O caráter de Deus

Introdução

Nos capítulos anteriores deste livro, temos visto a grandeza e majestade de Deus. É emocionante para o cristão entender que temos um relacionamento com o Deus vivo. “Mas o Senhor Deus é a verdade; Ele mesmo é o Deus vivo” (Jr 10:10). Através das Escrituras, Deus é diferenciado das coisas criadas e visto como Aquele a quem os homens se voltam quando abandonam suas “vaidades” (At 14:15) e seus “ídolos” (I Ts 1:9) e confiam “no Deus vivo” (I Tm 4:10). Como Deus vivo, Ele vê, ouve, sente, tem desejos e age; Ele é uma Pessoa. Ele precisa ser diferenciado dos ídolos que são coisas, não pessoas, e das obras das Suas mãos, que Ele mesmo criou. Como Deus vivo Ele tem um interesse pessoal presente, e uma mão ativa, nos negócios dos homens. Ele abre um caminho para o Seu povo, e subsequentemente os leva por este caminho. Nas circunstâncias da vida Ele livra, salva e, quando necessário, castiga o Seu povo.

Alguns homens caem no erro do Panteísmo, que ensina que Deus não pode existir à parte das Suas criaturas. Os grandes versículos de Gênesis 1:1 e João 1:1-3 negam este fato, e também negam o Deísmo que, enquanto reconhece Deus como o Criador, crê que Ele deu ao mundo a habilidade de se desenvolver por si mesmo, e que Ele deixou o mundo aos seus próprios recursos. Isto também é contradito por versículos como: “Todos esperam de ti, que lhes dês o seu sustento em tempo oportuno. Dando-lho tu, eles o recolhem; abres a tua mão, e se enchem de bens. Escondes o teu rosto, e ficam perturbados; se lhes tira o fôlego, morrem e voltam para o seu pó. Envias o teu Espírito, e são criados, e assim renovas a face da terra” (Sl 104:27-30). Deus está pessoalmente e ativamente presente nos acontecimentos do Universo.

É enquanto olhamos para Ele no Seu sustento, governo, cuidado, controle e ministério, que vemos o caráter de Deus revelado. Enquanto Ele se dirige aos homens, e especialmente ao Seu próprio povo, o Seu caráter é visto em toda a Sua majestade.

Embora não podemos descrever Deus de forma abrangente, aprendemos sobre Ele ao examinarmos quais são as Suas características inerentes, como revelado nas Escrituras. Neste livro, capítulos foram escritos para descrever alguns dos Seus atributos inerentes, isto é, Sua onipotência, Sua onisciência e Sua onipresença. Em outros capítulos, Ele é descrito através dos Seus títulos, e enquanto tentamos descrever o Seu caráter devemos nos lembrar da afirmação feita pelo apóstolo João: “Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou” (Jo 1:18).

Ó Tu, o Ser eterno! Cuja presença radiante

Ocupa todo o espaço, guia todo movimento,

Imutável em toda trajetória devastadora do tempo!

Tu, único Deus – não há Deus além de Ti!

Ser acima de todos os seres! Poderoso,

Que ninguém pode compreender e explorar!

Que preenche a existência toda Contigo mesmo –

Englobando tudo, amparando, controlando,

Ser a quem chamamos Deus, e ninguém mais conhecemos! (G. R. Derzhavin)

Deus é eterno

Embora a palavra “eternidade” ocorre somente uma vez na nossa tradução da Bíblia (“Porque assim diz o Alto e o Sublime, que habita na eternidade, e cujo nome é Santo”; Is 57:15), Deus é chamado de o “Deus eterno”: Gn 21:33; Dt 33:27; Rm 16:26. Ele é Aquele que igualmente conhece o passado, o presente e o futuro: “Um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia” (II Pe 3:8). Como Ele é Eterno, Sua existência não tem início e não terá fim. Ele sempre foi, sempre é, e sempre será. Ele é o “Eu Sou” (Êx 3:14). A Sua eternidade nos leva a entender que Ele é imutável. “Porque eu, o Senhor, não mudo” (Ml 3:6). Seu conselho, caráter e propósito são sempre os mesmos. Ele não pode mudar, nem em Seu ser nem na Sua vontade. Na constância do Seu caráter, o Seu ser essencial é evidente, e o que Ele faz desde a Criação até a consumação dos séculos está plenamente de acordo com o Seu plano imutável e infalível. Sua eternidade e Sua imutabilidade definem Seus outros atributos de sabedoria, misericórdia, benevolência, bondade, conhecimento e confiabilidade. Ele sabe, Ele ama, Ele se importa. “Deus é infinito, eterno e imutável no Seu Ser” (Catecismo de Westminster, 1647).

Deus é santo

“Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória” (Is 6:3). Ao pensarmos no caráter moral de Deus, precisamos sempre lembrar da Sua santidade. Deus é chamado de o Santo de Israel cerca de trinta vezes em Isaías; também com frequência em Jeremias e Ezequiel, e em outros trechos do Velho Testamento. No Novo Testamento o Filho de Deus é chamado de o Santo em Marcos 1:24; Lucas 4:34; Atos 2:27; 3:14; 13:35; I João 2:20, e através das Escrituras o Espírito de Deus é descrito pela palavra Santo. Santidade é o atributo moral essencial de Deus. Na verdade o caráter santo de Deus é uma verdade fundamental da Bíblia. Vemos isto claramente no sistema Mosaico de lavagens, na ordem e nos móveis do Tabernáculo, na classificação do povo em israelitas, levitas, sacerdotes e sumo sacerdote, que tinham diferentes graus de aproximação a Deus, sob condições rigorosamente designadas, sendo o sacrifício o único meio de aproximação. É visto na experiência de Israel, quando Deus dirige Moisés quando ele se aproxima da sarça ardente (Êx 3:5); enquanto Ele fala com Josué perto de Jericó (Js 5:15); quando Deus age em juízo contra Coré, Datã e Abirão (Nm 16); contra Nadabe e Abiú (Lv 10) e contra Uzias (II Cr 26). Estas foram lições onde Deus estava ensinando Seu povo sobre Sua santidade impecável. O significado básico da palavra “santo” é “cortar” ou “separar”. Isto significa que Deus é completamente separado de todos, de tudo, de qualquer ideia, qualquer medida, qualquer imaginação, qualquer intelecto, qualquer poder. Enquanto podemos concordar que Ele é separado de todo mal, a ideia vai além disto. Por exemplo: “Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os meus caminhos, diz o Senhor. Porque assim como os céus são mais altos do que a terra, assim sãos os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos mais altos do que os vossos pensamentos” (Is 55:8-9). Deus está dizendo que Ele está totalmente além e separado de tudo o que somos ou que podemos pensar. A santidade de Deus é vista de diversas formas nas Escrituras:


O ódio de Deus contra o pecado: “E viu o Senhor que a maldade do homem se multiplicara obre a terra e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente. Então arrependeu-se o Senhor de haver feito o homem sobre a terra e pesou-lhe em seu coração” (Gn 6:5-6).

Seu amor pela justiça: “Ao que segue a justiça ele ama” (Pv 15:9).

Ele se distancia da maldade mas se alegra com a justiça: “Portanto vós, homens de entendimento, escutai-me: Longe de Deus esteja o praticar a maldade e do Todo-Poderoso o cometer a perversidade!” (Jó 34:10). “Mas as vossas iniquidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que não vos ouça” (Is 59:2).

O pecador está separado dEle: toda aproximação a Deus é feita baseada no sangue derramado. A verdade da expiação é baseada na santidade de Deus, e portanto a razão fundamental por que “sem derramamento de sangue não há remissão” (Hb 9:22) é que Deus é santo, e o pecado precisa ser coberto antes que possa haver comunhão entre Deus e o pecador. “Mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto” (Ef 2:13). Não há base para o perdão a não ser pelo sangue de Cristo. O pecado precisa ser coberto da vista do Deus santo, e a única forma de cobri-lo é o sangue do Seu Filho.

Seu castigo do pecador: A santidade de Deus e Seu ódio do pecado, como todos os Seus outros atributos, estão ativos e portanto precisam se manifestar. Ele não somente castiga o pecador porque os seus atos e atitudes tornam isto necessário. Deus é santo. Ele odeia o pecado e Sua ira santa contra o pecado é a evidência deste ódio. Devemos manter isto diante de nós na nossa apresentação do Evangelho, pois qualquer mensagem sobre o castigo do pecado que omite a santidade de Deus, é antibíblica, e deprecia a verdade da Sua santidade. Embora falaremos mais adiante sobre a verdade de que Deus é amor, Seu amor não é a ideia sentimental propagada pelos que tem uma crença Universalista. O amor de Deus para com o pecador nunca será totalmente apreciado a não ser que seja visto à luz da Sua ira contra o pecado. “Porque o nosso Deus é um fogo consumidor” (Hb 12:29).

O caráter santo de Deus nunca mudou nem diminuiu. A atitude de Moisés e Josué na Sua presença, como vimos acima, ainda deveria nos caracterizar. Nossa apreciação deveria ser como a dos serafins em Isaías 6:3, mencionados no início desta parte. Devemos nos aproximar de Deus com temor e santa reverência, mas infelizmente não há, hoje em dia, este sentimento intenso gerado por entrar na presença de um Deus santo como visto, por exemplo, nas palavras de Isaías: “Então disse eu: Ai de mim! Pois estou perdido; porque sou um homem de lábios impuros, e habito no meio e um povo de impuros lábios; os meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos” (Is 6:5); ou Jó: “Com o ouvir dos meus ouvidos ouvi, mas agora te veem os meus olhos. Por isso me abomino e me arrependo em pó e cinza” (Jó 42:5-6). Nada destruirá a sensação de justiça própria como uma visão do caráter santo de Deus.

Santo, Santo , Santo! Embora as trevas Te escondam,

Embora o olhar do homem pecador a Tua glória não possa ver;

Somente Tu és Santo, não há outro semelhante a Ti,

Perfeito em poder, amor e pureza. (Reginald Heber)

Deus é justo

“Justo é o Senhor em todos os seus caminhos, e santo em todas as suas obras” (Sl 145:17). A justiça de Deus é a expressão natural da Sua santidade. Como Ele é infinitamente puro, então Ele precisa se opor a todo pecado, e esta oposição ao pecado é demonstrada no Seu modo de tratar todas as Suas criaturas. Sua justiça exige que Seus atos para conosco estejam em perfeita harmonia com o Seu caráter santo. Sendo que a santidade parece se referir mais ao caráter de Deus, como Ele é em Si mesmo, Sua justiça é manifesta através da Sua maneira de tratar os outros.

A expressão “justiça de Deus” é sinônima da expressão “retidão de Deus”, e do fato de Deus ser justo. A palavra mais comum traduzida “justo” no Velho Testamento significa “reto”, e no Novo Testamento é “igual”, mas num sentido moral ambas significam “correto”. Quando lemos que Deus é justo, ou que Ele é reto, entendemos que Ele sempre faz o que é certo, o que deveria ser feito, e que Ele faz isto consistentemente, sem qualquer parcialidade. A palavra “justo” e a palavra “reto” são idênticas, tanto no Velho como no Novo Testamentos. Algumas vezes os tradutores traduzem a palavra original por “justo” e outras “reto”, sem nenhuma razão aparente. Entretanto, seja qual for a palavra usada, significa essencialmente a mesma coisa. Os atos de Deus e, portanto, o Seu caráter, são sempre corretos e justos. Assim entendemos que a justiça de Deus é evidente na maneira como Ele age consistentemente de acordo com o Seu próprio caráter. Devemos notar que Deus não é definido pela palavra “justo”, mas sim que a palavra “justo” é definida por Deus. Ele não pode ser medido pelo padrão de ser justo; Ele define o padrão de justiça.

