O propósito total do dom é alcançado quando o ouvinte ouve, e tira proveito, da interpretação.


15-16. Estes versículos consideram o dom de línguas usado em orar, cantar, e abençoar. (Observe que "bendisseres com o espírito" equivale a "ação de graças" no V. 16.) O V. 15 enfatiza que isso deve ser feito com o entendimento. Isso indica, claramente, que deve ser feito de tal maneira que outros possam tirar proveito, como demonstrado nos vs. 14, 16. Portanto, interpretação era necessário, senão o exercício do dom seria puramente egoísta; somente aquele que falava teria proveito. 

O V. 16 deixa isto claro. Algum irmão estaria dando graças numa língua estranha; haveria na congregação uma pessoa interessada, que não poderia acompanhar, nem expressar comunhão com a ação de graças (dizendo "Amem"), pois nada entenderia. Esta pessoa é chamada de "indouto" e, comparando o V. 16 com os vs, 23-24, indica claramente que seria um crente que ainda não estava na comunhão da igreja local. 

Parece ser uma pessoa interessada (veja nota abaixo). E possível que, havendo chegado à reunião e havendo ouvido o dom de línguas em operação, ficasse confuso e perturbado pelo fato de não poder acompanhar inteligentemente o irmão na sua ação de graças. É evidente que o uso de "Amem" nas reuniões era uma ocorrência comum. Seu uso em Neemias 8:6, indica que era também comum entre os filhos de Israel. 

Mesmo hoje em dia o seu uso significa que o crente concorda, e expressa a sua aprovação, como se fosse a sua própria oração.Observe o profundo interesse que o apóstolo manifesta no bem-estar espiritual do visitante. Embora ele, evidentemente, não estava em comunhão, não deveria ser ignorado, mesmo que, provavelmente, ocupasse esse lugar por causa da sua imaturidade. 

No V. 23, a mesma expressão "indouto" é usada, mas parece que se refere a um descrente, porque diz que o resultado de ouvir os profetas apreensível à sua mente. O "bárbaro" seria um estrangeiro que não falava grego. É claro que, para o bárbaro, a língua grega era igualmente ininteligível. 

Qualquer um que viaja ao exterior já teve esta experiência. Quando alguém falava em línguas, levantava uma barreira, impossibilitando a comunhão. "Sentido", aqui, é literalmente "poder". O poder da fala se encontra na sua inteligibilidade.


17. Mostrando o efeito do uso do dom de línguas sobre esta pessoa, Paulo manifesta a sua preocupação com a reação de um cristão "indouto" com o que acontece na igreja local. O ideal seria que esta pessoa ficasse profundamente impressionada com o que viu e ouviu. 

Mas a língua não interpretada seria uma barreira para ela, e ela não seria ajudada, de forma alguma. Não importa quão inteligente fosse a adoração, não teria valor algum se as pessoas não entendessem.Não haveria edificação para os outros. Isto indica que o crente pode ser edificado através de outras coisas, e não somente por ministério.


18-19. Parece que Paulo excedia a todos no exercício do dom de línguas (em particular, aparentemente). Tornando isto conhecido, ele mostra que não estava menosprezando o dom, nem tinha inveja deles, de modo algum. É realmente um toque magistral, e fortalece a sua posição para falar da óbvia exibição deste dom por eles.

Observe a expressão "em igreja" sem o artigo, no original; refere-se à igreja local reunida (veja 11:18 para uma expressão semelhante).Sempre pertencemos à igreja local, mas somente estamos "em assembleia" quando nos reunimos. 

Em seguida, ele afirma que preferiria falar cinco palavras e ser entendido, do que falar dez mil palavras numa língua estrangeira. Seria difícil imaginar um contraste mais forte, ou mais claro. Cinco palavras seria uma declaração curta e objetiva, na língua que todos conheciam. 

Assim, Paulo demonstra a superioridade de profecia sobre o dom de línguas.Parece que ele não usava o seu dom de línguas nas reuniões públicas.A sua finalidade em falar nas reuniões era para instruir os outros, ensiná-los, e edificá-los. Assim ele enfatiza a necessidade de inteligibilidade, clareza e proveito.

Nos VS. 20-25 há uma mudança no alvo do ministério. Até este ponto, Paulo estava demonstrando o prejuízo que poderia ser causado pelo uso do dom de línguas sem interpretação. 

Agora ele vai mostrar a falsidade do valor que os coríntios davam ao dom. Em vez de ser um sinal de bênção, era de fato sinal de juízo; em vez de ser para crentes, era primariamente para descrentes. 


Observe o que se destaca em cada versículo:
V. 20 A Imaturidade e a Maturidade;

V. 21 A Instrução das Escrituras;

V. 22 A Conclusão das Escrituras;

V. 23 0 Resultado de Falar em Línguas;

V. 24,25 0 Resultado de Profecia.


20. Aqui o apóstolo faz um apelo muito forte. Ele deseja que eles cresçam, deixem de ser crianças (paidion) nas suas mentes, e prossigam à maturidade. Em toda esta questão estavam se comportando como meninos. 

Estavam se alegrando, de uma maneira infantil, no dom espetacular de línguas, e usando-o para exibirem-se a si mesmos.Ele reconhece que devem ser bebês (nepiazo), não meninos, na malícia, mas devem ser maduros na mente, evidenciando assim inteligência no uso do dom. Malícia, como usada aqui, indica a atitude que haviam adotado e as más relações que resultavam disto; um crescimento para entendimento corrigiria esta situação. Este versículo estabelece o lugar vital que a mente ocupa na experiência cristã, em contraste com a ênfase unilateral aos dons espetaculares.Alguns pensam que era malicioso usar o dom para exibição vaidosa de si mesmos, em vez de para edificação.


21. Agora Paulo cita a lei. Este termo geralmente se refere ao Pentateuco, embora em João 10:34 se refira aos Salmos (Sal. 82:6); aqui, inclui os profetas, especificamente Is. 28: 11-12 (veja também Deut. 28:49; Jer. 5:15). 

Ele queria ensinar-lhes uma lição através do acontecimento mencionado na passagem. Refere-se a um tempo na história de Israel quando haviam virado as costas a Deus, deixando de ouvir os Seus profetas, e se caracterizavam por pecado e desobediência.Deus então informou-lhes do Seu juízo, através da invasão dos assírios. Por toda a parte ouviriam uma língua que não entenderiam.

Foi um sinal de juízo; mesmo assim continuariam no seu pecado e recusariam escutar. Observe, atentamente, o uso da palavra "línguas". Refere-se, sem dúvida, à língua dos assírios. 

No v. 22, "de sorte que" indica que Paulo tira a sua conclusão deste acontecimento do VT. Ele se refere ao dom de línguas pela mesma palavra "línguas" que se usa neste versículo, estabelecendo assim que era uma língua conhecida.


22. Paulo tira a conclusão de que as línguas eram sinal para os incrédulos, e não traziam nenhuma bênção, nem para Israel, nem em Corinto (v. 23). 

Por outro lado, profecia era um sinal para os crentes e tinha por finalidade abençoá-los, e também poderia ser uma bênção para os descrentes (vs. 24-25). 

É bem provável que qualquer judeu que conhecia Isaías 28 reconheceria que o falar em línguas era um juízo sobre a nação. (É claro também que, se o dom de línguas fosse um sinal para os descrentes, isto descarta, completamente, a ideia de que era a evidência de que uma pessoa tinha sido batizada com o Espírito Santo, como os carismáticos dizem.)


23. Paulo agora descreve uma reunião da igreja local. O ajuntamento de toda a igreja indica que naqueles dias primitivos era o costume de todos assistirem a todas as reuniões. Devemos incentivar um mesmo senso de responsabilidade em cada cristão, nos dias de hoje. Se em tal ocasião todos falassem em línguas (sem dúvida os coríntios teriam achado isto maravilhoso), qual seria o efeito nos visitantes? 

Uma torrente de sons ininteligíveis, numa língua estranha, lhes faria pensar que todos tivessem enlouquecido. Não associariam esta confusão com a presença de Deus. Em vez de serem abençoados, eles se afastariam, tendo certeza de que ali não havia nada.Observe como o indouto, neste versículo, é um descrente, enquanto que no V. 16, como foi notado, é um cristão.


24-25. Por outro lado, se os profetas estivessem exercendo o seu ministério na língua da região, então todos entenderiam, inclusive os visitantes, e resultados seriam vistos. Estar cônscio da presença de Deus pode ser uma grande bênção, tanto para santos como para pecadores.

O fato da profecia não ser primariamente para os pecadores não quer dizer que não poderiam receber uma bênção, sob a direção do Espírito Santo. Muitas pessoas têm sido convertidas durante a Ceia do Senhor, ou até numa reunião de ministério. O poder da presença de Deus, e da palavra de Deus, é uma realidade. 


Vamos notar seis coisas que se afirmam destas pessoas:
a) Convencido:
isto se refere à convicção do pecado. Sua consciência começa a operar. Ficando cada vez mais cônscio da presença de Deus, do Seu poder penetrante (veja Heb. 4: 12), e da operação do Espírito Santo (João 16:8), ele fica convencido da sua culpa e contaminação.
b) Julgado: a palavra profética penetra no seu íntimo. Ele sente que está sendo examinado, que todo o seu ser está sendo investigado.A mulher samaritana teve uma experiência deste tipo (João 4). "De todos" qualifica tanto "convencido" como "julgado", indicando que cada um que fala está intensificando a obra no íntimo desta pessoa. Desperta-se nele o reconhecimento de que terá que prestar contas a Deus pela sua maneira de viver.
c) Os segredos do seu coração ficarão manifestos: ele se sente virado do avesso. Está começando a se ver como Deus o vê. Seus pensamentos, desejos, motivos, o seu homem interior, lhe estão sendo revelados. Humilhado e examinado, ele se sente condenado por si mesmo. Tudo isto está produzindo arrependimento e voltando-o a Deus.
d) Lançando-se sobre o seu rosto: isto manifesta uma atitude da mais profunda humildade. A luz que penetrou e iluminou a sua mente e o seu coração, leva-o a prostrar-se perante Deus.Ele se volta para Deus. Quase que podemos ouvi-lo dizer: "Deus, tem misericórdia de mim, pecador".
e) Adorará a Deus: ao revelar ao homem a sua própria natureza, Deus, ao mesmo tempo, Se revelou ao homem. Ele reconhece, como nunca reconheceu antes, a presença de Deus, e com a maravilha de tudo isso enchendo a sua alma, ele se prostra em humilde adoração, dando-Lhe homenagem. Tudo agora lhe é tão real.
f) Publicando que Deus está verdadeiramente entre vós: agora ele se toma uma testemunha; a pessoa creu com o seu coração, e com a sua boca fará confissão (Rom. 10:10). Sem dúvida, o seu testemunho quanto à presença de Deus entre eles foi confessado imediatamente: "Deus está, verdadeiramente, entre vós". 

Depois de deixá-los, certamente ele teria feito a mesma declaração a todos com quem se encontrasse: "podem dizer o que quiserem acerca deles, mas eu digo que Deus está ali". 

Eu entendo tudo isto como significando a verdadeira conversão do descrente. Este resultado e testemunho é o contrário de "estais loucos", no v. 23.


Temos observado o efeito nos ouvintes ao ouvirem o ministério dos profetas. Eles descobrem como a percepção da presença de Deus e a mensagem de Deus penetram na sua alma, revelando a vida toda de cada pessoa. 

Cada um está aprendendo algo da santidade de Deus, e também das suas próprias tendências pecaminosas. Cada um se prostrará, na mais profunda adoração, e dará testemunho ao fato de Deus estar no ajuntamento, dizendo: "Este é o lugar onde o Deus verdadeiro habita".


