O Judeu, o Gentio e a Igreja de Deus

Durante a época de rejeição de Moisés pelos seus irmãos, ele foi posto de parte e favorecido com uma noiva — a companheira da sua rejeição. No princípio do livro Êxodo somos levados a ver o caráter da relação de Moisés com esta esposa. Foi para ela "esposo sanguinário". Isto é precisamente o que Cristo é para a Igreja. A sua união com Ele é baseada na morte e ressurreição; e ela é chamada à comunhão dos Seus sofrimentos. É, como sabemos, durante a época da incre-dulidade de Israel, e da rejeição de Cristo, que a Igreja é formada; e quando estiver completa, segundo os desígnios de Deus e houver entrado nela a plenitude dos gentios (Rm 11:25), Israel entrará outra vez em cena.

Assim foi com Zípora e o antigo Israel (êxodo 18). Moisés enviara-a para junto de seu sogro durante o perigo da sua missão junto de Israel; e logo que este saiu como povo inteiramente livre, lemos que "Jetro, sogro de Moisés, tomou a Zípora, a mulher de Moisés, depois que ele lha enviara, com seus dois filhos, dos quais um se chamava Gérson; porque disse: Eu fui peregrino em terra estranha; e o outro se chamava Eliézer, porque disse: O Deus de meu pai foi minha ajuda e me livrou da espada de Faraó. Vindo, pois, Jetro, o sogro de Moisés, com seus filhos e com sua mulher a Moisés no deserto ao monte de Deus, onde se tinha acampado, disse a Moisés: Eu, teu sogro Jetro, venho a ti, com tua mulher e seus dois filhos com ela. Então, saiu Moisés ao encontro de seu sogro, e inclinou-se, e beijou-o, e perguntaram um ao outro como estavam, e entraram na tenda. E Moisés contou a seu sogro todas as coisas que o SENHOR tinha feito a Faraó e aos egípcios por amor de Israel, e todo o trabalho que passaram no caminho, e como o SENHOR os livrara. Ealegrou-se Jetro de todo o bem que o SENHOR tinha feito a Israel, livrando-o da mão dos egípcios. E Jetro disse: Bendito seja o SENHOR, que vos livrou das mãos dos egípcios e da mão de Faraó; que livrou a este povo de debaixo da mão dos egípcios. Agora sei que o SENHOR é maior que todos os deuses: porque na coisa em que se ensoberbeceram, os sobrepujou. Então, tomou Jetro, o sogro de Moisés, holocaustos e sacrifícios para Deus; e veio Arão, e todos os anciãos de Israel, para comerem pão com o sogro de Moisés diante de Deus" (versículos 2 a 12). Esta cena é profundamente interessante. Toda a congregação se reuniu, em triunfo, perante o Senhor: o gentio apresentou sacrifícios, e, para completar o quadro, a esposa do libertador juntamente com os filhos que Deus lhe havia dado, são introduzidos. É, em resumo, uma ilustração particularmente admirável do reino vindouro. "O Senhor dará graça a glória" (Sl 84:11). Vimos nas páginas anteriores deste livro muito da operação da "graça"; e aqui temos um quadro formoso de "glória" da autoria do Espírito Santo—um quadro que deve ser considerado particularmente importante por nos mostrar as várias esferas em que será manifestada essa glória. "Os judeus, os gentios e a Igreja de Deus" são termos bíblicos que nunca poderão ser esquecidos sem transtornar o curso perfeito da verdade que Deus revelou na Sua Palavra. Existiram sempre desde que o mistério da Igreja foi inteiramente desenrolado pelo ministério do apóstolo Paulo e existirão através do milénio. Por isso, devem ter lugar na mente de todo o estudante espiritual da Escritura Sagrada. O apóstolo ensina-nos, claramente, na sua Epístola aos Efésios, que o mistério da Igreja não foi dado a conhecer noutros séculos aos filhos dos homens como lhe fora revelado a ele. Mas, embora não houvesse sido diretamente revelado, acha-se representado em figura de uma maneira ou de outra; como, por exemplo, no casamento de José com uma mulher egípcia e no casamento de Moisés com uma mulher da Etiópia (uma mulher cusita; Nm 12:1) O tipo ou sombra de uma verdade é uma coisa muito diferente de uma revelação direta e positiva da mesma verdade. O grande mistério da Igreja não foi revelado até que Cristo, emglória celestial, o revelou a Saulo deTarso. Por isso, todos aqueles que procuram o desenrolar deste mistério na lei, nos profetas ou nos Salmos, achar-se-ão ocupados em labor ininteligente. Quando, contudo, o encontram revelado claramente naEpístola aos Efésios, podem, com interesse e proveito, traçar os seus símbolos nas Escrituras do Velho Testamento. Deste modo, temos nos primeiros versículos deste capítulo uma cena milenial. Todas as esferas de glória se abrem em visão perante nós. "Os judeus" estão aqui como as grandes testemunhas na terra da fidelidade, da misericórdia e do poder de Jeová. E isto precisamente que os judeus foram em séculos passados, é o que são atualmente e o que serão para sempre. "O gentio" lê no livro dos desígnios de Deus quanto aos judeus as suas mais profundas lições. Segue a história maravilhosa desse povo peculiar e eleito — "um povo terrível desde o seu princípio" (Is 18:2). Vê tronos e impérios derrubados e nações destruídas até os seus fundamentos, todo o homem e todas as coisas são compelidas a abrir caminho para que seja estabelecida a supremacia desse povo sobre o qual Deus pôs o Seu afeto. "Agora sei que o SENHOR é maior que todos os deuses; porque na coisa em que se ensoberbeceram, os sobrepujou" (versículo 11); é o testemunho de um gentio quando a página da história judaica está aberta perante si. Por fim, "a Igreja de Deus" coletivamente, como é ilustrada por Zípora, e os seus membros individualmente, conforme os vemos em figura nos filhos de Zípora, são apresentados como ocupando a mais íntima ligação com o libertador. Tudo isto é perfeito na sua ordem. Se nos pedirem provas, responderemos: "Falo como a entendidos, julgai vós mesmos o que digo" (1 Co 10:15). Não pode fundar-se uma doutrina sobre um símbolo; porém, quando uma doutrina é revelada, pode discernir-se o símbolo dela com exatidão e estudá-la com proveito. Em todos os casos o discernimento espiritual é essencialmente necessário, quer seja para compreender a doutrina quer para discernir o símbolo: "...o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente" (1 Co 2:14).

