A Beleza do Seu Ministério

 

Descrever a beleza do ministério do Senhor é uma
tarefa para a qual até mesmo a mente angélica
seria inadequada. Quão aptas as palavras:
Somente o Pai (glorioso dito!)
Pode o Filho compreender.
Josiah Condor

Que outra mente, além da divina, poderia apreciar plenamente as palavras dAquele que falou como jamais homem algum  falou, e cujas obras eram tais como nunca homem algum fez? Contudo, é a maior bênção possível para o cristão ponderar profundamente naquela vida preciosa e ser assim transportado ao domínio da luz, para ali compartilhar, em parte, os pensamentos do Pai em relação ao Seu Filho.
É evidente que estamos prestes a estudar um ministério singular.

Quem, senão Ele, poderia usar uma linguagem como aquela encontrada em João 8:38:
“Eu falo do que vi junto de Meu Pai”, ou a de João 6:63:
“As palavras que vos disse são espírito e vida”
Quem, senão Ele, poderia dizer:
“Quem Me vê a Mim vê o Pai” (Jo 14:9)
Somente dEle pode ser dito:
“E o Verbo Se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a Sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1:14).

O esboço do Seu ministério

Apresentar um relato detalhado dos movimentos do Senhor com exatidão garantida seria uma tarefa tremenda, e não tentaremos fazer isto neste breve capítulo.
É evidente que houve um ministério inicial na Galiléia, como visto em João 2:1-11. Fica claro através de João 2:13 que houve uma visita a Jerusalém, no princípio do Seu ministério, quando houve a purificação do Templo e também a entrevista com Nicodemos. O período inicial, na Judéia, acaba em João 4:1-3, quando o Senhor partiu para a Galiléia passando por Samaria. Uma obra preciosa foi feita em Samaria, e uma preciosa verdade foi revelada à mulher samaritana. O ministério da Galiléia parece ter ocupado um período prolongado do tempo do Senhor.
Em diversas ocasiões, Ele deixou a área por um tempo.
Lucas apresenta, em detalhes, a última viagem do Senhor para Jerusalém, começando em 9:51. Muitas regiões foram visitadas nesta viagem até que, finalmente, Ele veio à cidade de Jerusalém e ao Templo, onde enfrentou o interrogatório dos principais dos sacerdotes, dos anciãos, dos escribas, dos fariseus e dos saduceus. Marcos 12:34 apresenta um comentário apropriado do resultado destas entrevistas: “E já ninguém ousava perguntar-lhe mais nada”.

A tentação

Mateus, Marcos e Lucas mencionam os quarenta dias no deserto durante os quais o Senhor foi tentado pelo Diabo. No final do Seu ministério houve mais uma grande batalha com o adversário. Em Lucas 22:53 Ele disse aos principais dos sacerdotes e capitães do Templo: “esta é a vossa hora e o poder das trevas”. Estas palavras indicam o terrível conflito com Satanás que fazia parte do Seu sofrimento e morte. Naquele conflito houve profundezas insondáveis. A vitória no princípio, no deserto, não somente O manifesta como o verdadeiro Messias, mas também declara Sua idoneidade para incumbir-se da batalha final na cruz.S e o “primeiro homem” foi testado, assim também o “segundo homem” precisa ser posto à prova. Adão foi testado nas circunstâncias mais favoráveis, no jardim do Éden, com uma abundância de frutos suculentos para satisfazer a sua fome. A existência daquele deserto estéril onde o Senhor foi tentado era, com certeza, um dos tristes resultados da queda de Adão. Ninguém irá jamais saber plenamente o sofrimento que aqueles quarenta dias de tentação trouxeram ao Filho de Deus. Recusando transformar as pedras em pães, Ele manifestou a Sua perfeita submissão à vontade do Pai. Recusando adorar Satanás Ele declarou Seu amor e devoção constantes a Deus: “Adorarás o Senhor teu Deus, e só a Ele servirás” (Lc 4:8). Recusando lançar-Se do pináculo do Templo, Ele manifestou Sua perfeita confiança em Deus. Aquele que triunfou no deserto é assim declarado perfeitamente idôneo para o Seu ministério público singular. Como já foi afirmado, Ele também é visto como o Vencedor garantido da batalha das eras, travada e vencida na cruz.


A beleza da santidade no Seu ministério

O ministério público do Senhor Jesus contém dois atos notáveis de julgamento no Templo, um no início e outro perto do final do Seu ministério (Jo 2:13-17 e Mc 11:15:17). Aqueles que amam e compreendem a verdadeira santidade, percebem a sua beleza na paixão consumidora com que o Senhor separa o mundano do sagrado, quando o dinheiro dos cambistas é espalhado e suas mesas viradas (Jo 2:15). Seu zelo santo não permitiria que os pátios do Templo fossem usados por conveniência ou como um atalho para o transporte de vasos.
O conceito do Senhor sendo o “bondoso Jesus, meigo e terno” pode ser apropriado para um hino infantil. Não é uma descrição errada, mas Aquele que é essencialmente Santo não podia fazer outra coisa senão manifestar algo da “ira do Cordeiro” (Ap 6:16), quando confrontado com o mal na Sua casa. Quão impressionante e solene é ouvir, mais tarde, a declaração de juízo sobre os escribas e fariseus por Aquele a quem todo juízo foi confiado (Jo 5:22). Os “ais” do Senhor tocaram fundo na hipocrisia e horrível falsidade deles. Na presença de um desvio tão grave dos caminhos de Deus, a santidade perfeita foi ultrajada, como não poderia deixar de ser.
Avançando em pensamento para a hora negra na qual os principais sacerdotes e fariseus se aproximaram para prendê-lO, podemos testemunhar a beleza do poder repulsivo da santidade quando, mediante Suas palavras “Sou Eu”, os homens maus recuaram e caíram por terra (Jo 18:5-6).
Admiráveis são as palavras do Salmo 29:2: “Adorai o Senhor na beleza da santidade”. A inferência é clara. Divina santidade é apreciada mais profundamente por aqueles que se aproximam de Deus na beleza de santidade de vida e caráter pessoais.