No livro The Joy of Knowing God (“O prazer de conhecer a Deus”), A. W. Tozer escreve:

Algumas vezes é dito que “a justiça requer que Deus faça isto”, referindo-se a algum ato que sabemos que Deus irá realizar. Isso é um erro de pensamento e também de expressão, pois define um padrão de justiça fora de Deus, que O obriga a agir de uma certa forma. É evidente que não existe tal princípio. Se existisse seria superior a Deus, pois somente um poder superior pode exigir obediência. A verdade é que não há, e nunca pode haver, nada fora do caráter de Deus que possa movê-lo de alguma forma. Todas as premissas de Deus vêm de dentro do Seu próprio Ser, que nunca foi criado. Nada foi incluído no Ser de Deus desde a eternidade, nada foi removido, e nada tem mudado. Justiça, quando usada de Deus, é um nome que damos à maneira como Deus é, nada mais; e quando Deus age em justiça Ele não está fazendo isto para conformar com um critério independente, mas simplesmente agindo como Si mesmo em dada situação… Deus é Seu próprio princípio existente de igualdade moral, e quando Ele castiga homens ímpios ou recompensa o justo, Ele simplesmente age como Si mesmo, do interior, que não pode ser influenciado por nada que não seja Ele mesmo.

O caráter justo de Deus é visto nas Escrituras de duas maneiras. Ele agirá em justiça contra o ímpio, mas também a Sua justiça é manifesta aos justo: “O Senhor prova o justo, porém ao ímpio e ao que ama a violência odeia a sua alma. Sobre os ímpios fará chover laços, fogo, enxofre e vento tempestuoso; isto será a porção do seu copo. Porque o Senhor é justo e ama a justiça; o seu rosto olha para os retos” (Sl 11:5-7).

Contra os ímpios: Quando Ele age em juízo contra os ímpios, Deus opera no Seu próprio modo imparcial. Vemos isto no juízo de Faraó, que no final reconhece a justiça de Deus contra o seu pecado: “Então Faraó mandou chamar a Moisés e a Arão, e disse-lhes: Esta vez pequei; o Senhor é justo; mas eu e o meu povo ímpios” (Êx 9:27).

No castigo de Israel no cativeiro: “Por isso o Senhor vigiou sobre o mal, e o trouxe sobre nós; porque justo é o Senhor, nosso Deus, em todas as suas obras, que fez, pois não obedecemos à sua voz” (Dn 9:14).

No juízo futuro quando as taças da ira de Deus são derramadas: “E o terceiro anjo derramou a sua taça nos rios e nas fontes das águas, e se tornaram em sangue. E ouvi o anjo das águas, que dizia: Justo és tu, ó Senhor, que és, e eras, e hás de ser, porque julgaste estas coisas. Visto como derramaram o sangue dos santos e dos profetas, também tu lhes deste sangue a beber, porque disto são merecedores” (Ap 16:4-6).

Recompensando o justo: O incentivo para o cristão é que a justiça de Deus é manifesta no fato que Ele recompensa a fidelidade e protege e livra os fieis dos seus adversários. O salmista aborda este tema incentivador: “O Senhor faz justiça e juízo a todos os oprimidos” (Sl 103:6). “O meu escudo é de Deus, que salva os retos de coração. Deus é juiz justo, um Deus que se ira todos os dias” (Sl 7:10-11). A esperança do cristão se resume em algumas das últimas palavras de Paulo: “Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amarem a sua vinda” (II Tm 4:8).

Frequentemente ouvimos mais sobre a justiça ou retidão de Deus relacionada com o castigo dos pecadores, e embora usemos isto no Evangelho, para fazer o pecador compreender algo do caráter de Deus, devemos notar que, nas Escrituras, este atributo é usado constantemente para fazer o Seu povo regozijar com confiança. Entre os muitos versículos que confirmam este aspecto incentivador da justiça estão: “Dizei entre os gentios que o Senhor reina. O mundo também se firmará para que se não abale; julgará os povos com retidão. Alegrem-se os céus, e regozije-se a terra; brame o mar e a sua plenitude. Alegre-se o campo com tudo o que há nele; então se regozijarão todas as árvores do bosque. Ante a face do Senhor, porque vem, porque vem julgar a terra; julgará o mundo com justiça e os povos com equidade” (Sl 96:10-13). “Piedoso é o Senhor e justo; o nosso Deus tem misericórdia. O Senhor guarda aos símplices; fui abatido, mas ele me livrou” (Sl 116:5-6). “Perto está o Senhor de todos os que o invocam, de todos os que o invocam em verdade. Ele cumprirá o desejo dos que o temem; ouvirá o seu clamor, e os salvará” (Sl 145:18-19).

Entretanto, ao afirmar o que afirmamos acima, não queremos minimizar a necessidade de mostrar ao pecador que ele é ímpio diante de Deus: “Não há um justo, nem um sequer” (Rm 3:10). Os homens não conseguem viver à altura do padrão de justiça estabelecido pela Lei (Rm 3:9-20). Deus é justo ao condenar todos os homens à morte, pois todos, sem exceção, têm pecado e destituídos estão da Sua glória: “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rm 3:23). Todos os homens são dignos de morte, porque “o salario do pecado é a morte” (Rm 6:23). Deus é justo em condenar o ímpio. Entretanto, Deus também é justo em salvar pecadores. Ele é “justo e justificador daquele que tem fé em Jesus” (Rm 3:26). Deus é justo em salvar o pecador porque a Sua ira justa foi satisfeita. Justiça foi feita na cruz do Calvário. Deus não reduziu as acusações contra os homens; Ele não diminuiu o padrão de justiça. Ele derramou todo o Seu justo castigo sobre o Seu Filho na cruz. Nele a justiça foi satisfeita. Todos os que se arrependem e creem no Salvador são justificados; seus pecados são perdoados porque o preço total foi pago. Os que rejeitam a bondade e a misericórdia de Deus pagarão o preço dos seus pecados, porque não aceitaram a obra realizada e o preço pago. Finalmente, nós como cristãos gozamos do benéfico constante da justiça de Deus: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda a injustiça” (I Jo 1:9).

