O Espírito da Cruz

“Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos céus; bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados; bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra; bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos; bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia; bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus; bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus; bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o Reino dos céus; bem-aventurado sois vós quando vos injuriarem, e perseguirem, e, mentindo, disserem todo o mal contra vós, por minha causa. Exultai e alegrai-vos, porque grande é o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós.”
(Mateus 5:3-12)

A cruz não é somente um fato, não é apenas um modo de tratamento conosco, não é apenas um caminho pelo qual temos que  caminhar, mas a cruz é um espírito. A menosque o espírito da cruz venha em nós, não teremos entrado no significado da cruz. Eu lium livro escrito por um irmão e o título do livro era O significado da cruz e osubtítulo era O molde da cruz.

Ele disse:
Nosso Senhor Jesus só tem um molde para produzir o caráter cristão, e esse é a cruz. Eu e você não poderemos alcançar nosso objetivo se não for da maneira em que Ele alcançou o seu objetivo, e Ele faz passar cada um pelo molde da cruz, a fim de expressa-lo aqui e reinar com Ele no porvir.
Quando realmente conhecermos a cruz, ela irá desenvolver um caráter em nós.
Podemos chamá-lo de espírito da cruz, seremos marcados como o povo com aquele espírito. Ele se toma nosso caráter. É mais do que simplesmente entendimento, apropriação, tratamento ou mesmo rendição. Toma-se uma vida, um estilo de vida, um princípio de vida. Toma-se, sobrenaturalmente natural para nós, para todas as nossas ações e reações. Nos marca como um povo especial. Este é o espírito da cruz.

O ESPÍRITO DO CORDEIRO

Nosso Senhor Jesus é chamado Cordeiro morto desde a fundação do mundo.
"Cordeiro de Deus" se tomou seu nome. Desde a fundação do mundo Ele é o Cordeiro morto. Quando esteve na terra foi chamado Cordeiro de Deus, e, como tal, Ele foi a cruz e morreu por nós. Depois de ter ressuscitado, Ele mostrou suas feridas a Tomé e depois de ter sido assunto aos céus, você vê que o Cordeiro está agora no trono. Nosso Jesuspossuía o espírito de Cordeiro que também é o espírito da cruz. Por isso quem segue o Cordeiro também precisa levar essa marca.
A carta aos Gálatas foi para o Apóstolo Paulo muito difícil de escrever, mas ele termina aquela epístola dizendo: "desde agora, ninguém me inquiete, porque trago no meu corpo as marcas do Senhor Jesus ". (Gálatas 6: 17). Havia a marca de Cristo no apóstolo Paulo. Esse é o desafio para cada um de nós. Talvez tenhamos ouvido a respeito da cruz ou experimentado algo do que ela fez por nós. Talvez conheçamos o perdão, a separação, a libertação ou até a vitória vinda da cruz. Talvez, de alguma maneira, até andemos no caminho da cruz e conhecemos o tratamento do ego, do eu.
Mas, não se resume em apenas tratar, render-se, experimentar aqui e acolá. Significa que devemos ser moldados de tal maneira pela cruz que sejamos caracterizados como o povo da cruz. Ou seja, em outras palavras, ternos que ter o espírito de cordeiro conosco sempre. Este é o significado da cruz.

SETE PALAVRAS DITAS NA CRUZ

Acho que a melhor ilustração disso é dada nas sete palavras que nosso SenhorJesus disse na cruz. Através destas sete palavras que nosso Senhor Jesus disse na cruz, ele deu seu espírito a nós e com isso podemos entender algo do que é o espírito da cruz.

Espírito de Perdão
Claro que a primeira palavra que nosso Senhor Jesus disse na cruz está em Lucas 23:34:
Contudo, Jesus dizia: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.
Ele estava sendo pregado e levantado naquela cruz para morrer. A primeira palavra que ele disse foi: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem. Pense naquelas circunstâncias. O homem que o tinha pregado à cruz ficava em volta zombando dele, abusando-o, ridicularizando-o, rindo dEle. Em circunstâncias como essas nosso Senhor Jesus começa a orar de repente: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem. Que espírito diferente é esse! Não havia amargura, apenas amor.
Nosso Senhor Jesus tinha todo o direito de pedir ao Pai por vingança, que julgasse o mundo. Mas ao invés de clamar por vingança, Ele pede ao Pai que perdoe.
Ele pôde fazer aquela oração porque lá naquela cruz Ele se ofereceu como nosso substituto. Deus é justo e sua justiça precisa ser satisfeita. Deus não pode perdoar sem que sua justiça seja satisfeita. Mas nosso Senhor Jesus, porque Ele tinha se oferecido a si mesmo como oferta pelo pecado para Deus, tinha o direito de fazer tal oração: Pai, perdoa-lhes e sua oração foi respondida.