NOTAS ADICIONAIS:

2. A palavra "estranha" não consta nos manuscritos, e deve ser omitida deste versículo. Veja os vs. 2, 4, 14, 19, 27.16 "Indouto" é a tradução da palavra idiotes, e normalmente indica uma pessoa física em contraste com um oficial do estado, ou uma pessoa sem qualificações em contraste com uma pessoa qualificada. 

Ocorre somente mais duas vezes: em Atos 4: 13, onde é traduzida "indoutos", talvez se referindo à falta de treinamento profissional; e em 11Cor. 11:6, onde é traduzida "rude", provavelmente inábil na oratória; na opinião deles, simples no seu modo de falar. A tradução de J. N. Darby é muito apropriada: "um (cristão) simples", no V. 16; "(pessoas) simples", no V. 23.


Jack Hunter

Extraído do Comentário Ritchie

Editora Edições Cristãs

10. A Regulamentação dos Dons - (1 Coríntios 14:26-40)


"Que fareis, pois, irmãos? Quando vos ajuntais, cada um de vós tem salmo, tem doutrina, tem revelação, tem língua, tem interpretação. Faça-se tudo para edificação. E se alguém falar língua estranha, faça-se isso por dois, ou quando muito três, e por sua vez, e haja intérprete. Mas, se não houver intérprete, esteja calado na igreja, e fale consigo mesmo, e com Deus. E falem dois ou três profetas, e os outros julguem. Mas se a outro, que estiver assentado, for revelada alguma coisa, cale-se o primeiro.

Porque todos podereis profetizar, uns depois dos outros; para que todos aprendam, e todos sejam consolados. E os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas. Porque Deus não é Deus de confusão, senão de paz, como em todas as igrejas dos santos. As mulheres estejam caladas nas igrejas; porque lhes não é permitido falar; mas estejam sujeitas, como também ordena a lei. 

E, se querem aprender alguma coisa, interroguem em casa a seus próprios maridos; porque é indecente que as mulheres falem na igreja. Porventura saiu dentre vós a palavra de Deus? Ou veio ela somente para vós? Se alguém cuida ser profeta, ou espiritual, reconheça que as coisas que vos escrevo são mandamentos do Senhor.

Mas, se alguém ignora isto, que ignore. Portanto, irmãos, procurai, com zelo, profetizar, e não proibais falar línguas. Mas faça-se tudo decentemente e com ordem."



Nos vs. 1-12, o apóstolo lhes apresentou os princípios de edificação e inteligibilidade; nos vs. 13-25, ele descreveu os dons em operação, sendo que a finalidade prática em vista é a sua utilidade.

Agora, nesta seção, ele vai indicar a necessidade de regulamentar os dons, porque até dons de Deus precisam ser controlados. No início e no final desta seção, ele apresenta dois princípios que servem para governar o controle dos dons nas reuniões públicas. 

(Vemos que são reuniões públicas que estão sendo consideradas pelas palavras do V. 26: "quando vos ajuntais"; veja 11: 18.) 

Em primeiro lugar, ele afirma no V. 26: "Faça-se tudo para edificação"; e, em segundo lugar, no V. 40: "Faça-se tudo decentemente e com ordem". 

Observe em cada versículo a expressão "tudo"; todo aspecto de adoração deve promover a edificação de todos os que estejam reunidos; e deve ser feito decentemente, e de maneira digna, caracterizado por ordem divina. 

Semelhantemente, o V. 33 diz: "Deus não é Deus de confusão, senão de paz". Qualquer coisa que causa desordem e confusão, e não harmonia e paz, não provém de Deus. 

Observe também que 16: 14 diz: "Todas as vossas coisas sejam feitas com amor". 


Vamos considerar esta seção da seguinte maneira:
a) O Controle dos Dons vs. 26-33;

b) O Silêncio das Mulheres vs. 34-35;

c) A Autoridade do Apóstolo vs. 36-40.


26.
Agora podemos considerar as atividades da igreja local. Paulo apresenta certas atividades para depois, nos vs. 27-28, dar instruções para aqueles que falam em línguas e, nos vs. 29-33, para as atividades dos profetas. 

Ele menciona, aqui, cinco formas diferentes de atividade, que formam um contraste estranho com o ministério "programado" que existe em tantos lugares. 

Claramente, como foi notado no capítulo 11, não há indicação nenhuma do ministério de um só homem, mas a reunião estaria aberta para diversos irmãos participarem de várias maneiras. 

Pode ser que as palavras: "Faça-se tudo para edificação", indiquem um desejo imoderado de participar e fazer ouvir a sua voz. Todos poderiam estar envolvidos, mas deveriam considerar uns aos outros. Estes princípios ainda devem ser aplicados nas reuniões da igreja local, apesar da cessação dos dons de sinal.

Vamos notar, brevemente, as atividades:
a) Salmo:
normalmente pensamos num Salmo de Davi, mas em outro lugar a palavra é traduzida "cantar" (no V. 15, por exemplo), ou "salmodiando" (Ef. 5: 19); portanto, poderia se referir a um cântico de louvor.
b) Doutrina: isto se refere ao ensino das Escrituras, à exposição de uma passagem, e à apresentação do seu conteúdo principal e sua aplicação.
c) Língua: temos aqui um irmão falando numa língua estrangeira, quer seja em oração ou em ministério.
d) Revelação: provavelmente se refere à contribuição do profeta, tornando conhecido aquilo que lhe foi revelado diretamente por Deus.
e) Interpretação: o exercício do dom de interpretação é a tradução da substância daquilo que foi dito por aquele que falou em línguas.
Temos a impressão que a maioria desejava participar; em si isto é louvável, contanto que não haja manifestação do ego. 

Nunca devemos perder de vista o princípio governante, que toda a atividade deve ser para a edificação de todos, e assim para a glória de Deus. Todas às vezes que um irmão participa somente para mostrar-se, ou destacar o seu dom, não haverá glória a Deus nem bênção aos outros.


27-28. Ao tratar daqueles que falavam línguas, ele estabelece certas regras para a orientação de todos e para garantir ordem e edificação. Em primeiro lugar, ele indica um limite no número dos que participam: dois, ou quando muito três. Eles não devem dominar a reunião, mas deixar lugar para os profetas. 

Em segundo lugar, devem seguir-se uns aos outros, participando um por vez. Talvez isso pareça estranho a nós, mas mostra, claramente, a natureza da confusão e desordem contra as quais Paulo adverte nesta passagem. Em terceiro lugar, ele indica que tem que haver interpretação; ele tem insistido nisto no capítulo todo. Alguns acham que isso quer dizer um só interprete para os três que falariam em línguas. 

Se assim fosse, isso garantiria que um só participaria de cada vez, pois o próximo participante teria que esperar até que a interpretação do primeiro terminasse. 

O V. 28 estabelece, com bastante clareza, o seguinte princípio: se não houver intérprete, aquele que fala línguas deve permanecer em silêncio. 

Segundo 12: 10, o dom de interpretação era dado a vários santos, portanto todos saberiam se algum deles estivesse presente.


29. Ao tratar dos profetas, a primeira condição é semelhante àquela estabelecida para o dom de línguas, isto é, que os que falam sejam limitados a dois ou três. E claro que os que participavam desta maneira eram reconhecidos como possuidores deste dom, e este é um princípio importante. 

Embora não temos profetas, hoje em dia, mas sim ensinadores, somente os que possuem este dom são reconhecidos.

O uso do plural não permite o ministério por um só homem, mas o uso da palavra "profetas" limita a função, e indica que ministério por qualquer um, não deve ser permitido. 

Vemos que os "outros" devem julgar. Várias opiniões existem quanto a identidade destes "outros". 

A própria palavra allos indica "outros do mesmo tipo", isto é, profetas. Sem dúvida, irmãos acostumados a exercer este dom teriam a sensibilidade espiritual necessária para testar a validade da mensagem, como em I João 4: 1, enquanto que, em I Tess. 5: 19-21, é a igreja local que prova o valor do ministério, pois aquilo que é ministrado no poder do Espírito Santo acha uma resposta nos corações dos cristãos, que discernem a voz de Deus, e fazem todo o esforço para pôr em prática as suas exigências.


30. Enquanto um falava, outro poderia receber uma mensagem; sendo assim, o primeiro deveria sentar-se. Não sabemos como se comunicavam. Poderia ser que o primeiro irmão sentia ter cessado a iluminação, a energia e impulso do Espírito, e então ficaria sabendo que o Espírito estava para usar outro profeta. 

Também poderia ser que o segundo irmão indicasse de alguma maneira, por exemplo, ficando em pé, ou levantando a mão, que tinha recebido uma revelação. Assim a soberania do Espírito era indicada, garantindo proveito a todos.


31. Agindo assim, eles garantiam a ordem, e cada profeta podia entregar a sua mensagem, e o grupo todo recebia ajuda. Todos poderiam aprender mediante a instrução, e poderiam ser consolados e encorajados. Desta maneira a igreja local, com toda a sua variedade de necessidades, recebia luz e poder e consolação e refrigério.


32-33. É instrutivo observar que os profetas estavam totalmente em controle de si mesmos. Isto está em contraste com 12:2, onde se afirma que antigamente eram levados, escravizados, pelo espírito maligno. Aqui, embora estivessem sob as influências sobrenaturais do Espírito Santo, o profeta estava em controle total, sujeito à Sua orientação, assim podendo participar inteligentemente, ou dar lugar a outro, se fosse necessário. 

A observância deste procedimento, na igreja de Deus, manifesta como Deus é o Controlador supremo, e mostra que Ele é um Deus que odeia desordem e confusão, e se deleita com paz e harmonia. Portanto, se tudo é feito de maneira ordeira e com paz, Deus é honrado, e Seu caráter verdadeiramente refletido; se confusão e desordem dominam, então Deus é desonrado e dá-se uma impressão falsa do Seu caráter. 

Como é essencial que esta ordem, paz e harmonia prevaleçam quando os cristãos se ocupam em santas atividades no sagrado serviço de Deus! Paulo diz, em concluir, que isso deve caracterizar todas as assembleias dos santos.Vamos tomar cuidado para que não percamos de vista a santa dignidade que deve caracterizar as reuniões.


34-35. Algumas traduções ligam o final do V. 33 com o V. 34. Como não há pontuação no texto original inspirado, é deixado ao critério do tradutor ou tradutores; portanto, pode ser traduzido:"Como em todas as igrejas dos santos, conservem-se as mulheres caladas nas igrejas" (ARA). I
sto indicaria qual era a prática normal nas outras igrejas, e que Corinto estava sozinha ao permitir que mulheres falassem nas reuniões. 

Olhando para 11: 16, vemos que Corinto estava sozinha ao permitir que as mulheres tivessem as cabeças descobertas. Ao destacar a prática observada nas outras igrejas, Paulo questiona o direito dos coríntios de se colocarem acima das regras observadas por estas igrejas. Isto é muito atual, pois há muitos lugares onde se diz que cada igreja local está sozinha, responsável somente ao Senhor; isto é realmente verdade, porém eles estão usando esta verdade para fazer o que bem-querem, e introduzir costumes que são contrários à palavra de Deus e à prática comum.

Esta atitude é alheia ao ensino de Paulo. Ela viola o espírito de comunhão estabelecida entre as igrejas. A prática de uma só igreja não estabelece a norma para as outras. A verdade é que os costumes desta única igreja em Corinto são totalmente condenados, pois é claro que, se todas as outras igrejas estivessem praticando a mesma coisa, então estes costumes teriam sido aprovados pelos apóstolos que haviam estabelecido estas igrejas. 

Uma igreja não deve comprometer a comunhão com outras igrejas por introduzir práticas que são contrárias à palavra de Deus. Convém destacar esta declaração geral: "As mulheres estejam caladas nas igrejas". É absoluta. Não há como escapar. É simples, clara, objetiva e autoritária.

É um tanto patético ver até onde alguns comentaristas irão para tentar escapar da força desta declaração. Alguns colocam os dois versículos (os vs. 34-35) depois do V. 40. 