Deus é amor

“Deus é amor” (I Jo 4:16). A compreensão deste aspecto do caráter de Deus não é baseada no fato que Deus ama, não importa quão maravilhosa seja esta verdade, mas a verdade do Seu caráter é que Ele é amor. Amor é a própria essência da Sua natureza moral. Ele é a fonte de todo amor. No entanto, há muitos que falam do amor de Deus mas que são totalmente estranhos ao Deus de amor. Para muitos, o amor divino é considerado como um tipo de inclinação bondosa, algum tipo de indulgência bem humorada, que se tornou numa espécie de sentimentalismo semelhante à emoção humana. Entretanto, para o verdadeiro cristão o amor de Deus é a expressão do Seu caráter, e quanto mais familiarizados formos com Ele em toda a sua plenitude, mais os nossos corações serão levados a amá-lO.

Enquanto Deus é a fonte de todo amor, o Filho de Deus é o objetivo original e eterno do Seu amor. Seria óbvio concluirmos que se Deus é amor eterno, então este amor deve ter um objetivo eterno. O objetivo eterno do amor divino é o Filho Eterno. Este relacionamento eterno e este amor eterno são vistos na oração do Senhor Jesus ao Pai: “Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo, para que vejam a minha glória que me deste; porque tu me amaste antes da fundação do mundo” (Jo 17:24). A declaração do amor do Pai já fora ouvida depois do batismo do Filho: “E eis que uma voz dos céus dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mt 3:17); e novamente no Monte da transfiguração: “Da nuvem saiu uma voz que dizia: Este é o meu amado Filho em quem me comprazo; escutai-o” (Mt 17:5). Entretanto, o Pai não somente ama o Filho, mas Ele ama todos que estão ligados ao Seu Filho pela fé e amor. Sabemos através das Escrituras que Deus ama todos os homens, mas Ele tem um amor especial por aqueles que estão em Cristo. “Eu neles, e tu em mim, para que eles sejam perfeitos em unidade, e para que o mundo conheça que tu me enviaste a mim, e que os tens amado a eles como me tens amado a mim” (Jo 17:23). Quão bendito o fato que Deus tem o mesmo amor para com os que estão em Cristo, como Ele tem pelo próprio Cristo; e enquanto nós que estamos em Cristo amamos o Pai, o amor do Pai por nós precedeu o nosso amor por Ele. “Nós o amamos a ele porque ele nos amou primeiro” (I Jo 4:19).

Embora o amor de Deus para com o pecador não regenerado é diferente do amor que Ele tem para com os que estão em Cristo, este amor é claramente demonstrado e anunciado nas Escrituras. O grande versículo evangelístico confirma isto: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira, que deu o Seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça mas tenha a vida eterna” (Jo 3:16). “Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5:8); “Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou, estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos)” (Ef 2:5). Não há nada nos objetos do Seu amor para atrair este amor ou para instigar este amor. O amor humano é despertado por algo no ente amado, mas o amor de Deus é gratuito, espontâneo e sem causa.

O assunto do amor de Deus é uma verdade de profundidade insondável. Seu amor é infinito, sem limites, incompreensível, eterno, imutável, sacrificial; é algo que deve ser desfrutado e apreciado, mas não pode ser explicado. Entretanto, o amor de Deus traz responsabilidades ao cristão. Para provar isto, voltamos aos versículos em torno do título “Deus é amor”. “Amados, amemo-nos uns aos outros; porque o amor é de Deus; e qualquer que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama, não conhece a Deus; porque Deus é amor. Nisto se manifestou o amor de Deus para conosco: que Deus enviou seu Filho unigênito ao mundo, para que por ele vivamos. Nisto está o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou a nós, e enviou seu Filho para propiciação pelos nossos pecados. Amados, se Deus assim nos amou, também nós devemos amar uns aos outros. Ninguém jamais viu a Deus; se nos amamos uns aos outros, Deus está em nós, e em nós é perfeito o seu amor” (I Jo 4:7-12). O amor de Deus é manifesto a nós e em nós. Da mesma forma que somos objetos do amor sacrificial de Deus, devemos demonstrar o mesmo tipo de amor uns para com os outros. Nossa expressão de amor é, na verdade, o reflexo do amor de Deus em nós, e nossos atos que manifestam amor são um sinal da nossa resposta ao Seu amor. O discurso claro do Senhor Jesus no seu ministério no cenáculo resume o peso da nossa responsabilidade: “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (Jo 13:35).

O amor de Deus é um amor eterno,

Nunca houve tempo quando não existia;

O rio está aqui — a Fonte no alto;

Quem o prova agora, bendita é a sua sorte.

É como um oceano sem praia,

Cuja profundeza ninguém pode sondar;

E à sua altura nenhum pensamento pode chegar,

É infinito, não conhece limites. (Douglas Russell)

Deus é luz

“Deus é luz, e não há nele trevas nenhumas” (I Jo 1:5). Antes de João declarar que “Deus é amor”, no cap. 4 da sua primeira epístola, ele se preocupa em mostrar que “Deus é luz”. “Está é a mensagem que dele ouvimos, e que vos anunciamos, que Deus é luz, e não há nele trevas nenhumas” (I Jo 1:5). Este versículo apresenta a mensagem central da epístola, mostrando-nos que o caráter de Deus exige certas características em toda pessoa que se chama cristão. Nossas vidas como cristãos refletirão o caráter de Deus que é luz. A palavra grega Phos, traduzida “luz”, é muito descritiva quando usada no contexto de Deus sendo luz. Descreve uma luz que nunca precisa ser acesa, e portanto nunca pode ser apagada. Como isso é expressivo quando descreve o caráter de Deus.