O que é o espírito da cruz? O espírito da cruz é o amor perdoador.
Desde o dia em que nosso Senhor Jesus foi crucificado, através de toda a história da igreja, desde o primeiro mártir cristão, Estevão, até os nossos dias, o último apelo dos mártires é sempre esse: "Não coloque esse pecado sobre eles, perdoa-Ihes". O espírito de perdão é verdadeiramente o espírito da cruz.
Nosso maior problema na igreja hoje é a falta do espírito da cruz. Se nós, como povo de Deus, pudermos manter uma distância um do outro, nós conseguimos ser gentis, corteses. Mas Deus nos coloca juntos em uma intimidade tão grande: nós
trabalhamos juntos, servimos juntos, adoramos e louvamos juntos. E porque estamos tão juntos, começamos a conhecer-nos melhor e começamos a nos achegar um ao outro mais e mais. Por isso, é inevitável que entre o povo de Deus haja inúmeras oportunidades de nos sentirmos ofendidos com o outro. Quando isso ocorrer, qual será o nosso espírito? Será um espírito de clamor por vingança contra nossos irmãos e irmãs? Ou será o tempo para pedirmos ao Pai para perdoar? Um espírito não perdoador impede a benção do Senhor não só sobre a própria pessoa mas sobre toda a igreja.
Somos seguidores do Cordeiro, temos tal espírito perdoador? Não importa o quanto os irmãos e irmãs tenham nos ofendido, e estas ofensas podem ser reais e machucar profundamente - se olhamos para o Cordeiro, se conhecemos o espírito da cruz, não há nada que possamos fazer a não ser perdoar.

Você se lembra de Pedro. Pedro era uma pessoa bem aberta - direta, seca. Um dia ele aproximou-se do Senhor e disse: "Até quantas vezes o meu irmão pecará contra mim, que eu lhe perdoe? Até sete vezes?" (veja Mateus 18 :21). Isso já era muito difícil a Pedro, ele sentia que perdoar sete vezes já seria mais que suficiente. Mas após perdoar seu irmão sete vezes ele pensou que perdoar a oitava vez não parecia ser mais lógico. Assim, ele veio ao Senhor dizendo: "Será suficiente? O Senhor disse: Não te digo que até sete vezes, mas até setenta vezes sete". (veja Mateus 18: 22). Não significa que você deva apenas contar e multiplicar, mas significa que você deve apenas esquecer.
Chegou a uma conta tão grande que você não conta mais, você não lembra mais. Em outras palavras, você perdoa, perdoa, perdoa e perdoa.
Muitas vezes aquilo que o Senhor diz não vai direto ao fim do nosso coração e pensamos: "Isso não tem nenhum sentido". Assim, o Senhor usou uma parábola: “Um rei tinha servos e um deles devia-lhe dez mil talentos” . Não sei como ele acumulou
aquela divida, mas ele jamais poderia paga-la. Ele implorou por misericórdia e o rei o perdoou. Ao deixar a presença do rei, o servo encontrou seu companheiro que lhe devia um pouco, apenas cem denários, quer dizer, o salário de cem dias. E disse ao
companheiro: "Pague ou o entregarei à prisão." Então ele o mandou para a prisão. O rei ouviu o que tinha acontecido e disse: "Se perdoei a você tanto, você não deveria perdoar a seu irmão?" (veja Mateus 18: 24-33).
Irmãos e irmãs, não é verdade que se tomarmos conta do quanto que a nós foi perdoado nos veremos como aquelas pessoas que devem ao Senhor os dez mil talentos?
Mesmo se vendêssemos a nós mesmos, nossa família, tudo, não seriamos capazes de pagar a nossa divida. Está acima de nós. E contudo, nosso Senhor Jesus em Sua grande misericórdia pede ao Pai que nos perdoe. Somos perdoados de muito, não devemos perdoar aqueles que nos ofendem? Esse é o espírito da cruz. Somos um povo marcado por tal espírito?
Temos uma memória tão boa. As coisas boas que os outros nos fazem esquecemos facilmente de uma vez. Mas se um irmão ou irmã nos faz, apenas uma vez, uma pequeníssima coisa que nos magoe, não conseguimos esquecer, não perdoamos.
Está sempre lá. Todas as vezes que vemos aquele irmão ou aquela irmã há algo rasgando dentro de nós. Um espírito não perdoador, um espírito amargo é a razão de não crescermos no Senhor apropriadamente. E a razão porque temos tantos problemas na igreja: irmão com irmão, irmã com irmã, irmão com irmã não conseguem ser unidos na mente, no espírito, no amor. Lembre disso: O espírito da cruz é um espírito perdoador.