Outros sugerem que Paulo não escreveu estas palavras, mas que alguém acrescentou-as mais tarde. Outros também dizem que o "falar" aqui se refere a tagarelar, ou à mulher interrompendo para fazer perguntas, ou que estes versículos se referem às reuniões que não são reuniões da igreja local, embora não existe nada no contexto que indique tal distinção. Alguns sugerem que é só ensinar que se exclui, porém, o v. 35 exclui toda a participação pública, até mesmo fazer perguntas. 


Que o leitor observe, com atenção, a variedade de traduções, todas declarando, com clareza, esta posição:
ARC: "As mulheres estejam caladas nas igrejas; porque lhes não é permitido falar; mas estejam sujeitas".
ARA: "Conservem-se as mulheres caladas nas igrejas, porque não lhes é permitido falar; mas estejam submissas".
VR: "As mulheres estejam caladas nas igrejas; porque lhes não é permitido falar; mas estejam submissas".
MS: " As mulheres estejam caladas nas igrejas, porque não lhes é permitido falar, mas devem estar sujeitas."
AVT: "As vossas mulheres estejam caladas nas igrejas; porque não lhes é permitido falar; mas estejam sujeitas".
NVI: "Permaneçam as mulheres em silêncio nas igrejas, pois não lhes é permitido falar; antes permaneçam em submissão".


Não seria mais sábio aceitar esta clara declaração e interpretar todas as outras à luz dela? Observe que a palavra "estejam caladas" (sigao), no V. 34, é a mesma que se encontra no V. 28: "esteja calado", o no v. 30: "cale-se". 

Nestes dois últimos versículos é claro que quer dizer "parar de falar publicamente". 

Agora vamos considerar a palavra "falar" (laleo). Dizem que a palavra quer dizer tagarelar, mas a etimologia de uma palavra usada no NT não é sua interpretação final, mas sim, a maneira como ela é usada no NT, e especialmente, como é usada no contexto. Em mais que 300 ocorrências, no NT , ela não tem esse significado. 

É usada de Deus falando(João 9:29); de Cristo falando (João 17:1); do Espírito Santo falando (Atos 28:25). E usada aproximadamente vinte e quatro vezes neste capítulo, sempre referindo-se a falar e não a tagarelar. 

Isto é conclusivo quanto ao seu uso e significado. A regra do V. 24 é positiva, explícita, e universal. Refere-se a todo ato de falar e fazer perguntas na reunião. O significado não pode ser confundido. Não há nenhuma outra regra mais positiva do que esta no NT. 

Não importa quão plausíveis sejam as razões dadas para desconsiderá-la, e permitir que as mulheres participem, a linguagem do apóstolo é clara e positiva, e não pode ser rejeitada sem incorrer na censura do v. 38. 

A proibição é absoluta nas reuniões dos santos. A expressão "estejam sujeitas" (hupotassomai) destaca o lugar de sujeição, ou submissão, que Deus lhe deu. "Como também ordena a lei" se refere à narrativa da criação e à ordem dos sexos: o homem sendo apresentado primeiro, depois a mulher; veja I Tim. 2: 13-14. 

A liderança está nas mãos do homem. Tanto o homem como a mulher ocupam um lugar de honra que lhes foi dado por Deus, e todas as pessoas piedosas reconhecerão que é assim, e se sujeitarão à ordenança da sabedoria de Deus. As mulheres, se estiverem em dúvida sobre alguma questão, não devem fazer perguntas publicamente, mas devem procurar a ajuda dos homens, em casa. 

A palavra traduzida "maridos", enquanto usada em certos contextos desta maneira, realmente quer dizer homens, como distintos de mulheres. O assunto é encerrado com a forte declaração: "É indecente que as mulheres falem na igreja". A palavra traduzida "indecente" (aischros) quer dizer ignominioso, impróprio, indecoroso, vergonhoso.


36-38. Esta longa seção (12: 1-14:40) chega à sua conclusão com um lembrete sobre a autoridade apostólica. O apóstolo está cônscio da oposição que seus conselhos vão provocar naqueles que querem desacreditar tudo o que ele lhes tem ensinado. Portanto, ele lhes desafia em relação à palavra de Deus. 

Quando ele mencionou "a lei" no V. 34, ele estava salientando-a como a palavra de Deus, e o próprio Deus como a fonte definitiva daquela autoridade que requer a obediência do Seu povo. Sempre existem pessoas e igrejas que querem fazer a palavra de Deus significar aquilo que elas acham que deve significar, e assim mostrar que são mais sábias do que Deus. 

A primeira pergunta se refere à fonte: será que a palavra de Deus originou com eles? Se fosse assim, eles poderiam determinar o seu significado. Será que eles foram a fonte da revelação? Sendo a primeira das igrejas a desviar-se da palavra de Deus, especialmente em relação à participação das mulheres (no contexto imediato), eles se estabeleceram como uma autoridade superior, e, portanto, o apóstolo os censura. A segunda pergunta se refere à recepção singular da palavra de Deus. 

Será que eles foram os únicos receptores de tal revelação, visto que puderam introduzir tais costumes? Poderiam eles agir independentemente e ignorar as outras igrejas? Isto era arrogância mesmo! Autoridade independente não estava nas suas mãos.

Mas ainda hoje encontramos a mesma atitude, e a mesma reivindicação de ser progressista e liberal. Porém, tal progresso é realmente afastamento da palavra de Deus; e tal libertação é o abandono da obediência a ela. Paulo toma uma posição firme quanto à autoridade apostólica. 

Ele declara que seu ensino tem o caráter de um mandamento do Senhor. Se alguém dissesse ser profeta (falando sob inspiração divina), dissesse ser realmente espiritual (desejando agradar ao Senhor), então que comprovasse estas afirmações por submissão ao ensino apostólico. 

Se tal pessoa recusasse o ensino, suas afirmações seriam falsas e espúrias. O que Paulo afirma não pode ser confundido: ele está escrevendo a palavra de Deus; isto não pode ser ignorado, e cabe a cada um submeter-se a este ensino caracterizado por autoridade apostólica, não importa que experiência ele alega ter. 

O V. 38 é muito solene: "Mas, se alguém ignora isto, que ignore". Ignorância voluntária é ignorância permanente; ignorância persistente é ignorância culpável. Havendo mostrado a posição, segundo a mente de Deus, Paulo não estava disposto a perder tempo discutindo com tais pessoas.


39-40. Aqui temos as conclusões de Paulo sobre este assunto todo. Usando pouquíssimas palavras, ele avalia estes dois dons: "procurai, com zelo, profetizar, e não proibais falar línguas". Desejai aquele, e tolerai este. 

Tal conselho foi oportuno nos dias quando estes dons estavam operando. Observe o positivo "procurai", e o negativo "não proibais". Finalmente, como foi observado antes, "faça-se tudo decentemente em com ordem".

Agora vamos fazer um resumo do ensino deste capítulo:
a) A supremacia do amor para enriquecer cada dom e capacitar a todos a servirem de maneira aceitável.
b) A importância de edificação, pois o exercício dos dons é vão, a não ser que todos sejam edificados na sua fé.
c) A importância vital de inteligibilidade, para que todos entendam e tirem proveito.
d) A necessidade óbvia de ordem piedosa, para que visitantes sejam atraídos e não repelidos, e para que as suas necessidades espirituais sejam plenamente supridas.
e) A importância de estar pronto a aceitar o princípio de liberdade controlada, sobre o número de participantes (v. 29), submissão voluntária ao julgamento dos outros (v. 29), e prontidão para dar lugar a outro (v. 30).
f) A importância da autoridade da palavra de Deus, que deve ser obedecida tanto pelas mulheres (vs. 34-35) quanto pelos homens (v. 37).
g) O perigo de uma igreja local agir de maneira contrária à palavra de Deus e à prática de outras igrejas baseadas naquela Palavra.
h) Aceitação total da supremacia do ensino dos apóstolos e submissão total ao mesmo, como sendo o mandamento do Senhor.


Jack Hunter

Extraído do Comentário Ritchie

Editora Edições Cristãs

11. O Tribunal de Cristo

É de suma importância ter o melhor esclarecimento possível da verdade a respeito do aparecimento dos crentes perante o tribunal de Cristo. O Apóstolo Paulo dá-nos a entender que isto o inspirava para santidade e maior zelo em ganhar almas. Ele tinha a visão de que daria conta daquilo que havia recebido, pelo qual "ganhasse homens". É verdade que primordialmente ele vivia sua vida sob a luz da redenção de Cristo, constrangido pelo amor de Cristo - aquele amor que faz a pessoa morrer pelos outros. 

Mas é verdade, também, que ele avistava o dia que apareceria perante o tribunal de Cristo, quando o que havia sido feito por meio dele seria provado. E isto se tornava um desafio no serviço.
Precisamos observar tudo o que possa nos inspirar e desafiar, pois temos facilidade de nos esquecer daquilo que Deus espera de nós - tanto o fruto como o serviço. E devemos lembrar que Deus quer usar cada pessoa salva como um instrumento nas suas mãos. Por meio de nós, Ele quer revelar sua sabedoria, sua glória e seu poder. É nossa a missão de realizar e efetuar a sua vontade e seus planos de salvação. Que graça augusta! 

Mas é também uma responsabilidade humilhante! Uma coisa quero já focalizar, e isto é: devemos discernir entre o julgamento perante o tribunal de Cristo (2 Co 5.10) e o julgamento perante o grande trono branco (Ap 20.11-15), se não, tudo fica difícil de entender. 

O julgamento perante o trono branco é o último e eterno julgamento de todas as gerações. Chama-se: dia do juízo, ressurreição do juízo, o juízo vindouro, o juízo de Deus, o justo juízo de Deus, juízo eterno. Este julgamento vai acontecer depois do milênio e do curto período em que Satanás será solto. 

Ele é final, irrevogável e eterno. Nosso aparecimento perante o tribunal de Cristo acontecerá em conexão com a volta de Cristo nas nuvens, e abrange somente os santos. Aqueles que "são arrebatados", são galardoados segundo suas obras. Não é um julgamento para condenação - como perante o grande trono branco - mas um ato de avaliação das nossas obras. 

A nossa vida será provada. Alguns sofrerão prejuízo - a obra deles "se queima" - mas serão salvos, porque o fundamento era sólido; enquanto outros tinham edificado com material que suportou o fogo, e esses receberão recompensa (1 Co 3.12-15 e Ap 22.12).


Ainda é preciso apontar alguma coisa, para evitar desentendimento por parte de alguém. Ao estudarmos este tema, precisamos sempre ter em mente que a salvação é de graça, sem o mínimo merecimento de nossa parte. Tudo é gratuito. É unicamente a fé na obra redentora, que o Senhor Jesus fez por nós, que nos salva. Não podemos acrescentar coisa alguma aqui. Também é por perseverarmos nesta fé que somos guardados, e alcançaremos a eterna salvação. (1 Co 15.1-4.) 

É a âncora firme para a alma durante a peregrinação, e é a única causa de estarmos um dia na glória eterna, com palmas nas mãos e vestes brancas. Somente aqueles que "lavaram suas vestes e as branquearam no sangue do Cordeiro", estarão diante do trono (Ap 7.14-15). "Por isso estão diante do trono de Deus", está escrito. 

Sim, unicamente por isso - por causa do sangue. Tudo depende de que Deus tenha feito - e ainda faz misericórdia. Ninguém tem exposto isto com mais clareza e firmeza do que o Apóstolo Paulo. Mas ele afirma também, com a maior convicção, que havemos de dar conta um dia. E então, ou receberemos galardão, ou sofreremos prejuízo. Isto harmoniza com o ensino do Senhor Jesus em Mateus 25.14-19.