Quando o apóstolo João escreveu esta descrição de Deus, ele estava escrevendo numa época quando havia grande ênfase na adoração de ídolos que eram associados à luz. A divindade romana Júpiter tinha um filho, Sol, que era o deus Sol, enquanto sua irmã gêmea, Diana, era a deusa da Lua, ambos aclamados como deuses da luz. Obviamente o imperador romano era considerado um deus e adorado como a presença da luz divina na Terra. Até mesmo os gnósticos daqueles dias se referiam à alma humana como luz. João então afirma que a Pessoa, Deus, é luz.

No Velho Testamento, Jeová é radiante como a luz. “Ele se cobre de luz como um vestido, estende os céus como uma cortina” (Sl 104:2); “E o resplendor se fez como a luz” (Hc 3:4); “Porque em ti está o manancial da vida; na tua luz veremos a luz” (Sl 36:9). O Senhor Jesus é visto como aquele que habita na luz: “A qual a seu tempo mostrará o bem aventurado, e único poderoso Senhor, Rei dos reis e Senhor dos senhores; aquele que tem, ele só, a imortalidade, e habita na luz inacessível; a quem nenhum dos homens viu nem pode ver, ao qual seja honra e poder sempiterno. Amém” (I Tm 6:15-16), e no dia futuro: “Até que o Senhor venha, o qual também trará à luz as coisas ocultas das trevas, e manifestará os designíos dos corações” (I Co 4:5).

A luz simboliza a absoluta perfeição de Deus, como também a verdade revelada de Deus. “Porque o mandamento é lâmpada, e a lei é luz” (Pv 6:23). “A entrada das tuas palavras dá luz, dá entendimento aos símplices” (Sl 119:130). “Lâmpada para os meus pés é a tua palavra, e luz para o meu caminho” (Sl 119:105).

Mais uma vez, a verdade do fato que Deus é luz traz responsabilidades práticas ao cristão. Trevas, nas Escrituras, significa a ausência de luz, e não o oposto de luz, como nós a descreveríamos, mas é também a ausência de revelação. Quando Paulo descreve a nossa situação no mundo, ele contrasta luz com trevas: “E isto digo, conhecendo o tempo, que já é hora de despertarmos do sono; porque a nossa salvação está agora mais perto de nós do que quando aceitamos a fé. A noite é passada, e o dia é chegado. Rejeitemos, pois, as obras das trevas, e vistamo-nos das armas da luz. Andemos honestamente, como de dia; não em glutonarias, nem em bebedeiras, nem em desonestidades, nem em dissoluções, nem em contendas e inveja” (Rm 13:11-13). Mais uma vez ele nos admoesta, não somente a buscar a luz, mas também a rejeitar as trevas: “Porque noutro tempo éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor; andai como filhos da luz” (Ef 5:8). A descrição que Paulo faz de nós está de acordo com a descrição de João do nosso Deus, que é luz: “Porque todos vós sois filhos da luz e filhos do dia; nós não somos da noite nem das trevas” (I Ts 5:5). O grande ponto prático é que viver nas trevas é incompatível com dizer estar em comunhão com o Deus da luz: “Se dissermos que temos comunhão com ele, e andarmos em trevas, mentimos, e não praticamos a verdade. Mas, se andarmos na luz, como ele na luz está, temos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de todo pecado” (I Jo 5:6-7). Portanto deve ser óbvio quem pertence a Deus, que é luz, e quem não pertence a Deus.

Ao aprendermos sobre Deus, vamos refleti-lO na nossa maneira de viver. Portanto, se devemos amar, porque Deus é amor, devemos primeiramente apreciar o fato que Deus é luz. Ele é uma glória brilhante, uma luz ofuscante, uma chama devoradora, uma sarça ardente, uma coluna de fogo.

Andai na luz, e descobrirás

Que teu coração será todo dEle,

Daquele que habita entronizado na desnublada luz,

Em Quem não há trevas. (Bernard Barton)

Deus é misericordioso

“A ti também, Senhor, pertence a misericórdia” (Sl 62:12). Nas Escrituras a misericórdia de Deus é expressa de diversas formas. Entretanto devemos lembrar que Deus é absolutamente soberano na maneira como Ele executa a Sua misericórdia. Precisa ser assim, pois não há nada fora dEle que O obriga a agir. “Pois diz a Moisés: Compadecer-me-ei de quem me compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia” (Rm 9:15).

Primeiramente, a Sua misericórdia é expressa a todos os homens, cristãos e incrédulos igualmente, e também a toda criação. “Piedoso e benigno é o Senhor, sofredor e de grande misericórdia. O Senhor é bom para todos, e as suas misericórdias são sobre todas as suas obras” (Sl 145:8-9). “Ele mesmo é quem dá a todos a vida, e a respiração, e todas as coisas” (At 17:25).

Em segundo lugar, vemos a Sua misericórdia à humanidade enquanto Ele distribui as necessidades da vida: “Porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos” (Mt 5:45). Entretanto, ao mesmo tempo em que os ímpios estão incluídos nas Suas misericórdias, o que Ele lhes proporciona se limita apenas a esta vida. Não há misericórdia para eles além túmulo: “Este povo não é povo de entendimento, assim aquele que o fez não se compadecerá dele, e aquele que o formou não lhe mostrará nenhum favor” (Is 27:11).

Em terceiro lugar, a demonstração da misericórdia de Deus é para os que creem, os que O temem, O amam, e andam diante dEle com todo o seu coração. Estes são os que confessam os seus pecados: “O que encobre as suas transgressões nunca prosperará, mas o que as confessa e deixa, alcançará misericórdia” (Pv 28:13); que confiam no Senhor: “Aquele que confia no Senhor a misericórdia o cercará” (Sl 32:10); e que invocam o Senhor: “Pois tu, Senhor, és bom, e pronto a perdoar, e abundante em benignidade para todos os que te invocam” (Sl 86:5). Portanto é pela Sua misericórdia que somos salvos: “Não pelas obras de justiça, que houvéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia, pela lavagem da regeneração e da renovação do Espírito Santo” (Tt 3:5).