Espírito da Graça
A segunda palavra que nosso Senhor disse na cruz está em Lucas 23:43:
Jesus lhe respondeu: Em verdade te digo, que hoje estarás comigo no paraíso.
Nosso Senhor Jesus foi crucificado entre dois ladrões. No começo ambos os ladrões eram iníquos e mesmo quando tinham sido pregados na cruz eles zombaram e ridicularizaram Jesus. Mas algo aconteceu quando um deles ouviu a oração do nosso Senhor Jesus ao Pai pedindo: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem" - fico pensando se aquela oração tocou o coração desse ladrão. Ele foi tocado profundamente e convencido. Ele sabia que estava morrendo porque merecia, mas aquele Homem era inocente. Ele não tinha feito nada de mau. De alguma maneira o Espírito do Senhor abriu-lhe o entendimento e que entendimento que o Espírito de Deus deu a ele bem no final de sua vida. Ele virou para o Senhor e disse: "Jesus, lembra-Te de mim quando vieres no teu reino ". (v 42). Isso não é maravilhoso? Aqui estava um homem crucificado e mesmo assim o ladrão disse: "Lembra-te de mim quando vieres no teu reino. " Ele creu que esse homem que estava sendo crucificado era na verdade o Rei. Apesar de ter sido crucificado, o seu reino viria e o ladrão pediu para ser lembrado por Jesus. O Senhor Jesus disse: "Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso". Não num futuro - você não precisa esperar até um futuro - mas hoje estarás comigo no paraíso.
E todos sabemos que o paraíso é o lugar para onde vão todos os que o aceitam. É o lugar de descanso dos santos que dormem no Senhor. Em outras palavras, o Senhor disse: "Você está perdoado, você está salvo, você está redimido."
A primeira palavra dita por nosso Senhor Jesus foi ao Pai, a segunda foi ao pecador. A primeira palavra ao Pai foi: "Perdoa-lhes." A segunda palavra dirigida ao pecador foi: "estás perdoado." Que Graça! Esse ladrão não merecia nada. Ele tinha feito tanto mau. Mesmo aos olhos da sociedade ele merecia ser lançado fora e ele sabia disso. Ele merecia isso. Contudo, nosso Senhor Jesus deu a Sua Graça àquele ladrão e disse: " Hoje estarás comigo no paraíso."

O que é esse espírito da cruz? O espírito da cruz é o espírito da graça. Somos um povo com o espírito de graça? Temos recebido graça sobre graça.
Graça é algo dado de graça. Não é dada a você porque você merece, porque você é digno, porque você fez alguma coisa para merecê-la, para ganha-la, não, a graça depende de quem está dando. Nosso Senhor Jesus na cruz estendeu sua graça ao ladrão. Temos recebido tanta graça. Não devemos ter o mesmo caráter que nosso Senhor Jesus teve? Não devemos ser um povo gracioso, que dá graça a outras pessoas?
Vocês sabem, irmãos e irmãs, somos muito graciosos com nós mesmos, mas muito severos com as outras pessoas. Perdoamos a nós mesmos, nos desculpamos, damos desculpas, somos muito graciosos conosco mesmos. Mas quando se trata de outras pessoas, como nós lidamos com elas? Sentimos que devemos trata-las de acordo com aquilo que elas merecem. Achamos muito difícil ser graciosos com as pessoas porque esquecemos quanta graça temos recebido.