As orações do Senhor Jesus

No início de qualquer estudo sobre a vida de oração do Senhor Jesus, é preciso notar que haverá muito que a diferenciará da de outros.
Não haverá confissão de pecado ou de falha. É interessante também que não há nenhum relato do Senhor juntando-se a outros em oração. O estudo precisa ser abordado com certa reserva reverente. Como irá um Homem perfeito, incapaz de pecar, orar? Como irá Aquele que é Deus, orar? Fica claro que o Filho de Deus se tornou um Homem dependente:
“Sobre Ti fui lançado desde a madre” (Sl 22:10). A perfeição, então, foi vista na fé da Sua dependência e nas orações que Ele pronunciou. No Evangelho de Lucas, pelo menos dez passagens nos falam de orações que o Senhor ofereceu. Muitas delas são registradas apenas por Lucas. As referências são as seguintes: 3:21; 5:16; 6:12; 9:18, 29; 10:21; 11:1; 22:31-32, 39-46; 23:34. As orações do Senhor incluem a comunicação de um membro da Trindade com outro, assim, aqueles poucos exemplos onde temos as Suas próprias palavras, nos levarão a patamares realmente sublimes. Considerando passagens como Lucas 10:21; João 11:41; 12:28 e o capítulo 17, fica aparente que o Senhor nunca entrou na presença do Pai como Alguém que estivera à distância. Ele fala como Um que estava sempre na presença imediata do Pai. Ele estava sempre no seio do Pai (Jo 1:18). Sua vida era uma vida de comunhão ininterrupta.
A oração de João 17 é, de longe, a mais extensa de todas as que estão registradas. Nela o Senhor fala com Seu Pai como a um igual.
Ele está cônscio de perfeição na realização da obra que Lhe foi dada a fazer. No v. 24 Ele diz: “Pai, aqueles que Me deste quero que, onde Eu estiver, também eles estejam comigo, para que vejam a Minha glória que Me deste”. Aqui vemos a intimidade de igualdade absoluta. Ninguém, a não ser Ele, poderia usar tal linguagem. O relacionamento entre o Pai e o Filho é de intimidade inescrutável. Ninguém irá jamais saber plenamente o que o Filho significava para o Pai, desde a eternidade.
Somente o Pai poderia avaliar plenamente a Sua vida aqui na Terra. Ele nunca ouviu orações como aquelas proferidas pelo Seu Filho durante a Sua permanência aqui.

"Dia após dia pudeste acordar
Neste ambiente de podridão,
Mas nada contaminava Tua alma,
Nenhum pecado perturbava Tua oração."
Macleod Wylie

A autoridade do Seu ministério

No início do ministério do Senhor em Cafarnaum, Ele entrou na sinagoga, no sábado, e os ensinou (Mc 1:21-22). Lemos que eles ficaram admirados com a Sua doutrina, pois Ele os ensinava como quem tem autoridade. Aqueles que tinham sentido o peso da autoridade do Seu ensino logo presenciaram a Sua autoridade sobre espíritos imundos (v. 27).
O exorcismo dos espíritos imundos ressalta diante dos nossos olhos a autoridade do Seu ensino. Não era a autoridade duvidosa da voz alta ou da afirmação impetuosa, mas a autoridade genuína claramente demonstrada pelo Seu poder sobre os espíritos imundos. Não havia nenhuma área “cinza” no Seu ensino — tais incertezas existem mesmo em servos fiéis, devido à falta de uma visão clara, fraqueza e dúvida. Mas o Seu ensino possuía um apelo moral irresistível, ainda que muitos lhe dessem as costas. Poderia ser visto como indesejável; mas nunca como errado. No Seu sermão, conforme apresentado em Mateus 5-7, Ele fala como o intérprete oficial da Lei, com autoridade inquestionável para desenvolver o assunto. Seis vezes no cap. 5, por somente dizer: “Eu, porém, vos digo …”, Ele eleva o padrão em relação ao homicídio (vs. 21- 26), adultério (vs. 27-30), divórcio (vs. 31-32), juramento (vs. 33-37), atitude para com o mal (vs. 38-42) e atitude em relação aos inimigos
(vs. 43-48).
Pode-se perguntar como seria possível ao homem elevar-se na vida prática até este padrão altíssimo, visto que ele não é capaz sequer de guardar a Lei de Moisés. De acordo com o ministério de João (Mt 3:11), o Messias vindouro batizaria com o Espírito Santo. Aquele dia estava se aproximando. Na Sua exaltação Ele enviou o Espírito, que além de Se tornar o elemento em que os cristãos foram batizados, também passou a habitar neles pessoalmente. No poder prático disto, a justiça da Lei pode ser cumprida naqueles que não andam “segundo a carne, mas segundo o Espírito” (Rm 8:4).
A frase: “assim diz o Senhor” era característica do ministério dos profetas da antiguidade. Isto indicava autoridade suficiente, mas apresenta um contraste à autoridade dAquele que disse tão frequentemente:
“Na verdade Eu vos digo”. A expressão é encontrada em 25 ocasiões no Evangelho de João com o duplo “na verdade”. Ele não precisava citar nenhuma outra autoridade a não ser a Sua, embora Ele sempre desse à Escritura o Seu lugar por direito. Sendo Deus, a autoridade era essencialmente Sua.