De forma prática, podemos apresentar a misericórdia de Deus como um atributo de Deus que é atraente para o pecador, e confortante para o salvo.

Para o pecador — Ele é um Deus misericordioso e perdoador. “Deixe o ímpio o seu caminho, e o homem maligno os seus pensamentos, e se converta ao Senhor, que se compadecerá dele; torne para o nosso Deus, porque grandioso é em perdoar” (Is 55:7); “Quem é Deus semelhante a ti, que perdoa a iniquidade, e que passa por cima da rebelião do restante da sua herança? Ele não retém a sua ira para sempre, porque tem prazer na sua benignidade” (Mq 7:18); “O Senhor é longânimo, e grande em misericórdia, que perdoa a iniquidade e a transgressão, que ao culpado não tem por inocente, e visita a iniquidade dos pais sobre os filhos até a terceira e quarta geração. Perdoa, pois, a iniquidade deste povo, segundo a grandeza da tua misericórdia; e como também perdoaste a este povo deste a terra do Egito até aqui. E disse o Senhor: Conforme a tua palavra lhe perdoei” (Nm 14:18-20).

Para o cristão — Ele manifesta a sua misericórdia. Para proteger: “O ímpio tem muitas dores, mas aquele que confia no Senhor a misericórdia o cercará” (Sl 32:10). Na aflição: “O Senhor consolou o seu povo, e dos seus aflitos se compadecerá” (Is 49:13). Na doença: “Tem misericórdia de mim, Senhor, porque sou fraco; sara-me, Senhor, porque os meus ossos estão perturbados. Até a minha alma está perturbada, mas tu, Senhor, até quando? Volta-te Senhor, livra a minha alma; e salva me por tua benignidade” (Sl 6:2-4). Na tristeza: “E de fato esteve doente, e quase à morte, mas Deus se apiedou dele, e não somente dele, mas também de mim, para que eu não tivesse tristeza sobre tristeza” (Fp 2:27). Para segurança: “Porque o rei confia no Senhor, e pela misericórdia do Altíssimo nunca vacilará” (Sl 21:7).

Enquanto apresentamos a misericórdia de Deus, devemos acrescentar um comentário sobre a graça de Deus. W. E. Vine, no seu Expository Dictionary of New Testament Words (“Dicionário Expositivo de Palavras do Novo Testamento”) explica a misericórdia e a graça de Deus da seguinte forma:

Misericórdia é a manifestação externa de compaixão; admite necessidade da parte de quem a recebe, e recursos suficientes para suprir a necessidade da parte de quem manifesta misericórdia … Quando as palavras “misericórdia” e “paz” aparecem juntas, elas sempre aparecem nesta ordem, a não ser em Gálatas 6:16. Misericórdia é o ato de Deus, paz é a experiência resultante no coração do homem. Graça descreve a atitude de Deus para com aquele que desobedece a lei, e o rebelde; misericórdia é a Sua atitude para com aqueles que estão em aflição.

Em graça Deus perdoa pecadores culpados. Em graça Ele nos remove da esfera de condenação para o lugar de justificação. Em graça o pecador justificado recebe uma nova natureza, inicia um relacionamento com Deus e se torna um cidadão dos Céus. “Mas Deus que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou, estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos), e nos ressuscitou juntamente com Ele e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus” (Ef 2:4-6). Foi graça, o favor de Deus para com pecadores culpados e indignos, que estendeu a mão para providenciar redenção em Cristo. Nós nos gloriaremos na graça de Deus por toda a eternidade. Que perspectiva gloriosa.

Ao terminar esta parte elevamos o nosso louvor a um Deus de misericórdia. Foi Sua misericórdia que nos vivificou quando estávamos mortos em nossos pecados (Ef 2:4-5), e nos salvou (Tt 3:5), e nos gerou para uma herança (I Pe 1:4). Na verdade Ele, é o “Pai das misericórdias” (II Co 1:3).

Quão apropriadas são as palavras do salmista: “Eu porém cantarei à tua força; pela manhã louvarei com alegria a tua misericórdia; porquanto tu foste o meu alto refúgio, e proteção no dia da minha angústia. A ti, ó fortaleza minha, cantarei salmos; porque Deus é a minha defesa e o Deus da minha misericórdia” (Sl 59:16-17).

Deus é fiel

“Fiel é Deus, pelo qual fostes chamados para a comunhão do seu Filho Jesus Cristo nosso Senhor” (I Co 1:9). A justiça, misericórdia e fidelidade de Deus são paralelas e estão todas comprometidas com a libertação, defesa, e salvação completa e eterna do povo de Deus. A raiz hebraica das palavras “fiel” e “fidelidade” (aman) significa “apoiar”, “escorar”, “sustentar”. O uso da palavra significa apoiar-se a si mesmo ou ser sustentado; portanto a palavra “fiel”, aplicada a uma pessoa, indica alguém sobre quem você pode se apoiar com segurança. A palavra grega usada no Novo Testamento para “fiel” ou “fidelidade” (pistos) significa “alguém de confiança” ou “alguém em quem se pode confiar”. Assim, tanto no Velho Testamento quanto no Novo, este aspecto do caráter de Deus é visto claramente. A afirmação que Deus é fiel significa que Deus é um Ser em quem podemos confiar plenamente. As Escrituras desenvolvem a amplitude da fidelidade de Deus, que é vista em:

Sua aliança: “Saberás, pois, que o Senhor teu Deus, ele é Deus, o Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia até mil gerações aos que o amam e guardam os seus mandamentos” (Dt 7:9); “Mas não retirarei totalmente dele a minha benignidade, nem faltarei à minha fidelidade. Não quebrarei a minha aliança, não alterarei o que saiu dos meus lábios” (Sl 89:33-34); “E disse: Ó Senhor Deus de Israel, não há Deus como tu, em cima nos céus nem em baixo na terra; que guardas a aliança e a beneficência a teus servos que andam com todo o seu coração diante de ti. Que guardaste a teu servo Davi, meu pai, o que lhe disseras; porque com a tua boca o disseste, e com a tua mão o cumpriste, como neste dia se vê … Bendito seja o Senhor, que deu repouso ao seu povo Israel, segundo tudo o que disse; nem uma só palavra caiu de todas as suas boas palavras que falou pelo ministério de Moisés, seu servo” (I Rs 8:23-24, 56). Portanto Deus é fiel e cumpre toda palavra que Ele profere, independentemente do que o homem faz.