A definição de graça de acordo com o original significa "haver algo bonito, agradável" na pessoa ou na coisa. E quando você olha para aquela pessoa ou coisa, você recebe uma certa paz, uma sensação confortável. É porque naquela pessoa ou coisa há
algo chamado graça. Graça no original não significa apenas que há algo bonito naquela pessoa, mas que algo bonito e bom na pessoa está-sendo transmitido, repassado a você de graça. Isso é graça. Mas graça no original tem um terceiro significado. Significa que aqueles que receberam graça, por sua vez, tornam-se graciosos.
Nosso Senhor Jesus é cheio de graça. Ele é tão bonito e graças a Deus nós temos recebido graça dEle e graça sobre graça. Mas a graça tem feito seu trabalho em nossas vidas? A graça tem nos transformado? Temos recebido graça apenas para nós mesmos e, contudo, ela nunca nos transforma? Nunca nos liberta de nossa insignificância ou mesquinhez. Nunca nos liberta do nosso egoísmo. Ela deve nos transformar. De outra sorte estaremos desperdiçando a graça de Deus. Esse é o espírito da cruz.

Uma Família
A terceira palavra que nosso Senhor Jesus disse está em João, capítulo 19.
Quando nosso Senhor Jesus foi pregado na cruz, algumas mulheres estavam ao pé da cruz e a mãe de nosso Senhor Jesus estava lá. De todos os discípulos, apenas João estava com elas.
Vendo Jesus sua mãe e junto a ela o discípulo amado, disse: Mulher, eis aí o teu filho. Depois, disse ao discípulo: Eis aí tua mãe. Dessa hora em diante. o discípulo a tomou para a sua casa". (João 19: 26-27)

Como ser humano nosso Senhor Jesus era perfeito. Você se lembra que quando Ele era menino entre doze anos ele estava consciente que o Pai o havia chamado para estar ocupado com os afazeres de seu Pai. Ele ficou atrás no templo e seus pais voltaram depois de três dias e o acharam no templo fazendo as coisas do Pai. Sua mãe disse: "Porque fizeste isso conosco?" Ao que o Senhor respondeu: ''Não sabes que vim para fazer as coisas de meu Pai?" Depois de dizer isso ele foi para casa com seus pais e os obedeceu.
Provavelmente uma das razões de nosso Senhor Jesus não ter começado seu ministério antes dos trinta anos foi, humanamente falando, porque ele era o primogênito naquela família. Pelo que parece o pai terreno de Jesus tinha morrido, pois ele não é mais mencionado. Assim o nosso Senhor Jesus tinha uma responsabilidade naquela casa e tinha que atender as necessidades da família. Ele trabalhava como carpinteiro para ajudá-los, auxiliando na criação dos seus irmãos. Talvez esta tenha sido a razão de Ele não ter começado mais cedo seu ministério, porque com trinta anos os seus irmãos provavelmente já estariam adultos de maneira que pudessem assumir algumas responsabilidades na família. Mas nosso Senhor Jesus como ser humano cumpriu todos os deveres e obrigações que um ser humano tem.
Às vezes nos tornamos tão espirituais que nos tornamos não naturais. Ficamos tão espirituais que esquecemos nossas obrigações e deveres como ser humano. Mas aqui vemos que Jesus não estava pensando em si próprio mesmo no final, quando estava na cruz em sofrimento, Ele ainda pensou em sua mãe e quis ajuda-la. Assim, Ele disse:
"Mãe, eis seu filho" e para João: "eis sua mãe." E João levou Maria para sua casa e cuidou dela. Até o último momento nosso Senhor Jesus cumpriu com todos os seus deveres e obrigações como ser humano.
Devemos ser menos humanos? Considero um erro grotesco pensar que para ser espiritual você tem que ser desumano. Lembro de um irmão que costumava dizer: "Seja primeiro um humano, só então você poderá ser espiritual". Se você não é humano você nunca poderá ser espiritual.