É importante termos uma visão ampla do plano divino de nossa salvação, para podermos guardar o equilíbrio espiritual, e para que o reino de Deus se desenvolva e cresça de maneira sadia entre nós.


A OBRA DE CADA UM SERÁ PROVADA.1 Coríntios 3.8-15
Os coríntios eram faltos de espiritualidade, eram carnais, e isto se manifestava especialmente pela maneira como avaliavam os servos do Senhor. No ensino esplêndido que o apóstolo lhes dá, para pô-los em posição certa neste sentido, recebemos uns raios de luz sobre este assunto. Os coríntios são chamados "a lavoura de Deus", "o edifício de Deus", e Paulo, Cefas e Apolo são "cooperadores de Deus" na obra de Deus em Corinto. 

E cada um deles "receberá sua recompensa segundo sua própria obra". Pois bem, a mesma lavoura, mas pagamento diferente. Ele diz que tinha "lançado o fundamento como sábio construtor" - Isso era Cristo. E acrescenta: "e outro edifica sobre ele". 

Não é, contudo, indiferente como se edifica, e qual o material que se usa, porque será provado pelo fogo. Paulo não pode - com isso que diz aqui - pensar somente na vida de cada indivíduo, pois é a igreja, como um todo, de que ele fala, e dos servos que Deus tinha dado a ela. A conexão inteira mostra isso. 

Paulo, como o primeiro que veio a essa cidade, fez a obra fundamental, e isso ele fez como um "sábio construtor", mas a responsabilidade estava agora com aqueles que "edificariam sobre ele", isto é, continuariam a obra. Cada um que tomaria parte nisto, deveria cuidar que fosse feito da maneira certa - da maneira divina.
Não posso entender outra coisa do que o apóstolo aqui pensava nas grandes linhas principais na edificação da igreja de Deus, e também no sentido doutrinário do reino de Deus. 

É uma coisa séria ser um construtor da igreja de Deus, e mesmo ter o serviço de ensinar e de exortar. Escute a advertência de Tiago: "Meus irmãos, não vos torneis, muitos de vós, mestres, sabendo que havemos de receber maior juízo." (Tg 3.1.) 

Vamos prestar conta do nosso ensino! Isso não é natural? Um construtor é obrigado a construir segundo a planta e a prescrição, tanto no que se trata de forma como de material. Ele não pode fazê-lo segundo seu bel-prazer. 

E podemos pensar que Deus é indiferente quanto àquilo que é o mais belo neste mundo - a Igreja de Deus? A obra que é para a eternidade? É possível que sejamos sem responsabilidade em nossa obra? Podemos trabalhar conforme o que achemos conveniente? A autoridade decisiva não é a vontade de Deus e as verdades bíblicas? 

Deus era muito exigente no pacto velho, ainda que ele era somente a sombra da realidade. Tudo precisava ser feito conforme o modelo que Deus lhes mostrara no monte, e com a maior exatidão. 

E seria indiferente quando à construção da obra eterna, que é a Igreja de Deus? Parece-me impossível! A opinião de Jesus era que, "a Escritura não pode ser anulada" (Jo 10.35) e: "Nem todo o que diz: Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus". (Mt 7.21.) E construir sua casa sobre a rocha, quer dizer obedecer às palavras que Jesus falava. (Mt 7.24-27.) 

Mas como saber a vontade de Deus? Temo-la revelada na Escritura, a qual não pode ser anulada, segundo as palavras de Jesus. Voltemos ao construtor como exemplo. Como é possível construir da maneira certa? Estudando e aceitando a planta, naturalmente, e fazendo tudo conforme o modelo que ela contém. Assim, também aqui, a Palavra de Deus precisa ser a nossa autoridade absoluta, a norma que resolve tudo, tanto na vida como na obra, e isso individualmente, como na Igreja. 

E creio que é isto que será posto à prova naquele dia. Paulo dava muita ênfase à "doutrina sã" e a "forma de doutrina" que ele ensinava. Ele tinha tanta convicção a respeito do seu ensino, que pôde afirmar que, se ele mesmo ou um anjo do céu pregasse outro evangelho, seria anátema. Ele tinha uma profunda compreensão do "mistério de Deus", e tinha certeza da mensagem que proclamava. Por isso sentia responsabilidade; sabia que era despenseiro. Um dia daria conta do seu serviço do ministério da palavra. 

O que importava foi sempre: "o que diz a Escritura?" O mistério que lhe tinha sido manifestado, o qual ele "demonstraria a todos" (Ef 3.2-9), precisava ser transmitido assim como lhe fora revelado. Nada podia ser acrescentado, nem tirado, e não podia ser misturado com ~eu concerto antigo como fariseu - precisava ser entregue conforme a revelação que Deus lhe deu. Isso seria o construir com "ouro, prata e pedras preciosas". 

Nessa maneira "a multiforme sabedoria de Deus" seria proclamada e manifestada pela obra magistral de Deus - a Igreja. E "a forma de doutrina a que fomos entregues" (Rm 6.17), é a mesma para todos os povos e para todos os tempos. 

Estava escondida no Velho Testamento, mas claramente revelada no Novo. A planta é bem compreensível. Ninguém precisa ficar na ignorância. Os construtores devem verificar como a planta do fundamento é feita; quem deve pertencer ao edifício; os serviços e ministérios que devem existir; as ligaduras que dão a união; a forma de governo que deve haver; a revelação do Espírito Santo que deve haver por meio dos dons espirituais; a manifestação da mente e caráter de Cristo, pelo fruto do Espírito Santo; sim, maneiras e métodos para o trabalho. 

Em suma: tudo que é preciso para que o corpo de Cristo possa estar bem e crescer na maneira certa, para poder revelar a Cristo e evangelizar o mundo, e se preparar para a união visível do seu noivo. Isto é, os servos do Senhor devem procurar chegar em harmonia! 

Procurar, com uma mente humilde, estarem prontos a aprender e entender a vontade do Senhor. E, fazendo isto, o Espírito Santo, sem dúvida, nos ajudará para que possamos edificar o que permanece, mesmo passando pelo fogo. 

Irmãos, temos uma responsabilidade extraordinária como construtores do reino de Deus. Deus é nosso chefe! Perante ele havemos de prestar conta e não trabalhamos com madeira e pedras, mas com almas imortais. Não construímos somente para o presente, mas para a eternidade, uma morada de Deus. (Ef 2.22.) 

A verdade de que a nossa obra será provada deve afugentar toda a leviandade de nós! O dia da prova do fogo há de consumir muitíssimo daquilo que se chama obra cristã. Pense nas muitas "doutrinas", regras e tradições que têm sido acrescentadas ao lado da Palavra de Deus! Pense nos métodos exclusivamente humanos e profanos, que se usam para fazer progredir a obra de Deus, métodos que são completamente alheios ao espírito e à letra do Novo Testamento. 


Para não mencionar o desejo de fama, poder e glória, que, muitas vezes, são os fatores de estímulo na obra. Oh, que dia, quando Aquele que tem "olhos como chama de fogo" penetrar e avaliar nosso serviço! Na verdade, a questão será, se temos sido fiéis à revelação da vontade de Deus na Bíblia. Feliz quem ouvirá: "guardaste a minha palavra". (Ap 3.9.) 

Muito daquilo que havia sido grande e pomposo à vista dos homens, será reduzido a nada, enquanto aquilo que "foi feito em Deus" - o que estava em harmonia com o espírito e doutrina da Bíblia, e efetuado por meio dEle - permanecerá e receberá galardão. Se a obra de alguém se queimar, mesmo assim será salvo, se tiver construído na rocha eterna, Jesus Cristo. Mas a recompensa é perdida. Nada tem consigo. 

Apesar disto, é graça sobre graça que ainda se salve, mas - que triste - nenhuma recompensa, nenhum resultado da vida cristã!
Mas, pensando na possibilidade que temos de não somente sermos salvos, mas também levar conosco o resultado da vida cristã - receber recompensa! 

Não seria isso algo para almejar? Vamos consagrar nossa vida para este fim! É a vontade e o plano de Deus para conosco! "Daquele que é muito dado, muito se lhe requererá, e a quem muito é confiado, mais ainda se lhe pedirá." (Le 12.48.)


UM ESTIMULO NA OBRA DE GANHAR ALMAS

"foi necessário que todos nós sejamos manifestos diante do tribunal de Cristo, para que cada um receba o que fez por meio do corpo ... " "Portanto, conhecendo o temor do Senhor, procuramos persuadir os homens." (2 Co 5.10,11.) 

Como vemos aqui, a convicção de um dia ser manifesto diante do tribunal de Cristo, era um dos estímulos fortes na vida de Paulo para ganhar almas para Deus. Há uma conexão bem clara entre os versos dez e onze. 

E que ganhador de almas não era ele? Já vimos alguém - exceto o Senhor Jesus - que assim se entregava e que sacrificava tudo para ganhar almas? Nem homens, nem o diabo podiam impedi-lo. Tribulações, sofrimentos e angústias nunca conseguiram diminuir sua coragem. Com fé vitoriosa, ele passava pelas mais difíceis circunstâncias. Ele tinha sempre o grande alvo em vista - salvar as almas duma eterna perdição. 

Isso foi sua paixão santa. Mas qual foi a força motivadora na sua vida? Vemos que ele era unido a Cristo em mente e natureza, ele morreu e Cristo vivia nele. Por isso era unido a Cristo em interesses e planos, os quais são, que os homens se convertam e vivam. Como o Senhor Jesus buscava os perdidos, sim, deu sua vida por eles, assim também Paulo. Ele tinha um desejo ardente e uma paixão santa de buscar os perdidos e os levar para Deus. Para isto entregou seus ricos talentos e sua brilhante capacidade, sim, sua vida - o amor de Cristo o constrangia. (2 Co 5.14.) 

Em segundo lugar, ele viu o valor das almas. Ele as viu como Deus as vê. O valor que Deus dá aos homens - que especialmente se mostra pelo sacrifício no Gólgota - tinha sido transferido, parcialmente, ao coração de Paulo. 

A tristeza que ele sentia pelo seu próprio povo, por exemplo, era tão dolorosa, profunda e intensa que nós outros nem podemos entender. Se prontificou a perder a eterna felicidade da sua própria alma, se com isso pudesse salvá-lo. Para ele a salvação duma alma significava: salvá-la de perdição e vergonha e trazê-la em harmonia com os planos de Deus para esta vida e para a vindoura. Em terceiro lugar - e isto se aplica especialmente ao nosso tema - pensando no dia em que prestaria conta, era incitado a ganhar almas. 

Ele tinha uma convicção santa de que também este aspecto do seu serviço seria pesado e provado. Onde muito fora dado, muito seria requerido. Paulo tinha convicção da sua chamada e eleição para revelar o mistério de Deus, do poder que em si operava, das riquezas de talentos naturais e dons espirituais que lhe foram confiados, e tudo com um fim - a extensão do reino de Deus. Tudo foi dado por Deus, e com o fim de servir ao seu reino e salvar as almas. 

O apóstolo era somente um despenseiro da multiforme graça de Deus, e como tal, teria que, um dia, prestar conta de tudo que havia recebido. (1 Co 4.1-5.) Por isso, não foi a apreciação ou o julgamento dos homens que pesava, mas o de Deus. 

Quando ele escreve acerca do "temor de Deus", não quer dizer o medo do pecador ou do escravo, que tem o castigo como motivação. Mas é o temor de filho - o medo de agravar ou entristecer aquele que ama. Paulo sabia que a vontade de Deus era absolutamente perfeita, e tinha receio de se desviar dela. 

Tinha medo de que a vontade de Deus na sua vida não se cumprisse. E não tinha sua vida como preciosa para si, contanto que pudesse completar sua carreira e o ministério que recebeu do Senhor Jesus. Que disposição sadia! Não podemos nos comparar com o Apóstolo Paulo, nem em talentos naturais, nem em dons espirituais, e também não fomos destinados a fazer o que ele fazia no reino de Deus. 