Sua defesa e livramento dos Seus servos: o Salmo 89 é uma grande expressão da fidelidade de Deus, fazendo com que o salmista regozije: “As benignidades do Senhor cantarei perpetuamente; com a minha boca manifestarei a tua fidelidade de geração em geração” (v. 1). Deus é fiel na Sua defesa infalível em tempos de tribulação e conflito. Isto é um incentivo no dia de hoje também: “Portanto também os que padecem segundo a vontade de Deus encomendem-lhes as suas almas, como ao fiel Criador, fazendo o bem” (I Pe 4:19).

Sua confirmação daqueles que Ele tem chamado: “O qual vos confirmará também até ao fim, para serdes irrepreensíveis no dia de nosso Senhor Jesus Cristo. Fiel é Deus, pelo qual fostes chamados para a comunhão de seu Filho Jesus Cristo nosso Senhor” (I Co 1:8-9); “E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e todo vosso Espírito, e alma, e corpo, sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo. Fiel é o que vos chama, o qual também o fará” (I Ts 5:23-24); “Mas fiel é o Senhor, que vos confirmará, e guardará do maligno” (II Ts 3:3). Esta fidelidade de Deus é expressa ao confirmar e estabelecer os que Ele tem chamado. Ele os guarda do maligno, os santifica e os preserva. A confiança do povo de Deus, em relação ao seu futuro, não depende da fidelidade deles, mas sim da fidelidade de Deus.

Ele responde as orações e perdoa o pecado do Seu povo: “Ó Senhor, ouve a minha oração, inclina os teus ouvidos às minhas suplicas; escuta-me segundo a tua verdade, e segundo a tua justiça” (Sl 143:1). “Se confessarmos os nosso pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda injustiça” (I Jo 1:9). Nossa confiança de que Deus perdoará nossos pecados, quando os confessamos, se baseia em duas coisas sobre Deus, isto é, que Deus é justo e que Deus é fiel. Duvidar que o pecado confessado seja pecado perdoado não é humildade, mas sim incredulidade. Ao duvidar, estamos questionando a justiça de Deus, Sua fidelidade e Sua confiabilidade.

Ele apresenta o Seu povo irrepreensível: “O qual vos confirmará também até ao fim, para serdes irrepreensíveis no dia de nosso Senhor Jesus Cristo. Fiel é Deus pelo qual fostes chamados para a comunhão de seu Filho Jesus Cristo nosso Senhor” (I Co 1:8-9).

Embora anos e anos passem;

Sua aliança permanecerá;

Embora nuvens e trevas encubram o Seu caminho,

A graça prometida é certa.

Através de ondas, e nuvens, e tempestades

Ele suavemente desobstrui teu caminho;

Espere o tempo dEle; assim esta noite

Logo findará em dia jubiloso. (P. Gehardt)

Deus é Salvador

“Eu, eu sou o Senhor, e fora de mim não há Salvador” (Is 43:11). Enquanto associamos a salvação com o Senhor Jesus Cristo, as Escrituras, tanto o Velho como o Novo Testamento, descrevem Deus como Salvador. No Velho Testamento a salvação de Deus é vista principalmente, mas não exclusivamente, em relação à Israel. Muitas vezes, na profecia de Isaías, Ele é descrito como Salvador:

Is 43:3 — Sua Supremacia como Salvador: “Porque eu sou o Senhor teu Deus, o Santo de Israel, o teu Salvador”;

Is 43:11 — Sua Singularidade como Salvador: “Eu, eu sou o Senhor, e fora de mim não há Salvador”;

Is 45:15, 17 — Seus Segredos como Salvador: “Verdadeiramente tu és o Deus que te ocultas, o Deus de Israel, o Salvador … Porém Israel é salvo pelo Senhor, com uma eterna salvação”;

Is 45:21-22 — A Abrangência da Sua Salvação: “Deus justo e Salvador não há além de mim. Olhai para mim, e sereis salvos, vós, todos os termos da terra; porque eu sou Deus, e não há outro”;

Is 49:26 — Sua Severidade como Salvador: “E sustentarei os teus opressores com a sua própria carne, e com o seu próprio sangue se embriagarão, como com mosto; e toda carne, saberá que eu sou o Senhor, teu Salvador, e o teu Redentor, o Forte de Jacó”;

Is 60:15-16 — Sua Força como Salvador: “Em lugar de seres deixada e odiada, de modo que ninguém passava por ti, far-te-ei uma excelência perpetua, um gozo de geração em geração. E mamarás o leite dos gentios, e alimentar-te-ás ao peito dos reis; e saberás que eu sou o Senhor, o teu Salvador, e o teu Redentor, o poderoso de Jacó”;

Is 63:8 — Seu Socorro como Salvador: “Porque dizia: Certamente eles são o meu povo, filhos que não mentirão; assim ele se fez o seu Salvador.”

No Novo Testamento a expressão Salvador é usada principalmente em relação ao Senhor Jesus Cristo, com algumas exceções interessantes. É usada de Deus o Pai nas palavras de:

Maria, enquanto ela se alegrava, antecipando o nascimento do Filho de Deus: “E o meu Espírito se alegra em Deus meu Salvador” (Lc 1:47). Esta é a única vez que o pronome na primeira pessoa do singular é usado no Novo Testamento ao descrever Deus o Salvador.