Porém, o que nosso Senhor Jesus disse nessa terceira palavra é muito mais do que simplesmente cuidados físicos. O fato de nosso Senhor Jesus ter unido sua mãe e seu discípulo para ser uma família nos diz algo: é a cruz que nos une como uma família.
Pertencemos a diferentes famílias, temos diferentes experiências e características, viemos de diferentes contextos, mas a cruz tira todas as diferenças e junta os que estão longe e os que estão pertos em um. Pela cruz Ele fez paz, não só entre nós e Deus, mas fez paz entre nós irmãos, uns com os outros. Será que temos esse sentimento de família? Será que percebemos que pertencemos um ao outro? Ou será que estamos apenas cuidando um do outro? Nosso Senhor disse que temos que amar um ao outro como Ele nos amou. Precisamos nos preocupar e cuidar um do outro e Ele cuidou de nós porque pertencemos um ao outro. Somos uma família e é a cruz que nos traz para dentro dessa família É a cruz que nos mantém na família. Somos da família de Deus, mas às vezes sentimos vontade de deixar a família Às vezes pensamos que não pertencemos à família.
Às vezes sentimos que queremos ir para um outro lugar. Talvez seja pelo fato de que não recebemos o que queremos. Talvez por estar magoados com os irmãos. Talvez porque haja algumas coisas no nosso passado terreno que são muito fortes, levandonos para longe de nossos irmãos.

Pela cruz de nosso Senhor Jesus desaparecem todas as distinções sociais, culturais, raciais, de nacionalidade. Não há judeu nem gentil, nem circunciso, nem incircunciso, nem bárbaro, nem citara, nem escravo, nem livre (veja Colossenses 3:11) porque a cruz acabou com todas essas distinções. Pertencemos a uma família, a família de Deus. Pertencemos um ao outro, mas às vezes tentamos trazer nossas diferenças naturais à igreja e quando fazemos isso, há divisão. Mas olhe para a cruz, para o que nosso Senhor Jesus fez por nós, os sofrimentos pelos quais Ele passou, o quanto custou a Ele para nos unir em uma família. Você não acha que devemos deixar a cruz trabalhar em todas as nossas diferenças e descobrir que em Jesus Cristo nós somos uma família?
Esse é o espírito da cruz.

O Espírito de Sacrifício
Nosso Senhor Jesus esteve na cruz de aproximadamente nove horas da manhã até ao meio-dia. Durante aquelas três horas, Ele estava envolvido por pessoas que zombavam dEle, riam dEle. Mas não apenas isso. No mundo invisível Ele estava durante
aquelas três horas envolvido e sendo atacado pelos poderes das trevas. Ele sofreu, porém ao meio-dia, tudo mudou. O sol escureceu e ninguém mais podia vê-lo.
Pendurado lá sozinho, Ele gritou: “ Senhor, Senhor, por que me abandonaste?” (Mateus 27:46). Foi nesta hora que o Senhor O aceitou como oferta pelo pecado, e por causa disso, de acordo com Isaías 53:10, Deus O moeu. O Senhor Jesus foi feito oferta pelo pecado para o mundo.
Nosso Senhor "Jesus já estava com o Pai mesmo antes das eras, na eternidade. A comunhão entre o Pai e Ele era tão doce, não havia sombras nem trevas. Mesmo quando Ele estava na terra, Ele sempre satisfez ao Pai: Este é o meu Filho amado em quem me comprazo” (Mateus 3: 17). Mesmo desde a eternidade e através das eras a Sua comunhão nunca tinha sido interrompida, nem por um segundo. Sempre houve uma doce comunhão e era isso que Lhe dava forças para suportar toda a afronta, o ridículo, todos os sofrimentos causados pelos inimigos visíveis e invisíveis. Porém, naquela hora, o Pai O abandonou. Por três horas Ele literalmente provou o inferno. Ele, literalmente, por nós, provou a segunda morte.