 

Chefes para a Administração

 

Desde o versículo 13 até ao fim do capítulo fala-se da nomeação de chefes para ajudarem Moisés na administração dos negócios da congregação. Isto foi feito por sugestão de Jetro, que temia que Moisés desfalecesse totalmente em consequência do seu trabalho. Em relação com este fato, pode ser útil considerar a nomeação dos setenta anciãos em Números, Capítulo 11. Vemos ali o espírito de Moisés esmagado sob o peso da responsabilidade que pesava sobre si, e dá lugar à angústia do seu coração nas seguintes palavras: "Por que fizeste mal a teu servo, e por que não achei graça aos teus olhos, que pusesses sobre mim a carga de todo este povo*?- Concebi eu, porventura, todo este povo1?- Gerei-o eu, para que me dissesses que o levasse ao colo, como o aio leva o que cria, à terra que juraste a seus pais... Eu sozinho não posso levar a todo este povo, por que muito pesado é para mim. E, se assim fazes comigo, mata-me, eu te peço, se tenho achado graça aos teus olhos; e não me deixes ver o meu mal" (Nú 1:11-15). Em todo este caso vemos como Moisés se retira de um lugar de honra. Se aprouve a Deus fazer dele o único instrumento da administração da Assembleia, isso foi para ele uma maior honra e um alto privilégio. É verdade que era uma grande responsabilidade; porém a fé teria reconhecido que Deus era amplamente suficiente para tudo. Todavia, Moisés perde o ânimo (servo abençoado como era) e diz, "eu sozinho não posso levar todo este povo, porque muito pesado é para mim. Mas ele não fora incumbido de levar todo o povo sozinho, porque Deus estava consigo. O povo não era demasiado pesado para Deus; era Ele que os suportava. Moisés era apenas o instrumento. Da mesma forma poderia ter dito que a sua vara levava o povo, porque o que era ele senão um simples instrumento nas mãos de Deus, da mesma forma que a vara o era nas suas? E neste ponto que os servos de Cristo falham constantemente; e a sua falta é tanto mais perigosa quanto é certo que se reveste da aparência de humildade. Fugir de uma grande responsabilidade dá a impressão de falta de confiança pessoal e de uma profunda humildade de espírito; porém, tudo que nos interessa saber é se Deus tem imposto essa responsabilidade. Sendo assim, Ele estará incontestavelmente conosco no seu desempenho; e, com a Sua companhia, podemos suportar todas as coisas. Com o Senhor o peso de uma montanha não é nada; sem Ele o peso de uma simples pena é esmagador. É uma coisa muito diferente se um homem, na vaidade do seu espírito, se apressa em tomar um fardo sobre os seus ombros, um fardo que Deus nunca teve intenção de ele levar, e, portanto, nunca o dotara para o conduzir; podemos, portanto, esperar vê-lo esmagado sob o peso. Porém, se é Deus que põe sobre ele esse fardo, Ele torna-o não só apto a conduzi-lo como lhe dá as forças necessárias.