Paulo, quando ele confirma a sua autoridade apostólica (I Tm 1:1 e Tt 1:3). Depois, quando ele descreve o desejo de Deus com relação às orações do Seu povo e à salvação de todos os homens: “Porque isso é bom e agradável diante de Deus nosso Salvador, que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade” (I Tm 2:3-4); e quando ele dá a razão de se ocupar no serviço do Senhor: “Porque para isto trabalhamos e lutamos, pois esperamos no Deus vivo, que é o Salvador de todos os homens, principalmente dos fiéis” (I Tm 4:10).

Paulo, na sua epístola a Tito. Nesta pequena epístola o título Salvador é usado seis vezes. Três vezes em relação ao Senhor Jesus Cristo, e três vezes em relação a Deus. As referências a Deus são: 1:3, como mencionamos acima; em relação a servos (“Para que em tudo sejam ornamento da doutrina de Deus, nosso Salvador”, 2:10), e finalmente em relação à salvação do que antes éramos (“Mas quando apareceu a benignidade e amor de Deus, nosso Salvador, para com os homens, não pelas obras de justiça que houvéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia, nos salvou pela lavagem da regeneração e da renovação do Espírito Santo”, 3:4-5).

Judas, ao concluir a sua epístola, nos dá a última referência a Deus nosso Salvador. É uma conclusão adequada a esta parte: “Ora, àquele que é poderoso para vos guardar de tropeçar, e apresentar-vos irrepreensíveis, com alegria, perante a sua glória. Ao único Deus sábio, Salvador nosso, seja glória e majestade, domínio e poder, agora e para todo o sempre. Amem” (Jd 24-25).

Então minh’alma canta, meu Salvador Deus, a Ti,

Grandioso és tu, grandioso és tu. (Stuart K. Hine)

Conclusão

Ao concluirmos este capítulo, confessamos que há muitas descrições dos atributos divinos que temos omitido. Considerar o caráter de Deus nos traz um sentimento de incompetência que nos faz sentir como Jó: “Ah, se eu soubesse onde o poderia achar!” (Jó 23:3); e como ele descreve Deus: “O que faz coisas grandes e inescrutáveis; e maravilhas sem número” (Jó 9:10); e como o salmista: “Senhor Deus meu, tu és magnificentíssimo; estás vestido de glória e majestade. Ele se cobre de luz como de um vestido, estende os céus como uma cortina” (Sl 104:1-2).

Enquanto há muito para apreciarmos do Seu caráter e da Sua glória moral, há também grandes profundezas de verdade em relação a Ele, que incentivam os cristãos que tiram os seus olhos do mundo e os fixam nEle. Quão abençoado é apreciar o fato que Ele é:

O Deus da minha Salvação. Sete vezes no Velho Testamento esta afirmação é feita. Ele é meu rochedo (Sl 18:46); meu professor (Sl 25:5); meu ajudador (Sl 27:9);minha adoração (Sl 51:4); meu libertador (Sl 88:1); minha confiança (Mq 7:7); meu gozo (Hc 3:18). Enquanto Ele traz salvação ao indivíduo, Ele é também chamado “o Deus da nossa salvação” cinco vezes no Velho Testamento.

O Deus da paz. Cinco vezes no Novo Testamento o apóstolo Paulo O descreve como o Deus da paz. Lemos da presença do Deus da paz (“E o Deus da paz seja com todos vós”, Rm 15:33); do poder do Deus da paz (“E o Deus da paz esmagará em breve Satanás debaixo dos vossos pés”, Rm 16:20); da promessa do Deus da paz (“O Deus de paz será convosco”, Fp 4:9); da pureza dos Deus da paz (“E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo”, I Ts 5:23); do aperfeiçoamento pelo Deus da paz (“Ora o Deus de paz, que pelo sangue da aliança eterna tornou a trazer dos mortos a nosso Senhor Jesus Cristo, grande pastor das ovelhas, vos aperfeiçoe em toda a boa obra, para fazerdes a sua vontade, operando em vós o que perante ele é agradável por Cristo Jesus”, Hb 13:20-21). Ele também é descrito como o Deus de amor e de paz (II Co 13:11).

Para cristãos atribulados Ele é: o Deus de toda consolação (II Co 1:3); o Deus de toda graça (I Pe 5:10); o Deus da esperança (Rm 15:13). Para os que passam por dificuldades de doença física, Ele é o “Senhor que te sara” (Êx 15:26).

Enquanto temos procurado estudar algo do caráter de nosso Deus, as Suas glórias se destacam. Portanto nós O louvamos como o “Deus da Glória” (Sl 29:3).

Glorioso Deus supremo em Majestade,

Grande no Seu ser, santidade imaculada;

Desconhecido aos homens, eternamente invisível;

Habitando em luz que ninguém pode igualar.

Tu o eterno, nunca criado, só,

Cuja presença gloriosa por toda parte brilha

Que fala de luz especificamente Tua,

Divindade intrínseca que é sempre Tua.

Mas se isso fosse tudo, meu coração não ousaria intrometer,

Nem achar alívio para suas necessidades de criatura,

Grandeza somente poderia humilhar, mas excluir

Criaturas como eu de Ti e de tudo que é bom.

Essência impessoal, muito além de todo conhecimento,

Desconhecida a todos em Majestade inacessível,

Mas no entanto revelado na forma mais divina do Amor,

A Ti minha alma é atraída em êxtase. (J. McBroom)

 - Por James Paterson Jnr., Escócia

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Ao receber o Senhor Jesus Cristo como seu Salvador, uma das primeiras coisas que você irá aprender é que Deus é amor. Como resultado disto, você logo perceberá que o amor precisa de uma forma prática para se expressar. Você aprenderá que há uma relação entre amar e dar. Deus é um Deus que nos dá muitas coisas. Amar e dar estão intimamente ligados nas Escrituras. “O Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim” (Gl 2:20), e “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito” (Jo 3:16). Continuar Lendo...
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