As parábolas do Seu ministério

Em Mateus 13 o Senhor começou a ensinar por meio de uma série de parábolas. Grandes multidões estavam ali para ouvir as Suas palavras.
Os discípulos pareciam estar surpresos de que Ele falasse por parábolas, e O perguntaram sobre isto. O Senhor, pela Sua resposta (v. 11), indicou que o método parabólico naquele dia tinha a intenção de ser enigmático a “eles” (as multidões), mas revelador para os discípulos a quem a revelação dos “mistérios do reino dos céus” era de suma importância. O Senhor explicou que “neles” se cumpriu a profecia de Isaías: “Ouvindo ouvireis, mas não compreendereis, e vendo vereis, mas não percebereis.
Porque o coração deste povo está endurecido, e ouviram de mau grado com seus ouvidos, e fecharam seus olhos; para que não vejam com os olhos, e ouçam com os ouvidos, e compreendam com o coração, e se convertam, e Eu os cure” (Mt 13:14-15).
A expressão “os mistérios do reino do céu” (v. 11) é tido como se referindo a uma esfera de profissão que claramente abrange mais do que os verdadeiros filhos do Reino. A ideia aqui é diferente daquela apresentada em João 3:3 e Colossenses 1:13, onde pertencer ao Reino é claramente limitado aos verdadeiramente salvos.
As primeiras quatro parábolas apresentam desenvolvimento na esfera da profissão cristã, começando com o semear da “palavra do reino” (v. 19). O ensino desta parábola tem sido uma preparação muito necessária para os servos de Cristo que trabalham no Evangelho. Haverá trabalho que parecerá infrutífero. Haverá aqueles que permanecerão apenas por um pouco, mesmo depois de uma aparente recepção jubilosa da mensagem. Felizmente haverá alguns que produzirão fruto que permanecerá, e assim provarão que são genuinamente salvos, ainda que entre estes, alguns produzirão somente trinta por um.
Na parábola do joio, a boa semente é explicada como representando os verdadeiros filhos do reino. O joio são os filhos do maligno (v. 38).
Lemos que enquanto os homens dormiam o inimigo veio e semeou joio no meio do trigo. Ambos deveriam ficar e crescer juntos até a sega.
Quanto ao significado, é evidente que com a passagem do tempo, mesmo no primeiro século, os homens “dormiram”. Os avisos das epístolas finais do Novo Testamento foram negligenciados por muitos. O Inimigo semeou o seu joio e a irrealidade teve sua influência nociva na esfera da profissão Cristã.
Isto abriu o caminho para crescimento anormal, que é a ideia por trás da parábola do grão de mostarda (vs. 31-32). A pequenina semente de mostarda torna-se uma árvore para a qual as aves do Céu vêm e fazem seus ninhos nos seus ramos. Uma coisa grande surge, mas ela deu lugar para as forças do mal agirem.
A partir disso é apenas um passo para o que é sugerido na parábola do fermento que uma mulher escondeu em três medidas de farinha (v. 33). Mulheres más, nas Escrituras, geralmente sugerem corrupção religiosa. Assim, uma condição realmente lamentável das coisas é predito, para que os servos verdadeiros possam estar preparados.
Mais duas parábolas precisam ser consideradas em vista do quadro sombrio já apresentado. Estará tudo perdido? Os fiéis serão vencidos?
As parábolas do tesouro e da pérola de grande preço respondem com um “não” retumbante! A compra sacrificial de um campo foi feita por causa de um tesouro escondido nele. Um negociante vendeu “tudo quanto tinha” para comprar uma pérola de grande preço. Aqui estão transações que levam nossas mentes à cruz, e à “imensa soma” que foi paga ali, em termos de sofrimento indescritível e no dar de uma vida tão preciosa. Nada jamais poderá desfazer o valor daquela obra ou a permanência eterna dos seus resultados.
O tesouro no campo bem pode ter Israel em vista. O homem comprou o campo. O tesouro ainda está escondido nele. Um dia o Senhor irá reclamar Seus direitos sobre o “campo”, isto é, o mundo, e manifestar o “tesouro”, isto é Israel, como a nação líder no Seu Reino Milenar. O ensino da pérola de grande preço bem pode ser expresso nas palavras:
“Das águas negras e turbulentas do pecado, será ainda apresentado a Deus a mais brilhante, mais bela e mais resplandecente joia que reluzirá no Seu seio por todas as eras da eternidade”.1 Esta joia é a Igreja, na qual são encontradas “as riquezas da glória da Sua herança nos santos” (Ef 1:18). O Inimigo pode trabalhar. Uma condição de sono pode caracterizar o povo de Deus. Todo o testemunho coletivo pode parecer estar ameaçado, mas os frutos do Calvário serão colhidos. Israel ainda será a nação soberana no reino Milenar, e neste dia, não importa o que aconteça, o Senhor Ressurrecto edificará a Sua Igreja. O quadro apresentado neste capítulo, pelo ministério parabólico do Senhor Jesus, pode ser escuro de um ponto de vista, mas de outro e mais elevado, é radiante com a plena garantia da esperança.