Ele é o único para todos os tempos. Mas o mesmo espírito, a mesma mente e o mesmo alvo devemos ter. Se não temos talentos, temos o mesmo evangelho, e o poder de Deus e os dons do Espírito Santo podemos buscar. E, com certeza, seremos equipados e preparados para desempenhar a tarefa e preencher o lugar para o qual fomos destinados. E oportunidades temos aos milhares: é somente aproveitá-las. 

Andamos no meio de multidões de almas imortais. E todos nós vamos dar conta de como aproveitamos as oportunidades - não somente os pregadores. Todos devemos ser pescadores de almas! Não é lícito recusarmos este trabalho importantíssimo. Se o fizermos, estaremos sem desculpa. Escute a Palavra de Deus: "Livra os que estão sendo levados à morte, e detém os que vão tropeçando para a matança! Se disseres: Eis que não sabemos; porventura aquele que pesa os corações não percebem? E aquele que guarda a tua vida não o sabe? E não retribuirá a cada um conforme a sua obra?" (Pv 24.11,12.) 

Que linguagem poderosa e clara! Que recompensa será nossa? Encontraremos alguém diante do tribunal de Cristo que nós ganhamos? Ou vamos ficar lá a sós? Será que as almas serão requeridas das nossas mãos? (Ez 3.18.) 

Almas que poderiam ser salvas, se nós tivéssemos feito o nosso dever! Oh, quão tremendamente sério é isto! Isso era visto pelo Apóstolo Paulo na perspectiva certa, o que o incitava ao serviço. Temos nós algo semelhante com que nos alegrar? O apóstolo foi perseguido como caça, foi chamado peste e instigador, foi apedrejado, açoitado, esteve em prisões, e morreu como mártir. 

Não teve consideração aqui, mas como vai brilhar quando o Senhor Jesus distribuir a recompensa. " ... e os que converteram a muitos para a justiça, brilharão como as estrelas sempre e eternamente." (Dn 12.3.) 

O que será a nossa sorte naquele dia? Oh, que alegria quando Jesus me buscar para si, se também eu alguma alma ganhei. A glória do céu ficará maior para mim, se estrelas na coroa tiver.


PRESTAR CONTAS PELO MINISTÉRIO DE LIDERANÇA

"Obedecei aos vossos pastores, sendo-lhes submissos; porque velam por vossas almas como quem há de prestar contas delas; para que o façam com alegria e não gemendo, porque isso não vos seria útil." (Hb 13.17.) 

Em conexão com o ministério de pastor não se acha palavra mais séria do que essa. Quando essa verdade penetra ao íntimo, a gente fica quase com vontade de fugir do serviço. Mas que adianta? Não pode se ausentar da obra que Deus deu sem consequências sérias. 

Em vez disto, devemos deixar a responsabilidade desse ministério incutir zelo em nós, e fazer-nos buscar a graça e o auxílio divino. É, Ele quem nos capacita para o serviço ao qual nos chamou. "Eles velam pelas vossas almas", se diz neste verso. Quantos de nós experimentamos isto como uma verdade real? Velar pelas almas! E, lembre-se, são almas pelas quais, Cristo morreu! Elas são propriedade do Senhor! Almas que devem desenvolver-se e crescer para uma vida cristã sadia, vitoriosa e harmônica! Almas que chegarão ao belo céu, ou se perderão em trevas eternas, onde o tormento jamais findará! 

Que responsabilidade! E como alguém pode tomar essa tarefa levianamente? Infelizmente se faz muitas vezes. 

E a causa disto é que não vigia na sua relação para com Deus e para com os homens. A obra pode se tornar uma profissão, um meio de ganhar a vida, sim, às vezes uma ambição  inconcebível que isso aconteça numa chamada tão altruística, mas, infelizmente, a experiência da história da Igreja nos mostra que é assim. Pode se preocupar com a profissão, com o título, etc., e o objeto do seu serviço - as almas - ficam no plano periférico. Profissão, salário e honra se tornam o mais importante, e as almas ficam sem importância. Uma caricatura funesta daquilo com que um servo de Deus deveria se preocupar! 

Busca o que é seu em vez do que é de Deus. Isso acontecia muito no tempo de Paulo. Havia muitos aios, mas poucos pais. E tem se repetido em todos os tempos - também é muito comum em nossos dias. Os aios têm um senso bem desenvolvido a respeito de como tudo e todos devem ser e agir, e usam seu chicote com ousadia. 

Dizem: "eu amo a verdade, e quero dizer-lhes a verdade, mesmo que fique sozinho". 

E se continuam por muito tempo neste espírito, acabam por ficar só mesmo. Sim, poucos pais! Pais que possam dizer: "vos retenho em meu coração." (Fp 1.7.) 

"Além dessas coisas exteriores, há o que diariamente pesa sobre mim, o cuidado de todas as igrejas." (2 Co 11.28,) 

"Meus filhinhos por quem de novo sinto as dores de parto, até que Cristo seja formado em vós." (Gl 4.19.) 

"Nós nos apresentamos brandos entre vós, qual ama que acaricia seus próprios filhos. Assim nós, sendo-vos tão afeiçoados, de boa vontade desejávamos comunicar-vos não somente o evangelho de Deus, mas ainda as nossas próprias vidas, porquanto vos tornastes muito amados de nós. Assim como sabeis de que modo vos tratávamos a cada um de vós, como um pai a seus filhos." (1 Ts 2.7,8,11.) 

Se tivéssemos um sentimento de pais assim, nosso ministério seria bem sucedido e feliz.As almas precisam ser admoestadas, exortadas e aconselhadas, mas não devemos esquecer que também precisam ser guiadas, consoladas e estimuladas. Elas têm necessidade de ser guiadas para pastos verdejantes e para águas tranquilas. 

E, quando precisarmos admoestar, oxalá que pudéssemos fazê-lo como Paulo, "com lágrimas" e "pela mansidão e benignidade de Cristo". 

Ele era como um pai amoroso e uma mãe meiga! Devemos lembrar que é muito mais fácil ser negativo do que positivo, tanto na pregação como no trato das pessoas. Nossa inclinação humana é reparar os defeitos e erros, e não como esses serão remediados. 

Por isso não é necessário ser dotado de grande inteligência, nem de espiritualidade especial para dizer como as pessoas devem ser, mas precisa-se de muita graça e sabedoria para trazer a palavra que liberta - que mostra a saída das dificuldades. Aqui está, realmente, um dos tropeços mais perigosos para os servos do Senhor! Nunca devemos esquecer que fomos enviados com o evangelho! E isto não acusa os que sinceramente reconhecem seus erros e os confessam, pelo contrário, Ele absolve e revoga a sentença. Isto é, as novas de alegria, cheio de graça, poderosa para salvar e transformar. 

Precisamos, com diligência e zelo - pela luz e auxílio do Espírito Santo - estudar e associar-nos à valorização que Deus faz das almas que havemos de velar. Quanto custaram a Ele de amor, sacrifício, cuidado e trabalho. Assim como o grande alvo e os gloriosos planos que ele tem com cada uma delas. 

Nossa responsabilidade é, de fato, muito maior do que a de um médico. O serviço dele é ligado ao corpo, e por isso somente o que é perecível; enquanto nosso serviço é concernente à alma, a qual vale mais do que o mundo inteiro, e por isso tem consequências não só para o tempo, mas para a eternidade. 

Isso deve nos impressionar fortemente, e levar-nos a examinar-nos a nós mesmos! Somos tão acostumados a dirigir o holofote da palavra na direção dos outros, que esquecemos a nós mesmos com facilidade. Mas é verdade, agora como antes! "Tem cuidado de ti mesmo e do teu ensino, persevera nisto! Porque fazendo isto, te salvarás, tanto a ti mesmo como aos que te ouvem." (1 Tm 4.16.) 

Que promessa maravilhosa é ligada a essa exortação! Esta promessa também é nossa!

É verdade que temos de lidar com pessoas de todos os tipos. Uns são dispostos a ouvir e obedecer, outros são indolentes e contrários. Em alguns, o caráter cristão se forma em pouco tempo, enquanto em outros vai mais devagar. Mas, devemos lembrar; se os materiais são diferentes, e há o que é muito difícil para formar, Jesus morreu por todos, e Ele deixa a porta das possibilidades aberta para cada um em particular. E nunca esqueçamos, que nem sempre é a má vontade que faz alguém mais difícil, mas que a hereditariedade e o ambiente é um cargo pesado para muitos. 

São cheios de complexos e ideias erradas. Para eles não é tão fácil como parece para nós. As tempestades da vida têm maltratado a muitos. Desapontamentos, experiências tristes, condições e pessoas têm deixado feridas, medo, desconfiança e complicações no seu interior. E Deus que sabe e entende tudo e julga justamente, tem compaixão, paciência e clemência. Ele sabe que o vaso pode se quebrar no processo de formação, mas o toma de novo e coloca na roda. Assim é Deus! 

E não deveríamos aprender dEle? Além disso, não deveria a maneira com que Jesus tratava seus discípulos, servir como exemplo para nós? 

Vê o que a paciência dEle conseguia! O Simão inconstante se tornou Pedro - o homem da rocha - e o filho do trovão, João, se tornou o apóstolo do amor. Sim, Deus pode! 

O ponderável é que os guias hão de prestar conta das almas que o Senhor lhes entregou. Vemos que alguns farão gemendo. Uns por causa de almas obstinadas, outros por causa da infidelidade própria. Feliz aquele que pode dizer: "Portanto, no dia de hoje vos protesto que estou limpo do sangue de todos.Porque não me esquivei de vos anunciar todo o conselho de Deus." (At 20.26,27.) 

Paulo não somente deu-lhes o evangelho, mas sua própria vida, e não pregava como aquele que queria agradar aos homens, mas a Deus, que prova os corações. (1 Ts 2.3,4.) 

Será um acontecimento sério o de darmos conta das ovelhas! Quando os olhos de Deus vão pairar sobre nosso trabalho. A aparência não será o importante, mas a condição interna. Por que tenho trabalhado? Quais foram os motivos que me incentivaram? Qual o poder que me controlava? Eis o que vai ser provado. Haverá muitos - por certo - que vão prestar conta "com alegria". Serviam as almas com zelo e fidelidade, em amor, desinteressadamente. Lutavam pelas almas em oração, exortavam, corrigiam e admoestavam-nas com lágrimas. Consolavam e animavam nos dias de adversidade. Inspiravam coragem, esperança e fé nas almas temerosas e duvidosas. Estimulavam-nas para serviço e labor e apontavam as riquezas em Cristo. 

Guiavam-nas para os pastos verdejantes das escrituras e as ajudavam a elevar seu olhar para a terra celeste. Foram fiéis na sua obra, e a recompensa os espera! Mas o caso é também muito sério para aqueles que são guiados. O pastor pode fazer sua obra com fidelidade, mas as ovelhas podem ser obstinadas. Não querem ser guiadas. E por causa disto o pastor estará diante do tribunal de Cristo gemendo. Por isso diz a Palavra: "Obedecei a vossos pastores, sendo-lhes submissos." 

Quantos pastores não há, que têm a dolorosa experiência de admoestar com amor para ouvidos surdos! Aquele que ele queria guiar era como enfeitiçado. 

Assim que teria vontade de dizer como Paulo: "Oh insensatos, quem vos fascinou?" E ainda: "Estou perplexo a vosso respeito." Mas não seria útil para os hebreus que os seus guias prestassem conta com gemido. E isto se refere naturalmente a todos. Por isso peça a Deus um coração quebrantado e um espírito voluntário, para que seja seu desejo fazer a vontade de Deus. Tenha medo de todo desejo de oposição, e será uma alegria obedecer os guias - aqueles que Deus tem colocado para instruir e governar. Isto será útil para você tanto aqui, na terra como diante do tribunal de Cristo! 