Irmãos, o que é o inferno? O que é a segunda morte? É a separação do Deus vivo e naquela hora nosso Senhor Jesus foi separado do Deus vivo. Ele não pôde gritar: "Pai", Ele só foi capaz de dizer: "Meu Deus, meu Deus" porque Ele tomou a nossa posição como homem e pelo homem Ele morreu. Foi o sacrifício supremo. Lá Ele voluntariamente se sacrificou a si mesmo. Nunca poderemos entender o quanto Ele sacrificou-se por nós. Esse é o espírito da cruz e esse espírito precisa caracterizarnos.
É verdade que não temos parte na obra redentora de nosso Senhor Jesus. Ele entrou no lagar sozinho por nós. Aquele que não conheceu o pecado, Ele o fez pecado por nós, para que nele fôssemos feitos justiça de Deus. (veja 2 Coríntios 5:21). Ele está sozinho lá. Não temos participação na obra redentora. Só podemos receber o perdão dessa obra. Mas nós somos chamados para ter comunhão nos Seus sofrimentos. Há uma parte de seus sofrimentos com a qual somos chamados a ter comunhão e através dos séculos tem havido pessoas que têm conhecido a comunhão desses sofrimentos. Pense em Moisés. Quando o povo de Israel adorou ao bezerro de ouro e Deus quis consumir aquela nação e fazer de Moisés uma grande nação e abençoá-Io, veja como Moisés suplicou perante Deus: "Agora, pois, perdoa-lhe o pecado; ou, se não, risca-me, peçote, do livro que escreveste" (veja Êxodo 32:32). Em outras palavras, ele estava disposto a ser tirado do livro da vida para salvar aquele povo rebelde. Esse é o espírito da cruz.
No Novo Testamento temos um outro exemplo, Paulo.
Porque eu mesmo desejaria ser anátema, separado de Cristo, por amor de meus irmãos. meus compatriotas, segundo a carne. (Romanos 9: 3)
Seu amor por seus compatriotas, seus irmãos, era tão grande que ele estava querendo ser amaldiçoado se estes irmãos pudessem ser abençoados. Isso é o espírito da cruz.
Irmãos, temos a marca desse mesmo espírito? Temos sido moldados por esse espírito? Nosso Senhor Jesus disse: "amai-vos uns aos outros. Como dei minha vida por vocês, dêem suas vidas por seus irmãos". (veja 1 João 3:16). Há algum sacrifício pelos irmãos que seja demasiadamente grande para nós? Estamos dispostos a entregar nossas vidas pelos irmãos? Que espírito diferente temos nós. O que queremos é que nossos irmãos doem suas vidas por nós, mas que doemos nossas vidas por eles está fora de questão. Não temos o espírito da cruz. Até que ponto a cruz tem nos moldado? Somos ainda os mesmos como se não soubéssemos nada a respeito da cruz? Se soubermos alguma coisa da cruz, não será nada difícil sacrificar a nós mesmos para com isso completar nossos irmãos.

Espírito de Absoluta Confiança em Deus
Indo para o fim daquelas seis horas na cruz encontramos a quinta palavra em João 19:28:
Depois, vendo Jesus que tudo estava consumado, para se cumprir a Escritura, disse: Tenho sede! Estava ali um vaso cheio de vinagre.
Embeberam de vinagre uma esponja e fixando-a num caniço de hissopo, lha chegaram à boca.
Quando nosso Senhor Jesus clamou: Deus meu. Deus meu. por que me abandonaste? Este foi um grito espiritual, um grito devido ao sofrimento espiritual. Em outras palavras, no que se refere ao espírito do nosso Senhor Jesus Ele sofreu o máximo que havia para sofrer porque seu espírito foi separado de Deus. Por isso aquele sofrimento intenso em seu espírito o fez clamar: Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste? Mas ele gritou mais uma vez: Tenho sede. Este foi um grito por causa do seu sofrimento físico. Era o cumprimento do Salmo 69, que diz:

Por alimento me deram fel e na minha sede me deram a beber vinagre. (verso 21)

Durante aquelas quase seis horas, nosso Senhor Jesus nunca pensou em seus sofrimentos físicos. Se você fosse crucificado na cruz, em que mais você poderia pensar? Que sofrimento horrível. Mas durante aquelas seis horas, ele não pensou urna vez só em si mesmo. Ele pensou nas pessoas que o crucificaram, ele pensou no ladrão ao seu lado, ele pensou em sua mãe e seu discípulo, ele nunca pensou em si mesmo.
Apenas bem no final Ele se tomou consciente de seu extremo sofrimento físico. Não pense que nosso Senhor Jesus pelo fato de ser Deus não tenha sofrido quando foi crucificado. Ele sofreu tremendamente. No Salmo 22 o salmista, em uma visão profética, previu o que o nosso Senhor Jesus passou na cruz - como Sua vida foi derramada como água, como Seus ossos se desconjuntaram, como Seu coração se fez como cera e como Ele ficou com tanta sede que Sua língua se Lhe apegou ao céu da boca. O sangue de nosso Senhor Jesus tinha sido tirado de todo Seu corpo e quando isso ocorre, naturalmente você tem sede. Ele disse: Tenho sede.
Mas acredito que havia mais alguma coisa. Lá diz: para se cumprir as Escrituras.
disse: Tenho sede! Creio que havia mais alguma coisa quando ele disse: Tenho sede!