A parábola de Lucas 15 foi dirigida aos fariseus e escribas. O capítulo geralmente é visto como contendo três parábolas, mas a referência a “esta parábola” (v. 3) parece abranger as três partes. O bendito Salvador era o perfeito Pregador. Para mostrar a avaliação de Deus da salvação destes desprezados pelos fariseus e escribas, muitos detalhes ilustrativos são usados.
A importância de uma ovelha perdida é enfatizada com clareza quando o Senhor fala do homem com suas cem ovelhas, que perdeu uma, e foi atrás dela, até que veio “a achá-la”. Aqui se vê a atitude do próprio Senhor para com os perdidos e desprezados. Quão diferente da atitude dos Seus opositores.
Em seguida, uma mulher é destacada. A figura de uma mulher se encaixa mais facilmente no conceito de necessidades pecuniárias. Economia, ou outros meios, podem tê-la possibilitado obter as dez moedas de prata, mas a perda de uma é muito grave. Não é possível ficar sem ela, e uma busca diligente precisa ser feita “até a achar”. Sem dúvida os fariseus e escribas podiam passar muito bem sem os “publicanos e pecadores”, mas o coração de Deus é diferente; para Ele a salvação deles é de suma importância!
A terceira parte é a mais detalhada. Por incluir “filhos”, ela serve para apresentar a seriedade do pecado e rebelião contra Deus, como também a realidade do arrependimento. A graça se manifesta abundantemente ao filho arrependido. Esta história deixa claro que a compaixão de Deus pelos marginalizados de forma alguma faz com que Ele abra mão da necessidade de convicção de pecado e arrependimento antes da entrada no gozo do perdão. O irmão mais velho recusou a livre oferta de uma plena participação em tudo que foi providenciado. O orgulho religioso e a hipocrisia caracterizavam os fariseus, mas tudo isso cegava  seus olhos para a atuação da graça, como vista nos atos de perdão do Senhor para com os párias da sociedade.
Na Sua última semana de ministério público, o Senhor fez uso de diversas parábolas. Estas são caracterizadas por uma profunda solenidade, com sérias consequências de juízo. O evangelho de Marcos apresenta apenas uma destas várias parábolas (Mc 12:1-9). Ela foi dirigida aos principais sacerdotes, escribas e anciãos. O seu significado era bem claro. Aliás, o v. 12 afirma: “… entendiam que contra eles dizia esta parábola”. Nenhum vinhateiro jamais mostrou a paciência deste. Apesar dos primeiros servos serem maltratados, e em alguns casos, assassinados, ele ainda enviou outros, e por fim, em graça maravilhosa, enviou seu filho. As palavras: “Este é o herdeiro; vamos, matemo-lo, e a herança será nossa” (v. 7), expõe a intenção daqueles líderes da nação de colocar Deus para fora da ordem que Ele mesmo havia estabelecido, para que
pudessem lucrar disto. A parábola mostra que o juízo vindouro é plenamente justificado.
Antes de deixarmos as parábolas, seria interessante notar alguns dos autorretratos do Senhor em algumas delas. O negociante de Mateus 13:45-46, que vendeu tudo quanto tinha para comprar a pérola de grande preço, certamente destaca o tremendo custo através do qual o Senhor adquiriu os Seus, no Calvário. II Coríntios 8:9 expressa, de uma forma linda, a ideia aplicada ao Senhor: “Porque já sabeis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo que, sendo rico, por amor de vós se fez pobre; para que pela Sua pobreza enriquecêsseis”.
A parábola da vinha, como apresentada no Evangelho de Marcos, dá um testemunho muito eloquente da eternidade da Filiação do Senhor Jesus. A declaração é: “Tendo Ele, pois, ainda um Seu Filho Amado” (Mc 12:6). Foi um Filho já existente que foi enviado. Compare com João 3:16. Deus não podia dar um Filho que Ele não possuía! O relacionamento de Filho é eterno. Não teve princípio. O mesmo pode ser dito do relacionamento de amor infinito, pois Ele era eternamente o “Bem-Amado”.
Talvez seja difícil encontrar apoio nas Escrituras para o ponto de vista de que o Bom Samaritano de Lucas 10:30-35 representa o Senhor Jesus. Mas parece haver somente Um que corresponde plenamente às características reveladas. Pense na compaixão do Samaritano. Note o seu preparo — tudo que era necessário para atender a vítima estava à mão. Note também sua força, no v. 34: “… e pondo-o sobre a sua cavalgadura”. Nenhum ajudante foi necessário! Ele era todo-suficiente.
Quão semelhante ao Salvador dos homens! Vede a sua riqueza infinita no v. 35: “… tudo o que de mais gastares, eu to pagarei quando voltar”.
Quem senão o próprio Senhor coloca a Sua riqueza infinita à disposição daqueles que Ele socorreu, e daqueles que O servem?