Às vezes se nota uma tendência de desprezo do governo espiritual. Temos um exemplo assustador na história de Israel. Uma parte do povo, com Coré como líder, se ajuntou contra Moisés e Arão e disseram: "Demais é o que vos arrogais a vós, visto que toda a congregação é santa, e o Senhor está no meio deles; por que, pois, vos elevais sobre a assembleia do Senhor?" (Nú. 16.3.) 

Não queriam respeitar a posição de liderança que Deus havia dado a Moisés e a Arão. Não entraremos em pormenores aqui. Basta somente apontar o fim horrível desses rebeldes contra Deus e sua ordenança. Deus mostrou a Israel e a todos os povos que os ministérios que Ele ordenou, hão de ser respeitados. 

Não por causa da pessoa, mas por causa do ministério. Sempre se manifestava que ninguém pode ignorar ou se rebelar contra as ordenanças de Deus, sem consequências tristíssimas. Isto já temos visto, mas será revelado mais claro no dia de prestarmos contas. Deus permita que seja um dia feliz para todos nós! "Procura apresentar-te diante de Deus' aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade." (2 Tm 2.15.)


A IDEIA DA RECOMPENSA E CERTA?
Quando abordamos o assunto de recompensa, há muitos que se admiram e perguntam: será isto certo? Eles acham, em primeiro lugar, que revela falta de humildade. Devemos ser gratos se conseguirmos entrar pela porta do céu! 

Segundo, muitos têm medo de que servir para ser recompensado os desvie da graça e os leve a uma vida de escravidão. 

E terceiro, não é o pensamento de recompensa que deve nos constranger a trabalhar, mas unicamente o amor. Acredito que é justo examinar-nos com relação a isso. Mas uma coisa é certa: a Bíblia fala muito a respeito de recompensa - galardão pelo serviço e trabalho fiel. E o galardão varia - "galardão segundo o seu trabalho". (1 Co 3.8.) 

Há diferença na perdição (Lc 10.12-15) e o mesmo acontece na glória - no dia da recompensa. Alguns hão de ver sua obra ou parte dela se queimar, e se salvarão como pelo fogo, enquanto outros serão galardoados. Uns brilharão como o firmamento e outros como as estrelas. E como a lua, o sol e as estrelas são diferentes em fulgor, assim também será na ressurreição dos mortos. (1 Co 15;41,42.) 

Uns conseguem somente entrar, enquanto outros terão uma entrada ampla. (2 Pe 1.11.) 

E não seria injusto se fosse de outra maneira? Não temos nós as mesmas possibilidades? O que se exige é bondade e fidelidade - fidelidade no pouco. Deus jamais exigiria mais do que é justo. Ele exigirá conforme o que temos recebido de aptidão espiritual e natural, e conforme as possibilidades e oportunidades. 

Ele abriu as portas das suas riquezas para todos nós. Ninguém tem razão para se desculpar. E seria em harmonia com as leis espirituais que a glória fosse igual para todos? Não deveria influir nossa maneira de viver? Sim, absolutamente! 

Pense, por exemplo, em alguém que vive uma vida egocêntrica e comodista, sem se dedicar à obra do Senhor ou salvação de almas, enquanto vemos um outro que se dedica inteiramente ao Senhor. Ele dedica seu tempo, seus talentos e suas forças à obra do reino de Deus, e a recompensa seria igual? Não, isto seria contra toda a justiça, e contra a lei concernente à semeadura e à ceifa. O lavrador sabe muito bem que ele não é capaz de fazer um único pendículo brotar da terra. 

É Deus que dá crescimento. A terra de si mesma produz fruto. Mas ele sabe também que o dever dele é arar, aplanar e preparar a terra. Recompensa pelo seu trabalho ele recebe na ceifa. Assim acontece em todos os setores da vida, também nos espirituais. Ninguém acha absurdo que o lavrador preguiçoso não tenha uma ceifa tão abundante como aquele que é diligente. É natural! E a graça não desaparece nisto. 

Não é Deus que, em Cristo, tem cuidado de nós? Não é Ele que nos escolheu para um serviço determinado? Não é Ele que nos preparou, tanto espiritualmente como humanamente, para efetuarmos e terminarmos este serviço? Nós não somos capazes, por nós mesmos. Nossa capacidade vem de Deus. Com isto a graça aumenta (Ef 3.8). 

Não somente salvo, mas cooperador de Deus escolhido por Ele mesmo para o ser! É de se admirar que Deus não queira que recebamos a graça em vão? E seria absolutamente egoísmo esperar recompensa pela obra feita com fidelidade e perseverança? Não é algo que Deus ordena para nossa vida, que obra realizada seja remunerada? Moisés "tinha em vista a recompensa", e isto deu-lhe força para recusar os tesouros do Egito e entrar no serviço para o qual foi chamado. (Hb 11.26.)
E nosso Salvador "suportou a cruz" por causa do "gozo que lhe estava proposto" (Hb 12.2). E Paulo falou de exercer domínio próprio em todas as coisas, para poder correr e ganhar o prêmio - a coroa incorruptível (1 Co 9.25). 

Ele tinha uma paixão santa; alcançar o alvo e ganhar o prêmio. Isso nada tem a ver com a natureza de escravo, mas é livre que serve porque o amor enche o coração. É o filho que espera ver o sorriso do pai, porque sabe que está em harmonia com o desejo e a vontade do pai. É justamente assim que o filho se sente livre. 

O Senhor prometeu recompensa em relação aos diferentes serviços para os quais nos chamou. E como já foi mencionado - isto há de acontecer na vinda de Jesus. "Eis que venho breve e minha recompensa está comigo, para retribuir a cada um segundo a sua obra." (Ap 22.12.) 

Mais claro não pode ser dito. Será um dia de alegria para o ganhador de almas. Paulo o tinha em vista com grande expectativa. Ele escreve aos tessalonicenses: "Porque, qual é a nossa esperança, ou gozo, ou coroa de glória, diante de nosso Senhor Jesus na sua vinda? Porventura não o sois vós?'" (1 Ts 2.19.) 

As lutas, fadigas e os sacrifícios tinham sido grandes. Ele tinha sentido dores de parto por eles, e tinha posto tudo de lado para ganhá-los para Cristo, mas agora se esqueceu de tudo. A gloriosa recompensa sobrepujou 'a tudo. "Os que converteram a muitos para a justiça resplandecerão como as estrelas sempre e eternamente." (Dn 12.3.) 

Quando Paulo escreve sua última carta, ele já sabe que o martírio o espera. "Já estou sendo derramado como libação - a partida está próxima." 

Que testemunho maravilhoso ele nos dá: "Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé. Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o justo juiz me dará naquele dia, e não somente a mim, mas também a todos que amaram a sua vinda." (2 Tm 4.7-8.) 

Aqui vemos uma recompensa pelo serviço feito com perseverança. Um ministério que Paulo renunciava a tudo para poder completar. Ele não tinha sua vida como preciosa, em nada para si, contanto que completasse sua carreira e o ministério que recebeu do Senhor Jesus. (At 20.24.) 

Como está você, meu caro irmão? Você se esforça para alcançar o alvo? Ou deixa que outras coisas o distraiam na carreira? Conta-se das grandes competições de corridas, no tempo de Paulo, que os espectadores apostavam grandes somas de dinheiro nos seus favoritos. Acontecia que usavam truques para poder distrair os competidores. Jogavam maçãs de ouro ou outras coisas brilhantes na frente deles. Se eles os pegassem, perderiam segundos preciosos, e com isto provavelmente a corrida. Não deixe alguma coisa perturbar a sua corrida. 

A recompensa o espera! Na carta de Tiago, e também em Apocalipse, podemos ler que a coroa da vida é prometida àqueles que perseverarem nas tentações, nos sofrimentos e no martírio. 

"Bem-aventurado o homem que suporta a provação, porque, depois de aprovado, receberá a coroa da vida, que o Senhor prometeu aos que o amam." (Tg 1.12.) "Sê fiel até a morte e dar-te-ei a coroa da vida." (Ap 2.10.) 

Na primeira carta de Pedro, capítulo 5 e versos 2-4 há a promessa da imarcescível coroa da glória àqueles que mostraram fidelidade no serviço como pastor. Ser um verdadeiro pastor exige cordialidade, abnegação e sacrifício. Não pode dominar, mas precisa ser um exemplo para o rebanho. Precisa exortar como um pai, e ser dócil como uma mãe - aconselhar, consolar e ajudar. 

É o rebanho de Deus que se apascenta; são as ovelhas e cordeirinhos do Senhor Jesus. São aqueles por quem o Senhor Jesus morreu. São propriedades dele. Graças a Deus! Ele observa quem faz seu serviço com fidelidade. E o galardão Ele entregará na presença dos habitantes celestiais. Isso valerá mais do que todo o reconhecimento e recompensa aqui.


O SENHOR ESPERA JUROS E CRESCIMENTO

(Mateus 25.14-30)

O Senhor Jesus dá uma parábola aqui, que ilumina bem o nosso tema. (Leia também Lucas 19.12-26.) Um homem ausentou-se do país, mas antes de viajar, ele entregou seus bens aos seus servos, para sua administração. Depois de muito tempo ele voltou. então veio a hora de prestar contas, para aqueles a quem foram confiados os bens. Para dois deles foi um momento de alegria, para o terceiro de tristeza. 

Os primeiros receberam mais ainda. Deus pôde confiar-lhes maiores riquezas, enquanto o infiel perdeu até o que tinha, e foi lançado nas trevas exteriores. É horrendo pensar nisto, ele foi chamado servo "mau" e "preguiçoso". Recebeu um talento que poderia dar juros e assim crescer para dois, mas ele o escondeu na terra. Ficou sem ser posto em movimento. Ele não aproveitava as possibilidades que Deus lhe deu. 

As oportunidades não foram usadas. Pode ler isto sem ser impressionado? Sem sentir a responsabilidade pesar sobre si? Na parábola das minas todos receberam a mesma quantia. Será que isto não se trata da salvação? Nela somos todos iguais. Temos o mesmo perdão e renascimento, somos todos filhos de Deus - e filhos com os mesmos direitos. Nosso Pai é bastante rico para com todos. Aqui não há diferença. Mas a respeito dos talentos havia grande diferença, e ninguém tinha responsabilidade por mais do que havia recebido. Mas por isso tinha. 

E acredito que isto se refere às bênçãos e dádivas espirituais que temos recebido. e também à capacidade natural junto com as possibilidades e oportunidades. E aqui há grande diferença. Uns são mais dotados do que outros, e uns recebem um campo de serviço mais fácil do que outros. O que importa é que sejamos fiéis naquilo que Deus nos entregou, no lugar onde Ele nos colocou. É comovente pensar que Deus tem um plano para cada um de nós. Que graça poder crer que não estamos neste mundo por acaso, mas pela vontade divina. E Ele tem-nos destinado para serviços determinados nesta vida. 

"Somos feituras sua, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus antes preparou para que andássemos nelas." (Ef 2.10.) 

Sim, destinados para obras que estão esperando por nós. Devemos achar essas obras e andar nelas. 

Isto implica que perguntamos o que Ele quer e deixamos Cristo ser o Senhor. Andamos em jugo com Ele e obedecemo-lo em tudo. Assim Ele dá o que precisamos para fazer o seu serviço. E dessa maneira construímos com "prata, ouro e pedras preciosas". 

Em Apocalipse 19.7,8 estão registradas algumas palavras admiráveis, que explica o que estamos falando: "São chegadas as bodas do Cordeiro, e já a sua noiva se preparou, e foi-lhe dado vestir-se de linho fino, resplandecente e puro; pois o linho fino são as obras justas dos santos." Isto não é escravidão! "Foi-lhe dado obras antes preparadas." Mas ela precisa vestir-se, andar nelas. 