Lemos em salmo 42:
“Como suspira a corça pelas correntes das águas, assim, por ti, Ó Deus, suspira a minha alma. A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo; quando irei e me verei perante a face de Deus?” (versos 1-2)

Creio que quando nosso Senhor Jesus disse: "Tenho sede", era mais do que simplesmente uma sede física. Ele, sendo oferta pelo pecado na cruz, separado de Deus e a obra de redenção estando quase acabado, no último momento disse: Tenho sede.
Não importa o que tenho passado, não importa que Deus tenha escondido sua face de mim, não importa que Deus tenha me moído, eu ainda tenho sede por Ele. Havia uma confiança absoluta em Deus!

Irmãos, lembremos que Jó uma vez disse: Eis que me matará, contudo. eu confiarei nEle (Jó 13: 15). Nosso Senhor Jesus não foi ofendido por Deus. Se há alguém que deveria ficar ofendido com Deus, seria Ele porque tinha todas as razões para ver o
Pai sorrir para Ele, mas Deus retirou sua face. Mesmo assim nosso Senhor não se ofendeu. Ele disse: Tenho sede. Como suspira a corça pelas correntes das águas, assim, por ti, ó Deus, suspira a minha alma. A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo.
Queridos irmãos, como nos ofendemos facilmente. Mesmo João Batista quase ficou ofendido porque nosso Senhor não fez o que ele esperava que Jesus fizesse.
Nosso Senhor pareceu negligencia-lo. Nosso Senhor fez bem para tantas pessoas, mas é como se Deus tivesse esquecido dEle. Ele quase se ofendeu, mas o Senhor disse:
Bem-aventurado aquele que não achar em mim motivo de tropeço. (Mateus 11:6). Não é verdade que em nossa caminhada cristã, às vezes o Senhor faz coisas que você não espera que fosse fazer? Você talvez tenha toda razão de esperar que Ele o faça porque você tem Sua palavra, mas é como se Ele não mantivesse Sua palavra. Ele permite que coisas aconteçam e você não consegue explica-las, e é como se não houvesse caminho de volta É como se fosse a morte, o fim. Você está ofendido? Você mesmo assim numa situação como essas clama e diz: "Tenho sede de Ti. Não importa o que tenhas feito para mim, eu creio em Ti, confio em Ti?” O Senhor é digno de confiança, sei disso".
Esse é o espírito da cruz. Que sejamos um povo com essa marca.

Espírito de Vitória
A sexta palavra é encontrada em João 19:30:
Quando. pois, Jesus tomou o vinagre, disse: Está consumado!
Nos outros evangelhos encontramos que "clamando em alta voz (está consumado)" (Mateus 27:50, Marcos 15:37, Lucas 23:46). Em outras palavras, ali Ele juntou o último de suas forças. A voz de uma pessoa que está morrendo soa bem baixo porque não há mais força, mas nosso Senhor Jesus aqui concentrou toda sua força e clamou: "Está consumado". Foi um grito de vitória; não de derrota Aparentemente parecia de derrota, mas na verdade o grito foi de vitória Está consumado. A obra da redenção está terminada A missão foi cumprida E que grito de vitória foi esse. Quando ele soltou aquele grito, uma coisa tremenda aconteceu. No templo, na cidade de Jerusalém, o véu foi rasgado de cima a baixo. O caminho para o santíssimo lugar estava aberto.
Irmãos, o espírito da cruz não é um espírito de derrota. Muitas vezes, as pessoas interpretam mal e quando elas falam da cruz, têm um sentimento negativo, de derrota.
"Oh, como sofro, Oh, tenho que morrer". Esse tipo de sentimento negativo não é o espírito da cruz. O espírito da cruz é o grito de vitória. Muitas vezes as pessoas dizem:
"Bem, tenho que carregar a cruz. Olhe como carrego a cruz, como ela é pesada, como eu sofro". Isso não é cruz. Se você realmente está carregando a cruz, você encontra força na cruz de Cristo, você encontra descanso e pode soltar o grito da vitória Pela cruz, você vence. Esse é o espírito da cruz.