Os milagres do Seu ministério

Ada R. Habershon, em The Study of the Miracles (“O estudo dos milagres”), lista 36 milagres realizados pelo Senhor durante o Seu ministério.
A estes, obviamente, devem ser acrescentados muitos outros que não são especificamente mencionados. Mateus 8:16 fala de um dia quando Ele “curou todos os que estavam enfermos”. De novo em Mateus 9:35 lemos: “E percorria Jesus todas as cidades e aldeias, ensinando nas sinagogas deles, e pregando o Evangelho do Reino, e curando todas as enfermidades e moléstias entre o povo”.
Há um significado espiritual nos milagres do Senhor. Eles ilustravam, pelo menos em muitos casos, verdades espirituais. Além de demonstrar poder, eles demonstravam amor e graça. Expressavam o coração compassivo de Deus para com a humanidade caída, bem como Sua prontidão em dar alívio aos aflitos, e até mesmo a vida aos mortos.
O sentido espiritual dos milagres é muito destacado no Evangelho de João, onde são chamados de “sinais”. O alimentar dos 5.000 certamente satisfez uma grande necessidade imediata, mas também apresentou claramente Aquele que é o “pão vivo que desceu do céu”, acerca do qual é prometido: “se alguém comer deste pão viverá para sempre” (Jo 6:51).
Dos três casos de restauração de vida, o da filha de Jairo é apresentado três vezes — em Mateus, Marcos e Lucas. O relato da ressurreição do filho da viúva de Naim e da ressurreição de Lázaro ocorrem uma vez cada. O caso de Lázaro é apresentado em grande detalhe, começando com sua doença e continuando até a reação adversa dos principais dos sacerdotes e fariseus. Este capítulo recompensará uma meditação cuidadosa.
Em João 10:18, o Senhor garante a Sua própria ressurreição com as palavras: “Ninguém ma tira [a Minha vida] de Mim, mas Eu de Mim mesmo a dou; tenho poder para a dar, e poder para tornar a tomá-la”. No cap. 11 o Senhor garante a ressurreição de todos os Seus (vejavs. 25-26).
A história da ressurreição de Lázaro é ampliada formando um relato detalhado dos caminhos de Deus com os Seus. O propósito supremo da tribulação na vida do cristão é para que, no final, o “Filho de Deus seja glorificado” (v. 4). É interessante que a manifestação da glória do Senhor é vista em relação com o primeiro sinal no Evangelho de João (2:11), e novamente neste sinal do cap. 11. Estas referências à Sua glória trazem à mente as palavras do evangelista em 1:14: “… e vimos a Sua glória como a glória do Unigênito do Pai”. Há aqueles que limitam esta referência à manifestação de glória no Monte da Transfiguração, mas as ocasiões mencionadas parecem indicar que uma manifestação mais ampla da Sua glória, do que a do Monte, está em vista aqui. De fato, é muito claro que no conceito divino, tão explicitamente apresentado no evangelho de João, até mesmo a Sua morte é vista como uma manifestação da Sua glória (Jo 12:23).
Logo que o Senhor anunciou que a enfermidade de Lázaro era para a glória de Deus, temos uma declaração do Seu amor pela família atribulada.
Note as palavras precisas do v. 5: “Ora, Jesus amava a Marta, e a sua irmã, e a Lázaro”. Apesar do Seu amor, Ele permaneceu dois dias no mesmo lugar em que estava (v. 6). Ele não somente é capaz de controlar as circunstâncias, mas até mesmo pode ajustá-las de acordo com a Sua infinita sabedoria e perfeito conhecimento, e também para o cumprimento do Seu propósito. Sua demora pode ter sugerido falta de amor, mas isso não poderia estar mais longe da verdade. Em amor Ele planejou uma experiência mais rica do que a que seria possível caso Ele tivesse partido instantaneamente. (Parece ao presente escritor que o Senhor teve uma oportunidade maior de manifestar-Se como o Autor da ressurreição num futuro ainda distante, ao permitir que Lázaro permanecesse quatro dias na tumba antes de ressuscitá-lo. A corrupção de dias, anos ou séculos não fará diferença alguma para Ele.)
Na hora de profunda provação, o Senhor está não somente disposto a realizar um milagre, mas também e talvez principalmente, a ensinar aos enlutados verdades divinas importantes. Assim, Ele se manifestou a Marta com as palavras notáveis: “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em Mim, ainda que esteja morto, viverá; e todo aquele que vive, e crê em Mim, nunca morrerá” (v. 25-26). Tais palavras trariam conforto mesmo se nenhum milagre tivesse sido realizado. Na primeira parte, Ele mostra o que significa a um cristão ter um Salvador que é “a Ressurreição”.
Morte física é uma coisa temporária — o corpo será ressuscitado.
Na segunda parte, Ele mostra o que significa ter um Salvador que é “a Vida”. A vida eterna concedida ao cristão não é afetada pela morte. Havia certa indicação disto junto à sepultura de Lázaro quando o Salvador dirigiu-Se àquele homem fisicamente morto e disse: “Lázaro, sai para fora”.
Quando Maria veio encontrar o Senhor, ela foi incapaz de conter sua profunda emoção e as lágrimas que transbordavam dos seus olhos (vs. 32-33). Nenhum ensino foi dado a ela. O momento não era apropriado.
O Senhor, sempre tão pronto a instruir, conteve-Se ao ver o seu estado emocional. Mas, mesmo em meio à sua aflição, ela sem dúvida testemunhou Seus gemidos e O viu chorar. Tal manifestação silenciosa certamente revelou aspectos do Seu Salvador que ela nunca antes conhecera.
Outro assunto de grande importância para os cristãos atribulados é ventilado nas palavras do Senhor a Marta no v. 40: “Não te hei dito que, se creres, verás a glória de Deus?” Deus deseja revelar-Se em dias de provação. Tribulação e perda podem dar vazão a dúvidas e questionamentos.
Marta bem poderia ter se perguntado quem jamais vira a glória de Deus junto a um sepulcro. Na ressurreição do seu irmão ela estava prestes a ter exatamente essa experiência tão maravilhosa. Não importa quão grande a provação, o cristão precisa apegar-se ao seu Deus em simples fé. Talvez ele não veja milagres verdadeiros, mas ele poderá ter uma visão da glória de Deus, de maneira imprevisível, ao passar pela provação em comunhão com Ele.
A natureza de muitos dos milagres do Senhor nos fazem lembrar a profecia de Isaías 35, onde nos vs. 5-6 está registrado que “os olhos dos cegos serão abertos, e os ouvidos dos surdos se abrirão. Então os coxos saltarão como cervos, e a língua dos mudos cantará”. Estas profecias serão cumpridas no Milênio. Assim, vemos claramente que nos milagres do Senhor há vislumbres daquela gloriosa era Milenar. Mas os anos dos milagres do Senhor podem projetar a mente ainda mais distante.
Dois versículos importantes parecem estar ligados: na primeira parte de João 1:14 lê-se literalmente: “… e o Verbo se fez carne, e tabernaculou 84 A glória do Filho entre nós” (Newberry). Isto nos lembra de Apocalipse 21:3: “E ouviuma grande voz do céu, que dizia: Eis aqui o  tabernáculo de Deus com os homens, pois com eles habitará, e eles serão o Seu povo, e o mesmo Deus estará com eles, e será o seu Deus”. Por alguns anos, o Filho de Deus “tabernaculou” entre os homens. Seu ministério, com todos os milagres Messiânicos, sugere claramente o intento e propósito divinos ainda por se cumprir no estado eterno, que é destacado em Apocalipse 21. Em milagres tais como a ressurreição dos mortos e a cura dos enfermos, o cristão estudioso adquire uma prévia do universo vindouro de resplendor, quando Deus “limpará de seus olhos toda a lágrimas; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas” (Ap 21:4).