Devemos descansar das nossas obras, mas não das de Deus. E devemos ter bem vivo em nossa mente, que embora sendo "libertos do Senhor", somos "escravos de Cristo" - "debaixo da lei de Cristo." (1 Co 7.22 e 9.21.) Quando efetuamos e completamos o plano de Deus, pela graça, sabedoria e força que Deus concede, as obras ficam feitas "em Deus", isto quer dizer dEle e por meio dEle. 

E passarão pela prova de fogo. Você acha que seria injustiça de Deus esperar rendimento daquilo que nos deu? Não é assim na natureza inteira? Um pequeno grão não tem a possibilidade de ser muitos? A terra não dá com multiplicidade o que recebe? Deveria reinar outra lei na vida espiritual? 

Aquele, com um talento, pensou que tudo seria bem, devolvendo o que ele recebeu. Nada foi esbanjado. Mas como se enganou! Pois o que Deus dá tem em si capacidade de força - se for usado da maneira certa - para alimentar e multiplicar. Por isso Deus exige rendimento. Pense na aptidão natural! Não é natural pensar que o de maior capacidade é destinado para um serviço maior no reino de Deus? Sua influência é maior do que a de um ordinário, se ele for fiel. É conforme a fidelidade em relação à capacidade que contas serão exigidas dele. 

Mas sabemos, entretanto, que a maior capacidade nada vale na obra de Deus, se o poder de Deus e os dons espirituais não são ligados a ela e a usam. E será possível receber essas riquezas de Deus, riquezas tais que são uma manifestação de sua graça, sabedoria e poder, sem que elas deem fruto e crescimento? 

Seria injustiça que Deus espere isto? Um bom dote natural não é dado para glória própria, e as bênçãos espirituais não são dadas para usufruto pessoal. São dadas para servir os planos de Deus e dar fruto para eternidade. 

O recebimento das dádivas de Deus, sejam naturais ou espirituais, não é um alvo em si mesmo, mas meios para servir o decreto do Deus onisciente. Foi por meio da graça que recebeu, que o apóstolo "trabalhava mais do que todos". (1 Co S.10.) O grande serviço era o resultado de graça recebida. O poder de Deus e os dons espirituais são dados para servirmos uns aos outros e construir o reino de Deus. "Servindo uns aos outros conforme o dom que cada um recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus. 

Se alguém fala, fale como entregando oráculos de Deus; se alguém ministra, ministre segundo a força que Deus concede; para que em tudo Deus seja glorificado por meio do Senhor Jesus Cristo, a quem pertencem à glória e o domínio para todo o sempre, amém." (1 Pe 4.10,11.)


DEUS ESPERA FIDELIDADE NA VIDA PRÁTICA E NAS COISAS MÍNIMAS.

Temos a tendência de pensar que a grandeza no reino de Deus consiste em experiências especiais, com emoções maravilhosas, visões e ministérios espirituais. Temos facilidade de espiritualizar tudo. Naturalmente, este lado tem seu lugar, mas é somente um lado. A graça de Deus e o cristianismo vivo são muito práticos. 

O Senhor Jesus revelou um cristianismo cotidiano! E se as nossas experiências espirituais não dão um resultado prático na vida cotidiana, realizando obras, nada nos adiantam. Isto também será provado diante do tribunal de Cristo. Não pense, todavia, que é somente o evangelista, o pastor ou o mestre que hão de prestar contas. Todos havemos de fazê-lo, Será julgado como temos aproveitado as possibilidades naturais e práticas que Deus nos deu. Não se trata de estar em posições notáveis. É possível que a vontade de Deus para com você é que você seja um dos muitos soldados desconhecidos. 

Esses que, apesar de serem anônimos, são tão necessários para a vitória na batalha. Não se esqueça de que, aos olhos de Deus, o menor serviço tem valor, porque serve uma grande unidade. "Você foi fiel no pouco", foi dito ao servo bom. O menor membro é necessário no corpo, a pedra invisível no prédio, é tão indispensável como aquela na fachada. A menor roda numa máquina é tão importante como a maior. 

O detalhe mínimo precisa funcionar. Precisamos ser fiéis, tanto recebendo um como cinco talentos para administrar. Mas acho que o perigo é maior para aquele que recebeu pouco; é mais fácil ser ocioso e infrutífero. Entretanto, prestar conta, todos vamos fazer; para desapontamento de alguns e alegria de outros. Oxalá sejamos destes e não daqueles! Contudo, não serão as "grandes pregações", nem os "momentos exaltados" a serem avaliados, mas a graça de Deus realizada em obras práticas de amor. 

Aqueles que foram injuriados, escarnecidos e perseguidos por causa do nome do Senhor Jesus, receberão grande recompensa. (Mt 5.11,12.) 

Um jovem me contou que não se tinha passado um dia sequer, desde que foi salvo, sem seu pai o amaldiçoar por causa da sua atitude cristã. Para ele a recompensa será maior! O martírio de muitas esposas também receberá seu prêmio. Sim, todos que sofreram com ele, também serão glorificados com ele. A tribulação produz mais abundantemente um eterno peso de glória. A generosidade e a misericórdia terão sua recompensa. Se você convida para festa aqueles que não "possam retribuir", você não somente é bem-aventurado aqui, mas terá recompensa na ressurreição dos justos. (Lc 14.13,14.) 

Assim é a doutrina de Jesus. Em Mateus 10.41,42 temos umas palavras notáveis: "Quem recebe um profeta na qualidade de profeta, receberá a recompensa de profeta; e quem recebe um justo na qualidade de justo, receberá a recompensa de justo. 

E aquele que der até mesmo um copo de água fresca a um destes pequeninos, na qualidade de discípulo, em verdade vos digo que de modo algum perderá a sua recompensa." Por conseguinte, tudo que para nós parece pequeno e insignificante, a saber, dar comida e pousada para um servo do Senhor, e dar um copo de água fresca para um discípulo, é grande e de muito valor aos olhos de Deus, quando feito em espírito de amor e com os motivos retos.
Estes, aparentemente pequenos, serviços e obras de amor para com pobres, doentes e necessitados, e palavras de consolo e encorajamento para as almas abatidas e contritas, são de muita estima aos olhos de Deus. 

Porque isto está em harmonia com a mente e a natureza do Senhor Jesus, que se compadece daqueles que são angustiados e aflitos. Além disto, não nos causa elogios e louvor, e consequentemente é mais separado do nosso ego. E nestes atos, nossas qualidades melhores se revelam. 


Quero destacar com precisão nosso relacionamento ao "Mamom injusto", nosso uso dele. Justamente à luz do julgamento diante do tribunal de Cristo. Receio que muitos filhos de Deus não compreendem isto, da maneira bíblica. 

Pensam que eles mesmos têm direito de decidir como usar seus bens materiais, e suas próprias necessidades têm preferência. Se sobrar alguma coisa para a obra de Deus, bom é! Não tem uma convicção definida de que as "primícias" pertencem ao Senhor, e que sua recepção no céu tem algo a ver com a maneira de administrarem os bens que Deus lhe confiou aqui. 

Alguém, por certo, pode achar que minha última afirmação é muito audaz, mas a Palavra de Deus indica que estou certo. Quando os crentes são dominados pelo pensamento de que eles têm o direito de aplicar seus bens segundo seu bel-prazer, e que há pouca ou nenhuma ligação entre a vida material e a espiritual, isto não deixa de ter consequências. Provavelmente gastam o máximo para seu próprio interesse, e, se possível, acumulam em bancos e em propriedades, enquanto o reino de Deus recebe o mínimo. 

Dando muitas vezes segundo o sentimento e o humor, e não conforme o plano de Deus. Mas, se não antes, diante do tribunal de Cristo, descobrirão seu grande erro, e mudarão de opinião. 

A Bíblia tem as mais severas admoestações para "aqueles que querem ser ricos". 

"Porque' o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males, e nessa cobiça alguns se desviaram da fé, e se transpassaram a si mesmos com muitas dores" (1 Tm 6.9-10), e mais: "os que querem tornar-se ricos caem em tentações e em laço e em muitas concupiscências loucas e nocivas, as quais submergem os homens na ruína e na perdição." 

Pode ser dito mais claro e mais severamente a respeito do perigo do "Mamom da injustiça"? Não há poucos que apostataram da fé por não usarem as riquezas segundo a vontade de Deus. Isto a experiência nos mostra. Não é o propósito de Deus, que aqueles que têm sua pátria no céu, ajuntem tesouros para si aqui neste mundo. 

Naturalmente, é necessário que, por exemplo, um comerciante tenha capital para as finanças do seu empreendimento. Mas quem tem a compreensão espiritual certa, deseja - se a ele é confiado muitos bens materiais - dirigir sua vida e a da sua família, e também o seu comércio, de maneira tal que o máximo pode ser aproveitado para os pobres e para a extensão do reino de Deus. É verdade que Deus espera isto, sim, Ele o exige! Os bens materiais nos são confiados para produzir o que é bom, e para serem transformados em valores espirituais e eternos. 

E isto não se refere somente àqueles que receberam muitos bens materiais. A mesma regra é para todos. A "oferta da viúva pobre" sempre tinha muita importância para a promoção da obra de Deus. Todos devemos dar segundo as nossas possibilidades, e de coração. Jesus nos deu um ensino extraordinário e maravilhoso a respeito deste lado de nosso serviço a Deus. (Lc 16.9-12.) 

Há diversos aspectos nisto, mas quero especialmente atrair nossa atenção para os valores espirituais que se ganham por meio da entrega do "Mamom injusto" ao serviço de Deus. Escute as palavras do Senhor Jesus: "Granjeai amigos por meio das riquezas da injustiça, para que, quando estas vos faltarem, vos recebam eles nos tabernáculos eternos." 

O véu do nosso lar celeste está sendo descortinado, e podemos ver amigos nos dando boas-vindas ali. Amigos que nós mesmos ganhamos, usando de maneira certa nossos bens materiais. 

Palavras extraordinárias, não é? Nunca tomou isto a sério? Aqui há sabedoria divina. O que é profano e efêmero pode ser transformado em valores espirituais e eternos. Nosso olhar é elevado do que é pequeno para o que é grande, do presente para o celeste, do que é perecível para o que é eterno. Isto é valorização à luz da eternidade! Nosso dinheiro nos ganha amigos para a eternidade! 

Quando os crentes do Brasil - juntos com os santos de todos os lugares - chegarem ao lar celeste, hão de encontrar africanos, índios e almas de outros campos missionários, dando-lhes as boas-vindas. Mostrar-se-ão como amigos. Quando os crentes do Brasil se admirarem, esses seus amigos poderão dizer: "Vocês usavam seu dinheiro para enviar missionários para nos contar as boas novas do Evangelho. Por causa disto fomos salvos. Se não tivessem vindo, não teríamos a oportunidade de ouvir e crer. Então não estaríamos aqui, mas na perdição." "Mas os mensageiros não poderiam vir se alguém não os enviassem. Por isso agradecemos-lhes, porque davam dos seus bens, e assim possibilitavam aos mensageiros saírem." Que graça maravilhosa! 

Podemos aplicar nosso dinheiro duma maneira tal que terá valor para a eternidade; permutando-o em valores celestiais. Que possibilidades para ajuntar tesouros no céu! Você provavelmente não tem muita aptidão para influenciar outros, mas pode fazê-lo indiretamente, sustentando outros que têm essa aptidão. Você pode ser a pequena roda que faz a maior movimentar-se, e, por isso, indispensável. Se você falhar, haverá consequências para aquele que é dependente de você. Isto é aflitivamente sério! Há muitos que querem ir, mas não podem. 

Falta dinheiro. Por isso uns têm que parar, e outros não podem começar. Há falta na casa de Deus, e as ofertas são retidas. E as consequências? Muitos ficam sem ouvir o Evangelho e se salvarem.