Espírito de Perfeita Fé
A sétima palavra é encontrada em Lucas 23:46:
Então. Jesus clamou em alta voz: Pai, nas tuas mãos entrego meu espírito!
Esse foi o cumprimento do que estava escrito no Salmo 31 :5: "nas tuas mãos entrego meu espírito: tu me remiste, Senhor, Deus da verdade ".

Durante aquelas três horas a obra da redenção foi feita. E Ele disse: "Está consumado". Depois de ter terminado a obra, o relacionamento com Seu Pai foi restaurado, de maneira que Ele disse: "Pai". Aquela foi sua última palavra - Pai. Aquele relacionamento foi restaurado e Ele disse: "nas tuas mãos entrego meu espírito!"

Ninguém tirou a vida de nosso Senhor Jesus. Você se lembra quando Ele disse:
"Ninguém tira minha vida de mim... Tenho autoridade para a entregar e também para reavê-la '' (veja João 10: 17-18). Não foram aquelas pessoas que O crucificaram que tiraram sua vida; Ele mesmo entregou sua própria vida. Ele disse: "Pai. nas suas mãos entrego meu espírito ". Ele derramou sua vida por nós e entregou seu espírito ao Pai, sabendo que o Pai O ressuscitaria. Isso é perfeita fé. Com certeza, o Pai o levantou da morte para provar que Ele é o Filho de Deus. Ele pôde se entregar confiando totalmente no Pai, sabendo que o Pai iria fazer corretamente todas as coisas. O espírito da cruz é o espírito de uma fé perfeita. Se conhecemos a cruz, irmãos, a cruz irá nos dar tal fé. Por tentarmos evitar a cruz, perdemos a oportunidade de ganhar essa fé. Mas se tomamos a cruz, a fé ser-nos-á dada. Podemos crer que o Pai faz todas as coisas corretamente.
Esse é o espírito da cruz.

Se conhecemos a cruz, ela não será algo apenas externo, fora de nós, uma doutrina, um ensinamento para falarmos a respeito. Se realmente conhecemos a cruz, não serão apenas tratadas algumas coisas aqui outras acolá, do que com certeza também necessitamos. Não, a cruz será implantada em nossas almas. Ela nos remoldará de maneira que venhamos a possuir o Espírito do Cordeiro em nós. Nos tomamos o povo da cruz, e isso é o que Deus está fazendo.

Eu li as bem-aventuranças no começo e ali você vê que são essas as pessoas abençoadas por Deus. Esses são os filhos do reino dos céus. Eles são o povo da cruz.
Eles são humildes de espírito porque a cruz trabalhou em suas vidas. Eles são aqueles que choram porque a cruz trabalhou neles, eles possuem um coração em contínuo arrependimento com um espírito contrito perante Deus. Eles são os mansos - sem ego - porque a cruz exterminou seus egos. Eles estão sedentos e famintos por justiça; eles estão sedentos por Deus. Eles são mansos, eles são humildes, misericordiosos porque conhecem misericórdia. São puros de coração, não têm mais nada no coração além de Deus. São pacificadores porque conhecem a paz. E pelo amor de Cristo estão sendo perseguidos, contudo se alegram. Essas são as pessoas da cruz. Assim, o nosso problema é: Conhecemos a cruz? Há alguma cicatriz e ferida em nossas vidas? Temos as marcas de nosso Senhor Jesus em nosso corpo? Que o Senhor tenha misericórdia de nós.

Oremos:
Pai celestial, a única coisa que podemos fazer para achegar-nos a Ti é dizer: "Que Tua cruz seja implantada em nós de maneira que ela nos transforme, nos molde para sermos como Teu Filho amado, o Cordeiro de Deus. Pedimos isso em nome do Senhor Jesus.
Amém.

Por Theodore Austin-Sparks

 

 

 

Devo contribuir?
Ao receber o Senhor Jesus Cristo como seu Salvador, uma das primeiras coisas que você irá aprender é que Deus é amor. Como resultado disto, você logo perceberá que o amor precisa de uma forma prática para se expressar. Você aprenderá que há uma relação entre amar e dar. Deus é um Deus que nos dá muitas coisas. Amar e dar estão intimamente ligados nas Escrituras. “O Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim” (Gl 2:20), e “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito” (Jo 3:16). Continuar Lendo...
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