O treinamento dos Seus discípulos Em Marcos 3:14 o escritor diz: “E nomeou [“designou”, Newberry] doze para que estivessem com Ele e os mandasse a pregar”. Fica evidente que eles seriam não somente Seus companheiros, mas que na Sua presença e pelo Seu exemplo e ensino, seriam preparados para sua missão futura. É bom notar que, em Marcos, eles são nomeados individualmente, enquanto que em Lucas 6:14-16 são nomeados em duplas.
Duas lições importantes são sugeridas: cada servo é individualmente responsável ao Senhor (isso é visto na listagem individual de Marcos), mas todos devem aprender a trabalhar harmoniosamente com outros (isso é sugerido em Lucas pelo agrupamento deles de dois em dois).
O trabalho do Senhor muitas vezes inclui trabalhar com parceiros que jamais seriam nossa escolha pessoal.
O Senhor instruiu Seus discípulos através de ensino direto. Eles devem ter sido os principais ouvintes do ensino de Mateus 5-7. Compare 5:1 com 7:28. Neste ensino lhes é mostrado o caminho de verdadeira bem-aventurança (5:1-12); a influência que poderiam ter no mundo (5:13-16); os padrões que deveriam manter (5:17-48). Em 6:1-18 eles são ensinados sobre a necessidade de sinceridade, e em seguida as prioridades que deveriam ter (6:19-34). Isto é seguido por instruções concernentes ao seu relacionamento com os outros (7:1-12), e finalmente, a necessidade de diferenciar entre mera conversa e o sincero cumprimento da vontade de Deus (7:13-29).
Intercalada neste ensino está a constante afirmação da provisão do Pai, aquele que está sempre pronto para fortalecer e suprir as necessidades.
Ele é o Recompensador daqueles que trilham o caminho de bem-aventurança peregrina (5:3-12). Eles servem o Pai que vê em secreto e recompensa publicamente (6:4, 6, 18). Ele conhece as necessidades dos Seus filhos mesmo antes deles pedirem (6:8). Na questão do perdão, Ele trata com os Seus de acordo com a sua prontidão de perdoar os outros (6:14-15). Talvez seja importante distinguir, em relação a estes versículos, entre “perdão judicial” e “perdão paternal”. O primeiro é o perdão recebido através da fé em Cristo, que traz absolvição de qualquer acusação (Rm 8:1). O segundo tem a ver com os cristãos como filhos na família de Deus. Um espírito não perdoador, o guardar de ressentimentos, provarão ser sementes plantadas que serão colhidas mais tarde. Um Pai celestial bem pode tratar mais severamente com tais, mesmo embora a sua posição perante Deus como “justificados” permaneça intocada.
Nestes capítulos temos um grande destaque ao recurso da oração.
Tornou-se uma parte essencial da vida dos discípulos. Assim, eles foram ensinados a orar secretamente (6:6), na certeza de uma recompensa definitiva. Nas suas necessidades eles podiam “pedir”, “buscar” e “bater” (7:7), tendo certeza da resposta bondosa de Deus.
Numa ocasião posterior, relatada em Mateus 18, os discípulos ouviram o ministério muito importante do seu Senhor sobre como tratar seus irmãos. O v. 1 começa com uma pergunta feita pelos discípulos sobre quem era o maior no Reino dos Céus. A resposta transformou-se num extenso estudo. Nos vs. 1-14 “estes pequeninos” são destacados (vs. 6, 10, 14). A referência pode descrever aqueles que foram salvos recentemente, ou aqueles cujo temperamento tinha lhes negado uma boa aceitação. Estes não devem ser desprezados nem feitos tropeçar, mas antes amorosamente ajudados. Nos vs. 15-20 a ênfase está no “teu irmão”. A bem-aventurança da harmonia entre irmãos, nos vs. 19-20, é contrastada com a seriedade de pecado entre irmãos, e isto deve ser tratado conforme os vs. 15-18. A porção final do capítulo fala de “conservos ou companheiros” (vs. 28-33). Trata-se de uma expansão da resposta à pergunta de Pedro quanto ao perdão. O conceito de “conservos” sugere a grande obra de Deus em que os discípulos e, mais tarde, muitos outros estariam envolvidos. Os servos nesta grande obra, havendo sido perdoados de uma dívida de dez mil talentos, deveriam achar nisso incentivo para perdoar os seus companheiros e assim promover a união e lealdade entre si, tão necessárias para um serviço eficaz.
Aplicar todo o cap. 18 de Mateus aos discípulos pode gerar dificuldades ao leitor, por causa das ameaças solenes do fogo do inferno (vs. 8-9). Como no “sermão da montanha”, é possível que havia muitos ouvintes. Também pode ser que a intenção do Senhor era colocar nas mãos dos Seus discípulos instruções importantes que lhes seriam úteis no seu trabalho para o Senhor. Certamente poderíamos escrever sobre a última parte do capítulo o seguinte comentário: “Uma pessoa que não perdoa, muitas vezes é uma pessoa não perdoada!”
Várias passagens mostram que o Senhor ensinou Seus discípulos por meio das experiências pelas quais eles passaram com Ele. Em Lucas 5:14, depois de uma noite de esforços infrutíferos, o Senhor manda Simão Pedro sair ao mar alto e lançar as redes. Simão obedeceu, e o resultado foi uma grande multidão de peixes. Aqui estava uma grande lição sobre o poder ilimitado do Senhor que, sem dúvida, tinha por finalidade ser aplicado no trabalho de “pescar homens”. Mas havia outra grande lição para Simão Pedro. Ele sabia que o Senhor, que viu os peixes no mar, via o seu coração, e imediatamente um profundo senso de indignidade veio sobre ele, expresso nas suas palavras: “Senhor, ausenta-Te de mim, que sou um homem pecador” (v. 8). Aprender na presença de Deus sobre a própria insignificância e pecado é uma lição importante para todos os que querem ser usados por Ele.
Mais lições estavam para ser aprendidas sobre o mar. Em Lucas 8:22 o Senhor manifesta Sua decisão de passar para a outra banda do lago com Seus discípulos. Seu pedido, com certeza, garantiria tudo que fosse necessário para chegar à outra margem, mas em meio à tempestade que surgiu, os discípulos não conseguiram pensar assim. Naquele dia eles tiveram que aprender que nem a Sua presença, nem a obediência aos Seus mandamentos garantem isenção de tempestades. Eles também aprenderam que Ele era o Senhor da Criação, capaz de acalmar uma tempestade. Havia mais uma lição ainda a ser aprendida a respeito dos seus próprios corações. Quando postos à prova pela tempestade, eles se mostraram muito fracos na fé (v. 25). Creio que nenhum leitor vai querer criticá-los!
Ao ler os quatro Evangelhos, aqueles que desejam aprender na escola do Mestre podem assistir e se beneficiar quando Ele chama Seus discípulos para acompanhá-lO enquanto alimenta os cinco mil, ou enquanto Ele passa um tempo atarefado com curas (Mt 8:1-17). Muitos incidentes irão instruir muito, assim como instruíram os discípulos.
Acompanhando os três discípulos privilegiados, o leitor dos Evangelhos pode contemplar algo da glória do Seu Reino futuro, ao meditar sobre a cena no Monte da Transfiguração. Pode observar junto com Pedro, Tiago e João a diferença entre a superficialidade fingida de compaixão e o poder inegável do Salvador, quando os lamentadores ruidosos são expulsos e a filha de Jairo é trazida de volta à vida. Guardando a devida distância exigida pela reverência, o leitor, novamente na companhia dos três privilegiados, pode contemplar o que custou ao Salvador ir até a cruz enquanto, entre as árvores do Getsêmani, Ele, contemplando o cálice que logo se tornaria Seu, é visto na Sua agonia e exclama as sublimes palavras: “Não seja, porém, o que Eu quero, mas o que Tu queres” (Mc 14:31-42).
Parece claro, então, que as lições que os discípulos aprenderam no passado enquanto seu Divino Mestre os preparava para a sua grande comissão, ainda estão disponíveis para todos os que irão se tornar alunos voluntários na escola de Deus.