Como pode ter ousadia para usar tanto para si mesmo e tão pouco para espalhar a mensagem da salvação? 

Como pode, com consciência tranquila, ajuntar tesouros aqui, sabendo que com estes poderia salvar almas das trevas de perdição? Cuida da sua casa, enquanto a casa de Deus é desolada! Como pode fazer isto e ainda dizer que é salvo? Como pode ter ousadia para se aproximar de Deus em oração, enquanto usa egoisticamente as possibilidades que Deus lhe confiou? 

E como pode confiar na salvação que custou tudo para o Senhor Jesus, vivendo tão longe daquele espírito de sacrifício que impeliu o Senhor Jesus para o Gólgota? Você nem é fiel "no pouco", nas riquezas deste mundo, como Deus pode, então, confiar-lhe o que é "grande"? Os tesouros espirituais e verdadeiros? E como será o seu encontro diante do tribunal de Cristo, quando há de prestar conta? Terá amigos lá para lhe darem as boas-vindas? 

O Apóstolo Paulo também tem umas palavras notáveis a dizer a respeito das riquezas deste mundo: "Mande ... que pratiquem o bem, que se enriqueçam de boas obras, que sejam liberais e generosos, entesourando para si mesmos um bom fundamento para o futuro, para que possam alcançar a verdadeira vida." (1 Tm 6.17-19.) O que nos diz isto? Senão que a generosidade, a liberalidade e as boas obras terão valor na eternidade! Enquanto você anda nas obras que Deus antes preparou, você se veste do "linho fino", que são as obras justas dos santos, e receberá o que fez por meio do corpo.

Sabendo que podemos servir ao Senhor com as nossas propriedades (Lc 8.3), e dessa maneira ganhar tesouros para a eternidade, o serviço se torna um privilégio. E não só isto, mas o nosso coração se prende ao lugar onde está o nosso tesouro. Há um acontecimento que tem me comovido muito, cada vez que tenho me lembrado dele ultimamente, e cabe mencionar aqui. 

É a respeito de um mui amado irmão, que recebeu mais das riquezas deste mundo, do que a maioria. Mas ele vive como um a quem foi confiado tudo isto por Deus, para administrar. Ele usa seu dinheiro para servir a Deus. Deixe-me mencionar um acontecimento especial, que tem tido resultados grandes e extensos. Penso nisto com muita gratidão a Deus.
Deus lhe falou que deveria construir um local para reuniões numa cidade grande, e ele obedeceu à voz divina. Não foi erguido num lugar central da cidade, nem numa circunvizinhança muito boa e bonita, naquela época. Mas, com o decorrer dos tempos, tem sido manifestado que era a vontade de Deus. 

As reuniões foram bem frequentados, e uma igreja local se formou, porque almas foram salvas. Depois de uns anos compraram o local por muito menos do que custou. Mais tarde este local precisou de ser ampliado e a obra de Deus tem tido muito progresso naquela cidade. A maior escola dominical da cidade se reúne nesse local; e quando isto é escrito, essa igreja tem mais de mil membros. 

Muitos missionários saíram dessa igreja. Além disto, diversos obreiros - saindo dessa igreja - estão servindo ao Senhor na pátria.
Temos direito de pensar - humanamente - que esta obra tão florescente não teria existido, se aquele irmão não tivesse construído o primeiro local por sua conta. C

om arrepio penso nos valores eternos, que provavelmente teriam sido perdidos, se ele não tivesse permanecido fiel! Agora essa igreja fica como um farol luminoso naquele bairro. Multidões têm sido guiadas até o porto da salvação; sim, milhares têm recebido bênçãos do Senhor ali. Somente a eternidade vai revelar o verdadeiro valor! 

E tudo isso só porque um homem se prontificou a servir! Oh, quantos se apegam tanto às coisas perecíveis! Mas um dia terão que deixar suas riquezas, e quão pobres ficarão no outro lado! Não ajuntaram tesouros ali, tesouros que nem traça, nem ferrugem podem consumir.
Que triste. Tiveram as maiores possibilidades, mas não as aproveitaram! Conta-se de uma senhora rica e religiosa que teve um sonho. No sonho ela se viu no céu, e com um anjo a acompanhá-la, mostrando-lhe tudo o que havia ali. 

Ela viu as moradas dos santos. E aproximando-se de uma casa grande e bela, ela pensou: "Esta deve ser minha". Era acostumada a morar em casas desse tipo na terra, e por isso pensou que seria o mesmo no céu. Mas ficou sabendo que essa casa pertencia à sua empregada. Com o conhecimento disto, ela ficou na expectativa de receber uma ainda mais esplêndida. Estava ajustada à diferença entre as classes na terra. 

Ansiosa para ver a sua, o anjo a levou para uma casa pequena e simples. Decepcionada, ela queria saber porque a casa de sua empregada era muito maior e melhor do que a dela. Então ela ficou sabendo que não tinha enviado material que desse para uma casa maior e melhor. Eles tinham feito o melhor possível com a escassez de material. 

A empregada Ana, ao contrário, tinha mandado material em abundância. Por isso tinha uma casa ampla e bonita. Isto foi só um sonho, mas cheio de sabedoria e verdade. É justamente o que a Bíblia diz., Entreguemos tudo à disposição de Deus! O que somos, o que temos, nosso tempo, nossas aptidões, forças e bens, sim, tudo! Depositemo-nos na Sua conta, para Sua honra, e para salvação, utilidade e bênção dos homens.


CONCLUSÃO

Os motivos de nossas obras e o espírito em que foram feitas pesarão mais na balança no dia em que elas serão provadas pelo fogo. O Senhor não pesa somente as ações (1 Sm 2.3), mas também os espíritos (Pv 16.2). E

le vê o que os homens não enxergam, por isso não erra no julgamento. Os desígnios dos corações serão revelados quando cada um receberá "o seu louvor" de Deus. (1 Co 4.5.) 

O servo fiel ouvirá: "Servo bom e fiel", etc. Bondade e fidelidade são resultados do caráter transformado. Notemos isto! Que bom que não se diz, por exemplo: "Servo afortunado e próspero", mas são recompensadas a bondade e a fidelidade. 

É inevitável que alguns sejam mais afortunados do que outros. Chegam no momento certo, para campos maduros, prontos para serem ceifados, depois de lutas de semeaduras. Sua tarefa é mais fácil e causa mais louvor pelos homens, do que o serviço daqueles que lavraram e prepararam a terra e semearam fielmente a palavra da vida. Mas o Senhor vai recompensar com justiça. E provavelmente a conta final aparecerá diferente do que julgamos pela nossa visão curta. Pense na diferença que há no cultivo da terra. E como é no sentido material, assim também é no espiritual. 

Que diferença não há em trabalhar no Brasil e no Tibete, por exemplo! No Tibete pode-se ajuntar umas poucas almas numa barraca para contar-lhes do sacrifício do Senhor Jesus, e há imensa dificuldade em ganhá-las para o Senhor Jesus. São gratos quando se consegue ganhar um por um. Enquanto no Brasil as almas se entregam em massas, e as igrejas crescem rapidamente. Alguém pensa que o galardão será menor para um missionário do Tibete, porque os resultados são menores? Não, absolutamente não! 

Meu coração se comove ao pensar nos mensageiros fiéis que trabalharam naquele país. Eles mostram uma fidelidade que muito ultrapassa a nossa, que trabalhamos num campo muito mais fácil. Os resultados grandes não são sempre causados somente pelo obreiro, mas muitas vezes pelas circunstâncias e acontecimentos favoráveis. Como também pequenos resultados não são sempre a consequência de pouca capacidade, carnalidade ou infidelidade por parte do obreiro. O tempo pode ser especialmente penoso e as circunstâncias difíceis. Pense na experiência do "pregador de justiça", Noé! Mas alguém acha que a recompensa de Noé será pequena? Ele não mostrou uma fidelidade excepcional? 

Por isso a surpresa será enorme no dia da recompensa. Aquele que dos seus contemporâneos foi considerado digno de grande recompensa, provavelmente receberá pouco. Enquanto quem não se fez notável aqui, excederá em glória àquele que recebeu galardão durante seu ministério aqui. 

E justamente porque a vida interna é a que conta, o Apóstolo Paulo tinha a atitude que ele manifesta nas seguintes palavras: "Todavia, a mim mui pouco se me dá de ser julgado por vós, ou por qualquer tribunal humano ... quem me julga é o Senhor." (1 Co 4.3,4.) 

Ele não se interessava pelo que as pessoas pensavam ou julgavam. Para ele importava somente o tribunal de Cristo. As críticas ou os elogios dos homens não o afetavam muito, mas sim, o que Deus - que conhece tudo - pensava da vida dele. Por isso ele apelava aos coríntios que não julgassem coisa alguma antes do tempo. Deixa isto com o Senhor, foi o conselho dele. Eles tinham desentendido, classificado e julgado Paulo, Apolo e Cefas, e com isto mostrado como eram desesperadamente humanos no seu julgamento. "Nada julgais antes do tempo, até que venha o Senhor, o qual não só trará à luz as coisas ocultas das trevas, mas também manifestará os desígnios dos corações; e então cada um receberá de Deus o seu louvor." (1 Co 4.5.) 

O julgamento humano é sempre imperfeito e por isso realmente sem valor. Os homens não veem o coração, mas somente o exterior. Por isso o seu julgamento também é feito conforme o exterior, e não conforme o interior. 

Mas aos olhos do Senhor tudo é descoberto, e é com Ele que temos que tratar, tanto aqui como na eternidade. Bom seria, que Deus, na sua misericórdia, possa purificar e santificar nossos motivos, para que "a fé que opera pelo amor" sempre seja o que nos constranja amor a Cristo, à sua obra e às almas. Que nosso zelo seja o zelo de Deus, e que o nosso amor seja primordialmente amor ao nosso noivo. Então nosso serviço será serviço a Deus e terá a marca da imortalidade. E importa perseverar até o fim para não perder parte da recompensa. Escute o conselho de João: "Olhai por vós mesmos, para que não percais o fruto do nosso trabalho, antes recebais plena recompensa" (2 Jo 8). 

É possível perder algo daquilo que ganhou pelo seu serviço, e assim parte da recompensa. Isto não é coisa séria? Não foi este pensamento que ajudou o Apóstolo Paulo? Note essa expressão forte: "Mas em nada tenho a minha vida preciosa para mim, contanto que complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do evangelho da graça de Deus." (At 20.24.) A carreira e o ministério dado por Deus precisavam ser completos. E por isso tudo foi posto ao lado, sua vida ele não tinha por preciosa. Oh, que comovedor! E que desafio para nós também! Ele comprovou na sua vida que não a tinha por preciosa. (Leia 1 Coríntios 4.9-13; 2 Coríntios 6.3-10 e 11.23-29.) 

Na verdade, havia escassez de recompensa, honra e veneração aqui, mas imagine como ele vai brilhar na glória! Então ele será honrado e recompensado! Esta mesma atitude devemos ter todos nós! Não procurar estimação, honra e fama, mas buscar a honra e a glória do Senhor. E assim nossa entrada será ampla e rica. 

E quando o fim é bom, tudo é bom. O que Deus nos deu tem sido transformado em fruto para a eternidade, e a incumbência e a missão que nos foram entregues são completas. Tudo por Deus e para Deus. Nós somos somente instrumentos que apresentamos para o serviço. A obra de Deus em nós resultou em "querer e efetuar segundo a sua boa vontade". Por isso será escrito sobre toda a nossa obra - se permanecer - graça, graça! 

E Deus será glorificado por meio da sua própria obra. E assim a recompensa será realmente - recompensa de graça. "Portanto, irmãos, procurai mais diligentemente fazer firme a vossa vocação e eleição; porque fazendo isto, nunca jamais tropeçareis. Porque assim vos será amplamente concedida a entrada no reino eterno do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo." (2 Pe 1.10,11.)