 

O Ensinamento para o Servo de Cristo

 

O abandono de um posto divinamente indicado nunca é o fruto de humildade. Pelo contrário, a mais profunda humildade manifes-tar-se-á na permanência nesse posto em simples dependência de Deus. Quando recuamos ante algum serviço sob o fundamento de inaptidão é uma prova segura de estarmos ocupados com o ego — com nós próprios. Deus não nos chama para o serviço com base na nossa capacidade, mas, sim, na Sua; por isso, a menos que esteja ocupado com pensamentos a meu respeito ou com desconfiança n'Ele, não preciso abandonar qualquer posição de serviço ou testemunho por causa das muitas dificuldades relacionadas com ela. Todo o poder pertence a Deus, e é o mesmo quer esse poder atue por meio de um só instrumento ou mediante setenta; o poder é ainda o mesmo: contudo, se um instrumento recusa o cargo, tanto pior é para ele. Deus não obrigará ninguém a ocupar um lugar de honra, se não confiar em Si para o manter nele. O caminho está sempre aberto para poder descer do seu cargo e lançar-se no lugar onde a vil incredulidade quercolocar-nos. Aconteceu assim com Moisés: queixou-se do fardo que devia levar, e o fardo foi imediatamente removido; porém com ele foi tirada também a grande honra de poder levá-lo. "E disse o SENHOR a Moisés: Ajunta-me setenta homens dos anciãos de Israel, de quem sabes que são anciãos do povo e seus oficiais; e os trarás perante a tenda da congregação, e ali se porão contigo. Então, eu descerei, e ali falarei contigo, e tirarei do Espírito que está sobre ti, e o porei sobre eles; e contigo levarão o cargo do povo, para que tudo sozinho o não leves" (Nú 1:16-17). Nenhum novo poder foi introduzido. Era o mesmo Espírito, que fosse num ou em setenta. Não havia mais valor ou virtude na natureza de setenta homens do que na de um só homem. "O Espírito é o que vivifica; a carne para nada aproveita" (Jo 6:63). Nada se ganhou, quanto ao poder, mas Moisés perdeu muito da sua dignidade. Na segunda parte do capítulo onze de Números vemos como Moisés profere palavras de incredulidade, as quais lhe valeramuma severa reprimenda da parte do Senhor. "Seria pois encurtada a mão do SENHORA Agora verás se a minha palavra te acontecerá ou não" (versículo 23). Se o leitor comparar os versículos 11 a 15 com os versículos 21 e 22, verá que existe uma relação solene e clara. O homem que recua perante a responsabilidade, com fundamento na sua própria fraqueza, corre grande perigo de pôr em dúvida a suficiênciae plenitude dos recursos de Deus. Esta cena ensina uma lição muito preciosa para todo o servo de Cristo que possa ser tentado a sentir-se só ou sobrecarregado com o seu trabalho. Convém que um tal servo se lembre que, onde o Espírito Santo está operando um só instrumento é tão bom e eficaz como setenta instrumentos; e onde Ele não opera, setenta não têm mais valor do que um só. Tudo depende da energia do Espírito Santo. Com Ele um só homem pode fazer tudo, sofrer tudo e suportar tudo. Sem Ele setenta homens nada podem fazer. Que o servo solitário se recorde, para conforto e ânimo do seu coração fatigado, que, contanto que tenha consigo a presença e poder do Espírito Santo, não tem motivo para queixar-se da sua carga nem de suspirar por diminuição do seu trabalho. Se Deus honra um homem dando-lhe muito trabalho a fazer, regozije-se o tal no seu trabalho e não murmure; porque se murmurar pode perder rapidamente a sua honra. Deus não tropeça com dificuldades quando se trata de achar instrumentos. Até das pedras podia levantar filhos a Abrão, e pode suscitar de essas memas pedras os instrumentos necessários para o cumprimento da sua obra gloriosa. Ah! quem tivera um coração mais disposto a servi-Lo! Um coração paciente, humilde, consagrado e despido de si mesmo! Um coração prontoaservircomoutrosedispostoaservirsó; um coração cheio de tal maneira de amor por Cristo, que encontra o seu gozo —o seu maior gozo—em servi-Lo, seja em que esfera for e qualquer que seja o caráter do serviço. Esta é certamente a necessidade especial dos dias em que nos caiu a nossa sorte. Que o Espírito Santo desperte em nossos corações um sentimento mais profundo da preciosidade excelente do nome de Jesus e nos habilite a dar uma resposta mais clara, completa e inequívoca ao amor imutável de Seu coração!

C. H. Mackintosh

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Ao receber o Senhor Jesus Cristo como seu Salvador, uma das primeiras coisas que você irá aprender é que Deus é amor. Como resultado disto, você logo perceberá que o amor precisa de uma forma prática para se expressar. Você aprenderá que há uma relação entre amar e dar. Deus é um Deus que nos dá muitas coisas. Amar e dar estão intimamente ligados nas Escrituras. “O Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim” (Gl 2:20), e “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito” (Jo 3:16). Continuar Lendo...
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