O prazer do Pai no ministério do Seu Filho

Muito antes da encarnação do Filho de Deus, Jeová tinha expressado, não somente Seu prazer no Seu caminho de serviço, mas também Sua absoluta confiança na perfeição do Seu Servo, na realização de tudo que fora confiado a Ele. Aquela confiança é eloquentemente expressa em Isaías 42:1-4. Nestes versículos a beleza do ministério do Servo resplandece. Ele era o Servo dependente, sempre sustentado por Jeová. Ele é chamado de “meu Eleito”. Ele foi escolhido para uma obra que somente Ele, em todo o Universo, poderia assumir. Ele não apenas cumpriu a Sua tarefa, mas também fê-lo de tal maneira a trazer infinito prazer ao Seu Pai. Estes versículos de Isaías 42 são citados em Mateus 12:18-21. Eles harmonizam com as palavras do Pai em Mateus 3:18, pela ocasião do batismo do Senhor. A expressão do prazer do Pai deixa claro que o Filho-Servo correspondia em cada detalhe a tudo que dEle se esperava. Nunca houve possibilidade de uma falha, por menor que fosse, ou no mais ínfimo detalhe.
A manifestação renovada do prazer do Pai no Monte da Transfiguração (Mt 17:5) bem pode estar prevendo o futuro quando Ele reinará sobre toda a Terra, e quando todos “O ouvirão”. Quão absoluta foi a segurança do Pai de que “o bom prazer do Senhor prosperará na Sua mão” (Is 53:10), naquele dia futuro de júbilo.
Outra manifestação do prazer do Pai ocorre em João 12:28, ao aproximar-se “a hora”. A oração do Senhor: “Pai, glorifica o Teu nome”, parece se referir à morte do Senhor e revela o intenso desejo do Filho de glorificar o nome do Pai por ir à cruz e realizar ali a obra para a qual somente Ele era idôneo. Quando a voz respondeu: “Já o tenho glorificado…”, o Pai se referia a cada passo, sim, a cada pulsação na vida e ministério do Salvador. Ao dizer: “… e outra vez o glorificarei”, Ele deu
Sua confirmação inquestionável, não só da prontidão do Filho de ir à cruz, mas também de suprir pela Sua morte os meios de prover a salvação do homem, de tal forma a glorificar a Deus eternamente.

Seu ministério final

Já destacamos o “Sermão da Montanha” e sua importância para os discípulos. Quando este sermão é comparado com o ministério do Senhor para os Seus no cenáculo (Jo 13-17), podemos discernir uma progressão muito clara na doutrina. O Senhor, certamente, não precisava progredir doutrinariamente. Ele sabia tudo, mas há uma revelação gradual de doutrina através de todo o Velho e Novo Testamentos. No século XIX foi publicado um livro intitulado The progress of doctrine in the New Testament (“A progressão da doutrina no Novo Testamento”) por T. D. Bernard. Esta obra, hoje difícil de se obter, apresenta este assunto interessantíssimo de uma maneira muito útil e proveitosa.
O Sermão do Monte se relaciona mais com o Velho Testamento e a linguagem dos profetas. Já o ministério do cenáculo se relaciona com as epístolas do Novo Testamento e a linguagem dos apóstolos. Observe a ausência de referências ao Espírito Santo no Sermão, e as muitas referências a Ele como o Consolador, no ministério do cenáculo. Esta revelação do ministério do Espírito é ampliada no restante do Novo Testamento. O mesmo pode ser dito da referência em João 14:3 à Sua vinda para receber para Si os que são Seus. Através do ministério de Paulo, esta preciosíssima verdade é apresentada detalhadamente em I Tessalonicenses 4:13-18 e I Coríntios 15:51-54; etc.
Quando o Senhor fala de oração, em Mateus 5-7, Ele indica como método de aproximação: “Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o Teu nome” (Mt 6:9). Em João 14:13-14; 15:16; 16:23, Seus discípulos são instruídos a pedir em Seu nome. A oração do Senhor Jesus em João 17 revela muito da preciosidade da Sua obra de intercessão presente pelos Seus, na presença de Deus. Tal revelação serve para enfatizar a garantia da provisão Divina encontrada no Seu ministério anterior (Mt 6:4, 6, 8, 18, etc.).
Há um contraste muito evidente entre o ministério do Senhor dado em Mateus caps. 24 e 25 e aquele do cenáculo. Ambos têm em vista a Sua partida que se aproxima. É evidente que em Mateus 24 e 25 o Senhor fala aos Seus discípulos como representantes do remanescente judaico, enquanto que no cenáculo Ele lhes fala como ao núcleo da Igreja futura, que Ele há de edificar (Mt 16:18) Os discursos de Sir Winston Churchill durante a segunda guerra mundial não tentavam encobrir a seriedade da situação e os “muitos e longos meses de luta e sofrimento” a serem enfrentados. Por outro lado, ele não hesitou em colocar perante o povo a esperança certa de vitória final. O bendito Líder dos homens, perante o qual todos os outros se
tornam insignificantes, há muito tempo, usou com perfeição uma tática semelhante. Assim Ele avisa: “Então vos hão de entregar para serdes atormentados, e matar-vos-ão; e sereis odiados de todas as nações por causa do Meu nome … Mas aquele que perseverar até ao fim será salvo” (Mt 24:9, 13). A luta é certa, mas a salvação final é mais certa ainda.
Quando o v. 13 é visto no seu contexto de severa perseguição, ele serve como um maravilhoso incentivo à paciência e coragem quando sob pressão, e de forma alguma interfere com a segurança eterna do cristão ou a liberdade da sua salvação.
Mateus 24 claramente avança para os dias negros da Grande Tribulação.
O v. 24 diz: “Porque surgirão falsos cristos e falsos profetas, e farão tão grandes sinais e prodígios que, se possível fora, enganariam até os escolhidos”. Se o Senhor usa o futuro, “surgirão”, para confirmar as provações por vir, Ele também o usa outra vez, enfaticamente, no v. 30:
“Então aparecerá no céu o sinal do Filho do homem; e todas as tribos da terra se lamentarão, e verão o Filho do homem, vindo sobre as nuvens do céu, com poder e grande glória”. Dias negros virão, certamente, mas a vitória final é garantida para aquele remanescente fiel, através da certeza da vinda do Filho do Homem à Terra. “E Ele enviará os Seus anjos com rijo clamor de trombeta, os quais ajuntarão os Seus escolhidos desde os quatro ventos, de uma à outra extremidade dos céus” (Mt 24:31).
No ministério do cenáculo o Senhor apresenta, pela primeira vez, a esperança do Seu retorno para os Seus, para recebê-los para Si mesmo e conduzi-los ao lugar preparado (Jo 14:2-3). Este acontecimento glorioso pode acontecer a qualquer momento, e certamente acontecerá antes da Grande Tribulação.
Há uma grande ênfase no ministério de João caps. 13 a 16 sobre a plena provisão para cada necessidade na obra do Senhor durante a Sua ausência. Muito é dito acerca da união íntima do Filho com o Pai, e da influência benéfica da Sua presença junto ao Pai (Jo 14:12). O resultante poder para bênção se estende à realização das obras que Ele fez, e até mesmo, além disso, para “obras maiores”. Ele responderá orações dirigidas ao Pai em nome do Filho, e ao assim fazer, o Pai será glorificado no Filho (Jo 14:13). Aqui temos verdade da ordem mais elevada, que nos leva a meditar, com reverente limitação, no profundo significado da união do Pai e do Filho no Céu.
Em resposta ao pedido do Filho, o Pai há de enviar um “outro Consolador”, que nunca deixará os Seus. Ele estará não somente com eles, mas neles (Jo 14:17). Àquele que manifesta terna obediência, o Pai e o Filho manifestarão Seu amor em toda a sua intensidade divina (Jo 14:21). De fato, tanto o Pai como o Filho farão nele Sua morada (Jo 14:23).
O cap. 15 deixa claro que a ausência do Senhor não será um obstáculo ao gozo de uma comunhão íntima com Ele, e tal comunhão será o segredo da produtividade. A promessa é clara: “Estai em Mim e Eu em vós; como a vara de si mesma não pode dar fruto, se não estiver na videira, assim também vós, se não estiverdes em Mim” (v. 4). A oração eficaz está intimamente ligada à produtividade, e isso também é prometido àqueles que nEle permanecem (v. 7).
O Senhor conclui Seu ministério com palavras de bom ânimo:
“Tenho vos dito isto, para que em Mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, Eu venci o mundo” (16:33). O discípulo vive num mundo inimigo, mas ele pertence a outra esfera. Suas ligações com um Salvador vivo abrem o caminho para paz e bom ânimo num mundo de rejeição e escárnio.

Sua morte iminente

Cedo no Seu ministério, o Senhor Jesus fez uma menção muito significativa da Sua morte, na conversa que teve com Nicodemos. Encontramo-la nas palavras bem conhecidas de João 3:14-15: “E como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado, para que todo aquele que nEle crê não pereça, mas tenha a vida eterna”. Muita verdade é revelada neste versículo, sobre a absoluta necessidade e a natureza salvadora da morte do Filho do Homem na cruz. No registro de João do ministério terrestre do Senhor, Suas referências à Sua morte são sobremodo profundas. Pense nas Suas palavras em João 10:17-18: “Por isto o Pai Me ama, porque dou a Minha vida para tornar a tomá-la. Ninguém ma tira de Mim, mas Eu de Mim mesmo a dou; tenho poder para a dar, e poder para tornar a tomá-la. Este mandamento recebi de Meu Pai”. Estas são afirmações impressionantes que indicam algo da natureza impenetrável do sacrifício infinito do Senhor Jesus na cruz. João 12 revela muito do profundo significado da morte do Senhor. A unção do Seu corpo, por Maria, enquanto Ele ainda estava vivo, mas “para o dia da Sua sepultura”, deixa claro que uma mulher tinha alguma compreensão do significado especial da morte iminente do seu Senhor. Quando os gregos desejaram “ver a Jesus” (v. 21), o Senhor fez a impressionante declaração: “é chegada a hora em que o Filho do Homem há de ser glorificado” (v. 23). Algo do
significado desta afirmação é explicado no próximo versículo: “se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto”. Na Sua morte, o Filho de Deus tornou a salvação disponível aos homens. A Sua morte tornou-se o meio da bênção deles. A hora do Seu sofrimento é assim a hora da Sua maior glória. A glória pode estar escondida dos olhos dos homens, entretanto está ali.
O Bendito, que brevemente morrerá, terá por Sua morte poder de atrair todos os homens de todas as raças. Ele os atrairá à Sua Pessoa (v. 32). Quão claramente a triunfante ressurreição e exaltação do Senhor estão envolvidas neste versículo. De fato, visto que a atração é  encontrar a salvação nEle, o versículo bem pode encontrar seu pleno cumprimento somente na cena de Apocalipse 22:3-4: “… e os Seus servos O servirão. E verão o Seu rosto, e nas suas testas estará o Seu nome”.

Conclusão

Estudar sobre a beleza do ministério do Senhor Jesus certamente é pisar em terra santa. Transporta o estudioso das coisas mundanas da vida para os domínios do santo e do inescrutável. Bem podemos nos perguntar se o “maná escondido”, em Apocalipse 2:17, não será alguma revelação, ao longo da eternidade, daqueles anos nos quais o Filho de Deus agraciou esta cena terrestre com as Suas pisadas.

Senhor, ao traçarmos o caminho
Que Tu aqui trilhaste,
Vemos sublime graça e amor por nós,
E fidelidade para com Deus.
Fiel em meio à infidelidade,
Nas trevas, somente luz,
De Teu Pai o nome confessaste
E na Sua vontade Te deleitaste.
Irredutível ante o engodo de Satanás,
O sofrimento, humilhação e perda,
Teu caminho sem um sorriso colorido
Conduzia sempre para a Cruz.
James G. Deck

por Thomas H. Matthews, Brasil

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Ao receber o Senhor Jesus Cristo como seu Salvador, uma das primeiras coisas que você irá aprender é que Deus é amor. Como resultado disto, você logo perceberá que o amor precisa de uma forma prática para se expressar. Você aprenderá que há uma relação entre amar e dar. Deus é um Deus que nos dá muitas coisas. Amar e dar estão intimamente ligados nas Escrituras. “O Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim” (Gl 2:20), e “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito” (Jo 3:16). Continuar Lendo...
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